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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
quinta-feira, 24 de novembro de 2016
O IRÃ PARA ALÉM DOS AIATOLÁS
Combatentes do grupo guerrilheiro iraniano Mujahedin-e Khalq (MKO) com seus tradicionais hijabs vermelhos. Atualmente
liderado por uma mulher e bem pouco conhecido no Ocidente, o grupo luta pela derrubada
do governo teocrático no Irã e tem sido acusado de ajudar Israel no assassinato
de cientistas envolvidos no programa nuclear iraniano. São vistos como
traidores pelos iranianos por terem lutado ao lado de Saddan Russein na guerra
contra o Iraque na década de 80.
Jones F. Mendonça
segunda-feira, 21 de novembro de 2016
HOMEM É SANGUE, MULHER É LEITE
Enquanto a mulher gera filhos e os amamenta (uma atividade
natural), explica Simone de Boauvoir, o homem precisa transcender sua condição
animal inventando armas (de caça, de guerra) para aumentar seu domínio sobre o
mundo. E então conclui: A maior maldição que pesa sobre a mulher é estar excluída das expedições guerreiras. Não é dando a vida, é arriscando-a que o homem se ergue acima do animal, eis por que na humanidade, a superioridade é outorgada não ao sexo que engendra [a fêmea], e sim ao que mata [o macho]. [...] O macho escravizou as forças confusas da vida, escravizou a natureza e a Mulher.
Como libertá-la do papel de coadjuvante no qual foi
encerrada? Eis a questão discutida pela
filósofa parisiense em “O segundo sexo” (o trecho acima encontra-se na parte
II, volume I).
Jones F. Mendonça
quarta-feira, 16 de novembro de 2016
OSSOS DE PORCO NO ANTIGO ISRAEL
Escavações modernas no Levante sul (atual Israel, Jordânia e
Palestina) mostram escassez notável ou ausência total de ossos de porco em
sítios datados para a Idade do Ferro (1130-586 a.C.).
A única exceção aparente são os locais ocupados pelos
filisteus, um dos povos do mar que migraram para a costa sudoeste da Palestina
no alvorecer da Idade do Ferro.
Esta observação apoiada pela proibição bíblica levou os
arqueólogos modernos a interpretarem a presença ou ausência de ossos de porco
como um marcador étnico capaz de distinguir os antigos israelitas dos
filisteus.
Uma suposição bastante razoável, certo? Lidar Sapir-Hen,
autora do artigo “Pigs as an Ethnic Marker?” (Biblical Archaeology Review, Nov/Dez16) acha que não é tão simples assim.
Infelizmente só é possível ler o resumo do artigo na BAS Nov/Dez/2016. Mas você pode ler o texto completo aqui.
Jones F. Mendonça
NADAR NO MAR MORTO EXIGE SNORKEL ESPECIAL
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| Imagem: Haaretz |
Embora seja fácil flutuar nas águas do Mar Morto, é grande o
número de afogamentos no lago. Ingerir um copo da água extremamente salgada
pode ser fatal: “um pequeno gole resseca seu cérebro”, diz um instrutor de
mergulho.
A imagem mostra nadadores usando um snorkel especial de
proteção (olhos e boca) durante uma travessia entre a Jordânia e Israel
patrocinada pelo EcoPeace Oriente Médio e pelo Conselho Regional de Tamar.
Leia no Haaretz de Israel (edição Premium, será preciso
fazer cadastro no site).
Jones F. Mendonça
sexta-feira, 11 de novembro de 2016
PONDÉ, PUDOR E DESPUDOR
Lula, enquanto candidato, discursava falando de comida no
prato, teto, um pouco de sossego e criança na escola (sem racismo, xenofobia ou
misoginia). Pondé classificava seu discurso como um "populismo de
esquerda".
Trump também fala de comida no prato, teto, um pouco de
sossego e criança na escola (com uma boa dose de racismo, xenofobia e
misoginia). Pondé diz que Trump soube como ninguém falar a língua do povo.
Eis a filosofia ponderiana despudorada.
