terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

O NUMINOSUM ESTÁ NO BIBLIOBLOG TOP 50 [2018]

Em 2009, incentivado por um professor (Luiz Carlos), criei um Blog dedicado ao estudo teológico: o “Numinosum”. Hoje, por acaso, enquanto fazia buscas no Google, acabei descobrindo que o “Numinosum” ocupa a posição 30 em número de acessos no The Biblioblog Top 50 (A relação completa inclui 137 Blogs de todo o mundo, voltados para o estudo acadêmico da Bíblia). A ideia de criar um Biblioblog Top 50 veio de Jim West, professor de Estudos Bíblicos e Reforma na Faculdade Teológica Ming Hua/Charles Sturt Universit (Hong Kong).

A lista inclui estudiosos famosos, como Barth Ehrman (posição 4) e James Tabor (posição 13). Não sei como me descobriram e fiquei ainda mais surpreso com a posição 30.

A relação completa de Blogs selecionados está aqui. Caso você queira conhecer outros Biblioblogs, há uma lista completa de aqui. Identifiquei três Blogs mantidos por brasileiros: Observatório Bíblico (Airton José da Silva), Estudos Bíblicos e Língua Hebraica (Cláudia Andrea Prata Ferreira) e Ad Cummulus (Flávio Souza, et. al).



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

O ISAÍAS "MEIO NU" DA NTLH

Os tradutores das Bíblia na versão NTLH, constrangidos com a nudez do profeta Isaías tal como exposta em Is 20,3, traduziram assim o texto:
“Durante três anos, o meu servo Isaías andou MEIO nu e descalço...”.
É compreensível a preocupação dos tradutores com a sensibilidade dos leitores, mas “meio nu” é um pouco demais (o verso 4 destrói a tese da nudez parcial).

Uma curiosidade: outro profeta a andar nu e descalço é Miqueias (1,8).



Jones F. Mendonça

BÍBLIA, POESIA E INTERPRETAÇÃO

Boa parte dos leitores da Bíblia não se dá conta de que 1/3 do Antigo Testamento foi escrito em forma de poema. Praticamente não há, na poesia hebraica, o emprego da rima (semelhança de sons), mas são abundantes os paralelismos (semelhança ou antagonismo de ideias). Compreender esse recurso faz toda a diferença na hora de interpretar um texto poético.

Abaixo um exemplo tomado de Gn 49,11-12. Trata-se de uma promessa feita a Judá por seu pai, Jacó:

A - “Liga à vinha seu jumentinho,
A’ - à cepa o filhote de sua jumenta,

B - lava sua roupa no vinho,
B’ - seu manto no sangue das uvas,

C - seus olhos estão turvos de vinho,
C’ - seus dentes brancos de leite”.

Repare que linha de baixo repete a ideia expressa na linha anterior. Nas linhas A e A’ o texto faz alusão a um animal de montaria (jumentinho/jumenta) amarrado a uma árvore (vinha/cepa).

A linhas B e B’ indicam que essa árvore tem abundância de frutos (vinho/sangue de uvas). Tamanha é a quantidade de frutos que as vestes (roupa/manto) ficam manchadas.

Nas linhas C e C’ vemos o resultado dessa abundância: olhos turvos (embriaguez) e dentes “brancos de leite”, metáfora usada para indicar a abundância da terra.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

SOBRE CARRUAGENS E QUERUBINS


O primeiro livro de Crônicas, em seu capítulo 28, apresenta Davi dando a Salomão instruções a respeito da confecção dos utensílios do templo. No verso 18 ele fala sobre “o carro dos querubins”. Tais seres, de aparência assustadora, servem de montaria divina no Sl 18,10 e surgem aqui como puxadores do carro divino.

Querubins e serafins, embora tratados como anjos (mensageiros) em manuais de teologia sistemática, na verdade são seres protetores, tal como aparecem em outros textos (Gn 3,24; Ez 28,14) e na iconografia fenícia, assíria, babilônica e persa. Na imagem acima você vê uma representação fenícia do século VIII a.C. mostrando um querubim puxando uma carruagem divina.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

NUMINOSUM NO FACEBOOK

Tudo o que publico aqui também sai na minha página pessoal do Facebook. Aliás, há coisas que publico lá, mas não aqui (por falta de tempo). Assim, caso você não queira perder nenhuma publicação e contar com ferramentas melhores para inserir comentários (no Blog a interação é horrível), siga-me no Facebook ou faça uma solicitação de amizade. Terei prazer em aceitar seu convite (exceto se suas publicações incitarem o ódio político ou religioso, um fenômeno tão na moda atualmente). 


