domingo, 26 de setembro de 2021

DEUS EM TRABALHO DE PARTO

Um caso raro, presente em Is 42,14, descreve Javé como uma mulher ofegante em trabalho de parto (fiz minha própria tradução):
Calei-me por muito tempo,
Fiz silêncio, contive-me;
Como a parturiente gritei ofegante,
e suspirei também.
Quando isolado, o texto parece sugerir passividade. Mas esse silêncio, essa dor e essa agonia contida explodem no verso seguinte:
“Assolarei colinas e montes,
e toda a vossa erva farei secar;
Converterei torrentes em ilhas (*)
e lagos em sequidão".
(*) A imagem que o texto parece evocar é a de um rio que após ter seu volume d'água reduzido exibe partes de seu leito em forma de ilhas. 



Jones F. Mendonça

sábado, 25 de setembro de 2021

AVRAM, AVRAHAM, AV-HAMON


Muita gente repete por aí que o nome “Abraão” (Avraham) significa “pai de muitas nações”. Mas isto não é certo. Na verdade, o texto destaca a semelhança fonética entre o nome Avraham (que significa “pai de raham”) e a expressão “pai de muitos”. Veja:

“Não mais serás chamado Avram (אַבְרָם), mas Avraham (אַבְרָהָם) será o teu nome; pois por av-hamon (אַב־הֲמוֹן = “pai de muitos”) povos te hei posto” (Gn 17,5).

Assim, se alguém perguntasse: “por que o patriarca Avram teve seu nome mudado para Avraham’”? A resposta seria: “porque ele é ‘av-hamon’, ou seja, ‘pai de muitos’”. Sei que isso parece não ter muito sentido para uma mente moderna, mas as etimologias populares faziam muito sucesso entre os hebreus.

  

Jones F. Mendonça

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

SOBRE OS NOMES BÍBLICOS

A origem dos nomes de todos os filhos de Jacó foram explicados tardiamente a partir de etimologias populares. No caso de José duas explicações foram colocadas na boca de Raquel: 1) Ele se chamou José (Yossef) porque “Deus removeu (assaf → אסף) minha vergonha” (Gn 30,23) e 2) Ele se chama José porque deu-me (yassaf → יסף) o Senhor outro filho” (Gn 30,24).

O mesmo acontece com Jacó (Yaakov → יעקב), que tem seu nome associado ao “calcanhar” (‘aqev → עקב) de Esaú e ao fato de tê-lo “enganado” (‘aqav → עקב). Tais histórias (Gn 25,26; 27,36) obviamente não possuem qualquer fundamento histórico. Não receberam esses nomes no momento do nascimento por mera associação a eventos inusitados, mas porque a criatividade popular assim quis.  Muitos desses nomes já existiam em outras regiões. Não foram inventados pelos hebreus. 

 

Jones F. Mendonça

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

O APÓLOGO DE JOATÃO E A HISTÓRIA DE DEBORAH: SOBRE ÁRVORES QUE FALAM

Jz 9,8-15 registra uma fábula na qual um grupo de árvores discute a respeito de quem deverá reinar sobre elas. A oliveira demonstra-se pouco interessada, uma vez que teria que abandonar a produção de seu azeite, alimento “que tanto honra os deuses e os homens” (v. 9). A figueira usa um argumento semelhante: “Iria eu abandonar minha doçura e o meu saboroso fruto, a fim de balançar-me por sobre as árvores?” (v. 11). O convite também é estendido à videira, que recusa a oferta em nome da alegria produzida por seu vinho (v. 13).

Na ausência de uma árvore nobre, finalmente fazem o convite ao espinheiro, que prontamente aceita reinar sobre todas as árvores, acolhendo-as sobre sua sombra (v. 15). Mas faz um alerta às árvores que não se sujeitarem a seu governo: “sairá fogo dos espinheiros e devorará os cedros do Líbano”. Um exemplo de fábula com árvores falantes aparece em um antigo texto acadiano intitulado: “A disputa entre a tamargueira e a tamareira”. Na fábula, de caráter didático-sapiencial, as duas árvores apresentam suas virtudes na tentativa de provar quem é a mais valiosa.

