terça-feira, 30 de junho de 2015

A HISTÓRIA DA ARTE (E DO PENSAMENTO) OCIDENTAL EM QUATRO TELAS



Trata-se de uma visão extremamente simplificada, mas pode facilitar o entendimento a respeito das transformações pelas quais passou a arte ao longo dos séculos:

1. A primeira imagem mostra uma escultura grega (Vênus de Milo, séc. II a.C.). Note que há uma extrema valorização do corpo, que é retratado com meticulosa perfeição. 

2. A segunda imagem mostra uma tela medieval ilustrando uma cena bíblica (Hilda Codex, século XI d.C.). Considerando que o cristianismo projeta o ideal de vida num mundo extraterreno, o foco passa a ser a piedade e não mais o corpo. Mundo sob a tutela da Igreja (teocentrismo). 

3. A terceira tela (Adão e Eva, de Raffaello Sanzio, 1509-11), do final da Idade Média, embora retratando uma cena bíblica, é marcada pelo retorno ao ideal de beleza grego. A palavra “Renascimento” significa justamente isto: o resgate dos valores greco-romanos (antropocentrismo). Lutero está aqui, surfando na onda do Renascimento. 

4. Na quarta fase (séc. XIX) a arte rompe definitivamente com a tradição, buscando constantemente novas formas de expressão (“A cigana adormecida”, de Henri Rousseau, 1897).



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 24 de junho de 2015

O LUXO DO CLERO E O CRISTO CRUCIFICADO

Até o final do século XII são raras as telas representando o Cristo crucificado com ênfase em seu sofrimento. A partir daí há uma verdadeira explosão de imagens expondo Cristo como homem de dores. Essa mudança coincide com o surgimento de ordens religiosas mendicantes (fiéis à Igreja) e de grupos dissidentes como os cátaros e valdenses (perseguidos pela Inquisição). Os dois grupos têm algo em comum: uma crítica ferrenha à ostentação do clero e seu distanciamento da simplicidade da igreja apostólica. A imagem do Cristo crucificado, exposto à ignomínia, é um reflexo desse momento histórico vivido pela cristandade. Abaixo uma tela de Bonaventura Berlinghieri (1260-70).



Jones F. Mendonça

FRANCISCO E O SUFISMO

Mais uma vez surpreendendo, Papa Francisco cita poeta místico muçulmano em sua encíclica sobre o meio ambiente: 
O Universo se desdobra em Deus, que o preenche completamente. Assim, há um significado místico a ser encontrado em uma folha, na trilha de uma montanha, em uma gota de orvalho, no rosto de uma pessoa pobre.
O texto, que lembra trechos do Evangelho de Tomé, escritos produzidos por cristãos místicos medievais ou poemas do escritor romântico inglês William Blake, é uma citação direta de Ali al-Khawas, adepto do sufismo, vertente mística do Islã.

Os mais ortodoxos poderiam ver no trecho indícios de uma dupla inclinação herética: o panteísmo e sua aproximação com uma religião não cristã. Mas Francisco parece não temer as lanças da ortodoxia. 

Leia aqui e aqui





Jones F. Mendonça

terça-feira, 23 de junho de 2015

REFORMA PROTESTANTE E PODER GOSPEL

Tente imaginar a Igreja a partir do século XII. As ideias separatistas de Pedro Valdo (1140-1217), um comerciante de Lyon, espalham-se pela Europa, gerando preocupação da liderança católica. Os seguidores de Valdo (valdenses), dotados de uma espiritualidade voltada à pobreza e simplicidade dos cultos, são duramente perseguidos pela Inquisição. Ao lado dos valdenses surgem os cátaros (ou “homens bons”), outro grupo dissidente visto como ameaça à fé cristã oficial que também sofreu com a perseguição. 

Mas o descontentamento com a espiritualidade cristã medieval deu outros frutos. Comprometidos com a igreja, mas igualmente insatisfeitos com o luxo e a ambição pelo poder da liderança romana, surgem ordens mendicantes como franciscanos, dominicanos e carmelitas. Some-se a isso uma crise do papado conhecida como “cisma papal” (1378-1414), marcada pela existência de dois papas governando a igreja simultaneamente em confronto direto: um na França (Avinhão) e outro em Roma. 

Em meio à crise aparecem dois grandes pregadores eloqüentes anunciando aos quatro ventos uma crítica feroz à Igreja: John Wyclif (Inglaterra, 1320-1384) e Jan Hus (Boêmia, 1369-1415). O primeiro morreu queimado. O segundo (protegido por gente poderosa) escapou da morte, mas teve seu corpo exumado, sendo seus restos mortais incinerados. 

Para finalizar imagine nobres em seus belos castelos, ansiosos pelo fim da influência do papado em seus negócios e de olho nas terras da Igreja. Igualmente ambiciosos e insatisfeitos com o poder da igreja e suas interferências aparecem os burgueses, comerciantes que enriqueciam com o comércio e o empréstimo de dinheiro. O palco está armado.

Doutrinas confusas, imoralidade do clero, surgimento de grupos dissidentes e ordens mendicantes, disputas pelo papado marcadas pela ambição pelo poder, ambições políticas e econômicas. Junte tudo e você entenderá o sucesso da Reforma do século XVI, cujo estopim foram as 95 teses escritas por um monge agostiniano chamado Martinho Lutero. 

Lutero ainda foi beneficiado pelo sucesso da imprensa, pelo apoio intelectual vindo de eruditos humanistas e pela chegada na Europa de textos das Escrituras no idioma original (vindas de Constantinopla, agora nas mãos dos turcos otomanos). Mas há ainda um toque final: Lutero era atormentado por uma intensa crise espiritual ligada ao modo medieval de articular a fé. 

A parte triste dessa breve história? Não há nada de novo debaixo do céu.