Jones F. Mendonça. 

QUEM FALOU QUE ARTE MODERNA NÃO PRESTA?


Na França do século XIX um grupo de artistas violou as regras da todo-poderosa Academia de Belas-Artes de Paris e passou a retratar o mundo moderno. As pinturas exibiam temas considerados vulgares, como pessoas passeando, fazendo piquenique, comendo ou bebendo. O uso das cores e a técnica empregada nas pinceladas também não seguiam a “santa regra”. Foi um escândalo. A Academia esperava que os artistas pintassem temas religiosos, mitológicos ou inspirados na Antiguidade Clássica. Mas eles rejeitaram o cânon sagrado. E assim nasceu o impressionismo. E assim nasceu a arte moderna. A galera chata da Academia achou tudo muito feio, muito tosco, muito... moderno. Eu acho lindo. Acima uma tela de Monet.



Jones F. Mendonça

QUIASMOS NA BÍBLIA HEBRAICA

Gn 1,2-4a descreve da CRIAÇÃO dos animais e do humano. Para que isso acontecesse as “águas” precisavam ser separadas das “águas” (cf. Gn 1,6-7). Em Gn 7,21-23 o crescimento da iniquidade provoca a “DES-CRIAÇÃO” dos animais e do homem (as “águas superiores” misturam-se, de novo, com as “águas inferiores”). Em Gn 8,16-19, após as águas superiores retornarem ao seu lugar e com a terra novamente seca (8,14), uma NOVA CRIAÇÃO acontece. A boa notícia é relatada por meio de um quiasmo (irregular):

A - Sai da arca, tu e tua mulher, teus filhos, 
B - as mulheres de teus filhos. 
C - Todos os seres vivos,
D – toda a carne, 
E – criaturas que voam, (*)
F – animais, (*)
G –tudo o que se move sobre a terra.

A’ - Noé saiu com seus filhos, sua mulher e 
B’ - as mulheres de seus filhos;
C’ – todos os seres vivos,
D’ – 
F’ - todos os répteis, (*)
E’ – criaturas que voam, (*)
G’ – tudo o que se move sobre a terra.


Jones F. Mendonça

A EVOLUÇÃO DO ALFABETO, POR MATT BAKER


Por 25 dólares você pode comprar este belo pôster, que exibe a evolução do alfabeto, desde o proto-sinaítico - desenvolvido no Sinai a partir de hierógligos egípcios - até o alfabeto latino moderno. O hebraico (22 consoantes) nasceu a partir do fenício, alfabeto que aparece na segunda linha, de cima para baixo. A arte foi criada pelo design Matt Baker.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

DOMINUS LEGIFER, LUCIFER ORIATUR

Fonte da imagem: And the Rough Places Plain
Um dos meus passatempos prediletos é observar e tentar compreender obras de arte cristãs, tanto antigas como modernas. Este mural, pintado na Abadia de São Bento por Gregory de Wit (Louisiana, 1946), chamou minha atenção pela inscrição que aparece na trave superior da porta. Juro que li: “LUCIFER NOSTER” (“Nosso Lúcifer”, ou, mais precisamente “nosso astro de luz”).

Com mais atenção percebi que se trata de um trecho de Isaías 33,22 grafado em latim: “dominus... iudex noster, dominus LEGIFER NOSTER... (nosso legislador)”. Mas não se engane: a palavra latina “lucifer” não é o nome de Satanás, como dizem. Ela inclusive aparece em 2 Pe 1,19 expressando a esperança na manifestação da “luz definitiva” capaz de iluminar para sempre o coração dos cristãos: “et lucifer oriatur in cordibus vestris”, ou seja, “e a luz (lúcifer) brote em vossos corações”.


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

CLÁSSICOS UNIVERSAIS EM QUADRINHOS

Pesquisando trabalhos artísticos de qualidade que ilustram antigos mitos mesopotâmicos, encontrei esta preciosidade: “Cânone gráfico: clássicos da literatura universal em quadrinhos” (Boitempo, 2014, 454 p.). Descobri o trabalho por acaso, enquanto buscava imagens que pudessem ser usadas em minhas próximas aulas sobre o Pentateuco.  

