terça-feira, 27 de agosto de 2024

NOVA COLEÇÃO SOBRE PERSONAGENS BÍBLICOS: MOISÉS

Desde que o rabino Avraham ibn Ezra escreveu, no século XII, um comentário sugerindo que certas passagens da Torah (o Pentateuco cristão) não poderiam ter sido escritas por um autor apenas (Moisés), a pesquisa sobre a autoria do Pentateuco e, por conseguinte, sobre a própria figura do profeta como personagem histórico, passou por profundas transformações.

Neste livro, escrito por Thiago Pacheco, doutor em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a figura de Moisés é analisada com as ferramentas do método histórico-crítico e da teoria narrativa de Paul Ricoeur. Assim, destaca as diversas facetas de Moisés que se mesclam no texto: guerreiro, profeta, sacerdote, operador de milagres e muito mais.

Não apenas atento às diversas camadas redacionais do texto em busca de como foram articuladas as diversas tradições a respeito de Moisés, o autor ainda brinda o leitor com reflexões teológicas relacionadas às tradições preservadas na Bíblia Hebraica a respeito da figura de Moisés, tais como profecia, milagre, fé e experiência religiosa.

O livro, publicado pelo Ateliê de Humanidades Editorial, já está disponível para compra na pré-venda no site da Amazon. Reserve já o seu.


Jones F. Mendonça

RUAH, NESHAMAH, NÉFESH: CONSIDERAÇÕES SOBRE O AR EM MOVIMENTO


1. Há três palavras principais no hebraico relacionadas ao ar em movimento: ruah, neshamah e néfesh. Tais palavras não são sinônimas, mas podem ser utilizadas de forma intercambiável em alguns casos. Ruah, por exemplo, serve para indicar um vento forte, como aquele que abre o Mar dos Juncos: “E Yahweh, por um forte vento oriental que soprou toda aquela noite” (Ex 14,21). Mas ruah também serve para designar vento brando, como o “vento” que sai dos nossos narizes, o “vento de vida”, o fôlego (Gn 7,22). Em boa parte dos casos ruah é traduzida por “espírito” (cf. Jz 11,29), potência invisível que como o vento anima aquilo que toca.

2. Neshamah tem sentido mais restrito, substantivo feminino utilizado principalmente para indicar o ar que sai das narinas, o fôlego. Em Gn 2,7 Yahweh modela o homem do solo e sopra em suas narinas a “neshamah” de vida, ou seja, o “vento”, o “fôlego” de vida. Para indicar a morte de toda a população de uma cidade, exterminada pala espada, fazia-se alusão a abolição de todo o fôlego: “não restou nenhum fôlego” (Js 11,14), ou seja, nenhum ser com vida. Em Jó 4,9 – expostos em paralelismo semântico – ruah e nehamah aparecem como sinônimos: “com a neshamah de Deus perecem, com a ruah de sua ira se consomem”.

3. Néfesh indica, em sentido primário, a garganta. Assim, quando Yahweh sopra nas narinas do primeiro homem a “neshamah” de vida, o “fôlego” de vida, ele se torna uma “garganta” viva (Gn 2,7), ou seja, um ser que respira, que lamenta, que grita, que sente sede e fome e, claro, que também desobedece. Em muitas Bíblias néfesh é traduzido por “alma”. A tradução não está errada se considerarmos que “alma” indica aquilo que anima o corpo, que lhe dá vida. Néfesh não tem qualquer relação com a ideia grega de uma “alma imortal”, como antítese ao corpo finito, percebido como uma espécie de casulo ou prisão da alma (percepção adotada por Calvino).


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

LUTERO, OS "FILHOS DE DEUS", OS INCUBUS E OS SUCUBUS


1. A narrativa bíblica presente no capítulo seis do Gênesis – a união dos “filhos de Deus” às “filhas dos homens” – recebeu ao longo da história três explicações básicas: 1) os “Filhos de Deus” são os descendentes de Adão pelo tronco de Seth (benditos); as “Filhas dos homens” são descendentes Adão pelo tronco de Caim (malditas); 2) Os “Filhos de Deus” são seres angelicais; as “filhas dos homens” são humanas; 3) Os “Filhos de Deus” são homens poderosos da antiguidade, precursores das uniões poligâmicas com as “filhas dos homens”, mulheres dotadas de grande beleza.

2. A proposta nº 1 aparece nas Preleções sobre o Gênesis, produzidas por Martinho Lutero entre 1535-1545 (Commentary on Genesis, Vol. 2: Luther on Sin and the Flood). O monge agostiniano entende que o texto aponta para duas violações: 1) Os descendentes de Adão gerados por Seth (“Filhos de Deus”) desejaram as descendentes de Adão geradas de Caim, as “cainitas” (“Filhas dos homens”); 2) O texto revela um ímpeto maligno: desejar tantas mulheres quantas pudessem tomar (poligamia). Lutero faz essa interpretação inspirado na opinião de Nicolau de Lyra, teólogo que viveu entre os séculos XIII e XIV (1270-1349).

3. O reformador rejeita a interpretação judaica que vê os “Filhos de Deus” (bney ha-elohim) como sendo seres angelicais expulsos da corte celeste e convertidos em “demônios”. Para o reformador, tal interpretação não passa de “balbucios judaicos”. A razão: o reformador acredita – reproduzindo crendices medievais muito populares – que demônios podem sim assumir forma humana e até mesmo seduzir e se relacionar sexualmente com homens e mulheres, mas nega que esse tipo de relação seja capaz de gerar filhos tal como indicado no capítulo seis do Gênesis: “quando os filhos de Deus se uniam às filhas dos homens e estas lhes davam filhos” (Gn 6,4).

4. Seguem trechos das Preleções sobre o Gênesis: “Mas quanto aos demônios lascivos e prostitutas (íncubos e súcubos), eu não nego — não, eu acredito! — que um demônio pode ser um lascivo ou uma prostituta, pois ouvi homens citarem suas próprias experiências. [...] Quando o diabo está na cama, um jovem pode pensar que tem uma garota com ele, e uma garota que tem um jovem com ela; mas que qualquer coisa possa nascer de tal concubinato, eu não acredito. Muitas feiticeiras foram, em um momento ou outro, submetidas à morte na fogueira por conta de suas relações com demônios”.

5. Assim, embora reconheça ser possível a relação sexual entre homens/mulheres e demônios masculinos/femininos (íncubos e súcubos), Lutero rejeita veementemente que o capítulo seis do Gênesis trate desse tipo de relação. Para ele, como já foi dito, o texto condena 1) a união entre os descendentes de Seth e de Caim; 2) as uniões poligâmicas. Problemas: 1) O Antigo Testamento jamais condena as uniões poligâmicas; 2) A expressão “bney ha-elohim”, traduzida por “filhos de Deus” sempre indica membros da corte celeste, como Jó 1,6: “No dia em que os Filhos de Deus (bney ha-elohim) vieram se apresentar a Yahweh…”.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

A NOITE E AS TREVAS NA BÍBLIA HEBRAICA


1. Noite, em hebraico, é laylah (לילה), funcionando como oposição ao “yom” (יום), o dia. Muito do que é narrado na Bíblia Hebraica acontece durante o período noturno. É durante a noite que dois anjos cobiçados pela população de Sodoma entram na casa de Ló (Gn 19,15). Na calada da noite as filhas de Ló cometem incesto com seu pai, dando origem aos amonitas e moabitas (Gn 19,34-35). Em uma noite muito estranha Saul entra em delírio extático e cai nu até o amanhecer (1Sm 19,24). Boaz, no meio da noite, estremece após encontrar Rute, toda perfumada, deitada aos seus pés (Rt 3,8).
 
