sábado, 29 de fevereiro de 2020

JURAMENTO E TESTÍCULOS SENSÍVEIS

Nos dias atuais, quando alguém quer fazer um juramento, faz isso em nome de algo que considera valioso: jura pela mãe, por Deus, coloca a mão sobre a Bíblia, etc. No Antigo Israel, o juramento usava como valor a capacidade de gerar descendentes, por isso era realizado com “a mão por debaixo dos testículos” (cf. Gn 24,2; 47,29). Josué Gonçalves, em seu livro “Quero casar certo”, faz um comentário correto ao dizer que a mão era colocada sobre os testículos, não sobre a coxa. Mas a explicação que ele dá para o modo como era feito o juramento é prá lá de bizarra (e sem fundamento). Palavras dele: “o servo deveria segurar os testículos do seu senhor. Caso estivesse mentindo, a sensibilidade do seu senhor perceberia algum modo de alteração, na FIRMEZA como segurava os órgãos ou a TEMPERATURA da palma da mão”. E a gente pensa que já viu de tudo.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

OS RINS, O CORAÇÃO OU A CONSCIÊNCIA?

O Sl 16,7 em três versões:

1. “Ele é o meu conselheiro, e durante a noite a MINHA CONSCIÊNCIA me avisa” (NTLH).
2. “Iahweh que me aconselha, e, mesmo à noite, MEUS RINS me instruem” (BJ).
3. “o Senhor me aconselha; na escura noite o MEU CORAÇÃO me ensina!” (NVI).

Afinal, qual versão é a mais fiel ao texto original?

A referência do salmista certamente é aos rins (kilyah), como em Lv 4,9: “os dois rins e a gordura que estão sobre eles...”. Nesse sentido a BJ está correta. Mas a palavra hebraica “rins”, em alguns textos, sobretudo os poéticos, pode ganhar um sentido diferente: “entranhas”, “íntimo”, etc. No Sl 7,9, por exemplo, é dito que “O Senhor sonda o coração (lev) e os rins (kilyah)”, ou seja, sonda o “íntimo”. E íntimo, aí, diz respeito tanto às emoções como aos pensamentos. As Bíblias que preferem traduzir pela equivalência dinâmica tentam resgatar a função atribuída aos rins entre os antigos hebreus. A NVI optou por “coração” e a NTLH por “consciência”. Sendo bem rigoroso, eu optaria por “cérebro”, porque sabemos hoje que as emoções e o aprendizado estão associados a este órgão. Ficaria feia a tradução, mas certamente seria a que mais equivaleria à função dos “rins” imaginada pelo autor do texto.



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

O TROPEÇO E O ESCÂNDALO EM MATEUS 18

O capítulo 18 de Mateus, no verso 7, parte b, diz assim: “ai do homem pelo qual o ESCÂNDALO vem”. Embora o termo grego traduzido por “escândalo” seja “skandalon”, do qual vem nossa palavra portuguesa, seu sentido original não é este. O verbo “Skandalizo” significa “fazer tropeçar”, “colocar um obstáculo/armadilha”, “induzir ao erro”, etc. É por isso que algumas versões traduzem (corretamente) o verso assim: “mas ai do homem por quem o TROPEÇO vier!”.

O termo reaparece, por exemplo, em Ap 2,14. O texto diz que Balaão “ensinava Balac a lançar um skandalon aos filhos de Israel”. O erro de Balaão, segundo o texto, era criar armadilhas, pedras de tropeço, nas quais os filhos de Israel poderiam cair. Mt 18,7 está condenando pessoas que fazem as crianças "tropeçarem" (conf. v. 6) e não as pessoas que causam escândalos na igreja. O discurso religioso, tão preocupado com a manutenção dos costumes, acabou distorcendo o sentido original do texto.

Em Mt 18,8-9 temos mais um exemplo. O verso que – segundo dizem, fez Orígenes amputar seu pênis – diz assim: “se tua mão ou teu pé te fazem TROPEÇAR (skandalizo), corta-o e lança-o fora...”. Embora a Bíblia de Jerusalém insista em traduzir Se a tua mão ou o teu pé te escandalizam”, o sentido aqui diz respeito à mão ou ao pé que conduzem ao erro, ou seja, que fazem tropeçar. É verdade que um escândalo pode fazer pessoas tropeçarem, mas nem todo o tropeço é um escândalo. Sejamos honestos com o texto.

Jones F. Mendonça

CALVINO E O CÍRCULO DA SERPENTE

Em suas Institutas, Calvino diz o seguinte a respeito do pecado original: “O primeiro homem, pois, caiu porque o Senhor assim julgara ser conveniente. [...]. Portanto, o homem cai porque assim o ordenou a providência de Deus” (Livro III, cap. XXIII, seção 8). Enfim, se Calvino pudesse pintar a queda, a serpente apontaria para Deus e diria: “fiz tudo de acordo com a tua Santa Providência”. É ou não uma teologia muito louca? Tela: Domenico Zampieri.



Jones F. Mendonça

ARTE E CALIGRAFIA HEBRAICA

Inspirado na Kabalah e usando algarismos arábicos e consoantes hebraicas como pano de fundo, Tobia Ravà produz quadros interessantíssimos como este.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

OS CORPOS NO JUÍZO FINAL


As duas imagens revelam impressões do imaginário cristão a respeito da ressurreição no dia do juízo final. A da esquerda ilustra um manuscrito do século XV. A da direita, obra de Luca Signorelli, é do século XVI. Embora os elementos sejam os mesmos (anjos, trombetas, corpos ressurretos), as mudanças na representação do corpo, a partir da influência do Renascimento, são muito nítidas.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

REPENSANDO OS LIMITES TERRITORIAIS DO ANTIGO ISRAEL

Um tipo de expressão recorrente no Antigo Testamento para indicar todo o território pertencente a Israel é “de Dã a Bersabeia” (cf. Jz 20,1; 1Sm 3,20; 2Sm 3,10; 17,11; 24,15; 1Rs 4,25). Assim, a Bíblia sugere que essas cidades funcionavam como marcos fronteiriços desde o tempo dos juízes (século XII a.C.). Alguns arqueólogos, porém, argumentam que não há evidência de que a região de Dã era ocupada por israelitas nesse período (pertenceria aos arameus ou aos fenícios). Formularam então uma tese: Dã como limite fronteiriço ao norte e Bersabeia como limite fronteiriço ao sul correspondem ao território de Israel no século VIII. Os escritores bíblicos teriam projetado para um passado distante os limites de suas fronteiras atuais.  

