segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

AS CHAMAS DA HANUKKAH JUDAICA E O ZOROASTRISMO PERSA

Publicado no Guemara.com, o artigo “The Development of theChanukah Oil Miracle in Context of Zoroastrian Fire Veneration” examina a influência do zoroastrismo persa na tradição judaica do Hanukkah (Dr Chai Secunda, via TheGuemara.com). Seguem dois trechos: 
“é possível que a veneração zoroástrica do fogo tenha criado um clima geral de respeito pela santidade das chamas. Talvez isso tenha encorajado algumas das tendências do Bavli [Talmud Babilônico] em relação à santidade das luzes da Hanukkah, que se aproximam da veneração das velas ardentes”.
[...]

“uma história milagrosa sobre o fogo no Templo pode ter repercutido particularmente bem entre os judeus da Babilônia, que viviam em um mundo de templos de fogo e veneração ao fogo”.

Jones F. Mendonça

domingo, 15 de janeiro de 2017

JESUS PANTOCRATOR NA ARTE MEDIEVAL


A imagem acima mostra um Jesus pantocrator (Ap 1) num manuscrito do século XIII ou XIV: “cabelos brancos como a neve, olhos como chama de fogo, pés com aspecto de bronze, espada saindo da boca, sete estrelas na mão direita junto a sete candelabros de ouro”. O homem deitado é João. Um anjo aparece à direita (Commentaire sur l'Apocalypse, folha 4v.).

Imagens do manuscrito em alta resolução aqui:



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

ARTE CRISTÃ NO IRÃ DOS AIATOLÁS


O inferno (detalhe inferior) num afresco que decora a catedral Vank, na cidade de Isfahan, no coração do Irã. A catedral foi fundada em 1606 por cristãos armênios em busca de uma nova vida no país persa durante a guerra otomana (1603-18). Os iranianos-armênios têm dois assentos no Parlamento iraniano (Majlis).



Jones F. Mendonça

TRINDADE TRICÉFALA


Representação medieval da Trindade (trindade tricéfala). O sinal com a mão não é um "v" de vitória, mas um sinal de bênção. Esta representação da trindade foi proibida por Urbano VIII no século XVII.

Imagem: Trindade Tricéfala, detalhe da letra capittular "C" de um cantoral italiano, séc. XV, The Morgan Library & Museum, Nova Iorque. 



Jones F. Mendonça

MIGUEL E MARGARIDA CONTRA O CAOS


Ao lado da imagem de Miguel lutando contra o Dragão (Ap 12,7), a iconografia medieval desenvolveu esta representação, mostrando Santa Margarida de Antioquia golpeando um demônio com um martelo. Bizarro, não?

A imagem é um detalhe da tela: “Casamento Místico de Santa Catarina”, Barna da Siena, 1340.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

SOB A IRA DE QUEMÓS

A estela moabita [ou estela de Mesha), datada para 830 a.C., registra a conquista de Moabe por Omri, rei de Israel (1Rs 16,23). A estela justifica a derrota de Moabe para Israel (ver 2Rs 3,4-27) com o seguinte argumento: 
No que toca a Omri, Rei de Israel [Setentrional], este humilhou Moabe durante muito tempo, porque Quemós estava irritado com sua terra.
Para saber mais sobre Quemós, principal divindade adorada pelos moabitas (Salomão construiu um altar para Quemós, em 1Rs 11,7), leia este artigo publicado no ASOR Blog.



Jones F. Mendonça

DISPUTAS NO MOVIMENTO DE JESUS

Fiz um pequeno resumo do mais recente artigo publicado no The Bible and Interpretation, por Robert Crotty: 
Dentre as diversas formas do movimento de Jesus, o cristianismo romano foi o que mais se expandiu. Ele eliminou outras formas do movimento de Jesus e dispensou um esforço especial, mais enérgico, para controlar o cristianismo gnóstico.  O interesse de Constantino estava no primeiro e não queria a dissidência cristã dentro do cristianismo romano ou fora dele.
O cristianismo ocidental, o cristianismo oriental, o cristianismo reformista, o cristianismo não-conformista, o cristão pentecostal são todos cristãos romanos. Eles são mais parecidos do que diferentes. Todos eles seguem o modelo cristão romano.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

