quinta-feira, 27 de junho de 2019

AS “TOCADORAS DE FLAUTA” NA GRÉCIA E NA BÍBLIA

Simone de Beauvoir diz em seu magistral “O segundo sexo”, que na Antiga Grécia havia uma classe de prostitutas conhecidas como Auletrides, dançarinas tocadoras de flautas, como Lâmia, amante de Ptolomeu do Egito.

O toque de flauta também aparece associado à prática da prostituição em Is 23,16:

Toma uma cítara, perambula pela cidade,
prostituta esquecida!
Toca a tua flauta o melhor que puderes, repete a tua canção,
para que se lembrem de ti!”.

A imagem da prostituta, no texto, funciona como metáfora para indicar o ofício de Tiro, cidade famosa por sua riqueza, habilidade na navegação e exuberância comercial.


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 17 de junho de 2019

O PARALELISMO JANUS

Em Cantares 2,12 a palavra hebraica “zamiyr” pode ser traduzida tanto por “poda” como por “canto” (são homógrafas). Ela foi colocada ali de propósito. Veja:

1) As flores florescem na terra, 
o tempo da PODA vem vindo, 
e o som da rola está-se ouvindo em nosso campo. 

2) As flores florescem na terra, 
o tempo do CANTO vem vindo, 
e o som rola está-se ouvindo em nosso campo.

No primeiro caso as flores anunciam a PODA. No segundo caso o CANTO anuncia a rola. O paralelismo janus é uma técnica literária muito engenhosa. Encontre muitos exemplos na seguinte obra: 

NOEGEL, Scott B. Janus parallelism in the Book of Job. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1996. 


Jones F. Mendonça

domingo, 16 de junho de 2019

AMY BALOGH: O MOISÉS DE CHIFRES É UM ÍDOLO

Moisés dá a seguinte resposta a Javé após ser convocado a pedir ao Faraó a libertação do povo: “Sou incircunciso de lábios; como, pois, me ouvirá Faraó?” (6,12; 6,30). Javé resolve o problema elevando o status de Moisés de “incircunciso de lábios” a “um deus para Faraó” (7,1a). Na sequência Aarão é escolhido como seu porta-voz: “teu irmão, será o teu profeta” (Ex 7,1b).

De acordo com Amy L. Balog, em artigo publicado na Asor, a melhor analogia encontrada no Antigo Oriente Próximo para esse novo status, é a de um... ídolo! Na Mesopotâmia o ídolo precisava passar por um ritual capaz de lhe “abrir a boca” (Mīs Pî) permitindo que fizesse a mediação entre os reinos divino e celeste. Ao dizer a Javé duas vezes (ou três, cf. 4,10) que possui “lábios incircuncisos”, Moisés estaria se queixando com razão.

De acordo com Balogh, seria de se esperar que Moisés exibisse um sinal físico capaz de evidenciar esse novo status, como chifres ou raios de luz.  Este sinal teria aparecido finalmente em Ex 34,29-35. O nível de elevação de Moisés seria alto o suficiente para “ver a forma (temunah) de Javé” (Nm 12,8). Balog finaliza seu artigo com a seguinte conclusão:
Embora os autores bíblicos rejeitem abertamente o uso de ídolos, eles entendem a importância dos ídolos na imaginação religiosa e moldam ativamente sua apresentação de Moisés para atender aos desejos e expectativas da audiência, mas de maneiras compatíveis com a adoração a Javé. 

Jones F. Mendonça

terça-feira, 11 de junho de 2019

ABBA NÃO É “PAIZINHO”, ÁGAPE NÃO É “AMOR INCONDICIONAL” E KAIRÓS NÃO É O “TEMPO DE DEUS”

1. Investigo a origem de interpretações equivocadas do texto bíblico do Novo Testamento. A ideia tão difundida de que o aramaico “abba” significa “paizinho” (Mc 14,36) vem de um livro do renomado e competente teólogo alemão Joachim Jeremias (The prayers of Jesus, 1967). Sua tese foi derrubada por James Barr num artigo publicado em 1988 (“Abba isn’t Daddy”). Aliás, o próprio Jeremias reconheceu seu erro numa edição posterior de sua Teologia do Novo Testamento (Devo essa ao Lucas Fernandes). “Abba” significa simplesmente “pai” como o hebraico “ab”.

