Afundou-as no esconderijo da derme,
na confusão das memórias,
sob escudos impérvios,
em quietude abismal.
Mas era memória viva,
agonia explosiva,
lembrança ativa,
prisão em convulsão.
Ao toque do sino,
sob branda brisa,
expandiu fronteiras
com o vigor de mil sóis.
Jones F. Mendonça
terça-feira, 22 de setembro de 2015
quinta-feira, 17 de setembro de 2015
A HISTÓRIA POLITICAMENTE INCORRETA DA REFORMA PROTESTANTE
Zé Bobinho toma emprestada uma coleção das obras de Lutero.
Pensa consigo mesmo: “o reformador deve ter linguajar e retórica magníficas, dignas de
serem imitadas nos púlpitos”. Senta-se confortavelmente numa almofada e inicia sua
leitura.
Com os olhos estatalados e o dedo lambuzado de saliva vai
folheando páginas ao acaso. Percebe então que sob a pena de Lutero os nomes de seus desafetos
vão ganhando novas formas. O teólogo católico [John] Eck se transforma em Dreck (sujeira) ou Dr Sau (porca);
Muntzer é alterado para Murnarr (tolo); Cochlaeus converte-se em Rotslöffel
(colher de meleca); o duque de Braunschweig é tratado como Hanswerst (palhaço); papistas como “asnos” e a igreja romana como “prostituta”.
Ainda atordoado Bobinho apanha outra obra e se depara com esta confissão do reformador: “Nunca progrido melhor na
oração, pregação e redação do que quando me enfureço. De fato, a ira... aguça o
espírito e caça as tentações” (WA TR 2, 455, nº 2410).
Bobinho fecha o livro perplexo após se dar conta de que o "rapá", o "malandro" e o "funicar" de Malafaia são insignificantes perto das expressões ainda mais toscas empregadas pelo reformador alemão.
Bobinho fecha o livro perplexo após se dar conta de que o "rapá", o "malandro" e o "funicar" de Malafaia são insignificantes perto das expressões ainda mais toscas empregadas pelo reformador alemão.
Jones F. Mendonça
segunda-feira, 14 de setembro de 2015
TRIBALISMO E SECTARISMO NO ORIENTE MÉDIO
Khaleb Diab, escritor e jornalista belga-egípcio, contesta a tese de que a instabilidade no Oriente Médio deve-se às suas fronteiras
artificiais e aos diversos grupos sectários que os colonizadores foram
incapazes de conter. Ele explica:
Não há um país na Europa cujos limites não são artificiais, cujas fronteiras do passado não se sobrepõem com as de seus vizinhos e cuja população não é uma mistura confusa de povos.
E conclui: “O tribalismo é o sintoma, e não a causa, dos
males do Oriente Médio”. Dentre as diversas causas, estariam a incompetência dos governantes, a dominação estrangeira, a pobreza, etc. Ele destaca que a grande diferença é que a Europa têm
conseguido conter esse “tribalismo” (como o nacionalismo, as tensões raciais e
religiosas, etc.) e o Oriente Médio, ao contrário, tem, fracassado.
Leia o texto completo no Al-Jazeera:
Jones F. Mendonça
O EXEMPLO QUE VEM DO LÍBANO
Um quarto da população do Líbano - país com economia pequena
- é formada por refugiados sírios. Eu disse um quarto! O país recebeu mil vezes
mais refugiados que a Inglaterra. Então, como assim a Europa vai entrar em
colapso com a chegada de refugiados?
Informações oficiais sobre os refugiados no Líbano aqui:
Jones F. Mendonça
EM NOME DOS VALORES CRISTÃOS: MORTE AOS INFIÉIS
De acordo com o evangelho de Marcos (7,11) os fariseus encontraram
um bom argumento para negar um pouco de solidariedade aos pais. Diziam que seus
bens haviam sidos consagrados a Deus (corban). Ah, quanta piedade!
Parte da liderança europeia (e cristã brasileira) aprendeu a lição direitinho. Diz
que deve rejeitar os refugiados - em sua maioria muçulmanos - para preservar os
valores cristãos. Ao fechar suas portas revela que tais valores já se
esgotaram. Ou sequer existiram...
Jones F. Mendonça
ZÉ BOBINHO E OS REFUGIADOS
Zé Bobinho, desinformado que só, grita aos quatro ventos que
os refugiados sírios devem migrar para países do Oriente Médio e não para a Europa, "bastião dos mais nobres valores cristãos".
Mas o que Bobinho não sabe é que 95% dos 4 milhões de sírios
que deixaram o país estão justamente em apenas cinco países do Oriente
Médio: Turquia, Líbano, Jordânia, Iraque e Egito. A informação é da Anistia Internacional.
Bobinho não aprende. Continua interpretando o mundo pelas
lentes blogs apologéticos cristãos como o Genizah, Júlio Severo e Braulia Ribeiro.
Jones F. Mendonça
JESUS FALAVA GREGO?
Boa parte dos estudiosos aceita o aramaico (língua aparentada com o hebraico) como sendo o idioma falado por Jesus. Mas para G. Scott
Gleaves, professor na Universidade Faulkner, Alabama, a língua mais falada e
escrita na Palestina do primeiro século era o grego:
Ao contrário dos estudos atuais, acho que o grego era mais amplamente utilizado, tanto na forma escrita como oral, por Jesus, seus discípulos e os judeus que habitavam Palestina do primeiro século.
