quarta-feira, 10 de junho de 2009

NIETZSCHE, JESUS E DIONÍSIO

Por Jones Mendonça

O filósofo italiano Franco Volpi, falando sobre a repercussão das obras de Nietzsche, nos diz que “durante o conflito de 1914-1918, em uma livraria de Piccadilly, estavam expostos na vitrine os 18 volumes das suas obras completas em inglês, com uma inscrição em letras enormes: ‘The Euro-Nietzschean-War; leiam o diabo para poder combatê-lo melhor!’” [1]. Menos de vinte anos após a sua morte Nietzsche já era pintado como um demônio.

Nietzsche foi um crítico ferrenho do cristianismo, particularmente da moralidade cristã, que segundo ele dominava de forma perniciosa a consciência do povo alemão, denegrindo-o. Algumas de suas afirmações são capazes de fazer estremecer até mesmo o cristão menos piedoso: “para mim ela [a religião cristã] é a maior das corrupções concebíveis”[2], ou ainda: “O cristianismo é uma sublevação de todas as criaturas rastejantes contra tudo o que é elevado” [3]. Logo ele, filho e neto de pastores luteranos, cuja infância foi acentuada por uma intensa piedade. Após a morte trágica de seu pai e de seu irmãozinho, por exemplo, o pequeno Nietzsche desabafou: “Depois dessa dupla desgraça, Nosso Senhor lá no céu foi nossa única consolação”[4]. Mas Nietzsche era ainda um menino e não tinha tido influenciado pela filosofia de Feuerbach e Schopenhauer, pensadores que lhe fizeram refletir intensamente sobre sua herança religiosa. Na flor da idade, aos dezoito anos, foi capaz de um poema belíssimo, que revela seu exímio talento para escrever. Revela ainda sua extrema devoção:

AO DEUS DESCONHECIDO:

Uma vez mais, antes de partir daqui

E de dirigir o olhar para a frente,

Ergo solitário as mãos

Para ti, meu refúgio,

A quem, no fundo do meu coração,

Solenemente consagro um altar,

Para que sempre

Tua voz me chame sem cessar.

Sou teu, ainda que a malta dos ímpios

Me considere neste momento como um dos seus.

... Quero conhecer-te, ó Inconhecível,

A ti, cuja mão penetra no fundo de minha alma,

A ti, que transtornas minha vida como uma tormenta,

A ti, inapreensível, de mim tão próximo! .

Quero conhecer-te, servir-te eu mesmo [5].

Seria Nietzsche um um ateu convicto? Para Osvaldo Giacóia sim: “Ateísta radical, ele atribui ao homem a tarefa de se reapropriar de sua essência e definir as metas de seu destino”[6]. Carl Jung tinha uma opinião diferente:

Nietzsche não era ateu, mas o seu Deus havia morrido. O resultado desta morte foi sua cisão interior que o compeliu a personificar seu outro ‘Si-mesmo’ (Selbst) como ‘Zaratustra’ ou, em outra fase, como "Dioniso". Durante sua enfermidade fatal ele assinava suas cartas como ‘Zagreus’, o Dioniso despedaçado dos trácios. A tragédia de Assim falava Zaratustra consiste em que o próprio Nietzsche, não sendo ateu, se transformou em deus, porque seu Deus havia morrido" [7].

Se era ateu ou não talvez nunca venhamos a saber. O fato é que Nietzsche era atormentado por duas personagens: Dionísio e o Crucificado. A vida de ambos resume-se numa paixão. Um e outro sofrem um martírio: Dionísio dilacerado por seus fiéis, Jesus crucificado.

Dionísio e Cristo se combatiam (ou se amavam) no misterioso e enigmático coração de Nietzsche!

Referências bibliográficas:

[1] Em artigo publicado no jornal italiano “La Repubblica”, de 10 de abril de 2009.

[2] NIETZSCHE, Friedrich. O Anticristo, p. 9.

[3] Iden, p. 88.

[4] HALÉVY. Daniel. Nietzsche: uma biografia, 1989, p.8

[5] Iden, p. 299, 300.

[6] GIACÓIA Jr., Oswaldo. Nietzsche, 2000, p.10.

[7] JUNG, Carl G. Psicologia e religião, 1965, p. 96, 97.



sexta-feira, 5 de junho de 2009

A BABILÔNIA QUE ESTÁ EM NÓS

Por Jones Mendonça


A opressão é algo que subtrai do ser humano um dos seus bens mais preciosos, a liberdade. Esse bem precioso foi, ao longo da narrativa bíblica, negado ao povo hebreu. O Antigo Testamento nos fala da opressão dos egípcios, dos assírios e finalmente da deportação dos judeus pela Babilônia. Mas o benevolente Ciro parecia surgir para reverter esse quadro. O profeta Isaías (Dêutero-Isaías, ou segundo Isaías) surge nesse contexto. Suas primeiras palavras, no versículo um do capítulo quarenta já dão o tom de sua mensagem: “Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus”. A iniqüidade já havia sido expiada e já era hora do povo voltar para sua terra, reconstruir seu templo e viver a tão sonhada shalom.

O profeta cumpriu o seu papel, anunciou a liberdade e lançou o seu oráculo condenatório contra a Babilônia: “Desce, e assenta-te no pó, ó virgem filha de Babilônia; assenta-te no chão sem trono, ó filha dos caldeus” (Is 47:1). A Babilônia, arquétipo da cidade promíscua era encarada como algoz, que apesar de ter sido instrumento na mão de Deus para punir os judeus, tinha que pagar pela sua arrogância. Já Ciro, rei persa responsável pelo fim do cativeiro, foi interpretado como “o ungido do Senhor”.

Sabemos como a história continua. Os judeus voltaram para casa e lá mais uma vez não tiveram paz. O povo da terra, liderado por Sambalate e Tobias não mediu esforços para impedir a reparação dos muros da antiga cidade dos judeus. O tempo passou e depois vieram os gregos e mais adiante os romanos, numa seqüência que parecia não ter fim. Surgiu então um personagem como nenhum outro na história desse povo: Jesus de Nazaré. Esse profeta de origem humilde trouxe uma mensagem inovadora. Ele ensinou que um reino não se construía com muros. Com a simplicidade de uma criança e com uma mansa voz Ele dizia: “o reino de Deus está dentro de vós” (Lc 17:21). Não havia mais necessidade de se erguerem muros. Muito pelo contrário, era preciso derrubá-los! Se o reino de Deus está dentro de nós, porque erguer muros? Somos agora livres. Mas esse novo conceito trouxe consigo uma nova ameaça. A Babilônia, que antes representava um poder opressor externo passava agora a brotar no coração de alguns homens.

