sexta-feira, 28 de agosto de 2020
COLONIALIDADES CONSERVADORAS
domingo, 16 de agosto de 2020
HÁ RACISMO EM LAMENTAÇÕES DE JEREMIAS?
1. O livro bíblico de Lamentações
expõe poeticamente dois momentos vividos pelos jovens de Jerusalém: antes da
invasão babilônica eram “mais alvos que o neve” e “mais brancos que o leite”
(assim é traduzido na maioria das versões). Depois da invasão ganharam aspecto
“escuro” (4,18). É possível que alguém veja aqui evidência de racismo. Será?
2. Duas razões para rejeitar essa visão: a palavra hebraica traduzida por “alvo” (zakakh) não indica cor, mas “pureza”. Veja: “nem os céus são zakakh aos seus olhos” (Jó 15,15). A palavra traduzida por “branco” é tzahah, termo que aparece uma única vez na Bíblia Hebraica. Seu significado é obscuro. No texto surge como sinônimo de zakakh. É provável que indique a natureza ofuscante do branco e não a cor em si.
3. Repare, ainda no verso 7, que os mesmos jovens são apresentados como “vermelhos como os corais” e “brilhantes como safira”. Como podem ser simultaneamente “brancos” e “vermelhos”? Bem, o que se tem em vista aqui não é a cor, mas o brilho, o aspecto reluzente, a pureza, o valor. Caso retornemos ao verso 2 veremos outra comparação: os nobres eram “como ouro” (reluzentes), agora “são como barro” (ressequidos e sem brilho).
4. Para compreender um texto escrito há mais de dois mil anos é preciso entrar na cabeça dos seus escritores. É claro que essa tarefa não é fácil e que não é possível reconstruir todo o universo do autor do texto. Uma boa dose de humildade diante do texto é sempre importante. Mas não precisamos radicalizar e achar que a tarefa é difícil a ponto de embarcarmos nessa conversa de “leitura criativa”. Isso Malafaia e Feliciano já fazem com muita maestria.
Jones F. Mendonça
sexta-feira, 14 de agosto de 2020
CONSIDERAÇÕES SOBRE A POESIA HEBRAICA
Cerca de 30% do Antigo Testamento foi escrito em forma poética. Ela aparece nos oráculos proféticos, nas orações, nos cantos fúnebres, nas celebrações de vitória, etc. Assim como a poesia mesopotâmica a poesia hebraica não trabalha com rimas, mas com paralelismos: o verso “b” reforça a ideia presente no verso “a”.
Veja como a compreensão do paralelismo ajuda a interpretar um verso de Cantares. Eis o verso (tradução NVI):
e o ciúme é tão inflexível quanto a sepultura” (Ct 8,6).
Destaco dois problemas com esta tradução: 1) algumas palavras estão mal traduzidas; 2) O tradutor não levou em conta o paralelismo. Abaixo proponho minha tradução. Veja que dispus os versos em paralelo:
B – ATROZ (1’) como o SHEOL (2’) é a PAIXÃO (3’).
Veja como agora tudo faz sentido: forte/atroz; amor/paixão; morte/sheol.
Algumas considerações: 1) sheol
não é “sepultura”, mas “mundo dos mortos”. Nos poemas o sheol era quase que
personificado como uma força impetuosa, sempre disposta a tragar vidas. 2) a
palavra hebraica que traduzi por “paixão” indica simplesmente uma pulsão:
dependendo do contexto pode indicar ciúme, inveja ou amor ardente (paixão ou
zelo). Aqui escolhi paixão por uma razão muito simples: o paralelismo exige que
seja um sinônimo de “amor”. “Ciúme”, neste caso, não faz qualquer sentido.
Jones F. Mendonça
VERDE É PODER
Na Bíblia, a palavra hebraica “eytan” é traduzida simultaneamente por “poderoso” (Jó 12,19), “caudaloso” (Sl 74,15), “verde” (Jr 49,19) e “seguro” (Nm 24,21). Como pode ser isso? Explico: seu sentido primário indica algo que é permanente. Por desdobramento serve para classificar pessoas “poderosas” (permanentes em sua posição), cursos d’água “caudalosos” (rios permanentes, que não se esgotam com a seca), a vegetação “verde” (que permanece viçosa nos períodos de estiagem) ou “segurança” (algo que permanece, apesar da instabilidade).
terça-feira, 4 de agosto de 2020
O VERDE NA BÍBLIA
A palavra “verde”, em nosso
idioma, não serve apenas para indicar uma cor. Dou um exemplo: “na carroça
havia mato SECO e mato VERDE”. Verde, aí, indica um mato viçoso, contrário de
seco. Não é cor.
Uma palavra hebraica geralmente traduzida por “verde” é “yereq”. Eis um exemplo: “tenho dado todas as ervas VERDES como mantimento” (Gn 1,30). Não é difícil perceber que “yereq”, ao menos aí, não indica a cor, mas outro tipo de qualidade da erva: sua viçosidade.
