sexta-feira, 13 de novembro de 2020
O "DEDO MÍNIMO" DE ROBOÃO
EXEGESE FUNDAMENTALISTA
Tontinho não perde tempo e também apanha sua Bíblia. Abre na Carta de Paulo aos Coríntios e contesta Bobinho: “Na verdade, as ARMAS com que combatemos não são carnais (2 Co 10,4). E então cita o Eclesiastes: “Mais vale sabedoria do que ARMAS” (Ecl 9,18).
Parece piada, mas é a partir de leituras assim que muitos debates se desenvolvem no ambiente religioso de matriz fundamentalista. Aqui posso citar dois nomes: Yago Martins e Augustus Nicodemus.
Jones F. Mendonça
A NEGRITUDE EM CANTARES
terça-feira, 10 de novembro de 2020
PROFETAS, IMPÉRIOS E MILÍCIAS
INDULGÊNCIAS
MALAQUIAS E O DISCO SOLAR ALADO
SOBRE PRESSUPOSTOS
ANACRONISMOS REFORMADOS
SOBRE TEOLOGIAS FRÁGEIS
sábado, 7 de novembro de 2020
WAYNE GRUDEM: "OS BENS SÃO PARA GLORIFICAR A DEUS" (SEI...)
REBECA NÃO CAI DO CAMELO
LUTHER KING: LA FUERZA DE AMAR
O colonialismo não teria se perpetuado se a Igreja Cristã o tivesse confrontado diretamente. Um dos defensores do sistema vicioso de apartheid na África do Sul é atualmente a Igreja Reformada Protestante Holandesa [1].
LUTHER KING E A TEOLOGIA LIBERAL
SOFONIAS E AMÓS: ORÁCULOS INVERTIDOS
Eles construíram casas, mas NÃO as habitarão,Plantaram vinhas, mas NÃO beberão do seu vinho” (Sf 1,13).RECONSTRUIRÃO as cidades devastadas e as habitarão,Plantarão vinhas e BEBERÃO o seu vinho (Am 9,14).
BRUXAS, INQUISIÇÃO E MISOGINIA
Seja qual for o castigo que ordenemos contra as bruxas, assá-las ou cozê-las ao fogo lento não é realmente demais e não tão ruim quanto [...] as agonias eternas que lhes estão preparadas no inferno, porque o fogo aqui não pode demorar muito mais do que ao redor de uma hora até que a bruxa morra (BODIN, Jean. On Demon-mania of witches. Toronto: CRRS publications, 2001, p.173).
Jones F. Mendonça
terça-feira, 15 de setembro de 2020
INVOLUÇÃO COGNITIVA
2. Na Antiga Grécia, buscando
respostas fundamentadas na razão, os primeiros filósofos dedicaram-se a
localizar um princípio originário único capaz de explicar do mundo. A partir dessa
nova orientação investigativa nasceu a ciência moderna: a astronomia, a
zoologia, a química, a biologia, etc. Mas a sede, a busca incessante pelas
origens não parou por aí.
3. O psicólogo canadense Merlin
Donald propôs recentemente uma interessante teoria para explicar a origem do
sistema cognitivo humano. Ele diz que o desenvolvimento da capacidade de
externalização da memória, pela escrita, age diretamente em nosso sistema
cognitivo, promovendo uma relação dialética entre cérebro e cultura.
4. Focando nessa “externalização
da memória”, podemos pensar em três grandes revoluções dos nossos sistemas
culturais para armazenar conhecimento: a) a invenção da escrita; b) da prensa
tipográfica, e c) das novas tecnologias digitais. Eis aqui o grande paradoxo.
5. Ao mesmo tempo em que apontam
para o avanço do sistema cognitivo humano e grande capacidade de
desenvolvimento tecnológico, as tecnologias digitais têm sido usadas para
disseminar o terraplanismo, teorias conspiracionistas, ideologias antivacina,
fundamentalismos religiosos e obscurantismos científicos.
6. Se a gente não segurar esse
pessoal, em breve estaremos de volta à Idade da Pedra.
