quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

ÓRFÃOS DO DESERTO


Originários do Saara, os tuaregues migraram para países como a Líbia em busca de emprego. Após a morte de Kaddafi, em 2011, muitos retornaram para sua terra, no Níger e no Mali. Encontraram fome, pobreza e seca. Sofreram mais ainda com a ação da Al-Qaeda e a intervenção militar francesa. Agora almejam um Estado independente.

Mais no Al-Jazeera (aqui e aqui).



Jones F. Mendonça

sábado, 4 de janeiro de 2014

CASSIA ELLER - SEGUNDO SOL



Há quem jure que a música fala de Hercólubus (ou planeta X, ou Nêmesis), suposto companheiro distante do nosso sol que vai se aproximar de novo do nosso sistema solar provocando efeitos gravitacionais e eletromagnéticos imprevisíveis. 


Bem, meu interesse na música se deve aos arranjos, à voz de Cassia Eller e à composição em si. Curta a música.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

FRAGMENTOS DA TEOLOGIA REFORMADA [PROVOCAÇÕES]

A retomada da teologia agostiniana pelos reformadores trouxe de volta antigas questões. Como explicar a presença do mal no mundo? Como o homem pode ser responsabilizado por suas faltas se no fundo correspondem aos decretos divinos? Se a soberania de Deus é absoluta qual o papel do diabo e dos humanos?

Para Lutero não há vácuo de poder. Todo o poder é poder de Deus. Daí a frase: “o diabo é o diabo de Deus”. Tal ênfase levou o reformador a dizer: “não sei se Deus é o diabo ou se o diabo é Deus”. Lutero percebeu uma dimensão “demoníaca” no sagrado (o tema é amplamente discutido por Jung e Tillich). É o “Deus que trucida”, que “como o fogo consome uma casa”, que “nos atormenta e nos tortura sem se importar conosco”. O reformador rejeitou totalmente o dualismo. Deus, uma espécie de déspota volúvel.

Calvino, como Lutero, via Satanás como absolutamente sujeito aos decretos divinos. Não age com a permissão de Deus, mas de acordo com sua vontade. É a ação divina na ação do diabo. Ocorre que para Calvino a dimensão “demoníaca” do sagrado é totalmente repudiada. A lei, o juízo, a santidade e a pureza são temas bastante presentes na teologia calvinista. O mesmo Deus que decreta o pecado é o Deus que odeia esse pecado. O resultado: um temor quase neurótico do impuro.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

NATAL

Ano zero, início do calendário cristão: Herodes, pastores, magos do Oriente, presentes inauditos, estrela no céu, manjedoura na terra. Nasce Jesus, o belemita, da estirpe de Davi. Jesus rei asceta que a tradição consagrou.

Terra de gentios, homem de Nazaré no tempo do Augusto César. Peregrino na Galileia, confins de Zabulom e Naftali. Discípulo do João que batiza nas águas barrentas do Jordão. Que anuncia um reino terreno sem templo, sem sacerdotes e sem o servilismo imperial. Jesus da história que a igreja apagou.

Jesus da bênção, Jesus das sandálias desbotadas.  Jesus do céu, Jesus da terra. Jesus do kerigma, Jesus da história. Jesus de todos nós.


Jones F. Mendonça


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O NOVO TESTAMENTO DE ERASMO NA BIBLIOTECA NACIONAL

André Fonseca, meu aluno, dá aula de inglês no centro do Rio. Entre um aula e outra acabou dando um pulinho na Biblioteca Nacional. Examinou três edições do Novo Testamento grego de Erasmo de Roterdã: 1516, 1527 e 1543 (sim, a Biblioteca Nacional possui esses exemplares e podem ser manipulados por você!). 

Algumas de suas observações podem ser lidas aqui


Jones F. Mendonça

sábado, 21 de dezembro de 2013

HISTÓRIA DA ARTE: EGITO ANTIGO


Aos interessados na arte egípcia recomendo "A history of art in ancient Egypt, Vol. I e II, no projeto Gutemberg. Destaque para o capítulo IV - a arquitetura sagrada do Egito. A figura 210, por exemplo, mostra um interessante tabernáculo portátil egípcio da 19ª dinastia.


