quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A "LÓGICA FREEMAN"

João e Maria são um casal. João só toma banho em dias pares apesar de morar num país tropical. Maria só escova os dentes em dias ímpares apesar de comer a cada quinze minutos. João odeia mau hálito. Maria não suporta cheiro de suor. Os dois resolveram aplicar a famosa frase do ator Morgan Freeman aos seus problemas conjugais: “a melhor maneira de combater o racismo é não falar sobre ele”.

João finge que não existem problemas em seu casamento. Maria faz o mesmo. Essa é a lógica Freeman...


Jones F. Mendonça

terça-feira, 12 de novembro de 2013

O DRAMA DE TEÓFILO E O “FIDES QUAERENS INTELLECTUM”

Teófilo Eusébio. Quarenta e dois anos. Casado. Pai de dois filhos. Crise da meia idade e ele reflete sobre a religião herdada de seus pais. Sempre pensou que sua conversão ocorrera devido à aceitação de uma doutrina. Invertendo santo Anselmo pensava buscar "compreender para crer". Uma decisão baseada na razão, portanto. Começou a achar que estava enganado.

Tratou de pensar que o indivíduo que adere a uma religião faz isso sem conhecer suficientemente seus fundamentos. No caso do cristianismo, por exemplo, em primeiro lugar o sujeito declara seu desejo de participar do grupo de fé (não resiste ao apelo e “levanta a mão” no culto ou explicita seu desejo ao pastor). Tal decisão – pensa - não pode ser racional. Num segundo momento ele aprende os dogmas, os códigos morais, a linguagem religiosa, a liturgia... E então começam as dúvidas, as perguntas, as inquietações.

A decisão primária parte de uma crise existencial e não de um julgamento racional. A razão só é acionada depois. Trata-se de uma razão manca, é verdade, mas que se esforça para justificar sua crença aos ateus, aos agnósticos, aos deístas e membros de outras religiões e a si mesmo. No âmbito protestante tal tarefa cabe à apologética. Entre os católicos à teologia fundamental.

O Teófilo do Evangelho de Lucas (Lc 1,3), xará do nosso personagem, parecia buscar razões mais sólidas para a fé que acabara de aderir: fides quaerens intellectum (a fé em busca de entendimento), como gostava de dizer Agostinho, teólogo que se esforçou para apresentar o cristianismo nos termos da filosofia platônica. Na escolástica foi a vez de Tomás de Aquino, impulsionado pala lógica aristotélica. A filosofia dava seus trotes sob o pulso firme da teologia: Agostinho abraçado a Platão, Aquino empoleirado em Aristóteles.

No século XX a “fé que busca compreender” ganhou ares sofisticados e linguagem quase hermética. Alguns deles inspirados num novo princípio hermenêutico: o existencialismo de Heidegger. Assim foi com Bultmann e Tillich. Amparada na teoria da evolução de Darwin apareceu Teilhard de Chardin e sua cristologia cósmica. E outros, como Bonhoeffer (secularização), von Buren (neopositivismo), Moltmann (filosofia da esperança de E. Bloch), etc. As Escrituras lidas e interpretadas com as lentes das filosofias e cosmovisões do século XX. A velha apologia renovada com Botox e bisturi.

Teófilo Eusébio leu todos esses teólogos em busca de uma justificativa racional para sua fé. Não encontrou. Debruçou-se sobre os livros de Craig e Plantinga, atuais ícones da apologética cristã. Pura ilusão. Quer saber se tornou ateu? Não, não se tornou. Continua indo aos cultos onde dirige um pequeno coral. Participa dos sacramentos. Encanta-se com a arquitetura das igrejas góticas. Distribui de sopa aos sem teto. Não faz isso para herdar o céu o por medo do inferno. Mantém–se ligado à religião porque de alguma forma ela o atrai (sim, ele se vê como uma mariposa ao redor de uma lâmpada acesa). Gosta de religião como gosta de olhar a lua ou o dorso de uma mulher. Talvez seja ingênuo. Talvez seja um niilista como supôs Nietzsche. Talvez seja um neurótico como defendia Freud. Talvez a religião seja para ele uma espécie de ópio como dizia Marx.

Talvez...


 Jones F. Mendonça


segunda-feira, 11 de novembro de 2013

ACAN, ACAR, OCAR, ACOR E O TUMULTUADO TEXTO DE JOSUÉ 6-7

No capítulo seis do livro de Josué toda a cidade de Jericó é declarada “herem”, exceto Raabe, livrada da morte por ter acolhido os mensageiros israelitas. Na história Acã (Akan) acaba punido por ter subtraído alguns objetos incluídos no herem. Tal atitude implicou na extensão do herem a todo o arraial de Israel (cf. 6,18), perturbando-o (hb. akar). A solução encontrada para que a ordem fosse restabelecida foi a morte da Acã. Há quem traduza a palavra hebraica herem por “maldito” ou “condenado”, ou “destruído” ou ainda “anátema”. Dada a carga negativa que tais palavras trazem esse texto geralmente tem sido mal interpretado.  

