domingo, 25 de outubro de 2026

A CULTURA ESCRIBAL E A PRODUÇÃO DA BÍBLIA HEBRAICA


1. Leio um trabalho sobre o papel dos escribas na composição da Bíblia, escrito pelo holandês Karel van der Toorn (Scribal Culture and the Making of the Hebrew Bible). No primeiro capítulo, o autor destaca que os textos sagrados só ganharam forma de “livro”, em sentido moderno, a partir da invenção do códice (final do I século a.C.), um conjunto de folhas de couro unidas por uma costura em uma das margens. Antes disso, os textos apareciam dispersos em uma coleção de rolos. O códice facilitou a leitura em uma sequência pré-ordenada, característica que ainda prevalece nas Bíblias Modernas.

2. Além de permitir a justaposição de textos sagrados, o códice também contribuiu para materializar a ideia de um “cânon”, uma lista de textos considerados autorizados. Escribas do Segundo Templo, situados no período persa e helenístico (500-200 a.C.), tiveram um papel importante na escrita da Bíblia, não apenas copiando, mas editando, produzindo expansões editoriais, anotações, corrigindo falhas, fazendo leituras públicas, interpretando, etc. Eram, segundo Toorn, “guardiões do patrimônio literário dos judeus”.

3. Uma observação interessante feita pelo autor diz respeito à mudança na forma de devoção, antes baseada no jejum, no sacrifício, nas preces e na guarda dos dias sagrados. Toorn explica que a conversão da tradição oral em “livro” tornou a leitura um “ato de devoção”. Ele assinala que a leitura não era feita de maneira silenciosa, mas de forma audível, por meio da proclamação. Não sem razão, o verbo “ler”, em hebraico (qaraˈ), significa “proclamar, falar em voz alta”. A declaração paulina “a fé vem pelo ouvir” (Rm 10,17), talvez seja uma boa ilustração do que o autor quer dizer.

4. Eis o que sugere Karel van der Toorn: quando você lê Gênesis, Jeremias, Habacuc ou Provérbios, não está lendo exatamente o que Moisés, Jeremias, Habacuc ou Salomão escreveram. Está lendo correntes de tradição muito antigas, preservadas, remodeladas, editadas, atualizadas e expandidas pelos escribas, que só ganharam forma final após um longo e contínuo processo de atualização e ressignificação. “Lei de Moisés”, “Salmos de Davi” e Provérbios de Salomão” são títulos atribuídos tardiamente, cuja finalidade é vincular uma corrente de tradição a uma figura importante do passado.


Para saber mais:
VAN DER TOORN, Karel. Scribal culture and the making of the Hebrew Bible. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2007.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 20 de outubro de 2026

A FORMAÇÃO DO CÂNON DA BÍBLIA HEBRAICA, SEGUNDO KAREL VAN DER TOORN


1. De acordo com Karel van der Toorn, ao converter a “Lei de Moisés”, a “Lei do Deus do céu”, em código civil (entre 450-400 a.C.), o rei persa contribuiu para a definição da Torah, os cinco primeiros livros da Bíblia Hebraica, como Escritura, como tradição sagrada escrita, mais tarde classificada como “obra canônica”. O autor chega a dizer que “sem os persas, não teria havido um Pentateuco. Os persas também são responsáveis pela transformação da Torá em Lei, pois a codificação das tradições legais não deixou sua natureza inalterada” (p. 251).

2. Note que: 1) O rei persa trata a “Lei do Deus do céu” como dath (דת), palavra aramaica que significa “lei”, “decreto” (cf. Eds 7,25-26); 2) A “lei do Deus do céu” passa a ser tratada, simultaneamente, como instrução religiosa e código civil, como documento definido para orientar a vida da população de Judá em todas as suas dimensões. E esta lei, o texto acrescenta, é a “Lei o rei”, a lei do soberano persa que controla a transeufratênia ( = além do rio), a província de Judá.

3. O próximo passo para a definição do “cânon” teria sido a criação da “doutrina do encerramento da era profética” (entre 300-200 a.C.), artifício criado pelos escribas sacerdotes e levitas com a finalidade de submeter a profecia ao seu controle político-ideológico. De acordo com essa doutrina, “as revelações diretas foram suspensas”, e “a iluminação divina só poderia ser obtida pelo estudo da Lei e dos Profetas” (p. 252). Foram incluídos nessa lista obras atribuídas a grandes figuras do passado. A pseudoepigrafia e a autoria atribuída permitiram a inclusão de obras redigidas tardiamente.

4. De forma resumida: a hipótese de Karel van der Toorn considera a definição do cânon em dois atos: 1) A Torah (instrução) passar a ser tratada como obra canônica em função de sua conversão em código civil, tal como determinava a corte persa; 2) Os Profetas e os “demais escritos” passam a ser vistos como obra canônica graças a alegado “fim da profecia”, dando aos escribas sacerdotes e levitas controle sobre o que é e o que não é palavra divina: “o corpo de escribas de Jerusalém tentou assegurar sua liderança moral desqualificando visionários e extáticos contemporâneos como meros tagarelas” (p. 263).

Para saber mais:
VAN DER TOORN, Karel. Scribal culture and the making of the Hebrew Bible. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2007.


Jones F. Mendonça