 Dois trechos chamaram a minha atenção:

“O rei em seu palácio planta tamareiras,
além disso, da mesma forma, tantas tamargueiras.
À sombra da tamargueira foi organizado um banquete.
À sombra da tamareira a decisão sobre um crime...”
“Plantou ao seu lado a tamareira [dizendo],
“Se [você estiver] no portão da cidade, acalme a contenda;
se estiver no deserto, acalme o calor” (ANET, p. 411).
Aqui, como em Jz 4,5, era à sombra de uma palmeira que as disputas judiciais eram resolvidas: “Ela tinha a sua sede à sombra da palmeira de Débora, entre Ramá e Betel, na montanha de Efraim, e os filhos de Israel vinham a ela para obter justiça”. Mas há algo estranho nesse texto: a presença do pronome “ela” (הִיא) no início da frase é desnecessário. Ao que parece a camada mais antiga do texto falava de uma mulher anônima (ela) que julgava as causas do povo ou anunciava oráculos “na palmeira de Deborah”.

Um segundo problema: as árvores também funcionavam com local sagrado para a adivinhação (Jz 9,37), como locais de aparição (Gn 18,1), de sepultamento (Gn 35,8) e de culto (Js 24,26) e, talvez, de consulta aos mortos. Ao mesmo tempo em que é apresentada como alguém que “julgava” (שֹׁפְטָה), para que por meio dela fosse obtida a “justiça” (לַמִּשְׁפָט), a personagem também atua como “profetiza” (נְבִיאָה). Ela estaria ali “julgando” ou anunciando um oráculo divino? Seu nome era mesmo “Deborah” ou ele possui relação com o local do sepultamento da ama de leite de Rebeca, enterrada aos pés de uma árvore em Betel, o "carvalho dos prantos" (cf. Gn 35,8)?

Talvez o relato presente em Gn 35,8 tenha a função de explicar a razão do "carvalho dos prantos" – o "carvalho de Deborah" – ainda frequentado, na época do redator, por pessoas que lamentam a perda de um ente querido ou, mais especificamente, de ocultar sua verdadeira função como local de consulta aos mortos. Neste caso seria necessário explicar como o "carvalho dos prantos" de Gn 35,8 se converteu em "palmeira de Deborah" em Jz 4,5. Essa questão suscita outra pergunta: será que a tradução de "tomer" (תֹּמֶר) por "palmeira" está correta? 

 

Jones F. Mendonça

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

GERSOM, O PEREGRINO

Após se retirar para Midiã fugindo de Faraó, Moisés parou junto a um poço. Lá defendeu sete moças, filhas de Raguel (ou Jetro), que estavam sendo importunadas por alguns pastores. Quando retornaram para casa contaram ao pai o acontecido. Raguel não perdeu tempo: “vocês deixaram esse homão partir?!”. Obedientes, as moças trouxeram Moisés, que se casou com Zípora. Depois ela engravidou. O nome do filho: “Gersam” (Ex 2,22). A razão de ter recebido este nome aparece logo adiante: “porque era um “ger” (“peregrino”, em hebraico) em terra estrangeira”. Não entendeu? Ele se chamou Gersom porque Moisés era um “ger” em terra estrangeira. Simples assim. 



Jones F. Mendonça

SODOMA E O IMPACTO DO COMETA

Acabei sabendo, via Paleojudaica, que um artigo publicado na Nature aponta como razão para a destruição de uma cidade ao sul do Mar Morto (Tall el-Hammam), em 1650 a.C., a explosão, no ar, de um meteoroide ou fragmento de cometa, tal como aconteceu na cidade de Tunguska, Rússia, em 1908. Em fenômenos dessa natureza não há formação de cratera no solo. Embora não tenha como foco eventos citados na Bíblia, o artigo levanta o seguinte questionamento: “consideramos se as tradições orais sobre a destruição desta cidade urbana por um objeto cósmico podem ser a fonte da versão escrita sobre Sodoma no Gênesis”. Leia o artigo completo aqui. Leia também no JPost

 

Jones F. Mendonça

terça-feira, 21 de setembro de 2021

A TERRA É PLANA... E QUADRADA

Zé Bobinho é dessas pessoas tontas que paga para assistir aula de filosofia no YouTube ministrada por professor sem diploma e sem juízo. Certo dia, absorto em suas reflexões sobre a planicidade da terra, lembrou-se de que o profeta Ezequiel menciona “os quatro cantos da terra” (Ez 7,2). Pensou com seus dois neurônios: “a terra, além de plana, é quadrada”. Um amigo, depois de acurada investigação, disse ter descoberto que o céu também é plano e quadrado. A revelação teria vindo de Jr 49,36: “Trarei sobre Elam quatro ventos, dos quatro cantos do céu” (Jr 49,36). Agora quer descobrir em que canto fica o trono divino 😉

 

 Jones F. Mendonça

domingo, 19 de setembro de 2021

AS MUITAS FACES DA TENTAÇÃO

A cena da tentação de Jesus no deserto foi retratada de diversas formas. Em boa parte delas o capiroto aparece representado com aspecto animalesco. Mas nesta, produzida por Juan de Flandes (1500/1504), ele tem a aparência de um sacerdote franciscano. Repare que sua mão direita segura algumas contas de rosário. As únicas indicações de sua natureza maligna aparecem nos pés (de pato!) e nos chifres (ou talvez seja um disfarce, afinal os chifres também aparecem associados a Moisés).



