quinta-feira, 22 de outubro de 2015

CANTARES E OS JARDINS DE ENGADI

O livro bíblico de Cantares, com sua descrição calorosa da relação carnal entre um homem (Sholomoh?) e uma mulher (Shulamit), sempre foi visto com reservas pelos doutores do judaísmo e do cristianismo. Não foram poucas as tentativas feitas para suprimir o embaraço despertado por sua leitura.  

O rabino medieval Rabi Shlomo Yitzaki (1040-1105), por exemplo, interpretou o saquinho de mirra entre os seios de Sulamita (Ct 1,13), como sendo uma alusão à shekhinah (presença) de Deus entre os querubins da arca da aliança. Trocando em miúdos: o saquinho de mirra representaria a presença de Deus e os seios os dois querubins.

Para Cirilo de Alexandria (378-444 d.C.), os seios representam, respectivamente, o Antigo e o Novo Testamento, entre os quais está Cristo. Justo de Urgel, bispo de Valencia (século VI), identificou os seios com os doutos professores da igreja (!), e o pseudo-Cassiodoro pensou que o versículo se refere à crucificação de Cristo, que é mantido em eterna lembrança entre os seios do crente (!). Será?

Bem, deixemos de lado as leituras alegóricas e atentemos para um detalhe: no v. 13 o amado é comparado a um saquinho de mirra junto ao corpo da mulher: “entre seus seios”. Seria de se esperar que o “cacho de cipro florido” (nova metáfora para o amado, v. 14), fosse situado em outra parte do corpo da mulher, mas o ele é colocado “entre os [ou nos] jardins de Engadi”, um oásis nas proximidades do Mar Morto.

Então talvez os “jardins” não sejam exatamente jardins...


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

SOBRE ALEGORIAS E CRÍTICAS TEXTUAIS MEDIEVAIS

O professor Joy Schroeder passa boa parte do seu tempo livre em cafés, traduzindo comentários bíblicos medievais do latim para o inglês. Alguns dos comentários mais curiosos destacados pelo professor podem ser lidos num artigo publicado no The Bible and Interpretation.

Chamou minha atenção uma interpretação alegórica antijudaica feita pelo monge místico medieval Rupert de Deutz (c. 1075 – c. 1129) a respeito do corvo enviado para fora da arca por Noé (para ele o corvo representa os judeus!?) e alguns ensaios de crítica textual (costuras, variações estilísticas, contradições aparentes, e discrepâncias verbais).

O link já traduzido aqui.

Jones F. Mendonça

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

JOHN WYCLIF: SEXO, RELIGIÃO E POLÍTICA

No século XIV, diante do desejo de não mais recolher tributos ao papa, um teólogo inglês chamado John Wyclif foi contratado pelo rei João de Gante como “peculiares regis clericus” (clérico a serviço especial do rei) a fim de preparar uma defesa contra o envio dos tributos. Com muita astúcia, Wyclif saiu-se com essa: 
O papa não pode pedir este tesouro a não ser por meio de esmolas... Uma vez que toda a caridade principia em casa, seria obra não de caridade, e sim de loucura canalizar as esmolas do reino para o exterior [nessa época o papa residia na França, inimiga da Inglaterra] quando o próprio reino está necessitado delas.
Vendo-se sem saída diante da recusa da Igreja em atender ao pedido, Wyclif recomendou a independência da Inglaterra. Sua proposta soou tão escandalosa à época que os conselheiros do rei recomendaram que não mais fizesse declarações sobre o assunto. Mas as sementes de suas ideias brotaram e fincaram raízes.

Cerca de duzentos anos depois, aproveitando-se do êxito da reforma de Lutero, um rei  levou a cabo a proposta de Wycliff. Henrique VIII confiscou os bens da igreja, casou-se de novo (ignorando recomendações do papa) e criou seu próprio clero. E foi assim que nasceu a igreja anglicana.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 6 de outubro de 2015

LEGEM MOSI

Por fim o Nazareno diz à multidão enquanto risca a terra com o dedo: “aquele que não tem pecado atire a primeira pedra”. E então Zé Bobinho, filho de Bar Hanan, grita lá do fundo: “vai defender bandida, né, Jesus!”

Saindo dali Bobinho fez discípulos que até hoje vivem entre nós (dizem que Bobinho fez mais discípulos que o próprio Jesus).



Jones F. Mendonça

PIA DESIDERIA, DESIDERIA CARNIS

Passa da terceira hora e os santos de Jerusalém descem a Jericó. No caminho, ferido ao chão, jaz um viajante estrangeiro sírio-fenício fugindo da calamidade que assola sua terra. Um estimado sacerdote, guardião da moral e dos bons costumes, passa ao longe e resmunga com desdém: “Escória da sociedade! Que a salvação e o divino auxílio escondam de ti o rosto”.

Em seguida, assobiando deslumbrante canção e exibindo alvas vestes, surge um levita servidor do templo. Ao confundir o agonizante estrangeiro com um assaltante do deserto, o levita profere esta atroz maldição inspirada no Deuteronômio: “Deus te fira com a loucura, a cegueira e a demência. Que a desgraça te alcance como espetáculo aos teus olhos” (Dt 28,28.34). E finaliza: “bandoleiro bom é bandoleiro morto”.

Parece uma história de 2000 anos, mas foi ontem, é hoje, será amanhã. Sempre em nome da santa piedade e dos mais elevados valores da religião. 