Download gratuito aqui. 




Jones F. Mendonça

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

ESPERTINHOS

Durante o festival Yadnya Kasada devotos hindus lançam oferendas na cratera do monte Bromo, Indonésia. Alguns espertinhos, aproveitando-se da ocasião, posicionam-se na borda da cratera com o objetivo de coletar as iguarias arremessadas pelos devotos. 

Foto: The Atlantic

Jones F. Mendonça

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

AS FESTAS JUDAICAS NO EVANGELHO DE JOÃO

"e era inverno" (Jo 10,22). Foto: YNet

Jo 5,1  Depois disso havia uma festa dos judeus; e Jesus subiu a Jerusalém (Pentecostes? Purim? Trombetas?).

Jo 6,4  Ora, a páscoa, a festa dos judeus, estava próxima (mês de nisan=mar/abr).

Jo 7,2  Ora, estava próxima a festa dos judeus, a dos tabernáculos (mês de tishri=set/out).

Jo 10,22  Celebrava-se então em Jerusalém a festa da dedicação (Hanukkah). E era inverno (mês de kislev=nov/dez).

Jo 19,14  Ora, era a preparação da páscoa, e cerca da hora sexta. E disse aos judeus: Eis o vosso rei (mês de nisan=mar/abr).

Mais sobre as festas judaicas aqui e aqui.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

NOVA IMAGEM DE CABEÇALHO [CARAVAGGIO]

Decidi mudar a imagem de cabeçalho do Blog. Voltei com o belíssimo "São Jerônimo escrevendo", de Caravaggio. O artista adorava sombras e tons escuros. Um crânio está sobre a mesa, contrapondo-se à imagem do autor da Vulgata Latina, alusão à caducidade das coisas. 



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

DE REIS, SACERDOTES, PROFETAS [E LADRÕES]

Na Bíblia hebraica reis, sacerdotes e profetas geralmente são tratados com respeito. Mas nos chamados “livros proféticos” as manifestações críticas às cerimônias religiosas mortas e aos líderes mercenários e egoístas são abundantes. Amós, por exemplo, critica sem pudor os reis (e suas esposas, aquelas “vacas”, cf. 4,1), sacerdotes e até profetas.

Isaías critica os jejuns artificiais e os cultos hipócritas (1,13-14; 58). Denuncia os crimes cometidos pelos “príncipes rebeldes e companheiros de ladrões” (1,23). O profeta enxerga o Israel de seu tempo como sendo composto por pessoas muito preocupadas com o “culto solene” e ao mesmo tempo indiferentes aos desamparados como órfãos e viúvas.

Oseias não mede palavras para denunciar reis corruptos (5,1) e “sacerdotes assassinos que matam no caminho para Siquém” (6,9). “Quero misericórdia e não sacrifícios” (6,6), proclama o profeta, filho de Beeri.

Miqueias acusa os “cabeças de Jacó” (líderes de Israel) de abominarem o juízo e perverterem o direito (3,9).  Chama os sacerdotes de “interesseiros” e os profetas de “mercenários” (Mq 3,11).

Diante da injustiça que toma conta de Israel, Amós expõe aos quatro ventos a inutilidade das festas religiosas, das reuniões solenes, dos sacrifícios e dos cânticos, tornados desprezíveis diante de um cenário no qual impera o suborno, os pesados tributos sobre o pobre e o abandono dos necessitados à porta (5).  

Malaquias, conhecido apenas pelo versículo “trazei todos os dízimos à casa do tesouro” (3,10), faz graves denúncias aos sacerdotes que “tropeçam na lei” (2,8) fazendo acepção de pessoas (2,9).  Vaticina que o excremento dos animais sacrificados será lançado em seus rostos e que serão considerados tão imundos quanto esses dejetos fétidos (2,3, cf. Lv 4,11).

Hoje você denuncia aquele “profeta ladrão”, aquele “sacerdote explorador”, aquele “rei ungido” que usa a política para manipular fiéis ingênuos, aquele “levita” que enriquece às custas de fãs transloucados e é tido como herege. Dois mil anos e pouca coisa mudou...



