quinta-feira, 17 de abril de 2014

AS RODAS NA VISÃO DE EZEQUIEL

Suporte de bronze com esfinge encontrado em Chipre (1250-1100 a.C.). Lembra a visão de Ezequiel:
Então olhei, e eis quatro rodas junto aos querubins, [...] E cada um tinha quatro rostos: o primeiro rosto era rosto de querubim, o segundo era rosto de homem... (Ez 10,9.14).

Muitas esfinges no Museu Britânico aqui.


Veja no Museu Britânico.


























Jones F. Mendonça

A “LUA DE SANGUE”, O TALMUDE E O FIM DO MUNDO

Na madrugada de anteontem (14/15 abr) boa parte do mundo pôde contemplar a “lua de sangue”, fenômeno que irá se repetir ao longo de dois anos, formando uma tétrade que no atual ciclo coincide com os feriados judaicos da Páscoa e Tabernáculos (2014/15). 

Para alguns, trata-se apenas de mais um belíssimo fenômeno astronômico que pode ocasionalmente coincidir com festas judaicas simplesmente porque essas celebrações geralmente ocorrem em dias de lua cheia, quando também há eclipses (ver: Salmo 81,2-5; Sirácida 43,6). Para outros o aparecimento da lua escarlate sinaliza o fim dos tempos, como sugere este texto do Talmude:    
Nossos rabinos ensinaram: Quando o sol está em eclipse, é um mau presságio para os idólatras; quando a lua está em eclipse, é um mau presságio para Israel [...]. Se a sua face está vermelha como o sangue, a espada está chegando ao mundo (Talmude Soncino, Sucá 29a).

A “Lua de sangue” também aparece nos livros bíblicos do profeta Joel e do Apocalipse. 
“O sol se converterá em trevas, e a lua em sangue, antes que venha o grande e terrível Dia de Yahweh” (Joel 2,31);
“e o sol tornou-se negro como saco de cilício, e a lua toda tornou-se como sangue” (Ap 6,12). 

Está com “medinho”?

Leia o trecho do Talmude aqui:



Jones F. Mendonça

sábado, 12 de abril de 2014

HALLELUJAH


ALELUIA

Agora eu soube que havia um acorde secreto
Que David tocava, e que agradava o Senhor.
Mas você não se importa realmente com música, não é?

Funciona assim, o quarto, o quinto.
A menor queda, a maior elevação.
O rei confuso compondo Aleluia.

Aleluia, Aleluia.
Aleluia, Aleluia.

Sua fé era forte, mas você precisava de provas.
Você a viu se banhando no telhado.
A beleza dela e o luar arruinaram você.

Ela te amarrou numa cadeira da cozinha,
Ela destruiu seu trono, e cortou seu cabelo.
E dos seus lábios ela tirou a Aleluia.

Aleluia, Aleluia.
Aleluia, Aleluia.

Você diz que eu tomei o nome em vão.
Eu nem sequer sei o nome.
Mas se o fiz, bem, realmente, o que é isso para você?

Há uma chama de luz em cada palavra.
Não importa qual você ouviu.
O sagrado ou o sofrido Aleluia.

Aleluia, Aleluia.
Aleluia, Aleluia.

Eu fiz o meu melhor, não era muito.
Eu não podia sentir, então eu tentei tocar.
Eu disse a verdade, eu não vim enganar você.

E mesmo que tudo deu errado,
Eu ficarei diante do Senhor da Canção,
Com nada na minha língua senão Aleluia.

Aleluia, Aleluia.
Aleluia, Aleluia.

Aleluia, Aleluia.
Aleluia, Aleluia ...



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 11 de abril de 2014

UM ATRASO DE NASCENÇA...

Gostaria de ter escrito isso, mas é do Manoel de Barros:

Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas
mais que a dos mísseis.
Tenho em mim
esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância
de ser feliz por isso.
Meu quintal
é maior do que o mundo.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 9 de abril de 2014

O NOÉ DE GREG RUTH


Mais arte inspirada em Noé, aqui e aqui


Jones F. Mendonça

NOÉ NA SALA ESCURA

O sujeito vai ao cinema ver Noé. Imagina que assistirá a uma homilia cristã. Esquece-se (ou não sabe) que o Noé do Gênesis é personagem de três grandes religiões monoteístas: judaísmo, cristianismo e islamismo. Isso sem falar nas correntes não ortodoxas que sempre caminharam à sombra dessas três grandes religiões, tais como a Cabalah (judaísmo) o gnosticismo (cristianismo) e o sufismo (islamismo). 

Aronofsky foi criativo. Pôs na tela dos cinemas um Noé enriquecido por diversas tradições, especialmente as judaicas. Se você quer pipoca e diversão, emocione-se na sala escura. Mas se você quer apenas o Noé da sua tradição religiosa, volte-se para a Torá, ou para o catecismo, ou para o Corão. 


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 7 de abril de 2014

GNOSE E CABALA NO NOÉ DE DARREN ARONOFSKY

Muita gente estranhou a cena do filme Noé que retrata Adão e Eva em corpos resplandecentes. Vejamos:

Irineu expondo a doutrina dos gnósticos, em “Contra as Heresias”, século II d.C.:

Adão e Eva, no princípio, tinham corpos leves, luminosos, como que espirituais, porque é assim que foram criados... [então] descobriram que estavam nus e que tinham corpos materiais, conheceram que traziam em si a morte e se tornaram pacientes, sabendo que este corpo os envolvia temporariamente (Contra as Heresias, I, 30,9).
Zohar ou Livro do Esplendor, século XIII d.C.:
Quando Adão morava no jardim do Éden, estava coberto por uma veste celestial, que é a veste de luz celestial [...] luz daquela luz, que era usada no jardim do Éden (Zohar, II, 229.b.).
Não parece estranho se pensarmos que o diretor produziu o filme bebendo em fontes pouco ortodoxas. 

