quarta-feira, 16 de setembro de 2009

ESPÍRITOS MALIGNOS, ANJOS CAÍDOS, LARVAS E ESPÍRITOS IMUNDOS: UMA BREVE HISTÓRIA DO DEMÔNIO.

Por Jones Mendonça

I - Introdução
A figura do demônio despertou ao longo da história ora um sentimento de medo, ora de fascinação. Na idade média causou pânico na população, que via em fenômenos triviais a atuação desses seres[1]. Magos modernos tais como Aleister Crowley e Dion Fortune ensinavam ser possível controlar os demônios caso se conseguisse o conhecimento e a conversação do anjo guardião, “a capa mais profunda do subconsciente, o ego definitivo, o mais autêntico ‘eu’”[2]. Para os ocultistas, anjos e demônios não têm existência objetiva, mas são realidades psíquicas.

A figura do demônio surge em várias culturas, podendo ser chamados, dentre outros nomes, de galla, na religião sumeriana; gênios, na mitologia árabe; larvas, na crença popular latina e demônios na tradição cristã. No Antigo testamento surgem inicialmente como serviçais de Yahweh (p. ex. 1Sm 16,14 e 1Sm 19,9). Mais tarde, após o exílio babilônico, os judeus interpretaram o demônio como sendo um opositor de Yahweh (compare 2Sm 24,1 com 1Cr 21,1). No Novo Testamento são inúmeras as passagens onde encontramos Jesus exorcizando demônios. Eles podiam causar doenças físicas (Mc 9,25) e oprimir mentalmente as pessoas (Mt 17,15), pondo-as à margem da sociedade. Na tradição cristã os demônios foram interpretados como sendo anjos que se rebelaram contra Deus juntamente com Satã, o príncipe dos anjos rebeldes (Mt 12,24).

II. O demônio no Antigo Testamento
Na literatura vétero-testamentária a expressão mais comum para designar o demônio é “espírito maligno” (ruah rah). O livro de Samuel enfatiza que esse espírito era da parte de Yahweh (1Sm 16,14), ou Elohim, (16,15). Foi após ser possuído por este mesmo espírito que Saul começou a profetizar (18,10). Fica evidente nesses textos que tal espírito obedecia às ordens de Yahweh e não uma entidade que se opunha a Ele. O primeiro livro dos Reis nos dá um outro exemplo. Para induzir Acabe a partir para uma batalha em Ramote-Gileade, Yahweh aceitou os serviços de um espírito mentiroso (ruah sheqer) que se apresentou diante dEle na corte celeste (1Rs 22,21-22).

III. O demônio na literatura apócrifa judaica
Na literatura apócrifa judaica são freqüentes as citações aos chamados “espíritos malignos”. O Livro de Tobias menciona a existência de um demônio chamado Asmodeu (Tb 3,8), responsável pela morte de sete homens que haviam sido dados em casamento a uma mulher chamada Sara. O Livro de Enoch fala de duzentos anjos que se rebelaram contra Deus, relacionando-se sexualmente com as mulheres humanas:
“A Miguel, igualmente disse o Senhor: Vai e põe a ferros Samyaza, e os seus sequazes, que se misturaram com as mulheres e com elas se contaminaram de todas as suas impurezas”[3].
Tal relacionamento teria produzido gigantes com 3000 côvados (cerca de 1.500m!) insaciáveis por comida, que após acabarem com todas as provisões dos homens, passaram a buscar nos seres humanos sua fonte de alimento[4]. Além de responsáveis pelo surgimento dos gigantes, os anjos rebeldes teriam ensinado os homens a produzir armas de guerra, a consultar os astros e todo o tipo de transgressão.

IV. O demônio na mentalidade greco-romana
No mundo grego-romano a idéia que se tinha dos demônios era bem diferente. Eles eram as “almas humanas divinizadas pela morte[5], nos diz Fustel de Coulanges. Os latinos davam outros nomes às almas humanas desencarnadas, chamavam-nas manes, lares, larvas ou gênios. Se o mane era bom chamavam-no lar ou gênio; se era mau, era chamado de larva. Cícero afirmava que o termo latino lares correspondia ao termo grego demônio: “Àqueles que os gregos chamam demônios, damos-lhes o nome de lares[6]. Concluímos assim que na mentalidade greco-romana os demônios eram almas de pessoas mortas que vagavam pela terra, podendo ser até mesmo benéficas ao ser humano.

