quinta-feira, 31 de outubro de 2019

LUTERO, ÉTICA CRISTÃ E A CARTA AOS GÁLATAS

Em sua Ética Cristã, publicada entre maio e junho de 1520, Lutero defende ferrenhamente a supremacia da fé sobre as obras. Mais do que isso. Para o reformador, uma obra só pode ser considerada boa se produzida pela fé. Fora da fé, todas as obras seriam más (mesmo aquelas que são aparentemente boas).

São nítidas as críticas de Lutero à teologia escolástica medieval, inspirada na filosofia de Aristóteles (ele é chamado de “palhaço” pelo reformador). De acordo com os escolásticos, o homem teria sido dotado por Deus com o “habitus”, disposição natural para o bem, aperfeiçoada pelo exercício. O reformador se impõe energicamente a esta concepção.

Mas Lutero distorce um texto de Gálatas para fundamentar sua teologia da graça. Na versão em português de sua Ética Cristã (Sinodal, 1999, 154 p.), o texto aparece assim: “vocês receberam o espírito não de suas BOAS OBRAS, mas por terem CRIDO na palavra de Deus” (Gl 3,2). O texto grego, no entanto, traz: “OBRAS DA LEI” e não “boas obras”.



Jones F. Mendonça 

terça-feira, 15 de outubro de 2019

OS REFORMADORES E AS AUTORIDADES

Muitas das ideias defendidas por Lutero no século XVI já haviam sido anunciadas por John Wyclif, teólogo e professor da universidade de Oxford. Um exemplo. Em seu tratado De Officio Regis (1379), Wyclif coloca o estado acima da igreja, contrariando o ensinamento de Tomás de Aquino, maior teólogo medieval.

Wyclif fundamentou suas posições citando Agostinho e Paulo aos Romanos: “todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus” (Rm 13,1). Em seu desejo de enfraquecer o clero, Wycliff acabou ajudando a criar outro monstro: o absolutismo monárquico.

A crença no direito divino dos reis só foi combatida mais tarde por John Locke (1632-1704). Ainda hoje é possível encontrar cristãos fundamentalistas usando Rm 13 para justificar a submissão incondicional às autoridades (quando essas autoridades são apoiadas por eles, claro!).



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

NINGUÉM NASCE MULHER?

De modo geral, quando um bebê nasce, projetamos sobre ele nossas aspirações e impomos sobre ele desde cedo características de diferenciação sexual. Se é do sexo masculino: roupa e quarto azul. Se é menina: roupa e quarto rosa. Também o comportamento é direcionado: “menina não joga futebol!”, “menino não chora”, etc. O procedimento é comum em diversas culturas. Esses elementos distintivos, no entanto, não caem do céu, são construções humanas. Têm lá seus aspectos positivos (como a coesão social) e também negativos (alguns não se identificam com esses “selos” de diferenciação).

Quando Simone de Beauvoir disse, já no final da década de 50, que “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”, não queria com isso negar as diferenças biológicas entre macho e fêmea (é óbvio!), muito menos insinuar que os seres humanos nascem sexualmente neutros. Muitas de suas queixas tinham a ver com o papel reservado à mulher imposto pela sociedade (sobretudo pelos homens). O termo “mulher”, em sua fala, era usado para indicar essa construção, essa imagem idealizada da fêmea transformada numa espécie de modelo imutável e definitivo.

“O segundo sexo”, de Simone de Beauvoir, é uma obra-prima de quase mil páginas. Fazer um pouquinho de esforço para entender o que ela diz não fará mal a ninguém.



Jones F. Mendonça

DA DILUIÇÃO DAS COISAS

Perguntam-me sobre a origem, sobre as razões históricas ou filosóficas que desencadearam o processo de diluição das coisas. Bem, a percepção do homem como um projeto em construção (e desconstrução) e não como tendo uma essência determinada remonta a filósofos do século XX, tais como Jean Paul Sartre (diluição da identidade).

A negação de um fundamento absoluto da moral pode ser encontrada em Nietzsche, filósofo do século XIX: “não existem fenômenos morais, mas interpretações morais dos fenômenos” (diluição da moral). Aliás, a frase nietzschiana “Deus está morto” diz respeito à negação de fundamentos metafísicos para a moral e não da existência de Deus.

No século XVII, sob a influência de John Locke, o liberalismo inglês rejeitou o direito divino dos reis e lançou as sementes para o nascimento da democracia e dos direitos humanos (diluição da autoridade política). Atualmente há gente tonta o suficiente para rejeitar essas duas conquistas...

No século XVI Lutero lançou sal no caramujo das verdades absolutas do dogma ao negar que o Papa tenha as chaves da igreja e da interpretação das Escrituras (diluição da autoridade religiosa). E você encontra protestantes ingênuos reclamando da diluição da fé. Não se dão conta de que o remédio para isso é a teocracia e a Inquisição.

A diluição e fragmentação da identidade, dos costumes, da religião, da moral não é um projeto elaborado por um grupo de pessoas. São os efeitos colaterais (negativos ou positivos) da busca pela autonomia e pela liberdade.