Jones F. Mendonça
quarta-feira, 2 de novembro de 2016
O LIVRE EXAME E A IGREJA DO CUSPE DE CRISTO
Embora o termo “livre exame das Escrituras”, não apareça nos escritos de Lutero, a ideia é defendida em sua “Carta à nobreza
alemã”, de 1520. Nela, o monge agostiniano declara que os “doutores de Roma”, “o
Papa e seus comparsas”, não são os únicos capazes de interpretar as Escrituras:
Devemos [...] julgar com coragem tudo o que eles [os papas] fazem ou deixam de fazer, conforme nossa compreensão crente da Escritura, e obrigá-los a seguir a compreensão melhor, e não sua própria.
Menos de cinco meses após a
publicação da carta Lutero foi excomungado pelo papa, através da bula Decet Romanum
Pontificem (janeiro de 1521).
Em minha opinião o livre exame é
o melhor de Lutero. Mas ele tem um efeito colateral inevitável: qualquer um
poderia discordar de Lutero e criar sua própria igreja. Até mesmo uma que se
chama “A igreja do cuspe de Cristo”.
Nesse sentido, desejar o livre
exame e ao mesmo tempo promover o policiamento denominacional não faz qualquer
sentido.
Jones F. Mendonça
quinta-feira, 27 de outubro de 2016
NEURA
Neura era dessas escritoras compulsivas. Escrevia em areia, em
redes sociais, em caderno, em guardanapo, em parede, em vidro embaçado pelo
vapor. Seus dedos pareciam corcéis sem freio desbravando superfícies.
No repouso dos dedos ativava os olhos. Lia como uma louca:
jornal velho, rabisco em placa de trânsito, bilhete amassado, bula de remédio
sem uso, embalagem de shampoo, epitáfio em leito mortuário. Insaciável essa
Neura.
Certo dia, nas instalações de um alfarrabista qualquer,
na obsessão da leitura, tomou nas mãos três velhos exemplares da
revista Veja: “Geisel, um comando firme”, “Collor, caçador de marajás” e “O
poder de Aécio”. Estremeceu. Deixou de ler coisas inúteis. Curou-se.
Jones F. Mendonça
quarta-feira, 26 de outubro de 2016
ENTORPECIDA
Insânia sustentava sua existência nos finos fios da fantasia.
Tudo o que sonhava era tudo o que queria.
Tudo o que queria (Ah, como queria...), era tudo o não
existia.
Vivia no mundo concreto.
Bailava entorpecida no salão da imaginação.
Jones F. Mendonça
terça-feira, 25 de outubro de 2016
O NESCAU DE ARISTÓTELES
Enquanto lambia o resíduo de Nescau no fundo de uma grande
xícara, Zé Bobinho descuidou e a deixou o cair em seu pé. Ganhou cinco pontos e
uma pequena fratura na falange proximal do quinto dedo. Sua interpretação do
acidente: comer resíduo de Nescau é perigoso.
A lógica é a mesma usada para deslegitimar as ocupações nas
escolas públicas depois da morte de um menino de 16 anos no Paraná: alguém
morreu enquanto uma escola era ocupada por alunos, logo todos são delinquentes.
Logo é preciso deixar as coisas como estão.
Que falta faz Aristóteles...
Jones F. Mendonça
sexta-feira, 21 de outubro de 2016
OUTUBRO, MÊS DA REFORMA: LIBERDADES LÍQUIDAS
John Wyclif e Jan Hus já declaravam , nos séculos XIV e XV,
que “os sacerdotes que violam os mandamentos do Senhor” estão em pecado, e que,
portanto, devem ser vistos como usurpadores. No século XVI Lutero usou o mesmo
argumento para romper com a Igreja.
A rebeldia do monge agostiniano migrou para o campo
político. No fim de 1524 cerca de 30.000 camponeses na Alemanha meridional se
recusavam a pagar imposto ao governo, dízimos ou direitos feudais. Ousaram
criticar a servidão, dizendo que haviam sido “comprados e redimidos com o
precioso sangue de Cristo”. Inicialmente Lutero apoiou o grupo, mas depois
explicou que a liberdade que o cristão deve gozar é a espiritual:
Abraão e os outros patriarcas não tinham escravos? [...] Um reino terreno não pode sobreviver se nele não houver uma desigualdade de pessoas, de modo que algumas sejam livres e outras presas, algumas soberanas outras súditas (Lutero, Works, IV, p. 240).