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

O ORIENTE MÉDIO E OS BASTIDORES DA DIPLOMACIA

De acordo com diversos analistas os EUA tem se afastado gradativamente dos problemas do Oriente Médio. Supõem que o motivo seja sua auto-suficiência em petróleo. O Irã está cada vez mais perto de conseguir um artefato nuclear e o país de Obama mostra-se tímido nas negociações. Israel e Arábia Saudita fazem alarde. Caso consiga produzir uma artefato nuclear os dois países serão alvos em potencial.

Pessoalmente duvido muito que o Irã tenha a intenção de atacar qualquer país vizinho, mesmo sendo liderado por radicais xiitas. O que o país persa quer é construir uma blindagem contra ações militares estrangeiras em seu território e conquistar a hegemonia na região. Mesmo que obtenha sucesso não terá ainda mísseis capazes de atingir países como os EUA, mas os vizinhos que se cuidem.

Em Israel já se fala no fim da parceria EUA/Israel (leia este artigo publicado no Haaretz, 05/12/13). Lembro que um dos principais aliados dos EUA no Oriente Médio já foi – acreditem - o Irã. Depois da revolução islâmica, em 79, a aliança se desfez e Israel foi se fortalecendo cada vez mais como parceiro político. Estaria Israel temendo perder privilégios para os iranianos?

Guga Chacra, do Estadão, duvida que a aliança EUA/Israel esteja no fim (leia aqui). Ele chega a especular um alarde exagerado do primeiro ministro israelense a fim de facilitar o acordo entre Obama e Rouhani. Os protestos inflamados de Natanyahu seriam pura encenação planejada em coordenação com Washington, visando pressionar a ala mais radical do Irã a dar carta branca para Rouhani nas negociações. Será?

Certo mesmo é que o cenário no Oriente Médio dá sinais de mudança. O futuro, no entanto, continua incerto. Você tem um palpite?


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

O FUNDAMENTALISTA

Você diz que adora chocolate. Ele se apressa: “adorar só a Deus”. Você diz que Pelé é o rei do futebol. Ele não perde tempo: “rei é nosso Senhor Jesus Cristo”. Você diz que está com dor. Vem um versículo: "Ele levou sobre si as nossas dores". Você espirra. Ele grita: "sai demo!"

Sujeito chato!



Jones F. Mendonça

JESUS, HUMANISTA ANTES DO HUMANISMO

Pouco antes de divulgar suas 95 teses contra as indulgências, em 31 de outubro de 1517, Lutero escreveu 97 teses contra a escolástica. Em sua tese 50 o reformador alemão chegou a dizer que “Aristóteles está para a teologia como as trevas estão para a luz’. Mas o fantasma do filósofo grego desprezado pelo reformador não iria deixar seus continuadores em paz.

Foi-se Lutero, foi-se Zwínglio, foi-se Calvino e algumas lacunas deixadas pelos reformadores logo passaram a ser alvo da investigação minuciosa da ortodoxia luterana e calvinista. A lógica de Aristóteles voltava à cena com trajes de gala e cabelo engomado.

No âmbito calvinista, por exemplo surgiram discussões tão proveitosas quanto a natureza sexual dos anjos. Os teólogos reformados não conseguiam dormir pensando em qual teria sido a ordem lógica dos decretos de Deus. Os supralapsarianos (supra = antes + lapso = queda) entendiam que o decreto da predestinação ocorrera antes da queda. Para os infralapsarianos (infra = abaixo, depois) o decreto da predestinação deve se situar depois da queda. Coisa muito útil.

Entre os luteranos a coisa descambou para outro lado. As conclusões de Galileu a favor do heliocentrismo, por exemplo, deixaram Valentin Ernst Löscher com uma baita dor de cabeça. Ele defendeu que o que se chama “escolástica luterana”, propondo uma reformulação da metafísica de Aristóteles. Löscher achava que as observações feitas por meio dos telescópios não eram confiáveis, afinal foram feitas pelos olhos de um pecador (!). Lessing deu boas risadas desse argumento. Houve ainda uma certa obsessão por confissões doutrinárias. Sobraram discussões a respeito da ceia, da união hipostática e da predestinação.  