Mas como uma alma se tornava má na mentalidade greco-romana? Fustel de Coulanges nos responde mais uma vez:
“A alma que não possuísse sua sepultura, não tinha morada, e permanecia errante. Em vão aspiraria ao repouso que amava, depois das agitações e do trabalho desta vida; permanecia condenada a errar sempre, sob a forma de larva ou de fantasma, sem jamais se deter, sem jamais receber as oferendas e os alimentos de que tanto necessitava” [7].
A crença em aparições de almas errantes era tão presente na mentalidade do povo que até mesmo os discípulos de Jesus pensaram ser ele um fantasma (φαντασμα) enquanto caminhava sobre as águas do Mar da Galiléia (Mt 14,26). Não havia na mentalidade primitiva a idéia de um outro mundo, onde as almas descansariam ou pagariam pelos seus pecados. O homem “uma vez sepultado, nada tinha a esperar, nem recompensas, nem suplícios[8]. A pessoa morta continuava sua existência junto aos seus parentes, no túmulo, sendo alimentada em rituais que visavam lhe proporcionar descanso e paz. A crença no Tártaro (lugar de condenação) e nos Campos Elíseos (lugar de descanso e paz) só foi incutida mais tarde[9]. No filme “O gladiador” (direção de Ridley Scott, 2000) o personagem principal esperava reencontrar sua família nos Campos Elíseos após sua morte.

V. O demônio na literatura neo-testamentária
O termo daimónion (δαιμόνιον), traduzido por demônio ou simplesmente por divindade (At 17,18), aparece quarenta e seis vezes no Novo Testamento. Apenas seis ocorrências encontram-se fora dos evangelhos. A variante daimon (δαίμων), também traduzida por demônio, surge cinco vezes, duas no Apocalipse e uma em cada um dos sinóticos. Outras duas variantes também ocorrem: daimoniódes (δαιμονιώδης), que a Bíblia de Jerusalém traduz por demoníaco (única ocorrência em Tg 3,15) e daimonízomai (δαιμονίζομαι), referindo-se a uma pessoa influenciada ou atormentada por um demônio (p. ex. Mt 4,24). Apesar do termo demônio ser identificado com o “espírito imundo” (πνευμα ακαθαρτον) em Mc 7,25-26, isso não pode ser feito tão facilmente em relação aos anjos caídos (Ap 12,7-9). As epístolas de Judas e Pedro falam a respeito de anjos que que “deixaram sua própria habitação” (Jd 1,6) e que foram lançados no inferno (2 Pe 2,4), não há uma ligação clara entre eles e os espíritos imundos que possuiam pessoas.

VI. Conclusão
Mas afinal, tais seres maléficos eram reais ou mero produto da mente humana? O psiquiatra metodista Willian Sargant, após viajar por todo o mundo estudando casos de possessão conclui:
“Penso que devo terminar talvez estes longos anos de pesquisa com a conclusão de que não existem deuses, mas apenas impressões de deuses criadas na mente do homem, tão variados são os deuses e as crenças que passaram a existir com a ação da emotividade, da sugestionabilidade aumentada e das fases anormais da atividade cerebral”[10].
Teólogos mais conservadores como Wayne Grudem entendiam que “em algum momento entre Gênesis 1:31 e Gênesis 3:1, houve uma rebelião no mundo angélico que levou muitos anjos a ficarem contra Deus e converterem-se em malignos[11].

Rudolf Bultmann propôs a desmitificação (ou desmitologização ou desmitização) do Novo Testamento. Com isso ele queria dizer que apenas a essência da mensagem cristã deveria ser preservada, descartando-se tudo aquilo que fosse considerado inaceitável diante das descobertas científicas modernas. Aplicando o método de Bultmann, deveríamos abrir mão de crenças primitivas em anjos ou demônios:
Toda a concepção do mundo que pressupõe tanto a pregação de Jesus como a do Novo Testamento, é, em linhas gerais, mitológica, por exemplo [...] a idéia de que os homens podem ser tentados e corrompidos pelo demônio e possuídos por maus espíritos”[12].
Carl Jung foi um dos que criticou essa forma de encarar o sobrenatural presente na religião: “A tentativa de desmitificação de Bultmann representa uma conseqüência do racionalismo protestante e leva a um contínuo empobrecimento da simbologia[13]. Numa linha semelhante parece seguir Paul Tillich. Apesar de descartar a visão tradicional que considera os demônios anjos caídos, ele reconhece o poder desagregador do demoníaco: “a psicologia secular do inconsciente redescobriu a realidade do demoníaco em cada pessoa[14].