Jones F. Mendonça

sábado, 3 de outubro de 2015

JESUS EM CINCO FASES (FASE III)

Falei aqui e aqui a respeito da primeira e da segunda fase da pesquisa sobre o Jesus histórico a partir da proposta de Gerd Theissen (a pronúncia é "Guertáissen"), que divide a pesquisa em cinco fases (“O Jesus histórico, um manual”, Loyola, 2004, 651 páginas). No post de hoje falarei um pouco sobre a terceira fase.

O otimismo em reconstruir a personalidade legitimadora de Jesus e de sua história, marca da segunda fase, deu lugar ao que Theissen chama de “colapso da pesquisa sobre a vida de Jesus” (p. 24). O autor apresenta três estudiosos que contribuíram para o fim desse otimismo:

1. Albert Schweitzer (1875-1965), teólogo e médico que deu nome a um conhecido hospital no Rio de Janeiro, desvelou o “caráter projetivo das imagens das vidas de Jesus”, demonstrando que cada imagem do Jesus da teologia liberal revelava não sua face genuína, mas um ideal ético considerado mais digno de almejar (leia aqui a obra "The quest of historical Jesus", escrita por Schweitzer).

2. Wilhelm Wrede (1856-1906), em sua obra “O segredo messiânico e o Evangelho de Marcos” (1901), apontou o caráter tendencioso das fontes mais antigas existentes sobre a vida de Jesus. Para ele o Evangelho de Marcos seria expressão da dogmática da comunidade pós-pascal projetada sobre a vida intrinsecamente não-messiânica de Jesus (as fontes teriam interesse teológico e catequético). O “segredo messiânico” (cf. 1,34; 1,44; 3,12; 5,43; 7,36; 8,26) seria um recurso literário de Marcos com o objetivo de explicar à comunidade cristã primitiva por que Jesus só foi reconhecido como messias após sua crucificação. Com isso desaba a confiança na possibilidade de distinguir a partir de duas fontes entre a história de Jesus e a imagem do Cristo pós-pascal (leia uma crítica à teoria de Wrede aqui).

3. Karl Ludwig Schmidt (1891-1956) demonstrou o “caráter fragmentário dos evangelhos” ao argumentar que a tradição de Jesus consiste em “pequenas unidades” e que o quadro cronológico e geográfico “da história de Jesus” foi criado secundariamente pelo evangelista Marcos. Dessa forma a busca pela reconstrução da personalidade de Jesus a partir da sequência das perícopes revelou-se impossível. Mesmo as pequenas unidades, apontava a história das formas, são determinadas primariamente por necessidades da comunidade e apenas em segundo plano por recordações históricas.

Uma solução para o pessimismo quanto à possiblidade de reconstruir a figura de Jesus, sem que isso comprometesse os dogmas de fé centrais do cristianismo, foi apresentado por Rudolf Bultmann (1884-1976). Na opinião de Bultmann, mais importante exegeta da teologia dialética, o fator decisivo não era o que Jesus havia feito e dito, mas o que Deus tinha feito e dito na cruz e na ressurreição. A mensagem dessa ação de Deus, o “querigma” neotestamentário, não tem por objeto o Jesus histórico, mas o “Cristo querigmático”, ou seja, o Cristo anunciado pela igreja cristã primitiva.   



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

JAVÉ E OS DRAGÕES

Quando um fiel inserido no ambiente judaico cristão quer ler o relato de como mundo se formou certamente abrirá sua Bíblia nos primeiros capítulos do Gênesis. Em Gn 1,1-2,4a lerá o relato que destaca a criação do universo (cosmogonia) e em Gn 2,4b-25 outro relato destacando a criação do homem e da mulher (antropogonia). Mas estes não são os únicos relatos da criação presentes na Bíblia hebraica.

Salmos, Isaías e Jó contém resquícios de relatos da criação conhecidos pelos hebreus antes da redação do Gênesis, oriundos do ambiente cananeu. Vejamos: 
Sl 74,12-17 Tu porém, ó Elohim, [...] 13 dividiste o mar com teu poder, quebraste as cabeças dos monstros das águas; 14 tu esmagaste as cabeças do Leviatã dando-o como alimento às feras selvagens; 15 Tu abriste fontes e torrentes, tu fizeste secar rios inesgotáveis; 16 o dia te pertence, e a noite é tua, tu firmaste a luz e o sol, 17 tu puseste todos os limites da terra, tu formaste o verão e o inverno.
Textos descobertos no século XX em Ugarit, Síria, revelaram que este texto do Salmo é um resumo de um mito da criação cananeu que descreve Baal, deus da tempestade, derrotando Yam, o deus do mar e seus ajudantes.

Em Is 27,1 e Jó 26,12-13 a luta entre o deus de Israel e os monstros mitológicos (“Leviatan, serpente escorregadia”; “Leviatan, serpente tortuosa”, o “Monstro que habita o mar”, “Rahav” e “Yam”) inquietam leitores desavisados:

Is 27,1 Naquele dia, punirá Javé, com a sua espada dura, grande e forte, a Leviatã, serpente escorregadia (Leviatan nahash bariah), a Leviatã, serpente tortuosa (Leviatan nahash aqalaton), e matará o monstro que habita o mar (hataniyn ’asher bayam). 
Jó  26,12-13 Com seu poder aquietou o Mar (Yam), com sua destreza aniquilou Rahav. 13 O seu sopro clareou os Céus e sua mão traspassou a Serpente escorregadia (nahash bariah).
Descrições semelhantes podem ser encontradas nos mitos ugaríticos: 
Quando você matou Litan, a serpente fugitiva, aniquilou a serpente sinuosa, o potentado de sete cabeças (SMITH, Mark S. The origins of monotheism, p. 33).
O relato de Gênesis, ao invés de se inspirar no mito cananeu, busca na Mesopotâmia elementos para a elaboração de seu relato da criação. O redator israelita atua como uma espécie de C. S Lewis, usando mitologia estrangeira para incutir teologia israelita na mente do povo (C. S. Lewis usou mitologia nórdica em seu “As crônicas de Nárnia” para incutir teologia cristã).