Mas a descoberta de uma inscrição num jarro de cerâmica encontrado em Abel Beth Maacah (2Sm 20,14) - situado no antigo território de Dã - pode obrigar os arqueólogos mais céticos (como Israel Finkelstein) a repensarem suas conclusões.  Os responsáveis pela escavação estão dizendo que a inscrição "pertencente a Benayau" conteria um nome teofórico javista  e que deve ser datada para o século IX ou início do século VIII. Como sei que a datação e a diferenciação entre o hebraico antigo e o fenício não são tarefas tão simples, estou aguardando o pronunciamento do epigrafista Christopher Rollston em seu Blog. Também é importante aguardar a análise petrográfica, feita com o propósito de determinar o local onde foi produzido o artefato e descartar a possibilidade de que tenha sido adquirido numa transação comercial. 

Leia mais sobre a inscrição nesta matéria do Haaretz (jornal de Israel). Um banco de dados online com nomes teofóricos da idade do ferro encontrados na região ocupada pelo Antigo Israel pode ser acessado aqui


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

TRADUZINDO PROVÉRBIOS

Pv 4,23, numa tradução literal, ficaria assim: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as saídas da vida”. “Guardar”, aí, não significa “esconder”, mas “preservar”, “observar com atenção especial”. Mas o que se guarda “no coração”? Os versos 20 e 21 respondem: “as palavras de ensinamento dos pais”. Uma tradução parafraseada do v. 23 ficaria assim: 
preserva com cuidado os ensinamentos dos teus pais, pois deles (dos ensinamentos) virão as soluções para a vida.
A NTLH erra ao traduzir o verso 23 assim: “Tenha cuidado com o que você pensa, pois a sua vida é dirigida pelos seus pensamentos”. Não é para “ter cuidado com o que se pensa”, é para “cuidar bem dos ensinamentos dados pelos pais”, pois “deles virão as soluções para as vida”!


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

O SALMISTA, A PUPILA E A MENINA DOS OLHOS


Em diversas versões, o Sl 17,8 é traduzido assim: “Guarda-me como a menina dos olhos”. Versões inglesas como a King James preferem “maçã do olho” (apple of the eye). Quem tem razão?

Bem, a expressão hebraica do texto original aparece assim: “’iyshon bat ‘ayin”, que traduzido literalmente seria: “escuridão da filha do olho”. Como não há dúvidas de que essa expressão hebraica se refere à pupila, cada cultura traduziu a seu modo: No Brasil: “menina dos olhos” (pupila); nas versões inglesas: “maçã dos olhos” (pupila).

Mas por que em nosso país a pupila é chamada de “menina dos olhos”? Simples: em latim, pupila é a junção de “pupa” (menina ou boneca) + “ila” (um diminutivo). Os latinos sabiam que a região negra do olho é muito sensível, que precisava ser protegida. Daí que a batizaram como “pequena menina”.

Em países de língua inglesa a pupila passou a ser conhecida como "maçã do olho" por influência do trabalho atribuído ao Rei Alfredo de Wessex (século IX). Esse sujeito devia gostar muito de maçãs!



Jones F. Mendonça

LAMENTAÇÕES: DOIS VERSOS, QUATRO INFORMAÇÕES



O capítulo 4 de Lamentações possui 22 versos, cada qual começa com uma consoante do alfabeto hebraico (são 22, conforme a imagem). Os versos 20 e 21 nos dizem quatro coisas importantes: 1) O rei era tratado como “Messias” (ou Ungido); 2) A importância dada a ele é revelada pelo modo como era chamado: “o sopro das nossas narinas”; 3) A captura do rei pelos babilônios foi - por conta disso - algo desesperador; 4) Uz, a terra na qual vivia Jó, não ficava em Israel, mas em Edom.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

ISAÍAS, CIRO E OS FORJADORES DE METAIS

Os versos 6 e 7 do capítulo 41 do profeta Isaías descrevem de maneira poética forjadores de metais em preparação para a batalha. O que se tem em vista é a ascensão de Ciro, “aquele que sujeita os reis” (v. 2), tratado pelo profeta como o “messias de Javé” (Ungido de Deus, cf. 45,1). Leia com atenção:
“Cada um ajuda o seu companheiro,
e diz ao seu irmão: “Coragem!”
O artífice dá coragem aos OURIVES;
aquele que alisa com o martelo, ao que bate na bigorna,
dizendo a respeito da solda: “Ela está boa”;
ele firma-a com pregos para que não se abale 
(Trad. Bíblia de Jerusalém).
Não é difícil perceber que o texto descreve o ambiente de trabalho de especialistas no manejo de metais utilizados em armas de guerra. Quando li o texto, pensei: “o que o ourives faz ali?”. Intrigado, consultei o texto hebraico. Não é ourives. Tzaraf é verbo (fundir, refinar). Uma tradução mais fiel seria algo como “FUNDIDOR” (como em Zc 13,9), pessoa que trabalha os metais no fogo (A Bíblia TEB acerta ao traduzir tzaraf por “moldador”).

Tzaraf (fundidor) até pode ser traduzido como “ourives”, quando o que ele funde é o ouro, como em Is 40,19: “o tzaraf a reveste de ouro [a imagem]”. Em Is 41 este tzaraf “alisa o martelo”, “bate na bigorna”, “firma a solda com pregos”. Parece fabricar armas, não joias preciosas. Outras versões (como a NVI) fazem pior. O que está sendo firmado pelo ferreiro é a solda, mas a NVI entende que é o ídolo: “E fixa o ídolo com prego para que não tombe”.


