1. Investigo a
origem de interpretações equivocadas do texto bíblico do Novo Testamento. A
ideia tão difundida de que o aramaico “abba” significa “paizinho” (Mc 14,36)
vem de um livro do renomado e competente teólogo alemão Joachim Jeremias (The
prayers of Jesus, 1967). Sua tese foi derrubada por James Barr num artigo
publicado em 1988 (“Abba isn’t Daddy”). Aliás, o próprio Jeremias reconheceu
seu erro numa edição posterior de sua Teologia do Novo Testamento (Devo essa ao
Lucas Fernandes). “Abba” significa simplesmente “pai” como o hebraico “ab”.
2. Apesar do NT
não dar um sentido diferenciado ao termo grego “ágape” (amor), não faltam publicações
teológicas argumentando que ágape significa, no NT, “amor de Deus” ou “amor
incondicional”. A origem dessa confusão talvez venha de outro teólogo alemão:
Paul Tillich. Em sua teologia sistemática, Tillich discorreu sobre os
diferentes tipos de amor existentes no pensamento grego (ágape, fileo, eros,
storge). Meu palpite é o seguinte: leitores apressados talvez tenham atribuído
ao “ágape” do NT o mesmo sentido que Tillich quis dar em sua teologia
sistemática.
3. Um terceiro
grande equívoco ocorre em relação ao termo grego “kairós”. Não faltam citações
e sermões que atribuem ao termo um significado que ele jamais teve no NT. O que
se diz é: “’chronos’” é o tempo cronológico e ‘kairós’ é o tempo da salvação,
tempo de Deus”. Mas a tese não resiste a um exame cuidadoso. É falsa. Oscar Cullmann, em seu “Cristo e o tempo” (1946) refletiu sobre o tempo a partir da obra salvífica de Cristo, dando especial destaque ao termo “kairós” (“chronos” e “aiôn” ganham pouco espaço). Ele jamais definiu “kairós” como “tempo de Deus”, mas sua ênfase na ação divina no “kairós” (tempo) talvez tenha dado origem ao equívoco.
Jones
F. Mendonça