De acordo com o texto Acã apanhou, além de uma capa babilônica, “duzentos siclos de prata, e uma cunha de ouro do peso de cinqüenta siclos”, objetos declarados herem que deveriam ser “consagrados” (hb. qodesh) a Yahweh (cf. 6,19). Um leitor atendo sente-se confuso: como tais objetos poderiam ser ao mesmo tempo “condenados” (herem) e “santos” (qodesh)? Compare:

O herem-qodesh - Js 6,19  e toda a prata, e o ouro, e os vasos de bronze e de ferro, são santos (qodesh) a Yahweh; irão para o tesouro de Yahweh.
O pecado - Js 7,1  Mas os filhos de Israel cometeram uma transgressão no tocante ao anátema (herem), pois Acã [...] tomou do anátema (herem); e a ira do Senhor se acendeu contra os filhos de Israel.
A confissão - 7,21  quando vi entre os despojos uma boa capa babilônica, e duzentos siclos de prata, e uma cunha de ouro do peso de cinqüenta siclos, cobicei-os e tomei-os

Ocorre que “anátema”, “coisa condenada”, “destruída” ou “maldita” não traduzem bem o termo hebraico. Herem é coisa isolada, interditada para um propósito específico. Não é sem razão que em alguns textos herem é traduzido por rede (como em Ez 32,3, Hab 1,15). A semelhança de herem com harém (palavra árabenão é coincidência. Harém é lugar fechado só para mulheres (de um soberano). Herem é lugar sagrado, espaço interditado aos humanos. 

Neste caso específico (aparentemente único, compare com 1Sm 15) além do herem que deveria ser destruído, uma parte precisava ser levada para o santuário, tais como a prata o ouro e outros objetos valiosos. Acã tocou no herem - coisa isolada para propósitos específicos conforme determinação de Yahweh - daí sua culpa. Se tivesse salvado outra pessoa além de Raabe (livrada do herem) também teria sido declarado culpado (cf. Lv 27,29). A mensagem do texto é clara: No herem, seja ele reservado ao templo ou à destruição, não se toca (cf. Dt 13,17).

Apalavra herem como coisa separada para um propósito específico também aparece em Lv 27,21:
Mas o campo, quando sair livre no ano do jubileu, será santo (qodesh) ao Senhor, como campo consagrado (herem); a possessão dele será do sacerdote".
Em outros casos o termo “destruição” cabe bem como tradução para herem, como neste texto de Ml 4,6:
“e ele converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais; para que eu não venha, e fira a terra com maldição (herem)”.
A narrativa presente nos capítulos 6 e 7 do livro de Josué  tem claro caráter etiológico e visa explicar o porquê do vale ter recebido o nome de Acor (atormentado) e qual a origem de um amontoado de pedras. Em 1Cr 2,7 o nome de Acan é mudado para Acar, dada sua semelhança com Ocar, que significa perturbador. No jogo de palavras presente no texto figuram: Acan e Acar (duplo nome atribuído ao personagem, cf. Js e Cr), Ocar (=perturbador: predicado do personagem), Acor (=atormentado: nome do vale) e finalmente Yahweh. Diz ao final Josué: “Por que nos perturbaste (Akartanu)? hoje o Senhor te perturbará (yakarkha) a ti”.

Mais que isso, o texto busca inculcar na cabeça do povo que não se deve tocar nas coisas de Yahweh (que na verdade são dos sacerdotes).


Jones F. Mendonça

terça-feira, 5 de novembro de 2013

OS CRISTÃOS MELQUITAS DA SÍRIA

Os livros de história do cristianismo geralmente fazem referência a dois grandes cismas (separação, fenda) ocorridos no cristianismo: o Grande Cisma do Oriente (1054) e o Grande Cisma do Ocidente (1378-1417). O primeiro deu origem à igreja ortodoxa grega e o segundo teve caráter temporário, marcado pela existência simultânea de dois papas: um em Roma e outro em Avignon, na França (há quem fale em três!).

Mas o primeiro grande cisma ocorreu já nos primeiros séculos, em decorrência de divergências a respeito da formulação do dogma cristológico firmado em Calcedôdia (451) que declara a dupla natureza de Cristo (divina e humana).  Alguns grupos de cristãos, principalmente da Palestina, Síria e Egito, inclinados ao monofisismo (insistiam numa só natureza de Cristo após a encarnação), repudiaram a doutrina da “união hipostática” (unidade da pessoa de Cristo em duas naturezas) e formaram as chamadas igrejas “não-calcedonianas”: a igreja armênia, a igreja copta e a igreja sírio-jacobita. A controvérsia ganhou o nome de “cisma acaciano”, uma referência ao patriarca Acácio de Constantinopla, autor de um documento que visava solucionar a controvérsia monofisista. A ambigüidade do texto acabou expondo Acácio à excomunhão e contribuindo para acentuar as diferenças entre Roma e Constantinopla.

