quinta-feira, 30 de maio de 2019

CIÚME, INVEJA E ZELO: NO HEBRAICO SÃO UMA SÓ PALAVRA

A palavra hebraica “qana’” significa “ardor”. Quando este “ardor” está relacionado a um bem alheio, é traduzido por “inveja”. Quando diz respeito a um bem próprio desejado por outros, é traduzido por “ciúme”. Quando se dirige a Deus, é traduzido por “zelo”. Veja:

1. “Ele tinha rebanhos de bois e ovelhas e numerosos servos. Por causa disso os filisteus QANA’ (tiveram inveja)” (Gn 26,14).

2. “Seus irmãos ficaram com QANA’ (ciúmes) dele” (Gn 37,11)

3. “Em recompensa do seu QANA’ (zelo) pelo seu Deus, poderá realizar o rito de expiações” (Nm 25,13).

As palavras hebraicas geralmente têm um campo semântico vasto. O tradutor precisa ficar atento.


Jones F. Mendonça


sexta-feira, 24 de maio de 2019

NAHAM: “COMPADECEU-SE” OU “ARREPENDEU-SE”

O verbo hebraico “naham”, em seu sentido primário, indica um movimento interno de pesar. Por vezes deve ser traduzido por “compadeceu-se”. Em outros casos por “arrependeu-se”. Dois exemplos:

1. “Os filhos de Israel se COMPADECERAM (naham) por Benjamim seu irmão” (Jz 21,6):

2. “O Senhor ARREPENDEU-SE (naham) de ter feito o homem sobre a terra” (Gn 6,6).

Então veja: quando o lamento indica tristeza pelo sofrimento alheio, a tradução deve ser “compadeceu-se”. Quando indica tristeza por algo que o próprio sujeito fez, deve ser traduzido por “arrependeu-se”. Há muitas ocorrências do verbo na Bíblia Hebraica. Até onde pude pesquisar, estes são os dois sentidos básicos do termo. 

Jones F. Mendonça

sábado, 4 de maio de 2019

ZAKAR, NEQEBAH E MATZEBAH: SEXO E GÊNERO NA BÍBLIA HEBRAICA

Imagem: Wikipedia
As palavras hebraicas mais usadas para designar “homem” e “mulher” são “ish” e “ishah”. Mas quando o texto quer enfatizar as diferenças sexuais usa “zakar” (macho) e “neqebah” (fêmea). No verso “acaso um homem tem dores de parto” (Jr 30,6), a palavra traduzida por “homem” é “zakar”, termo que seria mais bem traduzido por “macho”. É como se dissesse: “por acaso pode um macho engravidar?”.

Curioso é que “neqebah” (fêmea) é palavra da mesma raiz de “neqeb” (caverna, buraco, encaixe) e do verbo naqab (furar, perfurar). “Zakar” (macho), por sua vez, vem de uma raiz verbal que significa “fazer um marco/coluna” (um memorial). Os “memoriais” de pedra, chamados de "zikron" (Is 57,8) ou “matzebah” (Gn 28,22), ao que tudo indica, eram símbolos fálicos (como obeliscos egípcios). 

Meu palpite é que o verbo “zakar” (erguer um marco) foi usado inicialmente para indicar o ato de erguer um "zikron" ou “matzebah”. Por desdobramento, passou a ser usado como “relembrar” (não é essa a função dos marcos?). O verbo foi convertido em substantivo designativo do macho ou por sua relação com a ação de erguer (alusão ao pênis ereto) ou por sua relação com o zikron/matzebah (símbolo fálico).

Assim, na origem dos termos, a fêmea (neqebah) teria sido pensada como “aquela que possui a cavidade” (caverna) e o macho (zakar) como “aquele que penetra na cavidade” (memorial, falo).