Jones F. Mendonça

SÉRIE ”REFORMADORES”: PEDRO VALDO E OS POBRES DE LYON

Se você quer entender o que foi a Reforma protestante precisa voltar aos séculos XII e XIII, quando um comerciante bem sucedido de Lyon chamado Pedro Valdo (1140-1217) fundou uma comunidade cristã pobre e missionária (aparentemente inspirado em Mt 19,21). Diante das críticas cada vez mais ferozes à rica e poderosa Igreja Romana, os seguidores de Pedro Valdo foram excomungados em 1184 e passaram a ser duramente perseguidos pela Inquisição ao lado dos cátaros. 

O grupo dissidente ficou conhecido como “os pobres de Lyon”, sendo mais tarde - após a morte de seu líder - batizados como “valdenses”. Também alimentando o desejo por um cristianismo mais simples, fazendo votos de pobreza e voltados à esmola e auxílio aos pobres, surgiram ordens mendicantes como franciscanos, dominicanos e carmelitas. Estes, no entanto jamais romperam com a igreja. O nascimento de grupos dissidentes como cátaros e valdenses e das ordens mendicantes fiéis à liderança romana reflete o clima de insatisfação dos fiéis com a igreja cristã oficial. Estes são alguns dos primeiros sintomas de uma doença que corroía a Igreja e que seria capaz de dividi-la de forma dramática e definitiva no século XVI.  

Além da exaltação do ideal de pobreza, os valdenses rejeitavam a hierarquia (criaram uma hierarquia eclesial própria), a eucaristia romana (negavam a transubstanciação), as orações aos santos, as indulgências, o Purgatório, a missa dos defuntos, etc. Antecipando-se em alguns séculos a Lutero, os valdenses traduziram a Bíblia para o provençal (idioma falado na França). Embora tenham sido sufocados pela Igreja, as ideias dos valdenses se espalharam pela Europa, reaparecendo, por exemplo, nos discursos de John Wyclif (1320-1384) e Jan Hus (1369-1415). 

Atualmente tem sido feitos esforços na tentativa de reaproximação entre católicos e valdenses (aqui e aqui). Em sua “cruzada” ecumênica, o Papa Francisco visitou, em 22/06/2015, um templo valdense em Turim, construído em 1853. Um vídeo mostrando o encontro histórico entre lideranças valdenses e o Papa pode ser visto aqui


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 18 de junho de 2015

DE JERICÓ A JERUSALÉM

Na parábola do Bom Samaritano o homem que cai nas mãos dos salteadores "descia de Jerusalém para Jericó" (Lc 10,30). O que talvez você saiba é que essa descida corresponde a cerca de 1.000 metros, num percurso de aproximadamente 25 km. Que tal acompanhar essa pequena viagem pela câmera de um avião não tripulado? O vídeo tem a duração de 11 minutos (infelizmente é narrado em inglês). Tomei conhecimento do vídeo pelo Bible Places Blog.

terça-feira, 16 de junho de 2015

INSCRIÇÃO COM O NOME "ISHBA’AL" É ENCONTRADA EM ISRAEL

Segue texto com informações tomadas do Haaretz (17/06/15):

Photo by Tal Rogovsky
Foi finalmente decifrada a inscrição descoberta em Khirbet Qeiyafa, no Vale de Elah, durante as escavações sob a direção do Prof. Yosef Garfinkel, da Universidade Hebraica de Jerusalém e Saar Ganor, do Israel Antiquities Authority. Num grande jarro de barro que data de cerca de 3.000 anos (Idade do Ferro, de cerca de 1020-980 a.C, início da monarquia israelita) aparece escrito “Ishba'al ben Beda” (Ishba'al filho de Beda). A equipe que decifrou a inscrição incluiu a Dra. Mitka Golub e o Dr. Haggai Misgav.

De acordo com Garfinkel e Ganor, esta é a primeira vez que o nome Ishba'al aparece em uma antiga inscrição em Israel. Embora Ishba'al seja o mesmo nome do filho do rei Saul (no livro de Reis é grafado como Ishboshet com o propósito de evitar o elemento teofórico "Baal", compare 2Sm 2,8 com 1Cr 8,33), a inscrição se refere a outra pessoa, provavelmente ao dono de uma grande propriedade agrícola. 

O Ishba'al filho de Saul, homônimo do personagem da inscrição, reinou sobre o reino israelita em paralelo com David e foi morto por assassinos, sendo sua cabeça cortada e trazida para David em Hebron (2 Samuel 4-8). 

Não é a primeira vez que uma inscrição importante é encontrada em Khirbet Qeiyafa. A mais antiga inscrição hebraica no mundo foi descoberta no mesmo local em 2008. Os resultados das escavações demonstram como estava desenvolvida a escrita no reino de Judá na Idade do Ferro.

No Haaretz o texto completo só está disponível para assinantes (versão Premium):

Mas você poderá ler a matéria publicada no J Post



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 15 de junho de 2015

CRISTO E CONCRETO

A tela abaixo, trabalho de James Janknegt (Crucifixion at Barton Creek Mall, 1985), retrata Cristo crucificado num poste de luz no estacionamento de um Shopping Center em Austin, EUA. Imaginando ser um escárnio da crucificação, o presidente do banco no qual a tela estava exposta ordenou ao curador que a removesse imediatamente. De fato é uma imagem perturbadora. Mas o artista – de tradição anglicana - foi mal compreendido pelo presidente do banco, que era cristão batista. Você arrisca uma interpretação?  

