terça-feira, 23 de agosto de 2022
quarta-feira, 17 de agosto de 2022
DAS TRADUÇÕES
1. No hebraico bíblico – escrito apenas com consoantes – a partícula את pode ser lida como “at” (pronome pessoal “tu”, no feminino, mas também excepcionalmente no masculino), “et” (preposição “como”) ou simplesmente como indicativo do objeto direto (sem tradução). Você pode estar se perguntando: “como os judeus conseguiam ler e interpretar corretamente os versos sagrados?”. Bem, a vocalização do texto, e, portanto, também sua tradução, foi preservada pela tradição, até que surgiram os massoretas.
2. Os massorestas eram escribas judeus cuja vida era dedicada à preservação das Escrituras. No século VII d.C. estes estudiosos inseriram sinais vocálicos ao lado e acima das consoantes (uma série de pontos e traços) com a finalidade de preservar a pronúncia correta do texto, de forma que ela não se perdesse. Ocorre que quando comparamos as traduções do texto hebraico feitas para outros idiomas (como o grego e o siríaco), notamos que nem sempre os tradutores judeus estavam de acordo em relação ao modo como o texto deveria ser lido e traduzido.
3. Essa característica do texto hebraico gerou tantos problemas que é até difícil de explicar. Quer saber o lado bom disso? Os tradutores têm um passatempo que nunca se esgota. E é de graça 😀
Jones F. Mendonça
terça-feira, 9 de agosto de 2022
JEREMIAS E O DEUS QUE CHORA
1. Por razões equivocadas e injustas o profeta Jeremias ficou conhecido como “profeta chorão”. Há duas razões principais para a origem deste rótulo: a versão grega das Lamentações (Septuaginta) atribui a autoria do livro a Jeremias, que é apresentado sentado e chorando enquanto compõe os belíssimos poemas estruturados em cinco partes. A segunda razão vem do livro das Crônicas, obra que apresenta Jeremias como autor de um lamento sobre a morte de Josias, rei que capitulou após ser atingido por arqueiros egípcios liderados pelo Faraó Neco (2Cr 35,25). É importante destacar que Davi também é apresentado como compositor de lamentos fúnebres (2Sm 1,17-27). Seja como for, o apelido de “profeta chorão” atribuído a Jeremias acabou consagrado pela tradição.
2. Mas um leitor atento perceberá que Jeremias praticamente não chora no livro que leva seu nome. Vale destacar ainda que Davi (5 vezes) e José (8 vezes) são muitas vezes apresentados chorando e nem por isso ficaram conhecidos respectivamente como “o rei chorão” e “o filho chorão de Jacó”. Na verdade, o livro do profeta Jeremias enfatiza muito mais o choro de Deus que o do profeta*. Um exemplo pode ser encontrado em Jr 31,20. Ao falar sobre Efraim (Israel), “seu filho querido”, Deus diz assim: “Por isso murmuram minhas entranhas por ele, afetadas por intenso amor”. Muitos textos sugerem que o choro era percebido como uma espécie de transbordamento das estranhas. Delas vinham as lágrimas, manifestação concreta do esgotamento e desfalecimento do corpo.
3. De modo geral a imagem de Deus chorando não agrada os teólogos mais ortodoxos (sobretudo calvinistas), que veem essa expressão de dor como fraqueza, como indicação de mudança de humor, de instabilidade. A aceitação do choro divino afetaria gravemente um dos principais "atributos naturais de Deus": a imutabilidade (ah, esse deus impassível dos filósofos...). Bem, Nietzsche dizia que só poderia acreditar em um Deus que soubesse dançar. Parafraseando o filósofo eu diria que só faz sentido acreditar em um Deus que é capaz de chorar.
*Aos interessados no choro de Deus no livro do profeta Jeremias, sugiro a leitura do artigo “The Tears of God in the Book of Jeremiah”, escrito por David A. Bosworth e publicado na Revista Biblica (Vol. 94, nº. 1 (2013), pp. 24-46).
Jones F. Mendonça
terça-feira, 2 de agosto de 2022
AS ENTRANHAS DO JUSTO SOFREDOR
1. Traduzido literalmente, o Sl 26,2 fica desse jeito: “examina-me, Senhor, coloca-me à prova, depura meu coração e meus rins”. A palavra hebraica traduzida por “depura” é tzaraf (צרף), utilizada para indicar a atividade do ourives na purificação de metais preciosos. Mas por que o salmista pede para que seu coração e seus rins sejam “depurados/purificados”?
2. No hebraico, os rins, o coração, o fígado, o ventre aparecem como metáforas para tudo aquilo que está oculto, como pensamentos, intenções, desejos, etc. Ao pedir para que seu “coração” e seus “rins” sejam depurados, o salmista está dizendo algo do tipo: “penetra nas minhas entranhas, no subsolo dos meus pensamentos”.
3. Como Jó, ele se declara inocente, distante do caminho dos perversos: “quanto a mim, eu ando na minha integridade” (v. 11). Assim, pede para que suas intenções sejam colocadas à prova e a justiça lhe seja feita: “faze-me justiça, ó Senhor...” (v. 1,1). O tema do servo que sofre sem razão aparente é algo recorrente na religiosidade do Antigo Israel. Surge nos Salmos, em Jó, em Isaías, em Jeremias e na figura do Cristo que padece no Gólgota.
Jones F. Mendonça
segunda-feira, 25 de julho de 2022
OHOLAH E OHOLIVAH: ORGIAS NA TENDA DE YAHWEH
1. No Antigo Testamento a cidade de Jerusalém aparece em diversos textos como esposa de Yahweh, Deus de Israel (sobretudo em Os e Jr). Este tipo de metáfora reproduz uma forma de personificação muito comum na região Antigo Oriente Próximo, que descrevia cidades femininas como consortes do deus local.
2. No livro do profeta Ezequiel (23,4) as cidades de Samaria e Jerusalém são chamadas, respectivamente, de Oholah ( = tenda dela) e Oholivah ( = minha tenda [está] nela). O leitor talvez esteja se perguntando: que tenda é esta? A resposta é simples: no caso de Oholivah, a “tenda” é o templo de Jerusalém.
3. Os eufemismos sexuais que se sequem são pra lá de escandalosos. Ora, o texto sugere que o Templo de Jerusalém, a “tenda” de Yahweh “que está nela”, foi usada pela cidade como espaço para suas fornicações, “inflamando-se com seus amantes”, cuja “carne” (ou seja, órgãos sexuais), são como de jumentos e cavalos (v. 20).
4. O eufemismo funciona bem porque a palavra hebraica אהל (’ohel) serve para indicar tanto a tenda usada como espaço privado para as relações sexuais (Cf. 2Sm 16,22) como o espaço de culto (o templo). Hoje, como no Antigo Israel, há líderes religiosos que estão usando templos como espaço para suas “fornicações” políticas.
5. Fazem isso sem qualquer tipo de constrangimento. Pelo contrário: filmam suas orgias político-sexuais e publicam em suas redes sociais. E há teólogos – de renome, inclusive (e reformados, inclusive!) – tratando essas relações carnais como suprassumo da santidade.
Jones F. Mendonça
sexta-feira, 22 de julho de 2022
A IGREJA PRESBITERIANA, A MAÇONARIA E A POLÍTICA
1. Muitos dos protestantes que chegaram ao Brasil em meados do século XIX eram membros da maçonaria, instituição que apoiava a evangelização e formava com os protestantes uma relação que envolvia cooperação mútua. Missionários protestantes como John Boyle (presbiteriano) e Salomão Ginsburg (batista) foram frequentemente protegidos por maçons em suas andanças pelo Brasil dos séculos XIX e XX. Reflexos dessa aliança aparecem frequentemente em jornais protestantes.