O tempo passou e por volta do século IV, algo inesperado aconteceu. O cristianismo tornou-se a religião oficial do Império Romano. Fustel de Coulanges, na sua célebre Cidade Antiga observou que: “A religião, não sendo terrena, deixa de imiscuir-se das coisas da terra. Jesus Cristo acrescenta: ‘Daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus’. Foi a primeira vez que se distinguiu tão nitidamente Deus do Estado[1]. Essa distinção feita por Jesus e lembrada por Coulanges parece não ter sido levada a sério. O cristianismo, antes uma religião marginal e perseguida pelo Império, passou de vítima à vilã, de oprimida à opressora. Se na época do dêutero-Isaías era a Babilônia que representava o poder político opressor, agora ele vinha da própria “Igreja de Deus”. No ápice dessa perseguição, muitas pessoas foram torturadas e assassinadas de formas horrendas pelos motivos mais banais. Algumas delas pelo simples fato de terem apoiado a tese de que Jesus e os apóstolos não possuíam riquezas ou bens materiais.

A roda do tempo continuou a girar de forma impiedosa. Surgiu no século XVI a Reforma, e ela parece não ter sido capaz de mudar muito esse quadro. Edith Simon, referindo-se ao governo teocrático instituído por Calvino na Suíça, afirma que “O povo de Genebra, que tinha tanto orgulho de haver derrubado o domínio dos duques saboianos e dos prelados romanos, submeteu-se voluntariamente a uma tirania muito mais férrea e extensa[2]. Seria uma injustiça dizer que a reforma não teve o seu valor, mas como vemos os muros ainda não tinham sido derrubados completamente.

Toda essa história nos causa espanto e horror, nos fazendo lembrar do profeta Habacuque, que na sua angústia bradou: “Até quando Senhor, clamarei eu, e tu não escutarás?” (Hb 1:2). Angustiados nos perguntamos: De onde tirar esperança? Esse ciclo perverso nunca terá fim?

O mundo de hoje não é muito diferente daquele vivido pelo povo judeu no exílio. Há sistemas opressores que denigrem o homem, feito a imagem e semelhança de Deus. Muitos são os que correm desesperados para as igrejas, pois ouviram dizer que lá é um lugar de esperança e libertação. Na tentativa de escapar de terrível Babilônia, o cristianismo moderno parece se esconder, se enclausurar entre muros. Constroem-se castelos seguros, imbatíveis, mas para viver entre seus muros é preciso pagar caro (literalmente falando). Para receber proteção contra os “demônios” do mundo exige-se obediência e fidelidade incondicional. Lamentavelmente em muitas delas vale o dito espanhol: “Entre Deus e dinheiro, o segundo é primeiro”. Nelas já não reina Marduk, mas Mamon. É penoso dizer, mas Babilônia está em nós.

Jesus quis tornar o homem livre quando disse: “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8:32), mas ele tem se tornado prisioneiro de si mesmo nesse eterno retorno à Babilônia. O que nos resta é lançar sementes. O salmista já enxergava o poder contido no pequeno, porém poderoso grão: “Aquele que sai chorando, levando a semente para semear, voltará com cânticos de júbilo, trazendo consigo os seus molhos” (Sl 126:6).

Lançar sementes é a nossa única esperança...

Referências Bibliográficas:
[1] COULANGES. Fustel. A cidade antiga. Rio de Janeiro: Ediouro, 1996, p. 264.
[2] SIMON, Edith. A Reforma. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1971, p. 61.

SEMENTES QUE DORMEM

Por Jones F. Mendonça

Dia desses, eu assistia ao DVD de um músico brasileiro cujo cenário de fundo eram as construções estilo art nouveau idealizadas pelo arquiteto catalão Antonio Gaudi. Aquelas catedrais e esculturas pareciam ter sido criadas com o propósito de causar assombro naqueles que ousassem contemplá-las. A enorme riqueza de detalhes e as formas inusitadas que delineavam suas obras eram capazes de arrebatar suspiros do mais duro coração. A Catedral da Sagrada Família, por exemplo, começou a ser construída em 1883 e até hoje não ficou pronta, ficando a conclusão reservada para a posteridade. Os educadores cristãos deveriam se inspirar em Gaudi, sempre inovando, sempre se debruçando sobre o mar a fim de poder conhecer o que há além do horizonte.

Num de seus inúmeros belos textos, Ruben Alves compara os professores aos eucaliptos e os educadores aos jequitibás . Os eucaliptos são todos iguais. Produzidos em massa tem o seu fim na indústria. Já os jequitibás não tem uma forma padrão. Eles são fortes, sua madeira é nobre e ficam na lembrança daqueles que viveram ao seu redor. É verdade que jequitibás não são tão fáceis de encontrar, assim como araras azuis ou micos-leões-dourados, pois quando o habitat de um ser vivo não satisfaz a determinadas condições, fatalmente ele entra em extinção. Poucos são os que perseveram no cultivo de um jequitibá...

Em algumas igrejas evangélicas o modelo educacional não parece cultivar um ambiente adequado. Nelas é adotado um modelo arcaico, onde o professor é colocado como “dono da verdade”. Segundo Norvel Welch:

O professor da Escola Bíblica Dominical é um intérprete da Bíblia. Ele foi nomeado para este fim. Ele fica ao lado do seu aluno para dar as melhores explicações possíveis, para esclarecer palavras e frases difíceis, para desaconselhar conclusões precipitadas e para evitar interpretações espúrias, forçadas ou prejudiciais” [1].

Como o jequitibá poderá sobreviver num ambiente assim, tão cruel, onde a beleza, a força de seus galhos e a sua forma única não encontram nutrientes para se desenvolver? Como preservar jequitibás onde há machados tão ávidos e insaciáveis? Nesse modelo, que Paulo Freire chama de “educação bancária”, a mente do aluno não é estimulada, pois quando se coloca o professor como intérprete da Bíblia, o que resta ao aluno, senão ouvir e assimilar sem questionar?