Leia sobre a tela aqui


Jones F. Mendonça

sábado, 13 de junho de 2015

A BÍBLIA NO THE BIBLE PROJECT

O The Bible Project tem produzido uma série de vídeos explorando a narrativa Bíblica. Embora a perspectiva seja devocional, há grandes sacadas na apresentação. Além disso, a arte gráfica e a didática são excepcionais. Só estão prontos os videos de Gênesis (duas em partes: 1-11 e 12-50), Êxodo (duas em partes: 1-18, 19-40) e Levítico. Abaixo o primeiro vídeo (legendas em português ou espanhol):


sexta-feira, 12 de junho de 2015

SOBRE DEUSES, IRA E SANGUE

Se você é dessas pessoas que adora repetir frases do tipo “ninguém zomba de Deus e sobrevive!” ou “ninguém toca no ungido do Senhor e sai vivo!”, mas não tem encontrado brinquedos "educativos" para seu filho, seus problemas acabaram. A empresa Jesus Christ Superstore acaba de lançar o brinquedo “Deus onipotente”. O bonequinho, representação do próprio Deus, vem com um Kalishnikov AK-47 para que seu filho possa reproduzir a ira divina em seus momentos de lazer. Caso você não seja cristão mas queira descarregar todo o seu ressentimento acumulado, a Christ Superstore também pode ajudá-lo: há bonequinhos de jihadistas muçulmanos e outras figuras religiosas (Shiva, Krishna, Buda, um rabino e até o Papa) com os armamentos mais diversos. Veja mais aqui, aqui e aqui




quarta-feira, 10 de junho de 2015

O CRISTO, A CRUZ E OS OPRIMIDOS

Embora o protesto da transexual na parada gay tenha causado intensa polêmica, obras artísticas identificando o Cristo crucificado com os oprimidos é coisa antiga. Abaixo a ilustração de Charles Cullen (1929), impressa no livro "The Black Christ", de Countee Cullen


segunda-feira, 8 de junho de 2015

II CONGRESSO INTERNACIONAL DE TEOLOGIA E CIÊNCIAS DAS RELIGIÕES

A Faculdade Unida estará realizando, de 09 a 12 de junho de 2015, o II Congresso Internacional de Teologia e Ciências das Religiões. Destaque para a presença de Leonardo Boff (teologia da libertação) e Harvey Cox (teologia da secularização) . O evento será transmitido ao vivo e estará disponível no canal "Faculdade Unida" do YouTube. 

Assista ao vivo aqui

sexta-feira, 5 de junho de 2015

JESUS EM CINCO FASES (FASE II)

Como prometido aqui, continuo postando um resumo da obra “O Jesus histórico, um manual”, de Gerd Theissen (Loyola, 2004, 651 páginas). A ideia é fazer um resumo acrescentando informações de outras obras e links que facilitem a assimilação do assunto. No primeiro post dei destaque ao que Theissen considera como “primeira fase na pesquisa sobre a vida de Jesus” (Reimarus e Strauss). No post de hoje volto-me para a “segunda fase” (Heinrich Julius Holtzmann, 1832-1910), caracterizada pelo “otimismo da pesquisa liberal sobre a vida de Jesus”:

Sob o impulso do florescimento do liberalismo teológico, cuja base metodológica é a exploração crítico literária das fontes mais antigas sobre Jesus (fontes = documentos escritos que serviram de base para a redação dos evangelhos), Holtzmann contribuiu para tornar duradoura a teoria das duas fontes (desenvolvida por Wilke e Weisse). Mas o que diz a “teoria das duas fontes"? Bem, para os defensores dessa teoria, duas foram as fontes escritas usadas como base na redação de Mt e Lc: Fonte 1) evangelho de Marcos (o mais antigo dos sinóticos); Fonte 2) documento hipotético, conhecido por Mt e Lc (com toda a certeza não por Marcos) do qual não sobreviveu nenhuma cópia, chamada de Quelle (palavra alemã para “fonte”), representada pela letra Q.

Não entendeu? Vou explicar melhor. Entre os anos de 30-60 teriam se cristalizado pequenas coleções de sentenças de Jesus e suas atividades, sobretudo milagres. Este material (fonte Q) está presente em Mt e Lc, mas não em Marcos. Por volta de 65-70 Marcos, desconhecedor de Q,  teria redigido uma tradição narrativa sobre Jesus, dando origem ao primeiro evangelho. Por volta de 80, depois da destruição do Templo, Mt e Lc teriam escrito seus evangelhos, independentemente um do outro, usando tanto Marcos como Q. Numa ordem cronológica:

1. Entre 30-60: surgimento de pequenas coleções de ditos = Quelle (Q) ou Logienquelle (fonte dos ditos);

2. Entre 65-70: surgimento do evangelho de Marcos;

3. Por volta de 80: nascimento dos evangelhos de Mt e Lc (inspirados em Mc e Q).

Do evangelho de Marcos Holtzmann retirou o esboço da vida de Jesus, lendo nele uma evolução biográfica com o ponto crucial em Mc 8: na Galileia formou-se a consciência messiânica de Jesus, em Cesareia de Felipe ele se revelou aos discípulos como Messias. Ao quadro biográfico derivado de Marcos Holtzmann adicionou as “palavras autênticas” de Jesus tomadas de Q.

Com essa base metodológica os liberais esperavam reconstruir a personalidade legitimadora de Jesus e de sua história. Mas na virada do século XIX para o XX esse otimismo entrará em colapso. 

Próximo Post aqui:

Jones F. Mendonça

terça-feira, 26 de maio de 2015

O ANTIGO TESTAMENTO PARA AUTODIDATAS

Quem se interessa por teologia do AT, mas não tem tempo ou paciência para frequentar aulas presenciais (olha aí, Pedro Mendes), pode fazer isso nas horas vagas, adquirindo alguns livros sobre cada matéria. Abaixo algumas disciplinas/livros que em minha opinião serão indispensáveis a quem quer iniciar os estudos do AT:

Introdução ao AT: em minha análise o melhor livro sobre o tema é “Introdução ao Antigo Testamento”, de Werner Schmidt. Como o próprio título sugere, a obra pretende apresentar alguns aspectos gerais do AT: estrutura da Bíblia hebraica, cânon, processos de redação dos livros, história de Israel em períodos, profetismo, poesia, sabedoria, etc. Outra obra interessante é “Introdução ao Antigo Testamento”, de Erich Zenger (destaque para a formação do Pentateuco). Um livro específico e muito didático sobre o processo de formação do AT é “A formação do Antigo Testamento”, de Rolf Rendtorff (é possível encontrar o texto completo na rede em formato PDF). 