Jones F. Mendonça

O JUÍZO FINAL E O LIVRO DA VIDA (E DA MORTE)


Este macabro painel, de Jacobello Alberegno (século XIV), mostra a ressurreição do corpo no dia do juízo final tal como expressa em Ap 20. As obras que cada um realizou estão registradas nos livros (nas mãos dos esqueletos). Os da esquerda (livros pretos) são os condenados. Os da direita (livros vermelhos), os redimidos.



Jones F. Mendonça

A ESPOSA DE JÓ E A "BÊNÇÃO DA MORTE"

Em todos os manuscritos do Antigo Testamento preservados, as palavras da mulher do Jó próximo da morte são: “abençoa a Deus e morre”. As Bíblias, no entanto, trazem: “amaldiçoa a Deus e morre” (Jó 2,9). Há três hipóteses para o caso em questão.

Opção 1: a palavra "bênção", neste caso específico, seria um modo debochado de dizer "amaldiçoa". Os tradutores, entendendo o deboche, optaram por traduzir o termo por “amaldiçoa”. Até onde sei, esta é a teoria mais aceita (mas que eu não engulo, e vou expor minhas razões).

Opção 2: “Bênção” seria mesmo um pedido de bênção, prática costumeira entre os antigos hebreus, que invocavam o seu Deus nos últimos momentos de vida. A mulher de Jó, neste caso, estaria dizendo: “faça sua bendição final e morra, ninguém merece tanto sofrimento”. Ocorre que não há na Bíblia hebraica qualquer referência a uma tal “bendição dos moribundos” (talvez haja no judaísmo rabínico).

Opção 3: No texto original constava "maldição", mas um copista piedoso trocou “maldição” por "bênção", afinal seria desonroso inserir “maldição” ao lado no nome divino (elohim). Teve que optar: ou “ofende” o texto ou ofende a Deus. Optou pela primeira. Trata-se de um típico caso de tiqqun soferim (correção do escriba). Esta é a tese que faz mais sentido. Eis minhas razões:

Muita gente não se dá conta de que no livro de Jó a presença da palavra “benção” com sentido de “maldição” ocorre em outro verso. E o mais importante: como no caso anterior surge com sentido trocado ao lado do nome divino. Jó, preocupado com uma possível vida pecaminosa de seus filhos, diz assim:

“Talvez meus filhos tenham cometido pecado, ABENÇOANDO A DEUS em seu coração” (Jó 1,5).

Fiz a tradução acima a partir do texto hebraico. Nele não consta “maldizendo”, mas “abençoando” (uberakhu). Neste caso não cabe a explicação de que se trata de uma bendição que se faz nos últimos momentos de vida. Tampouco faz sentido ver no texto qualquer indício de deboche. Note o leitor que como no caso anterior, se a palavra correta fosse inserida (maldição, “qelalah”), o termo estaria ao lado do nome divino. O copista, por piedade, trocou a palavra por seu antônimo.

Há ainda um outro caso, em que Nabode é acusado de AMALDIÇOAR a Deus e ao rei (1Rs 21,10.13). Mas no texto hebraico vem escrito “abençoar a Deus”. Ora, por que alguém seria acusado de abençoar a Deus? Aqui o escriba empregou o mesmo recurso: por piedade, trocou o termo “maldição” (qelalah) por “bênção” (berakah).



Jones F. Mendonça

DANIEL E O ÉPICO DE AQHAT

Leio o épico de Aqhat, antiga lenda semítica (séc. XIV a.C.) escrita para explicar a seca que assola a terra no verão. Um trecho do poema cita "Daniel" (ou Danel), herói com o mesmo nome do personagem bíblico. Outro trecho menciona a preocupação com órfãos e viúvas:

Daniel, homem de Rapiu [uma divindade]
O herói, homem dos harnemitas (um povo),
Levanta e senta junto ao portão,
entre os chefes na eira.
Cuida do caso da viúva
Defende as necessidades dos órfãos.

SMITH, Mark S. Ugaritic Narrative Poetry (Vol IX). Society of Biblical of Literature, 1997, p. 58.


Jones F. Mendonça


A BÍBLIA E OS GORDINHOS

Após confessar que invejou os arrogantes, o salmista expõe as (injustificadas) razões de seu pecado: “pois não conhecem tormentos para a morte. Gordas são as barrigas deles” (Sl 73,4). A NVI trocou “barriga gorda” por “corpo saudável e forte”. A NTLH optou por “fortes e cheios de saúde”. Mas é "barriga gorda" mesmo, viu! A palavra “gordo(a)” (bariy’) reaparece em Jz 3,17, usada para qualificar o rei Eglon de Moab: “Eglon era muito gordo”. Mas por que o salmista invejaria a "barriga gorda" dos ímpios? Ora, por que eram bem alimentados, claro.