Jones F. Mendonça

sábado, 27 de abril de 2019

PULSÃO, ÓDIO, PAIXÃO, TRANSBORDAMENTO

O verbo “transbordar”, em hebraico, é “SHUQ”. Ele aparece, por exemplo, em Jl 2,24: “os lagares transbordarão (shuq) de vinho”. Um substantivo derivado deste verbo é “teSHUQah”, encontrado em apenas três passagens: “e para teu marido estará a tua teshuqah” (de Eva em relação a Adão; Gn 3,16), “à porta está estendido o pecado e contra ti está a teshuqah dele” (do pecado em relação a Caim; Gn 4,7) e “eu sou do meu amado e sobre mim está a teshuqah dele” (do amado em relação a amada; Ct 7,10). O termo designa uma pulsão, um desejo. Por alguma razão (que não é difícil compreender) os hebreus viam essa excitação (positiva ou negativa) como um “excesso”, como um “transbordamento”.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 25 de abril de 2019

QUAL A ORIGEM E O SIGNIFICADO DA EXPRESSÃO "PAIXÃO DE CRISTO"?

Muita gente pensa que a expressão “paixão de Cristo” serve para indicar o “amor”, a “paixão” de Cristo pelos pecadores. Não é nada disso. A palavra portuguesa “paixão” vem do latim “passio”, tradução do grego pathos (uma perturbação, emocional ou física). Assim, “passio” pode ser usado para indicar “sofrimento” ou “dor”. O francês “passion d’amour”, por exemplo, significa “dor de amor”. Quando dizemos que uma pessoa está “apaixonada”, queremos com isso indicar que está “sofrendo de amor”. Então não esqueça: “Paixão de Cristo” é o mesmo que “Sofrimento de Cristo”.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 24 de abril de 2019

DO NIILISMO HERMENÊUTICO


A imagem de um copo com 50% de seu volume ocupado por água tem sido usada para legitimar a filosofia relativista que sugere ser impossível descrever a realidade de forma objetiva. Afinal, um copo nesta condição está “meio cheio” ou “meio vazio”? A resposta é simples: se a situação foi alcançada após o enchimento do copo, então está meio cheio. Se foi alcançada após seu esvaziamento, então está meio vazio. A resposta está na história do copo. Sem sua história temos apenas um copo preenchido com água até a metade.


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 15 de abril de 2019

GÊNESIS 2: NÃO É “ALMA VIVENTE”, É “GARGANTA VIVA”

O capítulo 2 do Gênesis descreve a criação do homem a partir de um punhado de terra. Ele ganha vida quando Javé Elohim (o Criador) sopra em suas narinas sua neshemah (seu “hálito”). Esse hálito passa por sua néfesh (garganta) e lhe dá vida. Uma tradução honesta nos permite visualizar a cena:
Então Javé Elohim modelou o homem com a argila do solo,insuflou em suas narinas um hálito (neshemah) de vida
e o homem se tornou uma garganta (néfesh) viva (Gn 2,7).
O corpo sem vida torna-se “garganta viva” (e não “alma vivente”). Isso significa que a partir da recepção do hálito divino ele respira, fala, grita, come, bebe, deseja. A ideia de que o corpo que é habitado por uma “alma” ou por um “espírito” é estranha à tradição judaica. O corpo é simplesmente animado pelo hálito (neshemah) ou sopro (ruah) divino. Caso o Criador recolha sua neshemah/ruah, o homem volta a ser pó.

Note que os dois termos aparecem como sinônimos em Jó 34,14-15:

Se levasse de novo a si a sua ruah (“sopro” e não “espírito”), 
se concentrasse em si a sua neshemah (“hálito”, sinônimo de “sopro”)
expiraria toda a carne no mesmo instante,
e o homem voltaria a ser pó.

Eclesiastes reforça essa ideia quando diz que o pó (referindo-se ao corpo) volta à terra e a “ruah” (o sopro divino) volta ao Criador por ocasião de sua morte (Ecl 12,7). Ainda não há qualquer indício de vida eterna. Eclesiastes diz claramente que os mortos não têm recompensa, nem memória (9,5), nem reflexão, nem sabedoria (9,10). A doutrina da vida eterna é desenvolvida aos poucos e só aparece claramente em Dn 12,2:
E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno.
Repare que o texto não fala da “imortalidade da alma” (uma crença grega presente nos escritos de Platão, como no “Fédon”), mas da ressurreição DO CORPO. Aliás, o credo de Niceia (325 d.C.) reafirma a crença na ressurreição com muita clareza: “Esperamos a ressurreição dos mortos; e a vida do mundo vindouro”.