Por terem se mantido fiéis à doutrina adotada pelo imperador romano (apesar de situados geograficamente no Oriente), um grupo de cristãos sírios ganhou o apelido pejorativo de melquita (maliki, em árabe; melekh, no siríaco e no hebraico = rei).

É importante frisar que o cristianismo nunca experimentou plena unidade. Paulo em sua carta aos Coríntios já se mostrava incomodado com a existência de grupos com tendências diferentes:
...cada um de vós diz: eu sou de Paulo; ou, eu de Apolo; ou eu sou de Cefas; ou, eu de Cristo. Será que Cristo está dividido? (1Co 1,12-13) 
Este registro feito por Paulo revela a tendência dos fiéis em seguirem os fundadores das comunidades das quais faziam parte. Comunidades cristãs estabelecidas no Oriente pelos demais discípulos desenvolveram patrimônio litúrgico e teológico próprios ao longo dos primeiros séculos, constituindo um enorme obstáculo para a unidade da Igreja.

Parte dos melquitas, separados de Roma em 1054 juntamente com os ortodoxos, reconciliou-se com o papado no ano de 1684. São chamados de uniatas: praticam o rito oriental, liderados por um patriarca, mas são filiados à igreja católica. Como minoria na Síria, os melquitas tendem a apoiar o governo de Bashar  al Assad, uma vez que o ditador garante a liberdade religiosa no país.



Jones F. Mendonça

sábado, 2 de novembro de 2013

TEXTOS UGARÍTICOS DE RAS RHAMRA [DOWNLOAD GRATUITO]

A partir de 1929, no norte da Síria (Ras Shamra), foram sendo descobertos antigos textos em ugarítico (um dialeto cananeu) que revelam a vida cultural e política da região no segundo milênio a.C. Os textos, escritos em placas de barro, contém mitos e poemas épicos, fábulas, documentos comerciais e legais, textos de presságios e de rituais. 

Particularmente interessante é um poema épico de Baal em cujas linhas aparece uma série de figuras importantes da mitologia Cananeia também presentes na Bíblia hebraica. O deus El, por exemplo, surge como chefe da assembleia divina, assim como elohim (Deus de Israel), no Salmo 82,1: “Elohim está na assembleia de El; julga no meio dos elohim”. Outras divindades que aparecem no poema e estão presentes na Bíblia hebraica são Yam (Jó 38,8), Mot (Jó 28,22), Lotan e Tanin (cf. Sl 74,13; Jó 3,8; 40,25), Shahru (em hebraico Shahar, cf. Is 14,12), Shalmu (hebraico Shalem, cf. Gn 14,18; Sl 76,2) e Rashpu (o Nergal acadiano, em hebraico reshef, cf. Dt 32,24; Hab, 3,5; Sl 76,3; Jó 5,7; Ct 8,6).

Você pode fazer o download do livro: “Religious Texts from Ugarit”, de Nicolas Wyatt, contendo uma série de textos descobertos em Ugarit aqui.

O crédito notícia do download gratuito vai para Jim West (Zwinglios Redivivus), via Airton José (Observatório Bíblico).


Jones F. Mendonça

sábado, 26 de outubro de 2013

YHWH, YEHOWAH, JEOVÁ, YEHWIH, YAHWEH E JAVÉ: PICUINHAS SOBRE O NOME DIVINO II

Na Bíblia hebraica as consoantes YHWH aparecem ora com as vogais de adonai (Yehowah ou Yehwah - mais comuns), ora com as vogais de Elohim (Yehowih - menos comum, cf. Gn 15,2, Jz 16,28). Note que no caso de Yehowah há uma troca do "a" pelo "e" explicável por uma regra do hebraico que não vem ao caso agora. O uso das vogais de adonai e elohim visavam impedir que o leitor pronunciasse o nome divino. 

A escolha de Jeová como pronúncia do nome divino, presente em antigas versões da Bíblia e na Tradução do Novo Mundo (Testemunhas de Jeová), baseia-se na transliteração “Yehowah” sem levar em conta a mudança proposital das vogais pelos massoretas (estudiosos judeus que inseriram os sinais vocálicos a partir do V século d.C.). A troca do “Y” pelo “J” possui uma explicação simples. O “yod”, primeira consoante do nome divino tem um som que se aproxima tanto do “J” como do “Y”. No alemão, idioma que não contempla o “J”, a consoante escolhida como equivalente ao “yod” foi o “Y”. Nos idiomas latinos a consoante que mais se aproxima do som do “yod” é o “J”. Daí Jeová (e não Yehowah). Daí Joshua (e não Yeshua).

Há quem pense (como os exegetas da Bíblia de Jerusalém) que a pronúncia correta do nome divino seja Yahweh (outras Bíblias católicas preferem simplesmente Javé, mais adequado ao nosso idioma). Trabalhos acadêmicos sobre a Bíblia hebraica e a religião dos antigos israelitas geralmente adotam essas duas formas. Alguns nomes bíblicos - chamados teofóricos - como (Jeremias - Yermeyah) apresentam um “yah” no final, referência ao deus adorado pelos israelitas. O mesmo ocorre com aleluia (haleluyah = louvemos a yah). Tais indícios, somados a outros parecem sugerir ser esta a pronúncia correta, mas a verdade é que não há certeza. 

