quarta-feira, 8 de julho de 2009

DIETRICH BONHOEFFER E A RESPONSABILIDADE CRISTÃ

Por Jones Mendonça

Pai meu, se este cálice não pode passar sem que eu o beba, faça-se a tua vontade” (Mt 26.42). Com estas palavras Jesus se dirige ao Pai. Seu ato de obediência a Deus representava ao mesmo tempo um ato de desobediência aos homens e na condição de homem, sofria com tal a dor que o desprezo produz. Jesus optou por obedecer a Deus, mas como nos diz sabiamente Paulo Freire: “decidir é romper e, para isso, preciso correr o risco” [1]. Sua decisão provocou o rompimento com a religião dos pais, com os discípulos e com sua existência terrena. Nos seus últimos momentos, Jesus passou por profunda tristeza e angústia. Sua alma estava triste até a morte. Enquanto isso os discípulos dormiam. Ainda assim prosseguiu na sua ação livre e responsável: Só; à margem da desonra (nú e ridicularizado pelos soldados) e sofrendo na carne e no Espírito. Esse é o Cristo, loucura para os gentios, escândalo para os judeus. Paradoxalmente, seu rompimento com o mundo tornava possível sua redenção.

Dietrich Bonhoeffer sentiu na própria carne o que significa ser um imitador de Cristo. Ernesto F. Bernhoeft escreveu, em agosto de 1961, no prefácio de uma edição de “Resistência e submissão” publicado pela Paz e Terra, o seguinte:

Da cela de um frio presídio, sob constante ameaça de tortura e morte, às vezes em tiras de papel de embrulho, em pequenos bilhetes metidos entre as roupas, saíram as cartas, os recados, estudos e palavras repletas de fé para o mundo afora. Orações de um preso alegre, mensagens de um encarcerado propositalmente otimista, proclamações de um conspirador inabalável na sua fé. Bilhetes que sacudiram as paredes dos templos, palavras que fariam tremer os alicerces de um regime, idéias que ultrapassariam os anos, as décadas [2].

No dia 04 de outubro de 1945, Bonhoeffer partia para sua cruz. Ele foi detido pela força, mas não suas palavras. Como Cristo, ali estava por livre escolha, já que poderia ter partido para o exílio como muitos outros fizeram. Também estava só como o nazareno, já que se encontrava privado do convívio da sua família e de seus amigos íntimos. À margem da desonra, já que era considerado um traidor de sua pátria, e finalmente sofrendo na carne e no espírito, já que a vida no cárcere lhe privava das suas maiores alegrias, produzindo em seu espírito a mais agonizante dor.

Bonhoeffer, a exemplo de Cristo, tinha plena consciência das conseqüências de seus atos. Se sua morte fosse causada apenas pela recusa em negar sua fé de forma verbal, como fizeram muitos mártires cristãos dos primeiros séculos, já teria sido um ato nobre. Mas por se recusar a negá-la pela coragem de se opor a um regime opressor, e, portanto, anticristão, sua atitude foi ainda mais digna de honra. Temos aí um verdadeiro imitador de Cristo.

Referências bibliográficas:

[1] FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia, 2006, p. 103.

[2] BONHOEFFER, Dietrich. Resistência e submissão, p. 6.


O CALVINISMO MODERADO DE MILLARD ERICKSON

ERICKSON, Millard. Introdução à Teologia Sistemática. J. Trad. Luci Yamakami. São Paulo: Ed. Vida Nova, 1997, p. 143-156.


Resenha

Por Jones Mendonça

No capítulo 12 da sua teologia sistemática, Millard Erickson propõe o que ele chama de “modelo calvinista moderado” (p. 150). Inicialmente o autor busca definir a terminologia que utilizará na obra, a fim de que sua argumentação possa ser mais bem compreendida. Ele explica que fará uso da expressão “preordenar” com um sentido mais amplo que “predestinar”. A primeira fazendo “referência às decisões divinas a respeito de quaisquer questões no âmbito da história cósmica” (p. 144) e a segunda ficando “reservada para a questão da salvação ou condenação eterna” (p. 144). O termo “predestinação” ganha ainda uma explicação mais detalhada no texto de Millard Erickson. Ele explica que alguns indivíduos são predestinados para a salvação (eleitos – predestinação positiva) e outros para a condenação (reprovados – predestinação negativa). De forma bem clara, o que ele quer dizer é que Deus é quem elege os indivíduos para a salvação. Os não eleitos serão condenados. A eleição seria um ato exclusivo de Deus, sem a participação do homem. Seria ainda um ato de misericórdia, já que o pecado teria tornado todos os indivíduos condenáveis.

O próximo passo do autor é buscar fundamentos bíblicos que atestem a atuação divina na história, planejando e ordenando os eventos. Essa busca é feita inicialmente no Antigo Testamento. Millard defende que para “os autores do Antigo Testamento, era praticamente inconcebível que alguma coisa pudesse acontecer à parte da vontade e da obra de Deus” (p. 144). Ele cita inúmeros versículos que descreveriam um Deus que determina eventos como a chuva, catástrofes, guerras e até mesmo coisas triviais como a construção de uma cisterna (Is 22.1). Seus decretos seriam, portanto, imutáveis. Deus não poderia desse modo voltar atrás. O autor veterotestamentário seria alguém que enxerga Deus como aquele que “dirige a história [...] com [...] intenção de ter comunhão com o seu povo” (p.145). Mas o leitor que não se iluda, tal comunhão seria apenas com os eleitos. Caso perguntássemos o critério dessa escolha a resposta seria: “mistérios de Deus...”. Calvino fazia muito gosto desse recurso. O autor segue a mesma linha.

Eventos do Novo Testamento como a traição de Judas e o cumprimento das profecias acerca da vida Jesus são utilizados como prova da atuação de Deus na história, conduzindo todos os eventos de acordo com seus propósitos. Os destinos das nações e dos homens não poderiam de modo algum escapar aos seus desígnios. Todo o plano de Deus (o termo decreto é mais adequado, já que é impossível que não se concretize) teria sido criado na eternidade e posto em prática a partir da criação.

Até aqui a argumentação de Millard Erickson segue de forma coerente, ainda que muitos possam não concordar com seu modo de enxergar a questão. Consideremos a interpretação do autor como válida. Deus realmente determina a chuva, as catástrofes e a construção de uma cisterna. Quando a Bíblia fala que Deus se arrependeu está fazendo uso de um antropomorfismo. Foi Ele também que decretou a traição de Judas e a condenação de milhares de pessoas ao inferno. É preciso considerar ainda que até o pecado de Adão foi um decreto divino (a menos que se admita que Adão não estava debaixo da soberania de Deus). 

O primeiro problema na argumentação de Millard Erickson começa quando insiste na possibilidade de conciliar predestinação com liberdade humana. Por exemplo, ele diz que “a função de Deus é decidir que certas coisas ocorrerão em nossa vida, não dar ordens para que atuemos de determinada forma. O plano de Deus não nos força a agir de maneira específica, mas assegura que vamos agir livremente daquela forma” (p. 148). Seria isso possível?