Teologia do AT: As teologias bíblicas, diferentemente do que fazem as introduções, focam no desenvolvimento da religião de Israel ao longo da história e nas diversas tradições que muitas vezes entram em conflito entre si. Destaco duas obras: “A fé no Antigo Testamento”, de Werner Schmidt, e “Teologias no Antigo Testamento”, de Erhard Gerstenberger. Autores como Georg Fohrer dividem o estudo do AT em “história da religião de Israel” (religião de Israel numa perspectiva histórica) e “Estruturas teológicas fundamentais do Antigo Testamento” (religião de Israel numa perspectiva temática). 

Obras sobre temas específicos ligados ao AT: depois de ler as “introduções ao AT” as “teologias do AT”, será mais fácil digerir obras mais específicas (algumas vezes, densas!), tais como “Sacrifício e culto no Israel do Antigo Testamento”, de Willi Plein, “A fórmula da aliança” de Rolf Rendtorff, “Instituições de Israel”, de Roland de Vaux, “Abraão e sua lenda”, de Walter Vogels (mais aqui), “Introdução socioliterária à Bíblia hebraica”, de Norman Gottwald, e “As tribos de Javé, uma sociologia da religião de Israel liberto: 1250-1050 a.C.”, do mesmo autor. 

Obras clássicas sobre o AT (teologia do AT): Algumas obras, embora antigas (início e meados do século XX), ainda exercem influência em nossos dias. Destaque para: “Teologia do Antigo Testamento”, Walter Eichrodt e “Teologia do Antigo Testamento” (dois volumes), de Gerhard von Rad. Não é difícil encontrar esses livros na rede em PDF (geralmente em espanhol). 

História de Israel: Um livro agradável, curto, mas uma boa dose critica é “História do povo de Deus”, de Euclides Balancin (perspectiva da teologia da libertação). Obra classificada como “conservadora”, mas ainda muito influente é “História de Israel”, de John Bright. Para um trabalho mais crítico vale ler “História de Israel e dos povos vizinhos”, de Herbert Donner. Um livro extremamente crítico (perspectiva minimalista) é “Para além da Bíblia”, do assiriólogo Mário Liverani. Em tempo: quando digo que uma obra é “crítica”, estou dizendo com isso que o autor leva em conta o longo e contínuo processo redacional ao qual foi submetido o AT. Nessa perspectiva o relato da criação, por exemplo, é visto como obra tardia (depois do século VI a.C.), inserido como prefácio do que mais tarde se tornou o livro de Gênesis. 


Exegese do AT: Merecem atenção duas obras: “Metodologia do Antigo Testamento”, de Simian-Yofre (um livro teórico) e “A Bíblia à luz da história: guia de exegese histórico-crítica”, de Odette Mainville (um livro prático, difícil de achar). 

Hebraico bíblico: Das obras mais simples para as mais completas: “Noções básicas de hebraico bíblico”, de Rosemary Vita e Tereza Akil, “Hebraico bíblico, uma gramática introdutória”, de Page Kelley (obra muito didática e com bom conteúdo),“, e o clássico “Geseniu’s hebrew grammar”, de Wilhelm Gesenius (download gratuito). Obs: aprender hebraico sozinho, sem o auxílio de um professor, é tarefa árdua que exige disciplina. Uma dica: aprenda o alfabeto (22 consoantes) mais os sinais vocálicos (cerca de dez sinais). Se após essa tarefa você estiver conseguindo ler (ainda sem entender) o texto hebraico, terá caminhado 40% do percurso. Quer mais algumas dicas? Dê uma olhada aqui e aqui



Quando me sobrar um tempo faço nova lista com sugestões de leitura para outras disciplinas. 



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 21 de maio de 2015

MONOTEÍSMO E MONOGAMIA

Mulheres com o rosto borrado no jor-
nal ultra ortodoxo B'Hadrei Haredim.
O cristianismo já nasceu monogâmico. A razão é simples: como a poligamia não era aceita no mundo greco-romano, “ser marido de uma só mulher” passou a ser o modelo adequado de relação conjugal (orientação aos epískopos, cf. 1Tm 3,2). Numa perspectiva econômica (romana) a monogamia concentrou a riqueza e diminuiu o número de herdeiros. Cabia à mãe gerar filhos (matrimonium = mater, mãe + monium, ofício) e ao marido gerar bens (patrimonium = pater, pai + monium, ofício). Numa perspectiva religiosa (cristã), passou a ser vista como mandamento divino e o sexo – já bem cedo - tido como exclusivo à procriação (p. ex. Justino Mártir, Apol I, 29; Clemente de Alexandria, Pedágoge II, 10).

Embora muita gente não se dê conta, o abandono da poligamia no judaísmo foi um processo lento. Joachim Jeremias, em seu “Jerusalém no tempo de Jesus” (pp. 131-136 e 486) registra - citando diversos documentos judaicos - a prática da poligamia entre judeus na Palestina do primeiro século (e até mesmo no início do século XX!). Mas a vida na Europa forçou muitos judeus a se adequarem ao modelo familiar monogâmico cristão. A poligamia foi sendo abandonada gradativamente até que foi definitivamente condenada num "sínodo" realizado em Worms, no século XI. Nessa assembleia, dirigida pelo erudito talmúdico Gershon ben Yehudah (960-1028) e constituída por cem rabinos, foi proferida uma anátema contra todo o israelita que, no futuro, tivesse mais de uma esposa (um pouco mais sobre o assunto aqui).

A crença na “superioridade moral” do judaísmo sobre o islamismo no que diz respeito ao trato dispensado às mulheres parece-me um equívoco, principalmente quando a fonte de comparação baseia-se no contraste entre o Estado de Israel (tradição judaica) e os demais países do Oriente Médio (tradição muçulmana). Ora, Israel foi povoado por imigrantes pertencentes a duas categorias principais: 1) judeus desejosos por criar uma nova cultura judaica em bases seculares; 2) judeus de base religiosa tradicional. A difusão de valores ocidentais baseados em princípios de liberdade, igualdade e fraternidade ganharam espaço graças a esses imigrantes de base secular. Isso torna Israel um país singular no Oriente Médio, mas essa singularidade não tem sua origem na religião. No Estado judeu a mulher goza de um status mais elevado que nos países vizinhos não por causa da religião judaica, mas devido à influência das ideias iluministas importadas do solo europeu.