Jones F. Mendonça

O HEBRAICO EM CORPOS CONCRETOS

Em boa parte das traduções toda a beleza concreta do hebraico se perde. No Salmo 44,25 alguém numa situação muito difícil (o exílio?) lamenta o estado de humilhação no qual se encontra seu povo. E diz assim (tradução literal):

“Pois se inclina(A) ao pó(B) a nossa garganta(C),
Adere(A') à terra(B') o nosso ventre(C')”.

Repare que a poesia hebraica valoriza a correspondência entre palavras do verso 1 e do verso 2: inclina/adere(A); pó/terra(B); garganta/ventre(C). O paralelismo sinonímico é um dos recursos literários mais utilizados na Bíblia hebraica. 


Jones F. Mendonça

CATECISMO PROTESTANTE

O que você lê aqui, dito por Frankin Ferreira em sua “Teologia cristã” (Vida Nova, 2015), segue a mesma “lógica” de Augusto Nicodemus e Jonas Madureira:

“A fé cristã afirma a necessidade de abraçarmos, com todo nosso coração, certos pressupostos, que determinarão como interpretamos as Escrituras e a criação”.

Na ordem, teríamos: fé > pressupostos > interpretação correta das Escrituras. Ora, mas se os pressupostos da fé estão nas próprias Escrituras (ou não estão?), como alguém poderia tê-los consigo antes de lê-las?

Os pressupostos corretos, aos quais ele se se refere, é a teologia reformada. Não diz isso com todas as letras, mas fica implícito. Na prática, vá lá, é assim que a coisa funciona no ambiente eclesial. Batistas leem a Bíblia com as lentes da doutrina batista, pentecostais com as lentes pentecostais, etc. Mas neste caso o Sola Scriptura se converte numa farsa. Na prática as Escrituras são lidas a partir da tradição! Como os católicos sempre fizeram e fazem.


Jones F. Mendonça

A REFORMA PROTESTANTE E AS JAULAS MEDIEVAIS

Até o século XV os cristãos da Europa formavam praticamente um único rebanho: eram católicos apostólicos romanos. Reuniam-se ao som do mesmo sino, da mesma doutrina, do mesmo Papa, dos mesmos sacramentos, da mesma liturgia, dos mesmos preceitos morais. As igrejas ocupavam o centro geográfico e o centro da existência humana. Era um mundo seguro, ordenado, estável. Mas não era um mundo livre.

Quando Lutero questionou a autoridade do Papa como legítimo intérprete das Escrituras, esse mundo se dissolveu como caramujo em pedra de sal. A verdade, antes guardada no estojo dourado das coisas imutáveis, saltou para os celeiros das leituras individuais. Cada qual passou a ler o texto a seu jeito. Uma crise de autoridade se instalou. Não demorou e o povo também começou a questionar o direito divino dos reis. Entramos na era das revoluções.

Sob uma perspectiva existencial, não era mais um mundo seguro, ordenado, estável. O universo das verdades religiosas, ideológicas e morais foi se tornando cada vez mais fluido. Formaram-se muitos rebanhos, infinitas crenças, identidades cada vez mais fragmentadas. As ideologias se espalhavam como fumaça em dia de ventania. Um mundo – é verdade – em certa medida angustiante, doloroso.

Há quem tente superar essa inquietação erguendo muros ao redor de sua própria vida. É uma solução legítima. Mas há aquela galera perigosa, rancorosa, mal resolvida, defendendo clausuras coletivas. Morrem de saudade das jaulas medievais. Não apenas para si, mas para todos os outros.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

AS CARTAS DE PAULO NO MAPA

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Embora tenha nascido em Jerusalém, o cristianismo se estruturou em Roma, capital do Império. O mapa mostra as comunidades cristãs com as quais Paulo se correspondeu por meio de cartas (e que ganharam valor canônico). Fiz o mapa com a ajuda do peripleo.pelagios.org e do bibleatlas.org.


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

OS PRIMOGÊNITOS NO JUDAÍSMO TALMÚDICO

De acordo com o Deuteronômio (15,19) todo o primogênito macho das vacas e das ovelhas deve ser sacrificado a Javé, Deus de Israel. Isso significa que não podem ser tosquiados, usados como animal de carga ou abatidos para consumo. Ocorre que após a destruição do Templo, em 70 d.C., os sacrifícios tiveram que ser suspensos. O que fazer com estes animais? Podem ser consumidos?

O Talmude respondeu a essa questão com um NÃO. Bem, mas uma decisão como essa levaria os pecuaristas judeus à falência tendo que alimentar um enorme rebanho de primogênitos “improdutivos”. A solução encontrada foi a seguinte: a pessoa que faz o parto pode infligir um defeito no animal enquanto ainda estiver no útero (como um pequeno corte na orelha), tornando-o inapropriado para o sacrifício e consequentemente apropriado para outros usos (Gemará, em Temura 24b).

A ação não é vista como uma violação da lei, afinal um animal não pode ser considerado primogênito até que nasça. No útero o ele é apenas uma possibilidade (uma “potência”, como dizia Aristóteles). Como eram sagazes esses rabinos...