Fruto de uma alteração da atividade cerebral, anjos caídos, meros seres mitológicos ou realidades psíquicas autônomas capazes de provocar sérios males ao homem? Seja qual for sua origem, os demônios atravessam os séculos causando distúrbios individuais ou coletivos[15]. Se o nosso inconsciente é realmente autônomo, como sustentava Jung[16], poderíamos dizer que os demônios são mais reais do que imagina uma mente aprisionada nos esteios da racionalidade. A linha que separa o real do imaginário é tênue. Negar a existência do demônio (ou demoníaco, como gostava Paul Tillich) seria como negar os efeitos de um câncer “imaginário” que mata aos poucos um pobre moribundo.

Bibliografia:
BÍBLIA DE JERUSALÉM: nova edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2003.
BULTMANN, Rudolf. Jesus Cristo e a mitologia. São Paulo. Novo Século, 2003.
COULANGES, Fustel. A cidade Antiga: estudos sobre o culto, o direito, as instituições da Grécia e de Roma. Tradução de Jonas Camargo Leite. Rio de Janeiro: Ediouro, 1996.
COENEN, Lothar; BEYREUTHER, Erich; BIETENHARD, Hans. Diccionario teologico del Nuevo Testamento - Vol II. Salamanca: Sígueme, 1990.
GRUDEM, Wayne. Teología Sistemática. Traduccíon de Miguel Mesías, José Luis Martinez, Omar Diaz de Arce. Miami, FL: Editorial Vida, 2007.
HARK, Helmut. Léxico dos conceitos junguianos fundamentais. Tradução de Maurício Cardoso. São Paulo: Loyola, 2000.
JUNG, Carl G. Psicologia e religião. Tradução de Fausto Guimarães. Rio de Janeiro: Zahar, 1965.
KING, Francis. Magia. Madrid: Ediciones del Prado, 1996, p.12 (Coleção Mitos, Deuses e Mistérios).
KIRST, N.; KILPP, N.; SCHWANTES, M.; RAYMANN, A.; ZIMMER, R. Dicionário hebraico-português e aramaico-português. São Leopoldo/Petrópolis: Sinodal/Vozes, 2007.
KRAMER, Samuel Noah. Mesopotâmia, o berço da civilização. Tradução de Genolino Amado. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1972.
NOGUEIRA, Carlos Roberto F. O Diabo no imaginário cristão.Bauru, SP: Edusc, 2002.
PROENÇA, Eduardo de (org.). Apócrifos e pseudo-epígrafos da Bíblia. São Paulo: Fonte Editorial, 2005.
RIENECKER, Fritz; ROGERS, Cleon. Chave lingüística do Novo Testamento Grego. Tradução de Gordon Chown e Júlio Paulo T. Zabatiero. São Paulo: Vida Nova, 1995.
SARGANT, Willian. A possessão da mente: uma fisiologia da possessão, do misticismo e da cura pela fé. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1973.
TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. São Leopoldo: Sinodal, 2005.

Notas:



[1] Um belo exemplo do quão imaginativa foi a mente medieval em relação à atuação dos demônios pode ser encontrado na obra Malleus Maleficarum, escrita por dois inquisidores dominicanos, Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicada pela primeira vez em 1487. O documento é uma espécie de manual para identificar bruxas. O livro foi publicado em língua portuguesa pela editora Rosa dos Tempos.