A luta entre divindades e monstros não se restringe aos cananeus (Baal versus serpentes marinhas) ou babilônios (Marduk versus Tiamat). Na mitologia grega, Zeus mata Typhon; na mitologia nórdica Thor mata Jörmungandr; na mitologia hindu, Indra mata Vrtra; na mitologia eslava, Perun mata Veles; e na mitologia hitita; Tarhunt mata Illuyanka.

Até hoje a luta entre heróis e monstros poderosos que ameaçam a ordem fazem sucesso hipnotizando multidões. O tema é muito bem explorado, por exemplo, nas trilogias de J. R. R. Tolkien (“O senhor dos anéis” e “Hobbit”). Quem não se lembra da batalha travada entre o mago Gandalf e o demônio Balrog na ponte Khazad dûn? Ou do confronto entre Bard e o dragão Smaug, morto com uma flecha negra após um certeiro disparo feito de uma torre prestes a ruir?



Jones F. Mendonça 

terça-feira, 22 de setembro de 2015

SUBTERRÂNEOS DO INCONSCIENTE

Afundou-as no esconderijo da derme,
na confusão das memórias,
sob escudos impérvios,
em quietude abismal.

Mas era memória viva,
agonia explosiva,
lembrança ativa,
prisão em convulsão.

Ao toque do sino,
sob branda brisa,
expandiu fronteiras
com o vigor de mil sóis.


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A HISTÓRIA POLITICAMENTE INCORRETA DA REFORMA PROTESTANTE

Zé Bobinho toma emprestada uma coleção das obras de Lutero. Pensa consigo mesmo: “o reformador deve ter linguajar e retórica magníficas, dignas de serem imitadas nos púlpitos”. Senta-se confortavelmente numa almofada e inicia sua leitura.

Com os olhos estatalados e o dedo lambuzado de saliva vai folheando páginas ao acaso. Percebe então que sob a pena de Lutero os nomes de seus desafetos vão ganhando novas formas. O teólogo católico [John] Eck se transforma em Dreck (sujeira) ou Dr Sau (porca); Muntzer é alterado para Murnarr (tolo); Cochlaeus converte-se em Rotslöffel (colher de meleca); o duque de Braunschweig é tratado como Hanswerst (palhaço); papistas como “asnos” e a igreja romana como “prostituta”.

Ainda atordoado Bobinho apanha outra obra e se depara com esta confissão do reformador: “Nunca progrido melhor na oração, pregação e redação do que quando me enfureço. De fato, a ira... aguça o espírito e caça as tentações” (WA TR 2, 455, nº 2410).

Bobinho fecha o livro perplexo após se dar conta  de que o "rapá", o "malandro" e o "funicar" de Malafaia são insignificantes perto das expressões ainda mais toscas empregadas pelo reformador alemão.




Jones F. Mendonça

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

TRIBALISMO E SECTARISMO NO ORIENTE MÉDIO

Khaleb Diab, escritor e jornalista belga-egípcio, contesta a tese de que a instabilidade no Oriente Médio deve-se às suas fronteiras artificiais e aos diversos grupos sectários que os colonizadores foram incapazes de conter. Ele explica: 
Não há um país na Europa cujos limites não são artificiais, cujas fronteiras do passado não se sobrepõem com as de seus vizinhos e cuja população não é uma mistura confusa de povos.
E conclui: “O tribalismo é o sintoma, e não a causa, dos males do Oriente Médio”. Dentre as diversas causas, estariam a incompetência dos governantes, a dominação estrangeira,  a pobreza, etc. Ele destaca que a grande diferença é que a Europa têm conseguido conter esse “tribalismo” (como o nacionalismo, as tensões raciais e religiosas, etc.) e o Oriente Médio, ao contrário, tem, fracassado.

Leia o texto completo no Al-Jazeera:



Jones F. Mendonça

O EXEMPLO QUE VEM DO LÍBANO

Um quarto da população do Líbano - país com economia pequena - é formada por refugiados sírios. Eu disse um quarto! O país recebeu mil vezes mais refugiados que a Inglaterra. Então, como assim a Europa vai entrar em colapso com a chegada de refugiados?

Informações oficiais sobre os refugiados no Líbano aqui:


Jones F. Mendonça

EM NOME DOS VALORES CRISTÃOS: MORTE AOS INFIÉIS

De acordo com o evangelho de Marcos (7,11) os fariseus encontraram um bom argumento para negar um pouco de solidariedade aos pais. Diziam que seus bens haviam sidos consagrados a Deus (corban). Ah, quanta piedade!

Parte da liderança europeia (e cristã brasileira) aprendeu a lição direitinho. Diz que deve rejeitar os refugiados - em sua maioria muçulmanos - para preservar os valores cristãos. Ao fechar suas portas revela que tais valores já se esgotaram. Ou sequer existiram...



Jones F. Mendonça

ZÉ BOBINHO E OS REFUGIADOS

Zé Bobinho, desinformado que só, grita aos quatro ventos que os refugiados sírios devem migrar para países do Oriente Médio e não para a Europa, "bastião dos mais nobres valores cristãos".

