terça-feira, 28 de abril de 2020

O “PAVIO CURTO” NA BÍBLIA HEBRAICA

Dia desses, enquanto rastreava a ocorrência e a variação de sentido da palavra hebraica “qatzar” (um verbo que significa, em seu sentido primário “encurtar”), descobri por acaso que quando associada a “nefesh” (sentido primário = garganta, cf. Sl 69,1), significa “perder a paciência”. A dobradinha aparece em quatro textos: Nm 21,4; Jz 10,16; 16,16; Zc 11,8.

1. No caminho o povo perdeu a paciência.
2. Então Javé perdeu a paciência com a angústia de Israel.
3. [Sansão] perdeu a paciência para a morte (o que seria isso? A LXX parece mudar o sentido da expressão. Há conexões interessantes entre esta passagem e Mc 14,34).
4. Mas perdi a paciência com eles [Javé com três pastores].

Uma tradução literal seria algo como “encurtar a garganta”. Ocorre que o sentido de “nefesh” se amplia no texto bíblico. Como é pela garganta que entra o ar, o alimento e também é por ela que flui a voz, “nefesh” passou a significar “vida” (em minha opinião “alma” é um equívoco). Em Gn 2,7, por exemplo, o homem se torna, pelo hálito divino “garganta viva”.

Isso me faz pensar no real sentido da associação entre “qatzar” e “néfesh”. Afinal, por que “encurtar a garganta” indicaria impaciência? Seria uma referência ao fôlego: “fôlego encurtado” = impaciência? Seria uma indicação de desespero: “vida encurtada”, no sentido de que as energias estão se esgotando? Ainda não tenho uma resposta.



Jones F. Mendonça

sábado, 25 de abril de 2020

SÃO JORGE E O DRAGÃO


Muita gente já ouviu falar do Leviatã, criatura bíblica que aparece em diversos livros, como (41,1) e Salmos (74,14). De acordo com a tradição judaica (Talmud), Deus fez um Leviatã macho e um Leviatã fêmea no quinto dia da criação. Mas Ele teria percebido que se animais de tão grande porte se reproduzissem “teriam destruído todo o mundo”. O que fazer? Para evitar isso, Deus teria castrado o macho e matado a fêmea. Por fim, salgou sua carne – acreditem – para ser digerida no banquete dos justos no advento do Messias (BB 74a). Nesta ilustração São Jorge aparece – como na tradição judaica – fazendo um churrasco de Dragão. Deve ser durinha essa carne, viu!


Jones F. Mendonça

JESUS COMO NOVO ADÃO


Nesta tela, de Włodzimierz Kohut (2015), um Jesus no estilo bizantino aparece tipificado como jardineiro. Em sua mão esquerda ele tem um regador, que derrama água em pessoas que “brotam” da terra. Com a mão direita ele faz o sinal do pantocrator (bênção divina). A tradição de representar Jesus como jardineiro é longa na história da arte (inspirada em Jo 20,15).

Há paralelos interessantes entre a narrativa da ressurreição joanina e o relato da criação. Veja que em Jo 20,22 Jesus sopra sobre seus discípulos como Javé em Gn 2,7. 
“Javé elohim... soprou em suas narinas um hálito de vida” (Gn 2,7).“soprou sobre eles e lhes disse: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22).
Ao que parece Jesus é pintado no quarto evangelho como uma espécie de novo Adão, restaurador do Éden (como na interpretação tipológica paulina em 1Co 15,22.45). Em Jo 19,41 o sepulcro e o local do sepultamento são situados num jardim. É no jardim que Jesus morre, é no jardim que Jesus ressuscita. Jesus é o novo Adão no jardim restaurado.


Jones F. Mendonça


sexta-feira, 10 de abril de 2020

NOTAS SOBRE DEUTERONÔMIO 26

Dt 26,12-15 trata do dízimo trienal. O texto determina que o ofertante declare diante de Javé que não contaminou o dízimo a ser entregue ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva.  O verso 14 explica em que situações esse dízimo poderia ser contaminado. São duas as situações: 1) comer parte desse dízimo durante o luto; 2) oferecer parte desse dízimo por um morto.  

Em relação ao ponto 1, Tigay [1] propõe duas possibilidades:
  • Um enlutado fica impuro por estar na mesma tenda que um cadáver por manuseá-lo durante o enterro ou pelo contato com outras pessoas que se tornaram impuras de uma dessas maneiras. Em tais condições qualquer alimento que ele tocasse se tornaria impuro.
  • Um enlutado fica impuro ao usar parte do dízimo em uma refeição fúnebre.
Ele explica que tais recomendações são uma reminiscência de uma prática encontrada nas “Instruções aos Oficiais do Templo” hititas. Em relação ao ponto 2:
  • Os antigos acreditavam que os vivos podem ajudar os espíritos dos mortos no Sheol, fornecendo-lhes comida e bebida. Essa prática foi difundida no mundo antigo e também é atestada entre alguns judeus nos períodos do Segundo Templo e depois, como em Tobias 4,17: “Derrame seu pão e vinho na tumba dos justos e não dê para os pecadores”. Em algumas sepulturas escavadas em Samaria, capital do Reino do Norte, foram encontrados buracos no chão, semelhantes aos encontrados nas tumbas de Ugarit, que serviam de receptáculo para alimentos e bebidas oferecidas aos mortos. A Torá não proíbe essa prática, mas, como o contato com os mortos é profanado ritualmente, proíbe o uso do dízimo por ela.
Um artigo publicado no The Bible and Interpretation (Afterlife and Resurrection Beliefs in the Second Temple Period), citando Joseph S. Park [2], afirma que essa noção é apoiada ainda pelas antigas inscrições das tumbas judaicas.