Jones F. Mendonça
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
BRAULIA RIBEIRO E SUA TEOLOGIA DA INDIFERENÇA
Nas extremidades do cabo de força que atravessa a Síria há dois
pilares principais de potências militares: a) Russia e Irã apoiam o ditador Bashar al-Assad;
b) EUA e alguns países europeus depositam suas fichas nos rebeldes que querem
derrubá-lo. Esses dois principais grupos de interesse agem, de forma bastante simplificada, do seguinte modo:
Grupo 01 (Rússia/Irã) - Embora seja um ditador sanguinário, Assad mantém um governo
laico que sempre protegeu minorias religiosas, tais como cristãos, drusos, alawítas
e xiitas. A Rússia marca sua presença na Síria no porto de Tartus, sua única
base naval no Mediterrâneo. O Irã age no país armando o Hezbollah, grupo
paramilitar libanês.
Grupo 02 (EUA/Europa) - EUA e Europa, ávidos pela queda do ditador, estão dispostos
inclusive a apoiar rebeldes extremistas para alcançar seus interesses. A
pergunta é: sem Assad a vida na Síria será melhor ou seu destino será
semelhante ao da caótica Líbia depois da queda de Kaddafi pela intervenção
militar da NATO em 2011?
No meio dessa disputa está o povo, que atravessa desertos e mares
na esperança de encontrar uma terra segura para viver. Quem atribui a culpa
pelo conflito a apenas um país, religião, governante ou grupo armado ignora ou finge ignorar os diversos fatores que fizeram da Síria uma canoa à deriva num oceano em revolta.
Ontem, enquanto lia (com embrulho no estômago) texto escrito
pela missionária ex-presidente da missão JOCUM no Brasil, Braulia Ribeiro (Título: “Não tenho culpa pela tragédia do menino sírio”), deparei-me com esta frase referindo-se aos refugiados sírios: “vão
se entrincheirar em guetos culturais e exigir a prática legal da Lei Sharia” [para
quem não sabe, a Lei Sharia é a lei islâmica]. Mais adiante diz: “O culpado
único desta tragédia é o islamismo em todas as suas formas, radicais ou não”
(destaque para “radicais ou não”).
É claro, óbvio, que a Europa precisa ter cuidado com
refugiados que atravessam suas fronteiras, sejam eles muçulmanos,
cristãos, budistas, etc. Mas Braulia trata todos os fugitivos da guerra como se fossem
fundamentalistas defensores de um Estado governado pela lei islâmica. Enxerga o
conflito como se fosse o resultado de um agente apenas: o islamismo. Tem visão atomizante
e reducionista do mundo. Revela uma percepção manca da realidade.
Jones F. Mendonça
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
SOBRE CRISTÃOS INCESTUOSOS E COMEDORES DE CRIANCINHAS
Nos primeiros séculos os cristãos foram acusados pelos
romanos de comer a carne e beber o sangue de criancinhas. Encontraram até texto
bíblico provando a prática: “se não comerdes a carne do filho do homem e não
beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós” (Jo 6,53).
Os romanos, ignorantes (e com boa dose de maldade) a
respeito dos costumes cristãos, entenderam a expressão “filho do homem” como
sendo uma referência às crianças. Resultado: cristãos comem a carne e bebem o
sangue de crianças. Havia ainda outra acusação injusta: tratar a própria mulher
como “irmã” foi entendido como evidência de que praticavam incesto.
Ontem os cristãos foram vítimas da ignorância dos romanos. Hoje,
quando fazem declarações preconceituosas (e, em muitos casos, com boa dose de
maldade) a respeito de adeptos de outras religiões, agem com a mesma
perversidade de seus antigos algozes.
Ter um pouquinho de consciência histórica e bom senso não
faz mal a ninguém.
Jones F. Mendonça
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
A PAIXÃO DE CRISTO EM QUATRO IMAGENS
Como pequeno
passatempo coleciono imagens do Cristo nos momentos mais dramáticos da paixão. Interessa-me o modo como como essas cenas foram sendo representadas ao longo da história. Abaixo quatro
imagens particularmente interessantes:
1. Amuleto com a
representação do Cristo crucificado numa gema de jaspe vermelha e verde datada
para o II-III século. A cena da crucificação é rara nos primeiros séculos do
cristianismo. Eram mais comuns as cenas mostrando seu triunfo sobre a morte.
2. Este Cristo
crucificado (Crucifixo Gero), do final do século X, retrata Cristo não como vencedor
da morte, mas como homem nas profundezas da humilhação, tema que se torna comum
apenas a partir do século XII. Foi talhado em madeira para o arcebispo Gero
(969-976).
3. Esta tela
medieval (“Cristo coroado de espinhos”, por Fra Angelico, 1438-1439.), ao invés de
destacar a dor física, valoriza a angústia do Crucificado. Os olhos avermelhados
e a expressão facial transmitem com extrema intensidade o horror e a agonia da
crucificação. Remete um observador familiarizado com os Evangelhos ao texto de Mc
13,34: “minha alma está triste até a morte”.