Muitos judeus e cristãos messiânicos escandalizam-se quando alguém tenta pronunciar o nome divino (alguns ficam bastante irritados). Como sinal de reverência, sempre que o tetragrama aparece, lêem “adonai” (Senhor). Ouça o capítulo 7 do livro do Gênesis em hebraico e perceba que logo no início do áudio surge a palavra “adonai” (em substituição a “Yehwah”, tal como aparece no texto). O que você vai ouvir é mais ou menos o seguinte: “vaiômer adonai lenôar bô atá verrol beterrá el ratevá (“Disse YHWH a Noé: vai tu e toda a tua casa para a arca”).

Fora da Bíblia hebraica o tetragrama YHWH aparece em algumas inscrições encontradas na Península do Sinai (Kuntillet Adjrud - séc. IX), na estela do rei Mesha de Moabe (conhecida como estela moabita, também do século IX) e no túmulo Hirbet el Qom (século VIII). Muito se discute atualmente a respeito de sua origem e adoção pelos hebreus.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

YHWH, ADONAI, ZEUS, DEUS E D’US: PICUINHAS SOBRE O NOME DIVINO

Alguém em sala de aula (acho que foi o Roberto) perguntou-me a respeito do motivo que levou os judeus e messiânicos a escreverem o nome de Deus substituindo o “e” por um apóstrofo: “D’us”. Minha resposta ao aluno curioso: “não tenho a mínima ideia”. Fui investigar.

A explicação mais comum, exposta em sites judaicos e messiânicos, é que a mudança tem como objetivo evitar a pronúncia do nome divino, tal como ordena o segundo mandamento. Será?

No hebraico o nome divino sem sinais vocálicos é YHWH (tetragrama sagrado). Com sinais vocálicos (inseridos a partir do século V d.C.) a palavra pode ser transliterada da seguinte forma: YeHWaH. Para não pronunciar o nome sagrado durante a leitura os judeus substituíam YeHWaH por Adonai (Senhor). Em suma: onde estava escrito YeHWaH, passaram a ler “Adonai”. Assim é feito até hoje.

Agora pense comigo: se a palavra latina “Deus” já consiste numa substituição do tetragrama sagrado (nas nossas Bíblias escolheram “Senhor”), por que cargas d’água seria preciso fazer nova modificação? Trocar “Deus” por “D’us” seria como trocar “Adonai” por “Ad’nai”. Abandonei os sites e fui para os livros em busca de uma resposta que fizesse mais sentido.

Rubén Luis Najmanovich, em seu livro “Maimônides” (Zahar, 2006, p. 17) explica que a grafia “D’us” foi criada pelo sábio judeu que dá nome ao seu livro (também conhecido como Rambam, séc XII d.C.). Ele teria evitado “Deus” porque a palavra é derivada de “Zeus”, divindade adorada pelos gregos na antiguidade. A solução encontrada: “D’us”. Faz mais sentido. Mas será verdade?

Bem, se Maimônides tivesse escrito em latim a explicação seria perfeita. Isso porque tanto em latim como em português a grafia é a mesma: “Deus”. Mas há um problema com essa explicação. Até onde sei Maimônides escreveu em árabe (como seu famoso “Guia dos perplexos”). Só mais tarde suas obras foram traduzidas para o hebraico, grego e o latim.

Fiz uma busca no Google na esperança de encontrar algum site mantido pelo autor do livro ou qualquer outro canal de comunicação que me permitisse perguntar a respeito da fonte que deu origem a essa explicação. Não obtive sucesso. Consultei outros livros sobre Maimônides (até em outros idiomas). Nada!

Ao que parece o uso da forma “D’us” não faz lá muito sentido mesmo. 


Jones F. Mendonça


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

APARIÇÃO DO JESUS RESSURRETO EM LUCAS: ENTRE PÃES E PEIXES

Mulheres no túmulo, de
Benozzo Gazzoli (1440-41)
Tenho me debruçado sobre os relatos da aparição do Jesus ressurreto nos Evangelhos, outros livros do Novo Testamento (Atos e 1 Coríntios) e no Evangelho de Pedro. Quem faz uma leitura vertical dos Evangelhos percebe harmonia entre os relatos. Quem faz uma leitura horizontal percebe desarmonia. Não tenho a pretensão de fazer um trabalho exegético, mas irei postando aos poucos minhas impressões a respeito do tema.

Quero começar com o Evangelho de Lucas. Nele Jesus aparece primeiro a dois homens que caminham em direção a Emaús e não às mulheres, como nos evangelhos de Mateus (mulheres; 28,8-9), João (Maria Madalena; 20,14) e Marcos (Maria Madalena; 16,9).

