1. De acordo com Karel van der Toorn, ao converter a “Lei de Moisés”, a “Lei do Deus do céu”, em código civil (entre 450-400 a.C.), o rei persa contribuiu para a definição da Torah, os cinco primeiros livros da Bíblia Hebraica, como Escritura, como tradição sagrada escrita, mais tarde classificada como “obra canônica”. O autor chega a dizer que “sem os persas, não teria havido um Pentateuco. Os persas também são responsáveis pela transformação da Torá em Lei, pois a codificação das tradições legais não deixou sua natureza inalterada” (p. 251).
2. Note que: 1) O rei persa trata a “Lei do Deus do céu” como dath (דת), palavra aramaica que significa “lei”, “decreto” (cf. Eds 7,25-26); 2) A “lei do Deus do céu” passa a ser tratada, simultaneamente, como instrução religiosa e código civil, como documento definido para orientar a vida da população de Judá em todas as suas dimensões. E esta lei, o texto acrescenta, é a “Lei o rei”, a lei do soberano persa que controla a transeufratênia ( = além do rio), a província de Judá.
3. O próximo passo para a definição do “cânon” teria sido a criação da “doutrina do encerramento da era profética” (entre 300-200 a.C.), artifício criado pelos escribas sacerdotes e levitas com a finalidade de submeter a profecia ao seu controle político-ideológico. De acordo com essa doutrina, “as revelações diretas foram suspensas”, e “a iluminação divina só poderia ser obtida pelo estudo da Lei e dos Profetas” (p. 252). Foram incluídos nessa lista obras atribuídas a grandes figuras do passado. A pseudoepigrafia e a autoria atribuída permitiram a inclusão de obras redigidas tardiamente.
4. De forma resumida: a hipótese de Karel van der Toorn considera a definição do cânon em dois atos: 1) A Torah (instrução) passar a ser tratada como obra canônica em função de sua conversão em código civil, tal como determinava a corte persa; 2) Os Profetas e os “demais escritos” passam a ser vistos como obra canônica graças a alegado “fim da profecia”, dando aos escribas sacerdotes e levitas controle sobre o que é e o que não é palavra divina: “o corpo de escribas de Jerusalém tentou assegurar sua liderança moral desqualificando visionários e extáticos contemporâneos como meros tagarelas” (p. 263).
VAN DER TOORN, Karel. Scribal culture and the making of the Hebrew Bible. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2007.
Jones F. Mendonça

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