Leia mais aqui (via Paleojudaica). 


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

CLERO, SARCASMO, ARTE E INDULGÊNCIAS


Em 1509, enquanto Lutero conquistava seu diploma de bacharel em Bíblia pela Faculdade de Wittenberg, Erasmo de Roterdã - seu futuro desafeto - debochava do declínio moral do clero inspirado no sarcasmo de Luciano de Samósata, escritor latino do II século. Um dos seus alvos foi o Papa Júlio II, sobrinho de outro Papa: Sisto VI (de seu nome vem o título “Capela Sistina”). Foi de Júlio a ideia de derrubar a antiga basílica de São Pedro construída do século IV por Constantino. A nova seria erguida com a venda de indulgências...

No texto de Erasmo, intitulado “O elogio da loucura”, Júlio é barrado por São Pedro nas portas do céu e é tratado pelo apóstolo como “Júlio, o imperador que voltou do inferno”. Uma das razões da recusa de Pedro era o gosto de Júlio pela espada, daí sua fala: “Batina de padre, mas armadura ensanguentada por baixo”. No filme “Lutero” (2004, direção de Eric Till) Júlio aparece vestindo uma armadura, para desgosto de Lutero. Júlio também surge vestido como mais gostava no filme “A agonia e o êxtase” (1965).



Jones F. Mendonça

terça-feira, 20 de agosto de 2019

NÃO É “TORRE DE BABEL”, É “TORRE DE BABILÔNIA”

Em Gn 11,9 a palavra hebraica “Babel” é traduzida literalmente: “Babel” (referência à cidade na qual foi construída uma torre). Em Is 11,4 “Babel” é traduzida por “Babilônia” (referência ao poderoso império mesopotâmico que destruiu Jerusalém em 576 a.C.). Esses tradutores vivem confundindo a gente.

Bem, boa parte das pessoas não se dá conta de que a “Babel” de Gênesis e a “Babel” de Isaías indicam a mesma cidade. A tal torre de Gn 11 provavelmente se refere a um zigurate, templo religioso em forma de pirâmide terraplanada (Etemenanki: “templo da fundação do céu e da terra”) construído na Babilônia.

Repare que em Gn 11,5 Deus se mostra aborrecido ao observar a construção de uma torre projetada para chegar aos céus. A etimologia popular explicou o nome “Babel” a partir da palavra hebraica “balal” (confusão), daí: “Deu-se-lhe por isso o nome de Babel, pois foi lá que Deus ‘balal’ (confundiu)”. Os judeus adoravam esses trocadilhos.

Note ainda que em Is 14,13 o rei da Babilônia é censurado por achar que poderia “subir até o céu, acima das estrelas de Deus”. Gn 11,1-9 é, em seu contexto original, um deboche à religião e à arrogância dos babilônicos. A data da redação: o exílio (597→ a.C.). Os autores: judeus exilados especialistas na arte do escárnio e da troça.



Jones F. Mendonça

SHELOMI, A NAMORADEIRA DO LEVÍTICO

O livro do Levítico (24) conta a história de um menino que foi apedrejado após blasfemar contra Deus. O menino, cujo nome não é mencionado, tem por mãe “Shelomi, filha de Divri, da tribo de Dan” (v. 11) e por pai um egípcio (v. 10). Comentários judaicos sobre a narrativa revelam a obsessão dos rabinos por explicações que pudessem relacionar o nome de uma pessoa aos seus atos. Na verdade, revela mais coisas. Veja:

Um comentário judaico (midrash Vayikra Rabbah) vê semelhanças entre o nome “Shelomi” e a palavra shalom (paz). Sugere que Shelomi vivia se oferecendo aos homens com suas saudações maliciosas: “shalom, Fulano”, “shalom, Cicrano”. Outro comentário associa o nome do pai de Shelomi, Divri, à palavra de mesma raiz “davar”, “falar”. Tal semelhança seria capaz de reforçar a tese: Shelomi seria uma paqueradora tagarela.

E você perguntando de onde Feliciano tira inspiração para seus sermões...

Leia mais sobre o assunto no The Torah (por Wendy Zierler). 


Jones F. Mendonça

O CRIME DE GABAÁ E AS DANÇARINAS DE JAVÉ

A expressão “nesse tempo não havia rei em Israel” aparece quatro vezes no livro de Juízes (17,6; 18,1; 19,1; 21,25). Ela surge antes ou depois de uma ação moralmente condenável, como no caso do crime de Gabaá (capítulos 19-21).

Nessa história um grupo de benjamitas estupra e mata a concubina de um levita que havia se hospedado na casa de um homem das montanhas de Efraim. Indignado, o levita corta o corpo de sua concubina em doze partes e as envia às tribos de Israel denunciando o crime dos benjamitas.

As tribos entram em guerra contra os benjamitas e eles acabam derrotados. Em seguida fazem um juramento se comprometendo a jamais darem suas filhas em casamento aos benjamitas. Mas logo se dão conta do erro que cometeram: a falta de mulheres poderá levar a tribo de Benjamin à extinção. E agora, o que fazer?