Outra diferença é que as aparições ocorrem em Jerusalém e seus arredores e não na Galileia, como Mateus (28,16-17), Marcos (16,7) e João, que parece unir as duas tradições (Jo 20 – Jerusalém; Jo 21 – Galileia). Segue um resumo do relato em ordem cronológica (primeiro bloco: túmulo vazio; segundo bloco: aparição): 
O túmulo vazio: mulheres > Pedro
1. No primeiro dia da sema na algumas mulheres vão ao sepulcro e não encontram o corpo de Jesus (Lc 24,1-3). Dois “varões resplandecentes” dizem às mulheres que Jesus ressurgiu (Lc 24,6);

2. As mulheres retornam do sepulcro e dão a notícia do túmulo vazio “aos onze” [Judas não está mais entre eles] e a “todos os demais” (24,9). Todos pensam que as mulheres estão delirando e não lhes dão crédito (24,11). Pedro, no entanto, corre ao sepulcro e também encontra o túmulo vazio (24, 12);

Aparição: dois homens > Pedro> os Onze e os demais
3. Jesus aparece a dois dos homens que seguem para a aldeia de Emaús discutindo os últimos acontecimentos (24,13). Eles só se dão conta de que se trata de Jesus no momento em que se sentam juntos à mesa e repartem o pão (24,30). Jesus desaparece.

4. Os dois voltam a Jerusalém e encontram “os onze e os que estavam com eles“. Esse grupo diz aos dois que Pedro também havia visto Jesus (24,33-34). Uma nova aparição ocorre enquanto os dois anunciam que haviam visto Jesus. O grupo pensa estar diante de “algum espírito” (24,36). Jesus come com eles e relembra suas antigas palavras a respeito de sua ressurreição. O entendimento de todos se abre. Jesus os abençoa e é elevado aos céus (24,43-45); 
Percebem o túmulo vazio: “algumas mulheres” e Pedro.
Ordem das aparições: “dois homens”, Pedro, “os onze” e “os que estavam com eles”.
Local das aparições: Caminho de Emaús e Jerusalém (não se fala em Galileia, como em Mt, Mc e Jo).

Esquema do contato com o Jesus ressurreto: aparição > dúvida > lembrança das antigas palavras de Jesus > refeição comunitária > abertura do entendimento > desaparecimento de Jesus.

Fato curioso: tanto os “dois homens” como “os onze” e os “demais” só reconhecem Jesus após comerem com ele: dois homens/pão (24,30-31); os “onze” e os “demais”/peixe (24,43-45).  Coincidência?


Jones F. Mendonça

domingo, 13 de outubro de 2013

DITADORES

Os EUA invadiram o Iraque e depuseram Sadam Hussein. Bagdá segue com a capital que mais sofre com atentados terroristas.

A OTAN (liderada pelos EUA) derrubou Kadafi. Atualmente a Líbia é uma terra caótica comandada por milícias, muitas delas ligadas à Al-Qaeda.

Tio Sam lutando contra os malvados ditadores. Sei...

Os EUA apoiam ditaduras no norte da África e no Golfo Pérsico. Uma delas até sedia corridas de fórmula 1 (o regime dos Al Khalifa do Bahrein). Como é bom ver a competição pela TV... Alonso, Massa, Haikkonen, as bandeiras tremulando, o som vibrante dos motores, tudo muito bonito. 

No fundo meus caros, os EUA só parecem se incomodar com ditadores que não entram no seu jogo, como Iraque a Líbia e agora com a Síria.

Há algum tempo andam implicando com o programa atômico (fins pacíficos?) do Irã dos Aiatolás. Não querem que tenha uma bomba atômica (como Israel tem, mas não declara publicamente), afinal, só os países ocidentais e Israel têm “moral elevada” o suficiente para tê-las. E pensar que o único artefato atômico usado contra um inimigo veio justamente de uma potência ocidental. Mas como ouvi de um analista americano, “as bombas lançadas em Hiroshima e Nagasaki pouparam muitas vidas ao pôr fim à guerra”. 

E viva a democracia americana!



Jones F. Mendonça  

"O REINO ESQUECIDO" DE ISRAEL FINKELSTEIN NA SBL [LIVRO]

Acabo de saber, via Observatório Bíblico, que o novo livro do arqueólogo israelense Israel Finkelstein, encontra-se disponível para download gratuito (para países de baixa renda per capita) no site da SBL (Society of Biblical Literature). 

Faça o download (livro em inglês) aqui


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

CONFERÊNCIA DE COPENHAGUE: O AT SOB NOVA PERSPECTIVA

Sobre o livro
Com o objetivo de “avaliar algumas das principais mudanças no campo dos estudos bíblicos do Antigo Testamento” está programada para os dias 09 a 12 de outubro de 2013 uma conferência internacional em Copenhague, Dinamarca. Os principais conferencistas são Douglas Knight, Tomas L. Thompson, Philip Davies e Niels Peter Lemche (leia um pouco mais a respeito da escola de Copenhague neste post de abril de 2012).