Se o diretor quisesse retratar o nascimento de Noé, poderia muito bem ter se inspirado no livro apócrifo de Enoque (século II a.C.): 
seu corpo era branco como a neve e vermelho como uma rosa, os cabelos de sua cabeça eram como a lã e os seus olhos como os raios de sol (I Hen 106,2).
O texto lembra a descrição de Jesus em Ap 1,14. Mas foi escrito quase três séculos antes...



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 4 de abril de 2014

O NASCIMENTO DE JESUS NUMA CAVERNA: JUSTINO, PROTO-EV TIAGO E ORÍGENES

Neste semestre estou lecionando teologia patrística. Como o Blog também funciona para mim como uma espécie arquivo, irei postando aos poucos alguns textos do período patrístico que considero relevantes para a compreensão do cristianismo ortodoxo e movimentos tidos como heréticos. No post de hoje três registros que situam o nascimento de Jesus numa gruta. Todos os três documentos são do segundo século:

Justino, em “Diálogo com Trifão”:
uma vez que José não encontrou um alojamento naquela aldeia [Belém], tomou como aposento uma determinada caverna que havia por perto; e enquanto eles estavam ali Maria deu à luz ao Cristo e colocou-o numa manjedoura. E foi neste lugar que os Magos que vieram da Arábia o encontraram (Dial., 78).

Orígenes escrevendo sua defesa do cristianismo contra o cético Celso: 
No que diz respeito ao nascimento de Jesus em Belém, [...] para ter a evidência adicional de outras fontes [além dos profetas e dos Evangelhos], que ele saiba [referindo-se a Celso] que em conformidade com a narrativa do Evangelho sobre o seu nascimento, é mostrada em Belém a caverna onde ele nasceu, e a manjedoura na gruta onde ele estava envolto em cueiros. E esta visão é muito conhecida na região. Mesmo entre os inimigos da fé é dito que nesta caverna nasceu Jesus, que é adorado e venerado pelos cristãos (Contra Cels., 1,51).

Proto-evangelho de Tiago (também conhecido como “Nascimento de Maria: revelação de Tiago”): 
José descobriu uma gruta por perto e introduziu Maria. Deixou seu filho com ela, indo ele mesmo à procura de uma parteira hebréia da região de Belém [...]. Quando chegaram à gruta [José e a parteira que ele encontrou], pararam, e eis que uma nuvem luminosa a encobria. [...] De repente, a nuvem retirou-se da gruta e dentro dela brilhou uma luz [...] que começou a dissipar-se até aparecer o menino para tomar os seios de sua mãe (Protev 18.1; 19,2).

É também neste último escrito que Maria é apresentada como virgem antes, durante e depois do parto (o dogma da Imaculada Conceição só foi definido em 1854). Após a parteira anunciar que uma criança havia nascido de uma virgem, a incrédula Salomé, como Tomé, duvida e põe o dedo na “natureza” de Maria. Assim que constata o milagre Salomé tem sua mão afetada por um castigo divino que é curado assim que pega o menino nos braços (Cf. Protev., 20).

Um trecho bem curioso nesse evangelho sugere que o autor acreditava que anjos podem engravidar mulheres humanas (inspirado em Gn 6?).  Mas este é um tema para o próximo post.


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 2 de abril de 2014

ACERCA DO CIRCO E DO SEXO ENTRE OS PRIMEIROS PADRES

Você pode ler Lutero em “Obras selecionadas”, mas o “selecionadas” já diz muita coisa. Você pode ler a respeito dos chamados pais apostólicos ou dos apologistas nos livros sobre cristologia, eclesiologia ou teologia fundamental, mas o caráter apologético de tais obras também sugere que se trata de uma seleção. Não quer ler um teólogo com as lentes de outro teólogo? Então arregace as mangas e se debruce sobre as obras originais. Com certeza terá muitas surpresas (com direito a muitas risadas).

Tertuliano condenando a participação dos cristãos nos espetáculos públicos romanos (neste trecho ele condena o teatro):
Pensais ainda que o uso de máscaras seja aprovado por Deus? Pergunto-vos. Se ele proíbe toda a espécie de simulacros, quanto mais não proibirá que se desfigure a sua imagem? Não, não: o autor da verdade não poderia aprovar nada de falso. Se ele condena todas as espécies de hipocrisia, perdoaria a um ator, que imita a sua voz, a sua idade, o seu sexo? Que finge estar apaixonado ou encolerizado? Que chora lágrimas falsas, e emite falsos suspiros? (De spetaculis, 23).

Clemente de Alexandria e a sexualidade do cristão (inspirado no estoicismo): 
O casamento é o desejo da procriação e não a ejaculação desordenada do esperma que, aliás, é contrária tanto à lei quanto à razão (Pédagoge, II, 10).

Em bom latim: "matrimonium autem est filiorum procreationis appetitio, non inordinata seminis excretio, quae est et praeter leges eta ratione aliena".

Os pais da Igreja (em inglês) aqui

Jones F. Mendonça

quarta-feira, 26 de março de 2014

O MONÓLITO DE KURKH E O REI ACABE DE ISRAEL

Monolito de Kurkh, Museu Britânico
Descoberto em 1861 em Kurkh, Turquia, o monólito foi esculpido por volta de 853 a.C. pelos assírios com o propósito de registrar a vitória de Salmaneser III (858-824) sobre uma liga de 12 reis na região de Qarqar. De acordo com a inscrição os principais líderes dessa liga foram Irhuleni, de Hamate; Hadadezer, de Harã e Acabe, de Israel (citado em 1Rs 16-22). Ao lado da Estela moabita (ou estela de Mesha, 850 a.C.) a descoberta seria uma importante evidência da influência do reino de Israel (do Norte, sob a dinastia dos omridas) na região. 