[2] KING, Francis. Magia, 1996, p.12.
[3] Enoch 10,6
[4] Enoch 7,2
[5] COULANGES, Fustel. A cidade Antiga, 1996, p. 17
[6] Cícero, Timeu, II, in COULANGES, Fustel. A cidade Antiga, 1996, p. 17
[7] COULANGES, Fustel. A Cidade Antiga, 1996, p.12.
[8] COULANGES, Fustel. A Cidade Antiga, p. 13.
[9] COULANGES, Fustel. A Cidade Antiga, p. 13.
[10] SARGANT, Willian. A possessão da mente: uma fisiologia da possessão, do misticismo e da cura pela fé, 1973, p.241.
[11] Tradução livre do autor. No original “en algún momento entre los sucesos de Genesis 1:31 y Genesis 3:1, tuvo que haber una rebelion en el mundo angelical que llevo a muchos angeles a ponerse en contra de Dios y convertirse en malignos”. GRUDEM, Wayne. Teología Sistemática, 2007, p. 430.
[12] BULTMANN, Rudolf. Jesus Cristo e a mitologia, 2003, pp. 13, 14.
[13] Briefe II, p. 211 in HARK, Helmut. Léxico dos conceitos junguianos fundamentais, 2000, p. 100.
[14] TILLICH, Paul. Teologia Sistemática, 2004.
[15] Ficou famoso o caso da possessão coletiva das freiras ursulinas de Loudun (1632), que faziam caretas e balbuciavam palavras ininteligíveis às vistas de turistas curiosos. Inspirado por este caso, o escritor e intelectual inglês Aldous Huxley escreveu sua obra: “Os demônios de Loudun”.
[16] JUNG, Carl G. Psicologia e religião. 1965, pp. 10-41.


Crédito das imagens:
Figura 1:
Aleister Crowley (1875-1947), com suas vestimentas de mago, antes de 1914.

Figura 2:
MEMLING, Hans
Inferno
c. 1485
Óleo sobre madeira, 22 x 14 cm
Musée des Beaux-Arts, em Estrasburgo

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

VERDADES SOBRE UM CONFLITO


Para quem deseja conhecer uma obra sensata a respeito do conflito árabe-israelense na Palestina vale dar uma olhada no livro “Israel, Palestina: Verdades sobre um Conflito”, de Alain Gresh:

Pela minha parte, não pertenço a nenhum “partido de Deus”, contento-me, como o “bastardo Goetz”, personagem central da peça “O Diabo e o Bom Deus”, de Jean-Paul Sartre, de pertencer ao dos homens, ou antes, ao dos seres humanos. Não reconheço qualquer hierarquia, tal como não classifico em nenhuma escala ascendente ou descendente as comunidades religiosas ou nacionais. Mesmo que compreenda que, por razões ou familiares, ou religiosas, frequentemente culturais, nos poderemos sentir mais próximos deste ou daquele povo... Na condição de não o idealizar, na condição de não absolver os crimes cometidos em seu nome [1].
[1] GRESH, Alain. Israel, Palestina: Verdades sobre um Conflito. Tradução de Lígia Calapez Gomes. Campo das Letras, 2002, p.8

JUDEUS RELIGIOSOS GANHAM FORÇA NO EXÉRCITO DE ISRAEL

O Exército israelense está mudando. As unidades de combate que um dia se orgulharam de ser seculares estão agora povoadas por opiniões de que as guerras de Israel são guerras de Deus.

Rabinos estão se tornando cada vez mais poderosos nas forças armadas, e cadetes religiosos são treinados para se tornar parte da elite militar. Durante as operações em Gaza, no início do ano, rabinos entregaram centenas de panfletos para soldados. Alguns desses panfletos retratavam civis palestinos, não só militantes, como inimigos.

Outros chamavam os soldados israelenses de filhos da luz e os palestinos de filhos das trevas. O Exército israelense tenta se distanciar desse tipo de mensagem, mas os panfletos (veja a figura) vêm com selo oficial.

Códigos morais
Muitos cadetes religiosos vivem em assentamentos na Cisjordânia ocupada. Se as negociações de paz na região avançarem, Israel um dia terá que retirar a maioria dos colonos dessa região. Se isso acontecer, há dúvidas sobre se os soldados religiosos respeitarão as ordens de seus comandantes, indo contra suas crenças.

Mas líderes militares discordam dessa visão.
O general Eli Shermeister, coordenador de educação do Exército israelense, diz que o código moral do Exército é claro e que a organização exige que os soldados se comportem de acordo com essas regras. Ninguém, segundo ele, pode criar outro código moral e apenas os comandantes controlam seus soldados.

O dia-a-dia dos soldados israelenses consiste principalmente de patrulhar áreas civis em Gaza, na Cisjordânia e também em Jerusalém Oriental.

Qualquer influencia sobre as atitudes dos militares é de extrema importância. A forma como encaram os palestinos que vivem nessas áreas, e quem influencia essas visões, pode determinar o uso que fazem de seu poder e de suas armas.


Fonte: BBC Brasil

ARMAS DE GUERRA ROMANAS

No ano 70 D.C. Jerusalém foi destruída pelos romanos, liderados pelo general Tito. Nessa ocasião muitos judeus foram crucificados forçando os sobreviventes a partirem para uma diáspora. O muro das lamentações que vemos hoje é o que restou dessa destruição. Veja abaixo algumas armas de guerra utilizadas pelos romanos.