2. Além de “noite”, o hebraico possui uma palavra específica para a transição entre o dia e a noite: o “crepúsculo da tarde”, ‘êrev (ערב). No fim de uma tarde, já mal iluminada pelo sol, Jacó toma Lia por engano. O pai da moça, que não era tonto, entrega Lia após um banquete, aproveitando-se não apenas do ambiente mal iluminado, mas também do juízo de Jacó afetado pela embriaguez. No fim da tarde, enquanto o sol se despede, Davi se debruça sobre o terraço e deseja Bat-shebah, mulher de Urias, que se purificava de suas regras (2Sm 11,1-5).
 
3. Além de “noite” e “crepúsculo da tarde”, o hebraico emprega uma variedade de palavras para indicar as trevas e a escuridão: ‘alatah, apelah, arapel, marshakh, neshep, ‘eypah e hoshekh. Na Bíblia Hebraica as trevas nem sempre funcionam como símbolo para o mal. Em Deuteronômio 5,22, por exemplo, Yahweh se dirige ao povo em meio às “trevas, nuvens e escuridão”. Do mesmo modo, em Êxodo 20,21, Moisés se achega "às trevas espessas onde Deus estava”. O Salmo 18 diz que Yahweh “faz das trevas o seu véu” (v. 11). Nas trevas Deus se esconde e Deus se revela: Deus absconditus et Deus revetus.



Jones F. Mendonça

sábado, 10 de agosto de 2024

DE JERUSALÉM A JERICÓ: GEOGRAFIA BÍBLICA

Uma caminhada de Jerusalém a Jericó – tal como aparece na parábola do Bom Samaritano (Lc 10,29-37) – envolve um percurso de cerca de 30Km. Jerusalém fica na região montanhosa da Judeia, cerca 720 metros acima do nível do mar. Jericó fica em uma região muito baixa, no Vale do Jordão, 250 metros abaixo do nível do mar (trata-se de uma descida de quase mil metros!). No vídeo que produzi para meus alunos de Geografia Bíblica, com duração de pouco mais de um minuto e feito com a ajuda do Google Earth Studio, você vai visualizar o trajeto entre essas duas cidades mencionadas na Bíblia.



Jones F. Mendonça

SOBRE AS HONRAS DIVINAS IMPERIAIS ROMANAS


1. De modo geral, quando dizemos que um povo da antiguidade adorava determinada divindade, somos contaminados pela noção cristã relacionada aos atributos de um “deus”: a ele seriam atribuídos poderes ilimitados, sendo onisciente, onipresente, eterno, etc. Mas no mundo greco-romano no qual o cristianismo se desenvolveu, ser tratado como “deus” podia indicar muitas coisas. Além das divindades tradicionais do culto romano – como Zeus, Hermes e Afrodite – também podiam ser considerados “divinos” (divus/divas) alguns imperadores ou membros da família real. E essa divinização podia ocorrer inclusive enquanto a pessoa estivesse viva.

2. Em artigo publicado no The Bible and Interpretation, David Clint Burnett apresenta um panorama das honras divinas imperiais romanas, classificadas em quatro categorias: 1) Honra Romana: concedida post mortem pelo senado a alguns imperadores e membros da família real; 2) Honra Provincial: em vida, estabelecida pelas províncias; 3) Honra Cívica: em vida, concedida pelas cidades como gratidão por sua bênção; 4) Honra Privada: em vida, concedida por indivíduos ou associações privadas visando mostrar apreço por seus benefícios. Assim, um imperador “divinizado” podia ser recompensado com culto, templos, sacrifícios, hinos e orações.


Jones F. Mendonça

O "VENTO" NA BÍBLIA HEBRAICA - PARTE II

1. A palavra hebraica ruah (רוח) pode ser traduzida tanto por “vento” como por “espírito”. Só o contexto pode ajudar o tradutor a fazer a escolha correta. Na maioria dos casos é bem fácil decidir, como em Jz 11,29: “Então veio sobre Jefté a ruah ( = o espírito) de Yahweh”. Ou seja, “o espírito de Yahweh veio sobre Jefté”. O texto se refere ao “fôlego” (potência invisível) de Yahweh, ou, como preferimos, o “espírito” de Yahweh. Fácil.

2. Agora vejamos um caso em que ruah deve ser traduzida por “vento”. No Sl 1,4 lemos que os ímpios “são como a palha que a ruah ( = o vento) dispersa”. Não é o “espírito” que dispersa a palha, mas “o vento” que dispersa a palha, claro. Perceba o leitor que o sentido primário de ruah é o mesmo: “fôlego”, “sopro da boca”, “hálito”, “vento”. Todas essas palavras estão conectadas por um elemento comum.

3. Quando o texto se refere a uma ruah que agita as ondas, por exemplo, é “vento”. Quando indica uma ruah que movimenta as entranhas, que dá ânimo ao ser, que dá vida, é espírito. Os tradutores divergem em relação à tradução de Gn 1,2: afinal, aquilo que soprava sobre as faces das águas era um “vento de Deus” ou o “Espírito de Deus”? 



Jones F. Mendonça

O "VENTO" NA BÍBLIA HEBRAICA


1. O vento divino desempenha um papel muito especial nos primeiros cinco livros da Bíblia. É por meio de um vento que: 1) elohim faz baixar as águas do dilúvio (Gn 8,1); 2) Yahweh traz gafanhotos para devastar a terra do Egito (Ex 10,13); 3) Yahweh faz o mar se abrir para a travessia dos descendentes de Abraão, Isaac e Jacó (Ex 14,21); 4) Yahweh traz codornizes para alimentar o povo no deserto (Nm 11,31).

2. A palavra hebraica “ruah”, cujo sentido primário é "vento", não apenas indica uma ventania. Em Gn 7,22 é “vento” que entra pelas narinas e anima o corpo: “e tudo o que tinha ‘vento de vida’ em suas narinas... morreu”. Em 1Sm 30,12 um egípcio recobra os sentidos após Davi lhe oferecer uma pasta de figos: “ele comeu e o ‘vento’ retornou” [às suas narinas]. Elifaz, em Jó 15,13, lamenta que um moribundo “levante contra Deus o seu vento”, ou seja, sua “ira”.

3. Ruah é vento de sopro, vento de ira, vento de vida, vento que anima o corpo (espírito), vento que movimenta a criação em favor de seu povo.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

SODOMA, ANJOS E SEXO


1. De todos os livros da Bíblia, o único que se propõe a explicar o pecado de Sodoma a partir de uma questão sexual é a epístola de Judas. De acordo com o autor da epístola, os moradores da cidade ficaram sujeitos ao castigo “por se terem prostituído, procurando unir-se a seres de uma natureza diferente” (Jd 1,7; Tradução da Bíblia de Jerusalém). Uma tradução mais literal seria: “por seguirem atrás de carnes diferentes” (σαρκος ετερας).