2. Em 03/03/1900, por exemplo, uma nota publicada no periódico presbiteriano “O Puritano” lamenta que o jornal católico “O Lábaro”, classificado como “pasquim imundo”, desfira ataques “contra o protestantismo e contra a maçonaria”. Com o tempo, no entanto, as relações entre a maçonaria e a Igreja presbiteriana começaram a azedar e em 06/08/1903 um sínodo foi convocado para discutir o assunto.
3. Na decisão final, publicada no mesmo jornal presbiteriano em 20 de agosto de 1903, consta o seguinte: “O Synodo (sic) julga inconveniente legislar sobre o assunto. Considerando, porém, as contendas acerbas que se teem (sic) levantado sobre a questão, o Synodo (sic) recommenda (sic) aos crentes de uma e de outra parte que nutram sentimentos de caridade christã (sic) uns para com os outros...”.
4. Apesar do sínodo não ter apresentado uma decisão conclusiva sobre o assunto, uma minoria convencida da incompatibilidade entre a Maçonaria e o Evangelho solicitou aos ministros maçons que deixassem a ordem. O sínodo, por sua vez, julgou “prejudicial á (sic) causa do Evangelho qualquer propaganda pró ou contra a Maçonaria no seio da Egreja (sic)”. Na prática a Igreja Presbiteriana rachou por conta desta querela.
5. Na atual polarização política que assola o país, a Igreja Presbiteriana faria enorme bem se mantivesse a postura adotada em 1903, colocando-se neutra em questões político-ideológicas. Se a Igreja está sendo assolada, como querem nos fazer crer, por uma “nefasta influência do pensamento de esquerda”, por que finge não ver algumas feições fascistas do pensamento de direita que tem se desenvolvido no Brasil?
6. Estão coando mosquitos e engolindo camelos. Ou, quem sabe, coando camelos e mosquitos vermelhos e engolindo camelos e mosquitos azuis.
Jones F. Mendonça
sexta-feira, 15 de julho de 2022
EPIGRAFIA E APOLOGIA
1. Um exemplo de como é preciso ter cautela quando a imprensa anuncia uma grande descoberta arqueológica em Israel é a divulgação, no dia 07/07/22, da decifração de uma inscrição em uma tabuinha de pedra de 3500 anos contendo uma maldição dirigida ao governador de Jerusalém. De acordo com Gershon Galil, chefe do Instituto de Estudos Bíblicos e História Antiga da universidade de Haifa, é possível ler o seguinte: “Governador da Cidade, você certamente morrerá; amaldiçoado, você certamente morrerá...”.
2. Mas para Christopher Rollston, experiente estudioso da epigrafia semítica produzida na região, sequer é possível saber se de fato os traços que marcam a pedra correspondem a uma inscrição ou são meros motivos decorativos. Ele explica que mesmo que os traços sejam de fato consoantes, o trabalho de tradução seria difícil, porque a escrita alfabética antiga podia ser feita da esquerda para a direita (dextrógrada), da direita para a esquerda (sinistrógrada), colunar (direção vertical) ou bustrofédon (ziquezague).
3. Resumindo a ópera: Rollston acredita que a tal da “maldição contra o prefeito de Jerusalém” não passa de sensacionalismo barato.
Jones F. Mendonça
quarta-feira, 6 de julho de 2022
DANIEL E APOCALIPSE EM CINCO PONTOS
1. O livro de Daniel, em seu capítulo 7, expõe ao leitor uma visão que descreve quatro bestas-feras subindo do mar (7,2). A primeira é um leão alado (v. 4), a segunda um urso (v. 5), a terceira um leopardo alado de quatro cabeças (v. 6) e a última um animal não identificado, dotado de dentes de ferro e dez chifres (v. 7). Essas quatro bestas representam reis/reinos (v. 17 e 23) que se sucedem e que serão derrotados não por uma fera selvagem, mas por alguém “semelhante ao filho do homem” (bar enash), cujo império será eterno.
2. Vale destacar que bar enash aqui não é título messiânico. A expressão é empregada para estabelecer contraste entre o aspecto animalesco dos quatro reinos e o quinto, que tem forma humana. O capítulo 2 apresenta uma mensagem semelhante. Mas desta vez os reinos malignos são representados por uma estátua erguida com materiais diferentes (ouro, prata, bronze, ferro e ferro misturado com argila), que são destronados não por alguém “semelhante ao filho do homem”, mas por uma pedra. “Pedra” e “filho do homem” representam, cada qual a seu modo, o estabelecimento do reino do ‘illay (עלי), o Altíssimo.
3. O Apocalipse retoma o uso de bestas-feras como representação de reinos malignos. Note, no entanto, que ela é uma fusão de três das feras mencionadas em Daniel: “A Besta que eu via parecia um leopardo: seus pés, contudo, eram como os de um urso e sua boca como a mandíbula de um leão” (13,2). A mensagem é clara: a besta que agora se manifesta é ainda mais terrível que aquela mencionada em Daniel. O Apocalipse relê e atualiza antigas tradições, algo bem costumeiro no ambiente religioso judaico.
4. Mas ao atualizar textos antigos, o autor do Apocalipse incorpora elementos novos. Veja que o Dragão, a besta-fera e o falso profeta desempenham o papel de uma espécie de “trindade maligna”. A besta até simula uma ressurreição (13,12). Outro recurso utilizado para imitar Deus é o estabelecimento de uma marca nos escolhidos, feita na mão direita ou na fronte (13,16). Em Dt 11,18 os israelitas são convidados a atar a palavra divina como um sinal na mão e na testa. Em Ez 9,4 os moradores de Jerusalém que têm um sinal (tav) na testa são poupados da lâmina afiada do exterminador.
5. Alguém inventou que o tal do “sinal” é um microchip, ou quem sabe um cartão de crédito ou uma tecnologia que está para surgir. Mas o Apocalipse está apenas fazendo alusões às Antigas Escrituras. O que ele quer dizer é: O Dragão, a besta-fera e o falso profeta querem imitar Deus. Simulam uma “trindade”. Irão, como Deus, “marcar” seus escolhidos. A mensagem implícita é a mesma de Mt 24,24: os falsos cristos e falsos profetas são dissimulados a ponto de quase enganarem até mesmo os escolhidos.
Jones F. Mendonça
segunda-feira, 4 de julho de 2022
HEBRAICO E MATERIALISMO DIALÉTICO
1. Os idiomas nascem e se desenvolvem em relação direta com o mundo material no qual estão inseridos seus falantes. Um exemplo. A palavra hebraica gazar (גזר), cujo significado primário é “cortar”, ganha diferentes sentidos entre os hebreus, considerando que a vida geralmente era ceifada pela navalha (sacrifícios/batalhas).
2. Em 2Rs 6,4 um grupo de discípulos de Eliseu corta (gazar) madeira com a finalidade de construir uma moradia. “Cortar”, neste caso, indica exatamente isso: dividir a madeira com uma lâmina afiada. Mas o verbo “gazar” pode ganhar sentidos diferentes, dependendo do contexto.
3. Em Lm 3,54, após ser lançado em um fosso, o poeta diz: “Escorrem as águas sobre minha cabeça. Eu disse: estou cortado”. A Almeida Revista e Corrigida (ARC) traduz exatamente assim: “estou cortado”. O tradutor atento entende que ele quer dizer “estou morto”, ou, como preferimos: “estou perdido”.
4. Eis a primeira lição: nem sempre a tradução mais literal é a melhor. A segunda devo a Peter Berger: "O homem inventa um idioma e descobre que a sua fala e o seu pensamento são dominados pelas regras gramaticais que ele próprio criou" ("O Dossel sagrado", 1985, p. 22).