Os bereanos evengelizados pelo apóstolo Paulo, ouviram, conferiram, refletiram e mudaram sua opinião a respeito daquilo que acreditavam ser o correto. Os tessalonissenses, ao contrário, ouviram, rejeitaram e perseguiram aquele que desejava apenas lhes mostrar algo novo. Mas afinal, nosso desejo é cultivar jequitibás-bereanos ou eucaliptos-tessalonissenses?

O terreno muitas vezes parece árido, mas como disse Saint-Exupéry: “as sementes são invisíveis. Elas dormem no segredo da terra até que uma cisme de despertar. Então ela espreguiça, e lança timidamente para o sol um inofensivo galhinho" [2]. Caso ele esteja certo, resta-nos apenas regar e esperar, afinal, jequitibás não crescem de uma hora para outra. Ainda bem!

Referências bibliográficas:
[1] NORVEL, Welch. Melhor Ensino Bíblico Para Adultos, 1986, p.24.
[2] SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O Pequeno Príncipe, 1987, p.22.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

BENNY HINN, MATRIX E A CABANA

Por Jones Mendonça

Às vésperas do Natal de 1973, o polêmico Benny Hinn relata ter vivenciado uma experiência inesquecível com Deus. Essa experiência marcante teria ocorrido em seu quarto, fazendo-o compreender coisas inimagináveis a respeito da trindade. Tudo isso foi relatado no seu polêmico best seller “Bom dia Espírito Santo”. O livro continua um sucesso de vendas, sendo facilmente encontrado em livrarias populares, como pude constatar recentemente num camelódromo no centro do Rio.

Há alguns meses surgiu no mercado editorial brasileiro um novo sucesso de vendas que aborda o mesmo tema: o relacionamento do homem com a trindade. “A cabana”, escrita pelo desconhecido Willian Young, tem vendido como água e impressiona por abordar em suas páginas temas teológicos complexos de forma simples e agradável. Mas se o livro de Hinn é marcado por estereótipos, interpretações bíblicas fundamentalistas e por experiências pessoais extraordinárias transformadas em regras, este último nos brinda com uma mensagem simples e despretensiosa, cheia de reflexões que tocam no fundo da nossa alma.

No capítulo seis do livro há um diálogo magnífico entre Mackenzie, um homem amargurado pelo brutal assassinato de sua filha, e Deus, que no livro é retratado como uma mulher chamada Elousia. Quem ainda permanece acorrentado à imagem de Deus como sendo um ancião barbudo de cabelos branquinhos se choca com o fato dEle (ou dEla) surgir no livro não apenas como mulher, mas sendo negra e com alguns quilinhos a mais. Elousia possui muitas semelhanças com o oráculo urbano do filme Matrix. Mas tais semelhanças vão além do aspecto físico. É curioso que tanto no filme como no livro a conversa ocorra numa cozinha entre um homem em crise e uma mulher negra, tendo como um dos assuntos a liberdade humana. Caso o leitor seja um cristão ultra-ortodoxo certamente terá reações nada favoráveis ao livro. Numa sociedade machista, racista e que valoriza tanto o corpo esbelto como ideal estético, tal imagem não deixa de causar certa estranheza. Mas é justamente isso que o autor deseja, derrubar estereótipos.

O encontro se dá numa cabana, onde Mackenzie terá oportunidade de resolver suas crises com Deus. Entre diálogos inteligentes e bem humorados, percebemos um Mackenzie (ou simplesmente Mack) cada vez mais cônscio do amor de Deus pelo ser humano. Toda aquela imagem de um Deus severo, distante e mal humorado vai se apagando da sua mente. No livro, Deus ouve um funk secular de uma banda chamada diatribe, que é o nome de um artifício retórico utilizado pelo apóstolo Paulo. Mas não é um funk qualquer. Entre as batidas ritmadas fluem palavras com uma mensagem poderosa. Longe do moralismo exarcebado presente em nossas igrejas, Elousia condena o dualismo simplista que coloca de um lado a música gospel, sagrada, e do outro a música secular, profana. Na obra de Young Deus é pop, fala a nossa língua, se emociona como nós e está profundamente interessado na fantástica aventura do homem na terra. Mack não resiste ao jeitão meigo e amoroso de Elousia, que num papo descontraído lhe apresenta uma solução para seu sofrimento.

Ainda que se considere o totaliter aliter (o totalmente outro), Elousia se mostra disposta a se relacionar com o homem e isso só seria possível pela mediação de Jesus, o Deus que se fez carne. Retratado no livro como um carpinteiro simples e gentil, Jesus é o remédio para sua dor. Só ele poderá libertá-lo. A teologia do livro está bem ajustada ao pensamento reformado, que põe o homem como escravo do pecado até o momento em que é atingido pela graça de Cristo. Apesar disso, Young rejeita veementemente a crença na predestinação. Ele também foge da idéia de que Deus abandonou Jesus na cruz, enfatizando que esteve com Cristo até mesmo no agonizante momento da crucificação, carregando inclusive as mesmas marcas do martírio nos pulsos. Apesar da nítida distinção que faz das três pessoas da trindade, Young procura enfatizar que são constituídas da mesma substância, reafirmando o que foi decidido no credo de Nicéia. O autor tem ainda uma outra preocupação. Mesmo que a humanidade de Jesus seja bastante destacada, ele se preocupa em acentuar sua natureza divina. Assim, agrada alexandrinos e antioquinos.

Para quem deseja respostas prontas a respeito do nosso relacionamento com Deus, basta buscá-las nas páginas do livro de Benny Hinn, já que ele alega ter recebido na sua “cabana”, fantásticas revelações diretas de Deus. Mas deve ler “A cabana” aquele que está em busca de reflexões profundas, aquele que quer se emocionar e compreender que a vida é assim, cheia de surpresas, de decepções, frustrações, mas também de sonhos, esperanças e alegrias. Nessa curta vida na terra Deus se apresenta a nós das formas mais inusitadas e precisamos estar atentos para percebê-lo inclusive nos momentos mais difíceis. Os grandes paradoxos da vida não se encontram apenas no mundo infra-celeste. No mundo ultra-terreno também é assim. Deus é três, mas é um, Cristo é divino, mas é também homem, e Deus é totalmente outro, mas é também amor e deseja se relacionar conosco. Aí está a grande beleza do cristianismo.