Jones F. Mendonça
quinta-feira, 10 de setembro de 2020
OS LÁBIOS NA BÍBLIA
DIVAGAÇÕES
LUTERO E CALVINO NAS ONDAS DO HUMANISMO
2. No texto irônico produzido por Erasmo, intitulado “O elogio da loucura”, o Papa da época (Júlio II) é barrado por São Pedro nas portas do céu e é tratado pelo apóstolo como “Júlio, o imperador que voltou do inferno”. Que ousadia, não! Uma das razões da recusa de Pedro era o gosto de Júlio pela espada, daí sua fala: “Batina de padre, mas armadura ensanguentada por baixo”. Para quem não sabe este Papa aparece no filme “Lutero” (2004, direção de Eric Till). Na cena ele surge todo imponente vestindo uma armadura. Lutero faz cara de quem viu e não gostou.
3. O Renascimento e o humanismo tiveram influência direta sobre a Reforma. Foi a partir dos trabalhos de Lourenzo Valla, um famoso humanista, que Lutero pôde elaborar críticas severas à tradição católica. Bem, mas embora tenha sido instruído a partir de uma formação humanista, nunca foi humanista. Enfim, surfou nas ondas do humanismo, mas não mergulhou em suas águas. Uma pena...
Jones F. Mendonça
A MORTE EM SEIS PERSONAGENS BÍBLICOS
1. Sete personagens bíblicos pedem sua própria morte em momentos de grande angústia: 1) Moisés sentindo-se impotente diante da fome do povo 2) Jeremias açoitado pelo sacerdote Pasur (20,14); 3) Jó moribundo, diante de três amigos, após ter perdido tudo (3,3); 4) Elias, à sombra de uma árvore, perseguido pela rainha Jezabel (1Rs 19,4); 5) Tobias humilhado e cego (3,6); e 6) Matatias indignado pela profanação do Templo (1Mac 2,13).
2. O sétimo personagem pede a morte por uma razão bem estranha: “eu sabia que tu és um Deus de piedade e de ternura... é melhor para mim a morte do que a vida” (Jn 4,3). O tema principal de Jonas não é a Providência Divina, que move céus e mares para que seus planos se concretizem. É sobre um religioso, que se via como membro de um povo escolhido, e que não aceitava o perdão divino estendido aos "não eleitos".
Jones F. Mendonça
quinta-feira, 3 de setembro de 2020
COLUNAS DO PERÍODO DO SEGUNDO TEMPLO DESENTERRADAS EM JERUSALÉM
Arqueólogos descobriram em Jerusalém os capiteis de uma construção do século VIII, tempo do reinado de Ezequias. A datação foi feita a partir do modelo arquitetônico proto-eólico das colunas. Até o momento permanece desconhecida a identidade do dono da propriedade e a razão que levou alguém a enterrar cuidadosamente os capiteis. Os motivos curvos esculpidos nas rochas representam uma tamareira, associada à "árvore da vida", símbolo comum no Antigo Oriente Próximo. Leia mais sobre a descoberta aqui. Caso esteja interessado nos capiteis, clique aqui.
Jones F. Mendonça
sexta-feira, 28 de agosto de 2020
COLONIALIDADES CONSERVADORAS
domingo, 16 de agosto de 2020
HÁ RACISMO EM LAMENTAÇÕES DE JEREMIAS?
1. O livro bíblico de Lamentações
expõe poeticamente dois momentos vividos pelos jovens de Jerusalém: antes da
invasão babilônica eram “mais alvos que o neve” e “mais brancos que o leite”
(assim é traduzido na maioria das versões). Depois da invasão ganharam aspecto
“escuro” (4,18). É possível que alguém veja aqui evidência de racismo. Será?
2. Duas razões para rejeitar essa visão: a palavra hebraica traduzida por “alvo” (zakakh) não indica cor, mas “pureza”. Veja: “nem os céus são zakakh aos seus olhos” (Jó 15,15). A palavra traduzida por “branco” é tzahah, termo que aparece uma única vez na Bíblia Hebraica. Seu significado é obscuro. No texto surge como sinônimo de zakakh. É provável que indique a natureza ofuscante do branco e não a cor em si.
3. Repare, ainda no verso 7, que os mesmos jovens são apresentados como “vermelhos como os corais” e “brilhantes como safira”. Como podem ser simultaneamente “brancos” e “vermelhos”? Bem, o que se tem em vista aqui não é a cor, mas o brilho, o aspecto reluzente, a pureza, o valor. Caso retornemos ao verso 2 veremos outra comparação: os nobres eram “como ouro” (reluzentes), agora “são como barro” (ressequidos e sem brilho).