4. A última imagem
é uma escultura, “O Cristo torturado” (1975), do artista brasileiro Guido Rocha. Sua
história como perseguido político na época das ditaduras latino americanas
certamente deixou marcas na obra.
Jones F. Mendonça
sábado, 5 de setembro de 2015
40 MAPAS QUE EXPLICAM O ORIENTE MÉDIO
Está com dificuldade para entender todos os conflitos no Oriente Médio? Que tal esta página recheada de mapas e informações:
Jones F. Mendonça
OS HEBREUS E O PINGOLIM
![]() |
| Por Marc Chagall |
Algo curioso no universo linguístico hebraico é o uso de eufemismos para designar o órgão sexual masculino.
Em Ex 28,42 o “pingolim” é chamado de “carne” (basar); em Lv 18,6 é tratado de forma genérica como “partes íntimas” (ervah); em 2Rs 18,28 aparece como “pé” ou “perna” (reguel); em Dt 23,1 vem como “tubo” (shofkha); em Is 57,8 como “mão” (yad) e em Hb 2,15 como “me’or (nudez).
Em Ex 28,42 o “pingolim” é chamado de “carne” (basar); em Lv 18,6 é tratado de forma genérica como “partes íntimas” (ervah); em 2Rs 18,28 aparece como “pé” ou “perna” (reguel); em Dt 23,1 vem como “tubo” (shofkha); em Is 57,8 como “mão” (yad) e em Hb 2,15 como “me’or (nudez).
No judaísmo tardio (era cristã) surgiram novos eufemismos, tais como “face interior” (panin mata shel); “órgão” (evar); “dedo médio” (ama) ou simplesmente “dedo” (etzba).
No que diz
respeito a palavra reguel (pé)
com sentido de “pênis”,
é possível
que Rute, quando chega de mansinho perto do Boaz embriagado e “descobre seus pés”
tenha na verdade tirado a roupa dele e se deitado. Outra possibilidade é que Rute tenha "se descoberto"
aos pés dele (e não "os pés
dele") e deitado (neste caso não
haveria eufemismo). O verso 8 parece reforçar
a segunda tese. A versão
tradicional "descobriu os pés
dele e se deitou" não
faz qualquer sentido.
Jones F. Mendonça
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
SANDICE NO BAILE DE MÁSCARAS
A guerra na Síria já matou, por baixo, 200 mil pessoas desde
seu início em 2011. Imagine o monte de tripas e sangue que já mancharam aquela
terra. Então a mídia mostra o corpo de um menino morto. Um apenas. E o mundo
acorda.
Zé Bobinho está indignado. Resolveu escrever uma carta ao
presidente dos EUA. Exige que o governo envie tropas à Síria e acabe com Bashar
al-Assad, aquele “ditador sanguinário”.
Tolice, sua esposa, também faz intensa campanha. Quer que os
marines americanos destruam com suas poderosas bombas o Estado Islâmico, aquele
grupo de fanáticos religiosos ensandecidos.
De Zé Bobinho e Tolice nem sabem onde fica a Síria. Nunca
leram com profundidade sobre as razões do conflito. Não entendem absolutamente nada a respeito de
como funciona o mundo.
É sandice travestida de compaixão.
Jones F. Mendonça
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
O ALEGORISTA, A HIENA E O PEDERASTA
Pseudo-Barnabé, autor cristão de uma epístola escrita no
final do século I, tenta explicar as razões da restrição à carne de lebre e de
hiena, como prevista (apenas a da lebre) nos livros bíblicos de Levítico e Deuteronômio
(Lv 11,6; Dt 14,7). Saiu-se com esta:
Também "não comerás a lebre". Por que razão? Isso quer dizer: não serás pederasta, nem imitarás aqueles que são assim. Porque a lebre, a cada ano, multiplica seu ânus. Ela tem tantos orifícios quanto o número de seus anos. Também "não comerás a hiena". Isso quer dizer: não serás nem adúltero, nem homossexual, e não te assemelharás àqueles que são assim. Por que razão? Porque esse animal muda de sexo todos os anos e torna-se ora macho, ora fêmea (Epístola de Barnabé, X).
Ao final vem a explicação de seu método de interpretação: “Moisés,
tendo recebido tríplice ensinamento sobre os alimentos, usou linguagem
simbólica. Eles [os judeus], porém, o entenderam sobre os alimentos materiais,
por causa do desejo carnal”.
A história da dupla sexualidade das hienas é conhecida desde a antiguidade. Aristóteles (alguns séculos antes do pseudo-Barnabé) já havia demonstrado em De generatione animalium e Historia animalium (Arist. Ga 3.6, 757a7-12) que tal percepção não passa de uma ilusão de ótica.
Jones F. Mendonça
segunda-feira, 31 de agosto de 2015
A CRISTOLOGIA DE RATZINGER COM FABRÍCIO VELIQ
Nesta entrevista ao programa Religare, Fabrício Veliq fala da
cristologia de Ratzinger; de seu embate contra a teologia da libertação (que
usa como princípio hermenêutico a "perigosa" filosofia marxista); da relação entre história,
razão e fé (fala de Bultmann, portanto); da discussão entre o Jesus da fé
versus Jesus histórico (fala de Reimarus, de Strauss, de Albert Schweitzer, de
Käsemann, de Ebeling, de Joachim Jeremias, de Theissen e de Crossan); e de fideísmo.