O volume 1 expõe em quadrinhos algumas obras literárias que vão desde o segundo milênio a.C. até o final do século XVIII. Na capa do volume 1 você vê Gilgamesh - herói mitológico do mais antigo poema épico do mundo -  lutando contra o touro celeste, criatura enviada pela deusa Ishtar, irritadíssima com o desprezo do herói. Custa R$ 88,50 na Submarino.com.


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

OS VINGADORES E O GÊNESIS

Fonte: Asor
Você certamente conhece quatro dos heróis mostrados na capa desta HQ publicada em 1989: Thor, Sr. Fantástico, Capitão América e Mulher Invisível. O quinto herói, com cabeça de touro e hoje esquecido, é ninguém menos que Gilgamesh, personagem inspirado na mitologia mesopotâmica (~2000 a.C.).

De acordo com o conto, Gilgamesh venceu dois monstros (Humbaba e o Touro Celeste) com a ajuda de seu inseparável amigo Enkidu. Abalado após a morte de Enkidu, Gilgamesh saiu em busca da VIDA ETERNA, que seria obtida pela ingestão de uma PLANTA, cuja localização lhe havia sido confiada por Utnapishtim, um sobrevivente do DILÚVIO. Mas uma SERPENTE, vejam só, impediu que o herói alcançasse a imortalidade.


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

BATISMO E NUDEZ



A cidade de Ravena, Itália, preserva dois batistérios muito antigos, do século V, utilizados por comunidades cristãs teologicamente divergentes: “ortodoxos” e arianos. Em ambos ainda é possível observar dois curiosos mosaicos representando o batismo de Jesus. Neste da imagem (ariano), é possível ver Jesus com características andróginas, nu, ao centro, tendo à direita João Batista e à esquerda uma representação antropomórfica do Jordão. O mosaico concorda com os relatos de Hipólito, importante teólogo do século III, que registrou em sua “Tradição apostólica” o estranho costume cristão de batizar os candidatos completamente nus.


Jones F. Mendonça

NOÉ SEM CENSURA



Gn 9,20-29 diz que Nóe, muito bêbado após se exceder no vinho, deitou-se nu em sua tenda. Cam viu a nudez de seu pai e saiu para contar aos seus irmãos. Sem e Jafé evitaram ver a nudez de Noé e o cobriram com uma capa. A cena foi representada neste manuscrito do século XV (Furtmeyr-Bibel). Os artistas medievais não viram problema em expor Noé assim, do jeito que veio ao mundo.

Veja a página do manuscrito na qual foi pintada a cena aqui.


Jones F. Mendonça

sábado, 8 de dezembro de 2018

HISTÓRIA DO CRISTIANISMO COM ARTE

Um dos autores é católico, o outro, protestante. Desse diálogo nasceu um livro honesto, bem escrito, leve, didático. Como se não bastasse ainda é ricamente ilustrado. A capa exibe o Belíssimo “Ecce homo”, pintado por Antonio Ciseri (1871). O julgamento, numa perspectiva inovadora (de costas), mostra Pilatos ao centro, tendo Jesus à sua esquerda. A esposa de Pilatos, citada em Mt 27,19, aparece lamentando a condenação do Nazareno com a mão sobre o ombro de uma serva. A tradição soube criar para ela um nome: Santa Cláudia.  





Jones F. Mendonça

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

A BÍBLIA, OS GÊMEOS E A LUTA PELA PRIMOGENITURA

Boa parte das pessoas conhece a história da luta entre os gêmeos Esaú e Jacó no ventre de Rebeca (Gn 25,24-26): Jacó (yakov), o "usurpador" (yakav) segura o "calcanhar" (akev) de Esaú, na tentativa de nascer primeiro. Já crescido, Esaú, o “avermelhado”, vende sua primogenitura por um punhado de "cozido vermelho". Mas há outra história, muito parecida.

Mais adiante, em Gn 38, 27-30, outros gêmeos lutam pelo privilégio da primogenitura: Peretz e Zarah, filhos da relação incestuosa entre Tamar e Judá. De acordo com o texto, Zarah põe a mão para fora, indicando que nasceria primeiro. Em seu braço é colocada uma fita vermelha. Mas Peretz abre uma “brecha” (paratz) e nasce na frente de seu irmão.

