terça-feira, 24 de maio de 2022

SOBRE A "ETERNIDADE" EM ECLESIASTES

1. Caso seja aprovado o projeto de lei que proíbe qualquer “alteração, edição, supressão, adição ou adaptação da Bíblia cristã”, teríamos diversas dificuldades. Um exemplo.

2. Na versão NVI, o livro do Eclesiastes diz que Deus “pôs no coração do homem o anseio pela eternidade” (3,11). A Bíblia de Jerusalém (BJ) suprime a palavra “anseio” e propõe uma tradução bem diferente para a palavra hebraica עולם, traduzida por “eternidade”.

3. Nesta versão, aquilo que Deus coloca no coração do homem não é o “anseio pela eternidade”, mas a “o conjunto de tempo”, ou seja, a noção de temporalidade, a percepção de que a existência humana na terra é como fagulha, como névoa diante de Deus.

4. A parte “b” do verso explica que essa noção faz o ser humano perceber a grandiosidade da criação, ou seja, que é incapaz de compreender “aquilo que Deus realiza desde o princípio até o fim”.

5. Em minha opinião, a tradução da BJ está correta (“conjunto de tempo”) e a da NVI está errada (“anseio pela eternidade”). Seja como for, não precisamos de uma lei destinada a regular as traduções da Bíblia. Isso é coisa de gente tonta e fundamentalista.


Jones F. Mendonça

 

terça-feira, 17 de maio de 2022

NOS APARTAMENTOS DE JAVÉ

O capítulo 23 do Segundo Livro dos Reis expõe algumas medidas tomadas pelo rei Josias com o intuito de promover uma reforma religiosa em Jerusalém. Em algumas versões – como a Almeida 1819 – o verso 7 diz que o rei mandou derrubar “as casas dos rapazes escandalosos que estavam na casa de Jehovah”. O leitor coça a cabeça e fica imaginando que tipo de rapazes seriam estes. Bem, de acordo com outros tradutores, a ação de Josias não foi dirigida à casa dos rapazes escandalosos, mas “aos apartamentos das prostitutas”. Eita! Mas será que as moças já tinham apartamentos naquela época? E foram erguidos "na casa de Jehovah"?😃


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 5 de maio de 2022

OS "SEIOS" NA BÍBLIA

1. Um dos meus passatempos prediletos é observar como as palavras hebraicas se comportam no texto bíblico. Hoje investiguei a palavra “hyq” (חיק), cujo significado primário é “peito”. Ela também pode ser traduzida por “colo”, sempre que tem o sentido de acolhimento e afeto. Em alguns casos expressa o sentido de “lugar oculto”. Vejamos:

2. A primeira vez que esta palavra aparece é em Gn 16,5, pronunciada pela boca de Sarai, que diz a Abraão: “coloquei minha serva no teu colo...”. No texto Sarai revela-se triste porque ao colocar sua serva Agar “no colo dele”, a moça engravidou. “Colo” aqui é eufemismo, claro.

3. Bem, a palavra “Hyq” como espaço do afeto reaparece no Deuteronômio. Ser a “mulher do peito” de um homem ou o “homem do peito” de uma mulher equivalia a dizer que ambos mantinham uma relação amorosa como fica claro em Dt 13,6 e Dt 28,54. Alguns tradutores fazem adequação e trocam o “do peito” por “do coração”.

4. Mas nem sempre “hyq” como lugar do afeto tem sentido sexual. Quando Rute teve um filho, Noemi o tomou “no peito dela” (ou colo) e passou a cuidar dele. Mas a coisa muda de figura em 1Rs 1,2. Davi, já idoso, recebe uma donzela chamada Abisag com a finalidade de que “durma no peito dele” e o aqueça ("aqueça" também é eufemismo).

5. Em Jó 19,27 “hyq” ganha um sentido diferente, servindo para indicar a parte interna do corpo: “consomem-se meus rins no meu peito”. “Hyq”, neste caso, indica um lugar secreto, escondido, oculto, como em Pv 17,23: “O perverso aceita o suborno no peito”, ou seja, secretamente. Também em nosso idioma usamos “seio” com este sentido, quando dizemos, por exemplo, que algo foi colocado “no seio” da terra.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 29 de abril de 2022

CÂNTICO DOS CÂNTICOS: ENTRE BEIJOS E SEIOS

1. O texto hebraico do Antigo Testamento não continha vogais, apenas consoantes. As vogais só foram inseridas no texto no século VII d.C. com a finalidade de ajudar na leitura. Essa característica permitiu que o texto fosse entendido de formas diferentes pelos leitores/tradutores. Um exemplo:
teus amores são melhores do que o vinho (Ct 1,2).
2. Acontece que “teus amores” (דדיך) em hebraico é graficamente igual a “teus seios” (דדיך, cf. Ez 23,21). Assim, o tradutor fica em dúvida se deve traduzir a parte b do v. 2 por “teus amores [dele] são melhores do que o vinho” ou “teus seios [dele] são melhores do que o vinho”.

3. De modo geral nossas Bíblias optam por “teus amores” (seguem o texto vocalizado do século VII d.C.). Mas os judeus responsáveis pela tradução do texto hebraico para o grego (Septuaginta) entenderam que a tradução correta é “teus seios” (μαστοι, "mastoi").

4. Eleazar de Worms, um rabino da era medieval, interpretou a palavra hebraica como "seios" e saiu-se com essa: "os 'seios' referem-se a Moisés e Arão que amamentaram o povo de Israel com a Torá". Sei...

5. Quer saber a minha opinião? O escritor fazia isso de propósito. O Cântico dos Cânticos adora duplos sentidos...




Jones F. Mendonça

segunda-feira, 25 de abril de 2022

"MACUMBA" E COMUNISMO

Leio jornais da década de 40 em busca de comentários depreciativos dirigidos às religiões de matriz africana. Em 6 de abril de 1941 um colunista do Jornal do Brasil publicou texto anunciando a prisão de um “macumbeiro” que supostamente estava fundando uma seita “espírito-nudista”. No final do texto o colunista faz uma denúncia curiosa: “os agentes de Moscou encontram nos centros do baixo espiritismo a possibilidade de difundir suas ideias, atribuindo a inspiração às ‘almas do outro mundo’”. E conclui: “nos ‘terreiros’ começa a dominar Stalin”. O título da matéria: “Macumba e Comunismo”😃



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 18 de abril de 2022

LUTERO E AS ÁGUAS NA ESTRUTURA COSMOGÔNICA DOS HEBREUS

1. Neste vídeo, publicado no canal “A Tenta do Necromante”, o professor Osvaldo Luiz Ribeiro fala sobre a semelhança entre as palavras hebraicas “mayim” (água/águas) e “shamaiym” (céu/céus). Ambas têm terminação plural dual, usada para indicar elementos que aparecem em pares, como mãos e orelhas. Mas por que "céus" e "águas" teriam terminação dual?

2. Na percepção do professor Osvaldo, a semelhança entre as palavras e seu caráter dual tem relação com o imaginário dos hebreus quanto à estrutura cosmogônica: as “águas de baixo” (mayim) e as “águas de cima” (shamayim). Os céus, nesse sentido, seriam percebidos como águas superiores. 