Os títulos e resumos das palestras (em inglês) podem ser baixados em PDF no ObservatórioBíblico.

Fiquei particularmente curioso quanto ao trabalho do professor Philippe Wajdenbaum (Institut des Hautes Etudes de Belgique, Brussels), intitulado “From Plato to Moses: Genesis-Kings as a Platonic epic” (De Platão a Moisés: Gênesis-Reis como um épico platônico). Segue o resumo:
Desde que Niels Peter Lemche e Thomas L. Thompson postularam que a Bíblia Hebraica pode ser um Livro da era helenística, tem sido sustentada a hipótese de que ela se baseia em fontes clássicas gregas como Homero, Heródoto e Platão.
 
Em Leis, Platão imaginou um Estado de doze tribos regido por leis divinas, das quais cerca de cinqüenta possuem pontos de contato com leis do Pentateuco. Platão encorajou o fundador do seu estado ideal a usar mitos, contos e fábulas para ilustrar como a obediência à lei é recompensada pela divindade e como desobediência traz punição.
 
A narrativa de Gênesis a Reis ("História Principal") parece ter sido inspirada nesse projeto platônico. Os livros de Gênesis a Josué relacionam a fundação de tal estado, enquanto Juízes, Samuel e Reis parecem modelá-lo de acordo com a Atlântida de Platão, mito da um estado que poderia ter sido perfeito, não tivessem seus reis negligenciado as leis divinas e provocado sua destruição.
Hipótese pra lá de ousada. Das 28 palestras programadas para o evento esta talvez seja a mais polêmica.



Jones F. Mendonça

AS ORIGENS HISTÓRICAS DO MONOTEÍSMO [EBOOK]

Liberado para download pelo próprio autor - Juan Echánove -, o livro “Ecos del desierto – El origen histórico del monoteísmo” (Central Books, 2008, 413 p.) narra como Yahweh foi incorporando características de outros deuses ao longo da história (Elohim, Ormuz e o Logos grego).  A grande sacada do livro é sua linguagem simples e a apresentação dos temas numa ordem que facilita a compreensão de um leitor pouco familiarizado com o assunto. Segue uma sinopse do livro:
Ecos do deserto narra a surpreendente história de como uma divindade da tormenta, adorada por nômades em um remoto rincão do deserto, terminou se convertendo em um Deus universal de três das três grandes religiões monoteístas. Baseando-se em recentes e assombrosas descobertas arqueológicas e utilizando penetrantes argumentos históricos, Echánove nos oferece uma perspectiva completamente nova desta fabulosa história. 
O livro está disponível apenas em espanhol.

O livro no Google livros, aqui

Jones F. Mendonça

sábado, 5 de outubro de 2013

O MONOTEÍSMO ISRAELITA NO ASOR BLOG

O artigo, assinado por Richard S. Hess, é iniciado com a seguinte provocação:
A arqueologia das religiões israelitas continua a evocar novas evidências e abordagens. Reavaliações recentes tem levantado a questão do monoteísmo pré-exílico de Israel. Dito de outra forma, alguém acredita em uma única divindade antes da queda de Jerusalém em 587/6 AEC?

O texto completo, no Asor Blog, aqui.


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O ORGANON & O CAPITAL: APONTAMENTOS SOBRE UMA CRÍTICA INFUNDADA

Toda a teologia se constrói sobre dois princípios fundamentais: o princípio arquitetônico (um tema da Escritura, como por exemplo, a encarnação) e o princípio hermenêutico (uma chave de interpretação, uma filosofia). Durante a patrística a chave hermenêutica predileta foi o platonismo. Assim foi com Orígenes, Clemente, Gregório de Nissa, Agostinho e tantos outros. Na Escolástica Aquino usou e abusou de Aristóteles. O tomismo cristianizou o filósofo. "Corrigiu-o" à luz da fé cristã. 

No século XX a teologia da libertação (TL) utilizou como princípio hermenêutico o marxismo (e a libertação como princípio arquitetônico). O que Aquino fez com Aristóteles, a TL também fez com Marx, tomando dele apenas os elementos compatíveis o cristianismo. Do ponto de vista lógico-teórico a diferença entre o tomismo e a TL é que o tomismo é uma teologia dedutiva (parte do dogma) e a TL é uma teologia indutiva (parte da situação, de um problema concreto). Ambas lêem as Escrituras e o mundo com a ajuda de uma “filosofia pagã”. 

O que me inquieta: Aristóteles acreditava num mundo eterno (Deus era um mero motor imóvel), mas sua filosofia foi usada sem maiores traumas (tornou-se, inclusive, “philosophia perennis”). Marx era ateu, mas o uso de sua filosofia como chave hermenêutica tem sido repudiado por setores conservadores. Faz sentido?

Como se as crenças do filósofo (ou até mesmo sua fundamentação teórica) fizessem alguma diferença...



