sexta-feira, 9 de março de 2018

AINDA O SELO DE ISAÍAS

O epigrafista Christopher Rollston produziu três textos sobre o selo encontrado em Jerusalém (fev/2018) contendo a palavra “Isaías”. Embora didático, o conteúdo é bastante técnico (exige certo conhecimento de hebraico). Aos interessados: 
Rollston não publica imagens em seu Blog, então caso queira dar uma olhada em alguns artefatos que ele cita nos artigos, clique neste link:


Jones F. Mendonça

SACERDOTISAS NO ANTIGO ISRAEL

O Antigo Testamento apresenta algumas mulheres exercendo certo tipo de liderança no âmbito da família e da sociedade. A mãe de Mica governava seu lar (Jz 17); Abigail tomou a iniciativa para salvar sua casa (2Sm 25); Débora exerceu o papel de juíza e profetiza (Jz 5); Joabe encontrou uma mulher “sábia” (hakhamah) em Teqoa, hábil com as palavras (2Sm 14,2) e Jeremias (9,15) descreve uma “sábia” dotada de uma qualidade semelhante; Huldá, uma profetiza (2Rs 22,14), aparece sendo consultada por altos funcionários do Estado; O domínio exercido por Jezabel sobre seu marido, o rei Acab, é ressaltado com força no livro dos Reis (1Rs 21,15).

Mas não é estranho que o AT simplesmente não mencione mulheres exercendo o sacerdócio? Ada Taggar-Cohen investiga esta questão no The Torah (note que a autora tem “Cohen” = sacerdote, em seu nome). 


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

SELO COM O NOME "ISAÍAS" É DESCOBERTO EM JERUSALÉM

Eilat Mazar agitou o mundo acadêmico especializado em arqueologia de Israel após divulgar um selo descoberto em Jerusalém contendo a inscrição “LYesha'yah[u] NVY[?]” em hebraico.  A primeira palavra claramente indica um substantivo próprio: (pertencente a) Isaías, mesmo nome do profeta bíblico. O segundo nome, caso seja inserido na interrogação a letra álef, deve ser traduzido como “profeta” (navy’). Neste caso deveríamos ler: “Pertencente a Isaías, o profeta”. Mazar sugere que a letra foi apagada pelo desgaste. Será?

Utilizei consoantes do alfabeto quadrático

É possível que no selo original constassem apenas as letras atualmente existentes (sem o álef supostamente omitido). Uma tradução possível seria “Isaías [ben] Navy” (Isaías [filho] de Navy). Selos desse período geralmente indicam o nome do proprietário seguido do nome de seu pai. A palavra “ben” (filho) por vezes é omitida por falta de espaço (o que não parece ser o caso neste selo). Confuso?

Você pode buscar mais informações a respeito da descoberta em dois grandes jornais de Israel, o Haaretz e o The Times of Israel. Um artigo de Mazar foi publicado na Biblical Archaeology Review.  O epigrafista Christofer Rollston revela-se cético em relação à tradução “Isaías, o profeta”. Jim Davila faz alguns comentários interessantes sobre o selo no Paleojudaica. Boa leitura.




Jones F. Mendonça

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

RESSENTIMENTO E RESIGNAÇÃO EM GAME OF THRONES

O texto descreve bem a mecânica do ressentimento na dominação de Theon Greyjoy por Ramsay Snow, em Game of Thrones:
O oprimido, reprimido, autoproduz em si um envenenamento anímico como resposta à violência que sofre. Nasce assim o ressentimento como introjeção autorrepressiva da potência que, não podendo voltar-se contra o dominador, ao incubar-se envenena o dominado. O ressentimento do envenenado não pode ser vivido nem como vício, que é, nem como pura passividade resignada. Sublima-se como virtude de paciência, obediência, disciplina, fidelidade (DUSSEL, Enrique Domingo. Filosofia da libertação, 1997, p. 61).


Jones F. Mendonça

CHRISTUS VICTOR: ARTE E CRISTOLOGIA


Desde o século XI, tanto na arte visual como na literatura, a cruz geralmente aparece como símbolo de dor, de violência e de morte (Christus Patiens). Nesta representação, bastante atípica para o século XVI, Cristo aparece associado à cruz com uma expressão triunfante, pisando a cabeça de satanás (Maarten de Vos, 1585). A imagem ilustra a capa da obra "Christus Victor" (1931), do teólogo sueco Gustaf Aulén.