POR UMA NOVA TEODICÉIA: ENTRE EPICURO E CALVINO

Por Jones Mendonça


Sempre que passeio de bicicleta com meu filho a conversa acaba num assunto filosófico. Ele começa a fazer perguntas do tipo “quem criou Deus?”, ou “até onde vai o universo?”. São perguntas complicadas, mas sempre dou um jeitinho de responder. Certa vez ele me veio com a velha pergunta: “pai, porque Deus não acaba de vez com os homens maus?”. Assim ele me fustigava a lhe oferecer uma teodicéia (explicação que visa justificar a presença do mal). Pensei em citar o texto bíblico que diz que “não há justo, nem sequer um”[1], assim poderia lhe dizer que Deus não acaba com os homens maus simplesmente porque não há nenhum homem completamente bom. Mas essa resposta seria muito teológica para uma criança e ele certamente não ia se dar por satisfeito. No fundo, no fundo, o que ele queria mesmo era saber se Deus, sendo tão poderoso, não podia acabar com a fome, com as pestes, com a violência, e com tanta maldade que existe no mundo. Parti então para a tentativa de lhe explicar o conceito de livre arbítrio. “Mas o que é isso pai?”, perguntou o menino curioso. Disse-lhe que para que não fôssemos como robôs, condenados a só fazer aquilo que os donos mandam, Deus nos fez livres, mas como conseqüência disso o mal passou a ser uma possibilidade (que acabou se tornando real). Após essa resposta surgiu uma pergunta que me levaria ao total embaraço: “se somos livres, então é possível que o mal nos domine por completo e acabe levando o mundo ao mais tenebroso caos?”. Não! Disse eu apavorado. No final Deus sempre vence, afinal Ele dirige a história. Ora, disse ele, mas se Deus dirige a história, como você pode dizer que somos livres? A conversa tinha chegado agora ao seu ponto crucial. Será que é possível dirigir a história sem dirigir os homens? Somos realmente livres? O paradoxo que atormenta teólogos, filósofos e até mesmo cientistas geniais tinha exposto sua face medonha à luz da nossa descontraída conversa.


Stephen Hawking, considerado por muitos o mais brilhante físico teórico desde Einstein, e que ocupa a cátedra que foi de Newton na Universidade de Cambridge, dedicou um capítulo de seu livro “Buracos negros, universos bebês e outros ensaios” ao tema “estará tudo determinado?”. Apesar de sua inquestionável e fantástica genialidade, Hawking também se revela intrigado com o tema:
Seremos realmente senhores de nosso destino? Ou tudo que fazemos está determinado e preestabelecido? Em favor da predestinação, costuma-se dizer que, sendo Deus onipresente e estando acima do tempo, Ele saberia o que ia acontecer. Mas nesse caso, como poderíamos ter algum livre-arbítrio? E se não temos livre-arbítrio, como podemos ser responsáveis por nossos atos? Seria difícil considerar uma pessoa culpada se ela está predestinada a roubar um banco. Nesse caso poderíamos puni-la por isso? [2]
O livro nada tem a ver com religião, aliás Hawking aparentemente nem crê num Deus pessoal, apesar disso, questões envolvendo livre arbítrio, determinismo e responsabilidade pessoal também o deixam encucado. Desde que o homem começou a observar a natureza com as lentes da razão, na Grécia Antiga, o tema tem sido marcado por debates candentes. Ao adentrar nos átrios da religião, os ânimos se tornam ainda mais aflorados, já que passa a não se tratar mais de mera opinião, mas de fé, de verdade, de certeza.
A discussão sobre a influência dos deuses no mundo dos mortais foi energicamente descartada por Epicuro, filósofo do século IV a.C. O termo “providência divina” nenhum sentido fazia para ele:
Os deuses existem, afirma Epicuro, mas seriam seres perfeitos que não se misturam às imperfeições e às vicissitudes da vida humana. Os deuses viveriam em perfeita serenidade nos espaços que separam os mundos. Sua perfeição suprema constitui o ideal a que aspiram os sábios e deve ser objeto de culto desinteressado; não teria sentido adorá-los de maneira servil, temerosa e interesseira, pois eles desconhecem o mundo imperfeito dos homens e de modo algum atuam sobre ele [3].
Os deuses de Epicuro “vivem na beata solidão dos intermundos, completamente separados dos homens, para não morrerem e para sua felicidade”[4]. O mundo epicurista seria como um barco à deriva, tendo como tripulantes a humanidade.

Após a revolução intelectual proporcionada pelos pensadores iluministas, séculos depois, a idéia de um Deus que criou o mundo e o abandonou, como um relojoeiro que dá corda num relógio e o deixa funcionar sozinho, se tornou moda na Europa, principalmente na Inglaterra. Esse ponto de vista entrava em sério conflito com aquilo que vemos ao longo da Bíblia, já que o Deus bíblico é um Deus que age na história, preocupando-se e interagindo com suas frágeis criaturas.

Por outro lado, temos a doutrina proposta pelos reformadores. Calvino, por exemplo, achava que o homem, antes do pecado, usufruía de livre-arbítrio, e que caso quisesse, poderia alcançar a vida eterna. Apenas Adão e sua mulher Eva foram livres, mas após o pecado se tornaram inclinados ao mal como todos nós: “Mas os que professam ser cristãos, e ainda buscam o livre arbítrio no homem perdido e imerso em morte espiritual, corrigindo a doutrina da Palavra de Deus com os ensinos dos filósofos, estes se desviam totalmente do caminho...”[5].