Imaginemos uma cena onde estão num buraco cheio de lama dez indivíduos. A cada instante o lamaçal arrasta para o fundo as pobres almas que não têm onde se apoiar. Eis que surge um bom homem (com fins didáticos ele será chamado de Théo), que mesmo tendo a possibilidade de salvar a todos, escolhe alguns para livrar da morte. Não sabemos o que levou Théo a escolher apenas alguns. O que sabemos é que os que afundaram na lama não tinham força suficiente para saírem sozinhos. Comparando o episódio com a citação de Millard Erickson, vemos que assim como Deus, Théo decidiu como as coisas ocorreriam, mas não forçou ninguém a morrer e nem a se salvar. Os não escolhidos eram livres para qualquer coisa, menos para se salvarem. Assim, o comportamento de Théo seria muito semelhante ao de Pilatos em relação à condenação de Cristo, mas com uma diferença crucial: na concepção calvinista Pilatos e a multidão seriam duas facetas de uma mesma força determinante, já que Deus não possui opositores.

O segundo problema na argumentação do autor diz respeito à responsabilidade pelo pecado. Segundo Millard Erickson o ser humano natural não teria a vontade necessária para evitar o pecado. Apenas a graça divina seria capaz de reverter essa inclinação. A pergunta que surge é: de onde vem a inclinação para o mal. A resposta do autor é: “Deus”. Millard Erickson sustenta que todas as nossas características biológicas e o ambiente em que nascemos são estabelecidas por Deus, assim, somos produtos não do meio e da nossa hereditariedade, mas de um Deus que determina o meio e as nossas características biológicas. No fim das contas seria o mesmo que dizer que Deus determina nossas ações. Ora, se Deus determina nossas ações como pode nos responsabilizar por elas?

Gosto da resposta de Paulo freire para o problema do paradoxo envolvendo o livre arbítrio e a predestinação. Para ele, dizer que somos livres não significa

negar os condicionamentos genéticos, culturas, sociais a que estamos submetidos. Significa reconhecer que somos condicionados, mas não determinados; que o condicionamento é a determinação de que o objeto, virando sujeito, se torna consciente. Significa re-conhecer que a história é tempo de possibilidade e não de determinismo, que o futuro é problemático e não inexorável [1].

Einstein se perturbou diante das implicações da mecânica quântica. Esse novo campo de pesquisa deu início ao desmoronamento do universo mecanicista newtoniano. Descobertas feitas por físicos como Max Plank e Heisenberg começavam a mostrar que não existem leis tão rígidas no universo. O elemento aleatório deixou muitos físicos desconcertados. Stephen Hawking nos diz que “Einstein ficou horrorizado com esse elemento aleatório, imprevisível nas leis básicas, e nunca aceitou plenamente a mecânica quântica. Seus sentimentos foram expressos no famoso dito: ‘Deus não joga dados’”[2]. Hawking, convicto do erro da frase de Einstein e bem ciente aleatoriedade de alguns elementos do universo, disse que “todos os indícios, porém, sugerem que Deus é um jogador inveterado, que lança o dado em todas as ocasiões possíveis”.

Diante da antiga pergunta: “o homem é produto do meio ou da hereditariedade?”, um calvinista diria que é produto de Deus, já que a hereditariedade e o meio são determinados por Ele. Como Paulo Freire, entendo que muitos elementos influenciam o homem, tais como fatores genéticos e ambientais, mas jamais determinam seu comportamento. Toda essa discussão nos faz retornar ao problema teológico: “e Deus, onde entra nessa história?”. Se Deus “joga dados” como fica sua soberania? Se Deus “joga dados” o universo deve ser concebido como um caos sem sentido como supôs Nietzsche?

Creio sinceramente que Deus age na história. Creio que se preocupa com o homem e que deseja que tenhamos comunhão verdadeira com Ele. Mas não creio que Deus determine nossas escolhas. Estamos no mundo e somos influenciados por inúmeros fatores, tais como a maneira pela qual fomos criados, a cultura na qual estamos inseridos, nossas características biológicas e até mesmo pelos indivíduos com os quais nos relacionamos. Neste emaranhado de relações está Deus. Independentemente dos diversos fatores acima listados, Ele age. Independentemente da cor, sexo, cultura, características genéticas, Deus está sempre sinalizando o horizonte. Mas não um horizonte extático, inexorável. Mas um horizonte de possibilidades.

Mas e a pré-ciência, como fica. Se Deus é onisciente e sabe antecipadamente todos os eventos que irão ocorrer, isso não implica numa predestinação? Bem, vejo que é nesse momento, e exclusivamente nesse momento, que Deus esconde seu rosto.


Referências bibliográficas:

[1] FREIRE, Paulo. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos, 2000, p. 51.
[2]HAWKING, Stephen. O universo numa casca de noz, 2001, p.26.
[3] Idem, Buracos negros, universos bebês e outros ensaios, 1995, p. 59.

terça-feira, 30 de junho de 2009

DIETRICH BONHOEFFER E O SOFRIMENTO ALHEIO

Por Jones Mendonça

Há alguns dias eu tentava convencer um grupo de amigos que o modelo capitalista neoliberal era injusto. Esbravejei que o modelo econômico atual estimula o egoísmo e o consumo, promovendo desigualdade e alienação. Alguns se opuseram à minha crítica, dizendo que “quem quer ser alguém precisa correr atrás”. Até me relataram um caso noticiado na mídia de um mendigo que foi aprovado num concurso público. Se ele foi capaz, diziam eles, qualquer pessoa também consegue.

A frase dita pelos meus amigos é repetida todos os dias por inúmeras pessoas e reflete o quanto incutimos na nossa cabeça o espírito competitivo e a indiferença em relação aos “perdedores”. Fiquei pensando nas crianças pobres do Ceilão, nas adolescentes vendidas pelos pais para casas de prostituição no norte do país, nos trabalhadores chineses de algumas províncias, que sequer podem se comunicar entre si e que recebem seus salários com seis meses a um ano de atraso. O mendigo que passou no concurso está de parabéns, mas transformar exceção em regra é uma das falácias mais ingênuas. Só quem vive a dor do desprezo, da indiferença, do abandono dos pais e do preconceito sabe o quanto é difícil eliminar as marcas que elas produzem.

Certa vez participei de um trabalho social onde eram entregues cobertores e roupas a moradores de rua. Quando entreguei determinada peça de roupa a uma mulher envolta em trapos, a primeira coisa que fez foi olhar a etiqueta da peça. Após uma análise rápida a mulher recusou a minha bondosa doação. Inicialmente fiquei indignado com aquela atitude, mas depois comecei a pensar no porque dela ter agido assim.

Com sua recusa ela revelou que mede as pessoas como nós, ou seja, pelo status, pela marca. Apesar de não seguirmos o modelo social dos hindus, temos a casta dos favelados, dos sem teto, dos moradores da zona sul, da baixada e assim por diante. Na nossa sociedade cada qual é medido pelo que possui. Seu desejo por poupas “de marca” revela algo que estava no fundo de sua alma: o desejo de ser como todos os outros. Aquela mulher carregava uma marca, a marca do desprezo. Ela queria apenas trocar a marca do desprezo pela marca do sou-como-os-outros. Sua atitude revelou não apenas como ela é, mas como eu sou. Mas só pude perceber isso quando me coloquei em seu lugar. Isso me fez lembrar de um trecho do livro “Resistência e submissão” de Dietrich Bonhoeffer”:

“Deve-se levar em conta que a maioria das pessoas somente aprende com as experiências feitas por elas próprias. Isso explica, em primeiro lugar, a espantosa incapacidade da maioria das pessoas para uma ação preventiva de qualquer tipo – cada uma continua acreditando que vai escapar do perigo até que acaba sendo tarde demais; e, em segundo lugar, a insensibilidade diante do sofrimento alheio”[1].