Século XXI e de modo geral os protestantes continuam obcecados por doutrina. E pensar que mesmo o Jesus do kerigma, aquele anunciado por seus seguidores nas linhas dos evangelhos, não se mostrava preocupado com formulações teológicas sofisticadas e rígidas. Em uma de suas falas enfatizou que não se deve colocar a doutrina acima do homem: “o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado”. Foi humanista antes do humanismo. Mataram-no.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

QUANDO O SOL ABRAÇAR O SHEOL

Daqui a cinco bilhões de anos o combustível do sol vai se exaurir. O astro rei irá se tornar uma gigante vermelha e engolirá os planetas mais próximos. A terra se converterá num pavio fumegante. Depois da exuberante expansão - seu último suspiro - o sol irá se contrair até se tornar uma opaca e densa anã branca. A terra, agora sem lastro, vagará seca e morta pelo infinito vazio.

GIGANTE VERMELHA
Horizonte em mil sóis,
Lavas rubras flertando indóceis o último quinhão da energia
Fogo ardente em convulsão, réquiem da agonia.
É o sol deitando em seu esquife, para não sorrir jamais.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

AS PLACAS E AS VACAS

As placas foram feitas para as vacas e não o contrário. Quanta gente age como essas vacas...



Mais: IranCartoon


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

FUNDAMENTALISMO [PROVOCAÇÕES]

Fé cega, razão manca, obra estéril, coração cadáver.
Extremismo que desintegra a alma, a humanidade.
Piedade muda, sensibilidade surda.
Certeza de cristal sob o manto de um discurso ardente.
Diatribe oco levado pelo vento da ignorância...



Jones F. Mendonça

SOLA TRADITIO

“Toda a Escritura é divinamente inspirada...”, diz-nos um verso da segunda carta a Timóteo (2Tm 3,16). Tal “Escritura” não pode ser uma referência a Bíblia completa tal como conhecemos hoje (Antigo e Novo Testamento) por duas razões óbvias:

1) A Bíblia só ganhou sua forma atual no século IV, após muitas divergências quanto à canonicidade de alguns escritos que circulavam entre os cristãos.
2) No verso anterior o autor da carta exalta Timóteo por conhecer “desde a infância as sagradas letras”.

No tempo da infância de Timóteo os quatro Evangelhos sequer existiam. “Escrituras”, neste texto, é uma referência às Escrituras judaicas (Tanak) na qual Timóteo fora instruído como filho de uma mulher judia (cf. At 16,1-3).

É verdade que a carta de Pedro atribui valor escriturístico a alguns escritos de Paulo (2Pe 3,16), mas a carta só foi escrita na década de 80 e com certeza não abrange todo o material que compõe o Novo Testamento. Apocalipse, por exemplo, só foi escrito cerca de uma década depois e as epístolas gerais não são mencionadas.

Para crer que a Bíblia é a Palavra de Deus é preciso apelar à inspiração e inerrância dos hagiógrafos, à exatidão dos copistas e por fim à orientação divina aos padres que decidiram o cânon no final do século IV. Enfim, para crer que a Bíblia é a palavra de Deus é preciso crer na tradição.

E me aparece um sujeito ingênuo berrando aos quatro cantos: “sola scriptura”.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A "LÓGICA FREEMAN" II

Zuleica tem sido constantemente assediada por seu chefe. Resolveu aplicar o conselho de Morgan Freeman ao seu problema: “a melhor maneira de combater o racismo é não falar sobre ele”. Zuleica já foi estuprada três vezes pelo patrão. Continua calada esperando que as coisas se resolvam naturalmente.

Acorda Zuleica, Freeman é ótimo ator, mas péssimo conselheiro.


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A "LÓGICA FREEMAN"

João e Maria são um casal. João só toma banho em dias pares apesar de morar num país tropical. Maria só escova os dentes em dias ímpares apesar de comer a cada quinze minutos. João odeia mau hálito. Maria não suporta cheiro de suor. Os dois resolveram aplicar a famosa frase do ator Morgan Freeman aos seus problemas conjugais: “a melhor maneira de combater o racismo é não falar sobre ele”.

João finge que não existem problemas em seu casamento. Maria faz o mesmo. Essa é a lógica Freeman...