A solução encontrada: 1) sequestrar 400 virgens de Jabes Galaad e matar o resto da população; 2) sequestrar mulheres de Silo, enquanto saem para dançar nas vinhas por ocasião de uma festa religiosa. Bem, a história não tem um final, digamos, inspirador sob o ponto de vista moral. É por isso que ela termina assim:

“Naqueles dias não havia rei em Israel, e cada um fazia o que lhe parecia correto” (21,25).



Jones F. Mendonça

terça-feira, 6 de agosto de 2019

DEBORAH, A ABELHA DE FOGO

Deborah (=abelha), em Jz 4,4, é apresentada como “profetiza, mulher de Lapidot”. Uma dúvida atormenta o tradutor: “Lapidot” é o nome de seu marido? (que nunca mais aparece). É o nome do local de seu nascimento? (que nunca mais aparece?). Ou deve ser traduzido literalmente: “mulher de labaredas”? (lapidot é plural de lapid = labareda/tocha). Se esta for a opção correta, o que cargas d’água seria uma “mulher de labaredas”?

Curioso é que Baraq, aquele líder que confessa só ir à batalha caso Deborah siga ao seu lado (4,8), possui um nome que significa algo como “raio de luz” ou “relâmpago”. Ela a “labareda”. Ele o “relâmpago”. Que coisa, não? Bem, ambos têm um inimigo comum: Sísera, guerreiro com 900 carros. Mas quem brilha mesmo nessa história é Jael, mulher que crava uma estaca na cabeça de Sísera (4,21). O leitor, atento ao que foi dito em 4,9, percebe que se enganou. Deborah não falava dela mesma, mas de outra mulher.

O mais estranho: antes de acabar com Sísera, Jael lhe dá leite e cama com cobertinha e tudo (4,19). Na literatura judaica as mulheres geralmente liquidam seus inimigos usando vinho e sedução, como é o caso de Dalila, Judith, Ester e Salomé. Uma história repleta de enigmas. Vestígios da mão de um redator/revisor sapiencial?



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

BREVE HISTÓRIA DO PESSIMISMO

É possível classificar os pessimistas em diversas categorias. Há, por exemplo, os pessimistas religiosos, como Agostinho, Lutero e Calvino. São “pessimistas metafísicos” porque explicam a dor, a angústia, a injustiça, a maldade humana a partir da influência negativa da vontade (corrompida pela queda): o pecado original teria afetado a natureza humana de tal forma que só uma interferência divina daria jeito. Uma existência plena é projetada para o mundo porvir.

O gnosticismo – corrente cristã que fez muito sucesso no II século – explicou o mal de outra forma: o mundo teria sido criado por um Deus mau, o demiurgo. Mas no homem residiria uma centelha do Deus verdadeiro, que poderia ser despertada pelo Cristo. O dualismo gnóstico, cujo pessimismo geralmente é classificado como “pessimismo cosmológico”, praticamente desapareceu.

No âmbito filosófico temos uma gama de pessimistas. São diferentes dos religiosos porque não veem o mal como tendo origem num pecado original. Um exemplo: Schopenhauer. Seu pessimismo é do tipo “passivo” porque não apresenta uma solução definitiva para o problema do sofrimento e da falta de sentido da vida (a arte seria uma solução paliativa, um consolo). Algumas vezes é chamado de “pessimismo romântico”.

Embora reconheça – como Schopenhauer – o absurdo da vida, Nietzsche era um “pessimista ativo”. Inspirando-se no modo como os gregos encaravam a tragédia, diria algo assim: “é preciso afirmar não apenas o gozo e as alegrias, mas também a dor e o sofrimento” (amor fati). Mais do que isso: ele diria que é preciso desejar a vida com todas as suas atrocidades, mesmo que se repitam num ciclo perpétuo, o “eterno retorno”.

Na primeira metade do século XX surgiram pessimistas existencialistas como Sartre (escreveu um livro chamado “A náusea”!) e Simone de Beauvoir (autora da famosa e mal compreendida frase “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”). Os existencialistas diziam, como todo o “pessimista” (“niilista” é um termo melhor), que vida não tem sentido. A destruição provocada pela guerra realçou essa dimensão trágica da vida. O remédio proposto pelos existencialistas: inventar um sentido e projetar as energias nele.



Jones F. Mendonça

sábado, 27 de julho de 2019

CAJADO FLORIDO E NEHUSHTAN: DOIS CONTOS ETIOLÓGICOS

O Dr. Raanan Eichler, em artigo publicado no The Torah, argumenta que o cajado florido de Aarão mencionado em Nm 20,20-25 (com “brotos”, “flores” e “amêndoas”) é na verdade uma Aserá, símbolo de uma divindade representada por uma árvore. Associações entre Aserá e Javé aparecem, por exemplo, em cacos de cerâmica (pithoi) encontrados em Kuntillet Ajrud, na Península do Sinai, datados para o século IX/VIII a.C.: “Javé de Samaria e Aserá”. “Javé de Teman e Aserá”.