Após ceder à tentação da serpente, afirmava Calvino, o homem perdera o livre-arbítrio, tornando-se escravo do pecado, coisa que só poderia ser mudada com a intervenção divina. Todas as ações dos homens, segundo Calvino, convergem para os propósitos divinos: “Daí, afirmamos que não só o céu e a terra, e as criaturas inanimadas, são de tal modo governados por sua providência, mas até os desígnios e intenções dos homens, são por ela retilineamente conduzidos à meta destinada”[6]. O reformador francês vai ainda mais longe, dizendo que até mesmo “os ladrões e os homicidas, e os demais malfeitores, são instrumentos da divina providência, dos quais o próprio Senhor se utiliza para executar os juízos que ele mesmo determinou”[7].

Analisando o Deus dos epicureus e o de Calvino, é possível estabelecer alguns paralelos. Se o Deus dos epirureus não interferia no mundo sensível, o de Calvino interfere até demais. Por outro lado, tanto deus dos epicureus quanto o de Calvino não são afetados pelos homens, já que para Calvino “quando ouvimos que Deus se ira, não devemos imaginar que exista nele qualquer emoção, mas, antes, devemos considerar esta expressão como tomada de nosso prisma”[8].

Há algo que se revela após um exame cuidadoso dos escritos de Calvino, o seu deus é também o deus dos filósofos. Vive na longínqua “solidão dos intermundos”. Mas ao contrário do deus dos epicureus, este atua na terra, não por amor, já que não possui sentimentos, mas para determinar o destino dos homens, que como fantoches caminham ou para a fornalha, ou para o gozo eterno das bem-aventuranças.

Retomo à pergunta feita por Hawking: “se não temos livre-arbítrio, como podemos ser responsáveis por nossos atos?”[9]. Na teodicéia calvinista o mal acaba sendo causado por Deus (sei que Calvino nega isso, mas é uma conseqüência lógica), tornando o homem isento de culpa diante de seus erros. Concordo com René Kivitz, quando diz que “o mal é o resultado de uma ação humana em afastar-se do Deus, sumo bem”[10]. No entanto é necessário perceber as implicações desta afirmação. Caso o homem possua ações verdadeiramente livres e seja o causador do mal, teríamos que aceitar que Deus não pode prever suas ações más. Afinal, Sua pré-ciência implicaria numa pré-destinação. Ou será que é possível a não concretização de algo que já foi previsto? Assim, a única maneira de destruir o mal seria destruindo o liberum arbitrum do homem, transformando-o num mero boneco manipulado pelos impiedosos fios do destino.

Mas como explicar o fato das escrituras descreverem Deus como sendo onisciente? Bem, pelo que sabemos Deus abriu mão do exercício de sua onipotência na pessoa de Jesus Cristo, permitindo que fosse morto por homens! Se ele pôde abrir mão do exercício de sua onipotência, porque não abriria mão do exercício de sua onisciência para que o homem fosse realmente livre?

A grande verdade é que para que haja um relacionamento verdadeiro é necessário que haja liberdade entre as partes envolvidas nesse relacionamento. Como bem afirmou Ricardo de Gondim: “os relacionamentos só podem acontecer com liberdade real. Sem liberdade, qualquer relacionamento ou é coercitivo e, portanto, desprovido de qualquer valor, ou não existe”[11].

Confesso que já fui seduzido pelo deus dos epicureus, distante e pouco preocupado com as mazelas humanas. Também já fui seduzido pelo deus calvinista, não por simpatizar com ele, mas porque me recusava a aceitar a idéia de um Deus mutável. Entretanto, não me foi possível exercer uma espiritualidade saudável adotando tais concepções. Após um árduo e longo caminho compreendi que a única forma de uma oração fazer sentido, era aceitar um Deus capaz de mudar diante da súplica de um angustiado fiel. Sem diálogo não há relacionamento e conversar com Deus seria como conversar com uma tartaruga, um poste ou uma samambaia.

Referências bibliográficas:
[1] Rom 3.10
[2] HAWKING, Stephen. Buracos negros, universos bebês e outros ensaios. 1995, p. 95
[3] EPICURO, Col. Os Pensadores, 1985.
[4] PADOVANI, Umberto. Filosofia da religião. p. 50.
[5] CALVINO, João. Institutas – Edição clássica (latim), Livro I, cap. XV, 2007, p. 196.
[6] Ibidem, Cap. XVI, p. 207.
[7] Ibidem, p. 217.
[8] Ibidem, Cap. XVII, p. 227.
[9] Cf. nota nr. 2.
[10] Disponível em:ttp://outraespiritualidade.blogspot.com/2006/11/teodicia.html>. Acesso em 14mai09.
[11] Disponível em: <
http://http//www.portalevangelico.pt/noticia.asp?id=2654>. Acesso em 14mai09.

PAUL TILLICH E O MÉTODO DA CORRELAÇÃO

 Por Jones Mendonça

Sem dúvida alguma Paul Tillich é um dos maiores nomes da teologia protestante do século XX. De maneira bastante original buscou um diálogo entre a teologia, a filosofia existencialista e a psicologia de profundidade. Mas toda essa bagagem cultural acabou contribuindo para que a leitura de seus escritos seja quase insuportável para os menos familiarizados com essas disciplinas. Sua erudição era tão ampla que o tornava capaz de discutir numa mesma obra idéias de pensadores como Hegel, Kierkegaard, Kant, Jung, Freud, Erich Fromm, Lutero, Calvino, Agostinho de Hipona e tantos outros mais.

Da psicanálise herdou a descoberta do valor do símbolo, que segundo ele é a melhor maneira de expressar a verdade revelada. Alguns de seus questionamentos são no mínimo inquietantes: “porque a Trindade não pode ser ampliada a ponto de se tornar uma quaternidade ou ainda mais que isso?”[1]. Será que Paul Tillich está defendendo a idéia tão discutida dentro do catolicismo de que Maria deveria ser elevada ao nível de divindade, sendo considerada co-salvadora juntamente com Cristo? Ou, de forma ainda mais extremada, será que está defendendo o politeísmo, já que levanta a possibilidade de uma ampliação ainda mais elástica? A quaternidade é um assunto caro a Jung, discípulo de Freud e conhecer seu pensamento sobre o tema é essencial para compreender o que Paul Tillich queria exprimir com esse questionamento.

