sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

JÓ E A TEOLOGIA DA RETRIBUIÇÃO

1. Sofar de Naamat olhou para o Jó moribundo e disse assim: “Não sabes que o júbilo dos ímpios é efêmero e a alegria do malvado só dura um instante?” (20,4-5). E acrescentou, olhando de forma desdenhosa as feridas de Jó: “Esta é a sorte que Deus reservou ao ímpio” (v. 29).

2. Desafiando a teologia da retribuição, segundo a qual o sofrimento só se explica como resultado de alguma falta, Jó respondeu: “Então por que os ímpios continuam a viver, e ao envelhecer se tornam ainda mais ricos?” (21,7).

Jó padecia do corpo, mas não do cérebro.


Jones F. Mendonça

O BEIJO NA BÍBLIA

1. Faço investigações a respeito das demonstrações de afeto no Antigo Testamento, particularmente do beijo. É possível encontrar beijos paternos (Gn 31,55), beijos ardentes (Ct 1,2), beijos de reconciliação entre irmãos (Gn 34,4), beijos de despedida no leito de morte (Gn 50,1), beijos entre sogra e noras (Rt 1,9.14) e até beijos entre homens guerreiros (1Sm 20,41).

2. Em minha pesquisa também procurei saber como as versões traduzem tais textos. Para minha surpresa a Bíblia de Jerusalém troca “nashaq” (beijo, em hebraico) por “abraço” quando Jônatas beija Davi (1Sm 20,41 – além de se beijarem, choram copiosamente) e quando Noemi beija suas noras (Rt 1,9.14). Faz isso certamente para evitar que o leitor veja nos versos qualquer indício de relação homoafetiva.

3. Na epopeia de Gilgamesh, uma das histórias mais antigas da terra, o herói Gilgamesh chora amargamente enquanto se despede de seu inseparável amigo Enkidu, morto por derrotar o touro celeste enviado pela deusa Ishtar. Não seria prudente dizer, de forma precipitada, que Enkidu e Gilgamesh (e Davi e Jônatas) desenvolveram uma relação homoerótica. Ao mesmo tempo não é honesto torcer o texto com finalidade moralizante.

4. Quem estiver interessado em ler a história de Enkidu e Gilgamesh em formato HQ, pode encontrar duas obras muito bem ilustradas: “Cânone Gráfico 1” (autores diversos) e “Os melhores inimigos” (Jean-Pierre Filiu). Aos interessados em uma análise da relação entre Enkidu/Gilgamesh; Davi/Jônatas, sugiro: "When Heroes Love: The Ambiguity of Eros in the Stories of Gilgamesh and David", escrito por Susan Ackerman.


Jones F. Mendonça

APOCALIPSES E ANIMAIS FANTÁSTICOS


1. No livro bíblico de Daniel, capítulo 7 (4-7), quatro impérios opressores aparecem representados por animais fantásticos, bestas cujas aparências mesclam características de animais diferentes: leão alado, leopardo policéfalo, etc. No Apocalipse essas bestas ressurgem com um visual ainda mais estranho e sinistro: “a besta que eu via parecia uma pantera: seus pés, contudo, eram como os de um urso e sua boca como a mandíbula de um leão” (Ap 13,2).

2. Representar forças caóticas ou ameaçadoras como animais fantásticos de aparência híbrida era uma prática muito difundida na Antiguidade. No Egito, por exemplo, uma besta com cabeça de crocodilo, membros anteriores de leão e membros posteriores de hipopótamo era usada para representar Ammit, o devorador de mortos (cf. imagem). Como no livro de Daniel a intenção era realçar a capacidade destrutiva das forças que representavam. 

3. Em contraste às quatro bestas malignas, Daniel apresenta em suas visões noturnas um quinto ser. Este, no entanto, não se parece com uma besta, mas com um “bar enash” (do aramaico “filho do homem”). A expressão reaparece em diversos livros bíblicos do AT (cf. Is 51,12; Jr 51,43; Ez 2,1; etc.) para indicar a humanidade do personagem. No caso de Daniel o propósito é mostrar que o quinto ser é de natureza diferente: tinha aparência humana, não bestial, como os demais. 

4. O domínio deste quinto ser, destaca o texto, não será passageiro nem opressor, mas justo e eterno. A mensagem de Daniel é simples, mas para entendê-la é preciso situá-la corretamente no tempo e no espaço. O Apocalipse releu Daniel e deu novo fôlego às esperanças escatológicas. Reler e ressignificar tradições religiosas é algo que faz parte de qualquer religião. Mas ressignificar não é, como muita gente imagina, uma solução para as leituras fundamentalistas. O fundamentalista também saberá reler... para o mal. 


Jones F. Mendonça

A CAPTURA DE SANÇÃO EM GUERCINO


Repare que nesta tela de Guercino as mãos dão movimento à cena da captura de Sansão, que aparece com os cabelos cortados. Eu contei 12 mãos. A única personagem que não exibe mãos é a moça debruçada sobre a coluna. Quem é ela? Nas representações artísticas da captura de Sansão, Dalila por vezes aparece sendo ajudada por outra mulher. Mas qual das duas é Dalila?


Jones F. Mendonça

JESUS COMO “NOVO MOISÉS” E “NOVO DAVI”

1. É bem conhecida a presença de elementos da vida de Moisés na narrativa da natividade apresentada por Mateus: ambos se estabelecem provisoriamente no Egito, ambos escapam da morte ordenada por um rei, ambos passam um período no deserto relacionado ao número 40, etc. Mas Lucas também retoma antigos temas tradicionais do AT.

2. O terceiro evangelho está repleto de referências ao livro de Samuel, personagem que prepara o caminho de Davi, o ungido (messias) de Javé. Note que em Lucas, a história de João Batista se relaciona com a de Samuel: os dois pertencem a uma família de levitas, tanto a mãe de Samuel com de João Batista são estéreis; Ana e Isabel entoam um cântico com vários elementos em comum.

3. Mas as semelhanças não param por aí: Davi nasce em Belém e é ungido por Samuel; Jesus nasce em Belém e é batizado por João Batista. Assim, João Batista funciona como um “novo Samuel” e Jesus como um “novo Davi” (ou um “novo Samuel”, compare 1Sm 2,26 com Lc 2,40). Caso você tenha interesse em conhecer mais paralelos entre o relato da natividade e histórias do AT, visite o site da Biblical Archaeology Society clicando aqui.

 

Jones F. Mendonça

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

O "DEDO MÍNIMO" DE ROBOÃO

1. No Primeiro livro bíblico de Reis (12,10), o rei Roboão aparece dando um recado ao povo, que pede um jugo menos pesado. O rei responde assim: “Meu qoten é mais grosso que a cintura de meu pai!”, ou seja, meu governo vai ser ainda mais rígido que o de meu pai, Salomão.

2. Ocorre que o significado de qoten é incerto (só aparece novamente em 2Cr 10,10), mas os tradutores geralmente chutam “dedo mínimo”. É que o substantivo qoten possui mesma raiz de qaton, adjetivo que significa “pequeno”, daí imaginaram que a referência seja ao dedo mínimo

3. Quer saber? Eu acho que estão errados. 


Jones F. Mendonça

EXEGESE FUNDAMENTALISTA

Debate entre dois cristãos fundamentalistas sobre a posse de armas. Bobinho, a favor, cita as Escrituras: “cada um conservava sua ARMA na mão direita” (Nee 4,23). Depois menciona uma “profecia” sobre a liberação das armas no Brasil: “Eis que vou fazer voltar as ARMAS” (Jr 21,4).