Jones F. Mendonça

terça-feira, 24 de setembro de 2013

SBL LIBERA NOVO TEXTO CRÍTICO DO NT PARA DOWNLOAD

Seguem informações publicadas no site da SBL: 
A SBL grego do Novo Testamento (SBLGNT) é uma nova edição do Novo Testamento grego, criado com a ajuda de edições anteriores. Em particular, quatro edições do Novo Testamento grego foram utilizadas como recurso primário no processo de criação do SBLGNT.

O SBLGNT é editado por Michael W. Holmes, que utilizou uma grande variedade de edições impressas, todos os grandes aparatos críticos, e os mais recentes recursos técnicos e descobertas de manuscritos. O resultado é um texto criticamente editado que difere do texto crítico de Nestle-Aland/United em mais de 540 pontos.
Faça o download aqui:



Jones F. Mendonça

REDESCOBRINDO EVA: O PAPEL DAS MULHERES NO ANTIGO ISRAEL

Segue uma sinopse do livro: "Rediscovering Eve: ancient israelite women in context", de Carol Meyers, professora de religião na Universidade de Duke (informações tomadas do site da Amazon via Paleojudaica): 
Especialista em estudos bíblicos e arqueologia, Carol Mayers sustenta que as fontes bíblicas por si só não dão uma imagem verdadeira das antigas mulheres israelitas, uma vez que foram os homens da elite urbana que escreveram a grande maioria dos textos bíblicos.  Com base em descobertas arqueológicas e informações etnográficas, bem como nos textos bíblicos, Meyers retrata as israelitas não como escravas submissas em um patriarcado opressivo, mas como mulheres fortes e atuantes dentro de suas famílias e comunidades. O trabalho de Meyers desafia a própria noção de patriarcado como uma designação apropriada para a sociedade israelita.
O livro foi escrito no final da década de 70 e ganhou uma nova edição em dezembro de 2012. O tema é pra lá de empolgante. A obra, infelizmente, só está disponível em inglês.


Jones F. Mendonça



segunda-feira, 23 de setembro de 2013

SBL LIBERA NOVA FONTE

A SBL (Society of Biblical Literature) acaba de liberar uma nova fonte (Font Type, v1.0 build 001, lançada 9/6/13) para download gratuito. A nova fonte inclui caracteres latino, hebraico e grego. 

Destaque para a variedade de sinais diacríticos e de transliteração. 

Baixe aqui.

Mais informações aqui.


Jones F. Mendonça

domingo, 22 de setembro de 2013

O INQUISIDOR, O ANCIÃO E O DIABO

Século XVI. O inquisidor chega a uma vila onde supostamente se tem praticado o culto ao diabo. O ancião, inquirido pelo sacerdote, diz nunca ter ouvido falar de um deus chamado diabo. Após três dias de intensa investigação, acompanhada de violenta e cruel tortura, a comitiva vai embora. O ancião comenta com um membro da vila: “devemos nos aliar a esse tal diabo. Se é inimigo dos inquisidores, então é nosso amigo”.

Minha constatação: muitos jovens aderem a religiões com alegado caráter satânico simplesmente porque percebem o cristianismo como religião de inquisidores. Antes tortura física, agora tortura emocional. Raciocinam como o ancião da vila.



Jones F. Mendonça 

terça-feira, 17 de setembro de 2013

YAHWEH E SUA CONSORTE NO HAARETZ

Como a matéria está disponível apenas para assinantes do jornal israelense Haaretz, resolvi editar o texto no Word e publicá-lo no Scribd (PDF, em inglês). Dificuldades com o idioma? Utilize o tradutor do Google. 

Quem assina a matéria é Julia Fridman.


POR QUE OMRI ESCOLHEU SAMARIA COMO CAPITAL DO REINO DO NORTE?

De acordo com a narrativa bíblica o reino de Israel foi dividido após a morte do rei Salomão (em torno de 930 a.C.): Jeroboão ao norte e Roboão ao sul. No século IX Omri escolheu Samaria como capital para Israel do Norte. Por que Omi escolheu a cidade como capital de seu reino? A localização da cidade dava vantagens estratégicas ao fundador da dinastia dos omridas (881-845 a.C.)?  

Conheça uma interessante teoria lendo o artigo de Norma Franklin, publicado no The Bible and Interpretation (set/2013): "Why was Samaria made the capital of the Kingdom of Israel?". 


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

LUIZ FELIPE PONDÉ E O PROGRAMA "MAIS MÉDICOS" DO PT

Luiz Felipe Pondé é filósofo. Pensador dos bons. Infelizmente sua ideologia (de direita) falou mais alto que sua coerência e lógica num texto publicado na Folha de São Paulo sobre o programa Mais Médicos (“O fascismo do PT contra os médicos”, 02/09/13). O que mais me incomodou no texto foi a comparação que Pondé fez entre a suposta “tática de difamação aos médicos brasileiros feita pelo PT” e a campanha de perseguição imposta por Hitler aos judeus. Paralelo incrivelmente absurdo. Texto mal escrito, argumentação ruim, apelativo. Difícil acreditar que tenha produzido um texto dessa qualidade.