Sim, Bonhoeffer tinha razão!



[1] BONHOEFFER, Dietrich. Resistência e submissão, p.39.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

AS RELIGIÕES DE MISTÉRIO DA GRÉCIA ANTIGA: UM TERRENO FÉRTIL PARA O CRISTIANISMO?

Por Jones Mendonça

Como o caráter fundamental do pensamento grego clássico era a solução dualista do problema das relações entre realidade empírica e o Absoluto (o mundo e Deus), e como o mundo da experiência não podia, por si mesmo, apresentar a sua própria justificação, a razão humana foi impelida a buscar uma justificação transcendente. Inicialmente, esse ser transcendente permaneceu como causa parcial e não total do mundo sensível, perdendo assim a função explicativa do mundo da experiência, devido a sua concepção dualista. Esse era o deus platônico. O deus dos filósofos.

Na concepção grega de mundo, o tempo (καιρός) se sucedia em círculo eterno, não havendo senão um eterno retorno; um girar perpétuo do vir-a-ser em torno do imutável. Assim, o homem se tornava um prisioneiro da fatalidade e do destino, até que se completassem os ciclos do eterno retorno. Tal concepção deu origem a um pessimismo desesperado, tão enfatizado nas tragédias gregas e bem expresso nas palavras de Sileno:

Raça efêmera e miserável, filho do acaso e do cansaço, por que me forças a te revelar o que seria melhor para que não o possas jamais entender? O que deves preferir a tudo, é para ti impossível: é não ter nascido, não ser, ser nada[1].

O único remédio para esse mal era aproveitar o momento, vivendo-o intensamente, como tão bem retratado mais tarde na expressão “carpe diem”
[2], cunhada pelo poeta romano Horácio (65 - 8 AC) e imortalizada há alguns anos no filme “Sociedade dos poetas mortos”, dirigido pelo cineasta Peter Weir. A única certeza que se tinha era a morte e conseqüentemente o Hades, lugar sombrio por onde perambulavam os mortos sem esperança; ou ainda o eterno retorno, num ciclo enfadonho e terrível. A paz eterna era algo intangível. Não havia uma solução para a morte e para o sofrimento.

As divindades de Mistério (p. ex. Orfeu, Elêusis, Isis, Osíris, Cibele, Adônis e Mitra) surgiram com a promessa de pôr fim a esse ciclo sem fim, pois através da paixão e da morte poderiam conquistar a paz eterna, podendo partilhá-la a quem se assemelhasse a eles no rito eficaz. Assim, nascia um solo fértil para a mensagem cristã, que na opinião de Umberto Padovani
[3], apresenta as melhores soluções para o problema da vida, da morte e do mal. Na concepção cristã, a morte tem os seus dias contados (ao contrário da concepção grega), pois com a volta do Cristo ressuscitado (parousia), que interfere no tempo, o mal e a morte serão aniquilados, estando reservado, para aqueles que o buscam, uma vida de eterna paz e sossego.

[1] NIETZSCHE, friedrich. A origem da tragédia, §3.
[2] “Odes” (I, 11.8)
[3] PADOVANI, Umberto. Filosofia da religião, p. 25

A PEDAGOGIA DA AUTONOMIA E A PEDAGOGIA DA ALIENAÇÃO

Por Jones Mendonça

No mundo pós-moderno, onde se valoriza a superficialidade, o descartável, o efêmero, pouco espaço há para a reflexão. Uma multidão alienada repete o que ouve sem a preocupação de refletir. A grande maioria das músicas evangélicas reflete isso. Mas sempre há uma luz no fim do túnel. O cantor evangélico João Alexandre percebeu muito bem a lamentável situação em que se encontra o protestantismo atual:

Procuro alguém pra resolver meu problema
Pois não consigo me encaixar neste esquema
São sempre variações do mesmo tema
Meras repetições
Meras repetições.
É proibido pensar
[1].

Sua crítica é dura, mas infelizmente não é possível contestá-lo. Numa entrevista
[2], este poeta cantor diz que quando deixamos que alguém pense por nós, estamos lhe dando a possibilidade de nos escravizar. A Pedagogia da Autonomia tão defendida por Paulo Freire, ao contrário, dá ao aprendente a oportunidade de se auto-governar, se libertando de possíveis aproveitadores. Mas há sempre aqueles que protestam dizendo: “Ora, mas não é tão mais confortável ser carregado no colo?”.

Na vida tudo tem o seu preço, não sejamos inocentes. Caminhar com os próprios pés exige coragem para enfrentar espinhos, pedras pontiagudas e animais ferozes. Mas por outro lado, ser carregado no colo de quem se julga valente pode nos conduzir ao abismo, pois quem garante as boas intenções desse valente carregador de aprendentes?

Para que seja implantada a pedagogia da autonomia nas igrejas, inicialmente seria preciso mostrar ao rebanho que ser ovelha não significa seguir incondicionalmente líderes que se julgam donos do saber. Afinal não foi o próprio Jesus que disse que haveria falsos pastores? O bom pastor dá sua vida pelas ovelhas e jamais tira delas sua liberdade, ao contrário, lhes oferece gratuitamente o caminho da verdade que liberta.

A Pedagogia da Autonomia não é apenas uma possibilidade, mas uma necessidade urgente. A igreja precisa ser composta por pessoas que reflitam e sejam capazes de fazer críticas a si mesmas, pois só assim poderão superar suas crises, produzindo um igreja saudável e frutífera. Ser um autônomo tem o seu preço, é verdade, mas que graça tem a vida se sequer somos capazes de expressar nossas individualidades? A vida passa rápido e não podemos, como o personagem de um poema de Chico Buarque, deixar a vida passar em branco:

O velho vai-se agora
Vai-se embora
Sem bagagem
Não se sabe pra que veio
Foi passeio
Foi Passagem
[...]

Ele me é franco
Mostra um verso manco
De um caderno em branco
Que já se fechou
[3].

[1] É proibido, pensar. João Alexandre.
[2] Entrevista concedida ao programa Mistura Musical de Marcello Cunha, na Rádio Futura.
[3] O velho. Chico Buarque, 1968.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

OS LIVROS HISTÓRICOS PARTE I - DA POSSE DA TERRA AO EXÍLIO

Dando continuidade à história de Israel (clique aqui para ler a edição anterior), passando pelos livros da Bíblia em ordem cronológica, veremos parte dos acontecimentos narrados nos livros históricos (de Josué à Reis).

INTRODUÇÃO

Após uma longa jornada pelo deserto o povo chega finalmente ao monte Nebo, na margem oriental do Jordão. O Pentateuco (conjunto dos primeiros cinco livros da Bíblia) é encerrado com a morte de Moisés neste monte, após contemplar a terra prometida aos seus ancestrais:

Então subiu Moisés das planícies de Moabe ao monte Nebo, ao cume de Pisga, que está defronte de Jericó; e o Senhor mostrou-lhe toda a terra desde Gileade até Dã [...] Assim Moisés, servo do Senhor, morreu ali na terra de Moabe, conforme o dito do Senhor” (Dt 34.1,5).