Tontinho não perde tempo e também apanha sua Bíblia. Abre na Carta de Paulo aos Coríntios e contesta Bobinho: “Na verdade, as ARMAS com que combatemos não são carnais (2 Co 10,4). E então cita o Eclesiastes: “Mais vale sabedoria do que ARMAS” (Ecl 9,18).

Parece piada, mas é a partir de leituras assim que muitos debates se desenvolvem no ambiente religioso de matriz fundamentalista. Aqui posso citar dois nomes: Yago Martins e Augustus Nicodemus.

  

Jones F. Mendonça

A NEGRITUDE EM CANTARES

1. A amada, no livro bíblico de Cantares, diz assim: “sou morena, mas formosa” (1,5). Vale destacar que o “mas” é indicado pela consoante “vav” (uma conjunção), que pode significar “e”, “mas”, “porém”, “então” e até “porque”. Neste caso, a tradução “sou morena E formosa” não estaria errada.

2. Ocorre que no verso seguinte a mesma mulher diz “não olheis que sou morena”. Aqui fica claro que “ser morena” não era uma característica desejável. Essa nova informação sugere que o v. 5 deve de fato ser lido como “sou morena, MAS formosa”. Ela enfatiza que é bela, apesar da tonalidade de sua pele. 

3. Há outra questão no texto. A palavra traduzida por morena é “shahor”. Em Ecl 11,10 (no plural) o termo parece indicar a negritude dos cabelos (de um jovem). Outra palavra de mesma raiz (sharar) parece indicar a pele escura e adoecida de Jó (30,30). Em Ct 5,11 indica a cor de uma ave (um corvo?). 

4. Não é fácil traduzir cores no hebraico. Há quem sugira que a amada tinha pele negra como uma etíope. Mas há um problema com a tese. O v. 6 dá as razões para a pele “enegrecida”: “o sol me queimou” (lit. “o sol me avistou”). E por que o sol a avistou/queimou? Ela explica: “fizeram-me guardar vinhas”. 

5. Em minha opinião “ter a pele escura” (ou seja, bronzeada) era algo mal visto não por uma questão racial, mas por questões sociais. Ela não era negra (sob a perspectiva étnica), mas estava “bronzeada”, “queimada pelo sol”, afinal era “cuidadora de vinhas”. Era alguém – como dizem hoje – “da ralé”. 


Jones F. Mendonça

terça-feira, 10 de novembro de 2020

PROFETAS, IMPÉRIOS E MILÍCIAS

1. Por volta de 705 a.C., com Samaria já conquistada pelos assírios, Judá vive sob enorme pressão. Em Jerusalém Ezequias ensaia a segunda tentativa de se livrar da humilhante relação de vassalagem ao qual seu reino foi submetido no tempo de seu pai, Acaz. O capítulo 7 do profeta Isaías mostra um Acaz pouco confiante na proteção de Javé, deus nacional. Isaías diz: “pede um sinal”. Acaz responde: “não pedirei” (Is 7,11-12). Voltemos a Ezequias.

2. Não havia soluções fáceis para o rei. Os tributos cobrados pela Assíria eram pesados. O povo amargava com altos impostos. Rebelar-se, por outro lado, era coisa bastante arriscada. Uma das soluções mais viáveis era buscar apoio no Egito, grande potência do norte da África. É nesse contexto que o profeta Isaías – contrariado – anda nu descalço, anunciando teatralmente o futuro de seus aliados egípcios: serão levados ao cativeiro assim, peladões (Is 20,4). 

3. Quando Senaqueribe, rei da Assíria, percebeu a rebeldia de Judá, tratou imediatamente de acionar sua poderosa máquina de guerra. O Prisma de Senaqueribe registra os resultados de sua mão pesada: “Sitiei 46 das suas cidades fortificadas [...]. Eu o prendi em Jerusalém, a sua residência real, como um pássaro em uma gaiola”. Isaías diz algo parecido: “Só restou a cidade de Sião como tenda numa vinha, como abrigo numa plantação de melões, como uma cidade sitiada” (Is 1,8). 

4. Os grandes impérios agiam como as milícias do Rio de Janeiro: se você não paga, eles queimam sua Kombi. Ezequias, que não era bobo, certamente não ia querer sua “Kombi” queimada. Então se retrata “Cometi um erro! Retira-te de mim e aceitarei as condições que me impuseres” (2Rs 18,14). A assíria, é claro, não deixou barato. O texto de Reis diz que Ezequias pagou 300 talentos de prata e trinta talentos de ouro. Para pagar a vultosa despesa o rei teve que retirar ouro do templo e de seu palácio. 

5. De Laquis, cidade vizinha de Jerusalém, o rei da Assíria mandou o recado: "Confias no apoio do Egito, esse caniço quebrado..." (2Rs 18,21). O povo, condenado a "beber da própria urina e comer do próprio excremento" durante o cerco (v. 27), ainda teve que ouvir insultos em seu próprio idioma: "Dentre todos os deuses das nações, quais os que livraram sua terra da minha mão?" (V. 35). 



Jones F. Mendonça

INDULGÊNCIAS

1. De modo geral não são mal compreendidas as críticas de Lutero às indulgências. Não é difícil encontrar gente dizendo que o monge agostiniano se impôs contra a “venda de terrenos no céu” ou que criticou uma doutrina católica que dava ao Papa o poder de perdoar pecados. Nada mais falso.

2. De acordo com a doutrina católica, as indulgências tinham o poder de perdoar as penas temporais e não os pecados. Explico. As penas temporais eram uma espécie de reparação pelo pecado exigida pela Igreja. Sempre que um fiel se sentisse arrependido pelo pecado (contrição) ele precisava declarar esse pecado ao padre (confissão auricular), que indicava uma tarefa que visava reparar a falta cometida (penitência). 

3. Ocorre que havia um entendimento de que essas penitências (e não os pecados, só perdoados por Deus) podiam ser apagadas pelo papa por meio das chamadas indulgências. Essa indulgência podia ser dada gratuitamente em uma data especial (chamadas de indulgências plenárias) ou por meio do pagamento em dinheiro. Bem, todos sabemos o que acontece quando o dinheiro monta no cavalo da fé... 

4. A igreja queria reformar a basílica de São Pedro e a grana forte arrecadada com indulgências apontou no horizonte como a melhor solução para transformar a basílica na imponente construção que é hoje. Lutero via tudo isso com desprezo e achava que o Papa não sabia desses abusos. Por conta de insatisfações como essa, o reformador escreveu suas famosas 95 teses contras as indulgências. Os teólogos dominicanos do Vaticano não gostaram. O Papa não gostou. E a gente sabe no que deu essa história. 


Jones F. Mendonça

MALAQUIAS E O DISCO SOLAR ALADO



1. Malaquias 4,2, na versão NVI, diz assim: “o sol da justiça se levantará trazendo cura em suas asas”. É muito tentador pensar que a imagem que se evoca é a do sol alado, símbolo usado por antigas potências, como o Egito, a Assíria, a Babilônia e a Pérsia. Esse tipo de representação era tão comum que aparece até mesmo no selo de Ezequias, encontrado em 2015 em Jerusalém (cf. imagem*). Mas será que o texto está mesmo fazendo alusão ao sol alado? Acho que não.