3. O professor Osvaldo chegou a essa conclusão por intuição, por seu contato com o hebraico e pela compreensão que tem em relação ao modo como os hebreus enxergavam o mundo. E eu acho que ele está certíssimo. Ele não diz no vídeo (e eu não sei se sabe disso), mas Lutero tinha uma opinião muito parecida, certamente pela influência de gramáticos/exegetas judeus medievais:
Os hebreus derivam muito apropriadamente o termo shamaim, o nome dos céus, da palavra maim, que significa “águas”. Pois a letra shin muitas vezes é empregada em palavras compostas para designar a relação [de uma coisa com a outra], de modo que shamaim é algo aquoso ou que provém da água. Isso também se evidencia pela sua cor; e a experiência ensina que o ar é úmido por natureza (Lutero, Preleções ao Gn 1,6).
4. Lutero diz muita bobagem em suas Preleções ao Gênesis. Mas aqui ele acerta. Caso queira ler algumas de suas bobagens, veja aqui, aqui e aqui.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 15 de abril de 2022

A PÁSCOA EM CINCO PONTOS

1. Há ao menos três hipóteses para a origem da palavra “Páscoa” (do hebraico “pessah”). A primeira sugere que deriva do verbo hebraico “passah” (פסח), que significa “saltar”. Isso porque Ex 12,13 diz que o Senhor “saltará” as portas sinalizadas com o sangue do cordeiro. Esta é a hipótese tradicional.

2. Mas há quem pense que o ritual de marcação dos umbrais das portas tenha uma origem mais antiga e que a palavra “pessah” deriva do acádio pašâhu (acalmar, apaziguar). O ritual (apotropaico), praticado por pastores nômades, visava apaziguar a ira do “Destruidor” (Ex 12,13).

3. Há ainda quem defenda que o termo “pessah” seja a transcrição de uma palavra egípcia que significa “golpe”, uma referência a décima praga: em Ex 11,1 é dito que o Senhor desferirá “ainda mais um golpe sobre Faraó”.

4. Coincidentemente o hebraico “pessah” se conecta foneticamente ao grego “pascho” (πασχω) que significa "sofrer" (cf. 1Pe 2,21), por isso os primeiros cristãos passaram a usar o termo “Páscoa” para se referir à sexta-feira da Paixão, e não ao domingo da ressurreição.

5. Fica a dica: religião é também ressignificação.


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 8 de abril de 2022

AMÓS E OS "DIREITOS HUMANOS"

1. O livro do profeta Amós, atribuído a um sujeito que não era “nem profeta, nem filho de profeta”, expõe logo no início do livro que leva seu nome uma série de oráculos condenatórios contra oito nações vizinhas: Damasco, Gaza, Tiro, Amon, Moab, Edom, Judá e Israel. Com o perdão do anacronismo, poderíamos dizer que boa parte das denúncias presentes nos capítulos 1 e 2 aparecem relacionadas a “violações dos direitos humanos”.

2. Os arameus de Damasco são criticados por “devastarem a terra”; os filisteus de Gaza por “deportarem populações”; os fenícios de Tiro e o povo de Edom por “violarem pactos” entre irmãos. Os amonitas são duramente censurados por terem ferido grávidas com a morte; os moabitas por profanarem cadáveres e o povo de Judá por desprezar os preceitos divinos. Amós – como Jeremias – não poupa nem o seu próprio povo (ele era natural de Tecoa, ao sul de Jerusalém).

3. A última nação a ser condenada é o reino de Israel, ou “Israel do Norte”, também referenciada como “casa de Jacó” ou “casa de Isaac”. São onze versos destinados a esta nação. Muito mais do que a média. Trata-se de um crime terrível. Suas críticas são formuladas poeticamente com muita maestria, força e clareza:

        "Eles vendem o justo por prata
        e o indigente por um par de sandálias".

        "Esmagam sobre o pó da terra a cabeça dos fracos
        e tornam torto o caminho dos pobres".

4. Agostinho, no século V, teve a infelicidade de classificar esses livros mais curtos como "profetas menores". Muita gente – ainda mais infeliz! – imagina que são "menores" porque são menos importantes. Mas é um livro arretado. Atual. Forte. Sempre Necessário.



Jones F. Mendonça

AMÓS NO MAPA

O vídeo exibe a localização das nações que são objeto de oito oráculos do profeta Amós, presentes nos capítulos 1 e 2 do livro. Ao final também são mostradas as localizações de três cidades mencionadas no livro: 1) Técua (20 Km ao sul de Jerusalém e local de nascimento do profeta), 2) Betel (local onde ficava o santuário do rei Jeroboão II e era controlado pelo sacerdote Amazias), e 3) Basã, referência a uma região localizada na Transjordânia, conhecida por suas pastagens e seu gado bem alimentado (cf. Dt 33,14).



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 6 de abril de 2022

O ARTEFATO DO MONTE EBAL [ATUALIZAÇÕES]

1. Em 2019, peneirando resíduos de entulho de uma escavação feita na década de 80 no Monte Ebal (território sob controle civil palestino e militar israelense, na Cisjordânia), um grupo de arqueólogos diz ter descoberto um pequeno artefato de chumbo dobrado, com inscrições visíveis pelo lado de fora, medindo 4cm2. O objeto foi enviado à Academia de Ciências da República Tcheca e submetido a uma tomografia computadorizada. O objetivo: verificar o que havia em seu interior.

2. Em uma coletiva de imprensa realizada em 24 de março de 2022 foi anunciado que a equipe conseguiu visualizar 40 consoantes do alfabeto proto-cananeu formando uma inscrição contendo a palavra YHW, nome da divindade adorada no Antigo Israel. O artefato foi datado para o século XIII/XIV a.C. Até o momento o modo como a suposta descoberta foi anunciada têm sido criticado por duas figuras de peso: Israel Finkelstein (arqueólogo) e Christopher Rollston (epigrafista).

3. De acordo com o Haaretz, alguns membros da equipe de arqueólogos estão dizendo que este é o mais antigo registro de uma inscrição em hebraico. Para o prof. Gershon Galil, um dos responsáveis pela divulgação da descoberta, “Esta inscrição não será menos importante que Merneptah [a Estela de Merneptah no Egito, também datada do século XIII a.C., onde o nome Israel aparece pela primeira vez], se não mais” (tudo isso parece bastante exagerado...). As declarações do Dr Scott Stripling, diretor das escavações, são ainda mais problemáticas. 

4. O anúncio da descoberta extrapolou os limites da discussão acadêmica. Há suspeitas de violação do direito internacional e de leis locais, uma vez que o objeto foi encontrado em território palestino por um grupo privado e enviado para outro país para ser analisado. Ainda de acordo com o Haaretz, por trás do projeto há um grupo de cristãos interessados em validar interpretações fundamentalistas de profecias messiânicas.