Em religiões nas quais Deus é Uno e é Pai, o que resta às mulheres senão um papel secundário?


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 14 de maio de 2015

QUANDO, POR QUEM E POR QUE O LIVRO DE ATOS FOI ESCRITO?

1. Uma vez que o livro de Atos faz silêncio em relação ao julgamento de Paulo, há quem pense que foi redigido entre 58-60 d.C. Teria sido escrito por Lucas, testemunha ocular dos acontecimentos narrados no livro, uma vez que foi companheiro de Paulo em algumas viagens (Col 4,14; 2Tm 4,11 e Fm 1,24.)

2. A maioria dos estudiosos modernos, no entanto, defende uma data mais recente, entre 80 e 90 d.C. Destacam que a destruição de Jerusalém e seu templo, em 70, não é mencionada em Atos. O autor de Atos também parece ignorar as cartas de Paulo, o que sugere que ainda não haviam sido difundidas até o momento da redação do livro.

3. Um terceiro grupo de estudiosos prefere uma data final de composição para 110 a 120 d.C. São três as razões: 1) Atos parece ser desconhecido antes da última metade do segundo século; 2) O autor de Atos parece familiarizado com os escritos de Josefo, que completou suas “Antiguidades judaicas” em 93-94 d.C.; 3) Ao contrário do que pensam os defensores da redação entre 80 e 90, haveria indícios de que as cartas de Paulo - particularmente Gálatas - era conhecida pelo autor de Atos. Mais que isso: Gálatas teria sido considerada um problema para o autor de Atos, que “o escreveu para subvertê-la”.

Para conhecer os argumentos deste terceiro grupo de estudiosos, leia o artigo “When and Why Was the Acts of the Apostles Written?”, por Joseph B. Tyson, no The Bible and Interpretation. Para o autor, Atos tenta enfraquecer a autoridade de Paulo, e seria um “texto anti-marcionita” (de “Marcião”, cristão que dentre outras coisas defendia Paulo como único apóstolo legítimo). O autor não me convenceu, mas acho que o texto merece ser lido. 



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 7 de maio de 2015

DEBATE SOBRE CRISTOLOGIA NO STBC

Na terça passada, dia 05/05/15, o STBC promoveu um debate sobre cristologia. Os debatedores: Prof. Humberto Macharetti (Alta cristologia), Prof. Renato Soares (o Messias e o Cristo), Prof. Elber Macharetti (Cristianismo e cultura) e eu (Baixa cristologia). 

A cada professor foi dado o tempo de 20 minutos para expor o seu tema. Ao fim dos 80 minutos foram iniciados os debates com perguntas feitas pelos ouvintes. Em breve postarei aqui no Numinosum o texto de minha apresentação para apreciação e críticas (atualização: já postado, acesse clicando aqui). Por hora, a tela inicial dos meus slides:




segunda-feira, 4 de maio de 2015

AUTORIDADE E JUSTIÇA

Zé Bobinho faz festa quando um policial dá um tapa na cara de um sujeito que ousou desobedecê-lo. Ele diz: “quem mandou questionar uma autoridade policial”. Entendo como funciona a mente de Zé Bobinho. Em sua escala de valores mais vale a autoridade que a justiça. Aliás, desconfio que ele sequer seja capaz de diferenciar uma coisa da outra.  


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 29 de abril de 2015

AS CAVERNAS DE QUMRAN E OS ESSÊNIOS [VÍDEO]

Em 1946 um pastor beduíno à procura de uma cabra perdida na região de Qumran, nas proximidades do Mar Morto, acabou encontrando uma série de cavernas antigas contendo textos religiosos dos hebreus (Antigo Testamento e outros). Após acurada análise, os especialistas descobriram que os livros bíblicos eram mil anos mais antigos que os disponíveis na época (que eram do século X d.C.).  O vídeo abaixo, gravado por um drone e postado no Israel Today, mostra as cavernas de Qumran e as ruínas da comunidade sectária dos essênios. De todos os vídeos que vi mostrando as cavernas, este é sem dúvida o melhor. 

quinta-feira, 23 de abril de 2015

REUNIÃO DE GRUPOS DE OPOSIÇÃO:

Grupo 1: “Vamos entregar tudo aos militares. Eles são organizados, disciplinados e batem forte. Se alguém discordar de nós, arrancamos suas unhas”.

Grupo 2: “Vamos entregar tudo aos gringos. Eles são ricos, poderosos e brancos. Se o povo se opuser inventamos que o PT está construindo uma bomba atômica e eles invadem na hora”.

Grupo 3: "Trocamos o PT por qualquer coisa, até pelo retorno da monarquia. Aliás, deveríamos inclusive revogar a rei áurea e impedir que os pobres votem".

É, há grupos mais inteligentes (e humanos), mas quase não ouço suas vozes.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 17 de abril de 2015

PADRE FÁBIO DE MELO: LATRIA, HIPERDULIA E EXCOMUNHÃO

O Padre Fábio de Melo jamais será excomungado por criticar a adoração a Maria. A razão é muito simples. Na doutrina católica o culto que se presta a Maria é apenas culto de hiperdulia, nunca de latria, reservado apenas às três pessoas da Trindade (Concílio de Niceia II, 787 d.C.). Mais que isso: no catolicismo Maria é sempre intercessora, nunca mediadora (papel reservado ao Cristo). Tá, eu sei que uma coisa é a teoria e outra é a prática. Também sei que a esmagadora maioria dos fiéis não conhece essas sofisticadas sutilezas teológicas, mas é o que está escrito.

Por fim: você pode achar todas essas distinções uma grande bobagem, mas entenda uma coisa: o padre cantor/professor nunca será excomungado por suas críticas à adoração a Maria. Ele não é bobo, sabe escolher bem as palavras...