2. Mas que “carnes diferentes” seriam essas? Ora, de acordo com o texto de Gênesis, a população da cidade – incluindo velhos e jovens – queria “conhecer” (ou seja, possuir sexualmente) os seres celestiais que estavam hospedados na casa de Ló (Gn 19,5). Mas pode isso, Arnaldo? Bem, no capítulo 6 do Gênesis lemos que os “filhos de elohim” tomaram para si as “Filhas dos homens” (6,2). Voltemos a Judas.

3. Note o leitor que Judas põe lado a lado o crime cometido pelos “anjos que abandonaram a sua morada” (v. 6) e o crime cometido pelos habitantes de Sodoma (v. 7). Quer saber a razão? Porque ambos cometeram o mesmo delito: buscaram se relacionar sexualmente com seres de natureza diferente. O crime cometido pelos anjos foi tão grave que acabaram “presos em cadeias eternas”. É o que o texto diz.

4. O crime de Sodoma reaparece ao lado do crime dos “anjos que pecaram” em 2Pe 2,4. De novo, Arnaldo? Sim, de novo! Sodoma e Gomorra pagam por seu pecado sendo “reduzidas a cinzas” (2,6). Os anjos que pecaram são lançados nos “abismos tenebrosos do Tártaro” (2,4). Eita! Isso não é pouca coisa não. O Tártaro é uma espécie de inferno dos infernos (ou melhor, o Hades do Hades).

5. E para concluir. Você vai encontrar condenações às relações homoafetivas aqui e ali nas Escrituras (são pouquíssimas, na verdade), mas a causa da destruição de Sodoma e Gomorra, no capítulo dezenove do Gênesis, nada tem a ver com relações homoafetivas. Enganaram você.


Jones F. Mendonça

domingo, 4 de agosto de 2024

SOBRE O MAL METAFÍSICO-ONTOLÓGICO NA BÍBLIA HEBRAICA

1. Inexiste na Bíblia Hebraica uma palavra capaz de exprimir a ideia de algum tipo de mal metafísico-ontológico. Uma das palavras hebraicas comumente traduzidas por “mal” é רע (ra’), que significa simplesmente “ruim” (como oposição àquilo que é considerado bom, agradável, belo ou aprazível).

2. As vacas “magras e feias” (Gn 41,3) que aparecem no sonho de José, por exemplo, são na verdade “magras e ruins (רע)”, em oposição às vacas “gordas e formosas” (41,2). “Ruins”, neste caso específico, indica uma “aparência ruim”, ou seja, “feia”. Is 45,7 apresenta Yahweh como uma divindade que faz a shalom (bem estar pleno) e cria o “mal” (רע). Mas essa tradução não é boa.

3. Veja que o termo hebraico רע (ra’), neste caso, atua em oposição à shalom, ao estado de pleno bem estar. O que o texto quer dizer é: Yahweh é plenamente soberano, ele produz tanto aquilo que nos parece bom, prazeroso e belo (como a videira que brota da terra), como aquilo que nos parece ruim, doloroso e feio (como a criança dilacerada pela guerra).

4. Não é “bem” e “mal”, mas “bom” e “ruim”. Percepções mais complexas e desenvolvidas a respeito da existência de um “bem” ou de um “mal” intrínseco aos seres só é perceptível na tradição literária dos hebreus a partir do seu contato com a cultura grega. A árvore do conhecimento do “bem” e do “mal” é, na verdade, árvore do conhecimento do “certo” e do “errado”.

5. Mas qual seria o parâmetro para esse “certo” e esse “errado”? Ora, a Lei, a Torah. “Certo” é aquilo que a Torah estabelece como “certo”. “Errado” é aquilo que a Torah estabelece como “errado”. Alguém poderia perguntar: “mas Jones, não existia Torah no Éden!”. Ora, não existia para os personagens da narrativa, mas existia para quem redigiu a narrativa. E isso faz toda a diferença.



Jones F. Mendonça

sábado, 29 de junho de 2024

GÊNESIS EM PERSPECTIVA SINCRÔNICA


1. Uma perspectiva de leitura [sincrônica] interessante do Gênesis é focar na questão do solo, da adamah (אדמה), que é apresentado inicialmente como ideal e, depois, cada vez mais corrompido. Repare que do solo brotam vegetais (2,9), animais (2,19) e também o homem, o adam (2,7), nome que não por acaso preserva afinidade com o adamah, o solo. Guarde isso e vamos prosseguir.

2. A decisão de comer o fruto proibido gera uma série de consequências, inclusive no solo. Ele se torna menos fértil, dificultando o trabalho de tirar dele o seu fruto (3,17). O solo também se converte em sepulcro do homem: “Pois tu és pó e ao pó tornarás” (3,19). Expulso do jardim irrigado, o homem recebe a dura tarefa de arar o solo (3,23). A mensagem é clara: o solo, fonte de vida, também sofre as consequências da iniquidade.

3. No capítulo quatro o leitor é apresentado a Caim, um “trabalhador do solo” (4,2). Acontece que Caim mata seu irmão e por isso sofre uma pena que mais uma vez está relacionada ao solo: “Ouço o sangue de teu irmão, do solo, clamar para mim, agora, és maldito e expulso do solo fértil” (4,10-11). Para Adão, o solo resiste, mas ainda é arável. Para Caim, o solo se torna completamente inacessível.

4. Impossibilitado de tirar do solo seu sustento, Caim precisou encontrar outra maneira de sobreviver. O texto diz que seu filho tornou-se um construtor de cidades (4,17). Outros de seus descendentes passaram a viver da criação de gado (4,20) e outros se tornaram ferreiros, como Tubalcaim (4,22). O leitor atento percebe nas entrelinhas que cidade é apresentada como lugar hostil.

6. O aumento da iniquidade ganha uma dimensão jamais vista no tempo de Noé, único homem considerado justo em sua geração. A terra é assolada por um dilúvio e assim que as águas baixam Noé constrói um altar e oferece a Yahweh um sacrifício (8,20), que é aceito com boa vontade. Então Yahweh diz a si mesmo: “Eu não amaldiçoarei nunca mais o solo por causa do homem” (8,21).

7. No capítulo doze um novo personagem ganha destaque: Abrão. A palavra divina dirigida a Abrão não apenas reafirma o compromisso de jamais amaldiçoar o solo. Há uma bênção para os "clãs do solo". Veja: “Abençoarei os que te abençoarem, amaldiçoarei os que te amaldiçoarem. Por ti serão benditos todos os clãs do solo” (12,3). Será por meio dessa aliança que o solo voltará a ser fonte de bênçãos, fonte de vida.