Notas:
[1] TIGAY, Jeffrey H. The JPS Torah Commentary: Deuteronomy. Fhiladelphia, Jerusalem: Jewish Publication Society of America, 2003, p. 242-244.

[2] Joseph S. Park, Conceptions of Afterlife in Jewish Inscriptions: With Special Reference to Pauline Literature, Wissenschaftliche Untersuchungen zum Neuen Testament (Tübingen: Mohr-Siebeck, 2000), 2:121.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 3 de abril de 2020

UM GALILEU NO MERCADO, UM PROFETA NO RESTAURANTE

Em “As várias faces de Jesus” (Record, 2006, p. 326), Geza Vermes reproduz um típico deboche dirigido ao sotaque do povo do norte de Israel. Ele narra um galileu tentando fazer compras num mercado em Jerusalém. Como tinha dificuldade com as guturais, consoantes pronunciadas na garganta, logo se torna alvo de chacotas:
Ô galileu, tolo, o que tu precisas é de uma coisa para montar (hamâr, um burro), de algo para beber (hamar, vinho), algo para cozer ('amar, lã), ou algo para um sacrifício no Templo (immar, cordeiro)?
O preconceito dirigido aos galileus também é revelado na fala de Natanael: “de Nazaré pode sair algo de bom?” (Jo 1,46). Quando ao sotaque dos nortistas, podemos percebê-lo na fala do sumo sacerdote dirigida a Pedro: “de fato, também tu és um deles; pois o teu dialeto te denuncia” (Mt 26,73; Mc 14,70; Lc 22,59).

Bem, se um galileu do primeiro século tinha dificuldade em se comunicar em aramaico com vendedores de um mercado em Jerusalém (por diferenças consonantais), imagina a dificuldade que Isaías não encontraria para se comunicar em hebraico com um garçom da Jerusalém moderna (diferenças consonantais, vocálicas e novas palavras no vocabulário). As barreiras seriam muito, mas muito, maiores.

Mas em texto publicado no site “prazer da palavra” (A importância do hebraico bíblico), Luiz Sayão diz que “Se Isaías ressuscitasse hoje teria condições de comunicar-se e de pedir um almoço em um restaurante de Jerusalém”. Eu duvido. Duvido muito. Quem estiver interessado ler um artigo sobre a pronúncia do hebraico bíblico, sugiro este artigo, publicado no TheTorah



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 20 de março de 2020

ARTE, PANDEMIA E EXEGESE


Em tempos de guerra, recessão econômica, catástrofes naturais ou epidemias, os artistas sempre encontraram uma maneira de expressar suas angústias, medos e frustrações. Nesta tela (A Guerra, 1896), o artista suíço Arnold Böcklin retrata os quatro cavaleiros mencionados no capítulo 6 do livro do Apocalipse. A imagem foi tomada do profeta Zacarias (1,8), que diz ter visto, em sonho noturno, cavalos coloridos posicionados num vale profundo.

De acordo com o texto, os cavalos/cavaleiros são emissários do Anjo de Javé, encarregados de percorrer e observar a terra*. Javé revela-se irado após tomar conhecimento da paz vivida pelas nações em contraste com o abandono de Jerusalém. Mas o texto não fala em punição para essas nações. Indignado, Javé anuncia a reconstrução de Jerusalém e a restauração de seu Templo, ocorrida em 515 a.C.

O Apocalipse dá novo significado à imagem dos cavalos/cavaleiros. Eles aparecem agora como instrumentos da ira de javé contra seus inimigos. O Apocalipse, aliás, é mestre em ressignificações. Usa a seu modo passagens de Daniel, Ezequiel, Isaías e Jeremias para compor um cenário de terror e angústia, mas também de fé e de esperança.

* “Terra”, em hebraico “eretz”, tem aqui o sentido de “nações”, algo raro, senão único. O termo, sem complemento, geralmente indica a “Terra de Israel”.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 17 de março de 2020

CORONA VIRUS, CORONA VIRO

As diversas diásporas impulsionaram os judeus a traduzirem seus textos sagrados para diversos idiomas, tais como o aramaico (Targum) e o grego (Septuaginta). Acolhida pelos cristãos como “Escritura”, a Bíblia Hebraica também foi traduzida para o latim (Vulgata Latina), juntamente com o Novo Testamento. Por curiosidade fiz buscas na Vulgata pela palavra “corona”, nome do vírus que tem assustado o mundo. Para minha surpresa:

O verso aparece em Pv 12,4 e significa "coroa do homem". O que Malafaia e Feliciano não fariam com essa "descoberta profética"? Caso queira dar uma olhada num manuscrito de Provérbios em latim produzido no século IX, clique aqui.



Jones F. Mendonça

sábado, 7 de março de 2020

PROFETISMO NO ANTIGO ORIENTE PRÓXIMO [LIVROS GRATUITOS]

Uma leitura atenta do Antigo Testamento revela a presença de elementos associados a antigas práticas mágicas e divinatórias do Oriente Próximo. São diversos os exemplos, tais como a taça de adivinhação de José (Gn 44,5); o carvalho dos adivinhadores (Jz 9,37); a adivinhação com flechas e com a dissecação de vísceras (2Rs 14,13-20 e Ez 21,21); o uso dos terafins e do éfode para consultar Javé (Jz 17,5; Os 3,4; 1Sm 23,9); a consulta aos mortos (Is 29,4; 1Sm 6,2) e o êxtase delirante (Nm 11,25; 1Sm 10,5-6; 1Sm 19,24; 1Sm 18,10; 1Rs 18, 26.28-29; 2Rs 3,15). Outra influência recebida pelos antigos israelitas dos povos vizinhos é a maneira como representavam o cosmo.