Jones F. Mendonça

sábado, 11 de abril de 2015

ZÉ BOBINHO E LUTHER KING

Tese do Zé Bobinho: "a melhor maneira de combater o racismo é não falar sobre ele". Puxa, deviam ter dito isso para o Luther King. Perdeu um tempo danado discursando, fazendo passeatas. Até morreu pela causa. Podia ter permanecido entre os muros da igreja, quem sabe discutindo o sexo dos anjos ou a intensidade do brilho do ouro celeste. Teria salvado sua vida! Mas não, cismou de sair por aí denunciando a segregação racial. Zé Bobinho é realmente um cara genial. Demonstrou como foi inútil o ativismo do pastor batista.


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 9 de abril de 2015

AMBRÓSIO E A DANÇA

Ambrósio (340-397), arcebispo de Milão, querendo dissuadir as cristãs a evitarem a dança, citou o seguinte exemplo bíblico:
João, o precursor de Cristo, sendo degolado por vontade de uma dançarina, é um exemplo de que as seduções da dança fazem mais mal do que a loucura de um sacrilégio (Da virgindade, Livro III, capítulo V).
Leia "Da virgindade", de Ambrósio aqui.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 8 de abril de 2015

MISOGINIA NO CRISTIANISMO PRIMITIVO

Basta dar uma rápida olhada nos textos escritos pelos primeiros cristãos para perceber como era forte a visão da mulher como “isca de Satanás” e “portão do diabo”. Cipriano (bispo do séc. III), por exemplo, dizia que os demônios ensinaram as mulheres 
a pintar os olhos espalhando uma substância negra ao seu redor, e a tingir as bochechas com um enganoso vermelho, e a mudar o cabelo com cores falsas, e a expulsar toda a verdade do rosto e da cabeça com o ataque de sua corrupção (Do vestuário das virgens, 14).
A investida anticosmética de Cipriano tem como argumento principal o seguinte: uma vez que Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança, não devemos nos atrever a mudar o que Deus fez. Tratar-se-ia, portanto, de uma “agressão à obra divina e uma prevaricação da verdade”.

E pensar que em pleno século XXI o argumento que contrapõe o “natural” (divino)  ao “antinatural” (diabólico) ainda faz sucesso.

Leia o texto completo “Do vestuário das virgens”, de Cipriano, aqui (em inglês).



Jones F. Mendonça

terça-feira, 7 de abril de 2015

SOBRE BESTAS E CABELO DE MULHER

Leio Vegécio, escritor romano do século IV, autor de “Compêndio da arte militar”. No livro IV, capítulo II desta obra, Vegécio dá orientações a respeito da importância do nervo de boi numa guerra, usado em arcos de bestas. A questão que ele discute é: “e quando não há nervos disponíveis?” A solução apresentada pelo escritor latino é um tanto quanto inusitada: 
Os nervos podem ser substituídos por crinas de cavalos e mesmo pelos cabelos das mulheres, como prova a experiência romana.
Vegécio cita como exemplo o cerco ao Capitólio. Nessa ocasião, diante da falta de nervos, as damas da cidade teriam cortado seus cabelos e doado a seus maridos combatentes, que puderam consertar suas armas de guerra. Com tal artifício, o inimigo teria recuado.  Vegécio conclui (dito com minhas palavras): “é melhor ser uma careca livre ao lado do marido, que uma escrava bela no leito do inimigo”.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 2 de abril de 2015

CASTLE OF GLASS - LINKIN PARK

PÁSCOA, PÃES ÁZIMOS E SACERDOTES

A festa da Páscoa, de Dieric Bouts, 1464-67
No livro do Êxodo, capítulo 12, versos 1 a 20, Moisés dá a seguinte orientação a respeito da páscoa: Um cordeiro ou cabrito deve ser morto na tarde do décimo quarto dia (12,6) do primeiro mês, sendo seu sangue aspergido nos umbrais das portas. O ritual é acompanhado por uma refeição que inclui carne assada, pão sem fermento e ervas amargas (12,8). Originalmente páscoa e pães ázimos eram duas comemorações distintas, relacionadas com o ritmo da natureza (oriundas do ambiente cananeu). Mais tarde foram interpretadas a partir do evento do Êxodo.

O texto destaca que a festa dos pães sem fermento (matzah) deve ser comemorada como “estatuto perpétuo” (huqqat olam, cf. 12,14). Para eliminar o risco do uso de fermento (e de uma severa punição), os israelitas deviam tirá-lo de suas casas: 
Êx 12,19-20  Por sete dias comereis pães ázimos; logo ao primeiro dia tirareis o fermento das vossas casas, porque qualquer que comer pão levedado, entre o primeiro e o sétimo dia, esse será cortado de Israel. 20 Nenhuma coisa levedada comereis; em todas as vossas habitações comereis pães ázimos.
Mas o povo parece não ter dado ouvidos às orientações de Moisés, pois em 12,39 é dito que o pão “não se tinha levedado”, não pela ausência de fermento, mas porque não houve tempo para isso. Veja: 
Ex 12,34 Ao que o povo tomou a massa, antes que ela levedasse...

Êx 12,39 E cozeram a massa que levaram do Egito, bolo amargo, pois ela não se tinha levedado (hametz), porquanto foram expulsos do Egito; e não puderam retardar a partida, nem haviam preparado comida.
Como explicar tamanha contradição? A solução pode ser encontrada a partir do seguinte procedimento: leia Ex 11,1-10 e depois salte para 12,21. Entenda o trecho que vai de 12,1-20 como inserção sacerdotal tardia com o propósito de ressaltar a importância da páscoa como “estatuto perpétuo” a “todas a gerações”, num dia fixo, o 14 de Nissan (12,14). Num outro momento da história de Israel surge uma nova mudança: a Páscoa passa a ser celebrada em apenas "no lugar que Javé elohim escolher" (Dt 16,5-6), ou seja, Jerusalém. 