2. Apesar do NT não dar um sentido diferenciado ao termo grego “ágape” (amor), não faltam publicações teológicas argumentando que ágape significa, no NT, “amor de Deus” ou “amor incondicional”. A origem dessa confusão talvez venha de outro teólogo alemão: Paul Tillich. Em sua teologia sistemática, Tillich discorreu sobre os diferentes tipos de amor existentes no pensamento grego (ágape, fileo, eros, storge). Meu palpite é o seguinte: leitores apressados talvez tenham atribuído ao “ágape” do NT o mesmo sentido que Tillich quis dar em sua teologia sistemática.

3. Um terceiro grande equívoco ocorre em relação ao termo grego “kairós”. Não faltam citações e sermões que atribuem ao termo um significado que ele jamais teve no NT. O que se diz é: “’chronos’” é o tempo cronológico e ‘kairós’ é o tempo da salvação, tempo de Deus”. Mas a tese não resiste a um exame cuidadoso. É falsa. Oscar Cullmann, em seu “Cristo e o tempo” (1946) refletiu sobre o tempo a partir da obra salvífica de Cristo, dando especial destaque ao termo “kairós” (“chronos” e “aiôn” ganham pouco espaço). Ele jamais definiu “kairós” como “tempo de Deus”, mas sua ênfase na ação divina no “kairós” (tempo) talvez tenha dado origem ao equívoco.



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 3 de junho de 2019

SAUL EM ÊXTASE PROFÉTICO; DAVI EM DANÇA FRENÉTICA

Cerca de 25% das palavras presentes na Bíblia Hebraica ocorrem uma única vez (são “hápax legomena”), tornando sua tradução uma tarefa difícil. No texto abaixo, os verbos “pazaz” (Gn 49,24; 2Sm 6,16) e “karar” (2Sm 6,14.16), geralmente traduzidos por “saltando” e “dançando” aparecem, cada qual, apenas duas vezes:
Micol olhava pela janela e viu o rei Davi SALTANDO (?) e DANÇANDO (?) diante do Senhor, e, no seu coração, ela o desprezou (2Sm 6,16).
É simplesmente impossível saber exatamente que tipo de ação Davi desempenhava “diante do Senhor”. Certo mesmo é que ele fazia isso com intensidade (cf. 6,14) e que sua nudez foi exposta durante a performance, algo que incomodou Micol, filha de Saul (2Sm 6,20). Haveria alguma relação entre a “dança” frenética de Davi e o êxtase profético de Saul, em Sm 19,23-24? (repare que Saul também fica nu).



Jones F. Mendonça

JUDÁ NA "ORDEM DE MELQUISEDEQUE"

O livro de Hebreus apresenta Jesus como único sacerdote capaz de oferecer um sacrifício definitivo pelos pecados (Hb 7,27).  Mas seus destinatários, oriundos do ambiente judaico, certamente rejeitariam este argumento, uma vez que os sacerdotes precisavam pertencer à tribo de Levi. Ora, sendo Jesus da tribo de Judá, como ele poderia ser sacerdote? A questão é colocada em Hb 7,14.

A solução: Jesus pertenceria a uma ordem especial de sacerdotes, “não por regras relativas à linhagem” (7,16). Hebreus até menciona um exemplo para fundamentar seu argumento: Melquisedeque exerceu a função de sacerdote e sequer era israelita (Gn 14,18; Sl 110,4). Sim foi uma grande sacada. Mas Hebreus poderia ter mencionado outro exemplo de sacerdócio não levítico, como o que foi exercido pelos filhos de Davi (2 Sm 8,18).

Com um pouco de paciência a gente sempre encontra uma segunda brecha na lei...



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 30 de maio de 2019

CIÚME, INVEJA E ZELO: NO HEBRAICO SÃO UMA SÓ PALAVRA

A palavra hebraica “qana’” significa “ardor”. Quando este “ardor” está relacionado a um bem alheio, é traduzido por “inveja”. Quando diz respeito a um bem próprio desejado por outros, é traduzido por “ciúme”. Quando se dirige a Deus, é traduzido por “zelo”. Veja:

1. “Ele tinha rebanhos de bois e ovelhas e numerosos servos. Por causa disso os filisteus QANA’ (tiveram inveja)” (Gn 26,14).