Mas o que Bobinho não sabe é que 95% dos 4 milhões de sírios que deixaram o país estão justamente em apenas cinco países do Oriente Médio: Turquia, Líbano, Jordânia, Iraque e Egito. A informação é da Anistia Internacional.

Bobinho não aprende. Continua interpretando o mundo pelas lentes blogs apologéticos cristãos como o Genizah, Júlio Severo e Braulia Ribeiro.



Jones F. Mendonça

JESUS FALAVA GREGO?

Boa parte dos estudiosos aceita o aramaico (língua aparentada com o hebraico) como sendo o idioma falado por Jesus. Mas para G. Scott Gleaves, professor na Universidade Faulkner, Alabama, a língua mais falada e escrita na Palestina do primeiro século era o grego: 
Ao contrário dos estudos atuais, acho que o grego era mais amplamente utilizado, tanto na forma escrita como oral, por Jesus, seus discípulos e os judeus que habitavam Palestina do primeiro século.
 Aos interessados no tema, leiam aqui:



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

BRAULIA RIBEIRO E SUA TEOLOGIA DA INDIFERENÇA

Nas extremidades do cabo de força que atravessa a Síria há dois pilares principais de potências militares: a) Russia e Irã apoiam o ditador Bashar al-Assad; b) EUA e alguns países europeus depositam suas fichas nos rebeldes que querem derrubá-lo. Esses dois principais grupos de interesse agem, de forma bastante simplificada, do seguinte modo:

Grupo 01 (Rússia/Irã) - Embora seja um ditador sanguinário, Assad mantém um governo laico que sempre protegeu minorias religiosas, tais como cristãos, drusos, alawítas e xiitas. A Rússia marca sua presença na Síria no porto de Tartus, sua única base naval no Mediterrâneo. O Irã age no país armando o Hezbollah, grupo paramilitar libanês.

Grupo 02 (EUA/Europa) - EUA e Europa, ávidos pela queda do ditador, estão dispostos inclusive a apoiar rebeldes extremistas para alcançar seus interesses. A pergunta é: sem Assad a vida na Síria será melhor ou seu destino será semelhante ao da caótica Líbia depois da queda de Kaddafi pela intervenção militar da NATO em 2011?

No meio dessa disputa está o povo, que atravessa desertos e mares na esperança de encontrar uma terra segura para viver. Quem atribui a culpa pelo conflito a apenas um país, religião, governante ou grupo armado ignora ou finge ignorar os diversos fatores que fizeram da Síria uma canoa à deriva num oceano em revolta.

Ontem, enquanto lia (com embrulho no estômago) texto escrito pela missionária ex-presidente da missão JOCUM no Brasil, Braulia Ribeiro (Título: “Não tenho culpa pela tragédia do menino sírio”), deparei-me com esta frase referindo-se aos refugiados sírios: “vão se entrincheirar em guetos culturais e exigir a prática legal da Lei Sharia” [para quem não sabe, a Lei Sharia é a lei islâmica]. Mais adiante diz: “O culpado único desta tragédia é o islamismo em todas as suas formas, radicais ou não” (destaque para “radicais ou não”).

É claro, óbvio, que a Europa precisa ter cuidado com refugiados que atravessam suas fronteiras, sejam eles muçulmanos, cristãos, budistas, etc. Mas Braulia trata todos os fugitivos da guerra como se fossem fundamentalistas defensores de um Estado governado pela lei islâmica. Enxerga o conflito como se fosse o resultado de um agente apenas: o islamismo. Tem visão atomizante e reducionista do mundo. Revela uma percepção manca da realidade.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

SOBRE CRISTÃOS INCESTUOSOS E COMEDORES DE CRIANCINHAS

Nos primeiros séculos os cristãos foram acusados pelos romanos de comer a carne e beber o sangue de criancinhas. Encontraram até texto bíblico provando a prática: “se não comerdes a carne do filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós” (Jo 6,53).

Os romanos, ignorantes (e com boa dose de maldade) a respeito dos costumes cristãos, entenderam a expressão “filho do homem” como sendo uma referência às crianças. Resultado: cristãos comem a carne e bebem o sangue de crianças. Havia ainda outra acusação injusta: tratar a própria mulher como “irmã” foi entendido como evidência de que praticavam incesto.

Ontem os cristãos foram vítimas da ignorância dos romanos. Hoje, quando fazem declarações preconceituosas (e, em muitos casos, com boa dose de maldade) a respeito de adeptos de outras religiões, agem com a mesma perversidade de seus antigos algozes.

Ter um pouquinho de consciência histórica e bom senso não faz mal a ninguém.



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

A PAIXÃO DE CRISTO EM QUATRO IMAGENS


Como pequeno passatempo coleciono imagens do Cristo nos momentos mais dramáticos da paixão. Interessa-me o modo como como essas cenas foram sendo representadas ao longo da história. Abaixo quatro imagens particularmente interessantes:

1. Amuleto com a representação do Cristo crucificado numa gema de jaspe vermelha e verde datada para o II-III século. A cena da crucificação é rara nos primeiros séculos do cristianismo. Eram mais comuns as cenas mostrando seu triunfo sobre a morte.  

2. Este Cristo crucificado (Crucifixo Gero), do final do século X, retrata Cristo não como vencedor da morte, mas como homem nas profundezas da humilhação, tema que se torna comum apenas a partir do século XII. Foi talhado em madeira para o arcebispo Gero (969-976).