5. Acabo de ler, no Paleojudaica, que também foi divulgada a descoberta de uma haste de ferro supostamente utilizada como instrumento para riscar o objeto de chumbo. A imagem da haste não foi exibida ao público, nem como foram capazes de associar a haste com o objeto de chumbo, uma vez que ambos foram encontrados em resíduos de escavações feitas na década de 80. Está tudo muito estranho.😳


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 30 de março de 2022

CHRISTOPHER ROLLSTON E O ARTEFATO DO MONTE EBAL


Depois de
Israel Finkelstein, agora foi a vez do epigrafista Christopher Rollston se manifestar em relação à inscrição encontrada no Monte Ebal em 2019 e finalmente "decifrada" em 2022. Já posso adiantar que em sua opinião o que foi anunciado na coletiva de imprensa não passa de sensacionalismo. Ele lamenta que imagens de boa qualidade do artefato não tenham sido disponibilizadas, questiona a datação proposta (séc. XIV) e até se a inscrição contém mesmo as consoantes (incompletas) do nome divino, YHW.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 29 de março de 2022

ISRAEL FINKELSTEIN E O ARTEFATO DO MONTE EBAL

O arqueólogo israelense Israel Finkelstein publicou em sua página pessoal do Facebook algumas observações acerca da descoberta de um artefato encontrado no Monte Ebal em 2019 contendo uma inscrição que supostamente menciona o nome YHWH. Suas considerações, expostas em sete pontos, podem ser lidas aqui.


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 25 de março de 2022

DECIFRADA(?) INSCRIÇÃO ENCONTRADA NO MONTE EBAL

1. O tetragrama YHWH (יהוה), nome da divindade adorada entre os antigos israelitas, é conhecido desde o século XIV a.C., presente em listas preservadas em templos egípcios, que mencionam “a terra dos shasu de YHW”. A “terra dos shasu”, no entanto, não se refere ao território ocupado pelos israelitas, mas a Seir, região edomita do Arabá. O monte Seir também aparece relacionado a YHWH em textos bíblicos como Dt 33,2 e Jz 5,4.

2. Outro testemunho extra-bíblico do nome YHWH é a estela moabita, datada para o século IX. O documento apresenta o confronto entre YHWH de Israel e Quemós, divindade moabita. As inscrições de Kuntillet 'Ajrud, do século VIII, atestam o culto a um “Yhwh de Samaria” (norte), e também a um “Yhwh de Teman” (sul). Um quarto registro importante é o amuleto de Ketef-hinnon (séc. VI), artefato de natureza apotropaica que pede a proteção de YHWH.

3. Arqueólogos supõem ter decifrado uma inscrição encontrada no Monte Ebal em 2019, desta vez um artefato de chumbo proto-canaanita contendo uma maldição datada para o século XIV/XIII. Um trecho do artefato diz o seguinte: “Amaldiçoado, amaldiçoado, amaldiçoado, amaldiçoado pelo Deus YHW”. De modo geral a interpretação dessas inscrições é questionada por outros epigrafistas, por isso o melhor é esperar. Pessoalmente gosto de ouvir a opinião de Christopher Rollston, que ainda não se manifestou.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

A TENDA DO NECROMANTE: LEITURA HISTÓRICO-SOCIAL DA BÍBLIA HEBRAICA



O professor Osvaldo Luiz Ribeiro criou no início deste ano um canal no YouTube voltado para o estudo da Bíblia Hebraica: a Tenda do Necromante. O Numinosum acompanhava as publicações do prof. Osvaldo em Peroratio, mas infelizmente elas foram se tornando cada vez mais raras a partir de 2020. O prof. Osvaldo é doutor em teologia pela PUC-Rio e pós-doutorado em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Atualmente atua como Coordenador do Programa de Mestrado Profissional em Ciências das Religiões da Faculdade Unida de Vitória, instituição na qual eu estudo como mestrando, tendo o prof. Osvaldo como orientador. Eis a descrição do Canal:
Criado em 01/02/2022, o canal A TENDA DO NECROMANTE é um lugar para a leitura histórico-social da Bíblia Hebraica e, eventualmente, da Bíblia como um todo. O único interesse do canal é entender o que os autores dos textos que compõem a Bíblia (particularmente a Bíblia Hebraica ou “Antigo Testamento”) quiseram dizer. Sim, todos os autores da Bíblia estão mortos. Se eu quero entender o que os mortos disseram quando estavam vivos, então é como se eu quisesse ouvir os mortos. Por isso “A tenda do necromante”. É como se eu, exegeta, fosse um necromante secularizado – a única forma de fazer os mortos falar é entender o que eles escreveram quando estavam vivos.
Hoje será transmitida uma “Live de inauguração”, às 19 horas. O tema será o seguinte: “Como assim 'Espírito de Deus'"? O vento (ruah) na criação, segundo Provérbios 30,4. Até lá!


Jones F. Mendonça

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

SOBRE AS TRADUÇÕES DA BÍBLIA

1. O conjunto de livros que convencionamos chamar de “Antigo Testamento” – ou para usar um termo politicamente correto, “Primeiro Testamento” – foi escrito no idioma hebraico. Das oito mil palavras que aparecem no texto, cerca de 25% são consideradas como hápax legómena, ou seja, só ocorrem uma única vez, por isso são termos difíceis de traduzir.

2. Algumas dessas hapáx derivam claramente de outras palavras hebraicas, característica que facilita a tradução. Mas a coisa se complica bastante quando o tradutor se depara com um hápax absoluto (ocorrem cerca de 400 vezes), item lexical realmente único, cuja tradução não pode ser feita a partir da relação semântica com outro termo hebraico, de mesma raiz. Qual a saída?

3. Bem, quando isso acontece, o tradutor pode recorrer a traduções do texto hebraico para outros idiomas (como a Septuaginta) ou aos chamados “cognatos”, palavras pertencentes a outro idioma (como o acadiano) que provavelmente deram origem ao hápax. Ocorre que esta solução traz grande grau de incerteza, porque a semelhança entre palavras de idiomas diferentes pode ser mera coincidência (falso cognato). Mas caso este termo esteja presente em um texto poético, há outra saída.

4. Tomemos, por exemplo, o Salmo 21,3:
“Concedeste o desejo do seu coração,
não negaste o aresheth de seus lábios” (aresheth só ocorre aqui)
5. Esse tipo de construção textual – uma marca da poesia hebraica – é conhecido como “paralelismo sinonímico”: a linha de baixo repete a ideia presente na linha de cima com palavras diferentes. Assim, podemos deduzir que o termo hápax “aresheth” possui sentido bem próximo do termo "ta’avah", traduzido por “desejo” na linha superior.

6. Uma tradução possível é:
“Concedeste o desejo do seu coração,
não negaste a súplica de seus lábios” (desejo verbalizado).


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

JAVÉ, O “CAVALEIRO DAS ESTEPES”

1. O livro de Habacuque, capítulo 3, a partir do v. 8, descreve Javé, Deus de Israel, como “Cavaleiro das estepes”, como guerreiro montado em um cavalo que cavalga para salvar seu povo e seu ungido (o rei). Avançando pelo deserto e lançando "flechas luminosas", Javé é precedido por uma tempestade que “cava o solo”, “desnudando a casa do ímpio até a rocha”.