Jones F. Mendonça
quinta-feira, 27 de agosto de 2015
A EVOLUÇÃO DA SABEDORIA EM QUATRO ESTÁGIOS
Quando colocados lado a lado, textos de Provérbios e
Eclesiastes - ambos classificados como textos sapienciais - revelam contrastes visivelmente
desconcertantes. Se por um lado Pv 14,11 diz convicto que “a casa dos ímpios será
destruída, a tenda dos homens retos prosperará” (Pv 14,11), Jó 21,7 lança
uma declaração pra lá de inquietante: “Por que os ímpios continuam
a viver, e ao envelhecer se tornam ainda
mais ricos?” (Jó 21,7). A comparação entre outros textos sapienciais revela
mais contrastes. Os sábios mais antigos, inclinados a perceber a
sabedoria como qualidade quase secular (Pv 30 e 31,1-9 tem autoria
estrangeira!) dão lugar a escritores que passam a vê-la como qualidade especificamente
religiosa e israelita (como em Eclo e Sab, livros deuterocanônicos do século II
a.C).
Buscando explicar a evolução da sabedoria israelita, José
Luis Sicre propôs quatro estágios:
1. Humanismo
internacional: caracterizado pela escrita voltada para a boa educação e
governo, é encontrada na Síria, na Mesopotâmia e no Egito, representada em
forma de provérbios, fábulas e poemas. Testemunhos da sabedoria estrangeira
aparecem, por exemplo, nas “Palavras
de Agur, filho de Jaces, o massaíta” (Pv 30) e nas “palavras de Lemuel, rei de Massá”
(Pv 31,1-9).
2. Sabedoria
israelita desde as origens até o século VI: Textos genuinamente israelitas.
O prólogo de Jotão (Jz
9,8-15), considerado como a crítica mais feroz ao sistema monárquico é um
exemplo de texto de sabedoria israelita mais antiga. Outros enfoques desse período, particularmente ligados à
corte, são: a) a sabedoria como dom que se pede a Deus (1Rs 3,1-14), b) o
governo do povo e a administração da justiça (1Rs 3,5-12.16-28), c) a
capacidade de tomar decisões adequadas como a construção do templo (1Rs 5,21),
d) o conhecimento enciclopédico (1Rs 5,9-14; 10,-19). São também desse período narrativas com conteúdo sapiencial, como
a história de José (Gn 37-) e trechos
do livro de Provérbios, principalmente os capítulos 10-29 (textos
marcados pelo otimismo/teologia da retribuição/exaltação de virtudes como a
modéstia e crítica a faltas como o orgulho).
3. Crise dos séculos V-III: Inserem-se
nesse período os livros de Jó
e Eclesiastes (Qohelet).
Estes livros põem em dúvida a validez dos resultados conseguidos por seus
antecessores e se distanciam de seu otimismo, daí a expressão “crise da
sabedoria”. Dessa crise brotam duas
formas de crítica: a) Crítica que
nasce da dor: Jó rejeita a teologia da retribuição de Elifaz (Jó 21,7
contra Elifaz em Jó 15,20-24) e faz questionamentos perturbadores em 21,34 e
9,22-24; b) Crítica que nasce da
falta de sentido da vida: O livro chega até mesmo a criticar a
sabedoria, declarando que “muita
sabedoria, muito desgosto; quanto mais conhecimento, mais sofrimento” (1,18).
Ver ainda Ecl 2,24;
3,12.22; 5,17; 8,15; 9,7-10. É
possível que esta crise tenha antecedentes remotos, como em Jeremias “Por que prosperam os
ímpios e vivem em paz os traidores?” (12,1) contrastando com textos do período anterior: “A casa dos ímpios será destruída, a tenda
dos homens retos prosperará” (Pv 14,11); “Na casa do justo há abundância, mas o
rendimento do ímpio é fonte de inquietação” (Pv 15,6). A experiência, grande
mestre da sabedoria, demonstra que possuir determinadas virtudes não garante o
sucesso.
4. Etapa final
(século II-): Nesta última etapa são incluídas duas obras: Eclesiástico (ou Sirácida) e Sabedoria de Salomão (apócrifos/deuterocanônicos).
A elas deve ser acrescentada uma parte de Provérbios (Pv 1-9). Três pontos se
destacam como especialmente interessantes neste período: a) Atitude ante a cultura grega (Sab 2,1-3); b) Importância crescente da história (Eclo 44-50); c) Personificação da sabedoria em três
fases: objeto de extremo valor (Jó 28); Mulher que fala em público (Pv
1-9); Personificação/metáfora/hipostase (Eclo 24; Sb 7,22-30). Nos livros
anteriores, a sabedoria é uma qualidade quase secular que não conhece
fronteiras nacionais; nestes últimos, toma-se uma qualidade especificamente
religiosa e israelita (ou judaica, considerando que essas obras são do século
II a.C.).