Aos interessados no assunto, uma boa notícia: o Instituto Oriental da Universidade da Chicago está disponibilizando gratuitamente (em inglês) alguns livros sobre o Antigo Oriente Próximo (o que inclui o Antigo Israel). Dentre eles: "Heaven on Earth: Temples, Ritual, and Cosmic Symbolism in the Ancient World" (Céu na Terra: Templos, Rituais e Simbolismo Cósmico no Mundo Antigo), editado por Deena Ragavan (a obra é ricamente ilustrada) e “Divination and Interpretation of Signs in the Ancient World” (Adivinhação e interpretação de sinais no mundo antigo), editado por Amar Annus. Baixe aqui.

Caso queira um livro específico sobre o profetismo no Antigo Oriente Próximo, visite o site da SBL e baixe gratuitamente (para países com baixa renda per capita, como o Brasil) “Prophets and Prophecy in the Ancient Near East” (Profetas e profecia no Antigo Oriente Próximo), escrito por Martti Nissinen. Baixe aqui:

Boa leitura!


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 4 de março de 2020

ARQUEOLOGIA, ICONOGRAFIA E EXEGESE


Estas são as sandálias do faraó Tutancâmon. Repare que foram ilustradas com representações de inimigos africanos e asiáticos. A antiga expressão bíblica “porei os inimigos debaixo dos meus pés” (como em 1Rs 5,3) também fazia parte do vocabulário dos povos vizinhos, como o Egito e os impérios mesopotâmicos. Nos extremos superior e inferior do calçado há grupos de quatro arcos que, juntamente com os cativos, representam os nove inimigos tradicionais do Egito, pisados simbolicamente pelo faraó quando usava as sandálias.

Para saber mais:

ZAKI, Mey. Legacy of Tutankhamun: Art and History. Giza, Egypt: Farid Atiya Press. 2008, p. 130.

Jones F. Mendonça

A REVOLTA DE CORÉ E O FOGO DE SODOMA


No conhecido episódio de Nm 16,2, Coré, Datan e Abiram desafiam a autoridade de Moisés “colocando-se de pé” diante dele. A oposição é marcada pelo verbo “pôr-se de pé”, “levantar” (qum). Em Gn 18,22 temos uma construção semelhante. Neste caso Abraão “permanece de pé diante das faces de Javé”. O verbo é outro (‘amad), mas num primeiro momento parece expressar a mesma ideia. Será?

Bem, neste caso o texto estaria sugerindo que Abraão permanece de pé “diante das faces” de Javé como que se opondo ao plano divino de destruir Sodoma. Essa oposição parece ser confirmada a partir da (insistente e ousada) intercessão do patriarca a favor de Sodoma (vv. 23-25; 27-29; 30-31; 32). Um confronto como este não seria inédito: Jacó luta com Deus... e vence! (cf. Gn 32,28; Os 12,3-4).

Para confirmar a tese eu precisaria localizar e analisar outras ocorrências do verbo “‘amad” antes da expressão “diante das faces de”. Encontrei quatro casos: Jr 35,19; Zc 3,1; 2Cr 20,13 e 18,20. Em todos eles, “ESTAR DE PÉ diante das faces de” serve apenas para indicar a posição do interlocutor. Nunca indica oposição.

O verbo usado em Nm 16,2 (revolta contra Moisés) possui sentido diferente: não significa “estar/permanecer de pé”, mas “pôr-se de pé”, “levantar”. Enfim, indica movimento, é “levantar-se” de algum lugar (Ex 24,13; Nee 9,3), “levantar” algo (Ex 26,30; 1Rs 16,32) ou “levantar-se” contra alguém ou algo (cf. Gn 4,8; Ex 15,7; Jz 20,5).

Então embora seja verdade que o texto coloca Abraão de certa maneira em oposição aos planos de Javé, esta postura não é acentuada pelo verbo. Não indica postura de confrontação, mas de súplica, de intercessão. Uma sutileza do verbo que faz muita diferença.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 3 de março de 2020

NIMROD: AMIGO OU INIMIGO DE JAVÉ?

Os versos 8 e 9 do capítulo 10 do Gênesis dizem que Nimrod foi “poderoso na terra” e “poderoso caçador diante das faces Javé”. A tradição judaica, cristã e até muçulmana veem Ninrod como inimigo de Javé. A evidência estaria na expressão “LePney” = “diante das faces de”, que aparece antes do nome divino. Assim, há quem afirme que ser “grande caçador diante das faces de Javé” indica oposição/enfrentamento. Nm 16,2 e 1Cr 14,8 geralmente são citados como exemplos do uso de “LePney” indicando oposição. Ocorre que a oposição é indicada pelo verbo e não pela preposição. Veja:

Nm 16,2 “levantaram-se (Coré, Datã e Abiram) DIANTE DAS FACES Moisés...”.
1Cr 14,8 “Sabendo disso, Davi avançou DIANTE DAS FACES deles [dos filisteus]”.

“LePney” (diante das faces de) é uma expressão neutra que indica simplesmente que alguém ou algo está diante de outra pessoa ou coisa. Não encontrei um só caso em que alguém está “diante das faces de Javé” em oposição a ele (veja, p. ex. Dt 12,12; 1Sm 1,15; 2Sm 6,14; 1Rs 22,21; 2Rs 19,15; Jr 36,7. Uma exceção talvez seja Gn 18,22). A culpa, segundo alguns, é da LXX, que traduziu “LePney” pelo grego “εναντιον” (cf. Gn 10,9), uma preposição que significaria “que se opõe como adversário”. Rastreei todas as ocorrências da preposição grega e não parece ter esse sentido.

Bem, em minha opinião, o que temos em Gn 10,8-9 é um texto poético, em forma de paralelismo sinonímico:

“Ninrod foi poderoso NA TERRA
Poderoso caçador DIANTE DE JAVÉ”.