Jones F. Mendonça

sábado, 27 de abril de 2024

JÓ E ECLESIASTES EM ANCIENT NEAR EASTERN TEXTS (ANET)


1. Embora os livros bíblicos de Jó e Eclesiastes possuam cada qual suas próprias singularidades, textos refletindo sobre o sofrimento do justo (Jó) e da aparente falta de sentido da vida (Eclesiastes) são bem atestados entre os diversos povos do Antigo Oriente Próximo desde o II milênio antes da era comum. Quem tiver interesse em conhecer tais escritos deve se debruçar sobre uma coletânea de textos conhecida como ANET (Ancient Near Eastern Texts), que em português pode ser traduzida como “Textos do Antigo Oriente Próximo”. A obra reúne material oriundo da Mesopotâmia e do Egito. Seguem os escritos que de algum modo possuem afinidade com Jó e Eclesiastes e suas respectivas datações/páginas em ANET:

1. “Homem de Deus” ou “Jó sumeriano” (~2000 a.C.); ANET, pp. 589-591.
2. “Eu enaltecerei o Senhor da Sabedoria” (~1200 a.C.); ANET pp. 596-601;
3. “O diálogo de um sofredor com seu amigo” ou “Teodiceia babilônica” ou “Qohelet babilônico” (1000-800 a.C.); ANET pp. 601-604.
4. Textos egípcios classificados como “controvérsia sapiencial” (ANET, pp. 475-479), “O lamento do agricultor” (ANET, pp. 407-410), “O diálogo da pessoa cansada da vida com sua alma” (ANET, pp. 405-407) e “As palavras de exortação de Ipu-Ver (ANET, pp. 441-444).


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 18 de abril de 2024

SOBRE EPILÉTICOS E ALUADOS


1. Nesta semana, na aula de "poesia e Sabedoria na Bíblia Hebraica", percorremos por toda a Bíblia na tentativa de reconstruir a história do desenvolvimento da figura de Satã (a aula é uma introdução ao livro de Jó). Chegamos a Mateus 17,15, passagem que descreve um exorcismo realizado por Jesus em um menino supostamente "epilético" (σεληνιαζομαι). Assim traduzem algumas versões, como a Almeida Revista e Atualizada. Na Idade Média a doença ficou conhecida como "morbus demoniacus" (doença do demônio).

2. Mas o termo grego "seleniazomai" indica mesmo um "epilético"? Algumas versões optaram por "lunático" e já posso adiantar que estão mais próximas do sentido original de "seleniazomai". É que no mundo antigo as instabilidades emocionais eram associadas à lua (selene), por isso o jovem mencionado no texto é classificado como "seleniazomai" = "pessoa afetada pela luminosidade da lua" (você se lembra do "Da Lua", de Mulheres de Areia?). É óbvio que a lua nada tem a ver com a loucura, mas era assim que os antigos entendiam.

3. A passagem descreve um menino que parecia ter pouco controle sobre seus movimentos e suas faculdades mentais. O texto sequer supõe que o menino tinha alguma doença, mas atribui seu descontrole à influência de um daimonion (δαιμονιον), termo que podia ter muitos sentidos no mundo greco-romano, como demonstra o historiador francês Denis Fustel de Coulanges, em sua "Cidade Antiga" (1864). Não faz qualquer sentido o uso de "epilético" em Mt 4,24 e 17,15. É preciso bani-lo, definitivamente, assim como "leproso".



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 22 de março de 2024

SEMINÁRIO TEOLÓGICO BATISTA CARIOCA: AULAS


1. De modo geral, são classificados como “literatura sapiencial” os livros de Provérbios, Jó e Eclesiastes. O primeiro, formado por uma coletânea de sentenças curtas, é assertivo, direto, repleto de declarações imperativas: “escuta, meu filho”, “inclina teu ouvido…” (1,8; 22,17). Os dois últimos possuem natureza bem distinta: expõem muitas perguntas e oferecem poucas respostas. Jó expressa um sentimento de crise diante da dor e da perda material e afetiva. Eclesiastes também é uma literatura de crise, mas a crise, neste caso, é existencial, uma vez que a vida humana parece subsistir meramente como “névoa” e “doença ruim” (6,2).

2. Um leitor atento perceberá que a história de José, em Gn 37,39-50, preserva muitos elementos comuns à chamada literatura sapiencial, por isso foi classificada por von Rad como “romance literário didático” (um conto sapiencial). Inspirado no trabalho de von Rad, Shemaryahu Talmon sugeriu que a história de Ester igualmente revela a influência de uma “mão” sapiencial. R. N. Whybray, nas mesmas pegadas de von Rad, viu na narrativa de sucessão (2Sm 9-20; 1Rs 1-2) as marcas de uma tradição sapiencial. Também parecem preservar traços sapienciais os livros de Jonas, Rute, Daniel e alguns Salmos (como o 39 e 104), dentre outros.

3. Mas será que não estaríamos sendo seduzidos por uma espécie de “pan sapiencialismo”, como sugeriu Will Kynes? Existiu de fato, no Antigo Israel, um grupo de escribas palacianos conhecidos como “sábios” (חכם), atuando ao lado (e muitas vezes em conflito) de figuras bem conhecidas, como os sacerdotes e profetas? Será que a literatura sapiencial expressa a percepção de mundo de um grupo específico? É mesmo possível falar em uma “tradição sapiencial”? Que relação ela possui com os demais livros que compõem a Bíblia Hebraica? E, por fim: quais os limites desse suposto corpus literario?

4. A tentativa de responder a esta e a outras perguntas relacionadas à literatura sapiencial você encontra em “Was There a Wisdom Tradition? New Prospects in Israelite Wisdom Studies”, editado por Mark S. Sneed (Atlanta, SBL, 2015). Esta e outras questões também serão abordadas no curso "Livros Poéticos e Sapienciais da Bíblia Hebraica" do Seminário Teológico Batista Carioca. Espero você em nossa sala virtual. Procure a Viviane, nossa secretária: (21) 96536-9181.


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 8 de março de 2024

LUTERO, BEAUVOIR E OS BEBÊS


1. Quando Lutero diz, em suas Preleções sobre o Gênesis, que a mulher possui uma habilidade especial para acalentar bebês, em contraste com o homem, inapto para a tarefa, está naturalizando algo que é aprendido, e não implantado no DNA da fêmea.

2. Em "O segundo sexo", ao declarar que "ninguém nasce mulher, torna-se mulher", Simone de Beauvoir está dizendo exatamente isso: ser fêmea é algo dado pela natureza, ser "mulher" é uma construção social.

3. Assim, quando alguém diz: "isso não é coisa de mulher", está dizendo, "isso não é coisa que a sociedade [patriarcal] consolidou como papel reservado à fêmea". Mas Beauvoir não é tonta a ponto de dizer que tudo é construção social.

4. Quem faz isso é a chamada "esquerda identitária", que nada tem a ver com Marx ou com o socialismo. A direita conservadora, por outro lado, milita pela naturalização daquilo que é construído. Como se os edifícios dos costumes tivessem caído do céu.


Jones F. Memdonça

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

SOBRE GUERRAS E VERMES QUE NUNCA MORREM


1. Até onde pude constatar, a crença no cumprimento literal das profecias do Antigo Testamento relacionadas ao retorno dos judeus à terra prometida remonta ao século XVIII. Nasceu em ambiente puritano, grupo de fiéis fervorosos que se desvincularam da Igreja Anglicana. No século XIX, precisamente em 1844, George Bush, avô presbiteriano do ex-presidente dos Estados Unidos, escreveu “The Valley of Vision; or, The Dry Bones of Israel Revived”, livro que pregava, assim como os puritanos, o restauracionismo.