Jones F. Mendonça
quarta-feira, 26 de agosto de 2015
ÊXODO 24 E AS TRADIÇÕES JAVISTA, ELOÍSTA E SACERDOTAL
Qualquer
pessoa que faça uma leitura atenta de Ex 24 percebe que há algo estranho no
texto. A ordem dos acontecimentos é confusa, os personagens parecem mudar de um
verso para o outro, os nomes divinos variam entre elohim e Javé, as tábuas da
Lei ora são escritas por Javé, ora por Moisés. Ainda mais estranho é perceber
que a montanha (“montanha de elohim” ou “Sinai”?) é escalada diversas vezes por
Moisés, que é acompanhado por personagens diferentes.
Mas o
texto certamente fará mais sentido caso seja entendido como a junção de quatro
tradições diferentes a respeito de um mesmo evento preservado na memória do
povo. O texto de Ex 24, quando dividido em cores, ajuda o leitor a perceber isso:
Ex
24,1-2 Ele
disse a Moisés: "Sobe a Javé, tu,
Aarão, Nadab, Abiú e setenta anciãos de Israel, e adorareis de longe. 2 Só Moisés se aproximará de Javé; os
outros não se aproximarão, nem o povo subirá com ele [Tradição
javista]."
Ex
24,3-8 Veio, pois Moisés e
referiu ao povo todas as palavras de Javé e todas as leis, e todo o povo
respondeu a uma só voz: "Nós observaremos todas as palavras ditas por Javé." 4 Moisés escreveu todas as palavras de
Javé; e levantando-se de manhã, construiu um altar ao pé da montanha, e doze
esteias para as doze tribos de Israel. 5
Depois enviou alguns jovens dos filhos de Israel, e ofereceram holocaustos e
imolaram a Javé novilhos como sacrifícios de comunhão. 6 Moisés tomou a metade do sangue e
colocou-a em bacias, e espargiu a outra metade do sangue sobre o altar. 7 Tomou o livro da Aliança e o leu
para o povo; e eles disseram: "Tudo o que Javé falou, nós o faremos e
obedeceremos." 8 Moisés
tomou do sangue e o aspergiu sobre o povo, e disse: "Este é o sangue da
Aliança que Javé fez convosco, através de todas essas cláusulas." [Tradição
eloísta]
Ex
24,9-11 E Moisés, Aarão, Nadab, Abiú e os setenta anciãos de Israel subiram. 10 Eles viram o elohim de Israel.
Debaixo de seus pés havia como um pavimento de safira, tão pura como o próprio
céu. 11 Ele não estendeu a mão
sobre os notáveis dos filhos de Israel. Eles contemplaram a elohim [“elohim”
precedido de artigo] e depois comeram e beberam [Tradição
javista].
Ex
24,12-15a Javé
disse a Moisés: "Sobe a mim na montanha, e fica lá; dar-te-ei tábuas de
pedra — a lei e o mandamento — que
escrevi para ensinares a eles." 13
Levantou-se Moisés com Josué, seu
servidor; e subiram à montanha de elohim. 14 Ele disse aos anciãos:
"Esperai aqui até a nossa volta; tendes convosco Aarão e Hur; quem tiver alguma questão, dirija-se a eles." 15a Depois, Moisés subiu à montanha [Tradição eloísta].
Ex
24,15b-18a
A nuvem cobriu a montanha. 16 A
glória de Javé pousou sobre o monte Sinai, e a nuvem o cobriu durante seis
dias. No sétimo dia, Javé chamou Moisés do meio da nuvem. 17 O aspecto da glória de Javé era,
aos olhos dos filhos de Israel, como um fogo consumidor no cimo da montanha. 18a Moisés, entrando pelo meio da
nuvem, subiu à montanha [tradição sacerdotal].
Ex
24,118b E
Moisés permaneceu na montanha quarenta dias e quarenta noites [Tradição eloísta].
Jones F. Mendonça
quinta-feira, 20 de agosto de 2015
TOLICE E O CORPO
Tolice possui curiosos poderes.
Quer ser nervo: converte tudo em dor.
Quer ser língua: converte tudo em detração.
Quer ser fígado: converte tudo em amargura.
Quer ser mão: converte tudo em agressão.
Quer ser víscera: converte tudo em sordidez.
Quer ser cérebro: converte tudo em depressão.
Quer ser coração: [...]
Não quer.
Jones F. Mendonça
terça-feira, 18 de agosto de 2015
NÃO, NÃO HAVERÁ NOVA REFORMA PROTESTANTE
![]() |
| Lutero no leito de morte |
Após perder a inocência, Lutero percebeu que a liderança da
Igreja endossava as práticas que via como perversão da verdadeira doutrina. O
monge agostiniano foi excomungado, adotado astutamente pelos príncipes e a Reforma
teve êxito. E o que significa que a Reforma teve êxito? Significa que ao invés
de uma igreja apenas, surgiram duas (alguns dias depois, múltiplas!). A
primeira submissa ao papado. A segunda embalada pelo livre Exame das
Escrituras. Ora, sendo o exame e a interpretação livres, caiu por terra
qualquer tentativa de mediação entre Deus e os homens. A cada esquina e a cada
segundo foram surgindo novos líderes de novas igrejas alegando agir segundo a
orientação Espírito.