“Na terra” e “diante de Javé” expressariam a mesma ideia: as ações de Nimrod eram conhecidas por Javé porque aconteciam “na terra”, “diante de suas faces”. Nesse sentido, o texto não dá a Nimrod nem o título de amigo nem o de inimigo de Javé. O propósito do paralelismo seria destacar a fama do soberano, apresentado como fundador das mais importantes cidades mesopotâmicas.



Jones F. Mendonça

sábado, 29 de fevereiro de 2020

JURAMENTO E TESTÍCULOS SENSÍVEIS

Nos dias atuais, quando alguém quer fazer um juramento, faz isso em nome de algo que considera valioso: jura pela mãe, por Deus, coloca a mão sobre a Bíblia, etc. No Antigo Israel, o juramento usava como valor a capacidade de gerar descendentes, por isso era realizado com “a mão por debaixo dos testículos” (cf. Gn 24,2; 47,29). Josué Gonçalves, em seu livro “Quero casar certo”, faz um comentário correto ao dizer que a mão era colocada sobre os testículos, não sobre a coxa. Mas a explicação que ele dá para o modo como era feito o juramento é prá lá de bizarra (e sem fundamento). Palavras dele: “o servo deveria segurar os testículos do seu senhor. Caso estivesse mentindo, a sensibilidade do seu senhor perceberia algum modo de alteração, na FIRMEZA como segurava os órgãos ou a TEMPERATURA da palma da mão”. E a gente pensa que já viu de tudo.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

OS RINS, O CORAÇÃO OU A CONSCIÊNCIA?

O Sl 16,7 em três versões:

1. “Ele é o meu conselheiro, e durante a noite a MINHA CONSCIÊNCIA me avisa” (NTLH).
2. “Iahweh que me aconselha, e, mesmo à noite, MEUS RINS me instruem” (BJ).
3. “o Senhor me aconselha; na escura noite o MEU CORAÇÃO me ensina!” (NVI).

Afinal, qual versão é a mais fiel ao texto original?

A referência do salmista certamente é aos rins (kilyah), como em Lv 4,9: “os dois rins e a gordura que estão sobre eles...”. Nesse sentido a BJ está correta. Mas a palavra hebraica “rins”, em alguns textos, sobretudo os poéticos, pode ganhar um sentido diferente: “entranhas”, “íntimo”, etc. No Sl 7,9, por exemplo, é dito que “O Senhor sonda o coração (lev) e os rins (kilyah)”, ou seja, sonda o “íntimo”. E íntimo, aí, diz respeito tanto às emoções como aos pensamentos. As Bíblias que preferem traduzir pela equivalência dinâmica tentam resgatar a função atribuída aos rins entre os antigos hebreus. A NVI optou por “coração” e a NTLH por “consciência”. Sendo bem rigoroso, eu optaria por “cérebro”, porque sabemos hoje que as emoções e o aprendizado estão associados a este órgão. Ficaria feia a tradução, mas certamente seria a que mais equivaleria à função dos “rins” imaginada pelo autor do texto.



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

O TROPEÇO E O ESCÂNDALO EM MATEUS 18

O capítulo 18 de Mateus, no verso 7, parte b, diz assim: “ai do homem pelo qual o ESCÂNDALO vem”. Embora o termo grego traduzido por “escândalo” seja “skandalon”, do qual vem nossa palavra portuguesa, seu sentido original não é este. O verbo “Skandalizo” significa “fazer tropeçar”, “colocar um obstáculo/armadilha”, “induzir ao erro”, etc. É por isso que algumas versões traduzem (corretamente) o verso assim: “mas ai do homem por quem o TROPEÇO vier!”.

O termo reaparece, por exemplo, em Ap 2,14. O texto diz que Balaão “ensinava Balac a lançar um skandalon aos filhos de Israel”. O erro de Balaão, segundo o texto, era criar armadilhas, pedras de tropeço, nas quais os filhos de Israel poderiam cair. Mt 18,7 está condenando pessoas que fazem as crianças "tropeçarem" (conf. v. 6) e não as pessoas que causam escândalos na igreja. O discurso religioso, tão preocupado com a manutenção dos costumes, acabou distorcendo o sentido original do texto.

Em Mt 18,8-9 temos mais um exemplo. O verso que – segundo dizem, fez Orígenes amputar seu pênis – diz assim: “se tua mão ou teu pé te fazem TROPEÇAR (skandalizo), corta-o e lança-o fora...”. Embora a Bíblia de Jerusalém insista em traduzir Se a tua mão ou o teu pé te escandalizam”, o sentido aqui diz respeito à mão ou ao pé que conduzem ao erro, ou seja, que fazem tropeçar. É verdade que um escândalo pode fazer pessoas tropeçarem, mas nem todo o tropeço é um escândalo. Sejamos honestos com o texto.

Jones F. Mendonça

CALVINO E O CÍRCULO DA SERPENTE

Em suas Institutas, Calvino diz o seguinte a respeito do pecado original: “O primeiro homem, pois, caiu porque o Senhor assim julgara ser conveniente. [...]. Portanto, o homem cai porque assim o ordenou a providência de Deus” (Livro III, cap. XXIII, seção 8). Enfim, se Calvino pudesse pintar a queda, a serpente apontaria para Deus e diria: “fiz tudo de acordo com a tua Santa Providência”. É ou não uma teologia muito louca? Tela: Domenico Zampieri.