3. Esta tela medieval (“Cristo coroado de espinhos”, por Fra Angelico, 1438-1439.), ao invés de destacar a dor física, valoriza a angústia do Crucificado. Os olhos avermelhados e a expressão facial transmitem com extrema intensidade o horror e a agonia da crucificação. Remete um observador familiarizado com os Evangelhos ao texto de Mc 13,34: “minha alma está triste até a morte”.

4. A última imagem é uma escultura, “O Cristo torturado” (1975), do artista brasileiro Guido Rocha. Sua história como perseguido político na época das ditaduras latino americanas certamente deixou marcas na obra. 


Jones F. Mendonça

sábado, 5 de setembro de 2015

40 MAPAS QUE EXPLICAM O ORIENTE MÉDIO

Está com dificuldade para entender todos os conflitos no Oriente Médio? Que tal esta página recheada de mapas e informações:

http://www.vox.com/a/maps-explain-the-middle-east


Jones F. Mendonça

OS HEBREUS E O PINGOLIM

Por Marc Chagall
Algo curioso no universo linguístico hebraico é o uso de eufemismos para designar o órgão sexual masculino.

Em Ex 28,42 o “pingolim” é chamado de “carne” (basar); em Lv 18,6 é tratado de forma genérica como “partes íntimas” (ervah); em 2Rs 18,28 aparece como “pé” ou “perna” (reguel); em Dt 23,1 vem como “tubo” (shofkha); em Is 57,8 como “mão” (yad) e em Hb 2,15 como “me’or (nudez).
No judaísmo tardio (era cristã) surgiram novos eufemismos, tais como “face interior” (panin mata shel); “órgão” (evar); “dedo médio” (ama) ou simplesmente “dedo” (etzba).

No que diz respeito a palavra reguel (pé) com sentido de pênis, é possível que Rute, quando chega de mansinho perto do Boaz embriagado e descobre seus pés tenha na verdade tirado a roupa dele e se deitado. Outra possibilidade é que Rute tenha "se descoberto" aos pés dele (e não "os pés dele") e deitado (neste caso não haveria eufemismo). O verso 8 parece reforçar a segunda tese. A versão tradicional "descobriu os pés dele e se deitou" não faz qualquer sentido.


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

SANDICE NO BAILE DE MÁSCARAS

A guerra na Síria já matou, por baixo, 200 mil pessoas desde seu início em 2011. Imagine o monte de tripas e sangue que já mancharam aquela terra. Então a mídia mostra o corpo de um menino morto. Um apenas. E o mundo acorda.

Zé Bobinho está indignado. Resolveu escrever uma carta ao presidente dos EUA. Exige que o governo envie tropas à Síria e acabe com Bashar al-Assad, aquele “ditador sanguinário”.

Tolice, sua esposa, também faz intensa campanha. Quer que os marines americanos destruam com suas poderosas bombas o Estado Islâmico, aquele grupo de fanáticos religiosos ensandecidos.

De Zé Bobinho e Tolice nem sabem onde fica a Síria. Nunca leram com profundidade sobre as razões do conflito.  Não entendem absolutamente nada a respeito de como funciona o mundo.

É sandice travestida de compaixão.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

O ALEGORISTA, A HIENA E O PEDERASTA

Pseudo-Barnabé, autor cristão de uma epístola escrita no final do século I, tenta explicar as razões da restrição à carne de lebre e de hiena, como prevista (apenas a da lebre) nos livros bíblicos de Levítico e Deuteronômio (Lv 11,6; Dt 14,7). Saiu-se com esta: 
Também "não comerás a lebre". Por que razão? Isso quer dizer: não serás pederasta, nem imitarás aqueles que são assim. Porque a lebre, a cada ano, multiplica seu ânus. Ela tem tantos orifícios quanto o número de seus anos. Também "não comerás a hiena". Isso quer dizer: não serás nem adúltero, nem homossexual, e não te assemelharás àqueles que são assim. Por que razão? Porque esse animal muda de sexo todos os anos e torna-se ora macho, ora fêmea (Epístola de Barnabé, X).
Ao final vem a explicação de seu método de interpretação: “Moisés, tendo recebido tríplice ensinamento sobre os alimentos, usou linguagem simbólica. Eles [os judeus], porém, o entenderam sobre os alimentos materiais, por causa do desejo carnal”.

A história da dupla sexualidade das hienas é conhecida desde a antiguidade. Aristóteles (alguns séculos antes do pseudo-Barnabé) já havia demonstrado em De generatione animalium e Historia animalium (Arist. Ga 3.6, 757a7-12) que tal percepção não passa de uma ilusão de ótica.


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

A CRISTOLOGIA DE RATZINGER COM FABRÍCIO VELIQ

Nesta entrevista ao programa Religare, Fabrício Veliq fala da cristologia de Ratzinger; de seu embate contra a teologia da libertação (que usa como princípio hermenêutico a "perigosa" filosofia marxista); da relação entre história, razão e fé (fala de Bultmann, portanto); da discussão entre o Jesus da fé versus Jesus histórico (fala de Reimarus, de Strauss, de Albert Schweitzer, de Käsemann, de Ebeling, de Joachim Jeremias, de Theissen e de Crossan); e de fideísmo. 