A ARQUEOLOGIA E O DEBATE SOBRE O REINO DE JUDÁ

Os dois portões de Qeiyafa. 
Alguns estudiosos (rotulados como minimalistas), como Philip Davies, visualizam Judá no período davídico como uma sociedade agrária simples, pouco habitada, sem cidades fortes, nenhuma administração e ainda sem domínio da escrita. Yosef Garfinkel (classificado como maximalista) argumenta que Davi e Salomão governaram um estado judaico bem urbanizado e bem organizado no século X a.C. Quem tem razão?

A descoberta de uma segunda porta na cidade de Khirbet Qeiyafa (a Sha'arayim bíblica?, cf. Js 15,36; 1Sm 17,51; 1Cr 4,31), 20 kilômetros a sudeste de Jerusalém, tem colocado muita pimenta neste debate. Garfinkel e Saar Ganor, arqueólogos que trabalham nas escavações de Qeiyafa, acreditam que há evidências suficientes para demonstrar que o Reino de Judá era maior e mais avançado do que alguns estudiosos acreditariam.


Quer saber mais? Leia um resumo da matéria publicada na BAR de jan/2016:


Jones F. Mendonça


quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

NOVO ARTIGO SOBRE OS FILISTEUS NO ASOR

O site da ASOR publicou novo artigo sobre os filisteus, por Jeffrey P. Emanuel. Segue trecho:
A transição da Idade do Bronze para o início da Idade do Ferro, após 1200 a.C., foi um período de grandes mudanças em torno do Mediterrâneo Oriental. Os palácios micênicos e o império hitita entraram em colapso, cidades importantes como Ugarit, um porto-chave na costa da Síria, foram destruídas, os povos migratórios estavam em movimento e o Egito começou seu declínio do Reino Unido unificado para o Terceiro Período Intermediário, quando foi governado por dinastias da Líbia e Núbia. Os filisteus, como os israelitas da narrativa bíblica, estavam entre os grupos em movimento, chegando a Canaã no final do segundo milênio a.C. e estabelecendo sua “pentápolis”, formada pelas cinco cidades importantes de Asdode, Asquelom, Gaza, Ecrom e Gath (Josué 13, 2-3).

Jones F. Mendonça

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

OS ISRAELITAS, O EGITO E OS SHASU DE EDOM

O The Bible and Interpretation disponibilizou gratuitamente trecho do livro: “A History of Biblical Israel: The Fate of the Tribes and Kingdoms from Merenptah to Bar Kochba (Equinox Publishing, 2016)”. No capítulo I (De Merneptah a Ramsés VI), ele diz o seguinte sobre a origem dos israelitas:
Os israelitas trazidos para o Egito como prisioneiros de Merenptah, em 1208 a.C. ou um pouco antes, entraram em contato com shasu de Edom [ver: Papiro Anastasi VI, ANET 258] e assim conheceram o deus YHWH. Despojados após o fracasso do golpe de Beya (ou Bay, vizir egípcio de origem asiática), os sobreviventes se estabeleceram no norte da Faixa Central, onde o controle egípcio estava em declínio (1150-1130 a.C.). Lá, eles articularam a lembrança de sua salvação como registrada em Êxodo 18,1: YHWH tinha tirado Israel do Egito.
Por Ernst Axel Knauf e Philippe Guillaume, ambos professores de Antigo Testamento na Universidade de Berna.

Disponível aqui.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

JERUSALÉM NO PERÍODO DO MACABEUS


O período que se seguiu à Revolta dos Macabeus (168-164 a.C.) deu impulso a uma notável expansão da cidade de Jerusalém e do Monte do Templo. Caso você tenha interesse na Jerusalém deste período, não deixe de ler o artigo “Jerusalem after the Maccabean Revolt”, escrita pelo professor Lawren H. Schiffman e publicada na Ami Magazine (texto em PDF, download gratuito).