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 1 de abril de 2015

O SACRIFÍCIO DE PÁSCOA E O INSTITUTO DO TEMPLO




Desde a destruição do templo de Jerusalém, no ano 70 d.C., os sacrifícios formam suspensos no judaísmo (com exceção do kapparot, feito por uma minoria religiosa).

Nas ruínas do antigo Templo, ampliado e embelezado por Herodes a partir do século I a.C., foi construído um templo religioso muçulmano (uma mesquita), obra no século VII d.C. Atualmente são proibidas orações e atos religiosos judaicos no monte do Templo, que é controlado pela Waqf da Jordânia, país vizinho de Israel.

Em 1987 foi fundado o Instituto do Templo, organização que recolhe fundos para concretizar a visão do profeta Ezequiel a respeito da reedificação da antiga “casa de Deus”. No vídeo acima você poderá observar uma simulação do sacrifício de páscoa organizado pelo Instituto. Observe que os organizadores do ritual buscaram simular o cenário ideal, erguendo uma grande tela com a imagem do santuário judaico que esperam que seja construído no local onde atualmente está a mesquita de Al Aqsa.


Jones F. Mendonça

NOTÍCIAS DO ORIENTE


1. Acabo de ler no Haaretz que a Autoridade Palestina é um novo membro oficial do Tribunal Penal Internacional. O que isso significa? Bem, a partir de agora líderes israelenses podem enfrentar acusações de crimes de guerra em território palestino.

2. Tanto o Haaretz como o Jerusalém Post publicaram uma notícia que provavelmente vai causar certa preocupação em Israel: O Irã está fornecendo ogivas guiadas por foguetes ao Hezbollah, grupo paramilitar xiita com base no Líbano (será verdade?). Caso ocorra uma guerra entre Israel e o grupo libanês, milhares de foguetes podem despencar em Israel diariamente, fazendo muitas baixas.

3. Centenas de pessoas participaram de um “ensaio” do sacrifício de páscoa no bairro de Kiryat Moshe, em Jerusalém. Após o abate, o sangue foi derramado num altar e o cordeiro foi mostrado à multidão depois de ter sido esfolado. Seus órgãos foram colocados sobre o altar e um grande espeto foi inserido em seu corpo. O ritual é uma espécie de ensaio, na expectativa de que o governo de Israel autorize a presença de judeus no monte do Templo, atualmente proibida com o propósito de evitar tumultos. A matéria, também publicada no Haaretz, está disponível apenas para assinantes. 


Jones F. Mendonça 

terça-feira, 31 de março de 2015

PARECEM BORBOLETAS, VOAM COMO BORBOLETAS, MAS...

FOGO, FEIJÃO E EXEGESE

Ela escreve: 
“Délcio, coloque o feijão no fogo.
Maria”.
O pequeno bilhete é fixado na geladeira. Passam-se mil anos e é achado nas ruínas de uma construção. Surgem interpretações diferentes:

A exegese fundamentalista: “é para por a semente de feijão no calor de uma chama. Feijão talvez seja uma espécie de milho que estoura quando aquecido”.

A exegese alegórica: “o feijão representa nossas imperfeições; o fogo, a chama de nossa auto-avaliação”.

A exegese tipo PARDES: “o texto possui quatro sentidos: 1) a semente de feijão deve ser colocada na chama (peshat); 2) toda a 'semente' dos animais deve ser cozida antes de ser consumida (remez); 3) A semente, para brotar, precisa do calor, ou seja, do cuidado humano, o que nos ensina que devemos amar nossos filhos (Drash); 4) A soma das consoantes das palavras 'feijão' e 'semente', em hebraico, resulta em nove, que é o número dos leprosos que não agradeceram a Jesus pela cura (Sod)".

A exegese confessional: “Embora num primeiro momento o texto pareça ter sido escrito por uma mulher, é mais provável que tenha vindo pelas mãos de um homem, afinal, mulheres não devem dar ordens aos homens (Cl 3,18). Não é impossível o uso do nome 'Maria' para homens no início do século XXI”.

Pode parecer inacreditável, mas há pessoas muito bem instruídas que interpretam a Bíblia com tais métodos.


Jones F. Mendonça

domingo, 29 de março de 2015

PARA ALÉM DA BÍBLIA, DE MÁRIO LIVERANI - PARTE V [APONTAMENTOS]

"Beyt David" (Casa de Davi) - Estela
de Tel Dan
...Continuação (leia o post anterior aqui).

Mário Liverani considera o século XII a.C. um período de transição na Palestina. Uma série de migrações impulsionadas por mudanças climáticas mudou o cenário político e social da região. Egito (norte da África) e Khati (Anatólia) perderam o controle da Palestina; a Assíria e a Babilônia, ocupadas com as invasões arameias, permitiram que a Palestina ficasse livre de interferências estrangeiras pela primeira vez depois de meio milênio. As cidades ganharam uma dimensão reduzida, cercadas por muros, revelando o maior interesse pela autodefesa.

O crescimento do elemento tribal
A configuração de uma nova ordem na Palestina foi acentuada pela ação de grupos pastoris. Liverani considera plausível – após rejeitar certos exageros - “uma contribuição de marginalizados e de debandados para o reforço de grupos pastoris e para o crescimento de sua autoconsciência” (p. 70). A gravitação das vilas agropastoris deslocou-se dos palácios para as tribos, que absorviam foragidos (habiru), com reivindicações socioeconômicas “antipalatinas”, dando às tribos (unidas pela comunhão parental) uma dimensão e uma força nova.  Como em populações aramaicas da Síria (Bit Adini, Bit Agushi, onde Bit significa “casa de” no sentido de estirpe), em Israel aparecem as expressões “estirpe de Davi” (Judá) e “estirpe de Omri (Israel).