Jones F. Mendonça


terça-feira, 10 de dezembro de 2019

TROCADILHOS NA BÍBLIA: INIMIZADES

Arte: Robert Crumb
Não há qualquer verso na Bíblia dizendo que o nome “Jacó” (Yaaqov) significa “usurpador”. O que o texto faz é destacar a semelhança fonética entre “Yaaqov” e outras duas palavras hebraicas: “'aqav” (usurpar, enganar) e “aqev” (calcanhar). Veja:
“e sua mão segurava o calcanhar (aqev) de Esaú, por isso foi chamado de Jacó (Yaaqov)” (Gn 25,26).
“Esaú disse: ‘verdadeiramente recebeu o nome de Jacó (Yaaqov): pois é a segunda vez que me enganou (aqav)’” (Gn 27,36).
As duas narrativas, de natureza etiológica, visam explicar – cada qual a seu modo – a inimizade entre israelitas e edomitas.



Jones F. Mendonça

TROCADILHOS NA BÍBLIA: PEREGRINOS


Após se retirar para Midiã fugindo de Faraó, Moisés parou junto a um poço. Lá defendeu sete moças, filhas de Raguel, que estavam sendo importunadas por alguns pastores. Quando retornaram para casa contaram ao pai o acontecido. Raguel não perdeu tempo: “vocês deixaram esse homão partir?!”. Obedientes, as moças trouxeram Moisés, que se casou com Zípora. Depois ela engravidou. O nome do filho: “Gersam” (Ex 2,22). A razão de ter recebido este nome aparece logo adiante: “porque era um “ger” (“peregrino”, em hebraico) em terra estrangeira”. A Bíblia está repleta desses trocadilhos.

Ah, o “homão” é por minha conta.



Jones F. Mendonça

POR QUE JACÓ NÃO RECONHECEU LIA?

A história é bem conhecida: Jacó trabalha por sete anos para se casar com Raquel, mas na hora “H”, numa tenda sob o céu noturno, é enganado por Labão e passa a noite com Lia, irmã mais velha de Raquel. Os rabinos quebraram a cabeça para entender como Jacó não percebeu que ela era a mulher errada. Veja as respostas:

1. Era noite (Gn 29,23), por isso Jacó não conseguiu ver o rosto de Raquel;
2. Mas não havia velas? A resposta: é indecente fazer sexo à luz de velas;
3. Como Jacó não reconheceu a voz de Lia? A resposta: é falta de decoro falar durante o sexo;
4. Jacó estava bêbado após o banquete mencionado em Gn 29,22 e a embriaguez atordoa os sentidos.
5. Jacó tinha miopia grave, pouca sensibilidade no tato e ouvia muito mal (brincadeira, essa hipótese ninguém levantou. Mas as quatro primeiras são verdadeiras, viu!). 

Levando em conta que a história precisava ser crível para seus ouvintes primários, talvez a resposta nº 4 seja a que faz mais sentido. Leia mais no The Torah.



Jones F. Mendonça

ACÃ, O “OKER”, NO VALE DE AKOR


Uma das histórias mais populares do livro bíblico de Josué é a que narra o pecado e o apedrejamento de AKAN (Acã, em português), personagem que “perturbou” (AKAR, cf. Js 7,25) o acampamento israelita, subtraindo objetos sob interdição divina. Além do apelo à obediência, o relato explica a origem do nome de um vale ao norte de Jericó: “Por esse motivo se deu àquele lugar o nome de vale de AKOR, até hoje” (Js 7,26). Com o propósito de tornar o jogo de palavras mais afinado, a tradição mudou o nome de Akan para AKAR, na medida em que ficou lembrado como “o perturbador (OKER) de Israel que transgrediu o interdito divino” (1Cr 2,7).

Traduzindo e simplificando: AKAN (nome próprio), “perturbou” (AKAR, verbo) a ordem estabelecida, converteu-se no “perturbador” (OKER) de Israel e por isso o vale no qual foi apedrejado recebeu o nome de AKOR. Quando as crianças perguntavam aos pais a razão do amontoado de pedras em um vale conhecido como “AKOR, eles tinham uma resposta rica em similaridade sonora.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

TROCADILHOS NA BÍBLIA: PRIMOGENITURAS


A disputa pelo direito da primogenitura é um tema recorrente no Antigo Testamento. O mais famoso envolve Esaú e Jacó. Esaú, o mais velho, de pele avermelhada (Gn 25,25), vende a Jacó seu direito de primogenitura por um punhado de cozido vermelho (25,30). Também chamado de “Edom” (significa “vermelho”), torna-se o pai dos edomitas (32,3; Ob 1,8).

Uma segunda narrativa bíblica incorpora elementos muito parecidos. Trata-se da história de Zará e Peres, filhos da relação incestuosa entre Judá e Tamar (Gn 38). As semelhanças: 1) Eram gêmeos (v. 27); 2) Disputavam os privilégios da primogenitura desde o ventre (v. 29); 3) O mais velho, também indicado pela cor vermelha (v. 28), perde o direito de primogenitura para seu irmão mais novo (v. 29).

Uma última curiosidade: Jacó (yakov) recebe este nome porque segurava o “akev” (calcanhar) de Esaú (Gn 25,26). Peres (Parez), também o mais novo, recebe este nome porque “paraz” (rompe) uma abertura, permitindo que saia na frente de seu irmão.


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

ISMAEL NÃO RIA DE ISAAC

Gn 21,9 tem sido traduzido de diversas formas. Na NTLH, Sara fica indignada após ver que Ismael, “BRINCAVA com Isaac”. A versão ARA explica que a indignação ocorre porque Ismael “CAÇOAVA de Isaac”. Na NVI consta que Ismael “RIA de Isaque”. Quem traduziu corretamente? Qual a razão da indignação de Sara?

Os tradutores não chegam a um consenso porque o verbo “tzahaq” comporta diversos significados: “rir” (Gn 17,17 – sentido primário), “divertir” (Jz 16,25 – a diversão encontra no riso sua manifestação concreta), "insultar" (Gn 39,17 – riso como deboche) e até “namorar”: “Abimeleque viu que Isaac estava ‘tzahaq’ (rindo) com sua esposa Rebeca” (Gn 26,8). “Rindo”, aqui, é um eufemismo (provavelmente trocavam carícias). Voltemos a Gn 21,9.