Rastreei todas as ocorrências de “yereq” na Bíblia Hebraica. Sempre aparece associada aos vegetais. Nunca indica uma característica visual de um tecido, de uma pedra, de um objeto qualquer. Então fico pensando se os hebreus tinham ou não uma palavra para designar a cor verde. Acho que não.
Certamente tinham palavras específicas para o preto (qadar, shahor), para o branco (laban), para o azul (tekelet) e para algumas variações do vermelho (adom, shaniy, argaman). Mas para o verde, parece que não.
Um fundamentalista poderia me indagar: “ora, mas no que esse tipo de análise vai contribuir para minha salvação”. Eu diria: nenhuma. Até porque não estou falando de religião, mas de idiomas, de cores e de como os hebreus percebiam o mundo.
Jones F. Mendonça
O CORAÇÃO DO REI DAVI
No texto hebraico do Antigo
Testamento há uma expressão cujo sentido não é claro e que só aparece associada
a Davi: “golpear o coração”. São dois os episódios em que aparecem: Davi
“golpeia o [seu] coração” após cortar a orla do manto de Saul (1Sm 24,5) e, de
novo, “golpeia [seu] coração” após ordenar o recenseamento do povo (2Sm 24,10).
Qual seria o sentido disso? Os tradutores se dividem. Ele teria sofrido uma
“dor no coração”, ou sentido “o coração bater forte”, ou um “descompasso no
coração” ou até mesmo “remorso”. Quer saber a verdade? Ninguém sabe com certeza
o que significa. Talvez indique remorso, medo, pavor, arrependimento... Não é
fácil a vida do tradutor.
Jones F. Mendonça
quinta-feira, 9 de julho de 2020
DAVI E ABISAG: DUAS TESES
3. Para “aquecer” Davi, seus servos saem em busca de uma bela jovem virgem e escolhem Abisag. Mas nem a beleza de Abisag é capaz de despertar Davi, afinal – diz-nos do texto – “ele não a conheceu” (v. 5). E por que não a “conheceu”? O texto sugere que estava definitivamente impotente. Esta é a explicação nr 1. Há uma explicação alternativa ao texto, mais tradicional.
4. Pela perspectiva nr 2, a “falta de aquecimento” de Davi teria a ver com alguma enfermidade física. O rei estaria acometido de uma doença que alterava sua temperatura corporal. Para aquecê-lo o cobriam com vestes, tal como diz o v. 1. A finalidade desta bela donzela também seria livrá-lo do frio, deitando-se ao seu lado durante a noite. O fato de não ter se relacionado sexualmente com a bela “enfermeira” indicaria o alto grau de moralidade do rei.
5. Não sei o que você acha, mas pessoalmente custo a acreditar na tese da “enfermeira formosa” e do “rei respeitador”. Ao que parece, o trecho “por mais que lhe pusessem cobertas” foi um acréscimo. Veja como ficaria o v.1 sem as "cobertas": "O rei Davi estava velho, com idade avançada [por mais que lhe pusessem cobertas], por isso não conseguia se aquecer". O problema era a impotência, mas alguém tentou sugerir que era frio.
A BÍBLIA COMO ELA É: INTRIGAS NA CORTE DO REI DAVI
2. Salomão, o filho mais novo, recebeu apoio do sacerdote Zadoque, do profeta Natã, de Simei (homem influente na corte), de Benaia (chefe da guarda real) e toda guarda pessoal de Davi. O texto sugere Natã como grande arquiteto dessa aliança.
3. Mas o apoio mais importante de Salomão veio Bat-sheba, sua mãe. Foi ela, seguindo conselho do profeta Natã, quem convenceu Davi a tomar uma atitude. Disse mais ou menos assim ao rei: “se Adonias assumir o trono, eu e Salomão estaremos fritos!” (1Rs 1,21). Mas ela queria deixar o rei realmente assustado.
4. Então contou a Davi que Adonias armara um baita “churrasco” na tentativa de conquistar apoio para sua ascensão ao trono. Davi, mesmo velho e impotente sexualmente, “bateu na mesa” e tomou uma decisão: “tragam uma mula, levem Salomão a Giom e façam com que Zadoc e Natã o unjam rei” (1,33-34). Não devemos subestimar um rei no limite de suas forças.
5. Quando soube que Salomão havia sido ungido rei, Adonias e seus aliados entraram em pânico. Sentiram cheiro de sangue. Adonias até tentou se casar com Abisag, a “enfermeira” virgem e formosa do harém de Davi, mas o plano deu errado. Salomão percebeu suas intenções e encarregou Benaías do serviço: Adonias morreu em 2,25. Mas e os demais traidores?
terça-feira, 7 de julho de 2020
HEBRAICO: O REGISTRO MAIS ANTIGO
quarta-feira, 24 de junho de 2020
JEREMIAS E OS "CALCANHARES" DE JERUSALÉM
“Por causa da multidão das tuas iniquidades se descobriram as tuas vestes, e violentaram teus calcanhares”.