Jones F. Mendonça

domingo, 14 de abril de 2019

JEROBOÃO E SISAQUE/SHESHONQ

Apresento aqui um resumo de matéria publicada no Haaretz (por Ariel David, 14/04/19) sobre a incursão do faraó Sisaque em Canaã e sua possível relação com a formação do reino do Norte: 

De acordo com a Bíblia, no quinto ano do reinado de Roboão (por volta de 925 a.C.), um faraó chamado Sisaque (ou Sheshonq) atacou Jerusalém, saqueou a cidade e “tirou os tesouros da casa de Javé e os tesouros da casa do rei”(1 Reis 14,25-26). 

Um texto em Karnak e um bloco de pedra encontrado em Megido mostram que a campanha não foi uma simples incursão, mas um esforço muito mais amplo para restaurar a hegemonia do Egito sobre Canaã e outros territórios que haviam sido governados pelos faraós durante o Império Novo (do século 15 a.C. ao século 12 a.C.).

É apenas uma teoria, mas o arqueólogo israelense Israel Finkelstein apresenta várias pistas que sugerem que o nascimento do Reino do Norte de Israel foi o resultado de arranjos políticos organizados por Sheshonq no rescaldo de sua campanha. Uma das principais peças desse jogo político seria Jeroboão. 

Jeroboão, primeiro rei do Norte, é descrito como um oficial que liderou uma rebelião fracassada contra Salomão e encontrou refúgio na corte de Sisaque para escapar da ira do rei israelita (1 Reis 11). Ele então retornou a Canaã ao ouvir falar da morte de Salomão e liderou o povo contra Roboão, formando o reino do Norte (1 Reis 12).

Na Septuaginta, primeira tradução grega da Bíblia, existem versículos adicionais sobre a permanência de Jeroboão no Egito que não foram incluídos no texto hebraico canônico. Nesta versão, a conexão de Jeroboão a Sisaque/Sheshonq é ainda mais forte: ele se casa com a cunhada do faraó, que lhe dá um filho. A história talvez contenha uma memória histórica. 

Para resumir a teoria de Finkelstein, o nascimento do Reino de Israel pode ter acontecido assim: Sheshonq seguiu para Canaã, viu os habitantes arrogantes das terras altas como uma ameaça, então os conquistou e instalou um governante vassalo sobre eles: Jeroboão.


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 11 de abril de 2019

SOBRE O VERBO HEBRAICO "HUL"

Uma das características mais curiosas da língua hebraica é a quantidade de sentidos que uma palavra pode indicar. O verbo “hul”, por exemplo, pode ser traduzido por “esperar”, “angustiar-se”, “dançar”, “sentir dor”, “gerar (um filho)”, “se contorcer” ou “girar”. Parece estranho, mas há uma explicação para isso.

“Hul” indica, em seu sentido mais primitivo, um movimento circular. Por desdobramento pode designar algo que se contorce. Isso explica o uso do verbo para indicar uma ESPERA ANGUSTIANTE ou a o ato de GERAR UM FILHO, pois nessas condições temos a sensação de que nosso ventre de contorce. Veja:

Ele ESPEROU (no original, “contorceu-se”) ainda outros sete dias e soltou de novo a pomba fora da arca (Gn 8,10).

Olhai para Abraão, vosso pai,
e para Sara, aquela que vos DEU À LUZ (no original, “se contorceu”, cf. Is 51,2).

Em alguns casos o verbo é usado para indicar o movimento corporal de uma dança:

Espiareis e, logo que as filhas de Silo saírem para DANÇAR (no original, “se contorcer”) em seus bailados... (Jz 21,21)”.