O texto hebraico não diz que o filho de Hagar (Ismael) “brincava COM Isaac” (a expressão "com Isaac" só aparece na LXX). Diz simplesmente que Sara “viu que o filho de Hagar ria” (v.9). Mas ria de quê? Bem, o v.8 situa o episódio durante a festa de desmame de seu irmão Isaac. Nesse ambiente festivo Ismael ri (v. 9) e logo em seguida, no v.10, Sara pede a expulsão de Hagar e Ismael.

A raiva de Sara pode ser explicada caso entendamos o gracejo de Ismael como expressão da convicção de que o nascimento de Isaac não representava uma ameaça à sua porção da herança. É como se dissesse: “há, há, e daí que Issac nasceu. Ainda tenho parte na herança!”. O riso debochado explicaria a ira de Sara: “Expulsa esta serva e seu filho, para que o filho desta serva não seja herdeiro com meu filho Isaac” (v.10).

O Targum do Pesudo-Jonathan situa o riso de Ismael no contexto de adoração a um deus estranho: “Sara observou o filho de Hagar, o Mizreitha, a quem ela deu a Abraão, zombando em uma adoração estranha”. Mas esta explicação não pode ser autorizada pelo contexto. Minha tradução do v. 9 ficaria assim: “Ora, Sara percebeu que o filho nascido a Abraão da egípcia Agar, RIA” [da tentativa de aniquilar sua herança gerando outro filho].

Sim, era um riso zombeteiro, mas não dirigido a Isaque.



Jones F. Mendonça

TZAHAQ E YTZEHAQ: TROCADILHOS NA BÍBLIA HEBRAICA

Isaque e Rebeca, por Robert Crumb

O verbo “rir” ocorre em 12 versos do Antigo Testamento. Na maioria das vezes aparece associado a Isaac: 1) Abraão ri quando sabe que terá um filho (Gn 17,17); 2) Sara ri quando descobre que ficará grávida (18,12-15); 3); Sara diz que Deus lhe deu motivo de riso e que todos rirão com ela (21,6); 4) Durante um festejo para celebrar o desmame de Isaac, seu irmão Ismael é visto rindo (21,9); 5) Abimeleque, rei dos Filisteus, olha pela janela e vê Isaque “rindo” para Rebeca (26,8).

Uma curiosidade: rir, em hebraico é “tzahaq” e o nome de Isaque, em hebraico é “Ytzehaq”. Não é difícil perceber que o verbo tzahaq foi escolhido pelo escritor bíblico com o único objetivo de combinar sua sonoridade com o nome do personagem Isaac (Ytzehaq). Foi empregado para expressar dúvida e incredulidade (de Abraão e de Sara), para expressar alegria (de Sara a das pessoas que lhe eram próximas), para expressar alegria?/diversão?/deboche? (de Ismael) e para expressar relações afetuosas (Isaac e Rebeca).

O texto ganhou em sonoridade, mas também em ambiguidade: Ismael, afinal, ria de quê ou de quem?  O que exatamente Abimeleque viu quando olhou pela janela?  



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

ABRAÃO E OS ANIMAIS DIVIDIDOS EM GN 15

Em Gênesis 15, Abrão realiza um ritual de aliança muito estranho. Ele parte animais ao meio e os dispõe em fileiras. Depois que o sol se põe e as trevas se estendem sobre a terra, uma fogueira fumegante e uma tocha de fogo passam por entre os animais divididos. O ritual, talvez de origem hitita, é mencionado (e explicado) pelo profeta Jeremias, em 34,18. A arte abaixo compõe uma das páginas do "Gênesis ilustrado", por Robert Crumb.


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

FARAÓ E AS PEDRINHAS DOS MENINOS

Faraó, querendo exterminar os filhos homens dos hebreus, diz assim às parteiras: “Quando ajudardes as hebreias a darem à luz, examinai sobre os ABNIYM. Se for menino, matai-o. Se for menina, deixai-a viver” (Ex 1,16). ABNIYM seria uma parte do corpo do bebê? O local sobre o qual era colocada a criança ao nascer? 

Ninguém sabe ao certo o significado da palavra hebraica abniym (um termo que está no plural). Ela só reaparece em Jr 18,3: “o oleiro estava trabalhando sobre os ABNIYM”. Como a raiz desta palavra é a mesma de “pedra” (pl. abaniym), há quem pense que o termo designe bancadas de pedra, usadas tanto pelo oleiro como pelas parteiras. A hipótese é a que faz mais sentido. 



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

LUTERO, ÉTICA CRISTÃ E A CARTA AOS GÁLATAS

Em sua Ética Cristã, publicada entre maio e junho de 1520, Lutero defende ferrenhamente a supremacia da fé sobre as obras. Mais do que isso. Para o reformador, uma obra só pode ser considerada boa se produzida pela fé. Fora da fé, todas as obras seriam más (mesmo aquelas que são aparentemente boas).

São nítidas as críticas de Lutero à teologia escolástica medieval, inspirada na filosofia de Aristóteles (ele é chamado de “palhaço” pelo reformador). De acordo com os escolásticos, o homem teria sido dotado por Deus com o “habitus”, disposição natural para o bem, aperfeiçoada pelo exercício. O reformador se impõe energicamente a esta concepção.

Mas Lutero distorce um texto de Gálatas para fundamentar sua teologia da graça. Na versão em português de sua Ética Cristã (Sinodal, 1999, 154 p.), o texto aparece assim: “vocês receberam o espírito não de suas BOAS OBRAS, mas por terem CRIDO na palavra de Deus” (Gl 3,2). O texto grego, no entanto, traz: “OBRAS DA LEI” e não “boas obras”.



Jones F. Mendonça 

terça-feira, 15 de outubro de 2019

OS REFORMADORES E AS AUTORIDADES

Muitas das ideias defendidas por Lutero no século XVI já haviam sido anunciadas por John Wyclif, teólogo e professor da universidade de Oxford. Um exemplo. Em seu tratado De Officio Regis (1379), Wyclif coloca o estado acima da igreja, contrariando o ensinamento de Tomás de Aquino, maior teólogo medieval.

Wyclif fundamentou suas posições citando Agostinho e Paulo aos Romanos: “todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus” (Rm 13,1). Em seu desejo de enfraquecer o clero, Wycliff acabou ajudando a criar outro monstro: o absolutismo monárquico.