2. No Salmo 68 essa imagem reaparece. Ele avança, com seus carros de guerra, capturando cativos, derramando “chuva copiosa". No Salmo 18 ele usa como montaria um querubim, tendo sob seus pés uma “nuvem escura” e à sua frente um clarão inflamando “granizo e brasas de fogo”. Aqui ele também lança flechas e diante de seu poder o mar é forçado a exibir o seu leito.

3. A imagem de Deus como guerreiro inspirou a letra do Hino de Batalha da República dos Estados Unidos, escrita por Julia Ward Howe, em 1861. O Hino tem sido usado para apoiar quase todas as posições políticas, desde o nacionalismo branco ao Movimento dos Direitos Civis. Fazem com o hino o que vem fazendo com a Bíblia há cerca de dois mil anos: usam a imagem do Deus Guerreiro para dar legitimidade às suas próprias ambições.

4. Já está mais do que na hora desse abuso acabar.


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

CÂNTICO DOS CÂNTICOS: ENTRE PERNAS E BEIJOS

1. Depois de expor uma série de elogios ao corpo de seu amado – cabeça, olhos, cabelos, faces, lábios, braços, ventre e pernas – a amada do livro bíblico de Cântico dos Cânticos faz uma última declaração àquele que desperta nela as mais intensas paixões: “seu HEKH (חך) é doce e ele é todo desejo” (5,16).

2. Mas qual o significado de “HEKH”? Dois exemplos: “colou-se, de sede, a língua do lactente ao seu HEKH” (Lm 4,4), ou ainda “o favo de mel é doce ao teu HEKH(Pv 24,13). A palavra indica o local da boca imaginado pelos antigos como responsável pelo paladar. Assim, temos:

“Sua boca (o interior da boca) é doce, e ele (o amado) é todo desejo”.

3. A amada – isso me parece muito claro – está descrevendo o quão doce e ardente é o beijo do seu amado. Algumas versões, como a Almeida Corrigida e Fiel (ACF), traduzem o verso do seguinte modo: “SEU FALAR é muitíssimo SUAVE”. A ACF Trocou “boca” por “falar” e “doce” por “suave”.

4. Sabe-se lá o que vai pela cabeça de alguns tradutores.


Jones F. Mendonça

domingo, 16 de janeiro de 2022

TUA BOCA É COMO ROMÃ PARTIDA



1. O amado, no livro bíblico de Cântico dos Cânticos (4,3), dirige-se assim à sua amada:
Como fio escarlate são teus lábios,
Tua fala [=boca?] é formosa,
Como romã partida é tua raqqah (רקה) através do teu véu.
2. O texto descreve a beleza da amada realçando suas partes avermelhadas: os lábios, a boca como um todo e, depois, a raqqah dividida. Mas qual o significado de raqqah? O termo só reaparece no livro de Juízes (4,21-22; 5,26), utilizado para indicar o local da cabeça de Sísera penetrado por uma estaca manejada por Jael. Os tradutores geralmente optam por “têmpora”.

3. A NTLH entende que se trata do “rosto”, avermelhado como a romã. A NVI traduz por “faces”, sem destacar a semelhança com tom avermelhado da romã. A ARA também traduz o termo por “faces”, mas imagina que a semelhança é com o “brilho” (!?) da romã. Vale dizer que a palavra “brilho” não consta no texto e que existe uma palavra hebraica para “faces” (פנים). A BJ imagina que seja uma referência aos dois “seios”.

4. Posso estar redondamente enganado, é claro, mas se você olhar bem para uma romã aberta vai notar certa semelhança com o interior de uma boca. Caso eu esteja correto, Jael não teria fincado uma estava na “têmpora” de Sísera, mas na abertura da boca. O texto enfatiza que a estaca atravessou a “raqqah” e penetrou “na terra”.

5. No Cântico dos Cânticos somos tentados a pensar que a referência seja ao que chamamos de “maçãs do rosto” (entre os hebreus seriam “romãs do rosto”). Mas neste caso, a estaca de Jael teria sido fincada na “maçã do rosto” de Sísera, algo que não faz muito sentido.

6. E você, o que acha?




Jones F. Mendonça

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

NAZIREUS, CABELO E VINHO

1. O livro bíblico de Números, em seu capítulo 6, descreve uma antiga prática religiosa de “santificação da cabeça” (Nm 6,11), ritual com caráter votivo, chamado de nazireato. O candidato, que podia ser homem ou mulher (6,2), obrigava-se a se abster do produto da videira, do contato com cadáveres e do corte do cabelo (6,3-6).

2. Após o fim do período do voto, cuja duração podia variar, o(a) candidato(a) rapava totalmente a cabeça e seus cabelos eram queimados, juntamente com a oferta de um animal (6,18). Dois homens na Bíblia são apresentados fazendo voto de nazireu: Sansão (Jz 13,5.7; 16,17) e Paulo (At 18,18; 21,23).

3. Sansão, no entanto, parece não ter seguido à risca seu voto, afinal como evitar tocar em corpos sem vida em uma batalha sangrenta (Jz 14,19 e 15,15-16)? Além do mais, o banquete, oferecido em 14,10 dificilmente não incluiria bebida. O texto de Atos não diz com clareza que Paulo vez voto de narizeu, isso fica apenas sugerido.

4. A abstenção do vinho parece ser um costume bem antigo, cultivado por grupos seminômades como os recabitas (Jr 35,6), que também mantinham a tradição de viver em tendas (v. 7). Uma crítica velada aos cultivadores de vinha – e, portanto, ao vinho – aparece em Gn 9,20-21.

5. Embora a Bíblia não mencione qualquer mulher fazendo o voto do nazireato, a rainha Helena de Adiabene é uma das mais famosas naziritas. O Talmud (Nazir 19b) relata que seu voto aparece relacionado a seu filho. Ela teria prometido que se tornaria uma nazirita por sete anos caso ele voltasse em segurança da guerra.

6. O local onde foi sepultado o corpo de Helena, localizado a 820 m ao norte da antiga muralha da cidade de Jerusalém, é considerado como o maior e mais belo dos túmulos da cidade. Ainda não está clara para mim a origem de dois costumes: a abstenção de vinho (forte entre os conservadores recabitas) e do corte do cabelo.


Jones F. Mendonça

 

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

SHALAM É “TER A DÍVIDA PAGA”

1. O verbo hebraico “shalam” (שלם), cuja raiz é a mesma do substantivo “shalom” (שלום), não significa exatamente “fazer as pazes” (cf. Js 10,1 e 2Sm 10,19), mas “estar pago” ou “estar quitado”. Dois exemplos. Em Pv 7,14 lemos assim: “PAGUEI hoje os meus votos”. Quando o verbo está na voz passiva, indica “foi pago”. Exemplo: “se o justo receber a sua paga aqui na terra, quanto mais o ímpio e o pecador”.

2. Talvez você esteja se perguntando: “qual a relação entre o verbo ‘PAGAR’ e o substantivo ‘PAZ’”? Bem, acho que este exemplo tomado de Pv 25,22 vai ajudar. Ele fala da recompensa, da paga garantida aos justos: “assim amontoas brasas sobre sua cabeça, o Senhor te PAGARÁ”. O sentido de “o Senhor te pagará”, significa “o Senhor te retribuirá” pelas boas obras realizadas (cf. v. 21).