Na monólito de Kurkh o nome de Acabe aparece grafado como “A-ha-ab-bu KURSir-‘i-la-a-a”, e tem sido geralmente traduzido como “Acabe de Israel”. Mas a identificação de A-ha-ab-bu com Acabe esbarra em alguns problemas. Um deles é que a Bíblia hebraica fala de uma guerra entre Acab e o rei Ben-Hadade (1Rs 20 e 22).
Ora, Ben-Hadade, rei da Síria, ajuntou todo o seu exército; e havia com ele trinta e dois reis, e cavalos e carros. Então subiu, cercou a Samaria, e pelejou contra ela (1Rs 20,1).

Ora, é extremamente improvável que o rei da Damasco tenha empreendido ações bélicas contra um aliado imediatamente após a batalha de Qarqar. Ou A-ha-ab-bu não é Acabe ou a batalha descrita em 1Rs 20 e 22 foi registrada de forma anacrônica (é o que pensa Herbert Donner em “História de Israel e dos povos vizinhos”, p. 305). O silêncio da Bíblia quanto a essa batalha e a incerteza quanto à correta identificação de Sir-‘i-la-a-a com Israel (Israel ou Jezreel?) também enfraquecem a teoria de que a inscrição contenha uma referência a Acabe.  A questão permanece aberta.

Apesar da coalizão entre os reis do corredor Siro-palestino a Assíria avançou até a Cicília, colocando Tiro e Sidon sob seu controle. Após um declínio de poder iniciado em 783 a.C., a Assíria retomou seu vigor com Teglat-Falasar III (745-727 a.C.) que marchou através da Síria e da Palestina chegando até Gaza, na costa do Mediterrâneo. Fracassada a tentativa de impedir o avanço assírio (ver: GuerraSiro-efraimita), Samaria sucumbiu diante das tropas de Salmanasar V (727-722). A população da capital de Israel foi deportada para várias partes do império com Sargão II (722-705), um usurpador assírio que dominou a Babilônia e estendeu suas campanhas até a fronteira com o Egito.



Jones F. Mendonça

sábado, 15 de março de 2014

GITÂ, DE RAUL SEIXAS E O BHAGAVAD-GÎTÂ: NEM DEUS E NEM DIABO

Há quem interprete a música Gitâ, de Raul Seixas, como sendo uma espécie de poema dito pelo próprio Satã. Outros, no entanto, pensam que Raul está se colocando como o próprio Deus. A composição seria uma espécie deboche dirigido aos cristãos.  Mania de perseguição...

Na verdade a canção recebeu inspiração do Bhagavad-Gîtâ (bhagavan - Deus; gita - canção), belíssimo poema hindu que faz parte da epopeia Mahâbhârata. O poema ganhou sua forma atual entre os séculos V e I a.C. e tem como pano de fundo uma batalha entre os membros do clã Kula. Esse dramático cenário é apesentado num diálogo entre Krishna (divindade hindu) e Arjuna (guerreiro perturbado por ter que lutar com seus parentes). O narrador é Sanjaya.

Tanto no Bhagavad-Gîtâ como na letra da música de Raul Seixas aparece a ideia de que todas as coisas existem ou surgem na divindade, mas o divino, não obstante, transcende todas as coisas (metafísica panenteísta).

Seguem alguns trechos do Bhagavad-Gîtâ (em azul) em paralelo com a música de Raul (em vermelho):

16. Eu sou a oblação, o sacrifício, a oferenda aos antepassados, a erva bendita, o hino sagrado, a manteiga purificada, o fogo e também a vítima consumida em holocausto.

Eu sou o seu sacrifício
A placa de contra-mão
O sangue no olhar do vampiro
E as juras de maldição

17. Sou pai, mãe, sustentador, avô deste Universo. Sou o objeto do conhecimento, o purificador, a sílaba OM e também o Rik, o Sâma e o Yajur.

Mas eu sou o amargo da língua
A mãe, o pai e o avô
O filho que ainda não veio
O início, o fim e o meio

19. Eu dou o calor, retenho e envio a chuva, sou a imortalidade e a morte, sou o ser e o não-ser, Arjuna.

Eu sou a vela que acende
Eu sou a luz que se apaga
Eu sou a beira do abismo
Eu sou o tudo e o nada

32.Sou princípio, meio e fim de todas as coisas criadas, Arjuna; entre as ciências sou a ciência do espírito supremo e sou o argumento Vâda entre os que discutem;

O início, o fim e o meio
Eu sou o início
O fim e o meio
Eu sou o início
O fim e o meio

33.Sou a vogal A entre as letras; o composto copulativo entre as palavras compostas. Sou o tempo infinito, o mestre ordenador, cujas faces estão em toda parte.

Das telhas eu sou o telhado
A pesca do pescador
A letra A tem meu nome
Dos sonhos eu sou o amor


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 14 de março de 2014

PHARISAEI HYPOCRITAE

O sujeito se considera o defensor da moral e dos bons costumes. Condena a corrupção, a lei que descriminaliza o aborto, a união civil entre pessoas do mesmo sexo, etc. Faz “denúncias” com muito entusiasmo e impecável retórica. Mas esse mesmo sujeito compartilha nas redes sociais, sem qualquer senso crítico, frases falsamente atribuídas aos que apoiam ideias que tanto se dispõe a combater. Difunde uma notícia falsa e é condenado pelos mesmos textos religiosos que emprega para desaprovar seus adversários. E ainda bate no peito orgulhando-se de sua pureza.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 13 de março de 2014

SARCASMO RUSSO COMO RESPOSTA À HIPOCRISIA EUROAMERICANA

Alexander Nekrassov (via Al-Jazeera, 09/03/14), ex-conselheiro do Kremlin:
O Ocidente rotulou grupos armados e neonazistas [ucranianos] como "manifestantes pacíficos" e nacionalistas radicais como "patriotas" e “partidários da democracia”. Assim, o Presidente Putin se dirigiu aos jornalistas dizendo que não havia tropas russas na Crimeia.
Não, não estou defendendo Putim. Nas relações internacionais a hipocrisia e a mentira são comuns a todos os governos. Posiciono-me, todavia, contra a demonização de Putin, como fazem os comentaristas do Manhattan Connection, da revista Veja e de outros veículos de comunicação.