E o que dizer dos termos “Ser”, “não-ser”, “Ser-em si” que constantemente surgem em suas reflexões embaçando a mente dos neófitos alunos de teologia? Para não considerá-lo um lunático imerso em devaneios sem sentido é preciso ter uma noção do que foi a filosofia existencialista, que aliás também influenciou o pensamento do não menos polêmico Rudolf Bultmann. Paul Tillich é assim, erudito, eclético, profundo. Certa vez ouvi de um pastor que deve ser considerado um herói qualquer cristão capaz de ler seus escritos e permanecer “crente”. Será?

O seu linguajar quase hermético pode facilmente levar um leitor a considerá-lo um daqueles teólogos teóricos que nenhum compromisso tem com a igreja. Mas essa não parece ter sido sua intenção. Logo na introdução de sua teologia sistemática Paul Tillich enfatiza a necessidade de uma teologia prática: “A teologia, como função da igreja cristã, deve servir às necessidades da igreja.”[2]. Para ele, tais necessidades básicas consistem na “afirmação da verdade da mensagem cristã e a interpretação desta verdade para cada geração.”[3]. Ele propõe uma teologia dinâmica, que busca sempre confrontar as verdades fundamentais do cristianismo com a situação. Por “situação”, ele entende serem “todas as várias formas culturais que expressam a interpretação de sua existência do homem moderno”. Esse método ficou conhecido como método de correlação. Como nos diz Luana de Oliveira: “Tillich elabora um método de correlação que situa a teologia entre a mensagem (cristã) e a situação (contexto)”[4]. Para Paul Tillich a teologia deve funcionar como um elo de ligação entre as perguntas implícitas na situação e as respostas implícitas na mensagem. Caso não exista uma boa articulação entre esses dois pólos, essa mensagem corre o risco de perder seu poder profético. Quando dizemos que é preciso contextualizar a mensagem bíblica adequando-a a cada geração, estamos de certa forma fazendo aquilo que ele propõe.

Paul Tillich critica o fundamentalismo e a ortodoxia, pois considera que rejeitam a tarefa de buscar a mensagem eterna dentro da Bíblia e da tradição. Pela sua ótica, tais correntes tendem a transformar uma verdade teológica do passado em algo imutável, não permitindo que respondam às perguntais existenciais do presente e do futuro. Ele sustenta que uma verdade bíblica eterna deve ser apresentada por meio de símbolos e não por sistemas teológicos rígidos, pois só a expressão simbólica possui “uma base adequada para apontar para além de si mesma”[5]. Os símbolos, afirma Paul Tillich, “forçam o infinito a descer à finitude”[6]. Só através deles a mensagem eterna do cristianismo poderá atravessar os séculos sem perder a sua força, adequando-se de forma satisfatória a cada nova situação. Com esse argumento Paul Tillich demonstra que o fundamentalismo e a ortodoxia não apresentam métodos adequados para estabelecer uma relação eficaz entre a verdade eterna (o querigma) e a situação.

A teologia querigmática e a teologia apologética são postas por Paul Tillich em extremos opostos. Para ele os apologistas tendem a se apegar demais à situação, o que causaria o abandono do querigma. Tal erro seria notado nos cristãos do primeiro século, que na ânsia de encontrar pontos de contato entre a verdade bíblica e o pensamento da época, acabaram por dissolver a mensagem cristã. O contrário ocorreria com a teologia querigmática. Como para eles a situação não pode ser penetrada, restaria apenas a tarefa de repetir passagens bíblicas isoladas, negando-se a assumir a tentativa de dar respostas às perguntas formuladas pelo contexto contemporâneo. Para Paul Tillich, Karl Barth deixa de ser um teólogo querigmático justamente porque tinha a coragem de se corrigir à luz da situação, conseguindo ultrapassar os limites da ortodoxia e estabelecer um diálogo entre querigma e apologética. Aliás, para ele sua grandeza consistia justamente nisso. O fato de ter conseguido criticar o governo de Hitler a partir da ressurreição de Cristo seria uma prova disso.

Toda essa discussão envolvendo a dialética entre mensagem e situação, feita por Paul Tillich, permanece em intenso debate. Apesar de não me parecer possível negar o valor do método da correlação, vale a pena estar atento ao alerta dado pelo próprio Paul Tillich: “esse método não um instrumento a ser manipulado a bel-prazer.”[7]. Ele nos alerta de que quando o método da correlação é empregado com o intuito de formular respostas a partir da pergunta, a mensagem cristã fica ainda mais comprometida. Se os apologistas erraram por valorizar demais a situação em detrimento do querigma, os que cometem tal inversão simplesmente ignoram a possibilidade de uma verdade imutável, já que apresentam uma nova verdade a cada nova pergunta.

É importante salientar que o conceito de “verdade imutável” em Paul Tillich não é o mesmo que se usa na teologia protestante ortodoxa. Segundo suas palavras: “um símbolo religioso é verdadeiro [quando] é a expressão de uma revelação verdadeira.”[8]. Tal modo de enxergar a revelação é bem exemplificado pelo mitólogo Joseph Campbell, que como Tillich, foi fortemente influenciado dela psicanálise junguiana:
a semente se tornou o símbolo mágico do ciclo infinito. A planta morria, era enterrada e sua semente renascia. Campbell mostrou-se fascinado pelo fato de esse símbolo ter sido incorporado pelas grandes religiões do mundo, como a revelação da verdade eterna a vida provém da morte, ou, como ele dizia: “A bem-aventurança provém do sacrifício[9].
Assim como para os agricultores primitivos o que tinha valor não era propriamente a semente, mas o símbolo que ela carregava, para Paul Tillich o que vale na morte e ressurreição de Cristo não é propriamente a morte e a ressurreição como fatos históricos, mas o valor que carregam como expressão de verdades fundamentais. Tais símbolos podem ser respostas a perguntas feitas por grupos variados, satisfazendo suas perguntas existenciais de acordo com as mais diversas situações. O homem faz as perguntas, a teologia responde. Para Paul Tillich não basta desmitologizar, como fez Bultmann, é preciso aplicar o mito à situação.

Paul Tillich foi criticado por construir sua teologia a partir do homem e não de Deus, já que começa com as perguntas e não com as respostas. Mas se considerarmos que as respostas bíblicas são justamente aquelas que atendem as necessidades existenciais do homem essa crítica perde sua razão de ser. Se a revelação é uma resposta ao vazio existencial humano é natural que comecemos com as perguntas e não com as respostas. Afinal ninguém busca responder a uma pergunta não feita. A teologia de Paul Tillich é muito filosófica e racionalista, é verdade, mas não dá para negar o seu valor.