As elites latifundiárias das colônias americanas do século
XVIII comportaram-se como Lutero. Usaram com toda a força ideias
revolucionárias para justificar sua rebelião contra o opressor, neste caso, a
Inglaterra (“qualquer um tem o direito de defender-se e de resistir ao
agressor”, John Locke) e ao mesmo tempo temeram que negros e pobres
interpretassem as ideias de liberdade como aplicáveis também a eles. Não
deixaram, como Lutero.
Moral da história? “Quae vult rex fieri, sanctae sunt
congrua legi” (vão as leis como querem os reis). Revolução legítima, só a das
elites...
Jones F. Mendonça
quarta-feira, 12 de outubro de 2016
OUTUBRO, MÊS DA REFORMA: INTOLERÂNCIAS
Enquanto Lutero, Calvino,
Zwínglio e outros reformadores discutiam (e até se matavam por) especulações a
respeito da natureza de Cristo, da Trindade, da predestinação, do livre
arbítrio, da Eucaristia e do batismo, Sebastian Castellio chamava a atenção para
a necessidade da tolerância religiosa. Uma voz praticamente única num mundo
religioso acostumado a punir com a morte o pecado da heresia.
Vendo como absurdo o apoio de
Calvino à condenação de Serveto, Castellio escreveu em março de 1554 o tratado
“De haereticis na sint persequendi?” (Os hereges devem ser perseguidos?). Não
via razão para condenação dos hereges à morte uma vez que considerava que a
Bíblia contém passagens difíceis, que constantemente deixam margens para
dúvidas (não é o que admite 2Pe 3,16?). Insistia em colocar o caráter e o amor
ao próximo acima das especulações doutrinárias.
Theodore Beza, escolhido por
Calvino para elaborar uma resposta, reagiu dizendo que a tolerância religiosa é
impossível para aqueles que aceitam a inspiração das Escrituras. Qualificou as
vozes que se opuseram à morte dos hereges como “emissários de Satanás”.
Castellio voltou à luta em “Contra libellum Calvini”. Mais tarde, em seu “De
arte dubitandi” ("A arte de duvidar”), antecipou-se a Descartes, colocando
a dúvida como elemento fundamental na busca da verdade.
Castellio combateu o fanatismo
religioso como nenhum outro de seu tempo. Sua postura lança por terra a tese
que justifica os discursos de ódio de Lutero dirigidos aos judeus e a
condenação de Serveto à fogueira pelo conselho de Genebra como sendo atitude
aceitável por todos naquele tempo. Com uma voz extraordinariamente dissonante,
Castellio morreu na miséria aos 48 anos (1563). Calvino, em seu conhecido
fanatismo, declarou que a morte prematura de seu opositor fora o resultado de
uma sentença divina.
No próximo dia 31 - data em que
os protestantes comemorarão 499 anos da Reforma - Castellio não pode ser
esquecido.
Jones Mendonça
segunda-feira, 10 de outubro de 2016
OUTUBRO, MÊS DA REFORMA (II)
João Calvino (1509-1564), um dos maiores expoentes da
Reforma, defendia que todos os acontecimentos foram pré-ordenadas por Deus: a
criação do mundo, a morte das estrelas, a forma exuberante dos lírios, o
terremoto que devora vidas, a boca que morde, a mão que afaga. Linhas
invisíveis escrevendo com muito arrojo e precisão o destino da humanidade.
Sua obsessão pela divina providência foi levada às últimas
consequências:
Eu concedo mais: os ladrões e os homicidas, e os demais malfeitores, são instrumentos da divina providência, dos quais o próprio Senhor se utiliza para executar os juízos que ele mesmo determinou. Nego, no entanto, que daí se deva desculpá-los por seus maus feitos (As Institutas, Livro I, Capítulo XVII, seção 5).