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 12 de março de 2014

REINO DE DEUS, REINO DOS HOMENS: BREVE HISTÓRIA DE UMA TIRANIA RELIGIOSA

Século VIII. O bispo de Roma (papa Zacarias, 741-752) alia-se a Pepino, o Breve, apoiando sua pretensão ao trono francês. Pepino é ungido rei em 754. Aproveitando-se da situação, a Igreja mostra a Pepino um documento por meio do qual o imperador Constantino (325) doa ao papa Silvestre (314-335) terras, honras e coloca a igreja de Roma acima das demais. Pepino acredita na autenticidade do documento (ou finge acreditar), a doação se efetiva e o papa ganha o status de soberano temporal. O papa já não se encontra mais sob o domínio político do império da Roma Oriental, mas dos francos e mais tarde do imperador alemão. Eis um trecho do documento (conhecido como Doação de Constantino):
Atribuímos-lhe o poder, a gloriosa dignidade, a força e honra do império, e ordenamos e decretamos que ela [a Igreja Romana] governe também sobre as quatro sés principais – Antioquia, Alexandria, Constantinopla e Jerusalém – e sobre todas as igrejas de Deus e, todo o mundo. E o pontífice que em cada tempo presidir sobre a santíssima Igreja Romana será o supremo e o principal de todos os sacerdotes do mundo inteiro e que conforme a sua decisão devem ser resolvidos todos os assuntos que se referem ao serviço de Deus e à confirmação da fé de todos os cristãos (BETTERSON, Documentos da igreja Cristã, p. 141-142).
No Natal de 800 o papa Leão III coroa Carlos Magno (filho de Pepino) na Igreja de São Pedro fazendo nascer o Sacro Império Romano. Mais tarde, com Gregório VII (1073-1085) e a publicação do Dictatus, o papa passa a ser infalível em pronunciamentos ex-cathedra e ganha o status de bispo universal. Com Inocêncio III (que nada tinha de inocente, 1160-1161) o papa assume o título de vigário de Cristo (representante de Deus na terra). No Solitae este mesmo papa chega a comparar o papado ao sol e o poder imperial à lua numa clara declaração de superioridade do papa sobre o imperador. A antiga igreja, outrora clandestina e perseguida, ganhava poderes inimagináveis. Então surgiram as cruzadas e a inquisição.

A falsidade do documento que serviu de impulso para o crescimento do poder da igreja foi demonstrada por Lourenço Valla em 1440. O erudito, especialista no idioma dos latinos, notou que o texto foi escrito no latim da renascença carolíngia e não no século IV.  O golpe dado por Valla enfraqueceu a igreja, já abalada pela imoralidade do clero, pelo surgimento de grupos dissidentes (como cátaros e valdenses), pelas denúncias de John Wyclif, Jan Hus, Erasmo e finalmente por Lutero.

O dia 31 de outubro de 1517 parecia anunciar o fim da tirania imposta pelos líderes da igreja. Então inventaram novos papas, não de carne o osso como os antigos, mas desta vez feitos de tinta e papel. Surgiam as confissões doutrinárias. E uma nova tirania se impôs.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 11 de março de 2014

SOBRE TRADIÇÃO E FÉ

Para os protestantes a Bíblia é inerrante. Os hagiógrafos, dirigidos pelo Espírito divino, seriam também inerrantes durante (e somente durante) o processo de redação.

Para os católicos o papa, líder da igreja, é inerrante. Dirigido pelo Espírito transmitido por sucessão apostólica esse líder seria inerrante quando (e somente quando) se pronuncia ex-catedra.

A coisa poderia ser resumida assim: para os protestantes o escritor bíblico é inerrante. Para os católicos o papa, como vigário de Deus, também é inerrante, uma vez que está revestido pelo mesmo Espírito que atuou sobre os hagiógrafos. A fé, nos dois casos, está no que diz a tradição.

Sola fide! Mas sola fide na tradição...



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 6 de março de 2014

O RUGIDO DO URSO: SOBRE UMA GUERRA NÃO TÃO FRIA

Carlos Latuff
Hoje (06/03/14) o parlamento da Crimeia aprovou uma moção em que pede ao presidente Vladimir Putin a anexação da região à Rússia. Se o pedido for aceito pelo governo de Moscou caberá ao povo decidir se quer ou não aderir à federação russa.

A parte oeste da Ucrânia, favorável ao estreitamento das relações com a Europa e nutrida com elevado sentimento anti-russo, quer justamente o contrário. Os protestos em Kiev tiveram início após a decisão do presidente ucraniano (agora deposto) de rejeitar relações com a União Europeia em prol do apoio de Moscou.

Atualmente há um cabo de força atravessando a Ucrânia. De um lado os EUA e a Europa. Do outro a Rússia.

Parte do governo interino da Ucrânia (que é minoria) é formada por grupos ultranacionalistas, xenofóbicos e com inclinação neofascista. Moscou tenta superdimensionar esse lado radical dos “revoltosos de Kiev” a fim de justificar uma intervenção militar na região. A Rússia possui ligações históricas com a Crimeia, uma região autônoma e com constituição própria no sudeste da Ucrânia. Além disso, mantém uma estratégica base militar na região, que é banhada pelo Mar Negro. Por trás do discurso russo estariam ambições imperialistas.

Os EUA e a Europa, por outro lado, têm criticado o deslocamento de tropas russas para a Crimeia (majoritariamente pró-Rússia). Americanos e europeus acusam Putin de desrespeitar tratados internacionais e de interferir na soberania da Ucrânia. Mas o ocidente não pode negar que a deposição do presidente ucraniano foi ilegal, afinal ele foi legitimamente eleito.