2. No ambiente cristão, até então, imaginava-se que as profecias relacionadas à restauração de “Israel” (ou melhor, de Judá/Jerusalém) já haviam sido cumpridas no século VI a.C., concretizadas após o Edito de Ciro, rei persa mencionado no livro do profeta Isaías (44,28):
Digo a Ciro: "Meu pastor".
Ele cumprirá toda a minha vontade,
dizendo a Jerusalém: "Tu serás reconstruída",
e ao Templo: "Tu serás restabelecido”.
3. De fato, Jerusalém e seu templo foram reconstruídos. No tempo de Jesus o santuário ainda estava de pé e os judeus viviam na Palestina tal como declaravam as antigas promessas. Além disso, as profecias messiânicas foram projetadas em Jesus, reconhecido como sendo “da linhagem de Davi” (Is 1,1; Mt 1,1). E como sua missão foi ressignificada, percebida por seus seguidores como estando relacionada à salvação “dos pecados” e não mais à salvação “dos impérios hostis” (Lc 24, 21.47), tudo parecia cumprido, restando apenas o juízo final, a ressurreição do corpo e o triunfo do reino sem males.

4. No primeiro século os judeus ainda estavam reunidos, ainda ocupavam a terra de seus ancestrais e já possuíam – na perspectiva cristã – um rei “da linhagem de Davi”. Na expectativa de Paulo, por exemplo, só restava aguardar o retorno, a parousia de Cristo. Por isso ele diz aos Tessalonissenses: “nós... os que estivermos vivos, seremos arrebatados como ele” (1Ts 4,17). O texto revela com muita clareza que Paulo cultivava forte expectativa pela iminência do retorno de Cristo, ainda enquanto estivesse vivo. Na Segunda Carta, mais maduro, ele recua e pede paciência (2Ts 2,2).

5. Ocorre que no ano 70 Jerusalém foi destruída pelo exército romano. No início do segundo século, após nova revolta judaica, os judeus foram expulsos de Jerusalém sob o governo do imperador Adriano. Diante disso, o cumprimento literal e definitivo das Escrituras – posse da terra, reino terreno sob o governo de Cristo, paz definitiva em Jerusalém – foi projetado para o futuro, para o milênio. E assim nasceu o restauracionismo. E assim foi gerado o dispensacionalismo (John Nelson Darby e Cyrus Ingerson Scofield), roteiro hollywoodyano de mau gosto criado no século XIX.

6. No século XXI, em um mundo ainda assolado por tantas guerras cruéis, o dispensacionalismo permanece sendo usado para legitimar crimes de guerra, deportações forçadas, roubo de terras, violação de sepulturas e santuários, fraldas manchadas de sangue e tripas suspensas no varal. É política travestida de piedade. Crueldade sob o manto da Cruz. Crenças ruins são como o verme do Evangelho de Marcos: ardem nas chamas, mas nunca morrem (Mc 9,48).



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

O CARNAVAL DE IVETE E O ARMAGEDOM


1. Desde que Cristo deixou fisicamente a terra, diversas questões passaram a ocupar a mente daqueles que se reuniam em seu nome. Duas delas aparecem relacionadas: 1) Qual a razão de sua morte? (Lc 24,20-21), 2) Quando e como voltará? (1Ts 4,13-18). Na tentativa de expor em detalhes a questão n° 2, teólogos das mais diversas épocas se debruçaram sobre livros como Ezequiel, Daniel, Mateus, Tessalonicenses e, obviamente, o Apocalipse.

2. A explicação mais criativa, fantástica e popular é o dispensacionalismo. De acordo com essa visão, um dos mais evidentes sinais de que o mundo caminha para um colapso final é o chamado ARREBATAMENTO: cristãos piedosos de diversas partes do mundo desaparecerão de forma abrupta, resgatados por Cristo, inaugurando na terra um período de sete anos de extrema angústia: a terrível e temida GRANDE TRIBULAÇÃO.

3. No final desses sete anos Jerusalém estará cercada pelos exércitos de Gog e Magog, desencadeando a não menos dramática GUERRA DO ARMAGEDOM. Mas Jerusalém sairá ilesa graças à interferência de Cristo, que sairá em auxílio da Cidade Santa e derrotará o malvado ANTICRISTO. Sentado em um trono, com coroa e tudo, Cristo reinará em Jerusalém por mil anos e a terra experimentará fartura e prosperidade. Tudo perfeito, como naquelas ilustrações das Testemunhas de Jeová.

4. Mas... como nos filmes da Marvel, é preciso estar atento às cenas pós-crédito. Inesperadamente, para surpresa dos telespectadores, ou melhor, dos sobreviventes do Armagedom, no ano 1000 o Capiroto lançará seu último bote. Ocorre que o roteiro foi tornado público (tem spoiler), então todos sabem que o Zarapelho será derrotado e lançado definitivamente no lago de fogo ardente juntamente com a Besta e o Falso Profeta (Ap 20,10).

5. Bem, com essa coisa de guerra entre Israel e Hamas, conflito na Ucrânia, Houthis no Yêmen, China ameaçando Taiwan e alertas sobre os perigos da inteligência artificial, os dispensacionalistas estão em polvorosa. Em pleno festejo de carnaval, Baby do Brasil disparou: “o arrebatamento tem tudo para acontecer entre cinco e dez anos” (Puxa, assim tão rápido nem vou conseguir comprar meu primeiro carro elétrico).

6. Mas nem tudo está perdido. Ivete, que não leva desaforo pra casa, disse que vai macetar o Apocalipse. Se entendi bem, a moça vai pedir uma prorrogação de prazo ao Altíssimo.


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

GUARATIBA ESTÁ QUEIMANDO, O MUNDO ESTÁ FERVENDO

Praia da  Marambaia, Rio de Janeiro
Praia da Marambaia, Guaratiba, RJ

1. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, em fevereiro de 2022, jornais “ocidentais” e os “não ocidentais” divulgavam informações bem diferentes a respeito do andamento do conflito. Em nome da verdade, teve até boicote aos canais de notícias russos, como o Russia Today e o Sputnik, bloqueados no Facebook e no YouTube por supostamente divulgarem informações falsas.

2. Enquanto isso, nos jornais ditos “ocidentais”, comprometidos com “a verdade”, líamos coisas como “Putim sofre com um câncer em estágio terminal, dizem fontes”, ou “soldados russos sequer possuem botas para o combate”. Falava-se ainda a respeito de falta de munição, incompetência de generais, armas obsoletas, canibalismo russo no campo de guerra e outras bobagens.

3. Na prática todos sabemos que a Rússia está vencendo a guerra. As sanções não funcionaram. A ajuda militar oferecida pelos membros da OTAN foi insuficiente. A ordem de prisão emitida pelo TPI contra Putin ficou só no papel. O confisco de ativos russos não surtiu o efeito desejado. Nada parece deter o líder russo em seu obstinado avanço em direção à Ucrânia (e à Europa?).

4. O eixo que conhecemos como “Ocidente”, formado pela Europa Ocidental e pelos Estados Unidos, parece desorientado. Sem Ângela Merkel a Europa perdeu força e lucidez. Os Estados Unidos precisam escolher entre um Biden patético e um Trump canalha. No meio de toda essa balbúrdia, ainda temos o conflito entre Israel x Hamas que a cada dia ganha novos atores.

5. Acha que paramos por aí? Boa parte dos analistas acredita que mais cedo ou mais tarde haverá guerra entre os Estados Unidos e a China pela disputa por Taiwan. A vitória de Lai Ching-te nas urnas – um candidato pró-independência – tornou esse conflito mais provável e mais iminente. Fora as tensões políticas, ainda sofremos com os efeitos das mudanças climáticas (em Guaratiba, onde trabalho, a sensação térmica é de 60 graus!).