Você percebe que encontrou o sentido original de uma palavra hebraica quando ela se encaixa em todos os textos em que aparece. E esse sentido não é encontrado em dicionários, mas pela investigação do termo em diversos textos e pela busca da raiz da palavra. Um exercício divertido.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 9 de abril de 2019

A "CASA DE DAVI" NA ESTELA DE TEL DAN


Em 1993 um grupo de arqueólogos descobriu na região de Tel Dan (norte de Israel) uma estela que celebra a vitória do rei de Damasco sobre a “Casa de Davi”. O artefato – datado para o século VIII a.C. – seria a primeira evidência extrabíblica da existência do rei Davi. Bem, ocorre que o hebraico não possuía vogais, por isso a tradução geralmente não é fácil. Na inscrição aparecem as seguintes consoantes: BYT DVD. Inserindo as vogais (em azul) podemos lê-la como BeYT DaViD (“Casa de Davi”) ou como BeYT DoD (“Casa do amado”). A expressão “Casa de Davi” seria uma referência à dinastia davídica (como “casa de Jeroboão”, cf. 1Rs 13,34). A expressão “Casa do Amado” seria uma referência à Jerusalém (como “casa do Sol”, cf. Js 15,10).

Saiba mais sobre Davi e a estela contendo as consoantes de seu nome lendo este artigo de Thomas L. Thompson.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 5 de abril de 2019

SUBMISSÃO E MODÉSTIA EM PAULO E ROMA

Em 1Tm 2,9-15 Paulo dá a Timóteo algumas recomendações relativas às mulheres (vestuário e submissão ao homem) que estão bem de acordo com a cultura predominante na Antiga Roma.

O discurso (misógino) abaixo, proferido por Marco Catão em 195 d.C., foi uma resposta a um protesto de mulheres contra uma lei que impunha a elas restrições ao vestuário e uso de joias. Os temas são os mesmos:

“Nenhuma proibição dos maridos podia retê-las em casa. [...] Do jeito que as coisas estão, nossa liberdade, derrubada em casa pela indisciplina feminina, está sendo esmagada e pisada também aqui, no Fórum. [...] as mulheres tinham de estar sob o controle de pais, irmãos e maridos” (BURROW, John. Uma história das histórias, 2013, p. 135).



Jones F. Mendonça

SEXO E GÊNERO NO LEVÍTICO

Neste artigo, publicado no The Torah, a Dr. Kristine Henriksen Garroway sugere que o período de purificação da mãe no Levítico (12,1-7), diferenciado para o nascimento de meninos (40 dias) e meninas (80 dias), servia como uma espécie de anúncio ritual do gênero, tal como ocorria na civilização hitita.


Embora entre os hititas o período também seja diferenciado, não indicava o tempo de purificação da mãe, mas o espaço de tempo entre o nascimento e a oferta (chamada de “mala”). Veja:

Q“[uando a mulher] dá à luz, [...] eles realizam a oferta de mala […] do recém-nascido [macho] no sétimo dia”.

“Mas [se] uma criança feminina nasce, [então] daquele mês eles contam [quarto] meses de [arriv] e então eles purificam a criança do sexo feminino...”.

Na civilização ocidental moderna fazemos a diferenciação ritual de gênero vestindo machos com azul e fêmeas com rosa. A cor indica o papel social desejado pelos pais.

Leia mais aqui


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 4 de abril de 2019

PODCAST COM RAPOSA ESCATOLÓGICA

Embora o primeiro podcast brasileiro tenha surgido em 2004, só agora (15 anos depois) fui seduzido por essa nova forma de adquirir conhecimento. Para quem se interessa por teologia, indico “oestadodaarte.com.br”. Hoje, enquanto fazia minha caminhada matutina (até encontrei uma raposa!), ouvi “O livro do Apocalipse”, com a participação de José Adriano Filho, Kenner Terra e Paulo Nogueira. O áudio dura 58 minutos, por isso acabei caminhando mais do que o normal. 