2. “Seus irmãos ficaram com QANA’ (ciúmes) dele” (Gn 37,11)

3. “Em recompensa do seu QANA’ (zelo) pelo seu Deus, poderá realizar o rito de expiações” (Nm 25,13).

As palavras hebraicas geralmente têm um campo semântico vasto. O tradutor precisa ficar atento.


Jones F. Mendonça


sexta-feira, 24 de maio de 2019

NAHAM: “COMPADECEU-SE” OU “ARREPENDEU-SE”

O verbo hebraico “naham”, em seu sentido primário, indica um movimento interno de pesar. Por vezes deve ser traduzido por “compadeceu-se”. Em outros casos por “arrependeu-se”. Dois exemplos:

1. “Os filhos de Israel se COMPADECERAM (naham) por Benjamim seu irmão” (Jz 21,6):

2. “O Senhor ARREPENDEU-SE (naham) de ter feito o homem sobre a terra” (Gn 6,6).

Então veja: quando o lamento indica tristeza pelo sofrimento alheio, a tradução deve ser “compadeceu-se”. Quando indica tristeza por algo que o próprio sujeito fez, deve ser traduzido por “arrependeu-se”. Há muitas ocorrências do verbo na Bíblia Hebraica. Até onde pude pesquisar, estes são os dois sentidos básicos do termo. 

Jones F. Mendonça

sábado, 4 de maio de 2019

ZAKAR, NEQEBAH E MATZEBAH: SEXO E GÊNERO NA BÍBLIA HEBRAICA

Imagem: Wikipedia
As palavras hebraicas mais usadas para designar “homem” e “mulher” são “ish” e “ishah”. Mas quando o texto quer enfatizar as diferenças sexuais usa “zakar” (macho) e “neqebah” (fêmea). No verso “acaso um homem tem dores de parto” (Jr 30,6), a palavra traduzida por “homem” é “zakar”, termo que seria mais bem traduzido por “macho”. É como se dissesse: “por acaso pode um macho engravidar?”.

Curioso é que “neqebah” (fêmea) é palavra da mesma raiz de “neqeb” (caverna, buraco, encaixe) e do verbo naqab (furar, perfurar). “Zakar” (macho), por sua vez, vem de uma raiz verbal que significa “fazer um marco/coluna” (um memorial). Os “memoriais” de pedra, chamados de "zikron" (Is 57,8) ou “matzebah” (Gn 28,22), ao que tudo indica, eram símbolos fálicos (como obeliscos egípcios). 

Meu palpite é que o verbo “zakar” (erguer um marco) foi usado inicialmente para indicar o ato de erguer um "zikron" ou “matzebah”. Por desdobramento, passou a ser usado como “relembrar” (não é essa a função dos marcos?). O verbo foi convertido em substantivo designativo do macho ou por sua relação com a ação de erguer (alusão ao pênis ereto) ou por sua relação com o zikron/matzebah (símbolo fálico).

Assim, na origem dos termos, a fêmea (neqebah) teria sido pensada como “aquela que possui a cavidade” (caverna) e o macho (zakar) como “aquele que penetra na cavidade” (memorial, falo).



Jones F. Mendonça

sábado, 27 de abril de 2019

PULSÃO, ÓDIO, PAIXÃO, TRANSBORDAMENTO

O verbo “transbordar”, em hebraico, é “SHUQ”. Ele aparece, por exemplo, em Jl 2,24: “os lagares transbordarão (shuq) de vinho”. Um substantivo derivado deste verbo é “teSHUQah”, encontrado em apenas três passagens: “e para teu marido estará a tua teshuqah” (de Eva em relação a Adão; Gn 3,16), “à porta está estendido o pecado e contra ti está a teshuqah dele” (do pecado em relação a Caim; Gn 4,7) e “eu sou do meu amado e sobre mim está a teshuqah dele” (do amado em relação a amada; Ct 7,10). O termo designa uma pulsão, um desejo. Por alguma razão (que não é difícil compreender) os hebreus viam essa excitação (positiva ou negativa) como um “excesso”, como um “transbordamento”.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 25 de abril de 2019

QUAL A ORIGEM E O SIGNIFICADO DA EXPRESSÃO "PAIXÃO DE CRISTO"?