6. A gente não precisa ser tão pessimista (como o chato do Pondé), mas com um cenário como este – o do mundo, não o da foto de Guaratiba – dá pra ser otimista?


Jones F. Mendonça

DOUGLAS WILSON E A ESCRAVIDÃO NO SUL DOS EUA


1. Ganhou grande repercussão na mídia o convite feito ao teólogo reformado Douglas Wilson para participar como palestrante em um evento organizado pela Consciência Cristã. O motivo do estranhamento: Douglas Wilson seria um defensor da escravidão, desde que seja feita "de acordo com padrões bíblicos".

2. Como não tenho o costume de acolher acriticamente informações vindas de segunda mão, fui consultar "Southern Slavery: as it was" (Escravidão no Sul: como era"), escrita pelo referido teólogo. Na página 8 você lê o seguinte: "A verdade é que a escravatura no Sul está sujeita a críticas porque não seguiu o padrão bíblico em todos os pontos”.

3. Parei por aí...


Jones F. Mendonça

"CONTRA A TEOLOGIA LIBERAL", DE ROGER OLSON


1. Em dezembro do ano passado foi publicado em português “Contra a teologia liberal”, escrito por Roger Olson, teólogo batista conhecido por publicações relacionadas à história da teologia cristã. Não julgue o livro pelo título [apologético], ou pela editora [pobre em produções teológicas mais densas]. Nem de longe as críticas de Olson à teologia liberal lembram os ataques acalorados, imprecisos e intelectualmente desonestos feitos por apologetas despraparados que se multiplicam em canais do YouTube. 

2. Embora trate com respeito amigos que simpatizam com a teologia liberal, Olson considera problemáticos alguns pontos defendidos por teólogos liberais mais radicais, tais como a negação da inspiração das Escrituras, da ressurreição física de Jesus ou da realidade histórica de seus milagres. Assim, defende que os liberais não devem ser considerados verdadeiros cristãos, uma vez que rompem com dogmas formulados nos primeiros séculos e aceitos tanto por católicos como protestantes. Faz uma avaliação [quase] estritamente técnica.

3. O autor reconhece neles verdadeira piedade, verdadeiro entusiasmo religioso, além das mais elevadas intenções. Mas enfatiza que o liberalismo teológico se distanciou da ortodoxia cristã tanto quanto o cristianismo se distanciou do judaísmo. Enfim, fez nascer uma religião nova, diferente, distinta do seu tronco de origem. Olson faz uma ressalva importante logo no início do livro: “não seja tonto, liberalismo teológico é uma coisa, progressismo teológico é outra totalmente diferente”. É claro que ele não usa essas palavras, mas eu uso. E repito: “não seja tonto”.

4. Além dos livros assinados por Olson, duas obras de peso sobre a teologia do século XX (ao contrário de Olson, meramente descritivas, evitam fazer juízo de valor) são "Deus na filosofia do século XX" e "Teologia do século XX", escritos por Rosino Gibellini.



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

A APOSTASIA, O AMOR E A DOR EM AGOSTINHO DE HIPONA


1. Um provérbio popular muito repetido no universo evangélico é “se [a conversão religiosa] não for pelo amor, será pela dor”. Mas de onde veio esta sentença? Minha hipótese é que nasceu a partir da leitura um tanto quanto livre do livro bíblico de Provérbios feita por Agostinho de Hipona, teólogo e filósofo do V século.

2. Atormentado pela insubmissão dos donatistas, grupo cristão cujas doutrinas foram consideradas cismáticas e heréticas, Agostinho entendeu que era preciso tomar medidas mais duras a fim de preservar a comunhão e o respeito às lei imperiais. Em uma carta endereçada a Bonifácio, o teólogo africano saiu-se com essa:
3. A inspiração vem de Pv 23,14: “Quanto a ti, deves bater-lhe com a vara, para salvar-lhe a vida do inferno”[1]. (Na vulgata: tu virga percuties eum et animam eius de inferno liberabis). Mas na verdade o texto hebraico não fala de “inferno”, nem tem como objetivo dirigir-se àqueles que se distanciaram da “reta doutrina”.

4. O texto de provérbios é dirigido aos “meninos” (na’ar), instruídos na arte da sabedoria, dos bons modos e dos bons pensamentos. A "vara" era um instrumento antigo de educação. A violência como forma de disciplina também era praticada pelos mestres da Babilônia, que recorriam ao método com a finalidade de corrigir seus discípulos.

Nota: [1] No texto hebraico “sheol” é mundo dos mortos e não inferno. A mensagem do provérbio é clara: “a vara não mata” (v. 13), mas, pelo contrário, “livra a néfesh (=vida) do sheol” (=da morte, cf. v. 14)”. Trocando em miúdos: “a vara da disciplina fere a carne, mas livra da morte"


Jones F. Mendonça

domingo, 14 de janeiro de 2024

DEUS LÍQUIDO


Arte: Robert Crumb

1. Por mais de mil anos os dogmas cristãos mantiveram-se sob o controle da Igreja com grilhões de ferro. Mas desde que Lutero ganhou projeção ao questionar a autoridade do Papa e da tradição em textos produzidos a partir da segunda década do século XVI, os dogmas cristãos formam enfraquecendo em proveito de crenças mais pessoais, “à la carte”. A reforma herdou o individualismo humanista renascentista.

2. É verdade que os dogmas mais elementares, como a trindade, o nascimento virginal, a ressurreição e a parousia de Cristo ainda são compartilhados pela esmagadora maioria dos diversos segmentos cristãos em atividade (ao menos no papel). Mas todas essas crenças, outrora percebidas como fundamentais, têm sido realmente relevantes nos sermões e na piedade individual e coletiva?

3. A cada alvorada, a cada gota de orvalho que seca sob os primeiros raios de sol, uma nova igreja cristã dá seus primeiros sinais de vida. Seus discursos são muitas vezes contraditórios, assim como seus padrões de moral, suas liturgias, suas crenças e até suas posições políticas. Há o evangelho coach, da prosperidade, da confissão positiva, da reta doutrina, da esquerda, da direita, da ação social, do êxtase, da cura, da ladainha sem fim.

4. Em um mundo que se dissolve em meio a tantas crenças como caramujo ao sal, cientistas da religião têm refletido a respeito do papel desempenhado pela religião na sociedade contemporânea. Como ela dialoga com a política, com a arte, com as relações de consumo, com a diversidade cultural, com as demais religiões? Como dialogará com a inteligência artificial, com um eventual prolongamento extraordinário da vida humana?

5. Não há respostas fáceis ou definitivas. Certo mesmo é que atualmente a religião ainda está viva nos monumentos, nos nomes de batismo, no discurso político, nos ritos fúnebres, na conversa barata da esquina, no tropel ofegante dos pregadores televisivos. Mas todas essas manifestações expressam a face de um mesmo Deus? Nietzsche estava errado: Deus não morreu. Deus se dissolveu.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

OS JOELHOS NA ANATOMIA DA BÊNÇÃO E DOS AFETOS


1. A palavra “joelho” em hebraico é “berekh” (ברך), cuja raiz é a mesma de “barakh”, “abençoar”. Considerando que o hebraico é uma língua extremamente visual, há boas razões para supor que há vinculação entre o ato de abençoar e a imagem de uma pessoa ajoelhada. Seria esta a posição exigida do candidato a palavras de bendição?