“Decretum quidem terribile”, ele mesmo confessou. Eu
acrescentaria: é terrível e repugnante.
Jones F. Mendonça
DAS NÃO NEUTRALIDADES ASSUMIDAS
Digamos que você queira traduzir e interpretar um documento
escrito – digamos - há 2000 anos. Sua cabeça, levada pela crença de que é
impossível fazer pesquisas e leituras neutras, tem a seguinte ideia: “ora, uma
vez que não é possível fazer leituras neutras, então vou assumir essa não
neutralidade e interpretar o documento tal como orientam os ‘guardiões da
tradição’”.
Quem sugere isso na maior cara de pau? Augusto Nicodemus.
Jones F. Mendonça
ARTIGOS GRATUITOS SOBRE LAQUIS NA BAR
Laquis foi conquistada e destruída em 701 a.C. pelo
governante assírio Senaqueribe (sob o governo de Ezequias, cf. 2Rs 18,13-16).
Sofreu nova destruição em 588/6 a.C. por Nabucodonosor da Babilônia (Jr 34,7).
Jones F. Mendonça
OUTUBRO: MÊS DA REFORMA (I)
Durante cerca de 1500 anos a Igreja dominou as rédeas da
interpretação. No século XVI Lutero desafiou a Igreja e inaugurou o “livre
exame”. A “verdade” do texto, antes una, tornou-se múltipla. São bem conhecidas
as farpas trocadas entre Lutero e Zwínglio a respeito da interpretação de Mt
26,26 (“isto é o meu corpo” →
simbólico ou literal?).
Herdeiros do “livre exame”, mas ainda obcecados pela
precisão das definições teológicas, os protestantes logo trataram de
enclausurar o livre exame nas chamadas confissões doutrinárias. A vocação
protestante para o cisma, para a divisão, talvez não seja produto da ausência
de um lastro, de uma autoridade única capaz de determinar a interpretação
correta, mas do medo doentio das lacunas, dos espaços em branco, das
incertezas.
A maldição protestante: quanto mais quer definir, mais se
divide.
Jones F. Mendonça
quarta-feira, 5 de outubro de 2016
MESSIANISMO NO ANTIGO EGITO
Então um rei virá,
Pertencendo ao sul, Ameni, o triunfante, será seu nome.
Ele é o filho de uma mulher da Núbia,
Ele nasceu no Alto Egito… .
Rejubilem-se, povo de seu tempo!
O filho de um homem fará seu nome durar para todo o sempre.
Aqueles que se inclinam para o mal e que tramam revoltas vão
abaixar suas vozes por medo dele.
Os Asiáticos cairão perante sua espada, e os Líbios cairão
perante sua chama.
Os rebeldes pertencem a sua ira, e os traidores, a seu
assombro.
“Profecias de Neferrohu”, do princípio do reino de Amenemhet
I (2000-1970 a.C.), Pritchard (ed.), Ancient Near Eastern Texts, 445-446.
Jones F. Mendonça
A LATRINA DE LAQUIS E AS REFORMAS DE EZEQUIAS
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| Foto: Daily Mail |
Laquis, destruída em 701 a.C. pelos assírios e localizada no
sopé de Judá, foi considerada a segunda cidade mais importante do Reino de Judá
depois de Jerusalém. A descoberta do portão da cidade, neste ano, revelou vasos
de armazenamento contendo a inscrição lmlk (=pertencente ao rei), um assento
esculpido em pedra (FOTO) e um altar com as pontas (chifres) quebradas.
Sa’ar Ganor, líder das escavações, pensa que o lmlk seja uma
referência ao rei Ezequias, governante que reinou em Judá no período da
destruição do altar. Ele também acredita que os altares destruídos sejam os
vestígios do projeto de reforma rei Ezequias, marcado pela tentativa de
centralizar o culto em Jerusalém e abolir altares construídos fora da cidade
santa (veja 2 Reis 18, 4). Na opinião de Ganor, até o assento de pedra confirma
o relato das Escrituras.