Muita gente pensa que a expressão “paixão de Cristo” serve para indicar o “amor”, a “paixão” de Cristo pelos pecadores. Não é nada disso. A palavra portuguesa “paixão” vem do latim “passio”, tradução do grego pathos (uma perturbação, emocional ou física). Assim, “passio” pode ser usado para indicar “sofrimento” ou “dor”. O francês “passion d’amour”, por exemplo, significa “dor de amor”. Quando dizemos que uma pessoa está “apaixonada”, queremos com isso indicar que está “sofrendo de amor”. Então não esqueça: “Paixão de Cristo” é o mesmo que “Sofrimento de Cristo”.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 24 de abril de 2019

DO NIILISMO HERMENÊUTICO


A imagem de um copo com 50% de seu volume ocupado por água tem sido usada para legitimar a filosofia relativista que sugere ser impossível descrever a realidade de forma objetiva. Afinal, um copo nesta condição está “meio cheio” ou “meio vazio”? A resposta é simples: se a situação foi alcançada após o enchimento do copo, então está meio cheio. Se foi alcançada após seu esvaziamento, então está meio vazio. A resposta está na história do copo. Sem sua história temos apenas um copo preenchido com água até a metade.


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 15 de abril de 2019

GÊNESIS 2: NÃO É “ALMA VIVENTE”, É “GARGANTA VIVA”

O capítulo 2 do Gênesis descreve a criação do homem a partir de um punhado de terra. Ele ganha vida quando Javé Elohim (o Criador) sopra em suas narinas sua neshemah (seu “hálito”). Esse hálito passa por sua néfesh (garganta) e lhe dá vida. Uma tradução honesta nos permite visualizar a cena:
Então Javé Elohim modelou o homem com a argila do solo,insuflou em suas narinas um hálito (neshemah) de vida
e o homem se tornou uma garganta (néfesh) viva (Gn 2,7).
O corpo sem vida torna-se “garganta viva” (e não “alma vivente”). Isso significa que a partir da recepção do hálito divino ele respira, fala, grita, come, bebe, deseja. A ideia de que o corpo que é habitado por uma “alma” ou por um “espírito” é estranha à tradição judaica. O corpo é simplesmente animado pelo hálito (neshemah) ou sopro (ruah) divino. Caso o Criador recolha sua neshemah/ruah, o homem volta a ser pó.

Note que os dois termos aparecem como sinônimos em Jó 34,14-15:

Se levasse de novo a si a sua ruah (“sopro” e não “espírito”), 
se concentrasse em si a sua neshemah (“hálito”, sinônimo de “sopro”)
expiraria toda a carne no mesmo instante,
e o homem voltaria a ser pó.

Eclesiastes reforça essa ideia quando diz que o pó (referindo-se ao corpo) volta à terra e a “ruah” (o sopro divino) volta ao Criador por ocasião de sua morte (Ecl 12,7). Ainda não há qualquer indício de vida eterna. Eclesiastes diz claramente que os mortos não têm recompensa, nem memória (9,5), nem reflexão, nem sabedoria (9,10). A doutrina da vida eterna é desenvolvida aos poucos e só aparece claramente em Dn 12,2:
E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno.
Repare que o texto não fala da “imortalidade da alma” (uma crença grega presente nos escritos de Platão, como no “Fédon”), mas da ressurreição DO CORPO. Aliás, o credo de Niceia (325 d.C.) reafirma a crença na ressurreição com muita clareza: “Esperamos a ressurreição dos mortos; e a vida do mundo vindouro”.



Jones F. Mendonça

domingo, 14 de abril de 2019

JEROBOÃO E SISAQUE/SHESHONQ

Apresento aqui um resumo de matéria publicada no Haaretz (por Ariel David, 14/04/19) sobre a incursão do faraó Sisaque em Canaã e sua possível relação com a formação do reino do Norte: 

De acordo com a Bíblia, no quinto ano do reinado de Roboão (por volta de 925 a.C.), um faraó chamado Sisaque (ou Sheshonq) atacou Jerusalém, saqueou a cidade e “tirou os tesouros da casa de Javé e os tesouros da casa do rei”(1 Reis 14,25-26). 