Jones F. Mendonça

ARTE E CALIGRAFIA HEBRAICA

Inspirado na Kabalah e usando algarismos arábicos e consoantes hebraicas como pano de fundo, Tobia Ravà produz quadros interessantíssimos como este.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

OS CORPOS NO JUÍZO FINAL


As duas imagens revelam impressões do imaginário cristão a respeito da ressurreição no dia do juízo final. A da esquerda ilustra um manuscrito do século XV. A da direita, obra de Luca Signorelli, é do século XVI. Embora os elementos sejam os mesmos (anjos, trombetas, corpos ressurretos), as mudanças na representação do corpo, a partir da influência do Renascimento, são muito nítidas.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

REPENSANDO OS LIMITES TERRITORIAIS DO ANTIGO ISRAEL

Um tipo de expressão recorrente no Antigo Testamento para indicar todo o território pertencente a Israel é “de Dã a Bersabeia” (cf. Jz 20,1; 1Sm 3,20; 2Sm 3,10; 17,11; 24,15; 1Rs 4,25). Assim, a Bíblia sugere que essas cidades funcionavam como marcos fronteiriços desde o tempo dos juízes (século XII a.C.). Alguns arqueólogos, porém, argumentam que não há evidência de que a região de Dã era ocupada por israelitas nesse período (pertenceria aos arameus ou aos fenícios). Formularam então uma tese: Dã como limite fronteiriço ao norte e Bersabeia como limite fronteiriço ao sul correspondem ao território de Israel no século VIII. Os escritores bíblicos teriam projetado para um passado distante os limites de suas fronteiras atuais.  

Mas a descoberta de uma inscrição num jarro de cerâmica encontrado em Abel Beth Maacah (2Sm 20,14) - situado no antigo território de Dã - pode obrigar os arqueólogos mais céticos (como Israel Finkelstein) a repensarem suas conclusões.  Os responsáveis pela escavação estão dizendo que a inscrição "pertencente a Benayau" conteria um nome teofórico javista  e que deve ser datada para o século IX ou início do século VIII. Como sei que a datação e a diferenciação entre o hebraico antigo e o fenício não são tarefas tão simples, estou aguardando o pronunciamento do epigrafista Christopher Rollston em seu Blog. Também é importante aguardar a análise petrográfica, feita com o propósito de determinar o local onde foi produzido o artefato e descartar a possibilidade de que tenha sido adquirido numa transação comercial. 

Leia mais sobre a inscrição nesta matéria do Haaretz (jornal de Israel). Um banco de dados online com nomes teofóricos da idade do ferro encontrados na região ocupada pelo Antigo Israel pode ser acessado aqui


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

TRADUZINDO PROVÉRBIOS

Pv 4,23, numa tradução literal, ficaria assim: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as saídas da vida”. “Guardar”, aí, não significa “esconder”, mas “preservar”, “observar com atenção especial”. Mas o que se guarda “no coração”? Os versos 20 e 21 respondem: “as palavras de ensinamento dos pais”. Uma tradução parafraseada do v. 23 ficaria assim: 
preserva com cuidado os ensinamentos dos teus pais, pois deles (dos ensinamentos) virão as soluções para a vida.
A NTLH erra ao traduzir o verso 23 assim: “Tenha cuidado com o que você pensa, pois a sua vida é dirigida pelos seus pensamentos”. Não é para “ter cuidado com o que se pensa”, é para “cuidar bem dos ensinamentos dados pelos pais”, pois “deles virão as soluções para as vida”!


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

O SALMISTA, A PUPILA E A MENINA DOS OLHOS


Em diversas versões, o Sl 17,8 é traduzido assim: “Guarda-me como a menina dos olhos”. Versões inglesas como a King James preferem “maçã do olho” (apple of the eye). Quem tem razão?

Bem, a expressão hebraica do texto original aparece assim: “’iyshon bat ‘ayin”, que traduzido literalmente seria: “escuridão da filha do olho”. Como não há dúvidas de que essa expressão hebraica se refere à pupila, cada cultura traduziu a seu modo: No Brasil: “menina dos olhos” (pupila); nas versões inglesas: “maçã dos olhos” (pupila).

Mas por que em nosso país a pupila é chamada de “menina dos olhos”? Simples: em latim, pupila é a junção de “pupa” (menina ou boneca) + “ila” (um diminutivo). Os latinos sabiam que a região negra do olho é muito sensível, que precisava ser protegida. Daí que a batizaram como “pequena menina”.

Em países de língua inglesa a pupila passou a ser conhecida como "maçã do olho" por influência do trabalho atribuído ao Rei Alfredo de Wessex (século IX). Esse sujeito devia gostar muito de maçãs!



Jones F. Mendonça

LAMENTAÇÕES: DOIS VERSOS, QUATRO INFORMAÇÕES



O capítulo 4 de Lamentações possui 22 versos, cada qual começa com uma consoante do alfabeto hebraico (são 22, conforme a imagem). Os versos 20 e 21 nos dizem quatro coisas importantes: 1) O rei era tratado como “Messias” (ou Ungido); 2) A importância dada a ele é revelada pelo modo como era chamado: “o sopro das nossas narinas”; 3) A captura do rei pelos babilônios foi - por conta disso - algo desesperador; 4) Uz, a terra na qual vivia Jó, não ficava em Israel, mas em Edom.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

ISAÍAS, CIRO E OS FORJADORES DE METAIS

Os versos 6 e 7 do capítulo 41 do profeta Isaías descrevem de maneira poética forjadores de metais em preparação para a batalha. O que se tem em vista é a ascensão de Ciro, “aquele que sujeita os reis” (v. 2), tratado pelo profeta como o “messias de Javé” (Ungido de Deus, cf. 45,1). Leia com atenção:
“Cada um ajuda o seu companheiro,
e diz ao seu irmão: “Coragem!”
O artífice dá coragem aos OURIVES;
aquele que alisa com o martelo, ao que bate na bigorna,
dizendo a respeito da solda: “Ela está boa”;
ele firma-a com pregos para que não se abale 
(Trad. Bíblia de Jerusalém).
Não é difícil perceber que o texto descreve o ambiente de trabalho de especialistas no manejo de metais utilizados em armas de guerra. Quando li o texto, pensei: “o que o ourives faz ali?”. Intrigado, consultei o texto hebraico. Não é ourives. Tzaraf é verbo (fundir, refinar). Uma tradução mais fiel seria algo como “FUNDIDOR” (como em Zc 13,9), pessoa que trabalha os metais no fogo (A Bíblia TEB acerta ao traduzir tzaraf por “moldador”).