2. Além de aparecer relacionado ao ato de abençoar, os joelhos também ganham espaço importante no universo simbólico. Quando Raquel se vê incapaz de gerar filhos, diz a Jacó: “Eis minha serva Balah...que ela dê à luz sobre os meus joelhos. Por ela também terei filhos” (Gn 30,3). Ou seja, “o útero é dela, o filho, todavia, será acolhido em meus joelhos, será meu”.

3. Por vezes os joelhos são incorporados à linguagem corporal dos afetos, do cuidado. Em 2Rs 4,20, por exemplo, um menino adoecido permanece “sobre os joelhos de sua mãe” até que morre, sendo ressuscitado mais tarde pelo profeta Eliseu (4,35). A imagem à qual se deseja aludir é a de uma mãe, sentada, tendo sobre os joelhos uma criança enferma sob seus cuidados (Cf. Is 66,12).

4. Os joelhos também podem servir para revelar falta de rusticidade para a batalha (Jz 7,5), indicar humilhação (2Rs 1,13), fraqueza (Jó 4,4), submissão (Ex 34,8; Is 45,23) e medo (Ez 21,7; Na 2,10). Em sentido concreto, como articulação da perna, os joelhos aparecem, por exemplo, em Dt 28,35. Voltemos aos joelhos na anatomia do cuidado.

5. Gn 48, 8-12 Efraim e Manassés, filhos de José, são afetuosamente abraçados e beijados por Jacó e acomodados sobre seus joelhos. O livro de Juízes situa o momento em que Sansão revela suas fraquezas enquanto relaxava deitado sobre aconchegantes joelhos de Dalila (16,19). Gn 50,23, querendo enfatizar longevidade de José, diz que seus netos nasceram “sobre seus joelhos”.

6. Na Bíblia Hebraica os joelhos falam.



Jones F. Mendonça

domingo, 3 de setembro de 2023

SOBRE NORMAS

1. Sempre que retorno dirigindo para casa, após o fim do expediente, sintonizo na CBN e ouço “A nossa língua de todo dia”, apresentado pelo professor Pasquale Neto. Uma coisa que ele não cansa de enfatizar é o seguinte: os dicionários não determinam o significado das palavras, apenas reproduzem o significado que os falantes atribuíram/atribuem a elas.

2. Um exemplo: de acordo com a norma padrão, “membro” é um substantivo sobrecomum masculino, por isso não deve ser flexionado. Mas caso se torne comum tratar uma componente de um conselho como “membrA” do conselho, os gramáticos poderão se sentir autorizados a incorporar nas páginas dos dicionários a forma feminina de “membro”.

3. Muitos tratam a “norma padrão” como uma espécie de divindade – “Norma Padrão” – cujos desígnios não podem jamais ser mudados. Mas a “norma padrão” é mera invenção humana, uma convenção. É claro que ela tem sua utilidade, mas nem a “norma padrão” nem os dicionários são deuses. Não são. Nem devem ser tratados como se fossem.

4. As línguas progridem na constante tensão entre a norma, o cânone, e a força criativa e imprevisível dos falantes.



Jones F. Mendonça

sábado, 26 de agosto de 2023

OS REPHAIM E A NECROMANTE DE ENDOR


1. Na religião dos cananeus os rephaim eram reis mortos deificados, habitantes do submundo. Sabemos disso a partir da descoberta do chamado “Ciclo de Baal”, um conjunto de textos religiosos encontrados nas ruinas da antiga Ugarit (atual Síria), cidade descoberta acidentalmente por um agricultor no final da década de 1930.

2. Os rephaim aparecem na Bíblia Hebraica em diversos textos, como em Jó 26,5: “os rephaim se contorcem debaixo da terra...”. O livro do profeta Isaías (14,9) apresenta o mundo dos mortos despertando os rephaim para receberem o rei da Babilônia: “O Sheol se agita por causa de ti... para receber-te despertou os rephaim”.

3. Muita gente acha estranho que a necromante de 1Sm 28,13 trate o espectro do morto que "sobe da terra” como um “elohim”. O termo mais adequado seria “rephaim”, um rei divinizado invocado dos mortos para anunciar o futuro. Embora seja verdade que Samuel não era exatamente um rei, a função que ocupava elevava-se acima dos reis.

4. Mas por que o texto chama um defunto invocado de “elohim” e não de "rephaim"? Ora, se eram autoridades divinizadas, faz todo o sentido tratar esses rephaim como um “elohim” ( = uma divindade). Elohim é termo com significado bastante versátil: serve para indicar Yahweh, divindade tutelar de Israel, membros da corte celeste, divindades estrangeiras e até um rei (cf. Sl 45,6).

5. Além de "elohim" e "rephaim", o espírito de um defunto invocado por uma necromante poderia ser chamado de "ov", como em Is 29,4: "a tua voz será como a de um OV que se encontra debaixo da terra. O teu falar será um murmúrio que brota do chão".


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

AS TROVOADAS DE EDOM

Arte produzida por IA

1. Quatro textos da Bíblia Hebraica situam no Sul do Levante ( = de Canaã) a origem de Yahweh: Jz 5, Dt 33, Hab 3 e Sl 68. Além da indicação geográfica, esses textos também apresentam Yahweh como uma divindade guerreira, associada à tempestade, e que sai à frente do seu povo contra os inimigos. De acordo com o Livro do Profeta Habacuque, o segredo da sua força está no “nos raios que saem da sua mão” (3,4). O aguaceiro que se derrama é tão forte que chega a “fender o solo”, desnudando os fundamentos da terra “até a rocha” (3,9.13).

2. Além dos raios e da torrente, Yahweh utiliza outros instrumentos na batalha: à sua frente avança a peste (Deber?); na retaguarda quem o acompanha é a febre (Reshef?). Todo esse movimento desperta no profeta um grande terror: “agitam-se minhas entranhas, meus lábios tremem, penetra a podridão nos meus ossos, meus passos vacilam”. A poesia hebraica valoriza, com sua extrema concretude, os reflexos do pavor do profeta em sua estrutura física: suas entranhas, seus lábios, seus ossos, seus pés... Todo o seu corpo entra em colapso diante do poder de Yahweh.

3. Esta tradição poética, dotada de traços de memória bastante antigos, é utilizada em contextos diferentes na Bíblia Hebraica. Em Habacuque funciona como canto de vitória sobre os caldeus, povo mesopotâmico que ameaçava Judá com sua força no final do século VII; Em Juízes celebra a vitória de Débora e Barak sobre o exército de Sísera, general de Jabin, rei de Hazor, cidade ao Norte do Mar da Galileia; No Deuteronômio foi inserida na bênção de Moisés, proferida pelo patriarca antes de morrer; No Salmo dirige-se a todos os povos que "têm prazer na guerra” (68,30).

4. Uma só tradição poética, quatro sentidos. Os hebreus eram mestres na arte da ressignificação.


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

YAHWEH COM TETAS E VENTRE


1. A partir do capítulo 12, o Livro do Gênesis basicamente se detém na história de Abraão, Isaac, Jacó e José. O capítulo 50, o último do livro, expõe ao leitor a morte de Jacó e José, seu filho. Ambos são embalsamados de acordo com a tradição funerária egípcia (50,2.26). Mas antes de morrer, no capítulo 49, Jacó anuncia uma série de bênção aos filhos.