Jones F. Mendonça

A TENTAÇÃO DE JESUS: PEDRAS OU POMBOS?

Esta gravura, pintada num manuscrito do século XV (The Mirror of Human Salvation) mostra Cristo sendo tentado em três cenários distintos: 1) No deserto (Mt 4,3); 2) No pináculo do Templo (4,5); 3) Num monte (4,8). Algo que chamou a minha atenção: as pedras nas mãos do capiroto não lembram dois pombinhos? Isso sem falar na postura de Jesus, que parece ensaiar um golpe de artes marciais.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

A BÍBLIA PELAS JANELAS


No Gênesis, Noé abriu a janela, soltou um pássaro, alimentou a esperança por dias melhores (Gn 8,6). Abimeleque, rei de Gerar, viu da janela Isaque amando Rebeca (26,8). Raabe livrou na janela dois espias da morte (Js 2,15). A mãe de Síssera, pela janela, pressentiu o fim de seu filho em combate (Jz 5,28). Mical desprezou da janela o Davi seminu dançando em êxtase (2Sm 6,16). Jezabel, com olhos pintados e cabeça enfeitada, olhou da janela o chão sobre o qual expirou (2Rs 9,30). Jeremias viu a morte escalando janelas para devorar os filhos de seu povo (Jr 9,21).

Na Bíblia Hebraica, as janelas anunciam esperança, paixão, tristeza, desprezo, arrogância, morte.


Jones F. Mendonça

 

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

SOBRE POESIAS CONCRETAS

Uma tradução bem literal de Lamentações 2,1, com toda a concretude da poesia hebraica, fica assim:

    Esgotam-se as lágrimas dos meus olhos
    meu intestino ferve,
    derrama-se pela terra o meu fígado.

Na Bíblia Versão Transformadora os “olhos” desaparecem, o “intestino” dá lugar ao “coração” e o “fígado” ao “espírito”. Veja:

    Chorei até que não tivesse mais lágrimas;
    meu coração está aflito.
    Meu espírito se derrama de angústia.

O tradutor troca as palavras para que o texto se torne mais claro ao leitor. Não implico com essa adequação. Mas que fica feio, ah, fica.



Jones F. Mendonça

QUANDO A FALA ATINGE AS ENTRANHAS

“Falar ao coração” (וידבר על לב), no hebraico do Antigo Testamento, é falar às entranhas, ou seja, ao íntimo. A expressão indica uma fala que convence, que agrada, que seduz. Siquém “fala ao coração” de Diná, mulher por quem se afeiçoou, em Gn 34,3. José “fala ao coração” de seus irmãos, convencendo-os de que não lhes fará mal, em Gn 50,21. Em Jz 19,3 um homem “fala ao coração” de sua concubina a fim de convencê-la a retornar aos seus braços. Isaías “fala ao coração” de Jerusalém, anunciando o fim do exílio, em Is 40,2. Em Oseias o “falar ao coração” se relaciona ao encontro divino com Israel no deserto:

“Por isso, eis que vou, eu mesmo, seduzi-la,
conduzi-la ao deserto,e falar-lhe ao coração” (Os 2,14).



Jones F. Mendonça

DELACROIX E OS ANJOS DO GETSÊMANI


Eugène Delacroix, um dos gigantes da pintura francesa, exibe nesta tela Jesus no Monte das Oliveiras. Embora tenha por título “A agonia do jardim” (1824-26), uma vez que os evangelhos situam no Getsêmani os últimos momentos do Nazareno  antes de ser preso e crucificado, seus gestos expressam coragem. Jesus parece dizer aos anjos: “deixem-me, preciso fazer isso sozinho”. 



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

TINTORETTO E A ÚLTIMA CEIA


Esta tela de Tintoretto (A última ceia: 1592-94) possui características únicas. O jogo de sombras é feito a partir de dois pontos de luz: a auréola de Jesus e a luminária à esquerda. Observe que ele representa a cena numa perspectiva diagonal totalmente inédita, que é enriquecida com personagens complementares em primeiro plano. É mais ou menos como se um fotógrafo retratasse um casamento e desse destaque aos garçons. O artista – também conhecido como Il furioso – é um dos grandes nomes do maneirismo, movimento artístico que expressa novos valores estéticos, distanciando-se dos cânones do período renascentista.