Detalhes sobre a arte no site do The British Museum:



Jones F. Mendonça

domingo, 11 de fevereiro de 2018

BELEZA, JUÍZO E RESSURREIÇÃO DA CARNE


Luca Signorelli, assim como outros artistas do Renascimento, procurou retratar os ressurretos no dia do juízo final com seus corpos magnificamente transformados. Acima, tocando trombetas, você vê dois anjos saradões anunciando o juízo. Abaixo, alguns ainda atordoados, os corpos nus dos ressurretos são exibidos como atletas em calendário beneficente.



Jones F. Mendonça

CRUCIFICADOS NA USINA


A imagem acima mostra três crucificados à frente da estação de energia de Didcot, Reino Unido. Em primeiro plano aparecem pessoas lamentando o destino trágico dos crucificados. Roger Wagner deu a esta tela o título de Menorah. Você saberia explicar a razão deste título?



Jones F. Mendonça

LA CROIX VIVANTE


Esta representação (Hans Fries, “La Croix Vivante”) tem caráter singular por reunir em um só quadro alguns dos principais fundamentos da fé cristã de seu tempo. Além da crucificação, ao centro, você vê na parte inferior Cristo no Hades derrotando as forças do mal e libertando os "espíritos em prisão": limbo infantil e limbo dos patriarcas. Um sacerdote celebra a eucaristia na lateral esquerda e a espada divina perfura o pescoço (da morte?) e fere mortalmente (a besta?) na lateral direita.



Jones F. Mendonça

AUTOMUTILAÇÃO E DEVOÇÃO

Hoje as automutilações são tratadas no consultório psiquiátrico. Certas incisões na carne produzidas no ambiente religioso do século XVII foram tratadas como elevada expressão de piedade. A declaração a seguir vem de Veronica Giuliani, santa canonizada em 1839:
Assim peguei um canivete e fiz uma cruz sobre a carne do lado do coração e com o mesmo sangue escrevi assim: "Meu querido Jesus [...] agora para sempre me declaro vossa esposa [...]. Oh! Cruz santa, fazei-me sentir o vosso peso a fim de que eu possa me amoldar com meu Deus crucificado" ("Il mio Calvario", p. 166-8).
O museu Santa Veronica Giuliani ainda preserva a pedra de 13 quilos com a qual a santa mortificava a sua língua.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

CORPO COMO VITRINE, CORPO COMO CÁRCERE


O corpo humano como obra de beleza e perfeição é invenção dos gregos. Uma escultura clássica que revela a busca pela beleza ideal: O Hermes com o jovem Dionísio, de Praxíteles (séc. IV a.C.). A nudez não traz vergonha, desconforto.

Artistas renascentistas, tomando os gregos como modelo, passaram de novo a retratar a forma humana como a encarnação de algo superior. Um exemplo: O Davi de Michelangelo (1501-1504). O pequeno rei ruivo, como Hermes, não parece desconfortável com sua nudez.

Influenciado por ideias platônicas o cristianismo rejeitou a percepção otimista que se tinha do corpo. Repare nesta gravura (imagem acima) exposta na porta da catedral de Hildeshein, Alemanha: Deus aponta para Adão; Adão aponta para Eva; Eva aponta para a serpente. Homem e mulher procuram esconder sua nudez.

Os gregos percebiam o corpo como expressão da beleza. A tradição judaico-cristã via na pele nua expressão do pecado.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

COSTELA TORTA, VIDA TORTA

De acordo com o Malleus Maleficarum (Parte I, questão 6), um manual de exorcismo do final da Idade Média, a mulher está mais inclinada ao mal porque foi feita a partir de uma costela torta de Adão.  Uma tradição muçulmana diz que a mulher foi feita da costela que cobre o coração e assim  explicam sua inclinação sentimental. Tudo isso inventado por homens, claro...

A costelinha torta de Adão aparece nesta gravura de Meister Bertran (século XIV). 