3. Assim, uma pessoa considerada “paga”, “quitada” (com Deus ou com um inimigo) é uma pessoa “plena”, “recompensada” ou “em estado de shalom”. Mas o verbo também pode desempenhar sentido negativo, como em Pv 20,22: “Não digas: PAGAREI [eu mesmo] o mal; espera no Senhor e ele te salvará”. O substantivo “shalom”, de modo diferente, sempre indica um estado de retribuição plena positiva.

4. Este é o caso, por exemplo, de Abraão em Gn 15,15: “Quanto a ti, em estado de retribuição plena irás para os teus pais, serás sepultado numa velhice feliz”. Shalom não tem o sentido de “paz” como ausência de guerra ou de conflitos, mas de “plenitude de vida”. No AT, como não havia ainda a ideia de uma vida plena no além (com exceção de Dn 12,2), o que se esperava era uma vida de plenitude na terra.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

PROVÉRBIO PARA GULOSOS

Pv 23,2 é um bom exemplo para explicar a diferença entre dois métodos de tradução da Bíblia: 1) equivalência formal; 2) equivalência dinâmica. O texto traduzido de forma literal fica assim:

“Põe a faca na tua goela se senhor da garganta és tu”. A expressão “senhor da garganta” (בַּעַל נֶפֶשׁ) só ocorre aqui, tornando difícil sua tradução. É bem provável que tenha sido usada para classificar uma pessoa gulosa.

A Bíblia Almeida Corrigida e Atualizada (ARA), versão que opta por uma tradução bem formal, traduziu desse jeito: “põe uma faca à tua garganta, se fores homem de grande apetite”.

A Bíblia na versão Nota Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH), cujo método de tradução é a equivalência dinâmica, tenta capturar o sentido do texto de forma simplificada. Veja: “Se você é guloso, controle-se”☺



Jones F. Mendonça

sábado, 1 de janeiro de 2022

ECLESIASTES E O “FIO DE PRATA”

O livro do Eclesiastes, no seu capítulo 12 (vv. 1-8), exorta o leitor a fazer bom uso de sua juventude, antes que “venham os dias da desgraça” (v. 1), antes que “se escureçam o sol, a lua e as estrelas” (v. 2), antes que “as canções emudeçam” (v. 4), antes que “pereça o apetite/querer” (v.5). É um texto triste e ao mesmo tempo inspirador. Quatro versos desafiam o tradutor/intérprete (12,6):
“Antes que o fio de prata se ROMPA
e o copo de ouro se PARTA,
antes que o jarro se QUEBRE na fonte
e a roldana se DESFAÇA no poço”.
O texto apela para que o leitor acorde para a vida, “antes que...”. Os dois primeiros versos falam de objetos preciosos: O “fio de prata” (um cordão?) e um “copo de ouro” que se rompem/se partem. Os dois últimos versos falam de objetos utilizados para apanhar água na fonte/no poço: um “jarro” e uma “roda/roldana”, que se quebram/se desfazem.

Há quem associe o “fio de prata” à medula (!) e outros a um suposto “fio prateado” visto por pessoas em seus últimos minutos de vida. É verdade que no texto, desde o início, predominam alusões a partes do corpo perdendo sua força, sua vitalidade, seu vigor, sua utilidade (visão, audição, apetite, força muscular, etc.). Mas no v. 6 a imagem evocada parece ser outra, não mais elementos do corpo, mas do cotidiano: 1) o cordão de prata que se rompe pelo uso; 2) a taça de ouro que racha pelo desgaste, 3) o jarro de barro que se quebra, 4) a roda/roldana do poço que se desfaz. 



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

NEGACIONISMOS

Em maio de 2020, quando a pandemia começava a empurrar para a cova grande número de vítimas, a “Coalizão pelo Evangelho” (TGC Brasil) divulgou um manifesto destacando: 1) Os negativos e “inevitáveis efeitos colaterais sociais” do isolamento social; 2) O papel da mídia, que “claramente não goza da credibilidade que outrora desfrutava” e, finalmente, 3) O “endeusamento da ciência”. Deveria ter criticado, ao contrário: 1) Os efeitos perigosos das aglomerações; 2) A desinformação que se reproduzia como piolho nas mídias não oficiais; 3) O negacionismo da ciência. Essa galera do “Soli Deo gloria”, como sempre, coando mosquitos e engolindo camelos.


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

O CÉU DE AGOSTINHO

1. Em “A cidade de Deus”[1], obra do início do V século escrita por Agostinho de Hipona, uma série de razões são apresentadas para defender a reprodução como principal finalidade da relação matrimonial. O catolicismo preserva esse costume até hoje, por isso proíbe métodos contraceptivos.

2. Um dos argumentos de Agostinho baseia-se no conceito jurídico romano do liberum quaesendum causa, ou seja, no costume romano, oriundo da Lei das Doze Tábuas, segundo o qual a principal função da relação matrimonial é contrair filhos.

3. Além do direito romano, o teólogo africano também busca caracterizar as paixões sexuais como algo degradante e vergonhoso. Assim, ele apresenta dois argumentos em forma de pergunta.

4. O primeiro: Embora a geração de filhos seja algo lícito e honesto, o casal não busca um quarto afastado para concretizá-lo? O segundo: As carícias sexuais não são feitas longe dos paraninfos e familiares?

5. Em sua conclusão Agostinho cita Cícero, famoso orador romano: “todos os atos legítimos pretendem realizar-se em plena luz”. Ele acrescenta que seria muito bom se pudéssemos gerar filhos sem a libido, sem “as emoções inoportunas”.

6. Na cabeça de Agostinho a relação sexual ideal seria aquela realizada sem as paixões, de forma que os “órgãos criados para essa função” se submetessem ao espírito, como os demais membros do corpo, como os pés, as mãos e os dedos.

7. Chato esse mundo de Agostinho, não?

[1] Livro 2, XVI ao XVIII (veja também o XXIV).
* Agostinho geralmente é classificado como neoplatônico, mas no campo da moral boa parte da sua influência é estoica.


Jones F. Mendonça

sábado, 25 de dezembro de 2021

LUTERO E A TEOLOGIA LIBERAL (PARTE II)

1. O termo “teologia liberal” tem aparecido com certa frequência associado ao discurso cristão progressista de forma bastante equivocada. A teologia liberal clássica é um fenômeno de natureza bem distinta. Nascida no ambiente acadêmico alemão do século XIX, suas principais características podem ser resumidas em cinco pontos (aqui sigo Grenz e Olson). Alguns deles têm os pés fincados na Reforma. Vejamos.

2. A primeira característica – influência do iluminismo – é a tentativa de reconstruir a fé à luz do conhecimento moderno, por isso o liberalismo teológico também tem sido chamado de “modernismo teológico”. A segunda, herança dos reformadores (e do humanismo), é o espírito crítico e certa a rejeição à autoridade da tradição. Estavam decididos, como Lutero, a romper com as crenças tradicionais quando isso parecia correto e necessário.