Referências bibliográficas:
[1] TILLICH, Paul. Teologia Sistemática, p. 608.
[2] Ibid, p. 13.
[3] Iden.
[4]OLIVEIRA, Kathlen Luana de. História como Contextualidade e Apatia Teológica. Protestantismo em Revista. São Leopoldo, v. 13, mai.-ago. 2007, p. 69. ISSN 1678 6408. Disponível em: Acesso em: 16/03/2009.
[5] TILLICH, Paul. op. cit., p.202.
[6] Ibid. p. 203.
[7] TILLICH, Paul. op. cit., p.17.
[8] Ibid. p. 203.[9] CAMPBELL, Joseph. O poder do mito. 1990, p.1
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Imagem:
Capa do livro "Outstanding christian thinkers" (eminentes pensadores cristãos"), de John Heywood Thomas. 

domingo, 31 de maio de 2009

O ABSOLUTISMO E O RELATIVISMO TEOLÓGICO

Por Jones Mendonça

No meio protestante vigora uma tendência obsessiva pela certeza. É o que Rubem Alves denomina Protestantismo de Reta Doutrina (PRD)[1]. Nele não há lugar para dúvidas, a fé deve buscar a certeza, a infalibilidade, o conhecimento absoluto. É por isso que nos primeiros passos um novo convertido já é surpreendido pela pergunta: “tens certeza da tua salvação?”. Por esse modo de pensar, o discurso sobre o objeto (a doutrina protestante) confunde-se com o próprio objeto do discurso (a Bíblia, Deus, a salvação, etc.).
No artigo “Relativismo, certeza e agnosticismo em teologia”[2], escrito pelo pastor Augusto Nicodemos, vemos um belo exemplo da tentativa de transformar a teologia em um paradigma eterno e imutável. Ele faz distinção entre “teologia certa” e “teologia errada”, estabelecendo um evidente contraste entre a “teologia verdadeira”, ortodoxa, baseada nos antigos credos cristãos e nas confissões reformadas, e a “teologia falsa”, heterodoxa, articulada pelos teólogos liberais. Mas como bem analisa Rubem Alves: “heresia e ortodoxia são palavras criadas pelos ortodoxos. Mas [...] ortodoxos são aqueles que tiveram o poder para impor suas idéias. Heresia e ortodoxia têm muito pouco a ver com falsidade e verdade”[3]. Numa matéria publicada num jornal presbiteriano na década de 60 o atrito entre essas duas correstes já se fazia notar:
Duas correntes se chocam, duas mentalidades colidem, duas concepções ideológicas se contrapõem. De um lado estadeia-se a ala representada pelo magistério clássico e tradicional, seguro de suas convicções teológicas [...]. De outro, alinham-se espíritos irrequietos, inconformados, revolucionários, iconoclastas e presumidos, que as auras da atualização mesmerizaram frementes[4].
Logo no início do artigo o autor desdenha um teólogo por ter afirmado que “a teologia é apenas um construto humano, limitado, provisório, subjetivo...”. Mais adiante ele mesmo confessa: “Não me entendam mal. Eu também acredito que a teologia é um construto humano, e como tal, imperfeito, incompleto e certamente relativo (grifo nosso)”. Se a percepção humana da verdade é relativa, como poderemos afirmar que somos os únicos certos? Mas o autor se recusa a aceitar as conseqüências de sua própria conclusão: “reluto em aceitar as conseqüências plenas dessa declaração”.
É verdade que o relativismo absoluto nos conduz a um mundo caótico onde sequer é possível construir uma ética global. Como condenar o infanticídio em alguns países africanos se o “certo” e o “errado” dependem da cultura e da ótica pessoal?
Verdade, mentira, certo, errado. Essa tensa dialética persegue e aterroriza o ser humano. John Dominic Crossan, famoso estudioso do Jesus histórico, assim se expressa em relação a essa tensão presente no pensamento religioso moderno:
A razão e a revelação, ou a história e a fé, ou a reconstrução histórica e a articulação da crença não podem contradizer uma à outra a menos que não estejamos entendendo uma delas, ou ambas [...] Ser humano é viver na sua tensa dialética, e a nossa humanidade pode ser igualmente perdida quando a dialética falha em muito, em qualquer direção[5].
A teologia é mera tentativa de sistematizar a fé, sendo, portanto, falha. A fé vai além da razão, é supra-racional. Toda construção teológica que visa uma confissão de fé é especulativa e serve para dar certa coesão a um grupo, mas jamais deve ser fechada e inflexível. Ao mesmo tempo somos confrontados com a necessidade de estabelecer alguns pontos fundamentais, sem os quais seria impossível construir uma teologia. “Nós não necessitamos nem de uma ditadura do relativismo, nem de uma ditadura do absolutismo”[6], disse certa vez Hans Küng numa entrevista.