O livro de JOSUÉ – A conquista da terra (aprox. 1250 a.C)

O livro de Josué é iniciado com uma personagem cuja importância já era notada desde o livro do Êxodo: Josué, filho de Num. É interessante perceber que no início do livro de Josué, o já falecido Moisés é chamado de ebed (servo) de Deus, enquanto o iniciante Josué é chamado apenas de sharat (servidor ou auxiliar) de Moisés:

Depois da morte de Moisés, servo (ebed) de Yahweh, falou o Senhor a Josué, filho de Num,
servidor (sharat) de Moisés, dizendo
” (Js 1.1).

Josué, o braço direito de Moisés, tinha um grande desafio pela frente, conquistar a tão sonhada “terra que mana leite e mel”. Nas planícies da terra de Canaã, o cenário era de desordem política. Nessa época o Egito se encontrava enfraquecido, estando impossibilitado de patrulhar essa região. Ainda assim a tarefa de Josué não seria fácil, pois tinha que enfrentar as cidades fortificadas dos Cananeus, como Jericó e Ai e assumir o controle da terra. A luta entre cananeus e israelitas é um tema recorrente neste livro. Após inúmeras batalhas a frente do povo Josué finalmente recebe um tratamento igual ao de Moisés:

Depois destas coisas Josué, filho de Num, servo (ebed) de Yahweh,
morreu, tendo cento e dez anos de idade
” (Js 24.29).

Uma última curiosidade do livro de Josué está relacionada ao personagem Calebe. O famoso companheiro de Josué não era um israelita, ele era um Quenezeu (Gn 15.19; Nm 32.12). Seria Calebe um dos muitos que aderiram a revolta liderada por Moisés na fuga do Egito? Essa é uma pergunta que carece de resposta.

JUÍZES (aprox. 1200 a.C)

Com a finalidade de organizar essa sociedade recém formada, a terra conquistada foi dividida em doze tribos. Essas tribos levaram o nome dos filhos (em alguns casos, netos) de Jacó e ocupavam territórios independentes. A liderança das tribos foi outorgada aos juízes, líderes guerreiros que além de combaterem nas guerras decidiam assuntos ligados a questões religiosas, políticas, econômicas e sociais. Uma das tribos, os levitas, era composta por pessoas dedicadas exclusivamente ao culto à Deus. Eles não tinham um território próprio e viviam entre as outras tribos, vindo a ser o grande sustentáculo dessa nação recém formada.

Esse período, em que os israelitas viveram sob o governo de juízes foi muito conturbado. Foi um período marcado por guerras, corrupção e degradação religiosa, gerando um desejo no povo de ter um rei como as outras nações. Mas para implantar esse sistema monárquico seria preciso manter um exército, a realeza e o sistema administrativo, obrigando a que fosse implantado um sistema tributário, sustentado por meio de impostos. É nesse período conturbado que vivem duas mulheres virtuosas (Rute e Noemi), cuja história está narrada no livro de RUTE.

SAMUEL (aprox. 1050 a.C)

O primeiro rei veio da tribo de Benjamim: Saul. Ele foi um líder guerreiro e sua principal função foi a de organizar um exército, visando proteger o povo contra invasões de outros povos, mas principalmente dos filisteus, um povo que vivia próximo à costa (atual faixa de Gaza).

Após a morte de Saul (aqui começa o SEGUNDO LIVRO DE SAMUEL), um novo líder guerreiro surgiu: Davi. Ele havia adquirido fama no meio do povo, principalmente após vencer um guerreiro filisteu chamado Golias. Davi era da tribo de Judá, caçula entre oito irmãos e possuía virtudes que fizeram com que se tornasse uma figura carismática entre o povo. Davi mudou, de forma estratégica, o centro de comando dos israelitas de Gaad para Jerusalém, após expulsar os jebuseus, e passou a governar sobre todas as tribos com uma boa aceitação por parte do povo. Ele levou a arca da aliança para Jerusalém, pois representava a presença de Deus no meio do povo, e assim Jerusalém passou a ser o grande centro religioso do povo israelita. Apesar da disputa sangrenta entre seus filhos pelo poder, Davi conseguiu nomear Salomão como rei de Israel.

REIS (aprox 950 a.C)

Salomão reformulou a administração dividindo o reino em doze prefeituras, colocando em cada uma delas um administrador. Utilizou tecnologia estrangeira dos fenícios na construção de embarcações e artesãos de Tiro na construção do templo. Mas para pagar todas essas despesas era necessário aumentar os impostos, gerando muita insatisfação no meio do povo. As tribos do norte, mais afetadas com a alta tributação, começaram a se unir.

Após a morte de Salomão, Roboão, que era seu filho mais velho, assumiu o poder. Apesar da insatisfação do povo e da advertência dos anciãos de Judá, Roboão manteve os altos impostos, provocando uma grande intensa revolta popular. Jeroboão, um carismático líder rebelde que estava exilado no Egito retornou do exílio e foi aclamado rei do povo do norte, marcando o fim de um governo único em Israel.

O reino do norte foi marcado por grande instabilidade política, pois não havia, como no reino do sul, uma sucessão monástica (de pai para filho), o que permitia que o exército organizasse inúmeros golpes de Estado. Havia duas forças que ditavam as regras no reino do norte. A primeira era composta pelos militares e a segunda pela classe social mais abastada. Para que o povo tivesse voz ativa nesse governo seria necessária uma liderança com credibilidade. É nesse cenário que surgiram os PROFETASS[1]. Seu objetivo era lembrar aos governantes o propósito inicial de Deus, que era a liberdade do povo, pondo fim à opressão. Homens como OSÉIAS, AMÓS e ISAÍAS atuam nessa época denunciando a injustiça, a desigualdade social, a violência e o abuso de poder dos sacerdotes e governantes:

Como hordas de salteadores que espreitam alguém, assim é a companhia dos sacerdotes que matam no caminho para Siquém; sim, cometem a vilania” (Os 6:9) .

Ouvi esta palavra, vós, vacas de Basã, que estais no monte de Samária, que oprimis os pobres, que esmagais os necessitados, que dizeis a vossos maridos: Dai cá, e bebamos” (Am 4:1).

O Senhor entra em juízo contra os anciãos do seu povo, e contra os seus príncipes; sois vós que consumistes a vinha; o espólio do pobre está em vossas casas” (Is 3:14).

Na época da ocupação da terra, como já vimos, o Egito perdia cada vez mais seu poder sobre a Palestina. Foi sendo criado nessa região um vácuo de poder, dando a Palestina uma independência política que permitia relativo conforto aos governantes. Essa era de paz trouxe prosperidade os reinos de Israel, mas principalmente para o reino do Norte. Mas começou a surgir do leste um império poderoso, a Assíria. Apesar do alerta dos profetas, que anunciavam o juízo divino por causa da concentração de renda nas mãos dos poderosos, o reino do norte teve sua capital Samaria invadida, sendo seu povo levado cativo pelos assírios no ano de 722 antes de Cristo. A população restante foi misturada com outros povos, fazendo com que perdesse sua identidade política e religiosa. Por causa da perda da identidade religiosa surgiu a famosa rixa entre judeus e samaritanos.