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 3 de abril de 2019

SOBRE O NOME "JOÃO"

De acordo com o evangelho de Lucas, Elisabeth deu a seu filho o nome “João”, mesmo não sendo um nome comum na família (Lc 1,60). “João” é forma portuguesa do grego “Ioannes” (tal como aparece no NT), que por sua vez deriva do hebraico Iohanan, junção de “Io” ou “Yo”(forma abreviada do nome divino) + hanan (gracioso) = “Deus é gracioso” (ver Jr 40,13). Maria, em Lc 1,30, é tratada como “aquela que encontrou graça diante de Deus”. João carrega em seu nome a mesma graça que recaiu sobre a mãe de Jesus.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 2 de abril de 2019

CONSIDERAÇÕES SOBRE O NOME DIVINO

De acordo com o Êxodo, o Deus de Israel era conhecido pelo povo como o “Deus dos pais” (Abraão, Isaque e Jacó). O texto também informa que o nome divino só foi revelado a Moisés em Ex 3,15: “YHVH” (o hebraico primitivo não possuía vogais). Assim, sem vogais, o nome é impronunciável.

A partir do século VI d.C., um grupo de judeus chamados massoretas inseriu vogais no texto. Nesse texto vocalizado o nome divino aparece grafado de formas diferentes (sempre com as mesmas consoantes): YaHVeH (Gn 2,4), YeHVaH (Ex 3,15), YeHoViH (Is 50,4),  YeHViH (Gn 15,2). Sim, é estranho.

Há duas hipóteses para essa variação vocálica: 1) os massoretas não conheciam mais a pronúncia correta; 2) Eles variavam a vocalização para evitar a pronúncia do nome sagrado. Ainda hoje, quando os judeus se deparam com o nome divino por ocasião da leitura do texto, trocam YHVH por Adonai (Senhor).



Jones F. Mendonça

domingo, 31 de março de 2019

LENATAN-MELEK EVED HAMELEK: OFICIAL DE JOSIAS?

Foto: Haaretz
O Haaretz (Israel) noticiou hoje a descoberta de um selo (tem o tamanho de uma unha) nas ruínas de um antigo edifício de Jerusalém destruído no século VI a.C. por ocasião da conquista da cidade pelos babilônicos.  A minúscula impressão do selo traz as palavras hebraicas LeNatan-Melek Eved HaMelek (Pertencente a Natan-Melek, servo do rei). O nome é o mesmo do oficial do rei Josias, mencionado em 2Rs 23,11. Não é possível afirmar, no entanto, que o selo tenha pertencido ao oficial de Josias (Christopher Rollston vê grande probabilidade da pessoa indicada no selo ser a mesma de 2Rs 23,11)

Uma excelente matéria foi publicada no Haaretz. Mais informações e imagens no The Times of Israel. Todd Bolen explica que um selo com a mesma inscrição (com autenticidade duvidosa) já circulava no mercado de antiguidades. A descoberta deste novo selo, feita por arqueólogos profissionais, remove qualquer dúvida em relação à sua autenticidade. 


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 28 de março de 2019

A INSCRIÇÃO DE DEIR 'ALLA (INSCRIÇÃO DE BALAÃO)

Em 1967 um grupo de arqueólogos holandeses descobriu, na região de Deir 'Alla (antiga terra dos amonitas), as ruínas de um grande santuário datado para os séculos XIII/XII a.C. No local foi encontrado um texto profético atribuído a “Balaão, filho de Beor” (personagem mencionado na Bíblia, em Nm 22-24). Escrito numa linguagem próxima do aramaico, o texto foi datado para 800 a.C. e contém uma série de previsões catastróficas supostamente entregues ao profeta em visões noturnas. Você pode ser uma tradução do texto para o inglês aqui.


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 27 de março de 2019

JÚNIA, A “APÓSTOLA” DE JOÃO CRISÓSTOMO

João Crisóstomo, arcebispo de Constantinopla, sabia que Junia, nome mencionado em Rm 16,7, é substantivo próprio feminino. Chega a lhe fazer um ditoso elogio: “quão grande sabedoria esta mulher deve ter tido para que tenha sido considerada digna do título de apóstolo!”. Isso no século IV!