Tzaraf (fundidor) até pode ser traduzido como “ourives”, quando o que ele funde é o ouro, como em Is 40,19: “o tzaraf a reveste de ouro [a imagem]”. Em Is 41 este tzaraf “alisa o martelo”, “bate na bigorna”, “firma a solda com pregos”. Parece fabricar armas, não joias preciosas. Outras versões (como a NVI) fazem pior. O que está sendo firmado pelo ferreiro é a solda, mas a NVI entende que é o ídolo: “E fixa o ídolo com prego para que não tombe”.


Jones F. Mendonça


terça-feira, 10 de dezembro de 2019

TROCADILHOS NA BÍBLIA: INIMIZADES

Arte: Robert Crumb
Não há qualquer verso na Bíblia dizendo que o nome “Jacó” (Yaaqov) significa “usurpador”. O que o texto faz é destacar a semelhança fonética entre “Yaaqov” e outras duas palavras hebraicas: “'aqav” (usurpar, enganar) e “aqev” (calcanhar). Veja:
“e sua mão segurava o calcanhar (aqev) de Esaú, por isso foi chamado de Jacó (Yaaqov)” (Gn 25,26).
“Esaú disse: ‘verdadeiramente recebeu o nome de Jacó (Yaaqov): pois é a segunda vez que me enganou (aqav)’” (Gn 27,36).
As duas narrativas, de natureza etiológica, visam explicar – cada qual a seu modo – a inimizade entre israelitas e edomitas.



Jones F. Mendonça

TROCADILHOS NA BÍBLIA: PEREGRINOS


Após se retirar para Midiã fugindo de Faraó, Moisés parou junto a um poço. Lá defendeu sete moças, filhas de Raguel, que estavam sendo importunadas por alguns pastores. Quando retornaram para casa contaram ao pai o acontecido. Raguel não perdeu tempo: “vocês deixaram esse homão partir?!”. Obedientes, as moças trouxeram Moisés, que se casou com Zípora. Depois ela engravidou. O nome do filho: “Gersam” (Ex 2,22). A razão de ter recebido este nome aparece logo adiante: “porque era um “ger” (“peregrino”, em hebraico) em terra estrangeira”. A Bíblia está repleta desses trocadilhos.

Ah, o “homão” é por minha conta.



Jones F. Mendonça

POR QUE JACÓ NÃO RECONHECEU LIA?

A história é bem conhecida: Jacó trabalha por sete anos para se casar com Raquel, mas na hora “H”, numa tenda sob o céu noturno, é enganado por Labão e passa a noite com Lia, irmã mais velha de Raquel. Os rabinos quebraram a cabeça para entender como Jacó não percebeu que ela era a mulher errada. Veja as respostas:

1. Era noite (Gn 29,23), por isso Jacó não conseguiu ver o rosto de Raquel;
2. Mas não havia velas? A resposta: é indecente fazer sexo à luz de velas;
3. Como Jacó não reconheceu a voz de Lia? A resposta: é falta de decoro falar durante o sexo;
4. Jacó estava bêbado após o banquete mencionado em Gn 29,22 e a embriaguez atordoa os sentidos.
5. Jacó tinha miopia grave, pouca sensibilidade no tato e ouvia muito mal (brincadeira, essa hipótese ninguém levantou. Mas as quatro primeiras são verdadeiras, viu!). 

Levando em conta que a história precisava ser crível para seus ouvintes primários, talvez a resposta nº 4 seja a que faz mais sentido. Leia mais no The Torah.



Jones F. Mendonça

ACÃ, O “OKER”, NO VALE DE AKOR


Uma das histórias mais populares do livro bíblico de Josué é a que narra o pecado e o apedrejamento de AKAN (Acã, em português), personagem que “perturbou” (AKAR, cf. Js 7,25) o acampamento israelita, subtraindo objetos sob interdição divina. Além do apelo à obediência, o relato explica a origem do nome de um vale ao norte de Jericó: “Por esse motivo se deu àquele lugar o nome de vale de AKOR, até hoje” (Js 7,26). Com o propósito de tornar o jogo de palavras mais afinado, a tradição mudou o nome de Akan para AKAR, na medida em que ficou lembrado como “o perturbador (OKER) de Israel que transgrediu o interdito divino” (1Cr 2,7).

Traduzindo e simplificando: AKAN (nome próprio), “perturbou” (AKAR, verbo) a ordem estabelecida, converteu-se no “perturbador” (OKER) de Israel e por isso o vale no qual foi apedrejado recebeu o nome de AKOR. Quando as crianças perguntavam aos pais a razão do amontoado de pedras em um vale conhecido como “AKOR, eles tinham uma resposta rica em similaridade sonora.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

TROCADILHOS NA BÍBLIA: PRIMOGENITURAS


A disputa pelo direito da primogenitura é um tema recorrente no Antigo Testamento. O mais famoso envolve Esaú e Jacó. Esaú, o mais velho, de pele avermelhada (Gn 25,25), vende a Jacó seu direito de primogenitura por um punhado de cozido vermelho (25,30). Também chamado de “Edom” (significa “vermelho”), torna-se o pai dos edomitas (32,3; Ob 1,8).