No reino do sul a história se repetiu. Com o tempo, o império assírio se enfraqueceu e buscou formar uma aliança com o Egito na tentativa de impedir a ascensão de um novo império, a Babilônia. Sedecias, que na época era o governante de Judá, incitado por partidários da aliança com o Egito, armou uma revolta contra a Babilônia. Mas a tentativa foi em vão. Depois de um cerco prolongado, Jerusalém foi invadida, saqueada e incendiada pelos babilônicos (conforme alertado pelo profeta JEREMIAS), sendo os dirigentes levados cativos para essa terra distante. Esse episódio, conhecido como cativeiro babilônico, ocorreu no ano de 586 antes de Cristo e marcou profundamente a história dos judeus. O salmistra registra o lamento dos israelitas por estarem longe de sua terra:

Junto aos rios de babilônia, ali nos assentamos e nos pusemos a chorar, recordando-nos de Sião” (Sl 137.1).

Em seguida: “Do retorno do exílio à reconstrução do Templo”.


[1] É nesse contexto que surgem os primeiros profetas escritores. Outros vão surgindo ao longo da história de Israel. O profetismo inicia-se no século VIII com Oséias e Amós e vai até o século V com o profeta Malaquias.


segunda-feira, 22 de junho de 2009

O PENTATEUCO - DAS ORIGENS DO UNIVERSO À MORTE DE MOISÉS

Por Jones Mendonça

Muitas pessoas não conseguem organizar os livros da Bíblia numa ordem cronológica. Na tentativa de resolver o problema optei por contar a história de Israel passando por cada um dos livros do Antigo Testamento. Fiz alguns comentários quando julguei necessário e pus em negrito algumas palavras importantes. Começo com o Pentateuco:

1. O livro de GÊNESIS, onde tudo começou

Este livro, que na Bíblia hebraica chama-se Bereshit[1], começa com o relato da criação do universo e dos seres humanos. Em seguida temos o relato da queda do homem, suas conseqüências e a perversidade crescente, que culmina num dilúvio. Ainda na primeira parte (cap. 10) há o relato do repovoamento da terra a partir de Noé e a dispersão do povo pelo mundo, após o famoso episódio da torre de Babel, onde a linguagem humana teria sido confundida (cap 11).

Na segunda parte do Gênesis (a partir do cap. 12) o foco da história se concentra em Abraão, um descendente de Noé que habitava numa cidade chamada Ur dos caldeus. A família de Abraão migrou de Ur, na Mesopotâmia, para uma região conhecida como Canaã, terra dos cananeus (atual Palestina). Esse movimento migratório, iniciado pela família desse caldeu, ocorreu, segundo alguns historiadores, entre 1950 e 1300 antes de Cristo. Abraão teve um filho e um neto muito conhecidos: Isaac e Jacó. Por causa da fome, os descendentes de Abraão acabaram indo parar no Egito, estabelecendo-se na região de Gosen, no norte dessa cidade (Gn 47:27). A recepção dos descendentes de Abraão no Egito foi boa, uma vez que José, bisneto de Abraão, havia se tornado um alto funcionário do governo egípcio, gozando de elevado prestígio perante o faraó. Mas com o tempo essa situação iria mudar drasticamente...

2. O ÊXODO, fugindo da opressão

Já no início do livro do Êxodo é relatada a difícil situação na qual se encontravam os descendentes de Abraão, Isaac e Jacó:

assim lhes amarguravam a vida com pesados serviços em barro e em tijolos, e com toda sorte de trabalho no campo, enfim com todo o seu serviço, em que os faziam servir com dureza” (Ex 1.14).

Após a morte do faraó e de José o povo acabou se tornando escravo no Egito. Lá a vida não era fácil. Os altos impostos que tinham que pagar e os trabalhos forçados tornavam a vida insuportável. A lembrança da antiga promessa feita a Abraão de uma terra boa para o cultivo onde teriam paz e justiça impulsionou uma revolta, e após inúmeras tentativas conseguiram escapar sob a liderança de um hebreu criado na corte egípcia chamado Moisés. Ao contrário do que muita gente pensa, o povo que saiu do Egito não era formado exclusivamente pelos descendentes de Jacó (israelitas). Vários grupos de pessoas insatisfeitas com a vida no Egito se uniram aos israelitas durante o Êxodo:

Também subiu com eles uma grande mistura de gente; e, em rebanhos e manadas, uma grande quantidade de gado” (Ex 12.38).

Os descendentes de Abraão, Isaac e Jacó tinham o seu próprio Deus, que inicialmente era identificado apenas como “Deus de Abraão, Isaac e Jacó” (Ex 3.6), com a finalidade de diferenciá-lo dos outros deuses. Após fazer a famosa travessia do Mar Vermelho (ou Mar dos Juncos – Yam Suf) e reafirmar a aliança abraâmica no Monte Sinai, o povo caminhou em direção à Canaã. Deus se apresentava agora não mais como El shadday ou como o Deus dos patriarcas, mas como Yahweh (Ex 6.3), um nome mais específico. Toda essa jornada do povo durou cerca de 40 anos, durante a qual recebeu vários códigos de leis civis e religiosas. Enquanto o povo caminhava nessa peregrinação rumo a Canaã, Deus se fazia presente simbolicamente num templo móvel desmontável, o tabernáculo. As leis recebidas pelo povo no deserto foram registradas nos livros de LEVÍTICO (trata quase exclusivamente dos deveres sacerdotais), NÚMEROS (narra alguns fatos que se ligam imediatamente aos acontecimentos narrados no Êxodo, além de conter leis semelhantes às do Levítico) e DEUTERONÔMIO (repete, acrescenta e modifica algumas leis existentes no livro de Levítico, além de narrar os últimos dias de Moisés).

Esse grupo formado por pessoas que fugiam da opressão tinha agora um Deus (Yahweh); um templo (o tabernáculo, símbolo da presença do seu Deus no meio do povo); uma lei (a Lei Mosaica) e um líder (Moisés). Numa próxima etapa estarão lutando por uma terra. Essa história, que será contada em seguida, tem sua narrativa registrada no livro de Josué, o primeiro dos livros chamados históricos (na Bíblia hebraica está entre os profetas - Nebiûm).


[1] Na Bíblia hebraica os livros do Pentateuco possuem como título suas palavras inicias: Gênesis, Bereshit – No Princípio; Exodo, Shemot – Nomes; Levítico, Vaikra – E Chamou; Números, Ba-midbar – No Deserto; Deuteronômio, Devarim – Palavras

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Continuação: "Os livros históricos parte I - da posse da terra ao exílio".

sexta-feira, 19 de junho de 2009

KARL BARTH E A ELEIÇÃO DOS JUDEUS

Karl Bart, em seu texto “A questão dos judeus e sua resposta cristã”, redigido um ano após o reconhecimento do Estado de Israel, desenvolve um reflexão sobre a eleição do povo judeu. O texto gira em torno da seguinte questão: Teria tal eleição se extinguido com o advento de Cristo e sua notória rejeição por parte deste povo? A esta pergunta Karl Barth procura responder com quatro argumentos.

O primeiro argumento utilizado pelo teólogo suíço baseia-se numa suposta “constância histórica” do povo judeu, apesar das inúmeras perseguições, calúnias e opressão a que foram submetidos ao longo de sua existência. Karl Barth vê nisso uma só explicação: a eterna eleição de Israel, mesmo diante de sua infidelidade. Para ele, a “enigmática continuidade de sua existência” é um “mistério da fé”, que só se explica diante da fidelidade incondicional de Deus a esse povo, acentuada pela morte de um judeu singular: Jesus de Nazaré. Tal morte teria aniquilado de vez essa infidelidade, abrindo as portas para um recomeço.