A crença no direito divino dos reis só foi combatida mais tarde por John Locke (1632-1704). Ainda hoje é possível encontrar cristãos fundamentalistas usando Rm 13 para justificar a submissão incondicional às autoridades (quando essas autoridades são apoiadas por eles, claro!).



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

NINGUÉM NASCE MULHER?

De modo geral, quando um bebê nasce, projetamos sobre ele nossas aspirações e impomos sobre ele desde cedo características de diferenciação sexual. Se é do sexo masculino: roupa e quarto azul. Se é menina: roupa e quarto rosa. Também o comportamento é direcionado: “menina não joga futebol!”, “menino não chora”, etc. O procedimento é comum em diversas culturas. Esses elementos distintivos, no entanto, não caem do céu, são construções humanas. Têm lá seus aspectos positivos (como a coesão social) e também negativos (alguns não se identificam com esses “selos” de diferenciação).

Quando Simone de Beauvoir disse, já no final da década de 50, que “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”, não queria com isso negar as diferenças biológicas entre macho e fêmea (é óbvio!), muito menos insinuar que os seres humanos nascem sexualmente neutros. Muitas de suas queixas tinham a ver com o papel reservado à mulher imposto pela sociedade (sobretudo pelos homens). O termo “mulher”, em sua fala, era usado para indicar essa construção, essa imagem idealizada da fêmea transformada numa espécie de modelo imutável e definitivo.

“O segundo sexo”, de Simone de Beauvoir, é uma obra-prima de quase mil páginas. Fazer um pouquinho de esforço para entender o que ela diz não fará mal a ninguém.



Jones F. Mendonça

DA DILUIÇÃO DAS COISAS

Perguntam-me sobre a origem, sobre as razões históricas ou filosóficas que desencadearam o processo de diluição das coisas. Bem, a percepção do homem como um projeto em construção (e desconstrução) e não como tendo uma essência determinada remonta a filósofos do século XX, tais como Jean Paul Sartre (diluição da identidade).

A negação de um fundamento absoluto da moral pode ser encontrada em Nietzsche, filósofo do século XIX: “não existem fenômenos morais, mas interpretações morais dos fenômenos” (diluição da moral). Aliás, a frase nietzschiana “Deus está morto” diz respeito à negação de fundamentos metafísicos para a moral e não da existência de Deus.

No século XVII, sob a influência de John Locke, o liberalismo inglês rejeitou o direito divino dos reis e lançou as sementes para o nascimento da democracia e dos direitos humanos (diluição da autoridade política). Atualmente há gente tonta o suficiente para rejeitar essas duas conquistas...

No século XVI Lutero lançou sal no caramujo das verdades absolutas do dogma ao negar que o Papa tenha as chaves da igreja e da interpretação das Escrituras (diluição da autoridade religiosa). E você encontra protestantes ingênuos reclamando da diluição da fé. Não se dão conta de que o remédio para isso é a teocracia e a Inquisição.

A diluição e fragmentação da identidade, dos costumes, da religião, da moral não é um projeto elaborado por um grupo de pessoas. São os efeitos colaterais (negativos ou positivos) da busca pela autonomia e pela liberdade.


Jones F. Mendonça

O JUÍZO FINAL E O LIVRO DA VIDA (E DA MORTE)


Este macabro painel, de Jacobello Alberegno (século XIV), mostra a ressurreição do corpo no dia do juízo final tal como expressa em Ap 20. As obras que cada um realizou estão registradas nos livros (nas mãos dos esqueletos). Os da esquerda (livros pretos) são os condenados. Os da direita (livros vermelhos), os redimidos.



Jones F. Mendonça

A ESPOSA DE JÓ E A "BÊNÇÃO DA MORTE"

Em todos os manuscritos do Antigo Testamento preservados, as palavras da mulher do Jó próximo da morte são: “abençoa a Deus e morre”. As Bíblias, no entanto, trazem: “amaldiçoa a Deus e morre” (Jó 2,9). Há três hipóteses para o caso em questão.

Opção 1: a palavra "bênção", neste caso específico, seria um modo debochado de dizer "amaldiçoa". Os tradutores, entendendo o deboche, optaram por traduzir o termo por “amaldiçoa”. Até onde sei, esta é a teoria mais aceita (mas que eu não engulo, e vou expor minhas razões).

Opção 2: “Bênção” seria mesmo um pedido de bênção, prática costumeira entre os antigos hebreus, que invocavam o seu Deus nos últimos momentos de vida. A mulher de Jó, neste caso, estaria dizendo: “faça sua bendição final e morra, ninguém merece tanto sofrimento”. Ocorre que não há na Bíblia hebraica qualquer referência a uma tal “bendição dos moribundos” (talvez haja no judaísmo rabínico).

Opção 3: No texto original constava "maldição", mas um copista piedoso trocou “maldição” por "bênção", afinal seria desonroso inserir “maldição” ao lado no nome divino (elohim). Teve que optar: ou “ofende” o texto ou ofende a Deus. Optou pela primeira. Trata-se de um típico caso de tiqqun soferim (correção do escriba). Esta é a tese que faz mais sentido. Eis minhas razões:

Muita gente não se dá conta de que no livro de Jó a presença da palavra “benção” com sentido de “maldição” ocorre em outro verso. E o mais importante: como no caso anterior surge com sentido trocado ao lado do nome divino. Jó, preocupado com uma possível vida pecaminosa de seus filhos, diz assim:

“Talvez meus filhos tenham cometido pecado, ABENÇOANDO A DEUS em seu coração” (Jó 1,5).

Fiz a tradução acima a partir do texto hebraico. Nele não consta “maldizendo”, mas “abençoando” (uberakhu). Neste caso não cabe a explicação de que se trata de uma bendição que se faz nos últimos momentos de vida. Tampouco faz sentido ver no texto qualquer indício de deboche. Note o leitor que como no caso anterior, se a palavra correta fosse inserida (maldição, “qelalah”), o termo estaria ao lado do nome divino. O copista, por piedade, trocou a palavra por seu antônimo.

Há ainda um outro caso, em que Nabode é acusado de AMALDIÇOAR a Deus e ao rei (1Rs 21,10.13). Mas no texto hebraico vem escrito “abençoar a Deus”. Ora, por que alguém seria acusado de abençoar a Deus? Aqui o escriba empregou o mesmo recurso: por piedade, trocou o termo “maldição” (qelalah) por “bênção” (berakah).