Um texto em Karnak e um bloco de pedra encontrado em Megido mostram que a campanha não foi uma simples incursão, mas um esforço muito mais amplo para restaurar a hegemonia do Egito sobre Canaã e outros territórios que haviam sido governados pelos faraós durante o Império Novo (do século 15 a.C. ao século 12 a.C.).

É apenas uma teoria, mas o arqueólogo israelense Israel Finkelstein apresenta várias pistas que sugerem que o nascimento do Reino do Norte de Israel foi o resultado de arranjos políticos organizados por Sheshonq no rescaldo de sua campanha. Uma das principais peças desse jogo político seria Jeroboão. 

Jeroboão, primeiro rei do Norte, é descrito como um oficial que liderou uma rebelião fracassada contra Salomão e encontrou refúgio na corte de Sisaque para escapar da ira do rei israelita (1 Reis 11). Ele então retornou a Canaã ao ouvir falar da morte de Salomão e liderou o povo contra Roboão, formando o reino do Norte (1 Reis 12).

Na Septuaginta, primeira tradução grega da Bíblia, existem versículos adicionais sobre a permanência de Jeroboão no Egito que não foram incluídos no texto hebraico canônico. Nesta versão, a conexão de Jeroboão a Sisaque/Sheshonq é ainda mais forte: ele se casa com a cunhada do faraó, que lhe dá um filho. A história talvez contenha uma memória histórica. 

Para resumir a teoria de Finkelstein, o nascimento do Reino de Israel pode ter acontecido assim: Sheshonq seguiu para Canaã, viu os habitantes arrogantes das terras altas como uma ameaça, então os conquistou e instalou um governante vassalo sobre eles: Jeroboão.


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 11 de abril de 2019

SOBRE O VERBO HEBRAICO "HUL"

Uma das características mais curiosas da língua hebraica é a quantidade de sentidos que uma palavra pode indicar. O verbo “hul”, por exemplo, pode ser traduzido por “esperar”, “angustiar-se”, “dançar”, “sentir dor”, “gerar (um filho)”, “se contorcer” ou “girar”. Parece estranho, mas há uma explicação para isso.

“Hul” indica, em seu sentido mais primitivo, um movimento circular. Por desdobramento pode designar algo que se contorce. Isso explica o uso do verbo para indicar uma ESPERA ANGUSTIANTE ou a o ato de GERAR UM FILHO, pois nessas condições temos a sensação de que nosso ventre de contorce. Veja:

Ele ESPEROU (no original, “contorceu-se”) ainda outros sete dias e soltou de novo a pomba fora da arca (Gn 8,10).

Olhai para Abraão, vosso pai,
e para Sara, aquela que vos DEU À LUZ (no original, “se contorceu”, cf. Is 51,2).

Em alguns casos o verbo é usado para indicar o movimento corporal de uma dança:

Espiareis e, logo que as filhas de Silo saírem para DANÇAR (no original, “se contorcer”) em seus bailados... (Jz 21,21)”.

Você percebe que encontrou o sentido original de uma palavra hebraica quando ela se encaixa em todos os textos em que aparece. E esse sentido não é encontrado em dicionários, mas pela investigação do termo em diversos textos e pela busca da raiz da palavra. Um exercício divertido.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 9 de abril de 2019

A "CASA DE DAVI" NA ESTELA DE TEL DAN


Em 1993 um grupo de arqueólogos descobriu na região de Tel Dan (norte de Israel) uma estela que celebra a vitória do rei de Damasco sobre a “Casa de Davi”. O artefato – datado para o século VIII a.C. – seria a primeira evidência extrabíblica da existência do rei Davi. Bem, ocorre que o hebraico não possuía vogais, por isso a tradução geralmente não é fácil. Na inscrição aparecem as seguintes consoantes: BYT DVD. Inserindo as vogais (em azul) podemos lê-la como BeYT DaViD (“Casa de Davi”) ou como BeYT DoD (“Casa do amado”). A expressão “Casa de Davi” seria uma referência à dinastia davídica (como “casa de Jeroboão”, cf. 1Rs 13,34). A expressão “Casa do Amado” seria uma referência à Jerusalém (como “casa do Sol”, cf. Js 15,10).