No segundo argumento seria de se esperar que Karl Barth buscasse subsídios para legitimar a nação judaica do seu tempo como herdeira do judaísmo pré-cristão, ou seja, que mostrasse que o judeu atual pode ser identificado com aquele que foi eleito por Deus no Antigo Testamento. Mas ele faz justamente o contrário. O teólogo acentua que os judeus da atualidade subsistem agora “apenas como sombra de uma forma”, mas que mesmo tendo seu brilho ofuscado pela rejeição à Cristo, pelas atuais divergências religiosas internas e por sua condição tão fragmentada em tantos outros aspectos, não tiveram anulada sua eleição. Para ele, os judeus voltarão a ser um povo sob cujo senhorio está Cristo.

Karl Barth busca, em seu terceiro argumento, as raízes do anti-semitismo. No seu entender, tamanho ódio contra os judeus se explica pelo fato das pessoas terem projetado neles o que há de pior no ser humano. Como a condição de povo eleito traz consigo o peso da graça, somos induzidos a achar que alguém que não merece algo doado gratuitamente é um transgressor, um rebelde. Assim, o ódio contra os judeus seria algo semelhante ao conceito freudiano de projeção, que consiste em expulsar de nós mesmos e localizar num outro, certos conteúdos psíquicos geradores de intensa angústia.

Por fim, Karl Barth busca as conseqüências da negação da eleição dos judeus por parte dos cristãos. Como ela se manifesta na prática? Ele critica o discurso feito pelos cristãos de seu tempo, que se limitava a condenar o anti-semitismo. Entende que é preciso ir além, pois nós cristãos temos “laços e deveres profundos demais para com os judeus”. Eles são povo eleito, e nós meros rebentos enxertados em sua árvore. Karl Barth destaca ainda que o que nos separa dos judeus é paradoxalmente o mesmo que nos une: Cristo. Este está ligado tanto aos judeus, já que é judeu por nascimento, como a toda a humanidade, visto que seu sacrifício teve caráter universal.


Jones Mendonça

sábado, 13 de junho de 2009

LUTERO E A LIBERDADE CRISTÃ

Resenha do texto: “Da liberdade Cristã”, de Martinho Lutero.

Por Jones Mendonça

Após questionar a infalibilidade do papa e queimar em praça pública a bula Exsurge Domine que o ameaçava com a excomunhão, Lutero refugiou-se no castelo de Wartburgo sob a proteção do príncipe Frederico. No ano seguinte viria a escrever sua obra “Sobre a liberdade cristã”. A motivação para escrevê-la tinha raízes em uma insatisfação pessoal em relação a alguns problemas teológicos que ele julgava insolúveis na teologia medieval.

A escolástica, base da teologia medieval, baseava-se amplamente no pensamento de Aristóteles e começou a ser questionada por Lutero já na universidade de Erfurt. Ele se mostrava insatisfeito com a maneira escolástica de fazer teologia. Em busca de alternativas, encontrou importante ajuda no pensamento de Agostinho, que era patrono da universidade de Wittenberg. A partir daí, Lutero percebeu que se a teologia da sua época continuasse acorrentada ao pensamento da escolástica, estaria impossibilitada de articular adequadamente a questão essencial da fé cristã, ou seja, graça e justificação, Deus e seu relacionamento com o ser humano e vice-versa.

Logo no início do seu tratado, Lutero expõe duas teses que serão a base estrutural da construção do seu texto: 1) O cristão é um Senhor libérrimo sobre tudo, a ninguém sujeito; 2) O cristão é um servo oficiosíssimo de tudo, a todos sujeito. Lutero afirma que não há antagonismo entre essas duas teses como se pode pensar. Ele inicia sua explanação citando os textos de 1 Co 9.19 e Rm 13.8, que põem em evidência o paradoxo entre a liberdade e a servidão. Essas citações tem um propósito. Seu objetivo é destacar a dupla natureza presente em Cristo e no homem. Cristo, por exemplo, foi simultaneamente livre e servo, uma vez que tinha a forma de Deus (natureza divina) e de servo (natureza humana). O homem, assim como Cristo, também possui uma natureza dupla: a espiritual (pessoa interior) e a carnal (pessoa exterior). Tal distinção, diz Lutero, faz com que as escrituras afirmem coisas contraditórias acerca da mesma pessoa.

O próximo passo de Lutero é mostrar que a “pessoa interior” não é afetada por elementos externos. Ele pergunta, por exemplo, se o estado de saúde pode libertar ou conceder justiça a alma, ou ainda se o modo de se vestir ou se portar religiosamente, a exemplo dos sacerdotes, podem conceder justiça e liberdade à alma. Lutero, respondendo às suas próprias perguntas, diz que não! Para ele a única coisa que pode conceder vida, justiça e liberdade cristã é o “sacrossanto verbo de Deus, o Evangelho de Cristo”. A alma pode carecer de qualquer coisa, exceto da palavra de Deus, pois só ela pode conceder virtudes.
Lutero continuando com a diatribe, pergunta agora que palavra é esta ou de que maneira se deve usá-la. Sua resposta mais uma vez é enfática, bem ao estilo paulino: “O Evangelho de Deus a respeito de seu Filho que se fez carne, sofreu, ressuscitou e foi glorificado pelo Espírito santificador”.

Para Lutero o homem não é justificado pelo que faz ou pelas ações que sofre do mundo externo, mas pela fé somente. Sua alma não pode ser influenciada por fatores externos, mas só pela graça divina. Ele lembra que “todos pecaram” (Rm3.23) e que “não há quem faça o bem” (Rm 3.10) e assim procura mostrar que todos, sem exceção, carecem dessa graça. É nesta pessoa interior que reina a fé, diz Lutero, e como sua justificação não pode ocorrer por obra alguma, a maior preocupação de qualquer cristão deve ser o fortalecimento dessa fé.

Esperando a indagação de possíveis opositores, Lutero formula mais uma pergunta: “Se só a fé justifica, porque nas Escrituras são prescritas tantas obras, cerimônias e leis?”. Ele explica. Para Lutero toda a Escritura está dividida em duas partes: preceitos e promessas. Os preceitos teriam o intuito de mostrar a impotência humana diante do pecado. Quando a Bíblia diz “não cobices” e o homem percebe que é impossível não cobiçar, busca em outro lugar o auxílio que não encontra em si próprio. Essa falta de resposta gera uma “ansiedade” nessa pessoa, que só encontra consolo para sua angústia em Cristo, aquele no qual são prometidas graça, justiça, paz e liberdade. Com esse argumento Lutero defende a idéia de que os preceitos apontam para as promessas. Eles servem apenas para mostrar ao homem sua incapacidade de ser justo, restando-lhe uma única saída: a graça libertadora de Cristo.

Lutero também destaca um outro aspecto da fé. Para ele não há nada mais honroso que atribuir a alguém veracidade, justiça e bondade absoluta. Quando cremos que só Deus possui tais virtudes estamos prestando o culto supremo a Ele. Por outro lado não há ofensa maior que não crer. De nada valem as obras realizadas nesta impiedade. Não foram as obras de Abraão que o tornaram justo, mas a fé (Rm 4.3).