Jones F. Mendonça

terça-feira, 12 de novembro de 2013

O DRAMA DE TEÓFILO E O “FIDES QUAERENS INTELLECTUM”

Teófilo Eusébio. Quarenta e dois anos. Casado. Pai de dois filhos. Crise da meia idade e ele reflete sobre a religião herdada de seus pais. Sempre pensou que sua conversão ocorrera devido à aceitação de uma doutrina. Invertendo santo Anselmo pensava buscar "compreender para crer". Uma decisão baseada na razão, portanto. Começou a achar que estava enganado.

Tratou de pensar que o indivíduo que adere a uma religião faz isso sem conhecer suficientemente seus fundamentos. No caso do cristianismo, por exemplo, em primeiro lugar o sujeito declara seu desejo de participar do grupo de fé (não resiste ao apelo e “levanta a mão” no culto ou explicita seu desejo ao pastor). Tal decisão – pensa - não pode ser racional. Num segundo momento ele aprende os dogmas, os códigos morais, a linguagem religiosa, a liturgia... E então começam as dúvidas, as perguntas, as inquietações.

A decisão primária parte de uma crise existencial e não de um julgamento racional. A razão só é acionada depois. Trata-se de uma razão manca, é verdade, mas que se esforça para justificar sua crença aos ateus, aos agnósticos, aos deístas e membros de outras religiões e a si mesmo. No âmbito protestante tal tarefa cabe à apologética. Entre os católicos à teologia fundamental.

O Teófilo do Evangelho de Lucas (Lc 1,3), xará do nosso personagem, parecia buscar razões mais sólidas para a fé que acabara de aderir: fides quaerens intellectum (a fé em busca de entendimento), como gostava de dizer Agostinho, teólogo que se esforçou para apresentar o cristianismo nos termos da filosofia platônica. Na escolástica foi a vez de Tomás de Aquino, impulsionado pala lógica aristotélica. A filosofia dava seus trotes sob o pulso firme da teologia: Agostinho abraçado a Platão, Aquino empoleirado em Aristóteles.

No século XX a “fé que busca compreender” ganhou ares sofisticados e linguagem quase hermética. Alguns deles inspirados num novo princípio hermenêutico: o existencialismo de Heidegger. Assim foi com Bultmann e Tillich. Amparada na teoria da evolução de Darwin apareceu Teilhard de Chardin e sua cristologia cósmica. E outros, como Bonhoeffer (secularização), von Buren (neopositivismo), Moltmann (filosofia da esperança de E. Bloch), etc. As Escrituras lidas e interpretadas com as lentes das filosofias e cosmovisões do século XX. A velha apologia renovada com Botox e bisturi.

Teófilo Eusébio leu todos esses teólogos em busca de uma justificativa racional para sua fé. Não encontrou. Debruçou-se sobre os livros de Craig e Plantinga, atuais ícones da apologética cristã. Pura ilusão. Quer saber se tornou ateu? Não, não se tornou. Continua indo aos cultos onde dirige um pequeno coral. Participa dos sacramentos. Encanta-se com a arquitetura das igrejas góticas. Distribui de sopa aos sem teto. Não faz isso para herdar o céu o por medo do inferno. Mantém–se ligado à religião porque de alguma forma ela o atrai (sim, ele se vê como uma mariposa ao redor de uma lâmpada acesa). Gosta de religião como gosta de olhar a lua ou o dorso de uma mulher. Talvez seja ingênuo. Talvez seja um niilista como supôs Nietzsche. Talvez seja um neurótico como defendia Freud. Talvez a religião seja para ele uma espécie de ópio como dizia Marx.

Talvez...


 Jones F. Mendonça


segunda-feira, 11 de novembro de 2013

ACAN, ACAR, OCAR, ACOR E O TUMULTUADO TEXTO DE JOSUÉ 6-7

No capítulo seis do livro de Josué toda a cidade de Jericó é declarada “herem”, exceto Raabe, livrada da morte por ter acolhido os mensageiros israelitas. Na história Acã (Akan) acaba punido por ter subtraído alguns objetos incluídos no herem. Tal atitude implicou na extensão do herem a todo o arraial de Israel (cf. 6,18), perturbando-o (hb. akar). A solução encontrada para que a ordem fosse restabelecida foi a morte da Acã. Há quem traduza a palavra hebraica herem por “maldito” ou “condenado”, ou “destruído” ou ainda “anátema”. Dada a carga negativa que tais palavras trazem esse texto geralmente tem sido mal interpretado.  