“Por que arrancaram as minhas roupas? Por que abusaram de mim?”.
SOBRE POETAS, MITOS, LIBERDADE E FILOSOFIA
terça-feira, 23 de junho de 2020
POLÍTICA A ASCESE
AS COISAS FEDORENTAS NA BÍBLIA
O MAU HÁLITO DE JÓ
- A - hálito ruim > mulher
- B - cheiro ruim > filhos (a parte B reforçaria o que é dito em A)
SOBRE A IDADE MÉDIA
sexta-feira, 19 de junho de 2020
PRINCÍPIO ARQUITETÔNICO E PRINCÍPIO HERMENÊUTICO
segunda-feira, 15 de junho de 2020
AS DUAS ARCAS DA ALIANÇA: MILITAR E RITUAL
quinta-feira, 4 de junho de 2020
CAIM E ABEL, POR WILLIAM BLAKE
terça-feira, 2 de junho de 2020
ÊXTASE E MACONHA NO ALTAR
quarta-feira, 27 de maio de 2020
JAVÉ COM NARIZ INFLAMADO
quinta-feira, 21 de maio de 2020
O CÂNTICO DE DÉBORA SEM CORTES
É que sem dúvida demoram em repartir os despojos:uma jovem, duas jovens para cada guerreiro!Finos tecidos bordados e coloridos para Sísara [nome do general],um enfeite, dois enfeites para meu pescoço!
quarta-feira, 20 de maio de 2020
CORCUNDAS, ANÕES, VESGOS E CASTRADOS NO LEVÍTICO
terça-feira, 12 de maio de 2020
O BEIJO DE JUDAS NA ARTE MEDIEVAL
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| Fonte: Wikimedia Commons |
domingo, 3 de maio de 2020
AZAZEL E OS RITUAIS APOTROPAICOS
terça-feira, 28 de abril de 2020
O “PAVIO CURTO” NA BÍBLIA HEBRAICA
sábado, 25 de abril de 2020
SÃO JORGE E O DRAGÃO
JESUS COMO NOVO ADÃO
“Javé elohim... soprou em suas narinas um hálito de vida” (Gn 2,7).“soprou sobre eles e lhes disse: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22).
sexta-feira, 10 de abril de 2020
NOTAS SOBRE DEUTERONÔMIO 26
- Um enlutado fica impuro por estar na mesma tenda que um cadáver por manuseá-lo durante o enterro ou pelo contato com outras pessoas que se tornaram impuras de uma dessas maneiras. Em tais condições qualquer alimento que ele tocasse se tornaria impuro.
- Um enlutado fica impuro ao usar parte do dízimo em uma refeição fúnebre.
- Os antigos acreditavam que os vivos podem ajudar os espíritos dos mortos no Sheol, fornecendo-lhes comida e bebida. Essa prática foi difundida no mundo antigo e também é atestada entre alguns judeus nos períodos do Segundo Templo e depois, como em Tobias 4,17: “Derrame seu pão e vinho na tumba dos justos e não dê para os pecadores”. Em algumas sepulturas escavadas em Samaria, capital do Reino do Norte, foram encontrados buracos no chão, semelhantes aos encontrados nas tumbas de Ugarit, que serviam de receptáculo para alimentos e bebidas oferecidas aos mortos. A Torá não proíbe essa prática, mas, como o contato com os mortos é profanado ritualmente, proíbe o uso do dízimo por ela.
sexta-feira, 3 de abril de 2020
UM GALILEU NO MERCADO, UM PROFETA NO RESTAURANTE
Ô galileu, tolo, o que tu precisas é de uma coisa para montar (hamâr, um burro), de algo para beber (hamar, vinho), algo para cozer ('amar, lã), ou algo para um sacrifício no Templo (immar, cordeiro)?
sexta-feira, 20 de março de 2020
ARTE, PANDEMIA E EXEGESE
terça-feira, 17 de março de 2020
CORONA VIRUS, CORONA VIRO
sábado, 7 de março de 2020
PROFETISMO NO ANTIGO ORIENTE PRÓXIMO [LIVROS GRATUITOS]
Jones F. Mendonça
quarta-feira, 4 de março de 2020
ARQUEOLOGIA, ICONOGRAFIA E EXEGESE
Jones F. Mendonça
A REVOLTA DE CORÉ E O FOGO DE SODOMA
terça-feira, 3 de março de 2020
NIMROD: AMIGO OU INIMIGO DE JAVÉ?
sábado, 29 de fevereiro de 2020
JURAMENTO E TESTÍCULOS SENSÍVEIS
terça-feira, 11 de fevereiro de 2020
OS RINS, O CORAÇÃO OU A CONSCIÊNCIA?
2. “Iahweh que me aconselha, e, mesmo à noite, MEUS RINS me instruem” (BJ).
3. “o Senhor me aconselha; na escura noite o MEU CORAÇÃO me ensina!” (NVI).