Jones F. Mendonça

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

A EVOLUÇÃO DA SABEDORIA EM QUATRO ESTÁGIOS

Quando colocados lado a lado, textos de Provérbios e Eclesiastes - ambos classificados como textos sapienciais - revelam contrastes visivelmente desconcertantes. Se por um lado Pv 14,11 diz convicto que “a casa dos ímpios será destruída, a tenda dos homens retos prosperará” (Pv 14,11), Jó  21,7 lança uma declaração pra lá de inquietante: “Por que os ímpios continuam a viver,  e ao envelhecer se tornam ainda mais ricos?” (Jó 21,7). A comparação entre outros textos sapienciais revela mais contrastes. Os sábios mais antigos, inclinados a perceber a sabedoria como qualidade quase secular (Pv 30 e 31,1-9 tem autoria estrangeira!) dão lugar a escritores que passam a vê-la como qualidade especificamente religiosa e israelita (como em Eclo e Sab, livros deuterocanônicos do século II a.C).

Buscando explicar a evolução da sabedoria israelita, José Luis Sicre propôs quatro estágios:

1. Humanismo internacional: caracterizado pela escrita voltada para a boa educação e governo, é encontrada na Síria, na Mesopotâmia e no Egito, representada em forma de provérbios, fábulas e poemas. Testemunhos da sabedoria estrangeira aparecem, por exemplo, nas “Palavras de Agur, filho de Jaces, o massaíta” (Pv 30) e nas “palavras de Lemuel, rei de Massá” (Pv 31,1-9).

2. Sabedoria israelita desde as origens até o século VI: Textos genuinamente israelitas. O prólogo de Jotão (Jz 9,8-15), considerado como a crítica mais feroz ao sistema monárquico é um exemplo de texto de sabedoria israelita mais antiga. Outros enfoques desse período, particularmente ligados à corte, são: a) a sabedoria como dom que se pede a Deus (1Rs 3,1-14), b) o governo do povo e a administração da justiça (1Rs 3,5-12.16-28), c) a capacidade de tomar decisões adequadas como a construção do templo (1Rs 5,21), d) o conhecimento enciclopédico (1Rs 5,9-14; 10,-19). São também desse período narrativas com conteúdo sapiencial, como a história de José (Gn 37-) e trechos do livro de Provérbios, principalmente os capítulos 10-29 (textos marcados pelo otimismo/teologia da retribuição/exaltação de virtudes como a modéstia e crítica a faltas como o orgulho).

3. Crise dos séculos V-III: Inserem-se nesse período os livros de e Eclesiastes (Qohelet). Estes livros põem em dúvida a validez dos resultados conseguidos por seus antecessores e se distanciam de seu otimismo, daí a expressão “crise da sabedoria”. Dessa crise brotam duas formas de crítica: a) Crítica que nasce da dor: Jó rejeita a teologia da retribuição de Elifaz (Jó 21,7 contra Elifaz em Jó 15,20-24) e faz questionamentos perturbadores em 21,34 e 9,22-24; b) Crítica que nasce da falta de sentido da vida: O livro chega até mesmo a criticar a sabedoria, declarando que “muita sabedoria, muito desgosto; quanto mais conhecimento, mais sofrimento” (1,18). Ver ainda Ecl 2,24; 3,12.22; 5,17; 8,15; 9,7-10. É possível que esta crise tenha antecedentes remotos, como em Jeremias “Por que prosperam os ímpios e vivem em paz os traidores?” (12,1) contrastando com textos do período anterior: “A casa dos ímpios será destruída, a tenda dos homens retos prosperará” (Pv 14,11); “Na casa do justo há abundância, mas o rendimento do ímpio é fonte de inquietação” (Pv 15,6). A experiência, grande mestre da sabedoria, demonstra que possuir determinadas virtudes não garante o sucesso.

4. Etapa final (século II-): Nesta última etapa são incluídas duas obras: Eclesiástico (ou Sirácida) e Sabedoria de Salomão (apócrifos/deuterocanônicos). A elas deve ser acrescentada uma parte de Provérbios (Pv 1-9). Três pontos se destacam como especialmente interessantes neste período: a) Atitude ante a cultura grega (Sab 2,1-3); b) Importância crescente da história (Eclo 44-50); c) Personificação da sabedoria em três fases: objeto de extremo valor (Jó 28); Mulher que fala em público (Pv 1-9); Personificação/metáfora/hipostase (Eclo 24; Sb 7,22-30). Nos livros anteriores, a sabedoria é uma qualidade quase secular que não conhece fronteiras nacionais; nestes últimos, toma-se uma qualidade especificamente religiosa e israelita (ou judaica, considerando que essas obras são do século II a.C.).


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

ÊXODO 24 E AS TRADIÇÕES JAVISTA, ELOÍSTA E SACERDOTAL

Qualquer pessoa que faça uma leitura atenta de Ex 24 percebe que há algo estranho no texto. A ordem dos acontecimentos é confusa, os personagens parecem mudar de um verso para o outro, os nomes divinos variam entre elohim e Javé, as tábuas da Lei ora são escritas por Javé, ora por Moisés. Ainda mais estranho é perceber que a montanha (“montanha de elohim” ou “Sinai”?) é escalada diversas vezes por Moisés, que é acompanhado por personagens diferentes.

Mas o texto certamente fará mais sentido caso seja entendido como a junção de quatro tradições diferentes a respeito de um mesmo evento preservado na memória do povo. O texto de Ex 24, quando dividido em cores, ajuda o leitor a perceber isso:

Ex 24,1-2 Ele disse a Moisés: "Sobe a Javé, tu, Aarão, Nadab, Abiú e setenta anciãos de Israel, e adorareis de longe. 2 Só Moisés se aproximará de Javé; os outros não se aproximarão, nem o povo subirá com ele [Tradição javista]." 