O arqueólogo acredita que o assento (que tem um furo no
centro) seja uma latrina, colocada no local possivelmente com a intenção de
profanar o templo de Baal, tal como descrito em 2Rs 10,27: “Derrubaram a estela
de Baal, demoliram também o templo de Baal e no lugar dele fizeram umas
latrinas, o que permanece até hoje”. Uma vez que os testes de laboratório
indicaram que o banheiro de pedra jamais foi usado, Ganor concluiu que a
colocação do objeto no local de culto foi simbólica.
A descoberta ainda promete render uma boa discussão. Alguns
pontos importantes sobre Laquis, Ezequias e a invasão assíria: 1. Embora o nome
“Ezequias” não apareça ao lado do lmlk (=pertencente ao rei...) impresso nos
jarros, seu nome surge nos anais de Senaqueribe; 2. A destruição de Laquis pelos babilônios (cerca de um século após Ezequias) está muito bem documentada nas cartas de Laquis encontradas nos
destroços queimados do portão da cidade, e no grande relevo mural encontrado no
palácio de Senaquerib, em Nínive; 3. Não ficou claro para mim se há consenso a
respeito da natureza do objeto de pedra. É de fato uma latrina? Os testes de
laboratório são confiáveis?; 4. O texto de Reis não identifica o local do
santuário de Baal demolido por Ezequias (Era mesmo Laquis? O costume de colocar
latrinas em templos profanados era comum naquele período/região?).
Jones F. Mendonça
quinta-feira, 29 de setembro de 2016
O SALMO 45 E A LETRA OCULTA
Alguns textos da Bíblia foram
construídos de maneira muito curiosa: cada verso (ou grupo de versos, como o Sl
119 ou Lm 3) começa com uma letra do alfabeto hebraico (álef, bet, guímel...).
Você só perceberá essa peculiaridade numa Bíblia hebraica, claro.
O fenômeno, que aparece
principalmente nos salmos, é chamado de acróstico alfabético. Mas no Sl 145 a
sequência de letras é interrompida pela ausência da consoante “nun” (equivale
ao nosso “n”). Há quem pense que o verso acabou sendo omitido por descuido por
algum copista. A evidência disso seria a presença do verso iniciado com o “nun”,
“preservada” em manuscritos encontrados em Qumran. Será?
Para o By Mitchell First, em
texto publicado no Jewish Link, a
omissão é intencional e o verso de Qumran seria um acréscimo feito por alguém incomodado com a ruptura na sequência alfabética.
Jones F. Mendonça
MONTANHA: LUGAR DE REFÚGIO
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| Foto: Haaretz |
Jones F. Mendonça
segunda-feira, 26 de setembro de 2016
A [ESTRANHA] PARÁBOLA DOS TALENTOS
Um senhor entrega quantias de dinheiro diferentes a três
servos. O primeiro e o segundo dão lucro. O terceiro – aquele que menos recebeu
– devolve a seu senhor a mesma quantia recebida e é punido por isso. Há quem
leia a parábola como um convite ao uso adequado das habilidades e dons pelos “servos”,
os cristãos. O “senhor” seria Jesus.
segunda-feira, 19 de setembro de 2016
SIT PRO RATIONE VOLUNTAS
Um califa ordenou – conta uma lenda – a destruição da
Biblioteca de Alexandria. Sua
justificativa: se o conteúdo dos livros for igual ao do Alcorão merecem ser
destruídos porque são supérfluos. Se for diferente, merecem ser aniquilados
porque são mentirosos. Moral da história: qualquer ação parece justa quando
serve aos interesses do tirano.
Em tempo: a frase latina foi dita por Juvenal (poeta romano)
e significa: “a vontade sirva de razão”.
Jones F. Mendonça
sexta-feira, 16 de setembro de 2016
HOMOOUSIOS, DULIAS, LATRIAS E OUTRAS PICUINHAS TEOLÓGICAS
A cidade de Niceia (atual Iznik,
Turquia), foi palco de dois grandes concílios ecumênicos. O primeiro, em 325,
definiu que Jesus foi gerado e não criado pelo Pai. O segundo, em 787, tratou
de uma acirrada controvérsia a respeito do culto às imagens. Os bispos chegaram
a um consenso: os ícones merecem apenas culto de dulia, nunca de latria. Para
uma mente moderna “criado”/“gerado” e “dulia”/ “latria” parecem dizer a mesma
coisa. Mas naquele tempo você poderia perder a cabeça por isso.