 

Jones F. Mendonça

terça-feira, 24 de agosto de 2021

OS BATISTAS

1. Assim que tomou conhecimento da ruptura de Lutero com a Igreja, um diabo sentado na orelha de Henrique VIII, rei da Inglaterra, começou a cochichar tentações. Como não tinha vocação para asceta, deixou-se levar pelos conselhos: rompeu com o Papa, apropriou-se das terras da igreja e inventou sua própria versão do cristianismo, a igreja anglicana. Sua decisão foi aprovada pelo parlamento, que pelo Ato de Supremacia elevou o rei ao status de chefe da Igreja da Inglaterra. De quebra casou-se com Ana Bolena.

2. Mas o protestantismo carregava em seu DNA o germe da dissidência. Não demorou e um grupo separatista cismou de não aceitar essa coisa de ter um rei humano como líder supremo da Igreja. Destacam-se nesse movimento os puritanos. O pensador político e historiador francês Alexis de Tocqueville chegou a dizer que “o puritanismo não era apenas uma doutrina religiosa, mas correspondia em muitos pontos às mais absolutas teorias democráticas e republicanas”. Acha um exagero? Tudo bem, vamos chamá-los de “protodemocratas”, como preferia J. Miller.

3. Os batistas, membros da denominação protestante surgida no século XVII, acolheram com força essas ideias democráticas puritanas. Levavam a sério essa coisa de “liberdade de consciência”. Thomas Helwys, um dos fundadores da denominação, rejeitava veementemente que o rei interferisse nos assuntos da igreja. Seu espírito de tolerância certamente deixaria muitos batistas modernos no chinelo. Palavras dele: “que haja, pois, heréticos, turcos ou judeus, ou outros mais; não cabe ao poder terreno puni-los de maneira nenhuma”. Isso no século XVII!

4. Bem, o tempo passou. Muitos batistas foram podando seus galhos mais viçosos em um processo lento e contínuo. Assim, é com imenso desprazer (mas não com espanto) que vejo batistas participando desse movimento que está aí: espírito antidemocrático, intolerante, intoxicado com uma boa dose do rigorismo puritano, raiz podre do movimento. 


Jones F. Mendonça

O AFEGANISTÃO EM 5 PONTOS CURTOS

1. O elemento chave para se compreender a origem do radicalismo islâmico NO AFEGANISTÃO (*) deve ser buscado em 1979, ano em que os estadunidenses foram enxotados da sua embaixada em Teerã, após o sucesso da revolução islâmica.

2. O Afeganistão era governado por comunistas aliados da União Soviética, que assumiram o poder em 78, após um golpe de Estado. Mas a imposição do comunismo goela abaixo acabou suscitando uma rebelião maciça, apoiada pela religião, o islamismo.

3. Redes islâmicas com características heterogêneas, mas unidas por laços muito fortes e inspiradas na revolução iraniana, apelaram à jihad islâmica com o objetivo de expulsar os invasores infiéis. A luta era percebida como uma reafirmação de identidade perante a descaracterização cultural imposta pelos comunistas.

4. Em 79 o exército vermelho invadiu o país precipitando uma resistência maciça dos afegãos. É neste momento que nascem os famosos mujahidins, grupos militantes armados. Os mujahidins, tal como conhecemos, surgem como reação à intervenção soviética.

5. Os EUA entram depois, armando esses grupos contra seus rivais soviéticos. Assim, podemos dizer que a União Soviética criou o monstro e os EUA lhe forneceu os dentes. É, portanto, filhote de duas bestas...

* O fundamentalismo islâmico nasceu no Egito, pela iniciativa dos Irmãos Muçulmanos, após a Primeira Guerra Mundial e o colapso do império turco-otomano.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

SOBRE A “TEOLOGIA NEGRA”


1. Caso você dê uma pesquisada rápida no Google, vai encontrar livros produzidos pela teologia ortodoxa protestante com os mais diversos títulos: teologia da glória, teologia da cruz, teologia da Reforma, teologia sistemática, teologia Imago Dei, teologia disso, teologia daquilo...

2. São, todas elas, teologias “de cima”, ou seja, estão interessadas em esmiuçar os atributos divinos, em produzir formulações teológicas capazes de exprimir com a maior exatidão possível a natureza das coisas celestes. Esse tipo de obsessão esteve na mira dos teólogos por cerca de dois mil anos.
 