Jones F. Mendonça
quinta-feira, 30 de junho de 2022
ASHERAH, A SABEDORIA DIVINA E A CIDADE DE JERUSALÉM
1. Achados arqueológicos como a Incrição de Khirbet el Qom e de Kuntillet Ajrud sugerem que Yahweh era adorado ao lado de sua consorte, Asherah, também conhecida como Rainha do Céu. A Bíblia também preserva certos vestígios do culto a Asherah: “[Manassés] colocou a escultura de Asherah, que mandara fazer, no Templo, do qual Iahweh dissera a Davi e a seu filho Salomão” (2Rs 21,7. Veja também Jr 44).
2. A crença de que Yahweh possuía um cônjuge teria sido abolida por ocasião da reforma do rei Josias, no século VII. Mas a tentativa literária e religiosa de obliterar a deusa não foi bem sucedida na medida em que a sombra de Asherah ainda se projeta na forma de vários disfarces literários (inclusive pela mão de alguns tradutores, que substituem a palavra hebraica “Asherah” por “poste ídolo”).
3. Um desses disfarces seria a hokhmah (חכמה), palavra feminina empregada para personificar a sabedoria divina no livro de Provérbios (cap. 8). Há quem suponha, como Dvorah Lederman Daniely, que a fonte da metáfora conjugal entre Yahweh e sua noiva ou esposa, alternadamente chamada de Jerusalém, Sião ou Filha de Sião, vem das relações conjugais entre Yahweh e Asherah. Ele sugere que a cidade aparece como representação codificada da Deusa.
Jones F. Mendonça
EZEQUIAS, CUCHITAS, ASSÍRIOS E O PROFETA NU
1. No século VIII a.C., enquanto no Antigo Israel atuavam profetas como Amós, Oseias e Isaías, o Egito era governado pelos cuchitas, guerreiros negros que viviam mais ao sul do Nilo. Na Bíblia, os cuchitas aparecem envolvidos na luta do rei Ezequias pela sobrevivência, no período em que viveu sob a ameaça assíria (2Rs 19).
2. Ao ouvir que os cuchitas vinham ao seu encontro para combatê-lo, o poderoso rei assírio recuou, “pois tinha recebido esta notícia a respeito de Taraca, o rei de Cuch: ‘ele partiu para te fazer guerra’” (2Rs 19,9). Nesta pintura, cuja autoria eu desconheço, você vê o confronto entre um soldado cuchita e um soldado assírio.
3. Irritado com a confiança de Ezequias na ajuda cuchita, o profeta Isaías anda nu e descalço, indicando que assim seus aliados seriam levados como prisioneiros: "dessa mesma maneira [nus e descalços] o rei da Assíria levará os cativos do Egito e os exilados de Cuch" (2Rs 2,4). A queda do Egito realmente aconteceu e é mencionada pelo profeta Naum (3,8-10).
Jones F. Mendonça
sexta-feira, 24 de junho de 2022
JUDAS E ABSALÃO
1. De acordo como 2Sm 18,9-15, Absalão foi capturado por Joab – comandante do exército de Davi – após ter seus cabelos enroscados em um carvalho. Com “sangue nos olhos”, Joab atirou três dardos no coração de Absalão, que morreu após ser golpeado por dez escudeiros que também o perseguiam.
2. A tradição cristã medieval viu em Absalão uma representação antecipada de Judas: Absalão trai Davi; Judas trai Jesus. Além disso, Absalão, o “traidor”, morre “pendurado”, como Judas (Mt 27,5). Aquitofel, aliado de Absalão, se enforca (2Sm 17,23). De fato, há muitos elementos comuns entre as duas narrativas, mas as semelhanças não param por aí.
3. Após ser traído por Absalão, Davi atravessou o Vale de Cedron e subiu o monte das Oliveiras aos prantos (2Sm 15). Jesus, também após ser traído (por Judas), atravessou o Vale de Cedron e entrou em um jardim no mesmo monte (Jo 18,1-2). A grande diferença entre as duas narrativas é que Davi não é alcançado pelas tropas de Absalão. Jesus, como sabemos, é capturado e morto (mas seu reinado é “para sempre”).
4. Tanto os rabinos como os teólogos cristãos medievais já percebiam que alguns personagens bíblicos parecem desempenhar na narrativa o mesmo papel que um personagem mais antigo. Com um pouco de paciência e atenção, você vai encontrar muitos paralelos entre Jesus e figuras como Moisés, Elias, Samuel, Sansão, etc.
Jones F. Mendonça
quarta-feira, 22 de junho de 2022
BREVÍSSIMA HISTÓRIA DE SATANÁS
1. A palavra hebraica “satan” (שטן) significa “adversário”. Este adversário pode ser humano, como Hadad, rei edomita que se coloca como “satan” (adversário) de Salomão (1Rs 11,14). Por vezes este “adversário” aparece na corte celeste, representado por um dos bney haelohim (filhos de elohim), exercendo a função de advogado de acusação (cf. Jó 1,6). Ele não é adversário de Yahweh, mas das criaturas humanas. Sua função é colocá-las à prova.
2. Apenas em Crônicas “Satan” (agora corretamente traduzido com “s” maiúsculo, cf. 1Cr 21,1) indica o adversário de Yahweh. O termo aparece sem artigo e claramente revela que a teologia judaíta sofreu uma “evolução”, passando a tratar o antigo membro da corte celeste encarregado de apontar as faltas humanas como opositor do próprio Yahweh. Aqui é possível notar a influência do dualismo persa.
3. Antes de ser incorporada essa “novidade”, a ideia que se tinha de Yahweh era bem diferente: era ele quem fazia tanto o bem quanto o mal (cf. Is 45,7; Lm 3,38). Repare que em 2 Sm 24,1 é o próprio Yahweh quem incita Davi a realizar o recenseamento (veja também 1Rs 22,20-23). Mas em Crônicas, texto tardio já influenciado pelo dualismo persa, uma nova interpretação do episódio é apresentada: não foi Yahweh, mas Satan quem incitou Davi a cometer este tropeço (2Cr 21,1).
4. No Novo Testamento a crença na existência de Satanás como opositor de Yahweh aparece com força. A novidade é que agora ele tem ao seu lado um exército de anjos rebeldes, os “caídos” (נפיל), também chamados de “Vigilantes” no livro de Enoque. Reflexos dessa crença aparecem no livro de Judas (v.6), de Pedro (2Pe 2,4) e no Apocalipse (12,4).
Jones F. Mendonça
terça-feira, 14 de junho de 2022
JUNG, JÓ E O APOCALIPSE DE JOÃO
1. Tenho na minha estante um livreto escrito por Carl Jung – famoso discípulo de Freud – sobre o livro bíblico de Jó. Ganhei de presente de uma pessoa desconhecida (um tipo de experiência que Jung adorava). O trabalho recebeu o título de “Resposta a Jó” e foi publicado no Brasil pela Editora Vozes. Já nas primeiras páginas Jung explica que não pretende fazer uma exegese fria e pormenorizada do livro de Jó, mas expressar “uma reação subjetiva” ao conteúdo da obra.
2. Embora considere útil a leitura de “Resposta a Jó” para quem lida com a Bíblia de maneira acadêmica, acho que em alguns momentos Jung faz interpretações muito equivocadas. Expus uma crítica ao livro a um grupo de junguianos e recebi um tratamento bastante hostil. Há fanáticos em todo o canto. Bem, mas com um pouco de paciência em meio a tantas divagações, cheguei ao capítulo XIII, parte do livro que trata sobre a representação da “imagem de Deus” no Apocalipse.
3. Esta parte da obra é por demais interessante. Isso porque Jung domina muito bem o contexto religioso do período no qual foi escrito o Apocalipse e também porque é um leitor atento, perspicaz. Ele chama a atenção, por exemplo, para a releitura que o Apocalipse faz do trono divino descrito em Ezequiel, que agora aparece adornado apenas com “matérias que pertencem à natureza inorgânica”. O trono é assustador como em Ezequiel, mas muito mais estranho e frio. Por que?