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

MACABEUS: CONSERVADORES x HELENISTAS

Em artigo publicado hoje no Haaretz de Israel (edição premium, só para assinantes ou cadastrados), Shemi Chalev explica o conflito entre judeus rurais conservadores e judeus helenistas urbanos que desencadeou a revolta dos macabeus. Segue trecho: 
A revolta [dos macabeus] não começou na batalha contra os selêucidas, mas como uma insurgência interna, realizada por judeus rurais conservadores e tradicionalistas do campo contra helenistas judeus urbanos em Jerusalém e outras cidades, que procuravam chegar a um acordo com os selêucidas. Eles queriam incorporar conceitos helênicos de estética e ciência no judaísmo tradicional para que pudesse lidar melhor com o mundo moderno.

Jones F. Mendonça

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

50 FIGURAS BÍBLICAS CITADAS EM ARTEFATOS ARQUEOLÓGICOS

A Biblical Archaeology Review disponibilizou gratuitamente matéria publicada em 2014 citando 50 personalidades bíblicas mencionadas em inscrições antigas. O artigo menciona o período, a região em que viveu, o texto bíblico e o artefato arqueológico que cita a personalidade bíblica.

Do Egito aparece Shishak (=Shoshenq I), faraó egípcio que governou entre 945-924, citado em 1Rs 11,40; 14,25. O registro de sua campanha militar na Palestina aparece no templo de Amon em Karnak.

Do reino do Norte de Israel o texto cita Omri, que governou em Samaria de 884-873, citado em 1Rs 16,16. Seu nome aparece em inscrições assírias e na Estela moabita.

De Judá, citado em três inscrições, surge Davi, mais famoso rei israelita (1010-970). Seu nome aparece na estela de Tel Dan, na estela moabita e numa inscrição egípcia que menciona uma região do Neguev conhecida como “as alturas de Davi”.

O artigo também cita personalidades assírias, babilônicas, persas, moabitas e arameias.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

O IRÃ E O SEXO

No Irã as relações homossexuais são passíveis de castigo físico ou execução. De acordo com levantamento feito por grupos gays, 120 pessoas foram executadas desde 1979 sob pretextos variados.

Curioso é que esse mesmo Irã é o segundo país do mundo com maior número de cirurgias de mudança de sexo. A explicação: transexuais são vistos como heterossexuais vítimas de uma doença curável pela cirurgia.

Quem consegue provar às autoridades ter nascido no “corpo errado”, mediante certificado médico e psicológico, ganha permissão para trocar de sexo. A prática começou em 1984, quando o Aiatolá Khomeini emitiu decreto tornando o procedimento lícito.

Ao ser questionado por um estudante em 2007 sobre o fato de a homossexualidade ser passível de pena de morte pela lei iraniana, Ahmadinejad respondeu: “No Irã não temos homossexuais. [...] Não sei quem lhe contou que temos” (a fala de Ahmadinejad e uma abordagem mais ampla do assunto pode ser lida em "Os iranianos, de Samy Adghirni).



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

AS MIL FACES DE MELQUISEDEQUE

Melquisedeque (="meu rei é justo" ou "Deus da justiça" ou "meu rei é Tzedeq") é uma das figuras mais enigmáticas da Bíblia. Não é preciso ser especialista para perceber que a narrativa foi inserida entre os versos 17 e 21 de Gênesis 14 (Abraão e o rei de Sodoma). Note que o verso 17: “o rei de Sodoma saiu-lhe ao encontro...”, continua no verso 21: “E o rei de Sodoma disse a Abraão...”.

Neste artigo, publicado no The Torah e escrito pelo Rabi Joshua Garroway, a figura de Melquisedeque é investigada na perspectiva da crítica literária, nos Salmos, no cristianismo primitivo (Hebreus), no judaísmo rabínico (Talmude) e em Qumran.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O IRÃ PARA ALÉM DOS AIATOLÁS


Combatentes do grupo guerrilheiro iraniano Mujahedin-e Khalq (MKO) com seus tradicionais hijabs vermelhos. Atualmente liderado por uma mulher e bem pouco conhecido no Ocidente, o grupo luta pela derrubada do governo teocrático no Irã e tem sido acusado de ajudar Israel no assassinato de cientistas envolvidos no programa nuclear iraniano. São vistos como traidores pelos iranianos por terem lutado ao lado de Saddan Russein na guerra contra o Iraque na década de 80. 