3. Na segunda metade do século XX um grupo de pastores negros resolveu produzir o que mais tarde foi denominado “teologia negra”, ou seja, refletiram sobre a perversidade que é o racismo e sobre como as Escrituras podem contribuir para combater este mal (certamente será uma leitura seletiva, como são todas as outras). Não raro são ouvidos protestos como “não precisamos de uma teologia negra, mas de uma teologia bíblica”.
 
4. A teologia negra tem data de nascimento: 31 de julho de 1966. Na época os ortodoxos que adoravam formulações teológicas impecáveis – como a Convenção Batista do Sul dos EUA – apoiavam a escravidão e os proprietários de escravos. A retratação e as declarações de arrependimento só vieram em julho de 1995!

5. A ortodoxia racista tem memória curta (e arrependimento tardio).
 
Imagem: O Comitê Nacional de Homens da Igreja Negros comprou um anúncio de página inteira no The New York Times para publicar seu "Black Power Statement", propondo uma abordagem mais agressiva para combater o racismo usando a Bíblia como inspiração.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

A TEOLOGIA COMO PATOLOGIA

1. Durante quase dois mil anos, boa parte dos teólogos cristãos justificaram o sofrimento dos judeus a partir da leitura das Escrituras. A lista começa no século II, com Irineu e Tertuliano. No século IV é repetida por Cirilo, bispo de Jerusalém, segue com Ambrósio, João Crisóstomo e Agostinho.

2. No decorrer da Idade Média o pensamento se manteve o mesmo: judeus estão pagando pela crucificação de Cristo (gostavam de citar Mt 27,25). Lutero, no século XVI manteve o velho e perverso antijudaísmo, visível, por exemplo, em seu texto “Os judeus e suas mentiras”, publicado em 1543. Não demorou e esse antijudaísmo se converteu em racismo, em antissemitismo.

3. A primeira manifestação positiva que conheço em relação aos judeus veio do avô presbiteriano do ex-presidente estadunidense George W. Bush. Em 1844 ele publicou um curioso livro intitulado “The Valley of Vision; or, The Dry Bones of Israel Revived”. A obra pode ser encontrada na Amazon ao custo de US$23,90.

4. George Bush (avô) era um restauracionista. A obra defendia – antes mesmo da criação do sionismo(!) – o retorno dos judeus à terra de Israel. Acreditava que na Terra Santa boa parte dos judeus se converteria ao cristianismo. Outro texto importante veio de Karl Barth: “A questão dos judeus e sua resposta cristã”, de 1949.

5. Até o século XIX todos faziam coro dizendo: “judeus estão pagando pela crucificação de Cristo”. Depois disso a coisa se inverteu: “o exército de Israel é o exército de Deus”. Ontem usavam e abusavam das Escrituras para justificar a dor e o sofrimento dos judeus. Hoje é abusada e usada para justificar seu triunfo (e a derrota dos muçulmanos!). Trata-se de uma teologia bipolar, doentia.

6. A pergunta que se impõe diante de nós, hoje, é: que tipo de pessoas os "teólogos" da atualidade estão ferindo, lançando na lama da agonia, no sheol do desespero, em nome das "Santas Escrituras"? A lista não seria pequena...

 

 Jones F. Mendonça

quarta-feira, 21 de julho de 2021

“RUTZ”, O VERBO CASAMENTEIRO

O verbo hebraico “rutz” (רוץ = correr) aparece dez vezes no livro bíblico de Gênesis. Em seis desses dez casos ele surge associado aos casamentos de Rebeca (4 vezes) e Raquel (2 vezes). Veja:

REBECA1) o servo de Abraão corre ao encontro de Rebeca para lhe pedir água (24,17); 2) Rebeca corre em direção ao poço para obter água (24,20); 3) Rebeca corre para anunciar à sua família que o servo é um enviado de seu parente (24,28); 4) Labão, irmão de Rebeca, corre para recepcionar o servo de Abraão (24,29);

RAQUEL 5) Após ser beijada por Jacó, Raquel corre para anunciar a seu pai, Labão, o encontro que teve com Jacó, seu primo (29,12); 6) Labão corre  ao encontro de Jacó para encontrá-lo e acolhê-lo em sua casa (29,13).