Abaixo uma imagem dos assentos
dos bispos do 7º Concílio ecumênico (2º de Niceia). Bem, pelo menos é o que diz
a placa.
Jones F. Mendonça
PRESÉPIOS APÓCRIFOS
Em 1224 Francisco de Assis armou
o primeiro presépio de Natal. A cena foi montada numa caverna e uniu narrativas
tomadas do Evangelho de Lucas e de Mateus de forma a harmonizá-las. A
inspiração teria vindo de evangelhos apócrifos, como o protoevangelho de Tiago.
A presença dos elementos caverna, boi, burro e parteira em ilustrações
medievais seria um início dessa influência.
Leia mais no Bible History Daily:
Jones F. Mendonça
UTOPIAS
"Na terra de Dilmun", diz um mito sumeriano do II
milênio a.C. "o leão não mata e o lobo não rouba a ovelha". Lembra Is 11,6.
Jones F. Mendonça
DAS PALAVRAS COMO CABIDE DE SENTIDOS
Comecei a leitura (finalmente!)
da obra “Interpretação e superinterpretação” de Umberto Eco. Na página 28 Eco
cita (em tom crítico) uma curiosa metáfora de Lichtenberg a respeito da
interpretação de textos: “um texto é um piquenique onde o autor entra com as
palavras e os leitores com o sentido”.
Então Eduardo Cunha diz ao juiz
que fez o que fez baseando-se em sua interpretação do Sermão do Monte lucano e
você diz, baseando-se na tese de Lichtenberg, que esta é uma interpretação legítima...
Jones F. Mendonça
ARTE E ESCATOLOGIA
O sujeito entra numa antiga igreja em busca de um pouco de paz e
se depara com este vitral sobre o juízo final, obra de Max Švabinský:
PS.: Na verdade não consegui descobrir se o vitral fica em
alguma igreja. Há outros, do mesmo autor, na catedral de São Vito, em Praga.
Jones F. Mendonça
quarta-feira, 14 de setembro de 2016
HERMENÊUTICA FILOSÓFICA
Zé Bobinho resolveu ler Nietzsche, famoso filósofo do século
XIX. Ficou encantado com seu “perspectivismo”, cuja ideia básica resume-se nas
seguintes palavras: “não há fatos, apenas interpretações”. Sua nova filosofia
de vida o induziu a trocar as realidades do mundo (os fatos) pela interpretação
das realidades do mundo.
Pensou com seus dois neurônios: “se não há fatos, então aquele
vídeo que compromete a fidelidade de minha mulher talvez precise ser interpretado
poeticamente”. Foi além: “se não há fatos, então talvez minha conta bancária
não esteja no vermelho”. Raciocinou um pouco mais: “meu trágico diagnóstico
médico, a corrupção dos políticos, meu estômago gritando de fome, as
infiltrações nas paredes do meu apartamento... nada é fato!”.
Bobinho agora é um homem feliz...
Jones F. Mendonça
quarta-feira, 31 de agosto de 2016
PRECIPÍCIO
A
pressa revogou o cuidado,
a ânsia aboliu o juízo,
o afã digeriu a razão.
Ímpeto sem freio,
alçapão do abismo.
Jones F. Mendonça
domingo, 21 de agosto de 2016
AUTOQUÍRIA EM TOM MENOR
absorta em vil melodia,
repousou sob morena doçura,
embalada por pensamentos febris.
Na acidez da sinfonia,
assaltada pelas sombras do pensamento,
gemeu um artelho enlutado,
encarcerado no anel fulvo da agonia.
Em cicuta encharcada a língua,
deitada em rósea relva,
cerrou a pupila abatida,
para nunca jamais voltar a brilhar.
Jones
Mendonça
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