3. A terceira é a ênfase na dimensão prática do cristianismo em detrimento das especulações teológicas a respeito da natureza de Deus. Em quarto lugar aparece uma tendência que também foi buscada por Lutero: o cânon dentro do cânon. Mas se para Lutero a essência das Escrituras é o Cristo Divino-Salvador (como enfatizado por Paulo), para os liberais é o Cristo ético, completamente despido de sua dimensão sobrenatural.

4. A última característica da teologia liberal é o deslocamento da transcendência para a imanência, outra influência marcante do iluminismo. A “filosofia moral” de Kant, a “filosofia intelectual” de Hegel e a “filosofia intuitiva” de Schleiermacher formaram o tripé, no século XIX, sobre o qual a teologia liberal nasceu. No início do século XX, teólogos como Barth, Brunner e Bultmann propuseram, cada qual a seu modo, um retorno à transcendência.


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

LUTERO E A TEOLOGIA LIBERAL

1. No final da Idade Média, a última moda entre teólogos escolásticos como Tomás de Aquino era a busca pela exposição das verdades divinas nos termos da filosofia de Aristóteles. Lutero achava tudo isso pura perda de tempo. Em sua tese 49 “Contra os Escolásticos”, divulgada em setembro de 1517, o reformador declarou: “Se uma fórmula silogística subsistisse em questões divinas, o artigo sobre a Trindade seria conhecido, em vez de ser crido”. Lutero tinha um discurso um tanto quanto fideísta, como o de Tertuliano.

2. Bem, não demorou muito e os teólogos protestantes ressuscitaram o gosto medieval pela filosofia aristotélica. Entre os séculos XVI e XVII nasceu a chamada “escolástica protestante”, cujos principais expoentes foram Johann Gerhard, David Hollaz e Johannes Quenstedt. A linguagem sofisticada era usada e abusada pelos teólogos para falar sobre o nascimento de Cristo: Maria seria a “causa materialis”, o Espírito Santo, a “causa efficiens” e blá, blá, blá. É bem provável que Lutero ficasse horrorizado.

3. No século XIX os chamados “teólogos liberais” reduziram o cristianismo aos limites da razão. Não se contentaram em demonstrar que as verdades reveladas são compatíveis com a razão, como gostavam os escolásticos (e os neocalvinistas). Queriam submeter a Revelação à razão. Os teólogos liberais também levaram às últimas consequências o livre exame luterano e reivindicavam total autonomia para interpretar as Escrituras. Queriam pensar teologicamente sem as amarras dogmáticas.

4. Não há, no século XXI, qualquer movimento de matriz protestante com legitimidade para reivindicar o papel de verdadeiro herdeiro da reforma. Hoje Lutero seria excomungado por propor uma mudança no cânon, algo que seria enxergado como “atualização das Escrituras”. Para quem não sabe, o reformador atribuiu aos livros de 2 Pedro, 1 e 2 João, Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse um valor menor de inspiração. Tiago foi chamado de “epístola de palha” e Judas de “epístola desnecessária”.

5. O reformador, como qualquer um, fazia leitura seletiva das Escrituras. Seu critério era o seguinte: “Tudo aquilo que Cristo não prega não é apostólico, mesmo que seja escrito por São Pedro ou São Paulo... Tudo aquilo que Cristo prega seria apostólico mesmo que procedesse de Judas, Pilatos ou Herodes”[1]. Lutero tinha muitos defeitos, mas não era dissimulado. Assumia o que fazia. Hoje seria excomungado pela Santíssima Ordem dos Pastores. A acusação: negar a doutrina da inspiração das Escrituras.

[1] WA, 7, 386 (Prefácio a Tiago e Judas, 1546).


Jones F. Mendonça

 

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

ORTODOXIAS

Em julho de 1952 o periódico presbiteriano “O Puritano” expôs uma orientação aos fiéis a respeito a seguinte questão: “pode o crente ser jogador de futebol?”. Após explicar que a prática desportiva é útil para o corpo, faz uma ressalva: “cremos, todavia, que a prática do futebol como profissão, como emprego ou meio de vida, especialmente no Brasil, não serve para o crente, já por obrigá-lo, ao crente, a quebra do dia do Senhor (o Domingo)”. A atual Declaração Doutrinária dos Batistas segue na mesma linha: “Nesse dia [o Domingo] os cristãos devem abster-se de todo trabalho secular, excetuando aquele que seja imprescindível e indispensável à vida da comunidade. Devem também abster-se de recreações que desviem a atenção das atividades espirituais”.

A ortodoxia simula passos firmes, mas tem sapatos de manteiga.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

DE ANIMA

1. Em nosso idioma, quando desejamos expressar tristeza, podemos empregar termos visuais como “prostrado” (alusão ao corpo encurvado), ou mais abstratos, como “desanimado” (com o ânimo, com o vigor enfraquecido). O hebraico tem grande predileção por termos visuais. Bons exemplos são encontrados nos textos poéticos.

2. No Salmo 42,5, por exemplo, lemos assim: “por que está INCLINADA (שחח) minha GARGANTA (נפש)?”, ou seja, “por que está ABATIDO meu VIGOR/minha VIDA?”. A garganta aparece associada ao vigor, à vida, porque é por ela que passa o alimento, o ar que respiramos, o grito de dor, o brado de alegria.

3. Até mesmo no grego a relação entre “vida” e “fôlego” (associado à garganta) está presente. O termo “psychḗ” (ψυχη) significa “respiração”, “fôlego”. Por desdobramento: “vida”, “alma” (aquilo que dá ânimo ao corpo). Em Lc 12,22 lemos: “não andeis ansiosos pela vossa psychḗ”, ou seja, pela vossa “vida”.

4. A ideia de que a “psychḗ” é algo que subsiste sem o corpo aparece em Mt 10,28: “Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a psychḗ” (ou seja, que não podem dar um fim definitivo à existência e impedir ressurreição do corpo). Ocorre que na maioria das vezes, psychḗ significa simplesmente “vida”. Infelizmente a maioria dos tradutores opta por traduzir o termo por “alma” de forma indiscriminada.

5. A ênfase na percepção da existência humana na terra como sendo caracterizada por uma alma imortal aprisionada a um corpo mortal tem trazido grandes consequências. A tradição cristã medieval insistiu nessa ideia, que foi repetida pelos reformadores (como Calvino), deixando grandes reflexos na relação negativa do cristianismo com a sexualidade e com o prazer.

 

Jones F. Mendonça

sábado, 18 de dezembro de 2021

A LEITURA SICRÔNICA/CANÔNICA DE ROBERT ALTER E BREVARD CHILDS


1. A partir do século XIX, com o surgimento da chamada “hipótese documental”, o livro do Gênesis passou a ser estudado de uma forma completamente diferente. Ao invés de atribuído a um único autor, o livro tal como se encontra hoje passou a ser visto como o resultado da junção de três fontes-documentos: Javista, eloísta e sacerdotal. O entrelaçamento desses documentos teria ocorrido ao longo de alguns séculos, acompanhado de intervenções redacionais.

2. Duas reações extremadas a esse tipo de abordagem têm ganhado espaço nas últimas décadas: a abordagem fundamentalista tradicional e a abordagem sincrônica-radical. A primeira reafirma a autoria única do livro e insiste em classificar os adeptos da hipótese documental como “teólogos liberais”, hereges, etc.; a segunda aceita que o Gênesis tem origem compósita, mas gosta de enfatizar a inutilidade da hipótese documental, da crítica das formas e de outras ferramentas do método histórico-crítico.