Quando alguém anuncia a necessidade de uma nova Reforma fico
pensando: em que consiste esse apelo? Se a ideia é condenar os ensinamentos do
reformador alemão é preciso lembrar que isso já foi feito no Concílio de Trento
pelos católicos (1545-1563). Se a ideia é reafirmar ideias de Lutero basta que
o sujeito opte por pertencer a alguma igreja luterana. Se a ideia é criar algo
novo, diferente do que ensinam os católicos ou os protestantes históricos,
basta que crie uma nova igreja, baseada numa nova doutrina (que tal “A igreja
verdadeira”?). Mas se a opção for pela última alternativa, será preciso ter em
mente que há muitos, mas muitos fazendo isso. Será apenas mais uma manjubinha no
vasto oceano da cristandade.
Jones F. Mendonça
segunda-feira, 17 de agosto de 2015
MINHA EXPERIÊNCIA COM O KINDLE PAPERWHITE [AVALIAÇÃO]
Há mais de um mês utilizando o Kindle Paperwhite, exponho minhas
impressões aos interessados em adquirir um leitor de e-books:
Vantagens sobre o livro impresso:
1. Carregue muitos livros e/ou apostilas num só dispositivo;
2. Envie documentos/livros em PDF/Word por e-mail para o
dispositivo com possibilidade de conversão automática (basta escrever “convert”
no assunto);
3. Compre livros com apenas um toque na tela e receba sua
aquisição em apenas alguns segundos (é possível bloquear a opção “compras” com
uma senha);
4. Leia seus livros em ambientes diversos, com muita ou
pouca luz. A tela do dispositivo é anti-reflexiva (leia na praia) e conta com
iluminação embutida (leia no escuro);
5. Embora o preço do e-book não seja tão mais baixo que o do
livro impresso, há promoções de cair o queixo;
6. Use o dispositivo por semanas sem a necessidade de
recarga;
Desvantagens:
1. Como o dispositivo tem apenas 7” polegadas, as páginas
são reduzidas, o que torna impraticável a leitura de livros ilustrados (para
piorar a reprodução é em PB e as imagens tem baixa resolução);
2. A variedade de livros em formato digital ainda é pequena.
3. Até onde sei a ABNT ainda não criou regras para a citação
de e-books em trabalhos acadêmicos (o nr de páginas do e-book não segue o do
livro impresso).
4. E o mais grave: o Kindle não tem cheiro e nem textura de papel! (essa é piada, claro).
Jones F. Mendonça
quinta-feira, 13 de agosto de 2015
AS MULHERES, O CICLO MENSTRUAL E AS ABELHAS
Pesquisa que vou fazendo a respeito do papel reservado à
mulher nas religiões e culturas do mundo. Abaixo trechos sobre o ciclo
menstrual:
Na Bíblia hebraica:
“Se um homem coabitar com ela, e a sua menstruação estiver sobre ele, será
imundo por sete dias; e toda cama sobre que ele se deitar será imunda” (Lv
15,24).
No Talmude:
"Se uma mulher menstruada passa entre dois [homens], se for no início de
sua menstruação, ela vai matar um deles, e se for no final de sua menstruação,
ela vai causar discórdia entre eles "(b. Pesah. 111a);
No Corão: “Então,
apartai-vos das mulheres durante a menstruação, e não vos unais a elas até se
purificarem. E, quando se houverem purificado, achegai-vos a elas por onde
Allah vos ordenou. Por certo, Allah ama os que se voltam para Ele arrependidos,
e ama os purificados”(2,222).
No código de Manu
(hindu): “Porque perecerão a sabedoria, a energia, a força, a vista, e a
vitalidade de um homem que se aproxima de uma mulher coberta com excreções
menstruais” (4,41).
Na teologia católica
medieval (Tomás de Aquino): “o olhar de uma mulher menstruada pode rachar e
embaçar um espelho” (Aquino, Liber de veritate catholicae fidei contra errores infidelium seu summa contra gentiles).
Para encerrar, a
opinião de Plínio, o velho (23-79 d.C.): “Na realidade, seria
uma questão difícil encontrar algo capaz de produzir efeitos tão maravilhosos quanto o fluxo menstrual. Diante da aproximação de uma mulher neste estado o leite se tornará
azedo, sementes tocadas por ela se tornarão estéreis, enxertos definharão,
plantas de jardim secarão e o fruto da árvore sob a qual ela se senta cairá.
Seu olhar tornará escuro o brilho de espelhos, sem corte o fio da navalha, sem lustro
o marfim. Um enxame de abelhas, se encarado por ela, morrerá imediatamente;
cobre e ferro vão se tornar instantaneamente enferrujados, produzindo um odor repugnante”
(Plin. Nat. 7.13).
Jones F. Mendonça
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
TEOLOGIA PENTECOSTAL: ENTRE A RESISTÊNCIA E A SUBMISSÃO
O movimento pentecostal possui dois fundadores: Charles Fox
Parham (1873-1829) e Willian Joseph Seymour (1870-1922). O primeiro era branco,
racista simpatizante da Ku-Klux-Klan e entusiasmado com a glossolalia como
evidência da atuação sobrenatural do Espírito. O segundo, seu aluno, era negro
filho de ex-escravos e entusiasmado com a superação das raças e classes
sociais.
Seymour tinha ideias revolucionárias. Introduziu música de raiz africana - o negro spirituals - na
liturgia do culto, buscou igualdade entre bispos brancos e operários negros e
entre professores brancos e lavadeiras negras. As igrejas históricas, dirigidas
e formadas por brancos, desprezaram o movimento por causa do status social de
seus integrantes e de seu “profeta negro”. O tempo passou e esse lado
contestador do pentecostalismo foi sendo posto de lado.