Crédito das imagens:
CONNOLLY, Peter. Las legiones romanas. Madrid: Espasa Calpe, 1981, pp. 63, 66.

COMUNIDADE, SEMPRE UM BOM LUGAR PARA VIVER E CONVIVER

a comunidade é um lugar 'cálido', um lugar confortável e aconchegante. É como um teto sob o qual nos abrigamos da chuva pesada, como uma lareira diante da qual esquentamos as mãos num dia gelado. Lá fora, na rua, toda sorte de perigo está à espreita; temos que estar alertas quando saímos, prestar atenção com quem falamos e a quem nos fala, estar de prontidão a cada minuto. Aqui, na comunidade, podemos relaxar — estamos seguros, não há perigos ocultos em cantos escuros (com certeza, dificilmente um 'canto' aqui é 'escuro')" [1].

[1] BAUMAN, Zygmunt. Comunidade - a busca por segurança no mundo atual. Tradução Plínio Dentzien. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Ed., 2003, pp. 7 e 8.

A GUERRA E OS SEUS HERDEIROS





















Hanuka Tomer e seu irmão gêmeo idêntico Asaf fazem trabalhos magníficos com o pincel. Ambos nasceram em Israel. A guerra é um tema recorrente no trabalhos dos dois irmãos. Este é de Asaf.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O EVANGELHO DO CRISTO CÓSMICO

BOFF, Leonardo. O evangelho do Cristo cósmico. Rio de Janeiro: Record, 2008, 192 pp.

O título do livro soa estranho para os que não possuem o costume de se aventurar por teologias menos ortodoxas. Alguns o julgarão como sendo um livro sobre esoterismo, Nova Era ou outras correntes místicas que estão tão na moda, mas não se trata disso.


Boff busca nas epístolas paulinas, na patrística, na escolástica e em pensadores modernos as bases para a construção de seu pensamento. Dentre todos estes, sua maior ênfase está no pensador místico católico Teilhard de Chardin. Quem nunca teve contato com seus escritos certamente terá dificuldade em compreender termos como “noosfera”, “teosfera”, “crístico”, “pancristismo”, etc. Uma solução possível para esse problema seria a inclusão de um glossário no final da obra.


O problema da unidade do Todo, tema central do livro, é uma questão relevante e que merece atenção dos teólogos modernos. Desde os gregos havia a idéia de que o átomo não se podia dividir. Mais tarde descobriu-se que ele é formado por partículas ainda menores, tais como prótons, elétrons e nêutrons. Novas pesquisas revelaram que há ainda as chamadas “partículas sub-atômicas”, que ora se comportam como matéria, ora como energia, mostrando que tudo o que existe no universo é pura energia condensada (E=MC²). Os místicos, já mesmo antes destas descobertas, entenderam que essa “energia” que tudo permeia é o Espírito Divino, ou como sustenta Teilhard de Chardin, o “Cristo no coração da matéria”.


Essa descoberta também nos fez pensar que somos todos constituídos dos mesmos elementos. O solo lunar, os meteoros que “caem” na terra, e até mesmo as estrelas são feitos de “poeira cósmica”. Quando morremos viramos pó e esse pó volta à terra, podendo mais tarde se transformar em um pé de alface, um jambeiro ou quem sabe em um belo ipê amarelo. “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, já dizia Lavoisier.O que é já foi, o que será também já foi”, já dizia o enfadado Coelet (Ec 3.15). Boff procura mostrar que esse ciclo é dinâmico e progressivo. Por meio dele o cosmos caminha numa evolução contínua, que culmina com a parusia, momento em que Deus se reintegrará ao cosmos pondo fim a essa evolução. Tal concepção é estranha no nosso meio evangélico, já que sofremos uma forte influência da escatologia joanina, que concebe o universo sendo assolado por catástrofes cósmicas no fim dos tempos. Já escatologia paulina fala da consumação de todas as coisas em Deus, quando Ele for tudo em todos. Não há referências à destruição, mas à restauração e plenitude (pleroma). Afinal, qual deles descreve o melhor modelo?