O autor explica que as Aserás eram proibidas em textos deuteronomistas (Dt 7,15; 16,21), mas aceitos em textos sacerdotais como símbolo do sacerdócio aarônico. Aproximações de sentido entre a raiz hebraica da palavra “Aserá” (Álef, Sin, Resh) e a palavra “Bênção” (beyt, resh, khaf) seriam outros indícios. Os sacerdotes aarônicos são fontes de bênção (Nm 6,22-27), assim como nas inscrições nas quais Javé aparece ao lado de Aserá:

“Bendito é Uriahu por Javé e Aserá”;
“Eu te abençoo Por Javé de Samaria e Aserá”;
“Eu te abençoo por Javé de Teman e Aserá; Que ele te abençoe e te guarde”. 

As consoantes de “Aserá” tem um sentido muito próximo de “Bênção”, como no paralelismo do Salmo 72,17:

Nele sejam ABENÇOADAS (Beyt, resh, Khaf) as raças todas da terra,
e todas as nações o proclamem BEM-AVENTURADO! (Álef, Sin, Resh).  

Assim, o relato presente em Nm 20,20-25 (florescimento do cajado de Aarão) seria um conto etiológico sacerdotal usado para legitimar o sacerdócio aarônico e justificar a presença de um símbolo associado à idolatria.

A história seria uma contrapartida do relato não-sacerdotal da cobra de bronze (Nm 21,4-9), que é uma etiologia da serpente de cobre Nehushtan destruída por Ezequias (2Rs 18, 4), e que atribui os poderes de reavivamento desse objeto à vontade de Javé, conforme realizado por meio da autoridade exclusiva de Moisés.


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 17 de julho de 2019

O TEHOM NA CRIAÇÃO, NO DILÚVIO E NO ÊXODO

Em Gênesis, capítulo 1, o vento de Deus (a ruah de elohim) se agita sobre as águas do abismo (do tehom). É por meio desse vento tempestuoso que as águas são separadas das águas (Gn 1,6; 1,9), fazendo surgir a terra seca. A ordem é estabelecida pela vitória de Javé sobre o tehom, o abismo aquoso.

O canto de Moisés em Êxodo 15 celebra um episódio de mesma matriz teológica: 1) O vento de Deus (a ruah de Javé) separa as águas do Mar Vermelho; 2) A terra seca – sobre a qual o povo marchará – aparece, 3) O abismo (o tehom), aquele que foi vencido por Javé, se precipita sobre os carros de Faraó (Ex 15,5).

O domínio de Javé sobre o tehom também é visível em Gênesis 8. Após "lembrar-se" de Noé e de todos os animais da arca, as fontes do tehom são fechadas e ao cabo de cento e cinquenta dias a terra seca reaparece (Gn 8,3-4). O dilúvio conduz a terra ao caos primordial, ao estado de desordem de Gn 1,2. A causa dessa desordem: a maldade humana. Cessada a ira de Javé o tehom é vencido e a ordem é restabelecida.

Reflexos da derrota do tehom por Javé aparecem em Is 51,9-10:

“Por acaso não és tu aquele que despedaçou Raab
que trespassou o Tannyim? [monstros que personificam o tehom]
Não és tu aquele que secou o mar, 
as águas do Grande Abismo (Tehom)?”

Osvaldo Luiz Ribeiro, em seu livro “Homo Faber” (Mauad X, 2015), defende que Gn 1,1-3 não falava originalmente a respeito da criação do mundo, mas sobre “fundação de Jerusalém”. Ele também argumenta que o "vento de elohim" atua negativamente, como contracriação. Bem, mas este é um tema para outra postagem.



Jones F. Mendonça

TIAMAT, O TANNYIM E O TEHOM

Entre sumérios e acadianos Tiamat era o símbolo das águas salgadas (representado por uma serpente/dragão). Os fenícios, vizinhos dos hebreus, associaram as águas salgadas (Tiamat) ao tehom, termo que significa “abismo aquoso” e que surge na Bíblia em diversas ocasiões. É por isso que nas Escrituras o “abismo” (tehom) aparece associado à figura de um monstro marinho:


“Naquele dia, punirá Javé, 
com a sua espada dura, grande e forte, 
a Leviatã, serpente escorregadia, 
a Leviatã, serpente tortuosa, 
e matará o monstro (Tannyim) que habita o mar” (Is 21,7). 

“tu esmagaste as cabeças do Leviatã 
dando-o como alimento às feras selvagens” (Sl 74,14);

Os antigos leitores dos de Isaías e dos Salmos, familiarizados com a mitologia estrangeira, entendiam bem a mensagem: só Javé, o Deus de Israel, derrota o caos. Quer saber mais sobre Tiamat, o Tannyim e o Tehom? Sugiro duas obras de Mark S. Smith:

SMITH, Mark S. The Ugaritic Baal Cycle, Volume I: Introduction with text, translation and commentary of KTU 1.1-1.2. Leiden, Ney York, Köln: E. J. Brill, 1994.