No século XIII bateu aquele incômodo. Então começaram a surgir tentativas de transformar “Junia” em nome de homem (vejam que mudança de sexo é coisa antiga!). Lutero, por exemplo, arrumou um jeito de eliminar qualquer dúvida e traduziu o texto assim: “saudai a Andrônico e o Junias”. Inventou um artigo que não existe.

Alguns "doutores", na maior cara de pau, trataram de copiar o texto de modo diferente, mudando a acentuação. Trocaram Iounían (feminino) por Iouniân (masculino). Outros, após noites de sono perdidas, inventaram que Junia é forma abreviada do substantivo próprio masculino Junianus. Eu fico rindo disso tudo. Não há limites para a desonestidade intelectual.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 19 de março de 2019

JUDAS NO SÁBADO DE ALELUIA

Imagem: Wikipedia
O antigo costume cristão de agredir uma representação de Judas no sábado de aleluia (conforme imagem) teve sua contraparte na tradição judaica. A vítima dos insultos, neste caso, era Hamã, inimigo mortal dos judeus no livro bíblico de Ester. Na festa do Purim o oficial persa era atado a uma cruz e queimado. A prática desagradava os cristãos, que viam no costume uma zombaria velada ao Cristo crucificado. O código Teodosiano (408 d.C.) atesta a prática com esta proibição:





Jones F. Mendonça

domingo, 17 de março de 2019

A TÚNICA DE JOSÉ: COLORIDA, ADORNADA OU LONGA?

A Bíblia, na versão João Ferreira de Almeida, apresenta Jacó dando a José uma “túnica de várias cores” (Gn 37,3). Na Bíblia de Jerusalém a túnica não é “colorida”, mas “adornada”. Na NVI a túnica não é colorida nem adornada, mas “longa”. Quem tem razão?

No texto hebraico consta “ketonet passiym”, onde ketonet indica claramente uma “túnica” ou “manto”. Passiym é plural de “pas”, termo que só reaparece em 2 Samuel 13,18-19, qualificando a túnica de Tamar, filha do rei Davi. O texto diz que este tipo de veste era especial, reservado à realeza.

É difícil saber com certeza se a tradução correta de “passiym” é “colorido” ou “longo”. Certo mesmo é que sendo a túnica uma vestimenta especial, reservada à realeza, não fica difícil entender a razão do descontentamento dos irmãos de José.

Repare que no sonho que vem em seguida (37,5-11) José aparece dominando seus pais e irmãos. Assim, o manto real recebido no verso 3 parece muito apropriado.

Em tempo: A Septuaginta (versão grega da Bíblia) traduz “passiym” por "poikilos" = algo com aspecto "múltiplo". A palavra grega reaparece em 1Pe 4,10: "despenseiros da MULTIFORME graça de Deus" (1Pe 4,10). Talvez por isso a Bíblia de Jerusalém - seguindo a LXX? - tenha traduzido o termo hebraico por "adornado", ou seja, "dotado de múltiplas formas".

Jones F. Mendonça

quinta-feira, 14 de março de 2019

MOISÉS, ZÍPORA E O PINGOLIM MUTILADO

Ex 4,25 diz que Zípora tomou uma pedra afiada e cortou o prepúcio de seu filho. Na sequência ela lança o prepúcio “aos pés de Moisés” (Almeida Atualizada). Mas na Bíblia NVI Zípora não lança o prepúcio cortado. Ela “toca os pés de Moisés” após a pequena incisão (com que finalidade!?). A Bíblia de Jerusalém apresenta outra versão: Zípora teria “ferido os pés do menino” (uma ação igualmente estranha!). Temos, assim, três versões:

1. Zípora “lança o prepúcio aos pés de Moisés” (Almeida);
2. Zípora corta o prepúcio e “toca os pés de Moisés” (NVI);
3. Zípora “fere os pés do menino” (Bíblia de Jerusalém).