Jones F. Mendonça

sábado, 30 de dezembro de 2017

JACÓ E ISRAEL: DOIS NOMES, DUAS TRADIÇÕES

Quem lê com atenção o livro de Gênesis percebe que a mudança do nome de Jacó para Israel ocorre duas vezes no livro: 32,28-29 (Jacó luta com um anjo) e 35,9-10 (Jacó chega a Betel). Veja: 
1. Ele lhe perguntou: “Qual é o teu nome?” – “Jacó”, respondeu ele. Ele retomou: “Não te chamarás mais JACÓ, mas ISRAEL, porque foste forte contra Deus e contra os homens, e tu prevaleceste”.
2. Deus apareceu ainda a Jacó, vindo de Padã-Aram, e o abençoou. Deus lhe disse: “Teu nome é JACÓ, mas não te chamarás mais Jacó: teu nome será ISRAEL”. Tanto que é chamado de Israel.
Outro fato curioso é que mesmo após ter seu nome mudado (cap. 32 e 35), Jacó continua sendo chamado pelo antigo nome nos capítulos posteriores (história de José: 37-50). Um exemplo: 
“JACÓ rasgou suas vestes, cingiu os seus rins com um pano de saco e fez luto por seu filho durante muito tempo” (37,34).
Confuso? Então leia este artigo do Dr. Tzemah Yoreh, publicado no The Torah.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

SIMÃO: DE “MAGO ARREPENDIDO” A “PAI DE TODAS AS HERESIAS”


Embora o livro de Atos apresente Simão, o mago, arrependido após tentar comprar com dinheiro um dom divino (At 8,9ss.), a tradição popular ampliou a narrativa e converteu Simão numa espécie de “pai de todas as heresias” (até do gnosticismo!).

Nos “Atos de Pedro”, um apócrifo do século III, Simão é dotado do poder da levitação, mas é derrubado pelas orações piedosas de Pedro. De acordo com a tradição, as marcas dos joelhos de Pedro em oração ainda podem ser vistas numa laje de mármore na Igreja Francesca Romana, na capital italiana.

Na Catedral de São Lázaro, Autun, França, foi esculpida esta representação (séc. XII), mostrando Pedro (com as chaves da Igreja) orando diante da queda de Simão (foto acima). Outra representação da cena, bem bonita e colorida, pode ser vista numa pintura do século XVIII, exposta na igreja de San Paolo Maggiore, em Nápoles, Itália, obra do artista local Francesco Solimena.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

CARVALHOS E TEREBINTOS

Foto:  Shmuel Browns

A imagem acima mostra um terebindo verdejante em contraste com o solo seco do deserto do Neguev, região semiárida que ocupa cerca de 60% da terra de Israel. O terebinto, ao lado do carvalho, era buscado como local para sacrifícios: 

Meu povo consulta o seu pedaço de madeira...
Eles se prostituem...
Debaixo do terebinto...
Pois a sua sombra é boa. (Os 4,12-13).

Muitas fotos de Israel em alta resolução, aqui.


Jones F. Mendonça

POSSESSÃO, INTESTINOS E ORIFÍCIOS


A imagem da esquerda retrata Catarina de Siena exorcizando uma mulher possuída numa tela de Girolamo Di Benvenuto (~1500). Repare que o capiroto sai pelo ouvido esquerdo, reflexo da crença medieval nos orifícios como canal de entrada e saída dos demônios.

A imagem da direita (Capela de Notre Dame des Fontaines, séc. XV) mostra a alma de Judas sendo removida do seu intestino. Era também no intestino que se instalavam os demônios. Por alguma razão curiosa, o demônio e a alma ocultavam sua morada no terreno mais desprezível do corpo.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

A ESTRELA DE BELÉM E O MAGO TUPINANBÁ


O relato da visita dos magos, inserido no início do primeiro evangelho (Mt 2), pretende destacar o caráter messiânico (e universalista) de Jesus. São nítidos os paralelos entre a postura dos “magos do Oriente” e a do “Mago Balaão” em Nm 23.

Balaão, como os magos de Mateus, reconhece o futuro de Israel como “reino exaltado” (Nm 24,7) do qual “procederá uma estrela” que “destruirá os filhos do orgulho” (Nm 24,17). O Herodes de Mateus, que não é bobo, entendeu o recado.

No início do século XVI, no embalo do êxito das conquistas no além-mar, a arte cristã portuguesa viu no relato da visita dos magos um oportuno instrumento de cristianização do imaginário indígena.

Nesta tela de Vasco Fernandes (1501-6), um dos magos (Baltazar), outrora representado como negro, aparece na figura de um ameríndio tupinambá!



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

SUBTERRÂNEOS TENEBROSOS


Para responder à pergunta: “para onde foram os justos do Antigo Testamento?”, os teólogos católicos desenvolveram a ideia do limbo, lugar provisório para onde teriam ido, por exemplo, os patriarcas .  