2. A bênção, marcada por extrema beleza poética, dedica alguns versos a José, filho outrora perdido, mas reencontrado. O texto fala de arcos quebrados, de nervos rompidos, de flores, de espinhos, de colinas verdejantes. Tudo muito bonito e magistralmente pensado. No v. 25 o leitor se depara com a seguinte declaração:
Pelo El de teu pai, que te socorre,
por Shaddai que te abençoa:
Bênçãos dos céus no alto,
bênçãos do abismo deitado embaixo,
bênçãos das MAMAS [שדים]
e do VENTRE [ורחם].
4. Trocando em miúdos: é bênção para todo o lado. Chama a atenção o emprego de “mamas” e “ventre” na última linha, uma vez que é rara a apresentação de Yahweh com atributos femininos na Bíblia Hebraica. Eles enfatizam um Deus que dá suporte tanto na geração de filhos como no seu sustento (veja os reflexos em Lc 11,27 e Lc 23,29).

5. Alguns tradutores, talvez escandalizados com a descrição de Yahweh como uma divindade dotada de atributos exclusivamente femininos, substituem “mamas” por “fartura", e “ventre” por "fertilidade" (NVI). A NTLH foge completamente do assunto: “bênçãos de muitos animais e muitos filhos”(!!?).



Jones F. Mendonça

sábado, 29 de julho de 2023

ICONISMO A ANICONISMO NO ANTIGO ISRAEL

1. Quando examinados com o devido cuidado, alguns textos da Bíblia Hebraica revelam ser frágil a difundida crença no culto anicônico em Jerusalém no período do Primeiro Templo. Assim como Ea ou Marduk na Babilônia; El, Athirat e Baal em Ugarit, o culto em Jerusalém comportava a presença de uma representação de Yahweh. Em Israel, no Norte, o iconismo é evidente.

2. A confecção da representação do bezerro, ordenada por Jeroboão, não era mero pedestal de Yahweh (ou de outra divindade), mas uma imagem de culto zoomórfica de Yahweh, tal como ocorria com El, igualmente representado por um bovino. Note que Jeroboão relaciona o bezerro à mesma divindade que fez o povo “sair da terra do Egito” (1Rs 12,28).

3. Talvez você esteja se perguntando: mas que textos evidenciam a presença de uma representação de Yahweh no Templo de Jerusalém? Um bom exemplo pode ser tomado do Sl 17,15: “Quanto a mim, com justiça eu verei tua FACE / ao despertar, eu me saciarei com tua IMAGEM”. O paralelismo semântico, “face” (paniym) e “imagem” (temunah), sugere a presença de uma imagem no Templo.

4. Lançando mão de outro paralelismo, o Sl 63 claramente relaciona essa imagem ao Templo: “Quero contemplar-te no santuário / avistar o teu poder e a tua glória”. Alguns textos indicam a existência de procissões nas quais Yahweh era introduzido no Tempo: “Abram-se, ó portais; abram-se, ó portas antigas, para que o Rei da glória entre” (Sl 24,7.9).

5. Mas o que teria levado os judaítas a adotarem o aniconismo no período pós-exílico? Para Herbert Niehr, a mudança ocorreu devido a dois movimentos: 1) Como consequência da destruição do Templo (e da imagem de Yahweh), o trono divino foi deslocado para os céus, novo local de sua morada. Apenas seu nome passou a habitar na terra, como uma espécie de hipóstase.

6. 2) A presença divina na terra também foi pensada a partir de sua kabod, sua glória. Ela enche o Templo para sempre, substituindo a antiga estátua destruída. Alguns círculos sacerdotais, incapazes articular sua fé sem a presença de algum tipo de símbolo cultual da presença de Yahweh, introduziram a Menorah em suas cerimônias religiosas (Ex 25,31).

7. Você pode ter acesso à hipótese de Herbert Niehr consultando a seguinte obra: NIEHR, Herbert. In search of YHWH's Cult Statue in the First Temple. In: VAN DER TOORN, Karel (ed.). The image and the book: iconic cults, aniconism, and rise of Book religion in Israel and the Ancient Near East. Leuven: Peeters Publishers, 1997, p. 73-95. Boa leitura.


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 28 de julho de 2023

POR QUE OS DEUSES HABITAM NOS CÉUS?


1. Os antigos hebreus, como qualquer outro povo, usavam elementos de seu mundo particular para expressar a relação com a divindade. Assim, são comuns na Bíblia Hebraica descrições de Yahweh em diálogo com as imagens sociais de “pai”, “senhor”, “guerreiro”, “rei”, “redentor”, etc. Em alguns casos essas imagens vinham das coisas fabricadas pelo homem, tais como “fortaleza”, “escudo”, etc. Outras podiam ser tomadas da natureza: “meu Deus é a rocha em que me abrigo” (Sl 94,22).

2. Mas além dos contextos sociais e ambientais, essa relação inevitavelmente alcançava uma dimensão espacial mais ampla, expressa em três níveis: o céu, a terra e o subsolo. De modo geral os deuses benéficos mais elevados do panteão viviam nos céus (como El Elyon); divindades guerreiras podiam habitar na terra, em montanhas elevadas (como Baal); e divindades maléficas habitavam o submundo (como Mot ou Yam). Do submundo também podiam emergir criaturas teriomórficas como Lotan/Leviatan.

3. Ciente dessa divisão tripartida e impulsionado por aspirações anicônicas e monolátricas, o livro do Deuteronômio faz o seguinte alerta: "Não farás para ti nenhuma escultura, nenhuma imagem de qualquer coisa NO CÉU, NA TERRA ou NAS ÁGUAS DEBAIXO DA TERRA” (Dt 5,8). Bem, como ando bastante interessado na dimensão espacial dos céus nas religiões do Antigo oriente Próximo, dedico parte do meu tempo ao livro “The Early History of Heaven”, escrito por J. Edward Wright.

4. O autor é professor de Bíblia Hebraica e cristianismo primitivo na Universidade do Arizona


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 27 de julho de 2023

A TERRA DOS MORTOS E A TERRA DOS VIVOS


1. Nas cidades, a posse dos espaços é indicada pela presença de muros; nos campos, de cercas; nos mares, de linhas imaginárias, as milhas náuticas. Em cidades como Jerusalém os espaços podem ser reivindicados a partir da presença de túmulos, afinal não atuam eles como memoriais, como gavetas caiadas, como janelas para o passado?

2. Um exemplo pode ser buscado em 2004, quando os partidários do líder palestino Yasser Arafat tentaram uma autorização para enterrá-lo na Cidade Santa. Yosef Lapid, Ministro da Justiça de Israel à época, rejeitou o pedido com o seguinte argumento: “[Jerusalém] é uma cidade onde os judeus enterram seus reis”.

3. O episódio despertou na teóloga britânica Francesca Stavrakopoulou o desejo de investigar a relação entre vivos e mortos na antiga cultura israelita. E foi assim que nasceu: “Land of our fathers: the roles of ancestor veneration in biblical land claims” (Terra de nossos pais: os papéis da veneração dos ancestrais nas reivindicações bíblicas de terras).

4. A moça também é autora de "God: an anayomy" (Deus, uma anatomia).


Jones F. Mendonça