Uma segunda narrativa bíblica incorpora elementos muito parecidos. Trata-se da história de Zará e Peres, filhos da relação incestuosa entre Judá e Tamar (Gn 38). As semelhanças: 1) Eram gêmeos (v. 27); 2) Disputavam os privilégios da primogenitura desde o ventre (v. 29); 3) O mais velho, também indicado pela cor vermelha (v. 28), perde o direito de primogenitura para seu irmão mais novo (v. 29).

Uma última curiosidade: Jacó (yakov) recebe este nome porque segurava o “akev” (calcanhar) de Esaú (Gn 25,26). Peres (Parez), também o mais novo, recebe este nome porque “paraz” (rompe) uma abertura, permitindo que saia na frente de seu irmão.


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

ISMAEL NÃO RIA DE ISAAC

Gn 21,9 tem sido traduzido de diversas formas. Na NTLH, Sara fica indignada após ver que Ismael, “BRINCAVA com Isaac”. A versão ARA explica que a indignação ocorre porque Ismael “CAÇOAVA de Isaac”. Na NVI consta que Ismael “RIA de Isaque”. Quem traduziu corretamente? Qual a razão da indignação de Sara?

Os tradutores não chegam a um consenso porque o verbo “tzahaq” comporta diversos significados: “rir” (Gn 17,17 – sentido primário), “divertir” (Jz 16,25 – a diversão encontra no riso sua manifestação concreta), "insultar" (Gn 39,17 – riso como deboche) e até “namorar”: “Abimeleque viu que Isaac estava ‘tzahaq’ (rindo) com sua esposa Rebeca” (Gn 26,8). “Rindo”, aqui, é um eufemismo (provavelmente trocavam carícias). Voltemos a Gn 21,9.

O texto hebraico não diz que o filho de Hagar (Ismael) “brincava COM Isaac” (a expressão "com Isaac" só aparece na LXX). Diz simplesmente que Sara “viu que o filho de Hagar ria” (v.9). Mas ria de quê? Bem, o v.8 situa o episódio durante a festa de desmame de seu irmão Isaac. Nesse ambiente festivo Ismael ri (v. 9) e logo em seguida, no v.10, Sara pede a expulsão de Hagar e Ismael.

A raiva de Sara pode ser explicada caso entendamos o gracejo de Ismael como expressão da convicção de que o nascimento de Isaac não representava uma ameaça à sua porção da herança. É como se dissesse: “há, há, e daí que Issac nasceu. Ainda tenho parte na herança!”. O riso debochado explicaria a ira de Sara: “Expulsa esta serva e seu filho, para que o filho desta serva não seja herdeiro com meu filho Isaac” (v.10).

O Targum do Pesudo-Jonathan situa o riso de Ismael no contexto de adoração a um deus estranho: “Sara observou o filho de Hagar, o Mizreitha, a quem ela deu a Abraão, zombando em uma adoração estranha”. Mas esta explicação não pode ser autorizada pelo contexto. Minha tradução do v. 9 ficaria assim: “Ora, Sara percebeu que o filho nascido a Abraão da egípcia Agar, RIA” [da tentativa de aniquilar sua herança gerando outro filho].

Sim, era um riso zombeteiro, mas não dirigido a Isaque.



Jones F. Mendonça

TZAHAQ E YTZEHAQ: TROCADILHOS NA BÍBLIA HEBRAICA

Isaque e Rebeca, por Robert Crumb

O verbo “rir” ocorre em 12 versos do Antigo Testamento. Na maioria das vezes aparece associado a Isaac: 1) Abraão ri quando sabe que terá um filho (Gn 17,17); 2) Sara ri quando descobre que ficará grávida (18,12-15); 3); Sara diz que Deus lhe deu motivo de riso e que todos rirão com ela (21,6); 4) Durante um festejo para celebrar o desmame de Isaac, seu irmão Ismael é visto rindo (21,9); 5) Abimeleque, rei dos Filisteus, olha pela janela e vê Isaque “rindo” para Rebeca (26,8).

Uma curiosidade: rir, em hebraico é “tzahaq” e o nome de Isaque, em hebraico é “Ytzehaq”. Não é difícil perceber que o verbo tzahaq foi escolhido pelo escritor bíblico com o único objetivo de combinar sua sonoridade com o nome do personagem Isaac (Ytzehaq). Foi empregado para expressar dúvida e incredulidade (de Abraão e de Sara), para expressar alegria (de Sara a das pessoas que lhe eram próximas), para expressar alegria?/diversão?/deboche? (de Ismael) e para expressar relações afetuosas (Isaac e Rebeca).

O texto ganhou em sonoridade, mas também em ambiguidade: Ismael, afinal, ria de quê ou de quem?  O que exatamente Abimeleque viu quando olhou pela janela?  



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

ABRAÃO E OS ANIMAIS DIVIDIDOS EM GN 15

Em Gênesis 15, Abrão realiza um ritual de aliança muito estranho. Ele parte animais ao meio e os dispõe em fileiras. Depois que o sol se põe e as trevas se estendem sobre a terra, uma fogueira fumegante e uma tocha de fogo passam por entre os animais divididos. O ritual, talvez de origem hitita, é mencionado (e explicado) pelo profeta Jeremias, em 34,18. A arte abaixo compõe uma das páginas do "Gênesis ilustrado", por Robert Crumb.


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

FARAÓ E AS PEDRINHAS DOS MENINOS

Faraó, querendo exterminar os filhos homens dos hebreus, diz assim às parteiras: “Quando ajudardes as hebreias a darem à luz, examinai sobre os ABNIYM. Se for menino, matai-o. Se for menina, deixai-a viver” (Ex 1,16). ABNIYM seria uma parte do corpo do bebê? O local sobre o qual era colocada a criança ao nascer? 