3. Um nome de peso que por vezes é inserido neste segundo grupo é o hebraísta estadunidense Robert Alter. Em “Genesis, translation and commentary”, Alter expressa sua convicção de que o primeiro livro da Bíblia, mesmo não sendo obra de um único autor, “possui uma coerência poderosa como obra literária e que essa coerência é, acima de tudo, o que precisamos abordar como leitores”.

4. Alter acrescenta – em minha opinião com grande exagero – que “alguns dos comentaristas judeus medievais costumavam ser mais úteis do que quase todos os modernos”. Ele diz isso porque os medievais faziam, como ele, leitura sincrônica, ou seja, interpretavam o texto considerando sua forma final, acabada, canônica.

5. Outro exegeta que faz esse tipo de leitura é Brevard Childs. Em “The Book of Exodus”, Childs também valoriza comentaristas clássicos como Calvino, Drusius, Rashi e Ibn Ezra, mas ao invés exaltá-los excessivamente, como Alter, declara que devem ser lidos “em sintonia com Wellhausen e Gunkel”, acadêmicos interessados, respectivamente, nas fontes literárias (crítica das fontes) e na pré-história oral dos textos (crítica das formas).

6. A proposta de Childs aparece indicada no início da introdução do livro: “a intenção deste comentário é tratar de interpretar o livro do Êxodo como escritura canônica dentro da disciplina teológica da Igreja cristã”. Embora assuma que o texto tem origem compósita, Childs insiste – como Alter – que deve ser lido e compreendido a partir de sua forma final. Alter e Childs concordam que o redator final foi capaz de harmonizar múltiplas tradições com bastante eficiência.



Jones F. Mendonça

OS TRÊS FILHOS NATIMORTOS DA REFORMA

Quando um fiel assume que determinada Declaração Doutrinária (batista, presbiteriana, metodista, etc.) é fiel às Escrituras, está, de certa forma, dizendo que ela também é inspirada e inerrante. Mais do que isso: está dizendo que a comissão que elaborou a Declaração é inerrante. Nesse sentido a Declaração Doutrinária desempenha a mesma função do Papa. Mas não é Papa de carne e osso, é Papa de tinta papel. O livre exame, o sacerdócio universal dos crentes e o Sola Scriptura são três filhos natimortos da Reforma.



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

QARATZ: “FORMAR”, “PISCAR” E “MORDER”

1. Um exemplo muito didático de como o tradutor precisa ajustar o sentido de uma palavra tomada do idioma original para que o leitor entenda o que está sendo dito, é o verbo hebraico qaratz (apertar → קרץ). Dou três exemplos. 1) Ser “apertado” do barro converteu-se, em nossas versões, em ser “formado do barro” (Jó 33,6); 2) “apertar os olhos” foi traduzido como “piscar os olhos” (Sl 35,19); 3) “apertar os lábios” como “morder os lábios” (Pv 16,30). Explico.

2. O hebraico é um idioma muito concreto e bem pobre em diversidade de palavras. Assim, o texto hebraico não fala em “ser formado”, mas em “ser apertado” do barro (apertado > moldado > formado). Considerando que carece de uma palavra equivalente ao nosso “piscar” (unir as pálpebras), o hebraico usa “apertar” os olhos. Do mesmo modo acontece com os lábios. Nós preferimos usar a expressão “morder” os lábios, mas entre os hebreus era simplesmente “apertar” os lábios.

3. Trocando em miúdos: um mesmo verbo hebraico, “qaratz” (apertar), é simultaneamente traduzido por “formar”, “piscar” e “morder”. Que coisa não?


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

LAMENTAÇÕES: UM PRÓLOGO, QUATRO EQUÍVOCOS

O livro bíblico de Lamentações em sua versão hebraica começa assim: “Como está solitária a cidade populosa...”. A versão grega do livro (LXX) acrescenta um prólogo, provavelmente inspirado em 2Cr 35,25: “...JEREMIAS sentou-se CHORANDO e lamentando com este lamento sobre Jerusalém”. Esse prólogo apócrifo produziu quatro equívocos:

1) o costume de se atribuir ao profeta Jeremias a autoria do livro; 2) a inclusão do livro entre os “profetas”, algo que não acontece na Bíblia Hebraica; 3) A classificação do livro como profeta “Maior”, com 5 capítulos, sendo na verdade muito menor que profetas “Menores” como Oseias, com 14 capítulos; 4) A injustiça de classificar Jeremias como “profeta chorão”.

Resumindo: 1) Há poucas razões para crer que Lamentações foi escrito por Jeremias; 2) O livro não deveria estar entre os “profetas”, mas entre os “poéticos”; 3) Não pertencendo ao gênero profético e com apenas 5 capítulos, não faz nenhum sentido tê-lo entre os “Profetas Maiores”; 4) Definir Jeremias como “chorão” seria mais ou menos como tratar Isaías como o “profeta peladão”, considerando o que diz Is 20,3: “Ele assim fez, andando nu e descalço”.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

HAGAG: RODOPIOS NAS FESTAS, RODOPIOS NA TORMENTA

O verbo hebraico usado para indicar “celebração” é “hagag” (חגג), cujo sentido primário é “rodopiar”. Veja: “deixa ir o meu povo, para que HAGAG (rodopiem, ou seja, dancem, festejem) para mim no deserto” (Ex 5,1). O sentido mais básico do verbo aparece no Sl 107,27: “HAGAG (rodopiaram) e cambalearam como bêbados...”. Este texto se refere a marinheiros, que em meio a uma tormenta invocam a Javé. Neste caso não é rodopio de dança, de festejo, é rodopio causado pelo movimento das águas. O hebraico é uma língua muito simples, muito concreta, muito visual.


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

SOBRE AS HERESIAS

1. A palavra grega αιρεσις (hairesis), origem de “heresia”, aparece 8 vezes no Novo Testamento. Entre os gregos significava simplesmente “escolha”. Assim, o livro de Atos faz menção à “hairesis” dos saduceus (5,17) e dos fariseus (15,5), ou seja, fala da “escolha” do “partido”, da “opção religiosa” dos saduceus/fariseus.

2. “Hairesis” também foi usada para classificar os cristãos, tratados por Tertúlio – advogado dos judeus que acusavam Paulo – como seguidores da “hairesis dos nazarenos” (At 24,5). O próprio Paulo, dirigindo-se a Félix, reconhece ser seguidor do “Caminho”, chamado de “hairesis” (24,14).

3. A doutrina de Jesus foi considerada “hairesis” em relação ao legalismo farisaico. Boa parte das teses de Lutero foi considerada “hairesis” pela cúria romana. No início do século XX os pentecostais foram tratados como “hairesis” pelo protestantismo histórico. Depois vieram os neopentecostais, também vistos como “hairesis”. A bola da vez são os evangélicos progressistas.