Saiba mais sobre Davi e a estela contendo as consoantes de seu nome lendo este artigo de Thomas L. Thompson.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 5 de abril de 2019

SUBMISSÃO E MODÉSTIA EM PAULO E ROMA

Em 1Tm 2,9-15 Paulo dá a Timóteo algumas recomendações relativas às mulheres (vestuário e submissão ao homem) que estão bem de acordo com a cultura predominante na Antiga Roma.

O discurso (misógino) abaixo, proferido por Marco Catão em 195 d.C., foi uma resposta a um protesto de mulheres contra uma lei que impunha a elas restrições ao vestuário e uso de joias. Os temas são os mesmos:

“Nenhuma proibição dos maridos podia retê-las em casa. [...] Do jeito que as coisas estão, nossa liberdade, derrubada em casa pela indisciplina feminina, está sendo esmagada e pisada também aqui, no Fórum. [...] as mulheres tinham de estar sob o controle de pais, irmãos e maridos” (BURROW, John. Uma história das histórias, 2013, p. 135).



Jones F. Mendonça

SEXO E GÊNERO NO LEVÍTICO

Neste artigo, publicado no The Torah, a Dr. Kristine Henriksen Garroway sugere que o período de purificação da mãe no Levítico (12,1-7), diferenciado para o nascimento de meninos (40 dias) e meninas (80 dias), servia como uma espécie de anúncio ritual do gênero, tal como ocorria na civilização hitita.


Embora entre os hititas o período também seja diferenciado, não indicava o tempo de purificação da mãe, mas o espaço de tempo entre o nascimento e a oferta (chamada de “mala”). Veja:

Q“[uando a mulher] dá à luz, [...] eles realizam a oferta de mala […] do recém-nascido [macho] no sétimo dia”.

“Mas [se] uma criança feminina nasce, [então] daquele mês eles contam [quarto] meses de [arriv] e então eles purificam a criança do sexo feminino...”.

Na civilização ocidental moderna fazemos a diferenciação ritual de gênero vestindo machos com azul e fêmeas com rosa. A cor indica o papel social desejado pelos pais.

Leia mais aqui


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 4 de abril de 2019

PODCAST COM RAPOSA ESCATOLÓGICA

Embora o primeiro podcast brasileiro tenha surgido em 2004, só agora (15 anos depois) fui seduzido por essa nova forma de adquirir conhecimento. Para quem se interessa por teologia, indico “oestadodaarte.com.br”. Hoje, enquanto fazia minha caminhada matutina (até encontrei uma raposa!), ouvi “O livro do Apocalipse”, com a participação de José Adriano Filho, Kenner Terra e Paulo Nogueira. O áudio dura 58 minutos, por isso acabei caminhando mais do que o normal. 



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 3 de abril de 2019

SOBRE O NOME "JOÃO"

De acordo com o evangelho de Lucas, Elisabeth deu a seu filho o nome “João”, mesmo não sendo um nome comum na família (Lc 1,60). “João” é forma portuguesa do grego “Ioannes” (tal como aparece no NT), que por sua vez deriva do hebraico Iohanan, junção de “Io” ou “Yo”(forma abreviada do nome divino) + hanan (gracioso) = “Deus é gracioso” (ver Jr 40,13). Maria, em Lc 1,30, é tratada como “aquela que encontrou graça diante de Deus”. João carrega em seu nome a mesma graça que recaiu sobre a mãe de Jesus.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 2 de abril de 2019

CONSIDERAÇÕES SOBRE O NOME DIVINO

De acordo com o Êxodo, o Deus de Israel era conhecido pelo povo como o “Deus dos pais” (Abraão, Isaque e Jacó). O texto também informa que o nome divino só foi revelado a Moisés em Ex 3,15: “YHVH” (o hebraico primitivo não possuía vogais). Assim, sem vogais, o nome é impronunciável.

A partir do século VI d.C., um grupo de judeus chamados massoretas inseriu vogais no texto. Nesse texto vocalizado o nome divino aparece grafado de formas diferentes (sempre com as mesmas consoantes): YaHVeH (Gn 2,4), YeHVaH (Ex 3,15), YeHoViH (Is 50,4),  YeHViH (Gn 15,2). Sim, é estranho.