2. Fiz uma tradução bem literal do texto. Ficou assim: “Resplandecerá para vós, tementes de meu nome, o sol da justiça e a cura na sua ORLA/ASA...” (Mal 4,2). A questão talvez possa ser resolvida aqui: a palavra hebraica “canaph” pode ser traduzida tanto por “asa” como por “orla”. Estou mais inclinado a pensar que a ideia transmitida pelo texto é a de que o “sol da justiça” resplandece e “cura” através de seus raios (que saem de sua orla).  

3. Note que o v.1 ameaça os arrogantes com algo que “queima como um forno”. Diz ainda que eles “queimarão como palha” de forma que não lhes restará nem raiz nem ramo. No v. 2 esse calor, representado pelo “sol da justiça”, não queima os que "temem o seu nome", mas traz cura. E de onde sai essa cura? Ora, de “sua orla”, do calor que emana do disco solar e que alcança a terra. Não seria nenhum escândalo o profeta usar o símbolo solar com asas, mas parece que não é este o caso. 

4. É claro que sempre posso estar errado. 

*No selo vem escrito o seguinte: "Pertencente a Ezequias [filho de] Acaz, rei de Judá". O reino de Judá tornou-se vassalo da Assíria sob Acaz e seu filho Ezequias. 


Jones F. Mendonça

SOBRE PRESSUPOSTOS

“A fé cristã afirma a necessidade de abraçarmos, com todo nosso coração, certos pressupostos, que determinarão como interpretamos as Escrituras”[1]. 

Pergunta: de onde vêm os “pressupostos” de Ferreira? Obviamente não podem vir das Escrituras, porque determinam sua leitura. 

Por trás das peles, dos músculos, dos nervos, das tripas, o que a gente enxerga é a "boa" e velha teologia medieval. 

[1] FERREIRA, Franklin. Curso Vida Nova de teologia básica – Vol 7. São Paulo: Vida Nova, 2007, p. 20.


Jones F. Mendonça

ANACRONISMOS REFORMADOS

Embora se diga repetidamente que as “cinco solas” (Sola fide, Sola scriptura, Solus Christus, etc.) são os pilares da Reforma, não existe tal formulação assim, tão arrumadinha, entre os reformadores. Kevin Vanhoozer diz que as cinco declarações latinas só ganharam essa disposição no século XX.

Saiba mais:

VANHOOZER, Kevin J. Biblical Authority after: Retrieving the solas in the Spirit of Mere Protestant Christianity: Grand Rapids: Brazo, 2006, p. 26-27.

SOBRE TEOLOGIAS FRÁGEIS

1. Sofar de Naamat olhou para o Jó moribundo e disse assim: “Não sabes que o júbilo dos ímpios é efêmero e a alegria do malvado só dura um instante?” (20,4-5). E acrescentou, olhando de forma desdenhosa as feridas de Jó: “Esta é a sorte que Deus reservou ao ímpio” (v. 29). 

2. Desafiando a teologia da retribuição, segundo a qual o sofrimento só se explica como resultado de alguma falta, Jó respondeu: “Então por que os ímpios continuam a viver, e ao envelhecer se tornam ainda mais ricos?” (21,7). 

3. Jó padecia do corpo, mas não do cérebro



Jones F. Mendonça

sábado, 7 de novembro de 2020

WAYNE GRUDEM: "OS BENS SÃO PARA GLORIFICAR A DEUS" (SEI...)

“Tal sistema [o comunismo] é maligno porque permite às pessoas possuir apenas alguns bens e, dessa maneira, as impede de ter a oportunidade de glorificar a Deus pela posse de um bem, de uma casa ou de um negócio” (GRUDEM, Wayne. Negócios para a glória de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 21). 

O trecho “glorificar a Deus pela posse de um bem” e o próprio título do livro: "Negócios para a glória de Deus" foi um pouco demais pra mim... 


Jones F. Mendonça

REBECA NÃO CAI DO CAMELO

1. Investigo a hipótese de que Gn 24,64 descreva Rebeca “caindo do camelo” ao avistar Isaac, homem que lhe havia sido prometido em casamento. Seria aquele tipo de queda causada pela paixão à primeira vista. Será?

2. As versões traduzem o verbo “naphal” por “desceu”, “apeou”, ou “saltou” [do camelo]. De fato o verbo pode ser traduzido por “caiu”, como em Nm 14,32: “vosso cadáver cairá [naphal] neste deserto”. 

3. Mas o sentido primário do verbo não é exatamente “cair”. Uma análise atenta revela que sua função é indicar uma descida súbita [não voluntária ou voluntária]. José, por exemplo, “desce” [com sua cabeça] ao pescoço de Benjamim, para abraçá-lo (Gn 45,14). Uma tradução melhor seria “se lança”. 

4. Eu poderia citar muitos outros exemplos. 2Rs 5,21 expõe um caso muito parecido com Gn 24,64 (Rebeca/Isaac). O texto apresenta Naamã “saltando/se lançando do carro” para encontrar Geazi, que o persegue. Não há qualquer indício, no texto, de que tenha “caído do carro” (2 Rs 5,21). 

5. Minha opinião: na verdade Rebeca não “cai” do camelo (até porque ela se feriria). O texto usa o verbo “naphal” para destacar sua descida súbita. Ela estava ansiosa para conhecer seu pretendente. Assim que tem certeza de que é a pessoa certa, Rebeca coloca o véu (v. 65) e entra com ele numa tenta (v. 67). 

6. Acho que não é preciso dizer o que eles fizeram lá dentro... 


Jones F. Mendonça 

LUTHER KING: LA FUERZA DE AMAR

Leio “La fuerza de amor” (“A força do amor”), obra de Martin Luther King publicada em 1963. O capítulo 12 fala da relação entre comunismo e cristianismo. Apesar de criticar o comunismo por uma série de razões – sobretudo por sua negação a Deus – o pastor batista pontua alguns elementos positivos de sua formulação teórica, que “prevê uma sociedade mundial que transcende as superficialidades de raça, cor, classe e casta”. Em seguida faz uma crítica à igreja de seu tempo:
O colonialismo não teria se perpetuado se a Igreja Cristã o tivesse confrontado diretamente. Um dos defensores do sistema vicioso de apartheid na África do Sul é atualmente a Igreja Reformada Protestante Holandesa [1]. 
[1] KING, Luther. La fuerza de amar. Madrid: Acción Cultural Cristiana, 1999, p. 113. 



Jones F. Mendonça

LUTHER KING E A TEOLOGIA LIBERAL

1. Luther King foi criado num ambiente de tradição fundamentalista. Em certo momento de sua vida despertou de seu “sonolento dogmatismo” após iniciar uma “viagem intelectual estimulante”. Leu obras escritas por teólogos liberais; examinou com atenção a produção teológica da neo-ortodoxia. Foi uma jornada frutífera. Chegou a algumas conclusões.

2. Achou que os teólogos liberais eram demasiadamente otimistas em relação à natureza humana. Ao mesmo tempo percebeu que a neo-ortodoxia apresentava uma percepção excessivamente pessimista dessa mesma natureza (absolutamente decaída). Então teve contato com o trabalho de Kierkegaard e de Nietzsche. Depois leu Jaspers, Heidegger e Sartre. Finalmente acabou tendo contato com Paul Tillich. O pastor batista sorriu. 

3. Hoje Luther King seria chamado por essa galera da “Coalizão pelo Evangelho” (TGC) de “teólogo liberal”, dada sua afinidade com o existencialismo e com a teologia de Paul Tillich. Ainda estão engatinhando no fundamentalismo que sufocava Luther King e que não lhe dava instrumentos para lutar pelas causas que tanto o incomodavam. 