Ex 24,3-8 Veio, pois Moisés e referiu ao povo todas as palavras de Javé e todas as leis, e todo o povo respondeu a uma só voz: "Nós observaremos todas as palavras ditas por Javé." 4 Moisés escreveu todas as palavras de Javé; e levantando-se de manhã, construiu um altar ao pé da montanha, e doze esteias para as doze tribos de Israel. 5 Depois enviou alguns jovens dos filhos de Israel, e ofereceram holocaustos e imolaram a Javé novilhos como sacrifícios de comunhão. 6 Moisés tomou a metade do sangue e colocou-a em bacias, e espargiu a outra metade do sangue sobre o altar. 7 Tomou o livro da Aliança e o leu para o povo; e eles disseram: "Tudo o que Javé falou, nós o faremos e obedeceremos." 8 Moisés tomou do sangue e o aspergiu sobre o povo, e disse: "Este é o sangue da Aliança que Javé fez convosco, através de todas essas cláusulas." [Tradição eloísta]

Ex 24,9-11 E Moisés, Aarão, Nadab, Abiú e os setenta anciãos de Israel subiram. 10 Eles viram o elohim de Israel. Debaixo de seus pés havia como um pavimento de safira, tão pura como o próprio céu. 11 Ele não estendeu a mão sobre os notáveis dos filhos de Israel. Eles contemplaram a elohim [“elohim” precedido de artigo] e depois comeram e beberam [Tradição javista].

Ex 24,12-15a Javé disse a Moisés: "Sobe a mim na montanha, e fica lá; dar-te-ei tábuas de pedra — a lei e o mandamento — que escrevi para ensinares a eles." 13 Levantou-se Moisés com Josué, seu servidor; e subiram à montanha de elohim. 14 Ele disse aos anciãos: "Esperai aqui até a nossa volta; tendes convosco Aarão e Hur; quem tiver alguma questão, dirija-se a eles." 15a Depois, Moisés subiu à montanha [Tradição eloísta]. 

Ex 24,15b-18a A nuvem cobriu a montanha. 16 A glória de Javé pousou sobre o monte Sinai, e a nuvem o cobriu durante seis dias. No sétimo dia, Javé chamou Moisés do meio da nuvem. 17 O aspecto da glória de Javé era, aos olhos dos filhos de Israel, como um fogo consumidor no cimo da montanha. 18a Moisés, entrando pelo meio da nuvem, subiu à montanha [tradição sacerdotal].

Ex 24,118b E Moisés permaneceu na montanha quarenta dias e quarenta noites [Tradição eloísta].


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

TOLICE E O CORPO

Tolice possui curiosos poderes.
Quer ser nervo: converte tudo em dor.
Quer ser língua: converte tudo em detração.
Quer ser fígado: converte tudo em amargura.
Quer ser mão: converte tudo em agressão.
Quer ser víscera: converte tudo em sordidez.
Quer ser cérebro: converte tudo em depressão.
Quer ser coração: [...]  
Não quer.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 18 de agosto de 2015

NÃO, NÃO HAVERÁ NOVA REFORMA PROTESTANTE

Lutero no leito de morte
É um erro pensar que haverá nova Reforma protestante. Quando Lutero divulgou suas 95 teses contra as indulgências desejava corrigir crenças e práticas que percebia como equivocadas no âmbito do catolicismo popular. Não foi uma repreensão ao Papa ou à Curia romana, mas aos “sacerdotes desajuizados” (Tese 10), aos “apregoadores de indulgências” (Tese 21), aos “ludibriadores do povo” (Tese 24) e aos “bispos, padres e teólogos (Tese 80). Embora tenha uma dimensão moral, o que caracterizou a Reforma foram as críticas de cunho teológico.

Após perder a inocência, Lutero percebeu que a liderança da Igreja endossava as práticas que via como perversão da verdadeira doutrina. O monge agostiniano foi excomungado, adotado astutamente pelos príncipes e a Reforma teve êxito. E o que significa que a Reforma teve êxito? Significa que ao invés de uma igreja apenas, surgiram duas (alguns dias depois, múltiplas!). A primeira submissa ao papado. A segunda embalada pelo livre Exame das Escrituras. Ora, sendo o exame e a interpretação livres, caiu por terra qualquer tentativa de mediação entre Deus e os homens. A cada esquina e a cada segundo foram surgindo novos líderes de novas igrejas alegando agir segundo a orientação Espírito.

Quando alguém anuncia a necessidade de uma nova Reforma fico pensando: em que consiste esse apelo? Se a ideia é condenar os ensinamentos do reformador alemão é preciso lembrar que isso já foi feito no Concílio de Trento pelos católicos (1545-1563). Se a ideia é reafirmar ideias de Lutero basta que o sujeito opte por pertencer a alguma igreja luterana. Se a ideia é criar algo novo, diferente do que ensinam os católicos ou os protestantes históricos, basta que crie uma nova igreja, baseada numa nova doutrina (que tal “A igreja verdadeira”?). Mas se a opção for pela última alternativa, será preciso ter em mente que há muitos, mas muitos fazendo isso. Será apenas mais uma manjubinha no vasto oceano da cristandade.


