“Concedeste o desejo do seu coração,não negaste o aresheth de seus lábios” (aresheth só ocorre aqui)
“Concedeste o desejo do seu coração,não negaste a súplica de seus lábios” (desejo verbalizado).
“Concedeste o desejo do seu coração,não negaste o aresheth de seus lábios” (aresheth só ocorre aqui)
“Concedeste o desejo do seu coração,não negaste a súplica de seus lábios” (desejo verbalizado).
Como fio escarlate são teus lábios,Tua fala [=boca?] é formosa,Como romã partida é tua raqqah (רקה) através do teu véu.
“Antes que o fio de prata se ROMPAe o copo de ouro se PARTA,antes que o jarro se QUEBRE na fontee a roldana se DESFAÇA no poço”.
2. No Salmo 42,5, por exemplo, lemos assim: “por que está INCLINADA (שחח) minha GARGANTA (נפש)?”, ou seja, “por que está ABATIDO meu VIGOR/minha VIDA?”. A garganta aparece associada ao vigor, à vida, porque é por ela que passa o alimento, o ar que respiramos, o grito de dor, o brado de alegria.
3. Até mesmo no grego a relação entre “vida” e “fôlego” (associado à garganta) está presente. O termo “psychḗ” (ψυχη) significa “respiração”, “fôlego”. Por desdobramento: “vida”, “alma” (aquilo que dá ânimo ao corpo). Em Lc 12,22 lemos: “não andeis ansiosos pela vossa psychḗ”, ou seja, pela vossa “vida”.
4. A ideia de que a “psychḗ” é algo que subsiste sem o corpo aparece em Mt 10,28: “Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a psychḗ” (ou seja, que não podem dar um fim definitivo à existência e impedir ressurreição do corpo). Ocorre que na maioria das vezes, psychḗ significa simplesmente “vida”. Infelizmente a maioria dos tradutores opta por traduzir o termo por “alma” de forma indiscriminada.
5. A ênfase na percepção da existência humana na terra como sendo caracterizada por uma alma imortal aprisionada a um corpo mortal tem trazido grandes consequências. A tradição cristã medieval insistiu nessa ideia, que foi repetida pelos reformadores (como Calvino), deixando grandes reflexos na relação negativa do cristianismo com a sexualidade e com o prazer.
Jones F. Mendonça
2. Isso explica a diversidade de traduções para Jr 20,7: “seduziste-me, Senhor”, ou “enganaste-me, Senhor”, ou “persuadiste-me, Senhor”. Aqui Jeremias quer dizer o seguinte: “não quero fazer isso, mas a vontade divina me arrasta como um grilhão”. Ou, como ele mesmo declara no v. 9: “então isto era em meu coração como um fogo devorador, encerrado em meus ossos”. A dor profunda experimentada pelo profeta o leva a dizer: “estou cansado de suportar” (v. 9), “maldito o dia em que eu nasci!” (v. 14) e “porque ele não me matou desde o seio materno?” (v. 17).
3. Quem lê o livro com livro com atenção percebe que é injusta a classificação “profeta chorão” atribuída a Jeremias. Assim como é um equívoco ver Jó como exemplo de homem paciente. Não é paciente nem resignado.
Jones F. Mendonça
2. Tanto “néfesh” (lit. “garganta”) como “hay” (lit. “estômago”) são traduzidos, na grande maioria das vezes, por “vida”. Este Salmo é um raríssimo exemplo da ocorrência dessas duas palavras com sentido absolutamente concreto. Desconheço versão bíblica que traduza assim (dá uma olhada na sua).
3. Um bom leitor perceberá que
“perseguir a GARGANTA e alcançar e pisotear o ESTÔMAGO na terra” é o mesmo que
aniquilar a vida. Versões como a NVI traduzem assim: “no chão me pisoteie e
aniquile a minha vida”. A NVI capturou a mensagem. Mas que tirou toda a beleza
da poesia hebraica, ah, tirou...