Ninguém sabe ao certo o significado da palavra hebraica abniym (um termo que está no plural). Ela só reaparece em Jr 18,3: “o oleiro estava trabalhando sobre os ABNIYM”. Como a raiz desta palavra é a mesma de “pedra” (pl. abaniym), há quem pense que o termo designe bancadas de pedra, usadas tanto pelo oleiro como pelas parteiras. A hipótese é a que faz mais sentido. 



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

LUTERO, ÉTICA CRISTÃ E A CARTA AOS GÁLATAS

Em sua Ética Cristã, publicada entre maio e junho de 1520, Lutero defende ferrenhamente a supremacia da fé sobre as obras. Mais do que isso. Para o reformador, uma obra só pode ser considerada boa se produzida pela fé. Fora da fé, todas as obras seriam más (mesmo aquelas que são aparentemente boas).

São nítidas as críticas de Lutero à teologia escolástica medieval, inspirada na filosofia de Aristóteles (ele é chamado de “palhaço” pelo reformador). De acordo com os escolásticos, o homem teria sido dotado por Deus com o “habitus”, disposição natural para o bem, aperfeiçoada pelo exercício. O reformador se impõe energicamente a esta concepção.

Mas Lutero distorce um texto de Gálatas para fundamentar sua teologia da graça. Na versão em português de sua Ética Cristã (Sinodal, 1999, 154 p.), o texto aparece assim: “vocês receberam o espírito não de suas BOAS OBRAS, mas por terem CRIDO na palavra de Deus” (Gl 3,2). O texto grego, no entanto, traz: “OBRAS DA LEI” e não “boas obras”.



Jones F. Mendonça 

terça-feira, 15 de outubro de 2019

OS REFORMADORES E AS AUTORIDADES

Muitas das ideias defendidas por Lutero no século XVI já haviam sido anunciadas por John Wyclif, teólogo e professor da universidade de Oxford. Um exemplo. Em seu tratado De Officio Regis (1379), Wyclif coloca o estado acima da igreja, contrariando o ensinamento de Tomás de Aquino, maior teólogo medieval.

Wyclif fundamentou suas posições citando Agostinho e Paulo aos Romanos: “todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus” (Rm 13,1). Em seu desejo de enfraquecer o clero, Wycliff acabou ajudando a criar outro monstro: o absolutismo monárquico.

A crença no direito divino dos reis só foi combatida mais tarde por John Locke (1632-1704). Ainda hoje é possível encontrar cristãos fundamentalistas usando Rm 13 para justificar a submissão incondicional às autoridades (quando essas autoridades são apoiadas por eles, claro!).



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

NINGUÉM NASCE MULHER?

De modo geral, quando um bebê nasce, projetamos sobre ele nossas aspirações e impomos sobre ele desde cedo características de diferenciação sexual. Se é do sexo masculino: roupa e quarto azul. Se é menina: roupa e quarto rosa. Também o comportamento é direcionado: “menina não joga futebol!”, “menino não chora”, etc. O procedimento é comum em diversas culturas. Esses elementos distintivos, no entanto, não caem do céu, são construções humanas. Têm lá seus aspectos positivos (como a coesão social) e também negativos (alguns não se identificam com esses “selos” de diferenciação).

Quando Simone de Beauvoir disse, já no final da década de 50, que “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”, não queria com isso negar as diferenças biológicas entre macho e fêmea (é óbvio!), muito menos insinuar que os seres humanos nascem sexualmente neutros. Muitas de suas queixas tinham a ver com o papel reservado à mulher imposto pela sociedade (sobretudo pelos homens). O termo “mulher”, em sua fala, era usado para indicar essa construção, essa imagem idealizada da fêmea transformada numa espécie de modelo imutável e definitivo.

“O segundo sexo”, de Simone de Beauvoir, é uma obra-prima de quase mil páginas. Fazer um pouquinho de esforço para entender o que ela diz não fará mal a ninguém.



Jones F. Mendonça

DA DILUIÇÃO DAS COISAS

Perguntam-me sobre a origem, sobre as razões históricas ou filosóficas que desencadearam o processo de diluição das coisas. Bem, a percepção do homem como um projeto em construção (e desconstrução) e não como tendo uma essência determinada remonta a filósofos do século XX, tais como Jean Paul Sartre (diluição da identidade).

A negação de um fundamento absoluto da moral pode ser encontrada em Nietzsche, filósofo do século XIX: “não existem fenômenos morais, mas interpretações morais dos fenômenos” (diluição da moral). Aliás, a frase nietzschiana “Deus está morto” diz respeito à negação de fundamentos metafísicos para a moral e não da existência de Deus.

No século XVII, sob a influência de John Locke, o liberalismo inglês rejeitou o direito divino dos reis e lançou as sementes para o nascimento da democracia e dos direitos humanos (diluição da autoridade política). Atualmente há gente tonta o suficiente para rejeitar essas duas conquistas...

No século XVI Lutero lançou sal no caramujo das verdades absolutas do dogma ao negar que o Papa tenha as chaves da igreja e da interpretação das Escrituras (diluição da autoridade religiosa). E você encontra protestantes ingênuos reclamando da diluição da fé. Não se dão conta de que o remédio para isso é a teocracia e a Inquisição.

A diluição e fragmentação da identidade, dos costumes, da religião, da moral não é um projeto elaborado por um grupo de pessoas. São os efeitos colaterais (negativos ou positivos) da busca pela autonomia e pela liberdade.


Jones F. Mendonça

O JUÍZO FINAL E O LIVRO DA VIDA (E DA MORTE)


Este macabro painel, de Jacobello Alberegno (século XIV), mostra a ressurreição do corpo no dia do juízo final tal como expressa em Ap 20. As obras que cada um realizou estão registradas nos livros (nas mãos dos esqueletos). Os da esquerda (livros pretos) são os condenados. Os da direita (livros vermelhos), os redimidos.



Jones F. Mendonça