4. Jung também dá destaque ao contraste tão presente no livro entre o “Cristo manso cordeiro que se deixa levar ao matadouro” e o “Cristo belicoso e iracundo”, “Filho da vingança”, “cujo furor pode agora desencadear-se livremente”. Ele recorre a conceitos como o da “sombra”, do “arquétipo” e do “numinoso” para expor ao leitor uma interpretação psicológica do autor do Apocalipse. Antecipo que não faz um julgamento bom. Fala, por exemplo, em "sentimentos negativos longamente represados, que observamos com frequência naqueles que anseiam por ser perfeitos".
Jones F. Mendonça
sábado, 11 de junho de 2022
JEREMIAS E A "MOSCA" QUE VEIO DO NORTE
1. Jeremias, como Isaías, também acreditava que a confiança que os judaítas depositavam no Egito era inútil (veja Jr 2,18; 42,18). Diferentemente de Isaías, que anuncia sua mensagem encenando um grupo de prisioneiros egípcios sendo levados ao cativeiro caminhando descalços e com as nádegas de fora (20,2.4), Jeremias faz isso usando palavras.
2. Mas são palavras com grande força visual. Em Jr 46,20 o Egito aparece representado sob a forma de uma gazela sobre a qual "pousa" um queretz (קרץ). Veja:
O Egito era uma gazela toda bela,
mas um queretz do Norte [Babilônia] veio e pousou sobre ela [lit. “veio para dentro”].
3. De modo geral as Bíblias traduzem “queretz” por “moscardo”, “mutuca”, “tavão” ou “mosca varejeira”. É difícil saber exatamente que tipo de animal é este porque o termo “queretz” possui uma única ocorrência em toda a Bíblia hebraica. Mas uma vez que “queretz” deriva do verbo “qaratz” ( = apertar, morder), podemos supor com boa dose de certeza que indica uma picada.
4. Considerando que o bicho que “vai para dentro” da gazela (o Egito) representa o poder destruidor de Nabucodonozor, rei da Babilônia (cf. v. 26), talvez indique mesmo uma mosca capaz de causar infecções graves em um animal ou, quem sabe, uma vespa ou espécie de marimbondo. Seja “mosca”, seja “marimbondo”, a força visual da mensagem pouco se altera. Em termos modernos seria como dizer:
A Europa era uma gazela toda bela,
Mas uma “mosca” do Norte [a Rússia] veio até ela.
Jones F. Mendonça
sábado, 4 de junho de 2022
TROCADILHOS E CONTOS ETIOLÓGICOS NA BÍBLIA HEBRAICA
1. A Bíblia Hebraica está repleta de trocadilhos que se tornam invisíveis quando traduzidos para outro idioma. Um exemplo pode ser visto em 2Sm 5,20:
“Então Davi se dirigiu a Baal-Paratzim, e lá os venceu, e disse: ‘rompeu [paratz] Iahweh meus inimigos diante das minhas faces como o rompimento [peretz] das águas’. É por isso que o nome desse lugar é Baal-Paratzim”.
2. Em primeiro lugar é preciso dizer que “baal” (בעל) não é o nome de uma divindade, mas um título que significa “senhor”, “dono”, “proprietário” ou até “marido”. Assim, “baal-paratzim” significa “Senhor de paratzim”.
3. Este é o único caso na Bíblia em que “baal” é utilizado como epíteto divino atribuído a Yahweh. Mas voltemos ao trocadilho. O nome do lugar é explicado do seguinte modo: ele se chama BAAL-PARATZIM porque ali o Senhor PARATZ (rompeu) meus inimigos.
4. O que temos aqui é um conto etiológico etimológico-geográfico. Em casos como este o conto tem a finalidade de explicar o nome de um espaço geográfico, como um monte, formação rochosa, vale, etc.
Jones F. Mendonça
terça-feira, 24 de maio de 2022
SOBRE A "ETERNIDADE" EM ECLESIASTES
1. Caso seja aprovado o projeto de lei que proíbe qualquer “alteração, edição, supressão, adição ou adaptação da Bíblia cristã”, teríamos diversas dificuldades. Um exemplo.
2. Na versão NVI, o livro do Eclesiastes diz que Deus “pôs no coração do homem o anseio pela eternidade” (3,11). A Bíblia de Jerusalém (BJ) suprime a palavra “anseio” e propõe uma tradução bem diferente para a palavra hebraica עולם, traduzida por “eternidade”.
3. Nesta versão, aquilo que Deus coloca no coração do homem não é o “anseio pela eternidade”, mas a “o conjunto de tempo”, ou seja, a noção de temporalidade, a percepção de que a existência humana na terra é como fagulha, como névoa diante de Deus.
4. A parte “b” do verso explica que essa noção faz o ser humano perceber a grandiosidade da criação, ou seja, que é incapaz de compreender “aquilo que Deus realiza desde o princípio até o fim”.
5. Em minha opinião, a tradução da BJ está correta (“conjunto de tempo”) e a da NVI está errada (“anseio pela eternidade”). Seja como for, não precisamos de uma lei destinada a regular as traduções da Bíblia. Isso é coisa de gente tonta e fundamentalista.
Jones F. Mendonça
terça-feira, 17 de maio de 2022
NOS APARTAMENTOS DE JAVÉ
O capítulo 23 do Segundo Livro dos Reis expõe algumas medidas tomadas pelo rei Josias com o intuito de promover uma reforma religiosa em Jerusalém. Em algumas versões – como a Almeida 1819 – o verso 7 diz que o rei mandou derrubar “as casas dos rapazes escandalosos que estavam na casa de Jehovah”. O leitor coça a cabeça e fica imaginando que tipo de rapazes seriam estes. Bem, de acordo com outros tradutores, a ação de Josias não foi dirigida à casa dos rapazes escandalosos, mas “aos apartamentos das prostitutas”. Eita! Mas será que as moças já tinham apartamentos naquela época? E foram erguidos "na casa de Jehovah"?😃
Jones F. Mendonça
quinta-feira, 5 de maio de 2022
OS "SEIOS" NA BÍBLIA
1. Um dos meus passatempos prediletos é observar como as palavras hebraicas se comportam no texto bíblico. Hoje investiguei a palavra “hyq” (חיק), cujo significado primário é “peito”. Ela também pode ser traduzida por “colo”, sempre que tem o sentido de acolhimento e afeto. Em alguns casos expressa o sentido de “lugar oculto”. Vejamos:
2. A primeira vez que esta palavra aparece é em Gn 16,5, pronunciada pela boca de Sarai, que diz a Abraão: “coloquei minha serva no teu colo...”. No texto Sarai revela-se triste porque ao colocar sua serva Agar “no colo dele”, a moça engravidou. “Colo” aqui é eufemismo, claro.
3. Bem, a palavra “Hyq” como espaço do afeto reaparece no Deuteronômio. Ser a “mulher do peito” de um homem ou o “homem do peito” de uma mulher equivalia a dizer que ambos mantinham uma relação amorosa como fica claro em Dt 13,6 e Dt 28,54. Alguns tradutores fazem adequação e trocam o “do peito” por “do coração”.
4. Mas nem sempre “hyq” como lugar do afeto tem sentido sexual. Quando Rute teve um filho, Noemi o tomou “no peito dela” (ou colo) e passou a cuidar dele. Mas a coisa muda de figura em 1Rs 1,2. Davi, já idoso, recebe uma donzela chamada Abisag com a finalidade de que “durma no peito dele” e o aqueça ("aqueça" também é eufemismo).