Jones F. Mendonça
Mas nem sempre a imagem das entranhas vibrando/zunindo/gemendo indicam tristeza, dor ou agonia. Em Cantares 5,4, já despida, a amada espera seu amado no quarto. Quando ele chega, com os cabelos cheios de orvalho, deslizando seus dedos úmidos pela abertura (da porta?), as entranhas dela “vibram por ele”. Não vibram de tristeza, vibram de paixão, de fogo, de desejo. Mas o moço desaparece antes que ela lhe abra a porta. Ficou ali, com os dedos gotejando mirra.
Jones F. Mendonça
2. Ocorre que “jornaleiro” indicava, há muito tempo atrás, pessoa que recebia por jornada de trabalho, daí a escolha da palavra portuguesa “jornaleiro” (o que hoje chamaríamos de “diarista”). Assim, eu não diria que a tradução está errada, mas desatualizada.
3. O termo hebraico traduzido por
“jornaleiro” é שכיר (sakiyr). Ele serve para indicar uma pessoa que luta
diariamente por seu sustento. O termo reaparece em Jó 7,1. Veja: “Não está o
homem condenado a trabalhos forçados aqui na terra? Não são seus dias os de um sakiyr”
(assalariado, diarista, etc.)?
Jones F. Mendonça
2. O autor destaca que a “seita
pentecostal” era repudiada até mesmo pelos demais protestantes e argumenta, por
exemplo, que uma edição do Jornal Batista no início da década de 30 – classificado pelo
autor como “jornal protestante-esquerdista” (!) – enumerou alguns dos frutos do
pentecostalismo. Na relação aparecem: “perda de fé, amor livre, imoralidade,
espiritismo, hipnotismo... loucura”, etc. A estratégia católica era destacar os
efeitos nocivos do livre exame luterano, prática que a cada dia gerava mais
denominações protestantes que já nasciam se digladiando.
3. Na sequência também é mencionado o jornal presbiteriano “A Mensagem”, que teria tratado o pentecostalismo como “seita turbulenta e de confusão”. Outro jornal presbiteriano, “O Puritano”, publicado em 1939, teria noticiado que num culto pentecostal, “após alguns dias de jejum e reuniões e gritarias” um membro tentou arrancar a língua de um bebê, imaginando estar possuída pela “antiga serpente”.
4. Apesar de toda a oposição católica (com boa dose de exageros, inclusive ampliando a crítica protestante aos pentecostais), o pentecostalismo veio para ficar. O jornal Diário da Noite noticiava, em 10 de março de 1969, a inauguração no largo da Pompeia, em São Paulo, daquele que seria “o átrio do maior templo evangélico do mundo”, com a presença do prefeito Faria Lima. O projeto do templo, sede da Igreja Pentecostal Brasil para Cristo, previa até mesmo a construção de um heliponto!
Jones F. Mendonça
2. Enquanto a burguesia latifundiária rural defendia a velha ideologia feudal ibérica, os protestantes chegavam trazendo consigo, além da religião, a nova ideologia liberal anglo-saxônica. Imaginavam, inspirados na filosofia do destino manifesto, que eram representantes do progresso econômico, político e cultural. Na prática os missionários protestantes atuavam – conscientes ou não – como agentes do imperialismo estadunidense.
3. As portas para as religiões de matriz protestante se abriram em 1810, por meio do Tratado de Amizade, Comércio e Navegação celebrado entre a Coroa Portuguesa e a Inglaterra. Embora fosse um tratado comercial, o documento assegurava aos ingleses residentes no Brasil, a “perfeita liberdade de Consciência, e licença para assistirem, e celebrarem o Serviço Divino em honra do Todo Poderoso Deos” (art. XII).