Há duas hipóteses para essa variação vocálica: 1) os massoretas não conheciam mais a pronúncia correta; 2) Eles variavam a vocalização para evitar a pronúncia do nome sagrado. Ainda hoje, quando os judeus se deparam com o nome divino por ocasião da leitura do texto, trocam YHVH por Adonai (Senhor).



Jones F. Mendonça

domingo, 31 de março de 2019

LENATAN-MELEK EVED HAMELEK: OFICIAL DE JOSIAS?

Foto: Haaretz
O Haaretz (Israel) noticiou hoje a descoberta de um selo (tem o tamanho de uma unha) nas ruínas de um antigo edifício de Jerusalém destruído no século VI a.C. por ocasião da conquista da cidade pelos babilônicos.  A minúscula impressão do selo traz as palavras hebraicas LeNatan-Melek Eved HaMelek (Pertencente a Natan-Melek, servo do rei). O nome é o mesmo do oficial do rei Josias, mencionado em 2Rs 23,11. Não é possível afirmar, no entanto, que o selo tenha pertencido ao oficial de Josias (Christopher Rollston vê grande probabilidade da pessoa indicada no selo ser a mesma de 2Rs 23,11)

Uma excelente matéria foi publicada no Haaretz. Mais informações e imagens no The Times of Israel. Todd Bolen explica que um selo com a mesma inscrição (com autenticidade duvidosa) já circulava no mercado de antiguidades. A descoberta deste novo selo, feita por arqueólogos profissionais, remove qualquer dúvida em relação à sua autenticidade. 


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 28 de março de 2019

A INSCRIÇÃO DE DEIR 'ALLA (INSCRIÇÃO DE BALAÃO)

Em 1967 um grupo de arqueólogos holandeses descobriu, na região de Deir 'Alla (antiga terra dos amonitas), as ruínas de um grande santuário datado para os séculos XIII/XII a.C. No local foi encontrado um texto profético atribuído a “Balaão, filho de Beor” (personagem mencionado na Bíblia, em Nm 22-24). Escrito numa linguagem próxima do aramaico, o texto foi datado para 800 a.C. e contém uma série de previsões catastróficas supostamente entregues ao profeta em visões noturnas. Você pode ser uma tradução do texto para o inglês aqui.


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 27 de março de 2019

JÚNIA, A “APÓSTOLA” DE JOÃO CRISÓSTOMO

João Crisóstomo, arcebispo de Constantinopla, sabia que Junia, nome mencionado em Rm 16,7, é substantivo próprio feminino. Chega a lhe fazer um ditoso elogio: “quão grande sabedoria esta mulher deve ter tido para que tenha sido considerada digna do título de apóstolo!”. Isso no século IV!

No século XIII bateu aquele incômodo. Então começaram a surgir tentativas de transformar “Junia” em nome de homem (vejam que mudança de sexo é coisa antiga!). Lutero, por exemplo, arrumou um jeito de eliminar qualquer dúvida e traduziu o texto assim: “saudai a Andrônico e o Junias”. Inventou um artigo que não existe.

Alguns "doutores", na maior cara de pau, trataram de copiar o texto de modo diferente, mudando a acentuação. Trocaram Iounían (feminino) por Iouniân (masculino). Outros, após noites de sono perdidas, inventaram que Junia é forma abreviada do substantivo próprio masculino Junianus. Eu fico rindo disso tudo. Não há limites para a desonestidade intelectual.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 19 de março de 2019

JUDAS NO SÁBADO DE ALELUIA

Imagem: Wikipedia
O antigo costume cristão de agredir uma representação de Judas no sábado de aleluia (conforme imagem) teve sua contraparte na tradição judaica. A vítima dos insultos, neste caso, era Hamã, inimigo mortal dos judeus no livro bíblico de Ester. Na festa do Purim o oficial persa era atado a uma cruz e queimado. A prática desagradava os cristãos, que viam no costume uma zombaria velada ao Cristo crucificado. O código Teodosiano (408 d.C.) atesta a prática com esta proibição:





Jones F. Mendonça

domingo, 17 de março de 2019

A TÚNICA DE JOSÉ: COLORIDA, ADORNADA OU LONGA?