Jones F. Mendonça

DANIEL E O ÉPICO DE AQHAT

Leio o épico de Aqhat, antiga lenda semítica (séc. XIV a.C.) escrita para explicar a seca que assola a terra no verão. Um trecho do poema cita "Daniel" (ou Danel), herói com o mesmo nome do personagem bíblico. Outro trecho menciona a preocupação com órfãos e viúvas:

Daniel, homem de Rapiu [uma divindade]
O herói, homem dos harnemitas (um povo),
Levanta e senta junto ao portão,
entre os chefes na eira.
Cuida do caso da viúva
Defende as necessidades dos órfãos.

SMITH, Mark S. Ugaritic Narrative Poetry (Vol IX). Society of Biblical of Literature, 1997, p. 58.


Jones F. Mendonça


A BÍBLIA E OS GORDINHOS

Após confessar que invejou os arrogantes, o salmista expõe as (injustificadas) razões de seu pecado: “pois não conhecem tormentos para a morte. Gordas são as barrigas deles” (Sl 73,4). A NVI trocou “barriga gorda” por “corpo saudável e forte”. A NTLH optou por “fortes e cheios de saúde”. Mas é "barriga gorda" mesmo, viu! A palavra “gordo(a)” (bariy’) reaparece em Jz 3,17, usada para qualificar o rei Eglon de Moab: “Eglon era muito gordo”. Mas por que o salmista invejaria a "barriga gorda" dos ímpios? Ora, por que eram bem alimentados, claro.


Jones F. Mendonça

O HEBRAICO EM CORPOS CONCRETOS

Em boa parte das traduções toda a beleza concreta do hebraico se perde. No Salmo 44,25 alguém numa situação muito difícil (o exílio?) lamenta o estado de humilhação no qual se encontra seu povo. E diz assim (tradução literal):

“Pois se inclina(A) ao pó(B) a nossa garganta(C),
Adere(A') à terra(B') o nosso ventre(C')”.

Repare que a poesia hebraica valoriza a correspondência entre palavras do verso 1 e do verso 2: inclina/adere(A); pó/terra(B); garganta/ventre(C). O paralelismo sinonímico é um dos recursos literários mais utilizados na Bíblia hebraica. 


Jones F. Mendonça

CATECISMO PROTESTANTE

O que você lê aqui, dito por Frankin Ferreira em sua “Teologia cristã” (Vida Nova, 2015), segue a mesma “lógica” de Augusto Nicodemus e Jonas Madureira:

“A fé cristã afirma a necessidade de abraçarmos, com todo nosso coração, certos pressupostos, que determinarão como interpretamos as Escrituras e a criação”.

Na ordem, teríamos: fé > pressupostos > interpretação correta das Escrituras. Ora, mas se os pressupostos da fé estão nas próprias Escrituras (ou não estão?), como alguém poderia tê-los consigo antes de lê-las?

Os pressupostos corretos, aos quais ele se se refere, é a teologia reformada. Não diz isso com todas as letras, mas fica implícito. Na prática, vá lá, é assim que a coisa funciona no ambiente eclesial. Batistas leem a Bíblia com as lentes da doutrina batista, pentecostais com as lentes pentecostais, etc. Mas neste caso o Sola Scriptura se converte numa farsa. Na prática as Escrituras são lidas a partir da tradição! Como os católicos sempre fizeram e fazem.


Jones F. Mendonça

A REFORMA PROTESTANTE E AS JAULAS MEDIEVAIS

Até o século XV os cristãos da Europa formavam praticamente um único rebanho: eram católicos apostólicos romanos. Reuniam-se ao som do mesmo sino, da mesma doutrina, do mesmo Papa, dos mesmos sacramentos, da mesma liturgia, dos mesmos preceitos morais. As igrejas ocupavam o centro geográfico e o centro da existência humana. Era um mundo seguro, ordenado, estável. Mas não era um mundo livre.

Quando Lutero questionou a autoridade do Papa como legítimo intérprete das Escrituras, esse mundo se dissolveu como caramujo em pedra de sal. A verdade, antes guardada no estojo dourado das coisas imutáveis, saltou para os celeiros das leituras individuais. Cada qual passou a ler o texto a seu jeito. Uma crise de autoridade se instalou. Não demorou e o povo também começou a questionar o direito divino dos reis. Entramos na era das revoluções.

Sob uma perspectiva existencial, não era mais um mundo seguro, ordenado, estável. O universo das verdades religiosas, ideológicas e morais foi se tornando cada vez mais fluido. Formaram-se muitos rebanhos, infinitas crenças, identidades cada vez mais fragmentadas. As ideologias se espalhavam como fumaça em dia de ventania. Um mundo – é verdade – em certa medida angustiante, doloroso.

Há quem tente superar essa inquietação erguendo muros ao redor de sua própria vida. É uma solução legítima. Mas há aquela galera perigosa, rancorosa, mal resolvida, defendendo clausuras coletivas. Morrem de saudade das jaulas medievais. Não apenas para si, mas para todos os outros.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

AS CARTAS DE PAULO NO MAPA

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Embora tenha nascido em Jerusalém, o cristianismo se estruturou em Roma, capital do Império. O mapa mostra as comunidades cristãs com as quais Paulo se correspondeu por meio de cartas (e que ganharam valor canônico). Fiz o mapa com a ajuda do peripleo.pelagios.org e do bibleatlas.org.


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

OS PRIMOGÊNITOS NO JUDAÍSMO TALMÚDICO

De acordo com o Deuteronômio (15,19) todo o primogênito macho das vacas e das ovelhas deve ser sacrificado a Javé, Deus de Israel. Isso significa que não podem ser tosquiados, usados como animal de carga ou abatidos para consumo. Ocorre que após a destruição do Templo, em 70 d.C., os sacrifícios tiveram que ser suspensos. O que fazer com estes animais? Podem ser consumidos?