É preciso admitir que a cristologia cósmica é bastante sedutora, principalmente após a queda do paradigma mecanicista newtoniano. O próprio Einstein, um dos responsáveis pela queda desse modelo certa vez disse que: “Afirmo com todo o rigor que a religião cósmica é o móvel mais poderoso e mais generoso da pesquisa. [...] O espírito científico, armado fortemente com seu método, não existe sem a religiosidade cósmica”. (Como vejo o mundo, pp. 22-23).


Afinal quem tinha razão, Paulo ou João? Dê a sua opinião...

TILHARD DE CHARDIN E SUA CRISTOLOGIA CÓSMICA II

Mircea Eliade, um dos mais influentes e importantes filósofos da religião assim se refere a Teilhard de Chardin:
“Num artigo na revista Psyché, Teilhard confessou uma vez não poder acreditar num fim catastrófico do mundo, nem agora nem daqui a bilhões de anos; ele não podia nem mesmo acreditar na segunda lei da termodinâmica. Para ele, o universo era real, vivo, significativo, criativo, sagrado — e, se não eterno no sentido filosófico, pelo menos de duração infinita” [1].
Nota:
[1] ELIADE, Mircea. Ocultismo, bruxaria e correntes culturais; ensaios em religiões comparadas. Tradução de Noeme da Piedade Lima Kingl. Belo Horizonte: Interlivros, 1979, p.18.

QUAL O SIGNIFICADO DA EXPRESSÃO “AGNUS DEI”?

Quem responde é Georg Schwikart:


“Cordeiro de Deus. Assim Jesus de Nazaré é chamado no Novo Testamento (Jo 1,29). - 1. No culto eucarístico há o canto ou recitação do ‘Cordeiro de Deus’, durante o qual parte-se a Hóstia para simbolizar a morte de Jesus. - 2. Peça que contém cera benzida pelo Papa. - Do latim = Cordeiro de Deus”[1].

[1] SCHWIKART, Georg. Dicionário ilustrado das religiões. Tradução de Pe. Clóvis Bovo. Aparecida, SP: Santuário, 2000, p.9.

Crédito da imagem:

Zurbarán, Francisco de
Agnus Dei
Óleo sobre tela, 38 x 62 cm
Museo del Prado, Madrid

O CRISTIANISMO E AS PRIMEIRAS HERESIAS

Aula II (lição anterior: O Cristianismo primitivo)

1. Introdução

O cristianismo defrontou-se com um mundo onde predominava a cultura greco-romana. O politeísmo, as religiões de mistério, as inúmeras correntes filosóficas, o culto ao imperador, tudo isso tornava a propagação do cristianismo algo bastante complicado. Era comum os pagãos confundirem o cristianismo com o judaísmo, sendo visto como uma religião composta por infiéis à tradição judaica. Ao repudiarem tanto a tradição greco-romana como a tradição judaica, os cristãos colocavam-se à margem da sociedade. Para Luciano de Samosata (125 – 192 d.C), por exemplo, os cristãos eram pessoas convencidas de que “viverão eternamente [...] e, desde que abjuraram os deuses da Grécia, adoram um sofista crucificado”. Apesar de mal compreendida por judeus e pagãos, a fé cristã conseguiu transpor os obstáculos. Mas essa não foi uma tarefa fácil.


2. O cristianismo e a influência pagã

Na religião romana não havia a idéia de um Deus único, criador e que desejava se relacionar com os seres humanos. O povo cultuava os mortos, que depois de sepultados eram “alimentados” com vinho ou comida: “a bebida penetrou na terra, meu pai a recebeu” (Ésquilo, Coéforas, 162), dizia uma mulher do primeiro século. Uma vez sepultado, o homem nada tinha a esperar, nem recompensas nem punição. Os mortos eram considerados criaturas sagradas e venerados como deuses.


Já entre os sábios gregos havia a crença em Deus, mas era um Deus indiferente em relação a vida do homem na terra. Não era um deus que respondia as orações ou que se compadecia com o sofrimento do ser humano. O culto doméstico romano e as correntes filosóficas que eram populares na época não eram capazes de satisfazer a obsessiva busca pela solução do problema da morte. Havia um forte anseio por um Deus que se pudesse amar, que protegesse nesse mundo e ao mesmo tempo garantisse a salvação eterna.