5. Em Jó 19,27 “hyq” ganha um sentido diferente, servindo para indicar a parte interna do corpo: “consomem-se meus rins no meu peito”. “Hyq”, neste caso, indica um lugar secreto, escondido, oculto, como em Pv 17,23: “O perverso aceita o suborno no peito”, ou seja, secretamente. Também em nosso idioma usamos “seio” com este sentido, quando dizemos, por exemplo, que algo foi colocado “no seio” da terra.
Jones F. Mendonça
sexta-feira, 29 de abril de 2022
CÂNTICO DOS CÂNTICOS: ENTRE BEIJOS E SEIOS
1. O texto hebraico do Antigo Testamento não continha vogais, apenas consoantes. As vogais só foram inseridas no texto no século VII d.C. com a finalidade de ajudar na leitura. Essa característica permitiu que o texto fosse entendido de formas diferentes pelos leitores/tradutores. Um exemplo:
teus amores são melhores do que o vinho (Ct 1,2).
2. Acontece que “teus amores” (דדיך) em hebraico é graficamente igual a “teus seios” (דדיך, cf. Ez 23,21). Assim, o tradutor fica em dúvida se deve traduzir a parte b do v. 2 por “teus amores [dele] são melhores do que o vinho” ou “teus seios [dele] são melhores do que o vinho”.
3. De modo geral nossas Bíblias optam por “teus amores” (seguem o texto vocalizado do século VII d.C.). Mas os judeus responsáveis pela tradução do texto hebraico para o grego (Septuaginta) entenderam que a tradução correta é “teus seios” (μαστοι, "mastoi").
4. Eleazar de Worms, um rabino da era medieval, interpretou a palavra hebraica como "seios" e saiu-se com essa: "os 'seios' referem-se a Moisés e Arão que amamentaram o povo de Israel com a Torá". Sei...
5. Quer saber a minha opinião? O escritor fazia isso de propósito. O Cântico dos Cânticos adora duplos sentidos...
Jones F. Mendonça
segunda-feira, 25 de abril de 2022
"MACUMBA" E COMUNISMO
Leio jornais da década de 40 em busca de comentários depreciativos dirigidos às religiões de matriz africana. Em 6 de abril de 1941 um colunista do Jornal do Brasil publicou texto anunciando a prisão de um “macumbeiro” que supostamente estava fundando uma seita “espírito-nudista”. No final do texto o colunista faz uma denúncia curiosa: “os agentes de Moscou encontram nos centros do baixo espiritismo a possibilidade de difundir suas ideias, atribuindo a inspiração às ‘almas do outro mundo’”. E conclui: “nos ‘terreiros’ começa a dominar Stalin”. O título da matéria: “Macumba e Comunismo”😃
Jones F. Mendonça
segunda-feira, 18 de abril de 2022
LUTERO E AS ÁGUAS NA ESTRUTURA COSMOGÔNICA DOS HEBREUS
1. Neste vídeo, publicado no canal “A Tenta do Necromante”, o professor Osvaldo Luiz Ribeiro fala sobre a semelhança entre as palavras hebraicas “mayim” (água/águas) e “shamaiym” (céu/céus). Ambas têm terminação plural dual, usada para indicar elementos que aparecem em pares, como mãos e orelhas. Mas por que "céus" e "águas" teriam terminação dual?
2. Na percepção do professor Osvaldo, a semelhança entre as palavras e seu caráter dual tem relação com o imaginário dos hebreus quanto à estrutura cosmogônica: as “águas de baixo” (mayim) e as “águas de cima” (shamayim). Os céus, nesse sentido, seriam percebidos como águas superiores.
3. O professor Osvaldo chegou a essa conclusão por intuição, por seu contato com o hebraico e pela compreensão que tem em relação ao modo como os hebreus enxergavam o mundo. E eu acho que ele está certíssimo. Ele não diz no vídeo (e eu não sei se sabe disso), mas Lutero tinha uma opinião muito parecida, certamente pela influência de gramáticos/exegetas judeus medievais:
Os hebreus derivam muito apropriadamente o termo shamaim, o nome dos céus, da palavra maim, que significa “águas”. Pois a letra shin muitas vezes é empregada em palavras compostas para designar a relação [de uma coisa com a outra], de modo que shamaim é algo aquoso ou que provém da água. Isso também se evidencia pela sua cor; e a experiência ensina que o ar é úmido por natureza (Lutero, Preleções ao Gn 1,6).
4. Lutero diz muita bobagem em suas Preleções ao Gênesis. Mas aqui ele acerta. Caso queira ler algumas de suas bobagens, veja aqui, aqui e aqui.
Jones F. Mendonça
sexta-feira, 15 de abril de 2022
A PÁSCOA EM CINCO PONTOS
1. Há ao menos três hipóteses para a origem da palavra “Páscoa” (do hebraico “pessah”). A primeira sugere que deriva do verbo hebraico “passah” (פסח), que significa “saltar”. Isso porque Ex 12,13 diz que o Senhor “saltará” as portas sinalizadas com o sangue do cordeiro. Esta é a hipótese tradicional.
2. Mas há quem pense que o ritual de marcação dos umbrais das portas tenha uma origem mais antiga e que a palavra “pessah” deriva do acádio pašâhu (acalmar, apaziguar). O ritual (apotropaico), praticado por pastores nômades, visava apaziguar a ira do “Destruidor” (Ex 12,13).
3. Há ainda quem defenda que o termo “pessah” seja a transcrição de uma palavra egípcia que significa “golpe”, uma referência a décima praga: em Ex 11,1 é dito que o Senhor desferirá “ainda mais um golpe sobre Faraó”.
4. Coincidentemente o hebraico “pessah” se conecta foneticamente ao grego “pascho” (πασχω) que significa "sofrer" (cf. 1Pe 2,21), por isso os primeiros cristãos passaram a usar o termo “Páscoa” para se referir à sexta-feira da Paixão, e não ao domingo da ressurreição.
5. Fica a dica: religião é também ressignificação.
Jones F. Mendonça
sexta-feira, 8 de abril de 2022
AMÓS E OS "DIREITOS HUMANOS"
1. O livro do profeta Amós, atribuído a um sujeito que não era “nem profeta, nem filho de profeta”, expõe logo no início do livro que leva seu nome uma série de oráculos condenatórios contra oito nações vizinhas: Damasco, Gaza, Tiro, Amon, Moab, Edom, Judá e Israel. Com o perdão do anacronismo, poderíamos dizer que boa parte das denúncias presentes nos capítulos 1 e 2 aparecem relacionadas a “violações dos direitos humanos”.
2. Os arameus de Damasco são criticados por “devastarem a terra”; os filisteus de Gaza por “deportarem populações”; os fenícios de Tiro e o povo de Edom por “violarem pactos” entre irmãos. Os amonitas são duramente censurados por terem ferido grávidas com a morte; os moabitas por profanarem cadáveres e o povo de Judá por desprezar os preceitos divinos. Amós – como Jeremias – não poupa nem o seu próprio povo (ele era natural de Tecoa, ao sul de Jerusalém).
3. A última nação a ser condenada é o reino de Israel, ou “Israel do Norte”, também referenciada como “casa de Jacó” ou “casa de Isaac”. São onze versos destinados a esta nação. Muito mais do que a média. Trata-se de um crime terrível. Suas críticas são formuladas poeticamente com muita maestria, força e clareza:
"Eles vendem o justo por prata
e o indigente por um par de sandálias".
"Esmagam sobre o pó da terra a cabeça dos fracos
e tornam torto o caminho dos pobres".
4. Agostinho, no século V, teve a infelicidade de classificar esses livros mais curtos como "profetas menores". Muita gente – ainda mais infeliz! – imagina que são "menores" porque são menos importantes. Mas é um livro arretado. Atual. Forte. Sempre Necessário.