Está confuso? Afinal quem tem razão? Fiz uma tradução bem literal:

“E tomou Tziporah uma tzor (um tipo específico de pedra) e cortou o prepúcio do filho dela. TOCOU os PÉS dele (do menino ou de Moisés?) e disse: certamente marido de sangue és tu!”.

Ocorre que “pés” ser usado, alguns casos, como eufemismo para os órgãos genitais. Minha proposta de tradução:
“E tomou Zípora uma pedra afiada e cortou o prepúcio do seu filho. Tocou o pingolim dele (do menino, que neste momento está ensanguentado) e disse: certamente marido de sangue és tu!”.


Jones F. Mendonça

INSULTO E DEBOCHE NA BÍBLIA HEBRAICA

Estamos no ano 701 a.C. O rei assírio Senaqueribe cerca Jerusalém. A fome e a sede levam o povo ao desespero. Um oficial assírio aproxima-se do aqueduto da cidade e de lá começa a insultar o rei Ezequias, sua corte, seu exército e o povo da cidade. Diz, em bom hebraico e em tom de deboche, que o cerco os obriga a “beber a água dos próprios pés” (2Rs 18,27).

Dificilmente você vai encontrar uma tradução como essa: “beber a água dos próprios pés”. A razão é simples: poucos entenderiam seu significado.


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 13 de março de 2019

CHRISTUS VICTOR


Nesta pintura de Michelangelo (Juízo Final, Capela Sistina), Jesus - que aparece sem barba - é retratado com um corpo saradão (não aparece tristinho e franzino como nas telas do Barroco). Note que o ferimento na parte lateral de seu corpo é retratado como um mero arranhão. As marcas dos cravos, nas mãos e nos pés, são praticamente um ponto vermelho.

A imagem inteira, em alta resolução, aqui.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 12 de março de 2019

COMO "ELISABET" CONVERTEU-SE EM "ISABEL"

Embora o nome da mãe de João Batista seja grafado como ISABEL nas Bíblias em português (Lc 1,7), seu nome em grego é ELISABET. Mas por que o nome foi mudado?

Bem, Elisabet é a forma grega do hebraico Elishebá' (esposa de Arão – Ex 6,23 - significa "meu Deus jurou"). O nome é formado a partir da junção de um substantivo próprio, um pronome possessivo e um verbo. Veja:

El="Deus"
i=sufixo pronominal "meu".
Shebá'="jurou"

Por por algum motivo o substantivo "El" (Deus) foi para o final da palavra. Assim, ELishebá’ converteu-se em IshebaEL (aproximando-se foneticamente de Isabel). 

Não tenho a mínima ideia da razão que provocou a mudança na posição do “El” em nosso idioma. O nome aparece grafado corretamente nas versões inglesa e latina:

“And they had no child, because that ELISABETH...”(KJV).
“et non erat illis filius eo quod esset ELISABETH...”(Vulgata).


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 11 de março de 2019

"ÁGAPE" NÃO É "AMOR INCONDICIONAL"

Alguém inventou que o substantivo grego “ágape” e o verbo “agapao” expressam um tipo de amor singular, incondicional. A coisa vem sendo repetida ao longo dos anos de forma sistemática. A verdade é que o termo ganha sentidos diferentes tanto no Novo Testamento quanto na literatura grega secular. Um exemplo do uso do verbo "agapao" com sentido de apego às coisas terrenas aparece em 1Tm 4,10: “pois Demas, amando (agapao) este mundo, abandonou-me e foi para Tessalônica”. Neste verso, “agapao” não expressa nem um amor divino nem um amor incondicional. Cai o mito.



Jones F. Mendonça

O TÚMULO DE EZEQUIEL

A crença tão difundida na existência de uma inimizade milenar entre judeus e muçulmanos não possui fundamento histórico: no início do século XX, um terço da cidade de Bagdá era judaica. A relação conflituosa entre as duas religiões só teve início em 1948, após a criação do Estado de Israel. Uma evidência arqueológica das boas relações entre judeus e muçulmanos antes de 1948 é o túmulo de Ezequiel.