4. Você pode ler a história dessa trajetória intelectual de Luther King em “La fuerza de amar” (Acción Cultural Cristiana, 1999, p. 151-153). 


Jones F. Mendonça 

SOFONIAS E AMÓS: ORÁCULOS INVERTIDOS

Uma das maiores desgraças que poderiam se abater sobre civilizações agrárias do Antigo Mediterrâneo Oriental – como no Antigo Israel – era plantar e não poder colher, construir uma casa e não poder morar nela.

Esse tipo de infortúnio geralmente acontecia nos períodos de guerra, sobretudo quando os inimigos eram potências como o Egito, a Assíria e a Babilônia. Repare que o oráculo de salvação presente em Amós é justamente o inverso do oráculo de juízo de Sofonias
Eles construíram casas, mas NÃO as habitarão, 
Plantaram vinhas, mas NÃO beberão do seu vinho” (Sf 1,13). 

RECONSTRUIRÃO as cidades devastadas e as habitarão, 
Plantarão vinhas e BEBERÃO o seu vinho (Am 9,14).
Em Sofonias a imagem aparece como desgraça. Em Amós como salvação. Ao que parece, Amós (ou melhor, o "acréscimo a Amós") inverteu um dito profético de juízo mais antigo (veja ainda Am 5,11; Dt 28,39). 



Jones F. Mendonça

BRUXAS, INQUISIÇÃO E MISOGINIA


Quem estiver interessado no modo como as bruxas eram vistas nos séculos XV e XVI pode começar por duas obras: “Malleus Maleficarum” (um manual medieval da Inquisição) e “De la démonomanie des sorciers” (um compêndio antibruxaria). O segundo foi escrito por Jean Bodin (1529-1595), catedrático de Direito Romano na Universidade de Toulouse. Eis uma pequena fala dele: 
Seja qual for o castigo que ordenemos contra as bruxas, assá-las ou cozê-las ao fogo lento não é realmente demais e não tão ruim quanto [...] as agonias eternas que lhes estão preparadas no inferno, porque o fogo aqui não pode demorar muito mais do que ao redor de uma hora até que a bruxa morra (BODIN, Jean. On Demon-mania of witches. Toronto: CRRS publications, 2001, p.173). 
Todo esse ódio certamente não vinha do medo da bruxaria ou da zelosa piedade, mas da misoginia, de certa repulsa pelas mulheres, as maiores vítimas da inquisição. E por trás dessa perseguição certamente havia uma sexualidade muitíssimo reprimida. 



Jones F. Mendonça

terça-feira, 15 de setembro de 2020

INVOLUÇÃO COGNITIVA

1. O ser humano, desde os tempos mais remotos, faz indagações a respeito das origens. A religião sempre se inquietou com essas questões e tentou, a seu modo, explicar as origens dos deuses (como na teogonia de Hesíodo), do mundo (como o Enuma Elish mesopotâmico), da humanidade (como no relato do Gênesis), do mal (teodiceia), etc.

2. Na Antiga Grécia, buscando respostas fundamentadas na razão, os primeiros filósofos dedicaram-se a localizar um princípio originário único capaz de explicar do mundo. A partir dessa nova orientação investigativa nasceu a ciência moderna: a astronomia, a zoologia, a química, a biologia, etc. Mas a sede, a busca incessante pelas origens não parou por aí.

3. O psicólogo canadense Merlin Donald propôs recentemente uma interessante teoria para explicar a origem do sistema cognitivo humano. Ele diz que o desenvolvimento da capacidade de externalização da memória, pela escrita, age diretamente em nosso sistema cognitivo, promovendo uma relação dialética entre cérebro e cultura.

4. Focando nessa “externalização da memória”, podemos pensar em três grandes revoluções dos nossos sistemas culturais para armazenar conhecimento: a) a invenção da escrita; b) da prensa tipográfica, e c) das novas tecnologias digitais. Eis aqui o grande paradoxo.

5. Ao mesmo tempo em que apontam para o avanço do sistema cognitivo humano e grande capacidade de desenvolvimento tecnológico, as tecnologias digitais têm sido usadas para disseminar o terraplanismo, teorias conspiracionistas, ideologias antivacina, fundamentalismos religiosos e obscurantismos científicos.

6. Se a gente não segurar esse pessoal, em breve estaremos de volta à Idade da Pedra.

 

Jones F. Mendonça

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

OS LÁBIOS NA BÍBLIA

1. A palavra hebraica traduzida por “lábio” (safhah) possui campo semântico bastante amplo na Bíblia Hebraica. Seu sentido primário, como parte carnuda que delineia a boca, aparece, por exemplo, em Cantares 4,11: “teus LÁBIOS (saphah) são como o fio de escarlata”.

2. Dependendo do contexto, pode indicar a fala, o idioma: “em toda a terra havia um só LÁBIO” (ou seja, uma só fala, cf. Gn 11,1). "Lábio" também indica linguagem em Gn 11,7: "desçamos e confundamos os lábios deles...". 

3. Em alguns casos "saphah" serve para indicar a margem de um rio: “largou-o no LÁBIO do rio” (ou seja, na linha d’água que margeia o rio, cf. Ex 2,3). O livro de Provérbios classifica certas pessoas como tendo “lábios ardentes” (Pv 26,23). O que seria isso? 

4. Alguns tradutores, sem saber exatamente o que significa “lábio ardente”, traduzem a expressão como “lábios amorosos”. Outros por “lábios amistosos”. E outros ainda por “palavras fingidas”. Bem, pessoalmente estou mais inclinado a pensar que a expressão indica o "caluniador", o "fofoqueiro" ("nirgan", cf. v. 22). 



Jones F. Mendonça

DIVAGAÇÕES

1. Em setembro de 1517 Lutero escrevia as pouco conhecidas 99 teses contra a escolástica. Suas principais críticas dirigiam-se a filosofia de Aristóteles, acolhida pela teologia do final da era medieval como fundamento da doutrina da Igreja. Os escolásticos giravam ao redor de Aristóteles como mariposas hipnotizadas pela luz. O tal do Aristóteles, caso nunca tenha ouvido falar dele, foi um filósofo do século IV a.C. Aliás, um baita de um filósofo. Lutero – debochado que era – tratava-o como “enganador de inteligências”. Duas eram as razões: 

2. A primeira: os teólogos escolásticos usavam a lógica de Aristóteles para expor os dogmas de fé da Igreja. A doutrina da trindade, esbravejava o monge indignado, não pode ser exposta nos termos da lógica. Lutero, neste ponto, era um fideísta, ou seja, via a lógica como uma mosca na sopa da teologia. Mas a implicância de Lutero não se dirigia apenas à lógica de Aristóteles. Sua teologia da depravação total entrava em choque direto com a ética de Aristóteles, tão na moda. Esta é a segunda razão. Explico. 