Jones F. Mendonça

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

HOMEM É SANGUE, MULHER É LEITE

Enquanto a mulher gera filhos e os amamenta (uma atividade natural), explica Simone de Boauvoir, o homem precisa transcender sua condição animal inventando armas (de caça, de guerra) para aumentar seu domínio sobre o mundo. E então conclui:
A maior maldição que pesa sobre a mulher é estar excluída das expedições guerreiras. Não é dando a vida, é arriscando-a que o homem se ergue acima do animal, eis por que na humanidade, a superioridade é outorgada não ao sexo que engendra [a fêmea], e sim ao que mata [o macho]. [...] O macho escravizou as forças confusas da vida, escravizou a natureza e a Mulher.
Como libertá-la do papel de coadjuvante no qual foi encerrada?  Eis a questão discutida pela filósofa parisiense em “O segundo sexo” (o trecho acima encontra-se na parte II, volume I).



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

OSSOS DE PORCO NO ANTIGO ISRAEL

Escavações modernas no Levante sul (atual Israel, Jordânia e Palestina) mostram escassez notável ou ausência total de ossos de porco em sítios datados para a Idade do Ferro (1130-586 a.C.).

A única exceção aparente são os locais ocupados pelos filisteus, um dos povos do mar que migraram para a costa sudoeste da Palestina no alvorecer da Idade do Ferro.

Esta observação apoiada pela proibição bíblica levou os arqueólogos modernos a interpretarem a presença ou ausência de ossos de porco como um marcador étnico capaz de distinguir os antigos israelitas dos filisteus.

Uma suposição bastante razoável, certo? Lidar Sapir-Hen, autora do artigo “Pigs as an Ethnic Marker?” (Biblical Archaeology Review, Nov/Dez16) acha que não é tão simples assim.

Infelizmente só é possível ler o resumo do artigo na BAS Nov/Dez/2016. Mas você pode ler o texto completo aqui



Jones F. Mendonça

NADAR NO MAR MORTO EXIGE SNORKEL ESPECIAL

Imagem: Haaretz
Embora seja fácil flutuar nas águas do Mar Morto, é grande o número de afogamentos no lago. Ingerir um copo da água extremamente salgada pode ser fatal: “um pequeno gole resseca seu cérebro”, diz um instrutor de mergulho.

A imagem mostra nadadores usando um snorkel especial de proteção (olhos e boca) durante uma travessia entre a Jordânia e Israel patrocinada pelo EcoPeace Oriente Médio e pelo Conselho Regional de Tamar.

Leia no Haaretz de Israel (edição Premium, será preciso fazer cadastro no site).



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

PONDÉ, PUDOR E DESPUDOR

Lula, enquanto candidato, discursava falando de comida no prato, teto, um pouco de sossego e criança na escola (sem racismo, xenofobia ou misoginia). Pondé classificava seu discurso como um "populismo de esquerda".

Trump também fala de comida no prato, teto, um pouco de sossego e criança na escola (com uma boa dose de racismo, xenofobia e misoginia). Pondé diz que Trump soube como ninguém falar a língua do povo.

Eis a filosofia ponderiana despudorada.


Jones F. Mendonça


quarta-feira, 2 de novembro de 2016

O LIVRE EXAME E A IGREJA DO CUSPE DE CRISTO

Embora o termo “livre exame das Escrituras”, não apareça nos escritos de Lutero, a ideia é defendida em sua “Carta à nobreza alemã”, de 1520. Nela, o monge agostiniano declara que os “doutores de Roma”, “o Papa e seus comparsas”, não são os únicos capazes de interpretar as Escrituras:
Devemos [...] julgar com coragem tudo o que eles [os papas] fazem ou deixam de fazer, conforme nossa compreensão crente da Escritura, e obrigá-los a seguir a compreensão melhor, e não sua própria.
Menos de cinco meses após a publicação da carta Lutero foi excomungado pelo papa, através da bula Decet Romanum Pontificem  (janeiro de 1521).