Construído por volta do ano 500 d.C., na pequena cidade iraquiana de Al-Kifl, o túmulo está localizado em um antigo santuário judaico que mais tarde ganhou a companhia de uma mesquita islâmica xiita. Desde então o local se transformou em um centro de peregrinação judaica e islâmica. Ainda hoje é possível ver as inscrições hebraicas pintadas nas paredes do santuário.

A foto mostra judeus orando no túmulo em 1932.


Leia mais aquiaqui: 


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 7 de março de 2019

O LÍBANO, O FOGO E O ALTAR

Isaías 40, em seu capítulo dezesseis, exalta o poder divino com os seguintes versos:

A. O Líbano não bastaria para queimar, 
B. nem a sua fauna para um holocausto.

Você seria capaz de dizer que tipo de imagem o texto está evocando?

Algumas versões, como a NVI, entendendo que o escritor sagrado está se referindo, no primeiro verso, às FLORESTAS DO Líbano e ao fogo DO ALTAR, traduz a linha “A” assim:

A. “Nem as FLORESTAS do Líbano seriam suficientes para o fogo do ALTAR”.

As palavras “florestas” e “altar” não aparecem no texto original, mas estão implícitas. Versões populares costumam dar uma ajudazinha aos leitores pouco familiarizados com a poesia e costumes judaicos.

O texto quer dizer o seguinte: nem toda a flora e fauna do Líbano seriam suficientes para fornecer lenha e carne para um holocausto compatível com a grandeza divina.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 5 de março de 2019

A BÍBLIA E SUAS TRADUÇÕES: "OLAM" NÃO É "ETERNIDADE"

Em Jeremias 25,9, o profeta diz que Judá e Jerusalém serão objetos de escárnio e ruínas “perpétuas” (do hebraico, "olam"). Mas sabemos que a cidade de Jerusalém foi reconstruída! Em 25,12 a Babilônia recebe o mesmo destino: o texto diz que a cidade dos caldeus (Babilônia) se converterá em desolação “eterna” (olam). A explicação é simples: a tradução de “olam” por "eternamente", é equivocada.

"Olam", quando não precedido de preposição, indica que algo tem duração longa ou está distante no tempo, tanto para o futuro como para o passado. Um exemplo: Em Malaquias 3,4 é dito que a oferta de Jerusalém e Judá serão como nos dias “olam”, ou seja, como nos dias "distantes” ou "antigos" (como em Is 64,4).

Talvez você esteja se perguntando a respeito de Eclesiastes 3,11: “Deus colocou a eternidade (olam) no coração do homem...”. A Bíblia de Jerusalém traduz corretamente: “colocou no coração do homem o conjunto de tempo”. Da mesma forma a Bíblia TEB: “o sentido do tempo”. Olam, expressa duração – passado ou futuro – nunca eternidade.



Jones F. Mendonça

sábado, 2 de março de 2019

O CARNAVAL, O JEJUM E A REVOLTA DAS SALSICHAS

O estopim da reforma protestante na Alemanha foi a venda de indulgências. Em Zurique, na Suíça, tudo começou com a violação do jejum que se inicia na quarta-feira de cinzas (Jejum da Quaresma). A data: 09 de março de 1522. Aconteceu assim:

Um grupo de 12 cristãos, hospedados na casa de um impressor, comeu salsichas defumadas oferecidas pelo anfitrião, Christoph Froschauer. Após tomar conhecimento do caso, a Câmara Municipal da cidade decidiu investigar. Os sacerdotes se dividiram: alguns pediam punição severa. Outros, como Zwínglio, saíram em defesa dos rebeldes.

O reformador suíço, muito influente à época, argumentou que a Bíblia nada fala a respeito de um jejum na Quaresma. Ele não parou por aí. Em seguida criticou o celibato clerical e se casou com uma viúva, Ana Reinhart. 

Nunca duvide do poder das salsichas.



Jones F. Mendonça