De acordo com o texto Acã apanhou, além de uma capa babilônica, “duzentos siclos de prata, e uma cunha de ouro do peso de cinqüenta siclos”, objetos declarados herem que deveriam ser “consagrados” (hb. qodesh) a Yahweh (cf. 6,19). Um leitor atendo sente-se confuso: como tais objetos poderiam ser ao mesmo tempo “condenados” (herem) e “santos” (qodesh)? Compare:

O herem-qodesh - Js 6,19  e toda a prata, e o ouro, e os vasos de bronze e de ferro, são santos (qodesh) a Yahweh; irão para o tesouro de Yahweh.
O pecado - Js 7,1  Mas os filhos de Israel cometeram uma transgressão no tocante ao anátema (herem), pois Acã [...] tomou do anátema (herem); e a ira do Senhor se acendeu contra os filhos de Israel.
A confissão - 7,21  quando vi entre os despojos uma boa capa babilônica, e duzentos siclos de prata, e uma cunha de ouro do peso de cinqüenta siclos, cobicei-os e tomei-os

Ocorre que “anátema”, “coisa condenada”, “destruída” ou “maldita” não traduzem bem o termo hebraico. Herem é coisa isolada, interditada para um propósito específico. Não é sem razão que em alguns textos herem é traduzido por rede (como em Ez 32,3, Hab 1,15). A semelhança de herem com harém (palavra árabenão é coincidência. Harém é lugar fechado só para mulheres (de um soberano). Herem é lugar sagrado, espaço interditado aos humanos. 

Neste caso específico (aparentemente único, compare com 1Sm 15) além do herem que deveria ser destruído, uma parte precisava ser levada para o santuário, tais como a prata o ouro e outros objetos valiosos. Acã tocou no herem - coisa isolada para propósitos específicos conforme determinação de Yahweh - daí sua culpa. Se tivesse salvado outra pessoa além de Raabe (livrada do herem) também teria sido declarado culpado (cf. Lv 27,29). A mensagem do texto é clara: No herem, seja ele reservado ao templo ou à destruição, não se toca (cf. Dt 13,17).

Apalavra herem como coisa separada para um propósito específico também aparece em Lv 27,21:
Mas o campo, quando sair livre no ano do jubileu, será santo (qodesh) ao Senhor, como campo consagrado (herem); a possessão dele será do sacerdote".
Em outros casos o termo “destruição” cabe bem como tradução para herem, como neste texto de Ml 4,6:
“e ele converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais; para que eu não venha, e fira a terra com maldição (herem)”.
A narrativa presente nos capítulos 6 e 7 do livro de Josué  tem claro caráter etiológico e visa explicar o porquê do vale ter recebido o nome de Acor (atormentado) e qual a origem de um amontoado de pedras. Em 1Cr 2,7 o nome de Acan é mudado para Acar, dada sua semelhança com Ocar, que significa perturbador. No jogo de palavras presente no texto figuram: Acan e Acar (duplo nome atribuído ao personagem, cf. Js e Cr), Ocar (=perturbador: predicado do personagem), Acor (=atormentado: nome do vale) e finalmente Yahweh. Diz ao final Josué: “Por que nos perturbaste (Akartanu)? hoje o Senhor te perturbará (yakarkha) a ti”.

Mais que isso, o texto busca inculcar na cabeça do povo que não se deve tocar nas coisas de Yahweh (que na verdade são dos sacerdotes).


Jones F. Mendonça

terça-feira, 5 de novembro de 2013

OS CRISTÃOS MELQUITAS DA SÍRIA

Os livros de história do cristianismo geralmente fazem referência a dois grandes cismas (separação, fenda) ocorridos no cristianismo: o Grande Cisma do Oriente (1054) e o Grande Cisma do Ocidente (1378-1417). O primeiro deu origem à igreja ortodoxa grega e o segundo teve caráter temporário, marcado pela existência simultânea de dois papas: um em Roma e outro em Avignon, na França (há quem fale em três!).