O que parece todos tinham muita pressa para casar. :)



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 12 de julho de 2021

"LEGEND OF DESTRUCTION": UM FILME SOBRE A 1ª GUERRA JUDAICA



A cidade de Jerusalém no tempo de Jesus era uma região muito instável. As sucessivas humilhações diante do poderio das nações estrangeiras – Assíria, Babilônia, Pérsia, Macedônia e Roma – deixava grupos judaicos mais piedosos com os nervos à flor da pele, esperançosos e ansiosos pela intervenção divina em favor de seu povo, realizada pela ação de seu Messias, o Ungido. Em 66 d.C. uma grande revolta judaica se impôs contra as tropas imperiais romanas. Roma reagiu com força e enviou seus soldados a Jerusalém, que a sitiaram. A revolta foi esmagada em 08 de setembro do ano 70 pelas legiões romanas comandadas pelo general Tito. Você poderá ver tudo isso e muito mais em “Legend of Destruction”, o novo filme de Gidi Dar.



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 28 de junho de 2021

ISRAEL FINKELSTEIN E AS TRADIÇÕES DO NORTE

Neste vídeo, o arqueólogo israelense Israel Finkelstein fala sobre o Reino do Norte no contexto do século VIII a.C., época em que são situados reis como Jeroboão II e profetas como Amós e Oseias. O século VIII também é marcado pela invasão assíria, que conquista Samaria e cobra tributo a Acaz, rei de Judá. O arqueólogo vê nas narrativas heroicas presentes no livro de Juízes, na história de Jacó, nos traços positivos atribuídos ao rei Saul e nos ciclos de Elias e Eliseu elementos que os ligam ao Norte. Uma das perguntas que Finkelstein busca responder é a seguinte: como e quando as tradições do Norte foram incorporadas às tradições do Sul? Ah, uma informação importante: embora o áudio esteja em inglês, é possível adicionar legendas em português. Assista a todos os vídeos aqui.


Jones F. Mendonça



MÁRIO LIVERANI E O ÊXODO

1. Na opinião de Mário Liverni o Êxodo possui um fundo histórico que pode ser rastreado, por exemplo, em trechos mais antigos do livro do profeta Oseias que ele data para o século VIII: “Efraim [Israel do Norte] voltará para o Egito, na Assíria comerão alimento impuro” (Os 9,3). A Assíria aqui, segundo Liverani, aparece como um “Novo Egito”. No passado estiveram sob controle egípcio; agora serão subjugados pelos assírios. Guarde isso.

2. A memória preservada por Oseias, para Liverani, não diz respeito à narrativa do Êxodo tal como conhecemos: saída sob a liderança de Moisés com sinais e prodígios, etc. Embora diga que Javé tenha usado um profeta (נביא) para tirar Israel do Egito (Os 12,13), nenhuma menção ao nome de Moisés, aos sinais miraculosos, ao Mar Vermelho, ao Sinai aparecem no texto. O assiriólogo entende que Oseias apenas está fazendo menção à época em que Israel vivia sob controle egípcio na Canaã no período do Bronze recente (algo que está bem documentado).

3. O autor cita textos – como as Cartas de Amarna – que empregam expressões como “fazer sair”, “fazer voltar”, “fazer vir” (ele chama de “código motor”), como indicação de libertação da influência de uma potência estrangeira. A narrativa do Êxodo, tal como a conhecemos, seria o resultado de reelaborações (séculos VII ao V), com a finalidade de legitimar a pose da terra, na medida em que a “Saga dos Patriarcas” fornecia uma legitimação insuficiente, situada em um passado muito remoto, sem jamais mencionar a posse de toda a terra, mas apenas de alguns lugares símbolo, como túmulos e árvores sagradas.

4. Assim, a narrativa do Êxodo, somada à narrativa da conquista armada, sob a liderança de Josué, cumpriria o papel de legitimar de forma mais contundente a posse da terra. Você lê a exposição completa do assunto em “Para além da Bíblia”, de Mario Liverani (Loyola, 2008, p. 339-343).

 

Jones F. Mendonça

terça-feira, 22 de junho de 2021

MÁRIO LIVERANI E AS 12 TRIBOS DE ISRAEL

Mario Liverani reserva uma seção de seu “Para além da Bíblia” para falar sobre as doze tribos de Israel. Inicialmente o assiriólogo italiano destaca o caráter artificial do número doze, rejeitando, por exemplo, a tese da anfictionia de Martin Noth (seguida por von Rad), que supôs um modelo de organização tribal semelhante ao que existiu nas antigas sociedades gregas e itálicas.

Evidências desse caráter artificial poderiam ser facilmente percebidas a partir de uma análise atenta às diversas listas tribais – com quantidades e nomes diferentes – extraídas de alguns textos. Veja:

 ·  Jz 5 (Cântico de Débora) → 10 tribos (séc. IX): Efraim, Makir, Benjamim, Zebulon, Isaacar, Ruben, Gile’ad, Dan, Asher e Neftali;

 · Dt 33 (Bênçãos de Moisés A) → 10 tribos (séc. VIII): José, Benjamin, Zebulon, Isaacar, Ruben, Gad, Dan, Asher, Neftali e Judá;

 ·  Dt 33 (Bênçãos de Moisés B) → 12 tribos (séc. VII): Efraim, Manassés, Benjamin, Zebulon, Isaacar, Ruben, Gad, Dan, Asher, Neftali, Judá e Levi.