Nesta tela, de Andrea Mantegna (1470-75), Cristo é retratado resgatando alguns indivíduos do limbo. No canto esquerdo, próximo à abertura da caverna, aparecem Adão e Eva. A crença no limbo dos patriarcas (limbus patrum) é um dogma entre os católicos. O limbo infantil (limbus puerorum), por outro lado, vigorou por muito tempo como hipótese teológica até que foi definitivamente rejeitado em 2007 no pontificado de Bento XVI.

Pessoalmente considero as imagens retratando a ida de Cristo ao mundo subterrâneo como as mais poderosas sob a perspectiva psicológica. Um exemplar particularmente interessante e belo é “A descida ao inferno” (1568), produzida por Tintoretto. Neste trabalho, cuja cena é apresentada numa perspectiva enviesada, Cristo ilumina o Hades, antes completamente tomado pelas trevas.


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O MAR MORTO NO HAARETZ

O Haaretz (jornal de Israel) publicou nova matéria sobre o Mar Morto com fotos aéreas de tirar o fôlego.



Leia mais aqui.



Jones F. Mendonça

EXORCISMO COM CALÇA EXÓTICA (OU ERÓTICA?)


O exorcismo de uma mulher numa gravura do início do século XVI (autoria desconhecida). Como nas representações medievais, os diabinhos saem pela boca. Uma tira parece tentar impedir que a cabeça da mulher se projete para trás. Ah, o sujeito que sustenta o corpo da mulher possuída veste uma calça muito da escandalosa...



Jones F. Mendonça

ANTIJUDAÍSMO, CRISTIANISMO E ISLÃ

1. A maior parte da comunidade judaica medieval - entre 800 e 1100 d.C. - vivia em território controlado pelos muçulmanos. Não eram vítimas regulares de violência religiosa ou exploração por parte da liderança islâmica. A narrativa que põe judeus e muçulmanos como inimigos históricos (“desde Ismael”) é mito, conversa fiada.

2. A população judaica em território cristão só começou a crescer a partir das conquistas cristãs dos territórios muçulmanos. Os judeus integrados aos territórios cristãos – habilidosos na atividade comercial e nos negócios – eram respeitados por uma razão muito simples: ajudavam a manter a economia aquecida.

3. De forma lenta e gradual um grupo de judeus foi se estabelecendo no norte da Europa (chamados de Askenazis). Embora apoiados pelas lideranças políticas cristãs, logo surgiram sentimentos antijudaicos. A razão: os cristãos, menos acostumados e viver num ambiente de diversidade religiosa, viam os judeus como um povo estranho.

4. A proibição da igreja aos empréstimos a juros feitos por cristãos a outros cristãos (considerado “pecado de usura”) abriu uma nova oportunidade aos judeus, acostumados a viver da atividade do comércio e dos negócios. O sucesso dos judeus nessa atividade favoreceu o desenvolvimento do ódio e do preconceito contra o povo do livro.

5. Na medida que a economia amadurecia, a contribuição judaica se tornava menos necessária e os governantes começaram a pesar os benefícios que poderiam obter com a expulsão dos judeus, medida que proporcionaria recursos econômicos através do confisco de propriedades judaicas, aprovação eclesiástica e aprovação popular.

6. Embora a crítica iluminista ao cristianismo medieval tenha se concentrado (com certo exagero) no maltrato dos judeus pelas Cruzadas e pela Inquisição, a violência e a perseguição aos judeus se deu por razões econômicas, alimentadas por razões religiosas (vistos como responsáveis pela crucificação de Cristo).

* Resumo em seis pontos de texto publicado no The Public Medievalist e escrito por Robert Chazan, professor de estudos hebraicos e judaicos na Universidade de Nova York. O texto faz parte da série: “Raça, racismo e Idade Média”.



Jones F. Mendonça

DOS DELÍRIOS NOTURNOS

O lamento de Jó, aqui, lembra a dor de um trabalhador assalariado que passa horas no transporte coletivo e é explorado por seus patrões: 
Jó 7,1 Não está o homem condenado a trabalhos forçados aqui na terra?
Não são seus dias os de um mercenário?
 Jó 7,2 Como o escravo suspira pela sombra,
como o mercenário espera o salário,
 Jó 7,3 assim tive por herança meses de decepção,
e couberam-me noites de pesar.
 Jó 7,4 Quando me deito, penso: “Quando virá o dia?”
Ao me levantar: “Quando chegará a noite?”
E pensamentos loucos invadem-me até ao crepúsculo.