4. Para compreender um texto escrito há mais de dois mil anos é preciso entrar na cabeça dos seus escritores. É claro que essa tarefa não é fácil e que não é possível reconstruir todo o universo do autor do texto. Uma boa dose de humildade diante do texto é sempre importante. Mas não precisamos radicalizar e achar que a tarefa é difícil a ponto de embarcarmos nessa conversa de “leitura criativa”. Isso Malafaia e Feliciano já fazem com muita maestria.
Jones F. Mendonça
sexta-feira, 14 de agosto de 2020
CONSIDERAÇÕES SOBRE A POESIA HEBRAICA
Cerca de 30% do Antigo Testamento foi escrito em forma poética. Ela aparece nos oráculos proféticos, nas orações, nos cantos fúnebres, nas celebrações de vitória, etc. Assim como a poesia mesopotâmica a poesia hebraica não trabalha com rimas, mas com paralelismos: o verso “b” reforça a ideia presente no verso “a”.
Veja como a compreensão do paralelismo ajuda a interpretar um verso de Cantares. Eis o verso (tradução NVI):
e o ciúme é tão inflexível quanto a sepultura” (Ct 8,6).
Destaco dois problemas com esta tradução: 1) algumas palavras estão mal traduzidas; 2) O tradutor não levou em conta o paralelismo. Abaixo proponho minha tradução. Veja que dispus os versos em paralelo:
B – ATROZ (1’) como o SHEOL (2’) é a PAIXÃO (3’).
Veja como agora tudo faz sentido: forte/atroz; amor/paixão; morte/sheol.
Algumas considerações: 1) sheol
não é “sepultura”, mas “mundo dos mortos”. Nos poemas o sheol era quase que
personificado como uma força impetuosa, sempre disposta a tragar vidas. 2) a
palavra hebraica que traduzi por “paixão” indica simplesmente uma pulsão:
dependendo do contexto pode indicar ciúme, inveja ou amor ardente (paixão ou
zelo). Aqui escolhi paixão por uma razão muito simples: o paralelismo exige que
seja um sinônimo de “amor”. “Ciúme”, neste caso, não faz qualquer sentido.
Jones F. Mendonça
VERDE É PODER
Na Bíblia, a palavra hebraica “eytan” é traduzida simultaneamente por “poderoso” (Jó 12,19), “caudaloso” (Sl 74,15), “verde” (Jr 49,19) e “seguro” (Nm 24,21). Como pode ser isso? Explico: seu sentido primário indica algo que é permanente. Por desdobramento serve para classificar pessoas “poderosas” (permanentes em sua posição), cursos d’água “caudalosos” (rios permanentes, que não se esgotam com a seca), a vegetação “verde” (que permanece viçosa nos períodos de estiagem) ou “segurança” (algo que permanece, apesar da instabilidade).
terça-feira, 4 de agosto de 2020
O VERDE NA BÍBLIA
A palavra “verde”, em nosso
idioma, não serve apenas para indicar uma cor. Dou um exemplo: “na carroça
havia mato SECO e mato VERDE”. Verde, aí, indica um mato viçoso, contrário de
seco. Não é cor.
Uma palavra hebraica geralmente traduzida por “verde” é “yereq”. Eis um exemplo: “tenho dado todas as ervas VERDES como mantimento” (Gn 1,30). Não é difícil perceber que “yereq”, ao menos aí, não indica a cor, mas outro tipo de qualidade da erva: sua viçosidade.
Rastreei todas as ocorrências de “yereq” na Bíblia Hebraica. Sempre aparece associada aos vegetais. Nunca indica uma característica visual de um tecido, de uma pedra, de um objeto qualquer. Então fico pensando se os hebreus tinham ou não uma palavra para designar a cor verde. Acho que não.
Certamente tinham palavras específicas para o preto (qadar, shahor), para o branco (laban), para o azul (tekelet) e para algumas variações do vermelho (adom, shaniy, argaman). Mas para o verde, parece que não.
Um fundamentalista poderia me indagar: “ora, mas no que esse tipo de análise vai contribuir para minha salvação”. Eu diria: nenhuma. Até porque não estou falando de religião, mas de idiomas, de cores e de como os hebreus percebiam o mundo.
Jones F. Mendonça
O CORAÇÃO DO REI DAVI
No texto hebraico do Antigo
Testamento há uma expressão cujo sentido não é claro e que só aparece associada
a Davi: “golpear o coração”. São dois os episódios em que aparecem: Davi
“golpeia o [seu] coração” após cortar a orla do manto de Saul (1Sm 24,5) e, de
novo, “golpeia [seu] coração” após ordenar o recenseamento do povo (2Sm 24,10).