É nesse terreno fértil que surge o cristianismo. Jesus prega um Deus próximo, que deseja se relacionar com o homem e que promete vida eterna aos que o buscam. Se entre os judeus o cristianismo não foi bem aceito, já que esperavam um messias político, entre os pagãos ele foi mal compreendido. Fronton (século II d.C) mestre de dois imperadores, acusava os cristãos de imolarem e devorarem crianças nas cerimônias de iniciação, de adorarem a cabeça de um burro e praticarem incestos após os banquetes. O texto de Jo 6:53 onde Jesus diz “se não comerdes a carne do filho do homem [...] não tereis vida em vós mesmos”, foi interpretado literalmente, por isso a idéia de que comiam a carne de crianças. O costume dos cônjuges tratarem-se como “irmãs” e “irmãos” fez surgir o boato de que praticavam incestos. A igreja nascente começava a sentir a necessidade de homens instruídos que defendessem a fé cristã frente às críticas dos filósofos e do paganismo.


3. Os primeiros apologistas

Diante de todos esses mal entendidos, a comunidade cristã percebeu ser necessário discutir questões envolvendo a sua fé e a cultura pagã. Os primeiros cristãos, por exemplo, se negavam a participar de cerimônias civis, nas quais se ofereciam sacrifícios e juramentos aos deuses. Também não serviam ao exército, porque podiam se ver obrigados a matar alguém ou oferecer sacrifícios a César (havia na época o culto ao imperador). Essa postura gerou vários problemas, levando os pagãos a se referirem constantemente aos cristãos como pessoas anti-sociais e ignorantes. Por não reconhecerem os deuses do Estado, nem o culto do imperador, foram considerados como ímpios e até mesmo ateus (Just., Apol. 1,6, 13; Mart. S. Polyc. 9). A necessidade de um posicionamento claro e bem definido em relação à postura que o fiel deveria ter frente aos mais diversos questionamentos se acentuava a cada dia. Para piorar, havia ainda a ameaça das várias doutrinas vindas do oriente e dos judaizantes, que insistiam na observância da lei mosaica. Surgiam assim os primeiros apologistas, homens instruídos e determinados a defender a fé cristã. Justino Mártir (100-165), Irineu (140-200), Clemente de Alexandria (160-215), Tertuliano (160-220), Orígenes (185-254), Jerônimo (345-419) e Agostinho de Hipona (354-430) tiveram uma postura decisiva no combate a essas correntes. Veja abaixo duas dessas ameaças:


a) Gnosticismo (do gr. gnostikos – “aquele que conhece”) –Religião extremamente sincrética (absorvia doutrinas de outras religiões). Para os gnósticos o mundo material fora criado por um deus mau, chamado Demiurgo. Conseqüentemente não poderiam admitir que Jesus tivesse um corpo físico, já que seria incompatível uma divindade habitar um corpo feito de matéria. Eles também enfatizavam que o corpo é a prisão da alma, sendo toda a matéria criada essencialmente . Havia nos primeiros séculos mais cristãos gnósticos do que se pode pensar.


b) Maniqueísmo – Doutrina de origem persa fundada por Mani (216-276). Mani enfatizava a luta incessante entre o bem e o mal. Todo o universo teria princípios igualmente eternos: a luz e as trevas, que se combateriam incessantemente. Adão e Eva seriam filhos de dois demônios Asqualun e Namrael. Ainda assim, os primeiros humanos carregariam dentro de si uma porção da luz divina. O maniqueísmo pregava a abstinência sexual aos que desejassem ser verdadeiros crentes, já que viam na procriação uma maneira de prolongar o cativeiro da luz.


Tanto o gnosticismo como o maniqueísmo pregavam o dualismo, ou seja, a oposição entre duas realidades distintas: o espírito e a matéria. A Bíblia nunca situou o pecado na matéria, seja no corpo humano, nos animais ou nos minerais. A criação é boa. A oposição existente na Bíblia é entre a carne (gr. sars), que representa a inclinação humana para o mal e o espírito, que é o canal de ligação entre o homem e Deus. É possível ver resquícios dessas duas doutrinas em alguns segmentos do cristianismo atual, quando notamos, por exemplo, um rigor exagerado com o corpo, como se nele estivesse presente a semente do mal.


No século IV os problemas que os cristãos enfrentavam com a perseguição iriam acabar, já que o cristianismo passou a ser protegido pelo Estado. Mas a união entre Estado e religião traria novos problemas. Esse será o tema da próxima lição.