Mas o primeiro grande cisma ocorreu já nos primeiros séculos, em decorrência de divergências a respeito da formulação do dogma cristológico firmado em Calcedôdia (451) que declara a dupla natureza de Cristo (divina e humana).  Alguns grupos de cristãos, principalmente da Palestina, Síria e Egito, inclinados ao monofisismo (insistiam numa só natureza de Cristo após a encarnação), repudiaram a doutrina da “união hipostática” (unidade da pessoa de Cristo em duas naturezas) e formaram as chamadas igrejas “não-calcedonianas”: a igreja armênia, a igreja copta e a igreja sírio-jacobita. A controvérsia ganhou o nome de “cisma acaciano”, uma referência ao patriarca Acácio de Constantinopla, autor de um documento que visava solucionar a controvérsia monofisista. A ambigüidade do texto acabou expondo Acácio à excomunhão e contribuindo para acentuar as diferenças entre Roma e Constantinopla.

Por terem se mantido fiéis à doutrina adotada pelo imperador romano (apesar de situados geograficamente no Oriente), um grupo de cristãos sírios ganhou o apelido pejorativo de melquita (maliki, em árabe; melekh, no siríaco e no hebraico = rei).

É importante frisar que o cristianismo nunca experimentou plena unidade. Paulo em sua carta aos Coríntios já se mostrava incomodado com a existência de grupos com tendências diferentes:
...cada um de vós diz: eu sou de Paulo; ou, eu de Apolo; ou eu sou de Cefas; ou, eu de Cristo. Será que Cristo está dividido? (1Co 1,12-13) 
Este registro feito por Paulo revela a tendência dos fiéis em seguirem os fundadores das comunidades das quais faziam parte. Comunidades cristãs estabelecidas no Oriente pelos demais discípulos desenvolveram patrimônio litúrgico e teológico próprios ao longo dos primeiros séculos, constituindo um enorme obstáculo para a unidade da Igreja.

Parte dos melquitas, separados de Roma em 1054 juntamente com os ortodoxos, reconciliou-se com o papado no ano de 1684. São chamados de uniatas: praticam o rito oriental, liderados por um patriarca, mas são filiados à igreja católica. Como minoria na Síria, os melquitas tendem a apoiar o governo de Bashar  al Assad, uma vez que o ditador garante a liberdade religiosa no país.



Jones F. Mendonça

sábado, 2 de novembro de 2013

TEXTOS UGARÍTICOS DE RAS RHAMRA [DOWNLOAD GRATUITO]

A partir de 1929, no norte da Síria (Ras Shamra), foram sendo descobertos antigos textos em ugarítico (um dialeto cananeu) que revelam a vida cultural e política da região no segundo milênio a.C. Os textos, escritos em placas de barro, contém mitos e poemas épicos, fábulas, documentos comerciais e legais, textos de presságios e de rituais. 

Particularmente interessante é um poema épico de Baal em cujas linhas aparece uma série de figuras importantes da mitologia Cananeia também presentes na Bíblia hebraica. O deus El, por exemplo, surge como chefe da assembleia divina, assim como elohim (Deus de Israel), no Salmo 82,1: “Elohim está na assembleia de El; julga no meio dos elohim”. Outras divindades que aparecem no poema e estão presentes na Bíblia hebraica são Yam (Jó 38,8), Mot (Jó 28,22), Lotan e Tanin (cf. Sl 74,13; Jó 3,8; 40,25), Shahru (em hebraico Shahar, cf. Is 14,12), Shalmu (hebraico Shalem, cf. Gn 14,18; Sl 76,2) e Rashpu (o Nergal acadiano, em hebraico reshef, cf. Dt 32,24; Hab, 3,5; Sl 76,3; Jó 5,7; Ct 8,6).

Você pode fazer o download do livro: “Religious Texts from Ugarit”, de Nicolas Wyatt, contendo uma série de textos descobertos em Ugarit aqui.

O crédito notícia do download gratuito vai para Jim West (Zwinglios Redivivus), via Airton José (Observatório Bíblico).


Jones F. Mendonça