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

MINHA EXPERIÊNCIA COM O KINDLE PAPERWHITE [AVALIAÇÃO]

Há mais de um mês utilizando o Kindle Paperwhite, exponho minhas impressões aos interessados em adquirir um leitor de e-books:

Vantagens sobre o livro impresso:

1. Carregue muitos livros e/ou apostilas num só dispositivo;
2. Envie documentos/livros em PDF/Word por e-mail para o dispositivo com possibilidade de conversão automática (basta escrever “convert” no assunto);
3. Compre livros com apenas um toque na tela e receba sua aquisição em apenas alguns segundos (é possível bloquear a opção “compras” com uma senha);
4. Leia seus livros em ambientes diversos, com muita ou pouca luz. A tela do dispositivo é anti-reflexiva (leia na praia) e conta com iluminação embutida (leia no escuro);
5. Embora o preço do e-book não seja tão mais baixo que o do livro impresso, há promoções de cair o queixo;
6. Use o dispositivo por semanas sem a necessidade de recarga;

Desvantagens:

1. Como o dispositivo tem apenas 7” polegadas, as páginas são reduzidas, o que torna impraticável a leitura de livros ilustrados (para piorar a reprodução é em PB e as imagens tem baixa resolução);
2. A variedade de livros em formato digital ainda é pequena.
3. Até onde sei a ABNT ainda não criou regras para a citação de e-books em trabalhos acadêmicos (o nr de páginas do e-book não segue o do livro impresso).
4. E o mais grave: o Kindle não tem cheiro e nem textura de papel! (essa é piada, claro).


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

AS MULHERES, O CICLO MENSTRUAL E AS ABELHAS

Pesquisa que vou fazendo a respeito do papel reservado à mulher nas religiões e culturas do mundo. Abaixo trechos sobre o ciclo menstrual:

Na Bíblia hebraica: “Se um homem coabitar com ela, e a sua menstruação estiver sobre ele, será imundo por sete dias; e toda cama sobre que ele se deitar será imunda” (Lv 15,24).

No Talmude: "Se uma mulher menstruada passa entre dois [homens], se for no início de sua menstruação, ela vai matar um deles, e se for no final de sua menstruação, ela vai causar discórdia entre eles "(b. Pesah. 111a);

No Corão: “Então, apartai-vos das mulheres durante a menstruação, e não vos unais a elas até se purificarem. E, quando se houverem purificado, achegai-vos a elas por onde Allah vos ordenou. Por certo, Allah ama os que se voltam para Ele arrependidos, e ama os purificados”(2,222).

No código de Manu (hindu): “Porque perecerão a sabedoria, a energia, a força, a vista, e a vitalidade de um homem que se aproxima de uma mulher coberta com excreções menstruais” (4,41).

Na teologia católica medieval (Tomás de Aquino): “o olhar de uma mulher menstruada pode rachar e embaçar um espelho” (Aquino, Liber de veritate catholicae fidei contra errores infidelium seu summa contra gentiles).

Para encerrar, a opinião de Plínio, o velho (23-79 d.C.):Na realidade, seria uma questão difícil encontrar algo capaz de produzir efeitos tão maravilhosos quanto o fluxo menstrual. Diante da aproximação de uma mulher neste estado o leite se tornará azedo, sementes tocadas por ela se tornarão estéreis, enxertos definharão, plantas de jardim secarão e o fruto da árvore sob a qual ela se senta cairá. Seu olhar tornará escuro o brilho de espelhos, sem corte o fio da navalha, sem lustro o marfim. Um enxame de abelhas, se encarado por ela, morrerá imediatamente; cobre e ferro vão se tornar instantaneamente enferrujados, produzindo um odor repugnante” (Plin. Nat. 7.13).


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

TEOLOGIA PENTECOSTAL: ENTRE A RESISTÊNCIA E A SUBMISSÃO

O movimento pentecostal possui dois fundadores: Charles Fox Parham (1873-1829) e Willian Joseph Seymour (1870-1922). O primeiro era branco, racista simpatizante da Ku-Klux-Klan e entusiasmado com a glossolalia como evidência da atuação sobrenatural do Espírito. O segundo, seu aluno, era negro filho de ex-escravos e entusiasmado com a superação das raças e classes sociais.

Seymour tinha ideias revolucionárias. Introduziu música de raiz africana - o negro spirituals - na liturgia do culto, buscou igualdade entre bispos brancos e operários negros e entre professores brancos e lavadeiras negras. As igrejas históricas, dirigidas e formadas por brancos, desprezaram o movimento por causa do status social de seus integrantes e de seu “profeta negro”. O tempo passou e esse lado contestador do pentecostalismo foi sendo posto de lado.

Mas na década de 60 o evangelista pentecostal Arthur Brazier (1921-2010) fez renascer com muita vitalidade a crítica social nos sermões pentecostais. Disposto a destruir o mito da supremacia moral e intelectual dos brancos, Brazier afirmava que os EUA foram construídos nas costas dos negros, povo cujo sangue havia sido derramado nas plantações de algodão e nas estradas de ferro que cortavam o país. Brazier estava ao lado de Martin Luther King Jr. quando este saiu pelas ruas protestando contra a segregação racial.

Quando ouço um pastor pentecostal dizendo que os negros descendem de Cam, filho maldito de Noé, fico pensando: o que deu errado?


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

OLHOS DE BELADONA

Tolice foi possuída pela altivez.
Coloriu os lábios,
dilatou as pupilas,
aprumou o corpo torneado,
vagou pelo salão flutuando como medusa marinha.

Mas o salto era alto,
o piso irregular,
o sonho para além das nuvens,
os olhos embaçados pela beladona.
Sua boca, enfim, beijou aquilo que sua alma tanto anela: o chão.


Jones F. Mendonça