Em minha opinião o livre exame é o melhor de Lutero. Mas ele tem um efeito colateral inevitável: qualquer um poderia discordar de Lutero e criar sua própria igreja. Até mesmo uma que se chama “A igreja do cuspe de Cristo”.

Nesse sentido, desejar o livre exame e ao mesmo tempo promover o policiamento denominacional não faz qualquer sentido.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

NEURA

Neura era dessas escritoras compulsivas. Escrevia em areia, em redes sociais, em caderno, em guardanapo, em parede, em vidro embaçado pelo vapor. Seus dedos pareciam corcéis sem freio desbravando superfícies.

No repouso dos dedos ativava os olhos. Lia como uma louca: jornal velho, rabisco em placa de trânsito, bilhete amassado, bula de remédio sem uso, embalagem de shampoo, epitáfio em leito mortuário. Insaciável essa Neura.

Certo dia, nas instalações de um alfarrabista qualquer, na obsessão da leitura, tomou nas mãos três velhos exemplares da revista Veja: “Geisel, um comando firme”, “Collor, caçador de marajás” e “O poder de Aécio”. Estremeceu. Deixou de ler coisas inúteis. Curou-se.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

ENTORPECIDA

Insânia sustentava sua existência nos finos fios da fantasia.
Tudo o que sonhava era tudo o que queria.
Tudo o que queria (Ah, como queria...), era tudo o não existia.
Vivia no mundo concreto.
Bailava entorpecida no salão da imaginação.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 25 de outubro de 2016

O NESCAU DE ARISTÓTELES

Enquanto lambia o resíduo de Nescau no fundo de uma grande xícara, Zé Bobinho descuidou e a deixou o cair em seu pé. Ganhou cinco pontos e uma pequena fratura na falange proximal do quinto dedo. Sua interpretação do acidente: comer resíduo de Nescau é perigoso.

A lógica é a mesma usada para deslegitimar as ocupações nas escolas públicas depois da morte de um menino de 16 anos no Paraná: alguém morreu enquanto uma escola era ocupada por alunos, logo todos são delinquentes. Logo é preciso deixar as coisas como estão.

Que falta faz Aristóteles...



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

OUTUBRO, MÊS DA REFORMA: LIBERDADES LÍQUIDAS

John Wyclif e Jan Hus já declaravam , nos séculos XIV e XV, que “os sacerdotes que violam os mandamentos do Senhor” estão em pecado, e que, portanto, devem ser vistos como usurpadores. No século XVI Lutero usou o mesmo argumento para romper com a Igreja.

A rebeldia do monge agostiniano migrou para o campo político. No fim de 1524 cerca de 30.000 camponeses na Alemanha meridional se recusavam a pagar imposto ao governo, dízimos ou direitos feudais. Ousaram criticar a servidão, dizendo que haviam sido “comprados e redimidos com o precioso sangue de Cristo”. Inicialmente Lutero apoiou o grupo, mas depois explicou que a liberdade que o cristão deve gozar é a espiritual: 
Abraão e os outros patriarcas não tinham escravos? [...] Um reino terreno não pode sobreviver se nele não houver uma desigualdade de pessoas, de modo que algumas sejam livres e outras presas, algumas soberanas outras súditas (Lutero, Works, IV, p. 240).
As elites latifundiárias das colônias americanas do século XVIII comportaram-se como Lutero. Usaram com toda a força ideias revolucionárias para justificar sua rebelião contra o opressor, neste caso, a Inglaterra (“qualquer um tem o direito de defender-se e de resistir ao agressor”, John Locke) e ao mesmo tempo temeram que negros e pobres interpretassem as ideias de liberdade como aplicáveis também a eles. Não deixaram, como Lutero.

Moral da história? “Quae vult rex fieri, sanctae sunt congrua legi” (vão as leis como querem os reis). Revolução legítima, só a das elites...