O leitor poderá compreender melhor as divergências políticas, culturais e étnicas entre leste e oeste da Ucrânia lendo discursos vindos da Crimeia (pró-Rússia) e da Ucrânia (pró-ocidente):

Sergey Tsekov, vice-presidente do parlamento da Crimeia:
As autoridades centrais na Ucrânia estão provocando o povo da Crimeia [...] Eles pensam que nós vamos esquecer nossas raízes [russas], nossa língua, nossa história, nossos heróis. Somente pessoas estúpidas podem achar que nós vamosfazer isso. Infelizmente, pessoas estúpidas atualmente governam a Ucrânia.
Projeto do partido ucraniano Sbovona:
(precisamos) determinar o "Ucraniocentrismo" europeu em direção estratégica do Estado,segundo o qual a Ucrânia aspira se tornar não apenas centro geográfico, mas também o centro geopolítico da Europa. [...] Concluir um acordo bilateral comos EUA e a Grã-Bretanha para uma ajuda imediata à Ucrânia, de grande efetivo militar, em caso de agressão armada por parte da Rússia [...]. Assegurar a retirada de bases russas do território ucraniano.
Nas redes sociais (e até mesmo na grande mídia) há uma tendência em simplificar o conflito, ora defendendo a retórica americana e europeia, ora legitimando uma intervenção militar russa na região, mas a crise é bem mais complexa do que parece. Há quem acuse Washington de manter uma série de ONGs na Ucrânia com oobjetivo de enfraquecer a Rússia e estabelecer bases militares na região. Há quem acuse Putin de oportunismo e de caminhar na contramão num projeto retrógrado e desestabilizador.

É claro que em meio a toda essa “boa vontade” para com o povo ucraniano por parte das grandes potências há ambiciosos interesses geopolíticos. Na prática a diferença entre o imperialismo russo e o euro-americano é que no segundo o fel tem cobertura de coco.



Jones F. Mendonça

sábado, 1 de março de 2014

A JUSTIÇA SOU EU!

“L’Etat c’est moi” (o Estado sou eu”) frase atribuída a Luís XIV, em 13 de abril de 1655, dita enquanto entrava no parlamento em hábito de caça e com chicote na mão. O poder do Estado personificado na figura do rei pelo próprio rei.

Barbosa padece do mesmo mal. Vê a si próprio como justiça personificada.


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O JESUS E O DAVI HISTÓRICO

Gerd Theissen, no prefácio de “O Jesus histórico: uma manual” (que acabo de adquirir):
A ciência não diz “foi assim”, mas “poderia ter sido assim com base nas fontes”. [...] A ciência nunca diz “é assim”, mas “assim se nos apresentam as coisas no estado atual das pesquisas” – e isto significa: “no estado de nossos acertos e erros”. [...] A ciência não diz “este é o nosso resultado”, mas “este é o nosso resultado com base em determinados métodos” (THEISSEN, 2002, p. 13,14). 
Com o Antigo Testamento não é diferente. Durante muito tempo os arqueólogos duvidaram da existência de Davi. Não questionavam a existência do personagem israelita simplesmente porque queriam implicar com os religiosos, mas porque a declaração de sua historicidade não estava fundamentada em evidências. Quando em 1993/94 a estela de Tel Dan foi descoberta no norte de Israel (lia-se nela: “byt Dvd” = casa de Davi), restaram poucas dúvidas de que um indivíduo israelita chamado Davi de fato existiu e foi importante o suficiente para fundar uma “casa de Davi”.

Mas a estela não diz que ele foi um rei que governou todo o Israel como uma monarquia unificada (até o momento as evidências apontam em outra direção). Nem que matou Golias ou que teve atritos com um filho chamado Absalão ou que participou de uma série de outras aventuras narradas na Bíblia. A ciência porá em cheque todas essas narrativas. Fará isso não porque deseja implicar com os religiosos, mas porque “assim se nos apresentam as coisas no estado atual das pesquisas” – e isto significa: “no estado de nossos acertos e erros”.

Amanhã, quem sabe, novas descobertas poderão mudar completamente o que sabemos sobre o Antigo Israel no período do Bronze recente. Tais descobertas poderão depor a favor da historicidade de determinadas narrativas bíblicas. Mas também poderão depor contra, afinal, como nos diz Theissen: “nosso resultado [é baseado] em determinados métodos”. Se as evidências, examinadas sob determinados métodos, apontam para o sul, não há porque seguir para o norte. A menos que se coloque a ciência sob o cabresto da fé. Neste caso não poderá ser chamada de ciência.  Será mero instrumento do dogma.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE A DIMENSÃO ESCATOLÓGICA DE ISAÍAS 24-27

De todos os livros classificados como proféticos, quatro merecem uma atenção especial uma vez que são considerados os primeiros profetas escritores: Isaias, Amós, Oseias e Miqueias.  Os quatro exerceram sua atividade no século VIII a.C., um período marcado pela prosperidade no reino do Norte governado por Jeroboão II. É forte a ênfase desses profetas nos problemas sociais provocados pela concentração da riqueza nas mãos da classe dirigente.

Mas na leitura e interpretação desses livros devem ser levados em conta os acréscimos e interpolações feitas em épocas tardias. O livro de Isaías, por exemplo, tem sido dividido em três partes, elaboradas, no mínimo, por três autores: Proto-isaías (pré-exílico, Is 1-39), Dêutero-Isaías (exílio, Isa 40-55) e Trito-Isaías (pós-exílico, Is 56-66). Há várias pistas que depõem a favor dessa distinção, mas quero me concentrar nos acréscimos e interpolações tomando como referência os vestígios da presença de um pensamento escatológico mais evoluído em textos erroneamente atribuídos ao Proto-Isaías. O trecho em questão: Is 24-27 (chamado de "'apocalipse' de Isaías"). Ainda que estejam inseridos no bloco atribuído ao Proto-Isaías, tais capítulos se enquadram muito melhor no período pós-exílico.