3. Embora não gostasse de Aristóteles, Lutero tinha muita afinidade com a filosofia de Platão, mestre de Aristóteles (Pois é, a filosofia sempre agiu como uma espécie de chiclete nos sapatos dos teólogos). Bem, Lutero propôs uma visão muito pessimista do ser humano, visto, em seu estado natural, como “cavalo de Satanás”. Os escolásticos, tão criticados por ele, vislumbravam uma antropologia mais otimista. Achavam que essa teologia de depravação total era um exagero, coisa meio mórbida, de mau gosto

4. Outro teólogo que não engoliu a filosofia aristotélica foi Nicolau de Cusa. Nicolau achava que a lógica de Aristóteles não subsistia em questões divinas. Não entendeu? Dou um exemplo: de acordo com a lógica de Aristóteles – que a gente ainda usa na escola – duas realidades contrárias não podem coincidir: “dia” não pode ser simultaneamente “noite”. Parece óbvio, não? Mas Nicolau dizia que Deus está cima de qualquer oposição e que, portanto, deve ser tratado como “coincidentia oppositorum” (coincidência dos opostos). Sim, esses caras “viajavam” muito. 

5. Mas doidão mesmo era Calvino. O teólogo tinha grande apreço pela ideia da Providência divina, coisa que, ao que parece, foi tomada dos estoicos, grupo de filósofos que fez muito sucesso no primeiro século (você já deve ter notado até aqui que os teólogos não deixam os filósofos em paz). Calvino dizia, vejam só, que Adão e Eva pecaram porque Deus determinou por sua Providência que pescassem. Ao mesmo tempo insistia em afirmar que eles pecaram por sua própria culpa. É ou não uma teologia muito louca? 



Jones F. Mendonça

LUTERO E CALVINO NAS ONDAS DO HUMANISMO

1. Em 1509, enquanto Lutero conquistava seu diploma de bacharel em Bíblia pela Faculdade de Wittenberg, Erasmo de Roterdã - seu futuro desafeto - debochava do declínio moral do clero inspirado no sarcasmo de Luciano de Samósata, escritor latino do II século. Estava na moda ler os clássicos, que começaram a chegar fresquinhos do Oriente pelas traduções dos árabes muçulmanos. Calvino, por exemplo, chegou a publicar em 1532 um comentário sobre o “de Clementia”, de Sêneca, um filósofo estoico. Voltemos a Erasmo.

2. No texto irônico produzido por Erasmo, intitulado “O elogio da loucura”, o Papa da época (Júlio II) é barrado por São Pedro nas portas do céu e é tratado pelo apóstolo como “Júlio, o imperador que voltou do inferno”. Que ousadia, não! Uma das razões da recusa de Pedro era o gosto de Júlio pela espada, daí sua fala: “Batina de padre, mas armadura ensanguentada por baixo”. Para quem não sabe este Papa aparece no filme “Lutero” (2004, direção de Eric Till). Na cena ele surge todo imponente vestindo uma armadura. Lutero faz cara de quem viu e não gostou.

3. O Renascimento e o humanismo tiveram influência direta sobre a Reforma. Foi a partir dos trabalhos de Lourenzo Valla, um famoso humanista, que Lutero pôde elaborar críticas severas à tradição católica. Bem, mas embora tenha sido instruído a partir de uma formação humanista, nunca foi humanista. Enfim, surfou nas ondas do humanismo, mas não mergulhou em suas águas. Uma pena...

  

Jones F. Mendonça

A MORTE EM SEIS PERSONAGENS BÍBLICOS

1. Sete personagens bíblicos pedem sua própria morte em momentos de grande angústia: 1) Moisés sentindo-se impotente diante da fome do povo 2) Jeremias açoitado pelo sacerdote Pasur (20,14); 3) moribundo, diante de três amigos, após ter perdido tudo (3,3); 4) Elias, à sombra de uma árvore, perseguido pela rainha Jezabel (1Rs 19,4); 5) Tobias humilhado e cego (3,6); e 6) Matatias indignado pela profanação do Templo (1Mac 2,13).

2. O sétimo personagem pede a morte por uma razão bem estranha: “eu sabia que tu és um Deus de piedade e de ternura... é melhor para mim a morte do que a vida” (Jn 4,3). O tema principal de Jonas não é a Providência Divina, que move céus e mares para que seus planos se concretizem. É sobre um religioso, que se via como membro de um povo escolhido, e que não aceitava o perdão divino estendido aos "não eleitos".

 

Jones F. Mendonça

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

COLUNAS DO PERÍODO DO SEGUNDO TEMPLO DESENTERRADAS EM JERUSALÉM

Arqueólogos descobriram em Jerusalém os capiteis de uma construção do século VIII, tempo do reinado de Ezequias. A datação foi feita a partir do modelo arquitetônico proto-eólico das colunas. Até o momento permanece desconhecida a identidade do dono da propriedade e a razão que levou alguém a enterrar cuidadosamente os capiteis. Os motivos curvos esculpidos nas rochas representam uma tamareira, associada à "árvore da vida", símbolo comum no Antigo Oriente Próximo. Leia mais sobre a descoberta aqui. Caso esteja interessado nos capiteis, clique aqui

  

Jones F. Mendonça



sexta-feira, 28 de agosto de 2020

COLONIALIDADES CONSERVADORAS

1. Quando um conservador de peso como o britânico Roger Scruton expõe as razões de sua postura conservadora, não é difícil entendê-lo, embora não necessariamente seja possível concordar com ele. Scruton diz querer preservar as coisas boas da cultura de seu país: a pintura (como a de William Blake), a literatura (como a de Charles Dickens) a música (como a de Gustav Holst), a imponência, a elegância e a história do Palácio de Westminster (sede do Parlamento britânico), o aconchego e o charme dos antigos povoados e até mesmo a tradição do chá, da monarquia e da fé anglicana. De fato, tudo muito elegante (mas que, por vezes, esconde estruturas muito perversas). 

2. Como somos um país jovem, miscigenado e herdeiro de uma longa experiência de colonialidade, o conservadorismo que aqui se espalha ainda não conseguiu impor uma identidade (nem bom gosto). Para alguns, ser conservador é proferir grosserias a cada dois minutos (gostam de dizer que o importante é ser politicamente incorreto). Para outros é sentir saudade de Kichute e bala Juquinha. Há quem defina o conservador a partir da adoção de uma (importada) barba ao estilo nórdico lenhador. Para outros, como Pondé, é compreender que “mulher gosta é de apanhar”. E pensar que Scruton vive dizendo que a marca do conservadorismo é a busca pela beleza. Por aqui a coisa está mais para capa de botijão de gás bordado em crochê. 



Jones F. Mendonça

domingo, 16 de agosto de 2020

HÁ RACISMO EM LAMENTAÇÕES DE JEREMIAS?

1. O livro bíblico de Lamentações expõe poeticamente dois momentos vividos pelos jovens de Jerusalém: antes da invasão babilônica eram “mais alvos que o neve” e “mais brancos que o leite” (assim é traduzido na maioria das versões). Depois da invasão ganharam aspecto “escuro” (4,18). É possível que alguém veja aqui evidência de racismo. Será?

2. Duas razões para rejeitar essa visão: a palavra hebraica traduzida por “alvo” (zakakh) não indica cor, mas “pureza”. Veja: “nem os céus são zakakh aos seus olhos” (Jó 15,15). A palavra traduzida por “branco” é tzahah, termo que aparece uma única vez na Bíblia Hebraica. Seu significado é obscuro. No texto surge como sinônimo de zakakh. É provável que indique a natureza ofuscante do branco e não a cor em si.

3. Repare, ainda no verso 7, que os mesmos jovens são apresentados como “vermelhos como os corais” e “brilhantes como safira”. Como podem ser simultaneamente “brancos” e “vermelhos”? Bem, o que se tem em vista aqui não é a cor, mas o brilho, o aspecto reluzente, a pureza, o valor. Caso retornemos ao verso 2 veremos outra comparação: os nobres eram “como ouro” (reluzentes), agora “são como barro” (ressequidos e sem brilho). 