A tradução da Bíblia para uma outra língua e o trabalho exegético implicam em uma interpretação. Os pais da igreja interpretavam a Bíblia de acordo com os métodos exegéticos da época. Como bem analisou Rudolf Bultmann:
A reflexão sobre a hermenêutica (sobre o método de interpre­tação) mostra claramente que a interpretação, isto é, a exegese des­cansa sempre em alguns princípios e concepções que atuam como pressuposições do trabalho exegético, ainda que amiúde os intérpre­tes não sejam conscientes disto[7].
No cristianismo dos primeiros séculos a filosofia grega exerceu forte influência na construção dos dogmas de fé cristãos, ainda que muitos negassem tal fato. Hoje há teólogos influenciados pelo marxismo, pela psicanálise, pela filosofia existencialista, e tantas outras correntes de pensamento. Ninguém está isento de influências externas na exegese de um texto.
A vida nos prega peças. Em busca de uma opinião sensata, corajosa e honesta sobre a relação entre o absolutismo e o relativismo me deparei com um dos maiores ícones da ortodoxia moderna, o Papa Joseph Hatzinger, que na época era Cardeal. Confesso que a sua opinião a respeito de certezas teológicas me surpreendeu:
crente e incrédulo, cada qual a seu modo, participam da dúvida e da fé, caso não se ocultem de si mesmos e da verdade da sua existência. Nenhum é capaz de evadir-se completamente à dúvida; nenhum pode escapar de todo à fé. Para um, a fé torna-se presente contra a dúvida; para outro, pela dúvida e em forma de dúvida. Temos aí a figura fundamental do destino humano: ser capaz de encontrar o definitivo de sua existência somente nesse inevitável embate de dúvida e fé, de agressão e certeza[8].
Creio que uma teologia que faça jus ao nome “cristã” não pode abrir mão de que a Bíblia é produto de uma revelação divina, ainda que consideremos que foi escrita em linguagem humana, sendo, portanto, tosca, incompleta e limitada. Também não pode abrir mão que Jesus é Deus revelado, verbo encarnado, homem-Deus entre a humanidade desumanizada pela corrupção da sua consciência. Mas tais verdades essenciais, da forma como foram expostas, são minhas apenas, jamais terei a pretensão de torná-las inflexíveis. Entre a dúvida e a certeza fico com a esperança: “Porque na esperança fomos salvos. Ora, a esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera? “(Rm 8,24).


Notas:
[1] Para Rubem Alves o PRD se caracteriza pelo fato de privilegiar a concordância com uma série de formulações doutrinárias, tidas como expressões da verdade, e que devem ser afirmadas sem nenhuma sombra de dúvida, como condição para participação na comunidade eclesial. Em sua opinião o PRD é predominante na Igreja Presbiteriana do Brasil, apesar de não se restringir a esta denominação.
[2] Publicado originalmente no site: http://tempora-mores.blogspot.com/2009/01/relativismo-certeza-e-agnosticismo-em.html. Acesso em 15 de fevereiro de 2009.
[3] ALVES, Rubem. Religião e repressão, 2005, p. 327.
[4] O Brasil Presbiteriano. São Paulo, Casa Ed. Presbiteriana. Março de 1963, 10 apud ALVES, Rubem. Religião e repressão, 2005, p. 331.
[5] CROSSAN, Dominic. Quem Matou Jesus? As raízes do anti-semitismo na história evangélica da morte de Jesus, 1995, p.249.
[6] Revista do Instituto Humanitas Unisinos. São Leopoldo, 22 de outubro de 2007. Edição 240, p.7.
[7] BULTMANN, Rudolf. Jesus Cristo e a mitologia, 2003, p. 37.
[8] RATZINGER, Joseph. Introdução
ao Cristianismo, 1970, p. 14.

Tábua rasa?


Quem assistiu ao filme “Amadeus”, adaptação de uma peça de teatro de Peter Shaffer, conhece a frustração de Antônio Salieri diante da genialidade de Mozart. Salieri era um compositor ofuscado pela sombra desse prodígio austríaco. Ele se julgava injustiçado por Deus, pois na sua concepção Mozart era indigno daquele magnífico “dom divino” que ele desejava tanto para si. Há no filme um momento inesquecível que mostra o assombro de Salieri ao ter diante de seus olhos uma partitura de Mozart. A harmonia e o brilhantismo da obra eram tais que seus olhos não puderam conter as lágrimas. No filme, Salieri se tornou tão obcecado pelo talento de Mozart que acabou esquecido num manicômio.

As mentes mais inquietas podem ser levadas a fazer a seguinte pergunta após refletirem sobre a trama envolvendo essas duas personagens: O talento de Mozart era inato, ou foi adquirido pela experiência?

O modo de pensar de Salieri demonstra ser ele um inatista, ou seja, ele acreditava que as pessoas herdavam de berço um talento especial para determinadas tarefas. A arte de compor, por exemplo, estaria reservada a algumas poucas pessoas divinamente abençoadas. Mas seria isso verdade?

John Locke (1632-1704), pensador inglês, afirmava que o homem não tem nem idéias nem princípios inatos, mas sim que os extrai da vida, da experiência. Locke dizia que a nossa alma é como uma folha em branco, limpa de qualquer letra e sem idéia nenhuma. Locke não concordaria com Salieri. Ele diria que o que tornava Mozart tão genial eram suas experiências vividas. Ele era um empirista.

Na época, ao invés da expressão “folha em branco”, os empiristas utilizavam a expressão “tábua rasa”, pois os romanos utilizavam tábuas recobertas de cera, para escrever com um estilete, raspando depois a escrita e reutilizando a tábua para novos escritos. Assim era a “tabula rasa”. Desse fato nasceu o termo “fazer tábua rasa”, ou seja, raspar tudo, não deixar traço de nada.

A batalha entre inatistas e empiristas atravessa séculos, sendo discutida tanto por filósofos como por desconhecidos numa mesinha de bar. Quem nunca teve sua bochecha apertada por uma tia inatista e ouviu algo do tipo: “é inteligente como o pai”, ou ainda “é teimoso como o avô”. Por outro lado há aqueles que afirmam com uma convicção inabalável: “o homem é produto do meio”, dizendo com isso que a “tábua” é realmente “rasa” e que vai sendo escrita de acordo com as experiências do dia-a-dia.

Bem, minha idéia era escrever um texto com trinta e cinco linhas e essa seria a minha última, mas confesso que estou um tanto indeciso. Vêm em minha mente uma cena onde discutem inatistas e empiristas. Alguns inatistas levantam a voz dizendo uma de suas frases prediletas: “quem nasceu pra tostão não chega a mil réis!”. Os empiristas, já irritados, revidam dizendo que “quem com porcos anda, farelo come!”, dizendo com isso que é o ambiente que faz o cidadão. E eu, que estou mais pra desconhecido numa mesinha de bar que pra filósofo, fico nesse dilema.

Como dizia Horácio “Est modus in rebus”[1] (Em tudo deve haver um meio termo), digamos que a tábua pode até ser rasa, mas que algumas vezes ela parece ter sido muito mal raspada, ah parece! São dessas “tábuas mal raspadas” que nascem figuras como Pelé, Einstein, Shakespeare, Nietzsche e tantos outros gênios. E que isso sirva de consolo para Salieri...


[1] Horácio, Satirae 1.1.106