Há ainda uma terceira graça da fé que Lutero destaca no texto: a união mística com Cristo. Na teologia católica o casamento é um sacramento, e que, portanto, concede graça. Mas Lutero não fala de um casamento entre um homem e uma mulher, mas o casamento entre a alma humana e Cristo. Este sim é o casamento mais perfeito de todos, pois os casamentos humanos são figuras tênues desse matrimônio único. Tal casamento, prossegue Lutero, torna os bens da alma comuns aos de Cristo. Assim, os pecados, a morte e o inferno se tornam de Cristo (que não pode pecar nem morrer e nem ser condenado) e a graça, a vida e a salvação se tornam do homem, que é liberto de todos os seus pecados.

Lutero retoma à figura do matrimônio para mostrar que aquele que crê em Cristo compartilha do seu sacerdócio e reinado. O reinado torna o fiel senhor de tudo pelo poder espiritual. O sacerdócio o torna digno de comparecer perante Deus, orar pelos outros e ensinar sobre as coisas de Deus. Tudo isso suscita uma pergunta: “se Cristo compartilhou com aqueles que depositaram sua fé nEle, porque existe a distinção entre leigos e sacerdotes?” Lutero enfatiza que as Sagradas Escrituras não fazem tal distinção. Ele entende que essa separação acabou dando poder ao grupo dos sacerdotes, transformando-o numa tirania. Outra conseqüência dessa divisão seria a perda do conhecimento da graça, da fé, da liberdade e de Cristo, dando lugar às obras e leis humanas.
Finalizando a primeira parte do texto, Lutero destaca que é preciso pregar com o objetivo de promover a fé em Cristo, explicando o motivo da sua vinda e o que foi trazido e concedido por Ele. Tal pregação teria o poder de alegrar e confortar os corações daqueles que a ouvem. Ele critica os que pregam que o conhecimento da vida, das obras e palavras de Jesus seriam suficientes como exemplo de vida a ser concretizada. Sua crítica também se estende aos que se silenciam totalmente a respeito de Cristo, ensinando em seu lugar leis e decretos humanos. Por fim aos que apelam à emoção dos ouvintes.

A segunda parte do texto é dedicada à pessoa exterior. Diante de sua explanação tão enfática acerca da suficiência da fé e da insuficiência das obras abordadas até o momento, Lutero imagina que uma pergunta poderia surgir: “Para quê as obras, se a fé é suficiente?”. Ele responde dizendo que caso fôssemos total e perfeitamente interiores e espirituais de fato seria assim, porém, enquanto vivemos na carne é necessário sermos servos de tudo e a todos sujeito. Se o homem interior é livre, como já foi explicado na primeira parte, o homem exterior é servo. Essa servidão ocorre porque ele precisa governar o seu próprio corpo e lidar com as pessoas. Se o homem interior alegra-se e tem prazer em Cristo, o exterior se esforça por servir ao mundo e buscar o que é seu. É por causa dessa inclinação do homem exterior para as coisas mundanas que são necessários os jejuns, vigílias, trabalhos e outras disciplinas moderadas. Mas tais práticas não podem justificá-lo. Elas devem ser feitas apenas com a intenção de levar o corpo à servidão e purificá-lo de suas concupiscências.

Para explicar a função que ocupa as obras na vida do crente, Lutero utiliza como analogia a vida de Adão e Eva no paraíso. O trabalho que realizavam no jardim (Gn 2.15) não visava a obtenção da justiça, já que ainda não haviam pecado. Tais obras eram realizadas unicamente para a glória de Deus. Apenas duas coisas tornam o homem bom ou mau, a fé a e incredulidade. A fé o torna justo e a incredulidade o condena.

Lutero gosta de ilustrações e para mostrar de forma clara que a fé precede as obras, ele explica que uma árvore que produz bons frutos não é saudável por causa dos frutos, mas os frutos é que são bons por causa da árvore. Árvore saudável (justificada por meio da fé) produz bons frutos. Árvore doente (incrédula e portanto condenada) produz maus frutos. Não importa se os frutos de um incrédulo parecem bons. Seus frutos são maus porque não são para glória de Deus. Ele é da opinião de que quando Jesus disse que “pelos seus frutos os conhecereis” está confirmando aquilo que já foi dito: os frutos são a forma visível de algo que já ocorreu no homem interior (invisível). Lutero destaca ainda uma outra coisa importante: caso um crente justificado pela fé produza uma obra má isto não faz dele uma pessoa má ou condenada. A única coisa que pode torná-lo mau é a incredulidade. Lutero procura deixar bem claro que não condena as obras. O que ele condena é o ensinamento que afirma que elas concedem justiça.

Não há uma ênfase muito grande por parte de Lutero na questão da penitência (ele fará isso em outra obra). Ele apenas enfatiza que penitência, confissão e satisfação não têm valor algum sem a fé. A penitência vem da lei, mas a fé vem da promissão de Deus.

Lutero também encontra espaço para falar sobre o trabalho. O cristão deve cuidar bem do corpo, pois só assim terá vigor para trabalhar, adquirir bens e preservá-los, com o fim de dar apoio aos que tem carência. Para ele esta é a verdadeira vida cristã, onde a fé atua pelo amor.

Referindo-se à Maria, que se purificou para que não ofendesse as outras mulheres e a Timóteo, que se circuncidou para não desprezar os judeus, Lutero critica o legalismo. Maria e Timóteo cumpriram a lei por amor, ainda que não estivessem sujeitos a ela. O cristão vive em Cristo pela fé e no próximo pelo amor.

Os preceitos impostos pela igreja não são considerados um problema para Lutero, desde que não sejam ensinados como sendo necessários para a justiça e salvação. O que ele não se cansa de enfatizar é seu temor de que sejam considerados um meio de se alcançar a salvação. Tal distorção extinguiria a liberdade cristã.

Com receio de ser mal interpretado, Lutero faz um adendo no final do texto. Ele repreende aqueles que desprezam as cerimônias, tradições e leis humanas e aqueles que consideram tais preceitos eficientes para perdoar pecados e salvar a alma. Contra tais exageros Lutero propõe o caminho do meio. As cerimônias, tradições e leis humanas não devem ser desprezadas, pois são como freios para a carnalidade, porém não se deve acreditar que podem justificar alguém. Ele considera, porém, que alguns preceitos e leis humanas são extremamente nocivas às ovelhas, pois ao invés de libertá-las as conduzem ao cativeiro. Por isso, devemos ter consideração com tais ovelhas, pois não são fracas por culpa própria, mas por culpa de seus pastores (dentre os quais estão os pontífices e os “pseudoteólogos”). A estes, Lutero dirige uma dura crítica, chamando-os de “tiranos ímpios” e de “lobos”. Ao contrário das ovelhas, estes devem ser combatidos veementemente, para que entendam que são ímpios e que suas leis nada servem para a justiça.

Lutero finaliza o texto dizendo que as obras e as cerimônias não devem ser desprezadas, mas procuradas ao máximo. No entanto, o que deve ser desprezado são as falsas idéias das obras, ou seja, a idéia de que a justificação deve ser conquistada por elas.