4. Para compreender um texto escrito há mais de dois mil anos é preciso entrar na cabeça dos seus escritores. É claro que essa tarefa não é fácil e que não é possível reconstruir todo o universo do autor do texto. Uma boa dose de humildade diante do texto é sempre importante. Mas não precisamos radicalizar e achar que a tarefa é difícil a ponto de embarcarmos nessa conversa de “leitura criativa”. Isso Malafaia e Feliciano já fazem com muita maestria.


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

CONSIDERAÇÕES SOBRE A POESIA HEBRAICA

Cerca de 30% do Antigo Testamento foi escrito em forma poética. Ela aparece nos oráculos proféticos, nas orações, nos cantos fúnebres, nas celebrações de vitória, etc. Assim como a poesia mesopotâmica a poesia hebraica não trabalha com rimas, mas com paralelismos: o verso “b” reforça a ideia presente no verso “a”.

Veja como a compreensão do paralelismo ajuda a interpretar um verso de Cantares. Eis o verso (tradução NVI):

“Pois o amor é tão forte quanto a morte,
e o ciúme é tão inflexível quanto a sepultura” (Ct 8,6).

Destaco dois problemas com esta tradução: 1) algumas palavras estão mal traduzidas; 2) O tradutor não levou em conta o paralelismo. Abaixo proponho minha tradução. Veja que dispus os versos em paralelo:

A – “FORTE (1) como a MORTE (2) é o AMOR (3);
B –  ATROZ (1’) como o SHEOL (2’) é a PAIXÃO (3’).

Veja como agora tudo faz sentido: forte/atroz; amor/paixão; morte/sheol.

Algumas considerações: 1) sheol não é “sepultura”, mas “mundo dos mortos”. Nos poemas o sheol era quase que personificado como uma força impetuosa, sempre disposta a tragar vidas. 2) a palavra hebraica que traduzi por “paixão” indica simplesmente uma pulsão: dependendo do contexto pode indicar ciúme, inveja ou amor ardente (paixão ou zelo). Aqui escolhi paixão por uma razão muito simples: o paralelismo exige que seja um sinônimo de “amor”. “Ciúme”, neste caso, não faz qualquer sentido.

 

Jones F. Mendonça

VERDE É PODER

Na Bíblia, a palavra hebraica “eytan” é traduzida simultaneamente por “poderoso” (Jó 12,19), “caudaloso” (Sl 74,15), “verde” (Jr 49,19) e “seguro” (Nm 24,21). Como pode ser isso? Explico: seu sentido primário indica algo que é permanente. Por desdobramento serve para classificar pessoas “poderosas” (permanentes em sua posição), cursos d’água “caudalosos” (rios permanentes, que não se esgotam com a seca), a vegetação “verde” (que permanece viçosa nos períodos de estiagem) ou “segurança” (algo que permanece, apesar da instabilidade).


 Jones F. Mendonça

terça-feira, 4 de agosto de 2020

O VERDE NA BÍBLIA

A palavra “verde”, em nosso idioma, não serve apenas para indicar uma cor. Dou um exemplo: “na carroça havia mato SECO e mato VERDE”. Verde, aí, indica um mato viçoso, contrário de seco. Não é cor.

Uma palavra hebraica geralmente traduzida por “verde” é “yereq”. Eis um exemplo: “tenho dado todas as ervas VERDES como mantimento” (Gn 1,30). Não é difícil perceber que “yereq”, ao menos aí, não indica a cor, mas outro tipo de qualidade da erva: sua viçosidade.

Rastreei todas as ocorrências de “yereq” na Bíblia Hebraica. Sempre aparece associada aos vegetais. Nunca indica uma característica visual de um tecido, de uma pedra, de um objeto qualquer. Então fico pensando se os hebreus tinham ou não uma palavra para designar a cor verde. Acho que não.

Certamente tinham palavras específicas para o preto (qadar, shahor), para o branco (laban), para o azul (tekelet) e para algumas variações do vermelho (adom, shaniy, argaman). Mas para o verde, parece que não.

Um fundamentalista poderia me indagar: “ora, mas no que esse tipo de análise vai contribuir para minha salvação”. Eu diria: nenhuma. Até porque não estou falando de religião, mas de idiomas, de cores e de como os hebreus percebiam o mundo.


Jones F. Mendonça


O CORAÇÃO DO REI DAVI

No texto hebraico do Antigo Testamento há uma expressão cujo sentido não é claro e que só aparece associada a Davi: “golpear o coração”. São dois os episódios em que aparecem: Davi “golpeia o [seu] coração” após cortar a orla do manto de Saul (1Sm 24,5) e, de novo, “golpeia [seu] coração” após ordenar o recenseamento do povo (2Sm 24,10). Qual seria o sentido disso? Os tradutores se dividem. Ele teria sofrido uma “dor no coração”, ou sentido “o coração bater forte”, ou um “descompasso no coração” ou até mesmo “remorso”. Quer saber a verdade? Ninguém sabe com certeza o que significa. Talvez indique remorso, medo, pavor, arrependimento... Não é fácil a vida do tradutor.

 

Jones F. Mendonça


quinta-feira, 9 de julho de 2020

DAVI E ABISAG: DUAS TESES

1. Logo na abertura do segundo livro dos Reis, Davi é apresentado como um idoso impotente, tanto sob a perspectiva política como sexual. Repare que já no v. 5 Adonias, o filho mais velho, aparece se gabando de que ocupará o trono de seu pai, cuja morte se anuncia. Mas Davi não tem forças para repreendê-lo (v. 6). O texto evidencia sua fraqueza política

2. Sua potência sexual também vai de mal a pior. O v. 1 diz que ele não “podia mais se aquecer”. O termo hebraico traduzido por aquecer é “yaham”, verbo que possui evidente conotação sexual, como revela Gn 30,39: “Eles se aqueciam [acasalavam], portanto, diante das varas...”, ou o Sl 51,5: “Eis que eu nasci na iniquidade, minha mãe se aqueceu [acasalou] no pecado”. 

3. Para “aquecer” Davi, seus servos saem em busca de uma bela jovem virgem e escolhem Abisag. Mas nem a beleza de Abisag é capaz de despertar Davi, afinal – diz-nos do texto – “ele não a conheceu” (v. 5). E por que não a “conheceu”?  O texto sugere que estava definitivamente impotente. Esta é a explicação nr 1. Há uma explicação alternativa ao texto, mais tradicional.

4. Pela perspectiva nr 2, a “falta de aquecimento” de Davi teria a ver com alguma enfermidade física. O rei estaria acometido de uma doença que alterava sua temperatura corporal. Para aquecê-lo o cobriam com vestes, tal como diz o v. 1. A finalidade desta bela donzela também seria livrá-lo do frio, deitando-se ao seu lado durante a noite. O fato de não ter se relacionado sexualmente com a bela “enfermeira” indicaria o alto grau de moralidade do rei

5. Não sei o que você acha, mas pessoalmente custo a acreditar na tese da “enfermeira formosa” e do “rei respeitador”. Ao que parece, o trecho “por mais que lhe pusessem cobertas” foi um acréscimo. Veja como ficaria o v.1 sem as "cobertas": "O rei Davi estava velho, com idade avançada [por mais que lhe pusessem cobertas], por isso não conseguia se aquecer". O problema era a impotência, mas alguém tentou sugerir que era frio. 