A descrição de uma ruína cósmica em Is 24 (“castigará os exércitos do alto nas alturas, e os reis da terra sobre a terra”, cf. 24,21), o uso de símbolos mitológicos (“com sua espada severa... castigará o Leviatã”, cf. 27,1), o universalismo (“o Senhor dos exércitos dará neste monte a todos os povos um banquete”, cf. 25,6), a crença na ressurreição (“os teus mortos viverão, os seus corpos ressuscitarão”, cf. 26,19) e o forte desejo por um futuro radicalmente diferente, expresso na esperança de que Deus fará “desaparecer a morte para sempre” (25,7) e que vai “enxugar as lágrimas em todos os rostos” (25,8), refletem o desespero diante da decadência da comunidade pós-exílica.

Além de todos esses elementos, tipicamente presentes em textos pós-exílicos, outro indício bem forte da composição tardia do texto é Is 27,12:
Naquele dia o Senhor padejará o seu trigo desde as correntes do Rio [Eufrates], até o ribeiro do Egito e vocês, israelitas, serão ajuntados um a um”.
O texto supõe uma diáspora dos israelitas, referência a parte do povo que se fixou principalmente na Mesopotâmia e no Egito após a queda de Jerusalém nas mãos de Nabucodonosor em 587 a.C. A datação do texto, portanto, deve ser situada, no mínimo, para o período o exílio (587-537).

Há dois textos que merecem uma investigação melhor. O primeiro, particularmente curioso, aparece em 24,21:
Naquele dia Yahweh visitará o exército do alto nas alturas, e os reis da terra sobre a terra. E serão ajuntados como presos numa cova, e serão encerrados num cárcere; e serão punidos depois de muitos dias”.
Há quem pense que “exército do alto” (tzeba hamarom) seja uma referência aos “falsos deuses”, mas nessa época o henotismo já havia sido superado pelo monoteísmo. Talvez seja apenas um elemento mitológico tomado das nações vizinhas, como em Is 14. O texto pode ter sido utilizado como matriz para o desenvolvimento da crença nos “anjos caídos”, cuja história é contada em detalhes no livro apócrifo de 1Enoque (II séc. a.C.) e repetida em livros canônicos como Judas (6,7) e Apocalipse (12,7-9).  

O segundo texto é o que fala da ressurreição dos mortos (26,19).
Os teus mortos viverão, os seus corpos ressuscitarão; despertai e exultai, vós que habitais no pó; porque o teu orvalho é orvalho de luz, e sobre a terra das sombras fá-lo-ás cair.
É possível que a referência aí seja ao crescimento numérico do povo de Israel, abalado pela dramática experiência do exílio. “Ressuscitar” (qutz), nesse sentido, seria uma metáfora poética, como na visão de Ez 37. Mas se levarmos em conta os textos do Trito-Isaías, sua ênfase na renovação radical do mundo (65,17), e a longevidade restituída aos israelitas, tal como experimentada pelos antigos patriarcas (“quem morrer aos cem anos ainda será jovem” e “terá vida longa como as árvores”, cf. 65,20-22), parece-me mais provável pensar, considerando ainda a presença de tantos elementos de uma teologia tardia, na hipótese de que se trata mesmo de uma referência à ressurreição dos mortos tal como aparecem nos livros de Daniel (12,1-3) e I Enoque (51). Caso seja esta a interpretação correta, será preciso deslocar a redação do texto para o II século a.C. Neste caso Is 24-27 constituiria uma obra à parte do Proto-Isaías, Dêutero-Isaías e Trito-Isaías.  


Jones F. Mendonça


domingo, 23 de fevereiro de 2014

PI, O TIGRE E O TROVÃO

O personagem Pi, do filme, encantava-se com forças caóticas e cegas da natureza. Inicialmente enamorou-se por um tigre. Depois por uma tempestade no umbigo do mar. Mas tigres são perigosos, devoram dóceis cervos, mostrou-lhe seu pai. Tempestades destroem barcos e ceifam entes queridos, ensinou-lhe a vida.

O homem primitivo também se encantava com as forças da natureza. Personificou-as. Deu-lhes nome. Achou poder controlá-las com ritos, oferendas e invocações específicas. Pensava poder domesticar impulsos selvagens e irracionais.

Influenciados por uma nova doutrina, certos povos passaram a situar essas forças personificadas num outro mundo, num ambiente supra-terreno. Identificaram o belo com o bom. O “outro mundo” foi concebido como lugar ideal. Desejaram o nada. E assim nasceu o asceta. E assim nasceram as religiões da moral.


Jones F. Mendonça


VERSUS AVESTA

Para uns: polícia “do mal” versus manifestantes “do bem”. Para outros: heróis fardados versus turba de bandidos em desordenada exibição.

Rasas simplificações. Retórica perversa que ilude incautos. Lógica medíocre semeada e cultivada no universo digital. Discursos hiperbólicos num mundo bi-polarizado.

Curtir, compartilhar, incitar, enganar, atacar, mentir, dissimular. Cizânias sem fim.  Prédica rota num mundo em constante convulsão.

Brasil seccionado, transmutado, transversalizado pelo fluxo contínuo de ideologias que se revezam no vale do Amargedom.

Triste legado de Maniqueu!


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O QUINTO LIVRO DE CALVINO

João Calvino escreveu suas Institutas em quatro volumes. A obra expõe com detalhes a doutrina elaborada pelo reformador francês que se instalou inicialmente em Basileia, na Suíça, fugindo das perseguições que ocorriam na França. O teólogo de Noyon diz no livro I (XVII, 13) que a ira divina não deve ser identificada como a ira experimentada pelos meros mortais. Trata-se de um antropomorfismo. Quando o texto afirma que Deus se arrependeu, ou ficou irritado, ou se entristeceu – explica o reformador - o leitor deve ter em mente que essa é apenas leitura feita sob a perspectiva humana. Se Deus é imutável, impassível e atemporal logo não pode ter sentimentos semelhantes aos dos humanos, conclui o reformador.