SMITH, Mark S; PITTARD, Wayne T. The Ugaritic Baal Cycle, Volume II: Introduction with Text, Translation and Commentary of KTU/CAT 1.3–1.4.Leiden, Boston: E. J. Brill, 2009. 


Jones F. Mendonça

FRALDA EXORCISTA

Diante das lacunas deixadas pelos Evangelhos a respeito da infância de Jesus, muitas histórias foram criadas sobre o menino filho de Maria. Um dos "Evangelhos da infância" (do século VI) conta que um guri possuído por demônios pôs na cabeça uma fralda de Jesus e os demônios, acreditem, "fugiram saindo pela boca do menino, e foram vistos sob a forma de corvos e serpentes" (Evangelho Árabe da infância, XI).

Se a moda pega...



Jones F. Mendonça

SOBRE “OCEANOS SUPERIORES”

O Salmo 148 faz uma declaração a respeito do céu que pouca gente compreende:
 “louvai-o, céus dos céus e águas acima dos céus!”(Sl 148,4). 
Como assim “água acima dos céus”? Explico. Céu em hebraico é “shamayim” (sham = lá; mayim = água), ou “a água de lá” [de cima]. É provável que esse tipo de percepção tenha surgido por duas razões: 1) O céu é azul como o mar; 2) A água da chuva vem do céu.

Para os antigos a abóbada funcionava como limite entre as “águas superiores” e as “águas inferiores” (oceanos). A ideia de que o céu sustentava um oceano superior reaparece em Gn 1,6:
“Deus disse: ‘Haja um firmamento no meio das águas e que ele separe as águas das águas’, e assim se fez”.
Repare que em Gn 8,2 o dilúvio acontece após as “comportas do céu” serem abertas. Na segunda carta de Pedro (3,5) lemos que a terra foi “tirada da água, e estabelecida no meio da água”.

Os escritores bíblicos – é óbvio – descreviam o mundo de acordo com a concepção da época. E não podia ser diferente.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 11 de julho de 2019

OCORRÊNCIAS DE “ÁGAPE” NA LITERATURA GREGA ANTIGA

Caso você precise descobrir a quantidade de ocorrências de uma palavra grega antiga (como “ágape”) em obras escritas nesse idioma (como em Platão, Aristóteles, Clemente de Alexandria, etc.), basta acessar o Perseus Digital Library.

Passo 1) Insira a palavra grega (“ágape” deve ser grafada como “aga/ph”, conforme tabela) e depois clique em “go” (ou “vai”, caso esteja utilizando o tradutor do Google).

Passo 2) Na tela aparecerão algumas tabelas com informações sobre a palavra buscada (verbo, substantivo, etc.).

Passo 3) Clique em “word frequency statistics” e pronto: uma tabela com a quantidade de ocorrências da palavra e o nome das obras nas quais aparecem será exibida.

“Ágape” ocorre mais no Novo Testamento e em obras cristãs (como em Clemente de Alexandria). O site também disponibiliza os textos nas quais a palavra aparece em grego em em outros idiomas, como o inglês. 



Jones F. Mendonça

sábado, 6 de julho de 2019

SHUV, TESHUVAH, RETORNO

Não há, no hebraico bíblico, uma palavra específica para “arrependimento”. Quando o texto quer destacar a necessidade de mudança de postura do indivíduo, ele fala em “retorno (verbo: “shuv”) dos caminhos maus” (2Cr 7,14). O verbo nem sempre tem valor teológico. Ele pode ser usado, por exemplo, para falar do “retorno (shuv) para casa” (Gn 28,21).

A palavra mais comum traduzida por arrependimento no AT é “naham”, termo que indica, em seu sentido mais primitivo, uma turbulência interior. Essa turbulência pode ter como causa a tristeza pela desgraça que se abateu sobre uma pessoa amada (daí “compadeceu-se”, cf. Jz 21,6) ou, em alguns casos, o pesar causado por uma decisão errada (neste caso, “arrependeu-se”, cf. Gn 6,6).

Judeus e messiânicos usam o substantivo hebraico “teshuvah” (derivada de “shuv”) como sinônimo de arrependimento. Mas o hebraico bíblico não atribui ao termo (veja 1Rs 20,26) o sentido usado no judaísmo talmúdico.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 4 de julho de 2019

O VERBO BARA' E A CREATIO EX NIHILO: DE MACABEUS A AGOSTINHO

As primeiras linhas do Gênesis dizem que “No princípio Deus criou os céus e a terra”. O verbo traduzido por “criou” neste verso é bara’. Mas qual o seu significado? Ele realmente indica “criar do nada” (creatio ex nihilo), como insistem alguns teólogos?