Jones F. Mendonça
AMÓS NO MAPA
O vídeo exibe a localização das nações que são objeto de oito oráculos do profeta Amós, presentes nos capítulos 1 e 2 do livro. Ao final também são mostradas as localizações de três cidades mencionadas no livro: 1) Técua (20 Km ao sul de Jerusalém e local de nascimento do profeta), 2) Betel (local onde ficava o santuário do rei Jeroboão II e era controlado pelo sacerdote Amazias), e 3) Basã, referência a uma região localizada na Transjordânia, conhecida por suas pastagens e seu gado bem alimentado (cf. Dt 33,14).
Jones F. Mendonça
quarta-feira, 6 de abril de 2022
O ARTEFATO DO MONTE EBAL [ATUALIZAÇÕES]
1. Em 2019, peneirando resíduos de entulho de uma escavação feita na década de 80 no Monte Ebal (território sob controle civil palestino e militar israelense, na Cisjordânia), um grupo de arqueólogos alegou ter descoberto um pequeno artefato de chumbo dobrado, com inscrições visíveis pelo lado de fora, medindo 4cm2. O objeto foi enviado à Academia de Ciências da República Tcheca e submetido a uma tomografia computadorizada. O objetivo: verificar o que havia em seu interior.
2. Em uma coletiva de imprensa realizada em 24 de março de 2022 foi anunciado que a equipe conseguiu visualizar 40 consoantes do alfabeto proto-cananeu formando uma inscrição contendo a palavra YHW, nome da divindade adorada no Antigo Israel. O artefato foi datado para o século XIII/XIV a.C. Até o momento o modo como a suposta descoberta foi anunciada têm sido criticado por duas figuras de peso: Israel Finkelstein (arqueólogo) e Christopher Rollston (epigrafista).
3. De acordo com o Haaretz, alguns membros da equipe de arqueólogos estão dizendo que este é o mais antigo registro de uma inscrição em hebraico. Para o prof. Gershon Galil, um dos responsáveis pela divulgação da descoberta, “Esta inscrição não será menos importante que Merneptah [a Estela de Merneptah no Egito, também datada do século XIII a.C., onde o nome Israel aparece pela primeira vez], se não mais” (tudo isso parece bastante exagerado...). As declarações do Dr Scott Stripling, diretor das escavações, são ainda mais problemáticas.
4. O anúncio da descoberta extrapolou os limites da discussão acadêmica. Há suspeitas de violação do direito internacional e de leis locais, uma vez que o objeto foi encontrado em território palestino por um grupo privado e enviado para outro país para ser analisado. Ainda de acordo com o Haaretz, por trás do projeto há um grupo de cristãos interessados em validar interpretações fundamentalistas de profecias messiânicas.
5. Acabo de ler, no Paleojudaica, que também foi divulgada a descoberta de uma haste de ferro supostamente utilizada como instrumento para riscar o objeto de chumbo. A imagem da haste não foi exibida ao público, nem como foram capazes de associar a haste com o objeto de chumbo, uma vez que ambos foram encontrados em resíduos de escavações feitas na década de 80. Está tudo muito estranho.😳
Jones F. Mendonça
quarta-feira, 30 de março de 2022
CHRISTOPHER ROLLSTON E O ARTEFATO DO MONTE EBAL
Jones F. Mendonça
terça-feira, 29 de março de 2022
ISRAEL FINKELSTEIN E O ARTEFATO DO MONTE EBAL
O arqueólogo israelense Israel Finkelstein publicou em sua página pessoal do Facebook algumas observações acerca da descoberta de um artefato encontrado no Monte Ebal em 2019 contendo uma inscrição que supostamente menciona o nome YHWH. Suas considerações, expostas em sete pontos, podem ser lidas aqui.
Jones F. Mendonça
sexta-feira, 25 de março de 2022
DECIFRADA(?) INSCRIÇÃO ENCONTRADA NO MONTE EBAL
1. O tetragrama YHWH (יהוה), nome da divindade adorada entre os antigos israelitas, é conhecido desde o século XIV a.C., presente em listas preservadas em templos egípcios, que mencionam “a terra dos shasu de YHW”. A “terra dos shasu”, no entanto, não se refere ao território ocupado pelos israelitas, mas a Seir, região edomita do Arabá. O monte Seir também aparece relacionado a YHWH em textos bíblicos como Dt 33,2 e Jz 5,4.
2. Outro testemunho extra-bíblico do nome YHWH é a estela moabita, datada para o século IX. O documento apresenta o confronto entre YHWH de Israel e Quemós, divindade moabita. As inscrições de Kuntillet 'Ajrud, do século VIII, atestam o culto a um “Yhwh de Samaria” (norte), e também a um “Yhwh de Teman” (sul). Um quarto registro importante é o amuleto de Ketef-hinnon (séc. VI), artefato de natureza apotropaica que pede a proteção de YHWH.
3. Arqueólogos supõem ter decifrado uma inscrição encontrada no Monte Ebal em 2019, desta vez um artefato de chumbo proto-canaanita contendo uma maldição datada para o século XIV/XIII. Um trecho do artefato diz o seguinte: “Amaldiçoado, amaldiçoado, amaldiçoado, amaldiçoado pelo Deus YHW”. De modo geral a interpretação dessas inscrições é questionada por outros epigrafistas, por isso o melhor é esperar. Pessoalmente gosto de ouvir a opinião de Christopher Rollston, que ainda não se manifestou.
Jones F. Mendonça
terça-feira, 8 de fevereiro de 2022
A TENDA DO NECROMANTE: LEITURA HISTÓRICO-SOCIAL DA BÍBLIA HEBRAICA
O professor Osvaldo Luiz Ribeiro criou no início deste ano um canal no YouTube voltado para o estudo da Bíblia Hebraica: a Tenda do Necromante. O Numinosum acompanhava as publicações do prof. Osvaldo em Peroratio, mas infelizmente elas foram se tornando cada vez mais raras a partir de 2020. O prof. Osvaldo é doutor em teologia pela PUC-Rio e pós-doutorado em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Atualmente atua como Coordenador do Programa de Mestrado Profissional em Ciências das Religiões da Faculdade Unida de Vitória, instituição na qual eu estudo como mestrando, tendo o prof. Osvaldo como orientador. Eis a descrição do Canal:
Criado em 01/02/2022, o canal A TENDA DO NECROMANTE é um lugar para a leitura histórico-social da Bíblia Hebraica e, eventualmente, da Bíblia como um todo. O único interesse do canal é entender o que os autores dos textos que compõem a Bíblia (particularmente a Bíblia Hebraica ou “Antigo Testamento”) quiseram dizer. Sim, todos os autores da Bíblia estão mortos. Se eu quero entender o que os mortos disseram quando estavam vivos, então é como se eu quisesse ouvir os mortos. Por isso “A tenda do necromante”. É como se eu, exegeta, fosse um necromante secularizado – a única forma de fazer os mortos falar é entender o que eles escreveram quando estavam vivos.
Hoje será transmitida uma “Live de inauguração”, às 19 horas. O tema será o seguinte: “Como assim 'Espírito de Deus'"? O vento (ruah) na criação, segundo Provérbios 30,4. Até lá!
Jones F. Mendonça
terça-feira, 1 de fevereiro de 2022
SOBRE AS TRADUÇÕES DA BÍBLIA
1. O conjunto de livros que convencionamos chamar de “Antigo Testamento” – ou para usar um termo politicamente correto, “Primeiro Testamento” – foi escrito no idioma hebraico. Das oito mil palavras que aparecem no texto, cerca de 25% são consideradas como hápax legómena, ou seja, só ocorrem uma única vez, por isso são termos difíceis de traduzir.