Nas duas histórias dois gêmeos lutam. Nas duas histórias aquele que é indicado pela cor vermelha perde a primogenitura. Nas duas histórias os trocadilhos são usados para explicar o nome de uma personagem.

A primeira história explica a proeminência de Israel (Jacó) sobre Edom (Esaú). A segunda a proeminência da família de Peretz - ancestral de Davi (Mt 1,3-6) - sobre os demais filhos de Judá. As duas narrativas - é fácil concluir - possuem caráter etiológico.



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

GÓTICO, BARROCO, ARTE MODERNA E GENTE CHATA


Mesmo que você não entenda nada de arte, certamente já ouviu falar de artistas renascentistas como Rafael, Michelangelo, Donatello e da Vinci. Inspirando-se na produção cultural da Antiguidade greco-romana, o Renascimento (séc. XIV ao XVI) valorizou a harmonia, o equilíbrio, a lógica, as proporções, a simetria, etc. Sim, as obras são lindas.

Em oposição ao estilo renascentista nasceu o Barroco (séc. XVII e XVIII), com seu apelo à emoção, à sensualidade, à instabilidade, ao contraste, à representação humanizada dos santos. O novo estilo foi visto pela elite intelectual europeia do século XVIII como uma degeneração do período anterior, sendo tratado como “ridículo”, “bizarro” e “extravagante” (as obras, na verdade, são arrebatadoras).

Essa percepção negativa ao novo também foi sentida – vejam só - em relação à arquitetura gótica, termo pejorativo criado como referência aos godos, povo germânico, “bárbaro”, responsável pela destruição do glorioso império Romano. A história se repete. A bola da vez é a “arte moderna”, tratada por Robert Florczak e Roger Scruton como “desastrosa”, “ridícula” e “decadente”.

Sabe o que eu acho? São uns chatos.

Imagens: A dúvida de Tomé, Caravaggio (Barroco); Igreja de São Tomé, Nova York (neogótico); O império das Luzes, René Magritte (arte moderna: surrealismo).



Jones F. Mendonça

domingo, 18 de novembro de 2018

SEGUNDA-FEIRA

Detalhe bem conhecido: no relato bíblico da criação (Gn 1,1-2,4a) Deus louva todos os dias com a frase “viu que era bom”. Mas sendo mais preciso, no segundo dia, que é segunda-feira, a expressão não aparece. Tá, você nunca notou? Então aqui vai a explicação.

Os teólogos medievais - tendo pouco o que fazer - perderam noites tentando desvendar o mistério e chegaram à seguinte conclusão: a “Antiga serpente”, o Satanás, o Zarapelho, teria sido criado no segundo dia, na segunda-feira. Daí que não seria adequado dizer “viu que era bom”.

Então quando você acordar na segunda-feira com um areia nos olhos, sucumbido, descorçoado, amorrinhado, lembre-se: este abatimento sobrenatural talvez venha mesmo dos infernos...



Jones F. Mendonça

terça-feira, 13 de novembro de 2018

A VITÓRIA SOBRE O HADES: MITO, ESCRITURA E ARTE



O retorno do mundo subterrâneo é um tema pré-cristão muito antigo. No Novo Testamento ele aparece, por exemplo, em 1Pe 3,18-20 e é repetido do Credo Apostólico, confissão de fé formulada nos primeiros séculos. A literatura (e o cinema) souberam trabalhar o tema da vitória sobre o Hades. 

Uma cena, em "O Senhor dos Anéis", retrata o mago cinza (Gandalf) descendo ao Hades lutando com um dragão. A luta não é fácil, mas Gandalf sai vitorioso e ressurge do abismo ainda mais forte. Agora ele é um mago branco. Os paralelos são diversos. 

Nesta tela, de Tintoretto, Cristo desce ao Hades para resgatar os espíritos em prisão. O Hades, antes imerso em trevas, agora aparece iluminado por sua presença. Repare que os corpos são expostos numa perspectiva enviesada, uma marca do trabalho de Tintoretto. O contraste entre luz e sombra do maneirismo de Tintoretto inspirou o tenebrismo, técnica aplicada com maestria por Caravaggio.



Jones F. Mendonça

SOBRE O FEMINISMO

As primeiras feministas lutaram pelo direito ao voto, pela igualdade no casamento, pelo direito de cursar uma universidade, pelo direito de adquirir bens e pelo fim da violência contra a mulher.

