terça-feira, 7 de maio de 2013

JONAS, UM PROFETA FORA DA ORDEM

A=Nínive (Rio Tigre); B=Jope (Mar Mediterrâneo)

O livro de Jonas é uma espécie de midrash. O autor do livro, aproveitando-se das poucas informações a respeito de um profeta chamado Jonas citado em 2Rs 14,25, tomou-o como personagem principal para sua história. Logo no início do livro Yahweh dá a Jonas uma missão: anunciar a destruição da cidade (cf. 1,2; 3,1). Não se trata de um convite ao arrependimento. Depois de 40 dias a cidade seria destruída (teria um destino semelhante ao de Sodoma e Gomorra). Sua missão: anunciar juízo e não esperança de salvação.

Recusando o chamado divino, Jonas desce à cidade de Jope, na costa do Mediterrâneo, a fim de tomar um navio para Tarsis, cidade cuja localização é incerta (há quem pense na Espanha). Quem conhece a geografia da região sabe que Nínive fica ao nordeste de Israel. Vai-se para lá por terra e não por mar. Devia seguir em direção ao oriente. Entrou num navio que seguia para o ocidente.

Já em alto mar uma tempestade castiga o navio, os tripulantes e os passageiros. Então algo curioso e irônico acontece. Enquanto Jonas, o profeta, dorme, os marinheiros lutam para salvar o navio e oram aos seus deuses (1,5). O capitão da embarcação, indignado, convida-o a fazer o mesmo: “Levante-se e clame ao seu deus! Talvez ele tenha piedade de nós e não morramos" (1,6). Um capitão piedoso. Um profeta desleixado. As virtudes dos marinheiros pagãos sobressaem-se quando comparadas ao comportamento indiferente e apático de Jonas. Mas não é só isso.

Imaginando ser a tormenta um castigo divino pela culpa de algum dos passageiros, os marinheiros lançam sortes e ela recai sobre Jonas. Querem saber qual sua profissão e de onde vem. A resposta do profeta: “Eu sou hebreu, adorador do Senhor, o Deus dos céus, que fez o mar e a terra" (1,9). Apavorados, os marinheiros reprovam o comportamento do profeta e lhe perguntam, diante de um mar cada vez mais agitado, o que devem fazer para aplacar a ira do “deus do mar”. Jonas responde: “É por minha culpa que o mar se agita, lancem-me para fora do navio” (1,12). Os marinheiros tentam, em vão, encontrar outra solução. Temem o deus que Jonas parece não temer. Suplicam ao deus que Jonas parece desprezar. Não encontram outra solução. Yam, o mar, finalmente recebe Yonah em seus braços. O mar se acalma. Os marinheiros adoram o deus de Jonas. Fazem-lhe sacrifícios e votos. Um grande peixe engole o filho de Amitai. Fim do primeiro ato.

No livro, tanto os marinheiros como os ninivitas que aparecem nos demais capítulos parecem mais piedosos que os israelitas (até os animais participam do jejum!). Jonas é um livro que subverte a ordem religiosa de seu tempo. Talvez por isso seja tão pouco lido. E compreendido.

Ah, já ia me esquecendo. A palavra de Yahweh anunciada pela boca de Jonas não se cumpre, para desespero do profeta. 


Jones F. Mendonça

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