2. Algumas dessas hapáx derivam claramente de outras palavras hebraicas, característica que facilita a tradução. Mas a coisa se complica bastante quando o tradutor se depara com um hápax absoluto (ocorrem cerca de 400 vezes), item lexical realmente único, cuja tradução não pode ser feita a partir da relação semântica com outro termo hebraico, de mesma raiz. Qual a saída?
3. Bem, quando isso acontece, o tradutor pode recorrer a traduções do texto hebraico para outros idiomas (como a Septuaginta) ou aos chamados “cognatos”, palavras pertencentes a outro idioma (como o acadiano) que provavelmente deram origem ao hápax. Ocorre que esta solução traz grande grau de incerteza, porque a semelhança entre palavras de idiomas diferentes pode ser mera coincidência (falso cognato). Mas caso este termo esteja presente em um texto poético, há outra saída.
4. Tomemos, por exemplo, o Salmo 21,3:
“Concedeste o desejo do seu coração,não negaste o aresheth de seus lábios” (aresheth só ocorre aqui)
5. Esse tipo de construção textual – uma marca da poesia hebraica – é conhecido como “paralelismo sinonímico”: a linha de baixo repete a ideia presente na linha de cima com palavras diferentes. Assim, podemos deduzir que o termo hápax “aresheth” possui sentido bem próximo do termo "ta’avah", traduzido por “desejo” na linha superior.
6. Uma tradução possível é:
“Concedeste o desejo do seu coração,não negaste a súplica de seus lábios” (desejo verbalizado).
Jones F. Mendonça
quinta-feira, 27 de janeiro de 2022
JAVÉ, O “CAVALEIRO DAS ESTEPES”
1. O livro de Habacuque, capítulo 3, a partir do v. 8, descreve Javé, Deus de Israel, como “Cavaleiro das estepes”, como guerreiro montado em um cavalo que cavalga para salvar seu povo e seu ungido (o rei). Avançando pelo deserto e lançando "flechas luminosas", Javé é precedido por uma tempestade que “cava o solo”, “desnudando a casa do ímpio até a rocha”.
2. No Salmo 68 essa imagem reaparece. Ele avança, com seus carros de guerra, capturando cativos, derramando “chuva copiosa". No Salmo 18 ele usa como montaria um querubim, tendo sob seus pés uma “nuvem escura” e à sua frente um clarão inflamando “granizo e brasas de fogo”. Aqui ele também lança flechas e diante de seu poder o mar é forçado a exibir o seu leito.
3. A imagem de Deus como guerreiro inspirou a letra do Hino de Batalha da República dos Estados Unidos, escrita por Julia Ward Howe, em 1861. O Hino tem sido usado para apoiar quase todas as posições políticas, desde o nacionalismo branco ao Movimento dos Direitos Civis. Fazem com o hino o que vem fazendo com a Bíblia há cerca de dois mil anos: usam a imagem do Deus Guerreiro para dar legitimidade às suas próprias ambições.
4. Já está mais do que na hora desse abuso acabar.
Jones F. Mendonça
quinta-feira, 20 de janeiro de 2022
CÂNTICO DOS CÂNTICOS: ENTRE PERNAS E BEIJOS
1. Depois de expor uma série de elogios ao corpo de seu amado – cabeça, olhos, cabelos, faces, lábios, braços, ventre e pernas – a amada do livro bíblico de Cântico dos Cânticos faz uma última declaração àquele que desperta nela as mais intensas paixões: “seu HEKH (חך) é doce e ele é todo desejo” (5,16).
2. Mas qual o significado de “HEKH”? Dois exemplos: “colou-se, de sede, a língua do lactente ao seu HEKH” (Lm 4,4), ou ainda “o favo de mel é doce ao teu HEKH” (Pv 24,13). A palavra indica o local da boca imaginado pelos antigos como responsável pelo paladar. Assim, temos:
“Sua boca (o interior da boca) é doce, e ele (o amado) é todo desejo”.
3. A amada – isso me parece muito claro – está descrevendo o quão doce e ardente é o beijo do seu amado. Algumas versões, como a Almeida Corrigida e Fiel (ACF), traduzem o verso do seguinte modo: “SEU FALAR é muitíssimo SUAVE”. A ACF Trocou “boca” por “falar” e “doce” por “suave”.
4. Sabe-se lá o que vai pela cabeça de alguns tradutores.
Jones F. Mendonça
domingo, 16 de janeiro de 2022
TUA BOCA É COMO ROMÃ PARTIDA
1. O amado, no livro bíblico de Cântico dos Cânticos (4,3), dirige-se assim à sua amada:
Como fio escarlate são teus lábios,Tua fala [=boca?] é formosa,Como romã partida é tua raqqah (רקה) através do teu véu.
2. O texto descreve a beleza da amada realçando suas partes avermelhadas: os lábios, a boca como um todo e, depois, a raqqah dividida. Mas qual o significado de raqqah? O termo só reaparece no livro de Juízes (4,21-22; 5,26), utilizado para indicar o local da cabeça de Sísera penetrado por uma estaca manejada por Jael. Os tradutores geralmente optam por “têmpora”.
3. A NTLH entende que se trata do “rosto”, avermelhado como a romã. A NVI traduz por “faces”, sem destacar a semelhança com tom avermelhado da romã. A ARA também traduz o termo por “faces”, mas imagina que a semelhança é com o “brilho” (!?) da romã. Vale dizer que a palavra “brilho” não consta no texto e que existe uma palavra hebraica para “faces” (פנים). A BJ imagina que seja uma referência aos dois “seios”.
4. Posso estar redondamente enganado, é claro, mas se você olhar bem para uma romã aberta vai notar certa semelhança com o interior de uma boca. Caso eu esteja correto, Jael não teria fincado uma estava na “têmpora” de Sísera, mas na abertura da boca. O texto enfatiza que a estaca atravessou a “raqqah” e penetrou “na terra”.
5. No Cântico dos Cânticos somos tentados a pensar que a referência seja ao que chamamos de “maçãs do rosto” (entre os hebreus seriam “romãs do rosto”). Mas neste caso, a estaca de Jael teria sido fincada na “maçã do rosto” de Sísera, algo que não faz muito sentido.
6. E você, o que acha?
Jones F. Mendonça
quinta-feira, 13 de janeiro de 2022
NAZIREUS, CABELO E VINHO
1. O livro bíblico de Números, em seu capítulo 6, descreve uma antiga prática religiosa de “santificação da cabeça” (Nm 6,11), ritual com caráter votivo, chamado de nazireato. O candidato, que podia ser homem ou mulher (6,2), obrigava-se a se abster do produto da videira, do contato com cadáveres e do corte do cabelo (6,3-6).
2. Após o fim do período do voto, cuja duração podia variar, o(a) candidato(a) rapava totalmente a cabeça e seus cabelos eram queimados, juntamente com a oferta de um animal (6,18). Dois homens na Bíblia são apresentados fazendo voto de nazireu: Sansão (Jz 13,5.7; 16,17) e Paulo (At 18,18; 21,23).
3. Sansão, no entanto, parece não ter seguido à risca seu voto, afinal como evitar tocar em corpos sem vida em uma batalha sangrenta (Jz 14,19 e 15,15-16)? Além do mais, o banquete, oferecido em 14,10 dificilmente não incluiria bebida. O texto de Atos não diz com clareza que Paulo vez voto de narizeu, isso fica apenas sugerido.
4. A abstenção do vinho parece ser um costume bem antigo, cultivado por grupos seminômades como os recabitas (Jr 35,6), que também mantinham a tradição de viver em tendas (v. 7). Uma crítica velada aos cultivadores de vinha – e, portanto, ao vinho – aparece em Gn 9,20-21.
5. Embora a Bíblia não mencione qualquer mulher fazendo o voto do nazireato, a rainha Helena de Adiabene é uma das mais famosas naziritas. O Talmud (Nazir 19b) relata que seu voto aparece relacionado a seu filho. Ela teria prometido que se tornaria uma nazirita por sete anos caso ele voltasse em segurança da guerra.