Na obra “Sobre a liberdade cristã”, Lutero nos apresenta um estudo sobre a ética cristã baseada no amor. Considerando que na teologia medieval a Igreja era a dispensadora das graças e que tanto Jesus Cristo como a Virgem Maria e os santos possuíam méritos em grande quantidade, esses tesouros espirituais ficavam disponíveis aos que, segundo o julgamento das autoridades hierárquicas, se dispusessem a realizar certas obras extraordinárias. Lutero buscou reconduzir o significado de pecado e de salvação aos ensinamentos do Novo Testamento. As obras de reparação e satisfação diante de Deus não lhe pareciam ter qualquer validade. Para ele, a verdadeira penitência não começava com o temor do castigo, mas advinha na confiança em um Deus amoroso. A salvação, portanto, constituía um dom gratuito de Deus para o homem pecador, apesar da intrínseca perversidade na natureza humana. A obra salvadora de Deus não consistia na punição, mas na Sua decisão misteriosa de tornar o pecador justo em virtude do próprio amor divino. Assim a salvação teria que ser considerada obra de pura graça. O homem não se justificaria por sua obra meritória, mas somente por sua fé.

A distinção que faz entre o homem interior e exterior tem um objetivo claro. Para Lutero o homem nasce escravo do pecado, tornando sua vontade pervertida, incapacitando-o de realizar o bem e as virtudes. Mudar esse quadro exige uma transformação de dentro para fora, já que para ele os elementos externos não têm nenhuma influência sobre o homem interior. É por isso que Martin N. Dreher nos diz que para Lutero “diante dos seres humanos somos justificados por obras. Diante de Deus somos justificados pela fé somente”[1].

O Cristão é livre porque já foi tornado justo, estando portando desobrigado de qualquer “boa obra”. Considerando que na tradição teológica “boa obra” é “aquele agir humano pelo qual o cristão merece receber a graça de Deus” [2], vemos o porque de Lutero considerar os jejuns, vigílias e preceitos humanos inúteis para torná-lo justo. Como para Lutero o homem interior só pode ser afetado por Cristo e a fé “só pode reinar na pessoa interior”[3], ela se torna assim o único meio pelo qual o homem pode ser atingido pela graça de Deus. Alertando contra um possível uso errôneo da expressão “justificação pela fé”, Paul Tillich nos lembra que “Freqüentemente ela [a expressão ‘justificação pela graça através da fé’] é usada de forma abreviada como ‘justificação pela fé’. Mas assim ela é extremamente desorientadora, pois dá a impressão de que a fé é um ato do homem mediante o qual ele se torna merecedor de justificação”[4]. É importante ressaltar que para Lutero a causa é tão somente Deus. A fé é apenas mediadora.

O fato de ter ensinado que a justificação do pecador somente se dá pela graça de Deus mediante a fé, fez com que Lutero fosse frequentemente acusado de abolir as boas obras. Na verdade o que ele faz é desvincular as obras da justificação. O homem não é salvo porque se tornou justo, mas porque foi tornado justo (por Deus). Na teologia católica a justiça merecida por Cristo deveria ser apoiada pela justiça do próprio pecador, que cooperava com a graça através das obras. Era a isso que Lutero se opunha veementemente. Ele explica seu pensamento de modo bem simples quando diz que “as boas obras não fazem o homem bom, mas o homem bom faz boas obras[5]. Como ele foi tornado justo, suas obras também se tornam boas.

Lutero encontra uma saída original para explicar o fato das Escrituras conterem tantos preceitos. Quando o homem tem diante de si um mandamento e percebe que é impossível cumpri-lo, isso gera nele uma ansiedade que só encontrava consolo em Cristo, aquele no qual são prometidas graça, justiça, paz e liberdade. Esses preceitos têm por finalidade apontar para a graça libertadora de Cristo. Por outro lado, aquele que não crer nesta graça libertadora estará cometendo a maior das ofensas. Mesmo que suas obras aparentemente sejam boas, para nada servem. Para Lutero, quem está fora da graça peca constantemente, ainda que não mate, não furte e não pratique adultério.

O uso de ilustrações com fins didáticos é intenso na obra. Algumas vezes o texto se torna cansativo, mas é importante lembrar que a maior parte de seus leitores era composto por pessoas simples e sem instrução. Ele próprio deixa isso muito claro quando diz em uma outra obra que “só produzo panfletos e sermões para leigos sem instrução [...] não me envergonho nem um pouco de pregar e escrever em alemão para leigos sem instrução”[6]. Ele usa, por exemplo, a figura do casamento para ilustrar a partilha dos bens entre Cristo e o homem, por ocasião da união de suas almas. Nessa união mística, o homem recebe a graça, a vida e a salvação. Cristo, por outro lado recebe nossos pecados a morte e o inferno. Como Ele está imune a tudo isso, o que ocorre na verdade não é uma partilha, mas o recebimento de uma herança. Essa união com Cristo traz ainda outros benefícios. Por meio dela o homem também compartilha de seu reinado e sacerdócio. Nesse momento ele aproveita para criticar a distinção entre leigos e sacerdotes feita pela Igreja. Essa crítica não é nova, ela já havia sido feita de forma irônica pelos hussitas em 1431, quando expuseram as seguintes palavras na igreja da Basiléia: “Por que haveria Deus de dar mais atenção às orações dos sacerdotes do que às preces de outros homens? Seria porque seus lábios são mais grossos e suas faces mais coradas, ou quem sabe porque suas vestes são suntuosas, brilhantes e cultivam eles a avareza e a luxúria?”[7].

Lutero consegue, por meio de uma linguagem simples e de exemplos populares atingir tanto a mente de um camponês alemão, como a de um governador de um ducado. Ainda que para nós evangélicos de hoje seus ensinamentos pareçam óbvios, na época representou uma revolução na forma de como o homem deveria se relacionar com Deus. Prova disso foi a reação enérgica do Concílio de Trento: “Se alguém disser que o ímpio é justificado somente pela fé, entendendo que nada mais se exige como cooperação para conseguir a graça da justificação, e que não é necessário por parte alguma que ele se prepare e disponha pela ação da sua vontade — seja excomungado.”[8]. Segundo Joachim Fischer “Com sua nova concepção de ética, Lutero derruba todo sistema ético que atribui a cada ‘obra’ um valor diferente em relação a fé. Supera a distinção entre uma moral para cristãos ‘comuns’ e outra para os ‘mais perfeitos’, ou seja, religiosos e religiosas”[9].

Outra obra que não pode deixar de ser lida por aqueles que desejam uma síntese da vida cristã na concepção de Lutero é o conteúdo de um livrinho intitulado “Das Boas Obras”, considerado pelo historiador eclesiástico católico Erwin Iserloh como sendo talvez o mais importante de 1520.

Bibliografia:

[1] MARTINHO LUTERO. Obras selecionadas, Volume 3 – Debates e controvérsias I, 1989, p. 201.
[2] Idem. Obras selecionadas, Volume 1 – Os primórdios, escritos de 1517 a 1519, 1989, p. 98.
[3] Idem. Obras selecionadas, Volume 2 – o programa da reforma, escritos de 1520, 1989, p. 439.
[4] TILLICH, Paul. Teologia Sistemática, 1984, p. 382.
[5] MARTINHO LUTERO. Obras selecionadas, Volume 2 – o programa da reforma, escritos de 1520, 1989, p. 449.
[6] Ibid, p. 101.
[7] AS GRANDES RELIGIÕES, VOLUME I, 1973, p. 455.
[8] Concílio de Trento 819. Cân 9. Decreto sobre a justificação, Cânones sobre a justificação. Sessão VI (13-1-1547).
[9] Idem. Obras selecionadas, Volume 2 – o programa da reforma, escritos de 1520, 1989, p. 99.