Mas Zé Bobinho faz duras críticas ao feminismo tendo em mente um grupo muito específico de feministas: o Femen, fundado na Ucrânia em 2008 e conhecido por organizar protestos com seios à mostra.

Há dois problemas em Zé Bobinho. O primeiro é julgar toda a árvore a partir de algumas poucas folhas: precisa estudar lógica. O segundo é um problema patológico com seios: precisa consultar um psiquiatra.

Minha gente, seios não matam!



Jones F. Mendonça

CARAVAGGIO E O BEIJO DE JUDAS


Nesta tela (O beijo de Judas, 1602), produzida por Caravaggio, as mãos desempenham um papel importante. Um homem, no canto esquerdo, levanta as mãos; Judas agarra o ombro de Jesus com a mão esquerda, tentando beijá-lo; um soldado parece segurar os dois; as mãos de Jesus estão entrelaçadas; no canto direito um expectador anônimo observa tudo com muita curiosidade segurando uma lanterna. Com exceção do observador anônimo, todos parecem se mover para a esquerda, disposição que dá força e movimento à imagem. Uma obra prima!


Jones F. Mendonça

sábado, 10 de novembro de 2018

VOCÊ CONHECE OS "CRISTÃOS ADAMITAS"?

Cada um, seja homem ou mulher, despe-se do lado de fora [da caverna], entrando com seus corpos inteiramente nus como no dia em que nasceram. E seus líderes e mestres sentam-se completamente nus, alguns em frente e alguns em volta, aqui e ali, sem qualquer ordem particular [...]. Eles consideram sua igreja como Paraíso, e eles próprios como Adão e Eva. (Panarion, seção IV).
Esta descrição, feita por Epifânio de Salamina (315-403), refere-se a um grupo de cristãos que encontrou um modo bem diferente de restaurar o estado paradisíaco, a inocência original do Éden. É importante destacar que a tal seita entrou na relação de heresias de Epifânio a partir do relado de pessoas que teriam conhecido os "adamitas". Por isso faz a ressalva: "E assim, já que muitos falaram da seita, considero que vale a pena mencionar".



Jones F. Mendonça

O BATISMO NA IGREJA PRIMITIVA

Hipólito de Roma, mais importante teólogo do século III, deixou registrado em sua “Tradição apostólica” diversas orientações acerca do batismo. No início do ritual algo bem estranho era feito: todos retiravam suas roupas, sendo que as mulheres, batizadas por último, ainda tinham que soltar os cabelos e remover todos os ornamentos. Bem, o que vem depois é o seguinte (quem fala é o próprio Hipólito):
Então o presbítero, tomando posse de cada um daqueles que serão batizados, ordenará que renuncie, dizendo: ‘Eu renuncio a ti, Satanás, e todos os teus servos e todas as tuas obras’. Então, depois destas coisas, deverá ser entregue ao presbítero que batiza, estando os candidatos em pé, na água, nus, acompanhados de um diácono, que deverá estar da mesma forma (Tradição apostólica, 21,11).
Hipólito nos conta que logo em seguida os candidatos eram convidados a confessar o Pai, o Filho e o Espírito Santo, para então se vestirem e seguirem para a igreja. Bem, eu fico pensado se a colocação das mulheres por último não era para impedir que os candidatos homens as vissem nuas. Ou será que a nudez, para eles, não era um problema como é para nós hoje?

Há quem pense (como Morton Smith) que o jovem coberto apenas por um lençol, em Mc 14,51-52, acabou tendo que fugir peladão porque participava de um ritual de batismo ministrado por Jesus no momento de sua prisão. Será?


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

O CÉU DE LUTERO

Lutero falando sobre o céu em suas "Preleções sobre o Gênesis":
Embora o céu seja mais mole e mais tênue do que a água, seja movimentado tão velozmente e contenha tanta variedade de corpos, nenhuma parte dele se deteriorou ou se debilitou em milhares de anos.
Tá parecendo o Malafaia, Mano Luther!



Jones F. Mendonça

DAS IDEOLOGIAS

O termo “ideologia” nasceu na França, após da Revolução Francesa. “Ideólogos”, naquele tempo, eram os pensadores críticos de toda a explicação da realidade que não levasse em conta as causas naturais (como os cientistas de hoje). Eram materialistas (e verdadeiramente liberais).