Mudança tecnológica
A ruptura de tradições culturais, o surgimento de novos ambientes sociopolíticos e de novas ordens econômicas facilitaram a adoção de algumas inovações tecnológicas (vindas de dentro e de fora). Liverani dá destaque: 1) À metalurgia do ferro (lâminas de trabalho e de combate); 2) Ao alfabeto (o cuneiforme babilônico era acessível a poucos especialistas); 3) À domesticação do dromedário (área arábica) e do camelo (área iraniana), com capacidade de transporte muito maior que a do asno, permitido que os comerciantes atravessassem grandes espaços desérticos (surgimento das primeiras cidades na trilha das caravanas); 4) Às inovações técnicas da navegação, permitindo a exploração dos tráfegos mediterrâneos pelos fenícios “pré-coloniais” e gregos “homéricos”; e 5) Às inovações técnicas no campo da agricultura e das infra estruturas agrícolas, especialmente nos planaltos centrais da Palestina. Uma famosa passagem bíblica alude ao desmatamento nas montanhas: 
“Receberás a montanha, embora seja uma floresta, desmatá-la-ás e será tua até as extremidades” (Js 17,18).

Além de todos esses itens, Liverani também dá destaque às inovações hídricas: obras de canalização, poços mais profundos, cisternas com rebocos mais à prova d’água e canais subterrâneos. Ele finaliza explicando que todas essas inovações (ferro, alfabeto, domesticação do dromedário/camelo, navegação, agricultura, inovações hídricas) não se desenvolveram de repente nem ao mesmo tempo. Todas juntas caracterizaram o período do Ferro em relação ao período do Bronze e devem ser levadas em conta para compreender a diferente ordem territorial e a diferente cultura material.

Horizontes ampliados
A nova ocupação territorial da Palestina estendeu-se aos planaltos e às estepes semi-áridas, situação bem diferente da ocupação no Bronze recente, concentrada nas áreas facilmente utilizáveis. A dimensão dos assentamentos nas cidades diminuiu, mas nas vilas cresceram e se fortificaram. Todo o território foi ocupado de maneira mais homogênea e a zona habitada dilatou-se de modo extraordinário. A Palestina, terra marginal e fraco anel da “meia lua fértil”, acabou se vendo no centro de uma vasta rede de vias e trocas comerciais. Ainda assim, destaca Liverani: “a marginalidade da Palestina muda nas circunstâncias, mas permanece na substância” (p. 80).



Jones F. Mendonça

sábado, 28 de março de 2015

PARA ALÉM DA BÍBLIA, DE MARIO LIVERANI - PARTE IV [APONTAMENTOS]

Preparei este mapa seguindo o modelo da figura 6, pg. 61. Clique para ampliar

Continuação (leia o post anterior clicando aqui).

Crise multifatorial
No segundo capítulo de seu “Para além da Bíblia”, Mário Liverani discorre sobre a sociedade palestina do primeiro período do Ferro (século XII a.C.). Essa nova fase, quando confrontada com o período do Bronze Recente (séculos XIV e XIII), destaca-se pelo desenvolvimento de grande inovação tecnológica e de assentamentos.

Fatores climáticos e migrações
Além da crise socioeconômica de longa data, da crise demográfica em curso, da indiferença da população camponesa pela sorte dos palácios reais e das recentes carestias, a crise final do Bronze Recente e seu colapso veio pela presença de movimentos de caráter migratório impulsionado pelo processo de mudança climática: 1) na zona árida do deserto do Saara e do deserto da Arábia; 2) Na parte norte do mediterrâneo, particularmente na região da Anatólia.

Somado a essas migrações aparecem os chamados “Povos do mar”, que se espalharam por toda a costa do Mediterrâneo oriental, sendo detidos no Egito. No túmulo do faraó Ramsés III aparece o registro da chegada dos invasores: 
Os setentrionais em suas ilhas estavam em dificuldade e se moveram em massa, todos ao mesmo tempo. Ninguém resistiu perante eles; de Khati (império Hitita) a Qode (Cilícia), Karkemish (cidade do Eufrates, no norte da Síria), Arzawa (reino da Ásia Menor), Alashiya (Chipre) foram devastadas. Dirigiram-se enfim para o Egito [...]. A força deles era constituída de filisteus  de Zeker, de Shekelesh, de Danuna e de Weshesh, países que se uniram para pôr a mão no Egito, até o último confim. Os ânimos deles eram de confiança, cheios de projetos (ARE IV 64 = ANET, p. 262).

Bloqueados no delta do Nilo, os Povos do mar estabeleceram-se em grande número na costa meridional da Palestina ou no interior próximo. O povo mais importante, os filisteus, formou uma aliança política de cinco cidades, uma pentápole: Gaza, Ascalom, Ashdod, Gat e Eqron.

Queda do sistema regional
A invasão dos Povos do mar repercutiu em vários níveis no destino histórico da Palestina. Houve uma mudança no quadro político regional, provocando o desmoronamento de duas potências que dividiam a soberania da faixa siro-palestina: Egito e Khati (cidade hitita, conhecidos na Bíblia como heteus, cf. 2Rs 7,6).

A Assíria e a Babilônia, limitadas a seus núcleos mínimos possíveis devido às invasões dos arameus, permitiram que a Palestina ficasse livre de intervenções estrangeiras pela primeira vez depois de meio milênio, situação que durará até o surgimento do império neo-assírio. A partir desse novo cenário, Liverani destaca: 
Os pequenos reis palestinos, habituados a uma relação de vassalagem em relação ao senhor estrangeiro, não terão mais outra entidade superior de referência senão suas divindades, e readaptarão toda a fraseologia, a inocografia e as cerimônias construídas para exprimir suas relações com o faraó para exprimir agora sua relação com a divindade citadina ou nacional (p.68).

Crise dos palácios
Muitos palácios reais e cidades palestinas foram destruídos durante as invasões ou depois delas, podendo ser atribuídas tanto aos Povos do mar como às tribos “proto israelitas”, intervenções egípcias, guerras locais ou revoltas de camponeses. Sem seu núcleo paladino, as cidades se reduziram em dimensão e complexidade organizativa. O maior interesse na autodefesa impulsionou a construção de muros nas pequenas cidades sobreviventes.

Continua aqui

Jones F. Mendonça