O Talmude respondeu a essa questão com um NÃO. Bem, mas uma decisão como essa levaria os pecuaristas judeus à falência tendo que alimentar um enorme rebanho de primogênitos “improdutivos”. A solução encontrada foi a seguinte: a pessoa que faz o parto pode infligir um defeito no animal enquanto ainda estiver no útero (como um pequeno corte na orelha), tornando-o inapropriado para o sacrifício e consequentemente apropriado para outros usos (Gemará, em Temura 24b).

A ação não é vista como uma violação da lei, afinal um animal não pode ser considerado primogênito até que nasça. No útero o ele é apenas uma possibilidade (uma “potência”, como dizia Aristóteles). Como eram sagazes esses rabinos...

Leia mais aqui (via Paleojudaica). 


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

CLERO, SARCASMO, ARTE E INDULGÊNCIAS


Em 1509, enquanto Lutero conquistava seu diploma de bacharel em Bíblia pela Faculdade de Wittenberg, Erasmo de Roterdã - seu futuro desafeto - debochava do declínio moral do clero inspirado no sarcasmo de Luciano de Samósata, escritor latino do II século. Um dos seus alvos foi o Papa Júlio II, sobrinho de outro Papa: Sisto VI (de seu nome vem o título “Capela Sistina”). Foi de Júlio a ideia de derrubar a antiga basílica de São Pedro construída do século IV por Constantino. A nova seria erguida com a venda de indulgências...

No texto de Erasmo, intitulado “O elogio da loucura”, Júlio é barrado por São Pedro nas portas do céu e é tratado pelo apóstolo como “Júlio, o imperador que voltou do inferno”. Uma das razões da recusa de Pedro era o gosto de Júlio pela espada, daí sua fala: “Batina de padre, mas armadura ensanguentada por baixo”. No filme “Lutero” (2004, direção de Eric Till) Júlio aparece vestindo uma armadura, para desgosto de Lutero. Júlio também surge vestido como mais gostava no filme “A agonia e o êxtase” (1965).



Jones F. Mendonça

terça-feira, 20 de agosto de 2019

NÃO É “TORRE DE BABEL”, É “TORRE DE BABILÔNIA”

Em Gn 11,9 a palavra hebraica “Babel” é traduzida literalmente: “Babel” (referência à cidade na qual foi construída uma torre). Em Is 11,4 “Babel” é traduzida por “Babilônia” (referência ao poderoso império mesopotâmico que destruiu Jerusalém em 586 a.C.). Bem, em minha opinião a “Babel” de Gênesis e a “Babel” de Isaías indicam a mesma cidade. Explico.

A tal torre de Gn 11 provavelmente se refere a um zigurate, templo religioso em forma de pirâmide terraplanada (Etemenanki: “templo da fundação do céu e da terra”) construído na Babilônia. A etimologia popular explicou o nome “Babel” a partir do verbo hebraico “balal” (misturar/confundir), daí: “Deu-se-lhe por isso o nome de Babel, pois foi lá que Deus ‘balal’ (misturou/confundiu)”. Os judeus adoravam esses trocadilhos. "Babel", para os babilônios significava "entrada de Deus". 

A semelhança entre a “Babel” de Gênesis 11 e a “Babel” de Isaías não está apenas no nome. Note que em Is 14,13 (veja também Is 51,53) o rei da Babilônia é censurado por achar que poderia “subir até o céu, acima das estrelas de Deus” (Egito e Edom são condenados pela mesma falta em Ez 31,10 e Ob 1,3). Na Babel de Gênesis o pecado é o mesmo: “Vinde! Construamos uma cidade e uma torre cujo ápice penetre nos céus!”.

Gn 11,1-9 é, em seu contexto original, um deboche à religião e à arrogância dos babilônios. A data provável da redação: o período exílico (597-537 a.C.). Os autores: judeus exilados, especialistas na arte do escárnio e da troça.



Jones F. Mendonça

SHELOMI, A NAMORADEIRA DO LEVÍTICO

O livro do Levítico (24) conta a história de um menino que foi apedrejado após blasfemar contra Deus. O menino, cujo nome não é mencionado, tem por mãe “Shelomi, filha de Divri, da tribo de Dan” (v. 11) e por pai um egípcio (v. 10). Comentários judaicos sobre a narrativa revelam a obsessão dos rabinos por explicações que pudessem relacionar o nome de uma pessoa aos seus atos. Na verdade, revela mais coisas. Veja:

Um comentário judaico (midrash Vayikra Rabbah) vê semelhanças entre o nome “Shelomi” e a palavra shalom (paz). Sugere que Shelomi vivia se oferecendo aos homens com suas saudações maliciosas: “shalom, Fulano”, “shalom, Cicrano”. Outro comentário associa o nome do pai de Shelomi, Divri, à palavra de mesma raiz “davar”, “falar”. Tal semelhança seria capaz de reforçar a tese: Shelomi seria uma paqueradora tagarela.

E você perguntando de onde Feliciano tira inspiração para seus sermões...

Leia mais sobre o assunto no The Torah (por Wendy Zierler). 


Jones F. Mendonça

O CRIME DE GABAÁ E AS DANÇARINAS DE JAVÉ

A expressão “nesse tempo não havia rei em Israel” aparece quatro vezes no livro de Juízes (17,6; 18,1; 19,1; 21,25). Ela surge antes ou depois de uma ação moralmente condenável, como no caso do crime de Gabaá (capítulos 19-21).

Nessa história um grupo de benjamitas estupra e mata a concubina de um levita que havia se hospedado na casa de um homem das montanhas de Efraim. Indignado, o levita corta o corpo de sua concubina em doze partes e as envia às tribos de Israel denunciando o crime dos benjamitas.

As tribos entram em guerra contra os benjamitas e eles acabam derrotados. Em seguida fazem um juramento se comprometendo a jamais darem suas filhas em casamento aos benjamitas. Mas logo se dão conta do erro que cometeram: a falta de mulheres poderá levar a tribo de Benjamin à extinção. E agora, o que fazer?

A solução encontrada: 1) sequestrar 400 virgens de Jabes Galaad e matar o resto da população; 2) sequestrar mulheres de Silo, enquanto saem para dançar nas vinhas por ocasião de uma festa religiosa. Bem, a história não tem um final, digamos, inspirador sob o ponto de vista moral. É por isso que ela termina assim:

“Naqueles dias não havia rei em Israel, e cada um fazia o que lhe parecia correto” (21,25).