4. Os locais de culto, no entanto, precisavam ter a arquitetura “semelhante às casas de habitação” e, um detalhe importante: não podiam ter sinos para anunciar as atividades religiosas. Você pode acessar e ler o documento – escrito no bom português do século XIX e digitalizado pela equipe da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin – clicando aqui.
2. “Malakos” só reaparece em Mt 11,8 e Lc 7,25. Seu sentido concreto é “mole”, “macio”, “suave”, “flexível”. No caso dos Evangelhos o termo é usado para indicar um tecido “luxuoso”, “fino”, dada sua maciez. Rastreei o emprego do termo em textos fora do NT com a ajuda o Perseus Digital Library. Ele aparece em textos de Platão, Aristóteles, Heródoto e tantos outros. Sempre indica algo que é macio, mole, flexível, etc. De modo geral os tradutores pensam que o termo foi usado como metáfora para “delicado”, daí “efeminado”. Quem pode ter certeza?
3. “Arsenokoites” é um neologismo paulino. Só reaparece em 1Tm 1,10, mas o contexto não ajuda a entender seu significado com clareza. O termo resulta da junção de “arsen” (macho) + “koite” (cama). Será que indica o macho que traz para sua cama outro macho? Ou uma mulher casada que macula o seu leito com outro homem? Talvez esteja se referindo ao abuso de homens mais velhos cometidos contra homens mais jovens, prática bem atestada entre gregos e romanos. Difícil saber com certeza.
4. Confesso que não estou convencido de que o texto esteja se referindo ao que hoje chamamos de “relação homoafetiva”. Os exegetas da BJ são os mais honestos. Sabem que as palavras no máximo revelam um tipo de relação/comportamento considerado imoral (mas qual?), daí terem optado por termos mais genéricos como “depravados e pessoas com costumes infames”. O que passa disso é invenção, é leitura ideológica da Bíblia.
5. Bem, se você me perguntar se Paulo teria posição contrária às relações sexuais homoafetivas eu diria que sim. É o que parece dizer Rm 1,26-27. A posição de Paulo em Romanos concorda com a de outros judeus do período, como Fílon de Alexandria, que condenava relações sexuais entre homens porque via o sexo como algo exclusivamente relacionado à reprodução. Vale dizer que Fílon também condenava sexo entre um homem e uma mulher estéril, uma vez que não promovia a reprodução da espécie.
Jones F. Mendonça
Tu não julgas a causa da viúva,Nem decide o caso dos miseráveis;Não expulsas os que atacam os pobres;Não alimentas o órfão antes de ti (ANET, 149).
Publicado hoje no Haaretz (27/10/21):
Um fragmento de relevo encontrado em um santuário semelhante ao Templo de Salomão lembra uma divindade cananeia, sugerindo que o culto a imagens e a vários deuses estava bem vivo na Judá bíblica.
O objeto – encontrado na antiga comunidade de Motza, a 6 km de Jerusalém – pode ser apenas uma pedra desgastada de uma maneira que lembra um homem de pé. O arqueólogo que dirige a escavação, Shua Kisilevitz, sugere que seja um fragmento de relevo mostrando a representação de uma divindade da tempestade, como Baal.
Jones F. Mendonça
Não OLHEIS eu estar empretecida, foi o sol que me AVISTOU. Os filhos de minha mãe QUEIMARAM-SE contra mim.
Mas a natureza se delicia com o número sete. [...] sete são as secreções [do corpo]: lágrimas, muco do nariz, saliva, líquido seminal, os dois tipos de evacuação [urina e fezes], e o suor que sai de todas as partes do corpo (Interpretação Alegórica I, IV, 8).
Moisés está aqui registrando fatos históricos [...]. Embora seja difícil descrever que tipo de luz era essa, ainda não estou inclinado a pensar que devemos nos afastar, sem motivo, da gramática simples.
É por esse motivo que sou tão favorável a Lira e, de bom grado, classifico-o entre os melhores comentaristas. Ele sempre obedece e segue cuidadosamente a história.