Qual seria o sentido disso? Os tradutores se dividem. Ele teria sofrido uma
“dor no coração”, ou sentido “o coração bater forte”, ou um “descompasso no
coração” ou até mesmo “remorso”. Quer saber a verdade? Ninguém sabe com certeza
o que significa. Talvez indique remorso, medo, pavor, arrependimento... Não é
fácil a vida do tradutor.
Jones F. Mendonça
quinta-feira, 9 de julho de 2020
DAVI E ABISAG: DUAS TESES
3. Para “aquecer” Davi, seus servos saem em busca de uma bela jovem virgem e escolhem Abisag. Mas nem a beleza de Abisag é capaz de despertar Davi, afinal – diz-nos do texto – “ele não a conheceu” (v. 5). E por que não a “conheceu”? O texto sugere que estava definitivamente impotente. Esta é a explicação nr 1. Há uma explicação alternativa ao texto, mais tradicional.
4. Pela perspectiva nr 2, a “falta de aquecimento” de Davi teria a ver com alguma enfermidade física. O rei estaria acometido de uma doença que alterava sua temperatura corporal. Para aquecê-lo o cobriam com vestes, tal como diz o v. 1. A finalidade desta bela donzela também seria livrá-lo do frio, deitando-se ao seu lado durante a noite. O fato de não ter se relacionado sexualmente com a bela “enfermeira” indicaria o alto grau de moralidade do rei.
5. Não sei o que você acha, mas pessoalmente custo a acreditar na tese da “enfermeira formosa” e do “rei respeitador”. Ao que parece, o trecho “por mais que lhe pusessem cobertas” foi um acréscimo. Veja como ficaria o v.1 sem as "cobertas": "O rei Davi estava velho, com idade avançada [por mais que lhe pusessem cobertas], por isso não conseguia se aquecer". O problema era a impotência, mas alguém tentou sugerir que era frio.
A BÍBLIA COMO ELA É: INTRIGAS NA CORTE DO REI DAVI
2. Salomão, o filho mais novo, recebeu apoio do sacerdote Zadoque, do profeta Natã, de Simei (homem influente na corte), de Benaia (chefe da guarda real) e toda guarda pessoal de Davi. O texto sugere Natã como grande arquiteto dessa aliança.
3. Mas o apoio mais importante de Salomão veio Bat-sheba, sua mãe. Foi ela, seguindo conselho do profeta Natã, quem convenceu Davi a tomar uma atitude. Disse mais ou menos assim ao rei: “se Adonias assumir o trono, eu e Salomão estaremos fritos!” (1Rs 1,21). Mas ela queria deixar o rei realmente assustado.
4. Então contou a Davi que Adonias armara um baita “churrasco” na tentativa de conquistar apoio para sua ascensão ao trono. Davi, mesmo velho e impotente sexualmente, “bateu na mesa” e tomou uma decisão: “tragam uma mula, levem Salomão a Giom e façam com que Zadoc e Natã o unjam rei” (1,33-34). Não devemos subestimar um rei no limite de suas forças.
5. Quando soube que Salomão havia sido ungido rei, Adonias e seus aliados entraram em pânico. Sentiram cheiro de sangue. Adonias até tentou se casar com Abisag, a “enfermeira” virgem e formosa do harém de Davi, mas o plano deu errado. Salomão percebeu suas intenções e encarregou Benaías do serviço: Adonias morreu em 2,25. Mas e os demais traidores?
terça-feira, 7 de julho de 2020
HEBRAICO: O REGISTRO MAIS ANTIGO
quarta-feira, 24 de junho de 2020
JEREMIAS E OS "CALCANHARES" DE JERUSALÉM
“Por causa da multidão das tuas iniquidades se descobriram as tuas vestes, e violentaram teus calcanhares”.
“Por que arrancaram as minhas roupas? Por que abusaram de mim?”.
SOBRE POETAS, MITOS, LIBERDADE E FILOSOFIA
terça-feira, 23 de junho de 2020
POLÍTICA A ASCESE
AS COISAS FEDORENTAS NA BÍBLIA
O MAU HÁLITO DE JÓ
- A - hálito ruim > mulher
- B - cheiro ruim > filhos (a parte B reforçaria o que é dito em A)