A Bíblia, na versão João Ferreira de Almeida, apresenta Jacó dando a José uma “túnica de várias cores” (Gn 37,3). Na Bíblia de Jerusalém a túnica não é “colorida”, mas “adornada”. Na NVI a túnica não é colorida nem adornada, mas “longa”. Quem tem razão?

No texto hebraico consta “ketonet passiym”, onde ketonet indica claramente uma “túnica” ou “manto”. Passiym é plural de “pas”, termo que só reaparece em 2 Samuel 13,18-19, qualificando a túnica de Tamar, filha do rei Davi. O texto diz que este tipo de veste era especial, reservado à realeza.

É difícil saber com certeza se a tradução correta de “passiym” é “colorido” ou “longo”. Certo mesmo é que sendo a túnica uma vestimenta especial, reservada à realeza, não fica difícil entender a razão do descontentamento dos irmãos de José.

Repare que no sonho que vem em seguida (37,5-11) José aparece dominando seus pais e irmãos. Assim, o manto real recebido no verso 3 parece muito apropriado.

Em tempo: A Septuaginta (versão grega da Bíblia) traduz “passiym” por "poikilos" = algo com aspecto "múltiplo". A palavra grega reaparece em 1Pe 4,10: "despenseiros da MULTIFORME graça de Deus" (1Pe 4,10). Talvez por isso a Bíblia de Jerusalém - seguindo a LXX? - tenha traduzido o termo hebraico por "adornado", ou seja, "dotado de múltiplas formas".

Jones F. Mendonça

quinta-feira, 14 de março de 2019

MOISÉS, ZÍPORA E O PINGOLIM MUTILADO

Ex 4,25 diz que Zípora tomou uma pedra afiada e cortou o prepúcio de seu filho. Na sequência ela lança o prepúcio “aos pés de Moisés” (Almeida Atualizada). Mas na Bíblia NVI Zípora não lança o prepúcio cortado. Ela “toca os pés de Moisés” após a pequena incisão (com que finalidade!?). A Bíblia de Jerusalém apresenta outra versão: Zípora teria “ferido os pés do menino” (uma ação igualmente estranha!). Temos, assim, três versões:

1. Zípora “lança o prepúcio aos pés de Moisés” (Almeida);
2. Zípora corta o prepúcio e “toca os pés de Moisés” (NVI);
3. Zípora “fere os pés do menino” (Bíblia de Jerusalém).

Está confuso? Afinal quem tem razão? Fiz uma tradução bem literal:

“E tomou Tziporah uma tzor (um tipo específico de pedra) e cortou o prepúcio do filho dela. TOCOU os PÉS dele (do menino ou de Moisés?) e disse: certamente marido de sangue és tu!”.

Ocorre que “pés” ser usado, alguns casos, como eufemismo para os órgãos genitais. Minha proposta de tradução:
“E tomou Zípora uma pedra afiada e cortou o prepúcio do seu filho. Tocou o pingolim dele (do menino, que neste momento está ensanguentado) e disse: certamente marido de sangue és tu!”.


Jones F. Mendonça

INSULTO E DEBOCHE NA BÍBLIA HEBRAICA

Estamos no ano 701 a.C. O rei assírio Senaqueribe cerca Jerusalém. A fome e a sede levam o povo ao desespero. Um oficial assírio aproxima-se do aqueduto da cidade e de lá começa a insultar o rei Ezequias, sua corte, seu exército e o povo da cidade. Diz, em bom hebraico e em tom de deboche, que o cerco os obriga a “beber a água dos próprios pés” (2Rs 18,27).

Dificilmente você vai encontrar uma tradução como essa: “beber a água dos próprios pés”. A razão é simples: poucos entenderiam seu significado.


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 13 de março de 2019

CHRISTUS VICTOR


Nesta pintura de Michelangelo (Juízo Final, Capela Sistina), Jesus - que aparece sem barba - é retratado com um corpo saradão (não aparece tristinho e franzino como nas telas do Barroco). Note que o ferimento na parte lateral de seu corpo é retratado como um mero arranhão. As marcas dos cravos, nas mãos e nos pés, são praticamente um ponto vermelho.

A imagem inteira, em alta resolução, aqui.


Jones F. Mendonça