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

OUTUBRO, MÊS DA REFORMA: INTOLERÂNCIAS

Enquanto Lutero, Calvino, Zwínglio e outros reformadores discutiam (e até se matavam por) especulações a respeito da natureza de Cristo, da Trindade, da predestinação, do livre arbítrio, da Eucaristia e do batismo, Sebastian Castellio chamava a atenção para a necessidade da tolerância religiosa. Uma voz praticamente única num mundo religioso acostumado a punir com a morte o pecado da heresia.

Vendo como absurdo o apoio de Calvino à condenação de Serveto, Castellio escreveu em março de 1554 o tratado “De haereticis na sint persequendi?” (Os hereges devem ser perseguidos?). Não via razão para condenação dos hereges à morte uma vez que considerava que a Bíblia contém passagens difíceis, que constantemente deixam margens para dúvidas (não é o que admite 2Pe 3,16?). Insistia em colocar o caráter e o amor ao próximo acima das especulações doutrinárias.

Theodore Beza, escolhido por Calvino para elaborar uma resposta, reagiu dizendo que a tolerância religiosa é impossível para aqueles que aceitam a inspiração das Escrituras. Qualificou as vozes que se opuseram à morte dos hereges como “emissários de Satanás”. Castellio voltou à luta em “Contra libellum Calvini”. Mais tarde, em seu “De arte dubitandi” ("A arte de duvidar”), antecipou-se a Descartes, colocando a dúvida como elemento fundamental na busca da verdade.

Castellio combateu o fanatismo religioso como nenhum outro de seu tempo. Sua postura lança por terra a tese que justifica os discursos de ódio de Lutero dirigidos aos judeus e a condenação de Serveto à fogueira pelo conselho de Genebra como sendo atitude aceitável por todos naquele tempo. Com uma voz extraordinariamente dissonante, Castellio morreu na miséria aos 48 anos (1563). Calvino, em seu conhecido fanatismo, declarou que a morte prematura de seu opositor fora o resultado de uma sentença divina.

No próximo dia 31 - data em que os protestantes comemorarão 499 anos da Reforma - Castellio não pode ser esquecido.



Jones Mendonça

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

OUTUBRO, MÊS DA REFORMA (II)

João Calvino (1509-1564), um dos maiores expoentes da Reforma, defendia que todos os acontecimentos foram pré-ordenadas por Deus: a criação do mundo, a morte das estrelas, a forma exuberante dos lírios, o terremoto que devora vidas, a boca que morde, a mão que afaga. Linhas invisíveis escrevendo com muito arrojo e precisão o destino da humanidade.

Sua obsessão pela divina providência foi levada às últimas consequências: 
Eu concedo mais: os ladrões e os homicidas, e os demais malfeitores, são instrumentos da divina providência, dos quais o próprio Senhor se utiliza para executar os juízos que ele mesmo determinou. Nego, no entanto, que daí se deva desculpá-los por seus maus feitos (As Institutas, Livro I, Capítulo XVII, seção 5).
“Decretum quidem terribile”, ele mesmo confessou. Eu acrescentaria: é terrível e repugnante.



Jones F. Mendonça

DAS NÃO NEUTRALIDADES ASSUMIDAS

Digamos que você queira traduzir e interpretar um documento escrito – digamos - há 2000 anos. Sua cabeça, levada pela crença de que é impossível fazer pesquisas e leituras neutras, tem a seguinte ideia: “ora, uma vez que não é possível fazer leituras neutras, então vou assumir essa não neutralidade e interpretar o documento tal como orientam os ‘guardiões da tradição’”.

Quem sugere isso na maior cara de pau? Augusto Nicodemus.



Jones F. Mendonça

ARTIGOS GRATUITOS SOBRE LAQUIS NA BAR

No embalo das últimas descobertas arqueológicas em Laquis, a cidade mais importante de Judeia depois de Jerusalém, a AWOL (The Ancient World Online) fez uma apanhado de artigos gratuitos publicados na BAR (Biblical Archaeology Review) sobre a cidade.

Laquis foi conquistada e destruída em 701 a.C. pelo governante assírio Senaqueribe (sob o governo de Ezequias, cf. 2Rs 18,13-16). Sofreu nova destruição em 588/6 a.C. por Nabucodonosor da Babilônia (Jr 34,7).



Jones F. Mendonça