Faltou-lhe antropomorfizar o amor divino e todo o discurso que a teologia vem apresentando sobre Deus. Três séculos depois e me aparece Feuerbach...



Jones F. Mendonça

O QUADRO NÚ


O sujeito vai a Galleria degli Uffizi, Florença, Itália. Depara-se com “A anunciação” (1472-1474), de Da Vinci. Nela aparecem, numa imobilidade solene, Maria e o anjo Gabriel. A obra retrata, numa perspectiva renascentista, o anúncio do nascimento de Jesus à Virgem, escolhida para gerar o Salvador (cf. Lc 1,26). Um belo quadro.

O tal sujeito é um sujeito de fé. Crê no dogma do nascimento virginal, na Maria como virgem não injuriada em sua virgindade e mãe de Deus, Theotokos, Dei genitrix, Mater Christi, simultaneamente mãe de Deus e de Jesus, aquela que “ora pro nobis” como versa a ladainha. Vem-lhe à memória o texto de Is 7,14, citado por Mateus (1,23), que o interpretou como profecia messiânica. A fé aquece-lhe a alma. Com os olhos rúbidos ele se recolhe emocionado num canto. Minutos depois deixa a sala.

Atrás do sujeito de fé vem um estudante de arte. Atem-se ao fundo da tela. Percebe que atrás da Virgem e do anjo há uma paisagem tipicamente toscana, com características ciprestes e montanhas rochosas. Mais ao fundo nota uma pequena cidade lacustre do norte da Itália. Depois foca sua atenção nos gestos, na mesa de mármore na frente da Virgem, nas vestes e nas asas do anjo, realisticamente inspiradas nas asas de um pássaro. O estudante sabe que apesar de tradicionalmente atribuída a Da Vinci, exames minuciosos tem demonstrado que a tela provavelmente recebeu pinceladas de outros artistas (Ghirlandaio? Verrocchio?). Com a alma embevecida ele se vai.

Quando examino as páginas da Bíblia observo como o segundo sujeito. Atenho-me aos detalhes, aos anacronismos, às diferentes camadas do texto, sobrepostas como se fossem obra de um único artista. Vejo Isaías em mil tons, os retoques feitos em Jó, as marcas dos muitos pincéis que compuseram o Pentateuco, as intervenções tardias feitas em Oseias. É o que vejo. Não me deixo cegar pela devoção. Ainda assim, extasio-me.


Jones F. Mendonça


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

ARQUEOLOGIA BÍBLICA E CIÊNCIA

O trabalho do arqueólogo ou historiador que se debruça sobre a região da Siro-Palestina e não vê como históricos determinados eventos relatados no Antigo Testamento geralmente é visto como ateu ou anti-sionista, dadas as implicações negativas de suas teorias para a credibilidade da fé judaico-cristã e na reivindicação de Israel pelo território por ele atualmente ocupado. Dois exemplos de profissionais que atuam nessa área de pesquisa e negam, por exemplo, a historicidade do Êxodo e da ocupação de Canaã pela força das armas sob a liderança de Josué tal como apresentada no relato bíblico são Israel Finkelstein (arqueólogo) e Mario Liverani (historiador).

Ainda que a Bíblia descreva a saída dos descendentes de Abraão, Isaque e Jacó do Egito, sua peregrinação pelo deserto e a tomada violenta das cidades cananeias como Jericó, Ai e Hazor, qualquer historiador comprometido com a ciência e seus métodos se esforçaria para demonstrar se tais eventos de fato ocorreram ou não passam de lendas religiosas elaboradas por sacerdotes e líderes regionais.  Muita gente acha que esse trabalho crítico é feito apenas em relação ao relato bíblico, constituindo uma espécie de perseguição com o propósito de destruir a fé de milhões de pessoas ao redor do mundo. Mas isso não é verdade. Para citar um exemplo, posso apresentar o trabalho crítico feito pelo historiador Prado Custódio (Alexandre Magno: aspectos de um mito, Annablume, 2006).   Não se trata, como pode sugerir o título do livro, de uma tentativa de demonstrar que o proeminente líder macedônio não existiu, mas de apresentar evidências de que o próprio Alexandre tentou divinizar sua linhagem e sua pessoa a fim de parecer mais que um simples homem. Quem de fato foi Alexandre? Pergunta-se o historiador.  Qual o grau de historicidade da Bíblia? Pergunta-se o mesmo o mesmo sujeito interessado em reconstruir a história.

Cabe ao historiador reunir evidências que demonstrem a plausibilidade ou implausibilidade de relatos registrados pelas mais diversas culturas. No caso do Êxodo, por exemplo, não há qualquer registo, seja no Egito ou nos povos vizinhos, de uma fuga em massa de pessoas em direção à costa Oriental do Mediterrâneo em meados do segundo milênio a.C. Tampouco há vestígios arqueológicos no deserto que possam confirmar que tão grande números de pessoas (cerca de três ou quatro milhões!) tenha permanecido no deserto por aproximadamente quatro décadas.  A falta de documentos ou registros arqueológicos não implica necessariamente na negação do Êxodo ou de outros relatos presentes na Bíblia, mas torna sua existência pouco plausível sob o ponto de vista histórico. As saídas encontradas por pesquisadores religiosos para lidar com esse desconforto e manter a credibilidade do relato têm sido diversas. Há quem sugira um erro do copista no trecho que registra o número de hebreus que saíram do Egito. Um número reduzido de fugitivos tornaria o relato mais crível considerando que seria natural a ausência de vestígios tão evidentes. Outros propõem uma tradução diferente para o termo “elef”, traduzido por “mil” em Ex 12,37. O fato é que não se pode mais lidar com o texto bíblico de maneira ingênua e acrítica.