Jones F. Mendonça

terça-feira, 6 de agosto de 2019

DEBORAH, A ABELHA DE FOGO

Deborah (=abelha), em Jz 4,4, é apresentada como “profetiza, mulher de Lapidot”. Uma dúvida atormenta o tradutor: “Lapidot” é o nome de seu marido? (que nunca mais aparece). É o nome do local de seu nascimento? (que nunca mais aparece?). Ou deve ser traduzido literalmente: “mulher de labaredas”? (lapidot é plural de lapid = labareda/tocha). Se esta for a opção correta, o que cargas d’água seria uma “mulher de labaredas”?

Curioso é que Baraq, aquele líder que confessa só ir à batalha caso Deborah siga ao seu lado (4,8), possui um nome que significa algo como “raio de luz” ou “relâmpago”. Ela a “labareda”. Ele o “relâmpago”. Que coisa, não? Bem, ambos têm um inimigo comum: Sísera, guerreiro com 900 carros. Mas quem brilha mesmo nessa história é Jael, mulher que crava uma estaca na cabeça de Sísera (4,21). O leitor, atento ao que foi dito em 4,9, percebe que se enganou. Deborah não falava dela mesma, mas de outra mulher.

O mais estranho: antes de acabar com Sísera, Jael lhe dá leite e cama com cobertinha e tudo (4,19). Na literatura judaica as mulheres geralmente liquidam seus inimigos usando vinho e sedução, como é o caso de Dalila, Judith, Ester e Salomé. Uma história repleta de enigmas. Vestígios da mão de um redator/revisor sapiencial?



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

BREVE HISTÓRIA DO PESSIMISMO

É possível classificar os pessimistas em diversas categorias. Há, por exemplo, os pessimistas religiosos, como Agostinho, Lutero e Calvino. São “pessimistas metafísicos” porque explicam a dor, a angústia, a injustiça, a maldade humana a partir da influência negativa da vontade (corrompida pela queda): o pecado original teria afetado a natureza humana de tal forma que só uma interferência divina daria jeito. Uma existência plena é projetada para o mundo porvir.

O gnosticismo – corrente cristã que fez muito sucesso no II século – explicou o mal de outra forma: o mundo teria sido criado por um Deus mau, o demiurgo. Mas no homem residiria uma centelha do Deus verdadeiro, que poderia ser despertada pelo Cristo. O dualismo gnóstico, cujo pessimismo geralmente é classificado como “pessimismo cosmológico”, praticamente desapareceu.

No âmbito filosófico temos uma gama de pessimistas. São diferentes dos religiosos porque não veem o mal como tendo origem num pecado original. Um exemplo: Schopenhauer. Seu pessimismo é do tipo “passivo” porque não apresenta uma solução definitiva para o problema do sofrimento e da falta de sentido da vida (a arte seria uma solução paliativa, um consolo). Algumas vezes é chamado de “pessimismo romântico”.

Embora reconheça – como Schopenhauer – o absurdo da vida, Nietzsche era um “pessimista ativo”. Inspirando-se no modo como os gregos encaravam a tragédia, diria algo assim: “é preciso afirmar não apenas o gozo e as alegrias, mas também a dor e o sofrimento” (amor fati). Mais do que isso: ele diria que é preciso desejar a vida com todas as suas atrocidades, mesmo que se repitam num ciclo perpétuo, o “eterno retorno”.

Na primeira metade do século XX surgiram pessimistas existencialistas como Sartre (escreveu um livro chamado “A náusea”!) e Simone de Beauvoir (autora da famosa e mal compreendida frase “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”). Os existencialistas diziam, como todo o “pessimista” (“niilista” é um termo melhor), que a vida não tem sentido. A destruição provocada pela guerra realçou essa dimensão trágica da vida. O remédio proposto pelos existencialistas: inventar um sentido e projetar as energias nele.



Jones F. Mendonça

sábado, 27 de julho de 2019

CAJADO FLORIDO E NEHUSHTAN: DOIS CONTOS ETIOLÓGICOS

O Dr. Raanan Eichler, em artigo publicado no The Torah, argumenta que o cajado florido de Aarão mencionado em Nm 20,20-25 (com “brotos”, “flores” e “amêndoas”) é na verdade uma Aserá, símbolo de uma divindade representada por uma árvore. Associações entre Aserá e Javé aparecem, por exemplo, em cacos de cerâmica (pithoi) encontrados em Kuntillet Ajrud, na Península do Sinai, datados para o século IX/VIII a.C.: “Javé de Samaria e Aserá”. “Javé de Teman e Aserá”.

O autor explica que as Aserás eram proibidas em textos deuteronomistas (Dt 7,15; 16,21), mas aceitos em textos sacerdotais como símbolo do sacerdócio aarônico. Aproximações de sentido entre a raiz hebraica da palavra “Aserá” (Álef, Sin, Resh) e a palavra “Bênção” (beyt, resh, khaf) seriam outros indícios. Os sacerdotes aarônicos são fontes de bênção (Nm 6,22-27), assim como nas inscrições nas quais Javé aparece ao lado de Aserá:

Bendito é Uriahu por Javé e Aserá”;
“Eu te abençoo por Javé de Samaria e Aserá”;
“Eu te abençoo por Javé de Teman e Aserá; Que ele te abençoe e te guarde”. 

As consoantes de “Aserá” tem um sentido muito próximo de “Bênção”, como no paralelismo do Salmo 72,17:

Nele sejam abençoadas (Beyt, resh, Khaf) as raças todas da terra,
e todas as nações o proclamem bem-aventurado! (Álef, Sin, Resh).  

Assim, o relato presente em Nm 20,20-25 (florescimento do cajado de Aarão) seria um conto etiológico sacerdotal usado para legitimar o sacerdócio aarônico e justificar a presença de um símbolo associado à idolatria.

A história seria uma contrapartida do relato não-sacerdotal da serpente de bronze (Nm 21,4-9), que é uma etiologia da serpente de cobre Nehushtan destruída por Ezequias (2Rs 18, 4), e que atribui os poderes de reavivamento desse objeto à vontade de Javé, conforme realizado por meio da autoridade exclusiva de Moisés.


Jones F. Mendonça