Além do Gênesis, o verbo reaparece, por exemplo, no segundo livro de Samuel. Quando o filho que Davi teve com Betsabeia adoeceu, o rei permaneceu prostrado e “não comeu com eles” (2Sm 12,17). Por mais estranho que possa parecer, o verbo traduzido por “comeu” neste verso é o mesmo de Gn 1,1: bara’. Está confuso?

Bem, o sentido mais primitivo de bara’ é “cortar”. Por desdobramento: “esculpir” (“cortando” a madeira, a pedra, etc.), “criar”. O verbo também era utilizado para indicar o corte da gordura, do alimento. Uma versão bem literal de 2Sm 12,17 seria algo como: “Davi não cortou (o alimento) com eles”, ou seja, “não comeu”. Em nenhum texto do Antigo Testamento bara’ é “criar do nada”. A creatio ex nihilo não nasceu da exegese.

Há muitas controvérsias a respeito da origem da doutrina da creatio ex nihilo: Obras deuterocanônicas (Sb 11,17; 2Mc 7,28), Fílon de Alexandria, Irineu (Adversus Haeresis, II, 2,5; 10,4), Agostinho (Confissões,XII, 7), etc. Talvez com exceção dos deuterocanônicos, todas surgem pela influência da filosofia grega. No caso de Irineu, foi elaborada para combater cosmologias professadas pelo dualismo gnóstico. Agostinho pretende distinguir o Criador da criatura: “Tu criaste o céu e a terra, não de ti mesmo, pois então eles seriam iguais ao teu unigênito [...] portanto, a partir do nada tu criaste o céu e a terra”.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 2 de julho de 2019

FOGO, LEÕES E MIDRASH

Foto: Museu do Louvre
Faz parte da tradição judaica a busca por um sentido oculto por trás das palavras hebraicas do texto bíblico. No texto: “Eu sou Javé que te fez sair de Ur dos caldeus” os rabinos notaram que o nome “Ur” (cidade mesopotâmica) possui a mesma grafia da palavra hebraica para “fogo”. Assim leram: “Eu sou Javé que te fez sair do FOGO dos caldeus”. Para explicar de que fogo o patriarca foi livrado, os rabinos criaram uma história, um midrash (Gênesis Rabá 38:11). Nessa história Abraão é lançado numa fornalha e é salvo milagrosamente por Javé, tal como Daniel.

Noto aqui algo curioso: o personagem Daniel é livrado não apenas do “fogo” (Dn 3), mas também dos “leões” (Dn 6). Os primeiros capítulos deste livro não são outra coisa senão um midrash. “Fogo” e “leão” são dois símbolos para os caldeus (babilônios). O primeiro, como acabamos de ver, veio da semelhança gráfica entre “Ur” e “fogo” (veja  Am 4,11; Zc 3,2). O segundo vem da iconografia da Babilônia, cidade muitas vezes associada à imagem de um leão (atributo animal da deusa Ishtar). No “sonho dos quatro animais” (Dn 7), a Babilônia é representada por um leão alado: “O primeiro era semelhante a um leão com asas de águia” (v. 4).

Um bom leitor judeu entendeu a mensagem: "Javé livrou Daniel do fogo e dos leões (a Babilônia). Ele também nos livrará da perseguição do rei selêucida Antíoco Epifanes". Antíoco é o "pequeno chifre" de Dn 8,9, aquele que se ergue contra o "exército dos céus" (v. 10) e que "aboliu o sacrifício perpétuo" (v. 11). O rei selêucida também aparece em Macabeus (1,10-21). 


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 27 de junho de 2019

AS “TOCADORAS DE FLAUTA” NA GRÉCIA E NA BÍBLIA

Simone de Beauvoir diz em seu magistral “O segundo sexo”, que na Antiga Grécia havia uma classe de prostitutas conhecidas como Auletrides, dançarinas tocadoras de flautas, como Lâmia, amante de Ptolomeu do Egito.

O toque de flauta também aparece associado à prática da prostituição em Is 23,16:

Toma uma cítara, perambula pela cidade,
prostituta esquecida!
Toca a tua flauta o melhor que puderes, repete a tua canção,
para que se lembrem de ti!”.

A imagem da prostituta, no texto, funciona como metáfora para indicar o ofício de Tiro, cidade famosa por sua riqueza, habilidade na navegação e exuberância comercial.


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 17 de junho de 2019

O PARALELISMO JANUS

Em Cantares 2,12 a palavra hebraica “zamiyr” pode ser traduzida tanto por “poda” como por “canto” (são homógrafas). Ela foi colocada ali de propósito. Veja:

1) As flores florescem na terra, 
o tempo da PODA vem vindo, 
e o som da rola está-se ouvindo em nosso campo. 

2) As flores florescem na terra, 
o tempo do CANTO vem vindo, 
e o som rola está-se ouvindo em nosso campo.

No primeiro caso as flores anunciam a PODA. No segundo caso o CANTO anuncia a rola. O paralelismo janus é uma técnica literária muito engenhosa. Encontre muitos exemplos na seguinte obra: 

NOEGEL, Scott B. Janus parallelism in the Book of Job. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1996. 


Jones F. Mendonça