Mas na década de 60 o evangelista pentecostal Arthur Brazier
(1921-2010) fez renascer com muita vitalidade a crítica social nos sermões
pentecostais. Disposto a destruir o mito da supremacia moral e intelectual dos
brancos, Brazier afirmava que os EUA foram construídos nas costas dos negros, povo
cujo sangue havia sido derramado nas plantações de algodão e nas estradas de
ferro que cortavam o país. Brazier estava ao lado de Martin Luther King Jr. quando
este saiu pelas ruas protestando contra a segregação racial.
Quando ouço um pastor pentecostal dizendo que os negros
descendem de Cam, filho maldito de Noé, fico pensando: o que deu errado?
Jones F. Mendonça
quinta-feira, 6 de agosto de 2015
OLHOS DE BELADONA
Tolice foi possuída pela altivez.
Coloriu os lábios,
dilatou as pupilas,
aprumou o corpo torneado,
vagou pelo salão flutuando como medusa marinha.
Mas o salto era alto,
o piso irregular,
o sonho para além das nuvens,
os olhos embaçados pela beladona.
Sua boca, enfim, beijou aquilo que sua alma tanto anela: o chão.
os olhos embaçados pela beladona.
Sua boca, enfim, beijou aquilo que sua alma tanto anela: o chão.
quarta-feira, 5 de agosto de 2015
EGO FRÁGIL, DESERTO DE AZAZEL
O sujeito de ego frágil quer um retorno positivo. O que ele
faz? Projeta involuntariamente suas tendências inconscientes indesejáveis sobre
objetos ou pessoas do mundo exterior. Mas esse sujeito de ego frágil não se dá
conta do seguinte: o vulto soturno que ele persegue com tanta obstinação e ódio
é sua própria sombra. É projeção de si mesmo. O inspetor Javert, em “Os
Miseráveis” de Victor Hugo, é um exemplo emblemático de alguém que caiu nessa
armadilha sinistra.
Por instinto e com uma maestria macabra, Hitler soube
projetar a sombra dos alemães nos judeus, povo cuja história sempre fora
marcada por perseguições, não só na Alemanha do Lutero que escreveu “Sobre os
judeus e suas mentiras”, mas em toda a Europa. Na linguagem popular chamamos
isso de “bode expiatório”, uma referência ao bode citado no livro bíblico de
Levítico que levava os pecados do povo.
O mês de agosto promete manobras políticas capazes de marcar
para sempre a história de nosso país. Mas o que os egos frágeis, as sombras, os
bodes e Azazel têm a ver com o atual momento político? Tudo.
Jones F. Mendonça
sábado, 1 de agosto de 2015
BAIXA CRISTOLOGIA - VÍDEO
Divulguei aqui e postei aqui material sobre o debate com o tema "cristologia", apresentado no STBC em maio de 2015. Como o vídeo do debate finalmente foi postado no YouTube, aproveito para disponibilizá-lo no Blog.
Com receio de extrapolar os 20 minutos reservados a cada um dos palestrantes, acabei tendo que falar mais rápido do que gostaria, mas não acho que tenha comprometido a clareza. Caso queira assistir aos demais palestrantes, clique no título do vídeo para ser conduzido ao YouTube.
Jones F. Mendonça
quarta-feira, 29 de julho de 2015
CONTOS ETIOLÓGICOS NA BÍBLIA: A INIMIZADE MORTÍFERA EM GN 3,15
Ontem fui interrogado por um aluno a respeito do texto de Gn 3,15, o qual transcrevo abaixo em versos, tal como corretamente dispõe a Bíblia de Jerusalém:
Porei hostilidade entre ti e a mulher,
entre tua linhagem e a linhagem dela.
Ela te esmagará a cabeça
e tu lhe ferirás o calcanhar”.
A pergunta do aluno: “ora, se a descendência da mulher é Cristo, quem é a descendência da serpente?”. Bem, a tradição cristã, desde os segundo século (Irineu, em Contra as Heresias III,23,7), interpreta a inimizade entre a mulher e a serpente como anúncio do “fruto do parto de Maria”. Em suma, Jesus seria a descendência da mulher. Mas e quanto à serpente? Faz algum sentido dizer que a linhagem da serpente é o diabo? E por acaso o diabo é descendente da serpente do Éden?
Lutero, seguindo Irineu de perto, declarou que “Cristo é o descendente dessa mulher que esmagou a cabeça do diabo, isto é, o pecado” (Prefácio do Novo Testamento, de 1522). Para não cair no absurdo de dizer que o diabo pertence à linhagem da serpente, fez uma observação no final da frase: “isto é, o pecado”. Dito de outro modo: Jesus esmagou a “cabeça” do pecado, representado pela figura do diabo, a antiga serpente. É muito malabarismo exegético para meu gosto.
Lutero, seguindo Irineu de perto, declarou que “Cristo é o descendente dessa mulher que esmagou a cabeça do diabo, isto é, o pecado” (Prefácio do Novo Testamento, de 1522). Para não cair no absurdo de dizer que o diabo pertence à linhagem da serpente, fez uma observação no final da frase: “isto é, o pecado”. Dito de outro modo: Jesus esmagou a “cabeça” do pecado, representado pela figura do diabo, a antiga serpente. É muito malabarismo exegético para meu gosto.