Jones F. Mendonça

A BÍBLIA COMO ELA É: INTRIGAS NA CORTE DO REI DAVI

1. O primeiro livro de Reis descreve uma grande trama política sendo armada no final da vida de Davi. Adonias, o herdeiro legítimo na ordem de sucessão, tentou costurar apoio político, mas só conseguiu trazer para seu lado o general Joabe e e Abiatar o sacerdote. Sim, foi pouco. 

2. Salomão, o filho mais novo, recebeu apoio do sacerdote Zadoque, do profeta Natã, de Simei (homem influente na corte), de Benaia (chefe da guarda real) e toda guarda pessoal de Davi. O texto sugere Natã como grande arquiteto dessa aliança. 

3. Mas o apoio mais importante de Salomão veio Bat-sheba, sua mãe. Foi ela, seguindo conselho do profeta Natã, quem convenceu Davi a tomar uma atitude. Disse mais ou menos assim ao rei: “se Adonias assumir o trono, eu e Salomão estaremos fritos!” (1Rs 1,21). Mas ela queria deixar o rei realmente assustado.

4. Então contou a Davi que Adonias armara um baita “churrasco” na tentativa de conquistar apoio para sua ascensão ao trono. Davi, mesmo velho e impotente sexualmente, “bateu na mesa” e tomou uma decisão: “tragam uma mula, levem Salomão a Giom e façam com que Zadoc e Natã o unjam rei” (1,33-34). Não devemos subestimar um rei no limite de suas forças. 

5. Quando soube que Salomão havia sido ungido rei, Adonias e seus aliados entraram em pânico. Sentiram cheiro de sangue. Adonias até tentou se casar com Abisag, a “enfermeira” virgem e formosa do harém de Davi, mas o plano deu errado. Salomão percebeu suas intenções e encarregou Benaías do serviço: Adonias morreu em 2,25. Mas e os demais traidores?

6. Antes de morrer Davi deu algumas orientações a Salomão: elimine Joabe: não é confiável (2,5); dê um sumiço em Simei: sujeito traiçoeiro (2,8). Os dois acabaram assassinados pela mão do mesmo Benaías, agora elevado ao posto de chefe do exército (2,34; 2,46). Salomão deu ao traidor sacerdote Abiatar um destino menos trágico: o exílio (2,26).

7. O último verso do capítulo 2 encerra a rede de intrigas: “E a realeza então consolidou-se nas mãos de Salomão”. E a paz voltou a reinar no palácio. 



Jones F. Mendonça

terça-feira, 7 de julho de 2020

HEBRAICO: O REGISTRO MAIS ANTIGO

Na disputa pelo registro mais antigo contendo uma inscrição em hebraico há quatro candidatos: O calendário de Gezer (séc. X a.C.), o óstraco de Qeiyafa (séc. X a.C.), o abecedário de Tel Zaiyt (século X a.C.) e o abecedário de Izbet Sartah (séc. XII a.C.). Os epigrafistas quebram a cabeça para saber se essas inscrições foram feitas em fenício ou em hebraico porque tanto um idioma quanto o outro usaram simultaneamente o mesmo alfabeto (até o séc. IX) e porque as inscrições foram preservadas de maneira muito fragmentada. Interessados no assunto devem ler este artigo, publicado no Biblical Archaeology Society. Quem discute a questão é ninguém menos que Christopher Rollston.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 24 de junho de 2020

JEREMIAS E OS "CALCANHARES" DE JERUSALÉM

O capítulo 13 do livro do profeta Jeremias anuncia a chegada de um inimigo que vem do Norte (Babilônia), apresentado como instrumento da ira divina contra seu povo. No verso 22 o povo pergunta: “qual a razão destas coisas?”. Javé responde:
“Por causa da multidão das tuas iniquidades se descobriram as tuas vestes, e violentaram teus calcanhares”.
Um leitor ingênuo haverá de se perguntar: “qual o significado da expressão ‘violentaram teus calcanhares’?”. Bem, a NTLH capturou o eufemismo e traduziu o verso assim:
“Por que arrancaram as minhas roupas? Por que abusaram de mim?”.
“Calcanhares”, aí, é uma referência à parte posterior do corpo, ao dorso, mais especificamente às nádegas. Este capítulo, aliás, está impregnado de linguagem sexual. No verso 37, por exemplo, Jerusalém é comparada a uma mulher adúltera que “relincha (matzalah = gritos de gozo) em vergonhosa prostituição”.


Jones F. Mendonça

SOBRE POETAS, MITOS, LIBERDADE E FILOSOFIA

No século VIII a.C., enquanto profetas bíblicos como Amós denunciavam as injustiças cometidas pelo rei e pelos sacerdotes do norte de Israel, Hesíodo escrevia sua Teogonia, texto poético destinado a explicar a origem dos deuses e dos fenômenos cósmicos. Ainda não era uma busca fundamentada na razão, mas já revelava preocupação com as causas primeiras. Não seria exagero dizer que foram os poetas, com sua linguagem mítico-fantástica, que abriram caminho para o desenvolvimento das cosmogonias filosóficas e, portanto, da filosofia.  Uma segunda contribuição foi a religião grega, livre de dogmas rígidos, de textos sagrados revelados e de guardiões da “reta doutrina”. Esse modo de articular a religião favoreceu o desenvolvimento do livre pensamento e do debate de ideias. A autonomia das cidades, seu grau de bem-estar e liberdade política, foram o solo fértil para que as sementes da filosofia finalmente germinassem.  


Jones F. Mendonça

terça-feira, 23 de junho de 2020

POLÍTICA A ASCESE

Tudo começou com sua adesão ao “não vai ter Copa”. Dizia ser inadmissível perder seu tempo com futebol num momento político tão delicado. Para não parecer hipócrita suspendeu suas assinaturas de streaming: abandonou os seriados. Mas queria suprimir todas as distrações: desinstalou o Candy Crush, vendeu sua mesa de sinuca, doou os gatos, cancelou a viagem de lua de mel. Achou pouco. Ainda lhe restavam gotas de prazer. Suspendeu o sexo com a mulher, abandonou a família, transformou-se em pessoa amarga. Sua boca e sua alma eram agora incapazes de esboçar um mínimo sorriso. Aos 81 anos descobriu em Jean de Santeuil a cura para sua doença: “Castigat ridendo mores” (corrige os costumes sorrindo). Mas já era tarde demais: tinha vocação para tolices.



Jones F. Mendonça

AS COISAS FEDORENTAS NA BÍBLIA

O verbo hebraico “ba’ash” significa “cheirar mal”, “ser fedorento”, “malcheiroso”. Quando o rio se converte em sangue, em Ex 7,17, suas águas “cheiram mal” (ba’ash). Mas este é seu significado primário. Em boa parte das vezes “ba’ash” aparece como metáfora. Veja:

“Jacó disse a Simeão e a Levi: ‘vocês me transformaram num FEDORENTO ( = pessoa repugnante) entre os habitantes da terra’” (Gn 34,30).

Um substantivo derivado do verbo é “beosh”. Ele aparece em Is 34,3: “dos seus cadáveres subirá o MAU CHEIRO” e em Am 4,10: “Fiz subir às vossas narinas o MAU CHEIRO de vossos acampamentos”.