Jones F. Mendonça

DAS ALMAS DESPEDAÇADAS


Há dois detalhes curiosos nesta tela representando o juízo final, de Hans Memling, de 1471.

Note que no canto superior esquerdo aparece um homem negro entre os ressuscitados (fenômeno raro na representação artística da época).

No centro da tela o corpo de um homem que acaba de ressuscitar é disputado entre um anjo e um demônio com asas de borboleta. Do jeito que puxa o cabelo do pobre infeliz, o capiroto parece bem decidido.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

AS ORIGENS DO MONOTEÍSMO ISRAELITA

Em seu livro “The Origins of Biblical Monotheism: Israel's Polytheistic” (Oxford / New York: Oxford University Press, 2001), indisponível em português, Mark S. Smith procura demonstrar como o politeísmo foi uma característica da religião israelita até o fim da Idade do Ferro e como surgiu o monoteísmo nos séculos VII e VI.

De acordo com Mark Smith, declarações monoteístas claras somente podem ser notadas a partir do século VII, em textos como Dt 4,35.39; 1Sm 2,2; 2Sm 7,22; 2Rs 19,15.19 (= Is 37,16, 20); Jr 16,19-20 e a porção do século VI de Is 43,10-11, 44,6-88; 45,5-7; 14,18.21 e 46,9. A pergunta que ele se propõe a responder é: por que o século VII?

Smith inicia sua argumentação a partir da análise de textos religiosos uragíticos (religião cananeia), cujo politeísmo estava estruturado em quatro níveis: 1) El/Asherah (o deus principal e sua esposa); 2) Setenta filhos divinos (Baal, Astarte, Anate, etc.); 3) Kothar wa-Hasis (o ajudante principal); e 4) Os servos da casa divina (que a Bíblia trata como mensageiros).

De acordo com sua análise, inicialmente Javé teria sido visto pelos israelitas como um dos setenta filhos de El, cada qual cumprindo o papel de divindade patronal de setenta nações. Tal crença, destaca Smith, foi preservada nos manuscritos hebraicos mais antigos de Dt 32,8-9 (Qumran). Nesta passagem, El é apresentado como chefe da família divina, e cada membro dessa família (os bney Elyim) recebe uma nação sob sua tutela. Nessa partilha Israel é considerado “porção de Javé” (32,9). Outro exemplo citado pelo autor é o Sl 82.

Em algum momento do período monárquico tardio Javé passou a ser identificado com El e, por conseguinte, como marido de Asherah. Esta visão religiosa aparece, por exemplo, no Salmo 29,1-2, texto que convida os “filhos de Deus” (bney Elyim) a adorarem a Javé, o Rei Divino. Os outros deuses/mensageiros tornaram-se simples expressões do poder de Javé. Em outras palavras, o deus principal tornou-se a divindade única. Mas por que neste momento? 

Smith indica dois conjuntos de mudanças. O primeiro estaria ligado a uma série de transformações na estrutura social das famílias. A “família extensa” como principal unidade social deu lugar a um “sistema de linhagem menor”. A noção de responsabilidade também teria mudado de “coletiva” (Acã em Js 8) para “individual” (Dt 26,16; Jr 31, 29-30; Ez 18). Ele conclui: “O surgimento do indivíduo como uma unidade social ao lado da unidade familiar tradicional proporcionou inteligibilidade ao surgimento de um deus único e não de uma família divina”. 

O segundo grande conjunto de condições estaria relacionado ao surgimento de dois grandes impérios: o neoassírio e o neobabilônico. A partir da queda se Samaria em 722 a.C. e de Jerusalém em 586 a.C., a ideia de do “deus patrono” não poderia mais se sustentar, exceto se se admitisse que Javé não era um deus tão poderosos como vinha sendo anunciado. O monoteísmo resolveu esse problema argumentando que, apesar da fraqueza do povo, seu deus não era fraco, mas Senhor de tudo.

Os monoteístas de Israel agora raciocinavam que Javé estava no topo do poder divino, e, correspondentemente, os deuses da Mesopotâmia não eram nada. O exílio passou a ser visto como o plano de javé para punir e purificar a única nação que o Senhor havia escolhido. Por conseguinte, passou a ser difundida a ideia de um “ungido de Javé” não judeu (Ciro, o persa, cf. Is 44,28, 45,1), como tradicionalmente era pensado na literatura bíblica mais antiga (ver Sl 2). 