4. Quem dá a devida atenção a essas disputas percebe que em sua base estão questões políticas e não religiosas. No caso do Brasil, o que está em curso é um projeto de poder. Projeto de silenciamento de minorias, de aniquilação da “hairesis”. Não é projeto novo, é projeto requentado cujas origens podem ser buscadas na Roma do século IV.

5. Resumindo bem: é um projeto dos infernos.



Jones F. Mendonça

sábado, 4 de dezembro de 2021

JEREMIAS, O PROFETA DA DOR

1. A palavra hebraica “patah” (פתה) pode expressar diversos sentidos na Bíblia Hebraica. Seu significado mais neutro é “convencer”, como em Pv 25,15: “o teu comprido nariz ( = tua paciência) convence o magistrado”. Em sentido negativo expressa engano: “quem enganará a Abab?” (2Cr 18,19). Quando o convencimento aparece relacionado a alguma transgressão, ganha o sentido de “aliciar”: “o homem violento alicia seu companheiro” (Pv 16,29). O termo também pode ter conotação sexual: “se o homem seduzir uma virgem...” (Ex 22,16).

2. Isso explica a diversidade de traduções para Jr 20,7: “seduziste-me, Senhor”, ou “enganaste-me, Senhor”, ou “persuadiste-me, Senhor”. Aqui Jeremias quer dizer o seguinte: “não quero fazer isso, mas a vontade divina me arrasta como um grilhão”. Ou, como ele mesmo declara no v. 9: “então isto era em meu coração como um fogo devorador, encerrado em meus ossos”. A dor profunda experimentada pelo profeta o leva a dizer: “estou cansado de suportar” (v. 9), “maldito o dia em que eu nasci!” (v. 14) e “porque ele não me matou desde o seio materno?” (v. 17).

3. Quem lê o livro com livro com atenção percebe que é injusta a classificação “profeta chorão” atribuída a Jeremias. Assim como é um equívoco ver Jó como exemplo de homem paciente. Não é paciente nem resignado.

 

Jones F. Mendonça

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

CALVINO E OS “HORRIVELMENTE EVANGÉLICOS”

Calvino, aquele reformador que ajudou a fundar uma espécie de teocracia em Genebra, chama de “decretum horribile” a decisão divina de lançar, sem remédio, à morte eterna, um punhado de gente “por seu decreto” (Institutas, Livro III, XXIII). Talvez tenha saído daí alcunha “terrivelmente evangélico”. Querem nos convencer, como Calvino, que o "horribile" é "boa nova". Mas aquilo que é "horribile" é só horrível mesmo...

As Institutas em latim, aqui.


Jones F. Mendonça

sábado, 27 de novembro de 2021

SOBRE O CRISTIANISMO IDEOLÓGICO

A justificativa apresentada pelo pastor José Wellington, presidente da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, para abandonar sua postura apolítica e mergulhar de cabeça na política partidária foi a seguinte: “quando tivemos agora esta última reforma da nossa Carta Magna, [...] nós descobrimos que havia um pacto da religião maior no Brasil [o catolicismo] para querer se assenhorar do direito de culto religioso no país. [...] Foi quando nós acordamos [...]. E nós temos isso até como Providência Divina. Pode-se dizer que foi Deus quem não deixou” (28/02/92). Foi Deus, sei...

O abuso da religião com fins fins políticos já dura – só no cristianismo – cerca de dois mil anos. A teologia foi instrumentalizada pela ideologia imperial cristã romana, pelas Coroas portuguesa e espanhola no período colonial, por Lutero para legitimar a servidão, por Calvino para justificar a morte aos hereges, por racistas da Ku Klux Klan para por fogo em negros nos EUA, por fanáticos negacionistas no século XXI. Aí me aparece aquele líder religioso do YouTube (como o Malapacas e o NicoSolaFide) dizendo os evangélicos progressistas inventaram o cristianismo ideológico. Só sendo muito tonto...



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

O SALMO ESTOMACAL

1. No Sl 7,5 o salmista pede a proteção de Javé contra seus inimigos e declara, em sua defesa, que sempre buscou viver de forma íntegra e justa. Se isso não é verdade, ele prossegue: que “persiga o inimigo a minha garganta (נפש = néfesh) e alcance e pisoteie na terra meu estômago (חי = hay) e a minha glória no pó se estabeleça para sempre”.

2. Tanto “néfesh” (lit. “garganta”) como “hay” (lit. “estômago”) são traduzidos, na grande maioria das vezes, por “vida”. Este Salmo é um raríssimo exemplo da ocorrência dessas duas palavras com sentido absolutamente concreto. Desconheço versão bíblica que traduza assim (dá uma olhada na sua).

3. Um bom leitor perceberá que “perseguir a GARGANTA e alcançar e pisotear o ESTÔMAGO na terra” é o mesmo que aniquilar a vida. Versões como a NVI traduzem assim: “no chão me pisoteie e aniquile a minha vida”. A NVI capturou a mensagem. Mas que tirou toda a beleza da poesia hebraica, ah, tirou...

 

Jones F. Mendonça

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

A BÍBLIA HEBRAICA E AS PAIXÕES VISCERAIS

Entre os antigos hebreus, as entranhas, as vísceras, os intestinos,  eram percebidos como sede das emoções fortes. Um exemplo: o juízo dirigido a Moab, em Isaías 16,11, parece produzir em Javé uma profunda e paradoxal tristeza: “minhas entranhas (מעה) vibram (המה) por Moab como uma cítara”. Do mesmo modo se sente Jeremias: “minhas entranhas, minhas entranhas... meu coração vibra...” (4,19). Aqui o profeta chora pela destruição de Judá.

Mas nem sempre a imagem das entranhas vibrando/zunindo/gemendo indicam tristeza, dor ou agonia. Em Cantares 5,4, já despida, a amada espera seu amado no quarto. Quando ele chega, com os cabelos cheios de orvalho, deslizando seus dedos úmidos pela abertura (da porta?), as entranhas dela “vibram por ele”. Não vibram de tristeza, vibram de paixão, de fogo, de desejo. Mas o moço desaparece antes que ela lhe abra a porta. Ficou ali, com os dedos gotejando mirra.

 

Jones F. Mendonça

terça-feira, 23 de novembro de 2021

EZEQUIEL 29,18: CARECAS DE OMBROS ESFOLADOS

O profeta Ezequiel, buscando enfatizar os efeitos negativos da guerra na cidade fenícia de Tiro, atacada pelos babilônios, apresenta ao leitor o seguinte quadro: “toda cabeça ficou calva e todo ombro esfolado(29,18). Aparentemente era uma força de expressão usada para realçar o desgaste físico provocado pela guerra (ou sinal de luto dos fenícios, cf. Ez 7,18; Am 8,10; Miq 1,16). Difícil saber com certeza. A NVI tenta dar maiores explicações ao leitor: “toda cabeça FOI ESFREGADA até não ter ficar CABELO NENHUM” (eita!). A NTLH explica a cabeça e o ombro “depilados/esfolados” como resultado do peso extremo carregado pelos soldados: “CARREGARAM TANTO PESO, que os cabelos deles caíram, e os seus ombros ficaram esfolados” (como?!). 

Bem, na dúvida, o melhor é não inventar, né!



Jones F. Mendonça