Jones F. Mendonça


O MAU HÁLITO DE JÓ

Traduzido literalmente, Jó 19,17a fica assim: “MEU ESPÍRITO tornou-se repugnante à minha mulher”. Na maioria das vezes que “meu espírito” aparece em Jó, a tradução mais indicada é “minha vida”, como em Jó 6,4: “o ardente veneno suga o meu espírito” ( = “meu ânimo” > “minha vida”). Assim teríamos: “minha vida tornou-se repugnante à minha mulher”.

Mas a palavra traduzida por “espírito” também pode significar “alento”, “fôlego”, por isso há quem traduza assim: “MEU HÁLITO tornou-se repugnante à minha mulher”. Neste caso a referência seria ao “bafo”, ao cheiro ruim que saía da boca dele. A questão seria facilmente resolvida se tivéssemos certeza que a continuação do verso diz que seu MAU CHEIRO afugenta seus próprios filhos. Assim, teríamos:
  • A - hálito ruim > mulher
  • B - cheiro ruim > filhos (a parte B reforçaria o que é dito em A)
Mas a parte “b” de Jó 19,17 é um caso à parte. A tradução “mau cheiro”, presente em boa parte das Bíblias, baseia-se numa suposição. Enfim, para sabermos a tradução correta da parte “a” (“vida” ou “hálito”?), precisamos traduzir corretamente a parte “b” (e vice versa). Não é fácil a vida dos tradutores.



Jones F. Mendonça

SOBRE A IDADE MÉDIA

Meu primeiro contato com algum tipo de rejeição ao termo “Idade das Trevas” usado para qualificar a Idade Média foi em uma obra sobre a história da arte (“Idade Média”, aliás, já carrega dimensão pejorativa). O livro destacava a beleza, a singularidade e a sofisticação da arquitetura medieval. Encontrei o mesmo tipo de crítica num livreto sobre a filosofia medieval. As autoras, católicas, insistiam em destacar aspectos positivos desse período tão controverso que durou cerca de mil anos. Fui forçado a rever meus conceitos. A abandonar alguns rótulos.

Recentemente tive contato com a obra do medievalista francês Alain de Libera. Na introdução de sua “filosofia Medieval” (Jorge Zahar, 1990) o autor rejeita duas teses muito difundidas: 1) Toda a filosofia medieval é, no fundo, apenas teologia (Bertrand Russell); 2) A “filosofia medieval” é mero resultado do casamento entre o aristotelismo e as doutrinas judaico-cristãs (Martin Heidegger). Bem, acho que já foi suficientemente destronada a ideia de que a “Idade Média” foi um período essencialmente obscurantista. Mas vamos com calma.

Tenho encontrado aqui e ali, sobretudo no ambiente reformado, pastores fazendo declarações de amor ao medievo. Revelam grande saudade do tempo em que a teologia era a rainha das ciências. Cavando fundo, como bem fazia Nietzsche, filósofo da suspeita, não é difícil descobrir a razão desse anunciado amor: é que sendo a teologia a rainha, serão eles os reis...


Jones F. Mendonça


sexta-feira, 19 de junho de 2020

PRINCÍPIO ARQUITETÔNICO E PRINCÍPIO HERMENÊUTICO

Toda a construção teológica – seja o de um Edir Macedo (barata) ou a de um Rudolf Bultmann (sofisticada) – é norteada por dois princípios: o princípio arquitetônico e o princípio hermenêutico. O primeiro é um tema das Escrituras, o segundo uma filosofia. Dois exemplos:

1) A teologia da prosperidade usa como princípio arquitetônico a prosperidade material (um tema das Escrituras) e como princípio hermenêutico a confissão positiva (uma “filosofia”); 2) A teologia de Bultmann usa como princípio arquitetônico a Palavra de Deus (um tema das Escrituras) e como princípio hermenêutico o existencialismo de Heidegger (uma filosofia).

Assim também foi com Theilhard Chardin (Cristo/evolução), Karl Rahner (encarnação/tomismo transcendental), Bonhoeffer (amor ao próximo/secularização), etc. Quem estiver interessado em ler mais sobre o assunto, sugiro a seguinte obra (muito didática e repleta de exemplos): MONDIN, Battista. Antropologia teológica. São Paulo: Paulinas, 1979.



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 15 de junho de 2020

AS DUAS ARCAS DA ALIANÇA: MILITAR E RITUAL

Embora a tradição cristã enxergue no texto do AT referências a uma arca da aliança apenas, tanto a tradição rabínica quanto a crítica das fontes notam a presença de duas arcas: uma arca militar e uma arca sacerdotal. De acordo com o Rabbi Tzemah Yoreh, em artigo publicado no TheTorah, a arca militar teria sido convertida em arca ritual pelos sacerdotes com o propósito de “domar” um objeto mágico problemático, transformando-o em móvel do templo. O mesmo teria acontecido com outros objetos, como o Éfode e o Urim e o Tumim: antes, instrumentos da atividade divinatória; depois, elementos da roupa dos sacerdotes. Leia mais clicando aqui.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 4 de junho de 2020

CAIM E ABEL, POR WILLIAM BLAKE


Um Adão assombrado, uma Eva em prantos, um Abel desfalecido e um Caim arrependido (?) ilustram esta tela fantasmagórica do mestre William Blake (~1805). Muito mais aqui.


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 27 de maio de 2020

JAVÉ COM NARIZ INFLAMADO

No hebraico bíblico não há uma palavra específica para “ira”. Quando o texto indica uma pessoa perdendo a paciência com outra, diz assim: “E inflamou-se o nariz de Fulano contra Ciclano”. Dois exemplos:

    “E inflamou-se o nariz de Jacó contra Raquel” (Gn 30,2).
    “E inflamou-se o nariz de Javé contra Moisés...” (Ex 4,14).

De modo geral os tradutores trocam “inflamou-se o nariz” por “ficou zangado” ou “ficou irritado”. As "Almeidas" preservam o “acendeu-se/inflamou-se”, mas trocam “nariz” por “ira” (“acendeu-se a ira”).

Bem, no fundo o sentido acaba sendo preservado, mas se você quer entrar na cabeça, no mundo dos escritores bíblicos, então precisa entender como os hebreus usavam as palavras.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 21 de maio de 2020

O CÂNTICO DE DÉBORA SEM CORTES

O livro bíblico de juízes, no capítulo 5, contém um dos mais belos poemas da Bíblia. No v.28 a mãe de um general que lutou contra as tribos de Israel lamenta a demora de seu filho. Ela se debruça sobre a janela e diz: “por que tanto tarda o seu carro a vir?”. O leitor já sabe a resposta: o general, filho desta mãe preocupada, está morto. Mas ela alimenta a expectativa por um cenário melhor para seu filho. Leia com atenção (tradução da Bíblia de Jerusalém):
É que sem dúvida demoram em repartir os despojos:
uma jovem, duas jovens para cada guerreiro!
Finos tecidos bordados e coloridos para Sísara [nome do general],
um enfeite, dois enfeites para meu pescoço!
Duas observações: o texto não diz “jovens/jovens”, mas “ventre/ventres”. Cada guerreiro toma para si mais de um "ventre", ou seja, mais de uma jovem para que se torne seu objeto de prazer. 

Outra coisa. Os “enfeites” do último verso não são para o “meu pescoço” (da mãe esperançosa). O texto diz claramente “para o pescoço do despojo”, ou seja, para o pescoço das jovens (ou melhor, dos “ventres”) que foram tomadas como despojo.




Jones F. Mendonça