Faz muito mais sentido pensar no texto como tendo caráter etiológico, visando explicar quatro fenômenos que davam asas à imaginação dos antigos:
1. O porquê das serpentes rastejarem (3,14),
2. A “inimizade” entre os humanos e as serpentes (3,15),
3. O sofrimento das mulheres durante o parto (3,16),
4. A submissão das mulheres aos maridos (3,16),
5. A fadiga proveniente do trabalho no solo árido da Palestina (3,17-19).
Um conto etiológico, para quem não sabe, é uma pequena historieta, criada a partir da imaginação popular, com o intuito de explicar fenômenos que suscitam a curiosidade das pessoas, tais como as estranhas colunas de sal dispostas nas margens de um grande lago (a mulher de Ló, cf. Gn 19,26), um enigmático arco colorido que se estende nos céus (um sinal divino como pacto pela não repetição do dilúvio, cf. Gn 9,13), a diversidade de idiomas (a torre de Babel, cf. Gn 11,1-9), a extrema aridez de uma determinada região (fogo e enxofre sobre Sodoma e Gomorra, cf. Gn 19,24-25) ou as inusitadas pedras amontoadas num vale (o apedrejamento de Acã, cf. Js 7,26), etc.
Contos etiológicos são comuns em diversas culturas. Você pode ler uma pequena coleção deles na seguinte obra: CAMPBELL, Joseph. As máscaras de Deus, volume I, mitologia primitiva. São Paulo: Palas Athena, 2010.
Jones F. Mendonça
sexta-feira, 24 de julho de 2015
COANDO MOSQUITOS, ENGOLINDO CAMELOS
Tolice adora
compartilhar nas redes sociais suposta frase de Jean Wyllys dizendo que a
Bíblia é uma piada e quem crê nela é palhaço. Cita, junto com a frase, texto de
Ap 21,8, condenando os incrédulos e mentirosos ao lago ardente de fogo e
enxofre. Mas Tolice não se dá conta de duas coisas: 1) Jean Willys nunca disse
a tal frase, 2) Se o deputado não disse a frase, Tolice é mentirosa e tropeça no mesmo verso que usa para apontar o erro alheio.
Moral da história:
quando nasceu, os pais de Tolice lhe deram o nome errado. Devia se chamar
Hipocrisia.
Jones F. Mendonça
quinta-feira, 23 de julho de 2015
ANTINOMIAS CALVINISTAS
A frase foi
escrita por Calvino, reformador do século XVI:
Eu concedo mais: os ladrões e os homicidas, e os demais malfeitores, são instrumentos da divina providência, dos quais o próprio Senhor se utiliza para executar os juízos que ele mesmo determinou. Nego, no entanto, que daí se deva permitir-lhes qualquer escusa por seus maus feitos (As Institutas, Livro I, Capítulo XVII, seção 5).
Há neste pequeno
trecho da maior obra de Calvino (As Institutas) uma afirmação e uma negação. A
afirmação: “até os malfeitores (como estupradores, por exemplo) agem segundo os
juízos determinados por Deus”. A negação: “mesmo sendo instrumentos da divina
providência, Deus não deve ser responsabilizado pelos perversos atos humanos”.
Trocando em
miúdos: Embora Herodes tenha mandado matar criancinhas porque Deus assim quis, a culpa é
apenas de Herodes e de seus capangas. Embora Adão tenha pecado porque Deus assim quis, a culpa pelo pecado é apenas de Adão.
E tolos são os arminianos...
Jones F. Mendonça
quarta-feira, 22 de julho de 2015
ZÉ BOBINHO, PRAÇA DE 85
Bobinho tem um filho delinquente. Como pensa obtusamente que
tudo se resolve na hierarquia e na disciplina, deu um jeito de colocar Delito,
seu filho, no quartel. Conversou com o capitão Zureta e tudo certo. Cabelo
cortado, barba feita e postura marcial, o filho de Bobinho finalmente encontrou
seu lugar: o xadrez.
Jones F. Mendonça
segunda-feira, 20 de julho de 2015
AINDA SOBRE VACAS VERMELHAS PURIFICADORAS
Aos interessados
no judaísmo, particularmente no projeto que busca produzir uma vaca vermelha como apresentada em Nm 19,10, capaz de purificar judeus que se contaminaram com um
corpo morto e desencadear o apocalipse, vale ler o novo artigo publicado no Haaretz:
“The Temple Mount red heifer saga: Engineering the apocalypse?”. O texto,
assinado por Elon Gilad, sugere que as tais
vacas vermelhas nunca existiram. Quer conhecer as razões apresentadas por
Gilad? Abaixo um pequeno trecho:
Os antigos separavam as cores de forma diferente da civilização moderna. O que hoje vemos como cores distintas, nossos antepassados viam como variações de uma mesma cor. O que chamamos de marrom, os antigos hebreus viam como um tipo de vermelho. Eles ficariam perplexos com nossa insistência em perceber o roxo, vermelho, laranja e marrom como sendo cores diferentes. Para eles todas eram tons variados de vermelho.
Jones F. Mendonça
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