Quanto à tomada das cidades cananeias tais como Jericó, Ai, Libna e Hazor os problemas não são menores. Ora, se não houve uma fuga maciça de hebreus vindos do Egito, de onde vieram os israelitas e como puderam conquistar cidades fortificadas? Relatórios feitos a partir da análise do material escavado em Jericó sugerem que as muralhas da cidade já estavam destruídas quando os israelitas chegaram à região. Na opinião de alguns arqueólogos o relato da destruição da cidade presente no livro de Josué seria uma espécie de conto etiológico com o objetivo de explicar a presença de ruínas de uma antiga cidade. Mas há quem discorde, como o arqueólogo Bryant Wood.

Registros arqueológicos tem demonstrado que por volta de 1200 a.C. a costa mediterrânea que vai do norte da Síria ao Egito foi abalada por invasões de povos vindos do mar (dentre eles os filisteus), causando destruição em diversas cidades-estado da região. Tal invasão parece coincidir com o estabelecimento dos israelitas na Palestina. A estela de Merneptah (1207 a.C.) confirma a existência de um povo chamado Israel na região, mas é difícil dizer com certeza se esse grupo pode ser identificado com os israelitas da Bíblia. Há quem prefira o termo proto-israelita (William G. Dever). Outros sugerem uma tradução diferente. A referência seria a Jezreel, um vale que fica ao norte, nas proximidades do Mar da Galileia e não a Israel. Mesmo que consideremos que o documento se refira a um povo chamado Israel, outras perguntas se impõem:  Trata-se de um grupo étnico bem definido? Nômades? De onde vieram?

Quando o assunto é a monarquia israelita a discussão fica acirrada. Hoje ninguém (ou quase ninguém) duvida da existência de um rei chamado Davi, ou melhor de um líder israelita chamado Davi (a estela de Tel Dan refere-se a uma “beyt David” = “casa de Davi”). Mas faltam evidências arqueológicas concretas que atestem a existência de uma monarquia unificada sob a liderança desse israelita, por isso ele tem sido tratado por alguns estudiosos (como Israel Finkelstein) com mero líder tribal. Eilat Mazar, por outro lado, insiste que há evidências suficientes para dar crédito ao texto bíblico, que apresenta Davi como um rei que governou todas as tribos israelitas a partir de um palácio em Jerusalém.

É importante ressaltar que muitas das dúvidas quanto à historicidade de alguns relatos bíblicos não se apoia apenas na arqueologia. Uma leitura atenta do texto hebraico revela anacronismos que não podem ser negligenciados. Histórias duplicadas, nomes diferentes para um mesmo local, interpolações no texto, palavras persas e aramaicas em textos supostamente antigos favorecem a opinião de que os textos conheceram um longo processo redacional. Na opinião dos mais otimistas, relatos como o do Êxodo, da conquista de Canaã, das aventuras do rei Davi e da construção de um magnífico templo pelo rei Salomão possuem ao menos fundo histórico. Para os mais pessimistas toda a narrativa do Antigo Testamento não passa de uma invenção pós-exílica empreendida por pessoas instruídas que viviam em Jerusalém. Pessoalmente não sou tão pessimista assim. Mas também nem ingênuo e nem tão cego. 


Jones F. Mendonça

domingo, 2 de fevereiro de 2014

SANGUE DE PRATA

“Seus líderes julgam a troco de suborno, seus sacerdotes ensinam por lucro, e seus profetas adivinham em troca de prata” (Miqueias de Moréshet – século VIII a.C.).


Jones F. Mendonça

sábado, 1 de fevereiro de 2014

DAVI E JÔNATAS: AMOR E POLÍTICA

Davi e Jônatas, por Cima da
Conegliano - 1505-10
Almas ligadas...
“A alma (néfesh, fôlego de vida) de Jônatas ligou-se com a alma de Davi; e Jônatas o amou como à sua própria alma” (1Sm 18,1);

Melhor que o amor de mulheres...
“Maravilhoso me era o teu amor, ultrapassando o amor de mulheres” (2Sm 1,26);

Um afeição muito grande...
“Porém Jônatas, filho de Saul, estava muito afeiçoado a Davi” (1Sm 19,1);

Amor profundo...
 “Porque o amava com todo o amor da sua alma” (1Sm 20,17);

Amor e política I...
“E Jônatas se despojou da capa que vestia, e a deu a Davi, como também a sua armadura, e até mesmo a sua espada, o seu arco e o seu cinto” (1Sm 18,4);

Amor e política II (e Saul ainda era vivo...)
“e Yahweh seja contigo, assim como foi com meu pai” (1Sm 20,13-16).

Deixando de lado a polêmica a respeito do tipo de amor que unia Davi e Jônatas, há algo muito claro na intenção do redator:

-Davi é digno da realeza;
-Saul é indigno;
-Jônatas, o herdeiro legítimo, aprova ser substituído por Davi (!).

Quer saber dos herdeiros de Saul, morto numa batalha ao lado de três de seus filhos?
Isboset, filho de Saul, foi traído por seus homens, tendo seu ventre rasgado enquanto dormia (2Sm 4). Mefiboset, neto de Saul e herdeiro legítimo do trono (aleijado e relativamente inofensivo), passou o resto dos seus dias no palácio sob os olhos atentos do rei. Quanto aos demais herdeiros, ameaças reais ao trono ocupado por Davi:
...o rei [Davi] tomou os dois filhos de Rizpa, filha de Aías, que ela tivera de Saul, [...] como também os cinco filhos de Merabe, filha de Saul, que ela tivera de Adriel, [...] e os entregou na mão dos gibeonitas, os quais os enforcaram no monte, perante Yahweh (2Sm 28,8-9).
É, não sobrou ninguém da “casa de Saul” para reivindicar o trono (exceto Mica? Cf. 2Sm 9,12). E você ainda acredita na inocência de Davi? 



Jones F. Mendonça