*Resumo feito a partir de artigo publicado em inglês no The Bible and Interpretation.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 7 de novembro de 2017

PIEDADE E POLÍTICA

As 95 teses nascem da piedade, da indignação do monge rebelde. O termo "protestante" nasce da política, do protesto dos príncipes contra a Dieta de Espira, 12 anos após a publicação das teses. Sem a política Lutero teria terminado como Jan Hus: na fogueira.


Jones F. Mendonça


PAIXÃO, POLÍTICA E REFORMA

A dobradinha "piedade" (95 teses, 1517) e "política" (protesto dos príncipes, 1529) funcionou muito bem nas terras de Lutero. Na Inglaterra de Henrique VIII os termos foram outros.

Henrique VIII amava Ana Bolena, mas já era casado. Roma se negava a aprovar tal tropeço. Ao mesmo tempo Henrique estava de olho nas terras da Igreja. Alguém dirá: isso não vai acabar bem.

Eis como resolveu essa pendenga: 1) Criou sua própria igreja, a igreja Anglicana; 2) Essa igreja, liderada por ele mesmo, aprovou seu casamento com Ana; 3) De quebra confiscou as terras da Igreja no território sob seu domínio.

Malandro esse Henrique...



Jones F. Mendonça

PODERES CELESTES, PODERES TERRESTRES

Neste artigo, publicado no Jewish Link, Mitchel First discute a respeito do que ele chama de “o parágrafo perdido do livro de Samuel”.

Nos textos hebraicos mais recentes (massoréticos, século X e XI d.C.), o início de 1Sm 11 aparece de uma maneira; nos manuscritos mais antigos (Manuscritos do Mar Morto, séc. III a.C. a I d.C.) o texto aparece de outra forma.

Outra famosa diferença entre o texto massorético e os Manuscritos do Mar Morto (MMM) aparece em Dt 32,8. No texto massorético Javé fixa as fronteiras para os povos segundo “os filhos de Israel”. Nos MMM elas são fixadas segundo “os filhos de Elohim” (“filhos dos deuses”).

A crença na existência de poderes celestes associados a nações reaparece em Dn 10,13: 
Tenho de voltar para combater o Príncipe da Pérsia: quando eu tiver partido, deverá vir o Príncipe de Javã (=Grécia).


Jones F. Mendonça

terça-feira, 10 de outubro de 2017

ARTE E POLÍTICA

Por alguma razão a arte moderna tem sido associada ao comunismo. Curioso isso. Eis que lendo “O abuso da beleza” (Martins Fontes, 2015), do crítico de arte Arthur Danto, deparo-me por acaso a resposta que eu não esperava encontrar no livro:
Naqueles anos [da Guerra Fria] a arte moderna foi repudiada como algo subversivo, destrutivo e essencialmente antiamericano por personagens como o congressista George A. Dondero, de Michigan, que escreveu: "a arte moderna é comunista porque é distorcida e feia, porque não glorifica nosso belo país, nossa gente alegre e sorridente e nosso progresso material. [...] aqueles que a criam ou promovem são nossos inimigos" (p. 28).
Tudo aquilo que não é tradicional, pensava o congressista, é uma espécie de propaganda comunista disfarçada. Danto finaliza: “este é apenas um caso, como veremos, da politização da beleza”.



Jones F. Mendonça

REFORMA, GRAÇA E PROSPERIDADE

Muita gente evoca a teologia dos reformadores para criticar a teologia da prosperidade. Mas não foram justamente os calvinistas a defenderem a riqueza e a prosperidade econômica como sinal da graça divina? Na Europa o calvinismo foi o cavalo da burguesia.



Jones F. Mendonça

ARTE, PROPAGANDA E CONTRARREFORMA


Caravaggio gostava de retratar os santos como pessoas comuns, do povo: vestes rotas (ou até rasgadas), descalços, expressões faciais rudes, sem auréola, analfabetos (como o Mateus censurado, à esquerda). Repare que o anjo (afeminado) parece dizer “tá escrevendo errado, Mateus”. A tela da direita é o resultado de uma revisão feita após a exigência da igreja.

A influência teria vindo de seu protetor, o cardeal Frederico Barromeo (interesse pela “dimensão documental” das verdades cristãs), e dos místicos oratorianos (“função didática” da arte). As telas de Caravaggio devem ser vistas dentro do espírito de evangelização das classes populares empreendidos por setores da contrarreforma.

Leia mais sobre a função documentária da arte sacra do século XVII na seguinte obra:



Jones F. Mendonça