 ·  Ez 48,1-29 → 12 tribos (séc. VI): Efraim, Manassés, Benjamin, Zebulon, Isaacar, Ruben, Gad, Dan, Asher, Neftali, Judá, Simeão.

 ·  Ez 48,1-29 → 12 tribos (séc. VI): José, Benjamin, Zebulon, Isaacar, Ruben, Gad, Dan, Asher, Neftali, Judá, Levi e Simeão.

Ele sugere que os levitas eram originalmente um “grupo funcional”, elevado ao status de tribo pelos sacerdotes pós-exílicos (neste caso, teríamos treze e não doze tribos). Outra questão que ele levanta diz respeito à tribo de Simeão, situada nos limites fronteiriços de Judá: a tribo teria sido inserida artificialmente na região com a finalidade de afirmar que a perda de territórios mais ao sul não tinha refletido sobre Judá. O deslocamento de Dan da região mais central (na Shefelah) para o extremo norte (Jz 18) teria a finalidade de afirmar direitos sobre um território apenas transitoriamente incluído no reino de Israel.


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 28 de maio de 2021

CALVINISMO E ESTOICISMO

1. Em suas Institutas, Calvino rejeita a acusação, já feita a Agostinho, de que a doutrina da Providência seja uma versão cristã “do dogma do destino estoico” (Livro I, XVI, 8 ).

2. Ele não nega certas semelhanças entre as duas doutrinas, mas insiste que a Providência estoica aparece relacionada à Natureza/Razão Universal, diferentemente da doutrina que ele prega, segundo a qual “Deus é árbitro e moderador”.

3. Daí ele conclui: “afirmamos que não só o céu e a terra, e as criaturas inanimadas, são de tal modo governados por sua providência, mas até os desígnios e intenções dos homens, são por ela retilineamente conduzidos à meta destinada”.

4. E aqui, claro, devem ser inseridos os desígnios pecaminosos do primeiro casal. Meio louco isso, não?


Jones F. Mendonça

FÍLON E A MAMADEIRA FÁLICA

1. Fílon foi um sábio judeu que viveu no primeiro século antes da era cristã, em Alexandria, no Egito. O judaísmo professado por Fílon era fortemente influenciado pela filosofia grega e, de maneira geral, pela cultura dos gregos.

2. Em “Leis III, 31”, Fílon trata, dentre outras coisas, a respeito do comportamento das mulheres em público. Ele diz, por exemplo, que uma mulher jamais deve se meter em uma briga na qual se envolveu seu marido.

3. A razão é a seguinte: imagine – ele diz – que coisa chocante seria, se essa mulher, ao tentar separar os corpos que brigam, agarrasse no órgão genital de um dos homens. Sim, é isto mesmo o que você leu.

4. Quem quiser entender essa obsessão por mamadeiras fálicas, por torres fálicas da Fiocruz, deve começar a cavar por aqui...

Leia "Leis Especiais" de Fílon aqui (e divirta-se):


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 26 de maio de 2021

RECURSOS BÍBLICOS ONLINE E GRATUITOS

Mark Hoffman publicou em seu Blog – Biblical Studies and Technological Tools – uma lista contendo uma série de recursos bíblicos online e gratuitos. A lista, publicada em 14 de abril de 2021, é uma atualização de uma relação postada em 2018. Ele destaca que para um estudo mais aprofundado será preciso pagar por softwares com o Acordance, o Logos ou o OliveTree. Aos interessados na lista, cliquem aqui.


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 10 de maio de 2021

GÊNESIS, ESTOICISMO, ALEGORIA E MORAL ASCÉTICA

1. Qualquer pessoa que leia bem, com atenção, perceberá que a falta cometida pelo primeiro casal, tal como registrado no Gênesis, é o orgulho, o desejo pela autonomia absoluta ou, como dizia Jacques Le Goff, a tentativa de “despossuir Deus de um de seus atributos mais determinantes”. Um leitor judeu no século IV a.C., por exemplo, entenderia que para não cometer o mesmo erro, deveria se submeter à Torah, a palavra de Javé entregue a seu povo escolhido.