Opuseram-se à educação religiosa, na medida em que legitimava o poder absoluto dos reis (como se descesse dos céus). No desejo de desqualificar os adversários, Napoleão deu ao termo um sentido pejorativo. A razão é óbvia: os ideólogos perceberam que Napoleão queria restaurar o Antigo Regime e se opuseram a ele.

No geral, ideologia é definida como uma ideia usada para legitimar um poder (dominante ou não). Atualmente o termo está na boca do povo. É ideologia disso, ideologia daquilo, ideologia-de-não-sei-o-quê. Nesse mundo líquido, no trilho dos conceitos dissolvidos, ideologia pode ser qualquer coisa. Enfim, ideólogo é sempre o outro. Uma guerra com espadas de papel.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

INSULTOS REFORMADOS

Os textos produzidos na época da Reforma são um verdadeiro manual de insultos. Thomas Müntzer gostava de se dirigir a Lutero, seu inimigo mortal, como “mentiroso-mor”, "carne sem Deus|, “Dr. Mentiroso”, “Dr. Poltrona”, "vida mansa" e “sicofanta refestelado”(!). Jerônimo Aleandro, católico opositor de Lutero, tratava o reformador como "Doutor de Maomé". Na Alemanha Lutero era tratado como "lacaio dos príncipes". Eram criativos... e bocas sujas.


Jones F. Mendonça

OS REFORMADORES E AS MULHERES

Lutero, tudo mundo sabe, abandonou a vida celibatária e casou-se com Catarina von Bora em 1525. Ele mesmo confessou que fez isso não pelo desejo, mas para “agradar seu pai e aborrecer o Papa” [1]. Calvino, alguns anos depois, também decidiu arrumar uma esposa. Pediu ajuda a dois amigos. A recomendação foi a seguinte:
Não sou daqueles amantes loucos que, ao ficarem fascinados pelo belo corpo de uma mulher, aceitam também seus defeitos. Eis apenas um tipo de beleza que me seduz – que ela seja casta, prestimosa, econômica, paciente e que zele pela minha saúde[2].
Ambos se esforçaram para mostrar que não se casaram atraídos pelo desejo, pela carne nua, pelo sexo. Herdeiros da teologia dos primeiros padres, que ensinavam que “o casamento é o desejo da procriação e não a ejaculação desordenada do esperma que, aliás, é contrária tanto à lei quanto à razão”[3].

[1] LINDBERG, Carter. As reformas na Europa, 2001, p. 126. 
[2] DURANT, Will. A Reforma, p. 392. 
[3] Clemente de Alexandria, O Pedagogo, II, 10.


Jones F. Mendonça

PROVOCAÇÕES PROFÉTICAS

Os profetas da Bíblia usaram e abusaram da poesia. Tanto Isaías (47,2-3) como Naum (3,5) recorreram à imagem da mulher desnudada como metáfora para cidades humilhadas pela queda. Veja:

Ergue a cauda da tua veste, descobre as tuas pernas e atravessa os rios. Apareça a tua nudez. (Babilônia). Levantarei tua roupa até a face, mostrarei às nações a tua nudez..” (Assíria).

Ezequiel, ao criticar a idolatria de Judá, destaca que Jerusalém foi seduzida pelos egípcios, povo dotado de “membros grandes de jumentos e fluxo seminal de cavalos” (23,20). Os profetas não tinham papas na língua...



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

CRISTIANISMO E GULOSEIMAS

Uma das filosofias mais populares no tempo de Paulo era o epicurismo. O apóstolo chega a debater com um grupo de seguidores de Epicuro em Atenas (At 17,18). Os epicureus viam o prazer como o bem supremo, por isso foram duramente criticados pelos grandes pensadores da Igreja. Em seu zelo religioso, Clemente de Alexandria (150-215) chega a este exagero:
Não há limite para o epicurismo entre os homens. Pois isso os levou a doces, bolos de mel e ameixas, inventando uma infinidade de sobremesas, caçando todos os tipos de pratos [...]. ‘Não deseje’, diz a Escritura, ‘as delícias dos homens ricos’ (Pv 23,3) porque a eles pertence a uma vida falsa e básica (O Pedagogo, II, 1).
Menos, Clemente! Menos...


Jones F. Mendonça