6. O local onde foi sepultado o corpo de Helena, localizado a 820 m ao norte da antiga muralha da cidade de Jerusalém, é considerado como o maior e mais belo dos túmulos da cidade. Ainda não está clara para mim a origem de dois costumes: a abstenção de vinho (forte entre os conservadores recabitas) e do corte do cabelo.
Jones F. Mendonça
terça-feira, 11 de janeiro de 2022
SHALAM É “TER A DÍVIDA PAGA”
1. O verbo hebraico “shalam” (שלם), cuja raiz é a mesma do substantivo “shalom” (שלום), não significa exatamente “fazer as pazes” (cf. Js 10,1 e 2Sm 10,19), mas “estar pago” ou “estar quitado”. Dois exemplos. Em Pv 7,14 lemos assim: “PAGUEI hoje os meus votos”. Quando o verbo está na voz passiva, indica “foi pago”. Exemplo: “se o justo receber a sua paga aqui na terra, quanto mais o ímpio e o pecador”.
2. Talvez você esteja se perguntando: “qual a relação entre o verbo ‘PAGAR’ e o substantivo ‘PAZ’”? Bem, acho que este exemplo tomado de Pv 25,22 vai ajudar. Ele fala da recompensa, da paga garantida aos justos: “assim amontoas brasas sobre sua cabeça, o Senhor te PAGARÁ”. O sentido de “o Senhor te pagará”, significa “o Senhor te retribuirá” pelas boas obras realizadas (cf. v. 21).
3. Assim, uma pessoa considerada “paga”, “quitada” (com Deus ou com um inimigo) é uma pessoa “plena”, “recompensada” ou “em estado de shalom”. Mas o verbo também pode desempenhar sentido negativo, como em Pv 20,22: “Não digas: PAGAREI [eu mesmo] o mal; espera no Senhor e ele te salvará”. O substantivo “shalom”, de modo diferente, sempre indica um estado de retribuição plena positiva.
4. Este é o caso, por exemplo, de Abraão em Gn 15,15: “Quanto a ti, em estado de retribuição plena irás para os teus pais, serás sepultado numa velhice feliz”. Shalom não tem o sentido de “paz” como ausência de guerra ou de conflitos, mas de “plenitude de vida”. No AT, como não havia ainda a ideia de uma vida plena no além (com exceção de Dn 12,2), o que se esperava era uma vida de plenitude na terra.
Jones F. Mendonça
terça-feira, 4 de janeiro de 2022
PROVÉRBIO PARA GULOSOS
Pv 23,2 é um bom exemplo para explicar a diferença entre dois métodos de tradução da Bíblia: 1) equivalência formal; 2) equivalência dinâmica. O texto traduzido de forma literal fica assim:
“Põe a faca na tua goela se senhor da garganta és tu”. A expressão “senhor da garganta” (בַּעַל נֶפֶשׁ) só ocorre aqui, tornando difícil sua tradução. É bem provável que tenha sido usada para classificar uma pessoa gulosa.
A Bíblia Almeida Corrigida e Atualizada (ARA), versão que opta por uma tradução bem formal, traduziu desse jeito: “põe uma faca à tua garganta, se fores homem de grande apetite”.
A Bíblia na versão Nota Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH), cujo método de tradução é a equivalência dinâmica, tenta capturar o sentido do texto de forma simplificada. Veja: “Se você é guloso, controle-se”☺
Jones F. Mendonça
sábado, 1 de janeiro de 2022
ECLESIASTES E O “FIO DE PRATA”
O livro do Eclesiastes, no seu capítulo 12 (vv. 1-8), exorta o leitor a fazer bom uso de sua juventude, antes que “venham os dias da desgraça” (v. 1), antes que “se escureçam o sol, a lua e as estrelas” (v. 2), antes que “as canções emudeçam” (v. 4), antes que “pereça o apetite/querer” (v.5). É um texto triste e ao mesmo tempo inspirador. Quatro versos desafiam o tradutor/intérprete (12,6):
“Antes que o fio de prata se ROMPAe o copo de ouro se PARTA,antes que o jarro se QUEBRE na fontee a roldana se DESFAÇA no poço”.
O texto apela para que o leitor acorde para a vida, “antes que...”. Os dois primeiros versos falam de objetos preciosos: O “fio de prata” (um cordão?) e um “copo de ouro” que se rompem/se partem. Os dois últimos versos falam de objetos utilizados para apanhar água na fonte/no poço: um “jarro” e uma “roda/roldana”, que se quebram/se desfazem.
Há quem associe o “fio de prata” à medula (!) e outros a um suposto “fio prateado” visto por pessoas em seus últimos minutos de vida. É verdade que no texto, desde o início, predominam alusões a partes do corpo perdendo sua força, sua vitalidade, seu vigor, sua utilidade (visão, audição, apetite, força muscular, etc.). Mas no v. 6 a imagem evocada parece ser outra, não mais elementos do corpo, mas do cotidiano: 1) o cordão de prata que se rompe pelo uso; 2) a taça de ouro que racha pelo desgaste, 3) o jarro de barro que se quebra, 4) a roda/roldana do poço que se desfaz.
Jones F. Mendonça
quinta-feira, 30 de dezembro de 2021
NEGACIONISMOS
Em maio de 2020, quando a pandemia começava a empurrar para a cova grande número de vítimas, a “Coalizão pelo Evangelho” (TGC Brasil) divulgou um manifesto destacando: 1) Os negativos e “inevitáveis efeitos colaterais sociais” do isolamento social; 2) O papel da mídia, que “claramente não goza da credibilidade que outrora desfrutava” e, finalmente, 3) O “endeusamento da ciência”. Deveria ter criticado, ao contrário: 1) Os efeitos perigosos das aglomerações; 2) A desinformação que se reproduzia como piolho nas mídias não oficiais; 3) O negacionismo da ciência. Essa galera do “Soli Deo gloria”, como sempre, coando mosquitos e engolindo camelos.
Jones F. Mendonça
segunda-feira, 27 de dezembro de 2021
O CÉU DE AGOSTINHO
1. Em “A cidade de Deus”[1], obra do início do V século escrita por Agostinho de Hipona, uma série de razões são apresentadas para defender a reprodução como principal finalidade da relação matrimonial. O catolicismo preserva esse costume até hoje, por isso proíbe métodos contraceptivos.
2. Um dos argumentos de Agostinho baseia-se no conceito jurídico romano do liberum quaesendum causa, ou seja, no costume romano, oriundo da Lei das Doze Tábuas, segundo o qual a principal função da relação matrimonial é contrair filhos.
3. Além do direito romano, o teólogo africano também busca caracterizar as paixões sexuais como algo degradante e vergonhoso. Assim, ele apresenta dois argumentos em forma de pergunta.
4. O primeiro: Embora a geração de filhos seja algo lícito e honesto, o casal não busca um quarto afastado para concretizá-lo? O segundo: As carícias sexuais não são feitas longe dos paraninfos e familiares?
5. Em sua conclusão Agostinho cita Cícero, famoso orador romano: “todos os atos legítimos pretendem realizar-se em plena luz”. Ele acrescenta que seria muito bom se pudéssemos gerar filhos sem a libido, sem “as emoções inoportunas”.
6. Na cabeça de Agostinho a relação sexual ideal seria aquela realizada sem as paixões, de forma que os “órgãos criados para essa função” se submetessem ao espírito, como os demais membros do corpo, como os pés, as mãos e os dedos.
[1] Livro 2, XVI ao XVIII (veja também o XXIV).
* Agostinho geralmente é classificado como neoplatônico, mas no campo da moral boa parte da sua influência é estoica.
Jones F. Mendonça
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