2. Embora nem o AT nem o NT sugiram que o pecado original foi um pecado de ordem sexual, essa novidade foi introduzida bem rápido produzindo uma verdadeira diabolização do sexo e da mulher. Parte dessa postura vem do estoicismo e do neoplatonismo, como se pode ver nas Confissões e na Cidade de Deus de Agostinho de Hipona. O que também ajudou os padres nessa tarefa foi a exegese alegórica, que facilmente podia transformar a digestão do fruto proibido em cópula sexual.

3. Essa obsessão pelos chamados “pecados sexuais”, pela desclassificação da mulher, ainda ecoa com força na retórica evangélica fundamentalista de nosso tempo. A negação do sexo, do corpo e, portanto, da vida, foi intensivamente denunciada por Nietzsche na segunda metade do século XIX. Rubem Alves, que era bom leitor do filósofo, resumiu essa postura ascética dizendo que para esses religiosos “negar o mundo é o mesmo que negar a vida”.

4. Essa teologia não seria tão danosa caso se contentassem em negar sua própria vida, tal como faziam os anacoretas dos primeiros séculos. Mas querem enjaular os outros, subtrair dos outros a opção de escolha, de autorrealização. É, portanto uma teologia DE morte e PARA a morte.


Jones F. Mendonça

DOMICIANO E O APOCALIPSE

Boa parte dos comentários sobre o Apocalipse diz que Domiciano – imperador romano que governou entre 81 a 96 d.C. – foi um grande perseguidor dos cristãos. A fonte usada para atestar essa grande perseguição vem de Eusébio, autor de “A história da Igreja”, obra do IV século. A tradição foi ampliada por Osório (falecido em 420) e acabou aceita como fato histórico até mesmo em determinados círculos acadêmicos. Mas de acordo com Mark Wilson, em texto publicado no Biblical Archaeology Society, há boas razões para duvidar dessa história.


Jones F. Mendonça

SOBRE MEMÓRIA, IDENTIDADE E SAUDOSISMO

1. O saudosismo está na moda. Mania de achar que carro bom era o Fusca, tênis bacana era o Kichute, futebol de verdade era aquele jogado no terreno baldio em declive, brinquedos educativos eram aqueles feitos com lata velha e embalagens de Yakult. Talvez seja necessário convocar os psicólogos ou antropólogos para explicar as razões que motivam parcela da população a idealizar o passado dessa maneira. Ao que parece, no fundo sentimos saudades da alegria de ganhar um tênis novo, de poder jogar futebol no fim da tarde com os amigos, do carro que cabia no bolso de nossos pais, que nos levava e trazia da casa de nossos avós enquanto a chuva noturna fazia caminhos reluzentes no para-brisa.
 
2. O que chamamos de “memória”, já dizia Jöel Candau, “é muito mais um enquadramento do que um conteúdo”. Seria muita ingenuidade imaginar que nossas experiências são memorizadas, conservadas e recuperadas em sua integridade. A memória não é algo que pode ser acessado do mesmo modo como recuperamos uma foto ou um arquivo perdido em um computador. Apegamo-nos ao passado porque tememos a perda de nossas referências e a diluição de identidades. Sem lembranças, acerta de novo Candau, “o sujeito é aniquilado”. O medo da fragmentação nos faz inventar um passado idílico no qual possamos nos agarrar.

3. Bem, não precisamos ser tão duros com os saudosistas. Mas podemos ao menos pedir um pouquinho de noção da realidade.


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 3 de maio de 2021

SEXO, MALDIÇÃO E INFERTILIDADE NA BÍBLIA

O livro de Números (5,21-22) registra a seguinte maldição dirigida pelo sacerdote à mulher adúltera: “que o Senhor faça decair a tua coxa e inchar o teu ventre”. Do jeito que a tradução ficou na maioria das Bíblias, é difícil compreender do que se trata essa maldição. Uma tradução mais exata seria: “Que o Senhor faça falhar o teu sexo e inchar(?) o teu útero”. O sentido é claro: a mulher se tornará estéril por conta de sua falta.

A palavra hebraica traduzida erroneamente por “coxa” é “yarekh” (ירך), termo usado para indicar os órgãos sexuais masculino e feminino. Isso fica muito claro, por exemplo, em Gn 46,26, texto que contabiliza sessenta e seis pessoas como tendo saído “da coxa” de Jacó. Ora, elas não saíram “da coxa”, mas "do sexo", referindo-se ao sêmen que saiu de seu órgão sexual. Em Gn 24,2 o juramento de um servo é feito colocando-se a mão sob o “sexo” de Abraão. Juravam, como hoje, a respeito de coisas que consideravam valiosas...


Jones F. Mendonça