ARQUEÓLOGOS ISRAELENSES DESCOBREM FORTIFICAÇÃO DE 3.700 ANOS

JERUSALÉM - Escavações arqueológicas em Jerusalém encontraram uma muralha de 3.700 anos que é o exemplo mais antigo de antigas fortificações já encontrado na cidade, informaram funcionários israelenses nesta quarta-feira, 2.

Acredita-se que muralha de 7,9 metros de altura seja parte de uma passagem protegida construída pelos cananeus a partir de uma fortaleza no topo de um monte até uma nascente próxima, que era a única fonte de água da cidade e era vulnerável a saqueadores.

Trata-se da primeira descoberta de uma grande construção feita antes dos tempos de Herodes, o governador que estava por trás de numerosos projetos monumentais da cidade 2 mil anos atrás. Além disso, mostra que a Jerusalém de meados da Idade do Bronze tinha uma população capaz de realizar projetos de construção complexos, disse Ronny Reich, diretor de escavações e professor de arqueologia da Universidade de Haifa.

As muralhas são do século 17 antes de Cristo, quando Jerusalém era um pequeno e fortificado enclave controlado pelos cananeus, um dos povos que segundo a Bíblia viveu na Terra Santa antes da conquista hebraica. O bíblico rei Davi teria reinado sete séculos mais tarde.

Um pequeno pedaço da muralha havia sido descoberto em 1909, mas os escavadores chegaram a uma parte que mede 240 metros. Reich acredita que há ainda mais a ser escavado, mas disse que contenções de orçamento, relacionados à crise financeira global, encerraram a escavação, pelo menos por enquanto.

“A muralha é enorme e sobreviveu 3.700 anos, o que, mesmo para nós, é um longo tempo”, disse Reich. É incrível que uma fortificação deste tipo não tenha se desmanchado por projetos de construção posteriores, disse ele.

Pesquisas arqueológicas no local conhecido como Cidade de Davi, do lado de fora dos muros da cidade velha, está no centro da luta pelo controle da cidade.

O sítio arqueológico, um dos mais ricos num país cheio de relíquias antigas, está localizado no meio de uma bairro palestino em Jerusalém Oriental.

As escavações da Cidade de Davi são financiadas pela Elad, uma organização de assentamentos judaicos que também compra residências palestinas e leva famílias judaicas para o bairro.

Palestinos e israelenses dizem que a arqueologia está sendo usada como ferramenta política para cimentar o controle judaico sobre partes de Jerusalém que os palestinos querem como a capital de seu futuro Estado.

Israel tomou a área árabe de Jerusalém na guerra de 1967 e rapidamente anexou Jerusalém Oriental e declarou toda a cidade como sua capital.

Fonte: Estadao.com.br

ACHADO FRAGMENTO INÉDITO DO CODEX SINAITICUS

Um fragmento do Codex Sinaiticus, considerado a Bíblia mais antiga do mundo, foi encontrado por acaso na biblioteca de um monastério egípcio. O achado foi feito por Nikolas Sarris, um estudante grego de 30 anos que está fazendo um doutorado em conservação na Grã-Bretanha e que participou do projeto de digitalização do Manuscrito Aleph, como também é conhecido o Codex.

Sarris inspecionava fotografias de uma série de encadernações compiladas no século XVIII por dois monges do monastério de Saint Catherine, no Monte Sinai, quando se deparou com partes do Livro datadas de aproximadamente 350 d.C. “Foi um momento muito emocionante”, lembra o acadêmico, segundo o jornal Independent. “Embora não seja minha área de especialidade, eu ajudei no projeto online, de forma que o Codex ficou fortemente impresso na minha memória”.

O estudante conta que começou a analisar as letras e colunas e rapidamente percebeu que se tratava de um fragmento do Aleph. Ele então mandou um e-mail para o padre Justin, bibliotecário do monastério, e sugeriu que desse uma olhada mais atenta na encadernação, o que confirmou as suspeitas. Acredita-se que o trecho encontrado, com apenas um quarto visível, pertence a Josué, Capítulo 1, Versículo 10.

Ao longo dos séculos, os monges do monastério de Saint Catherine reutilizaram com frequência pergaminhos antigos, sobretudo devido a dificuldade de obter novos na região. Isso faz com que a descoberta de Sarris seja ainda mais significativa, pois, segundo ele, há ainda 18 outras encadernações compiladas pelos mesmos dois monges que reaproveitaram partes do Codex. “Não sabemos se iremos encontrar mais do Codex nesses livros, mas, definitivamente, valerá a pena procurar”.

Fonte: Veja.com

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