Acabo de ler a resposta de Washington Araújo ao texto do filósofo. Leia no Carta Maior.

Compare os dois textos e tire suas próprias conclusões.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

HANS URS VON BALTHASAR



Teólogo preferido de João Paulo II, von Balthasar ficou conhecido por sua "estética teológica" ao acentuar a dimensão estética da Revelação. A teologia do suíço pode ser um conforto para aqueles que acham que o método histórico-crítico lida com as Escrituras como se dissecasse um cadáver.  

Achei o vídeo por acaso. Quem expõe o pensamento do teólogo é Karen Kilby. Vale assistir pela qualidade das informações. 


Jones F. Mendonça

NOVO E-BOOK GRÁTIS NO BIBLICAL ARCHAEOLOGY SOCIETY

Aos interessados no livro do Gênesis, vale dar uma conferida no eBook: “Exploring Genesis: The Bibles Ancient Traditions in Context”, disponível gratuitamente aos internautas que se cadastrarem no site. 

Os temas do livro giram em torno de dois eixos principais: Possíveis relações entre o relato bíblico da criação e o Enuma Elish (relato da criação babilônico) e as escavações em Ur, cidade onde teria vivido o patriarca Abraão.

O eBook inclui belas gravuras. Baixe-o aqui.



Jones F. Mendonça

FUNDAMENTALISMO III

O sujeito ouvir dizer que sexo anal é pecado. Diz que a informação veio de Neura Ypiroka, uma palestrante especialista em “batalha espiritual”. A jovem senhora teria dito que o mau uso do orifício permite a entrada de demônios. O texto usado para justificar a condenação seria 1Co 6,9:
“Não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem os devassos [...], nem os sodomitas...” (ARA).
Explico ao rapaz que “sodomita” é a tradução da palavra grega “arsenokoitais”, junção de arseno (homem) e koites (leito, cama). O termo só reaparece em 1Tm 3,10, provavelmente indicando algum tipo de conduta sexual considerada inaceitável pelo apóstolo Paulo. Não há certeza quanto ao sentido exato da palavra: homossexualismo? Adultério? Algum outro tipo de sexo ilícito? Explico-lhe ainda que não estou defendendo nem condenando a prática, mas apenas indicando que tal leitura é equivocada.

O sujeito dá um sorriso no canto da boca. Abre um dicionário Aurélio, desses de bolso, e diz: “Está aqui” – e aponta com o dedo - “sodomia: coito anal”. Finaliza chamando-me de pervertido (!).

Eu mereço!


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

CONTRA O BRUTO, FORÇA BRUTA

“O brutal só se destrói com força bruta”. Este é o argumento da direita contra as ditaduras comunistas e os radicais islâmicos. Este é o argumento da esquerda contra a ditadura de uma elite que se perpetua no poder manipulando a mídia e controlando o poder político e econômico. Os primeiros lutam contra “inimigos externos”. Os segundos contra os “inimigos internos”.

No fundo todos recorrem às armas a fim dar vazão a suas ideologias, princípios e instintos de sobrevivência. Ninguém está disposto a sofrer até a morte em silêncio. As grandes potências, quando se sentem ameaçadas, recorrem a seus exércitos regulares. Os mais fracos, quando na mesma situação, pegam o que tem às mãos: enxadas, foices, bombas caseiras, coquetéis molotov...

No fundo somos todos iguais. Todos humanos. Todos atormentados pela eterna tensão entre o viver e o morrer, entre a paz e a guerra, entre o silêncio e o grito. O ser humano: tumulto ambulante hospedando uma luta incessante entre racionalidade e a demência.


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O HUMANO: DE GARGANTA VIVA A ALMA ENCARCERADA

Na mentalidade grega, sobretudo a partir de Platão, a crença de que o corpo humano é uma espécie de “casca” ou “prisão” da alma (da psyché) passou a ser amplamente difundida, deixando reflexos profundos na tradição cristã. Tal crença implica no desprezo ao corpo, uma vez que supõe a superioridade da alma (imortal) sobre a matéria. Daí a crítica de Nietzsche de que o pensamento de Platão é uma “filosofia para a morte” e que o cristianismo é uma espécie de “platonismo para o povo”. No fim da vida Platão reafirmou suas profundas convicções: “Aquilo que constitui verdadeiramente o nosso ser, isto é, a psyché, é imortal” (Leis 959 b).

Entre os pais da igreja a ideia está presente, por exemplo, na carta a Diogneto (c. 190-200): “o que a alma é para o corpo, os cristãos são para o mundo [...]. Os cristãos estão como que detidos na prisão do mundo”.

Até mesmo Calvino, nas suas Institutas, expõe esse tipo de crença. O teólogo de Genebra chega a citar Platão (aliás, faz isso mais de uma vez):
Portanto, enquanto habitamos no cárcere de nosso corpo, temos de lutar continuamente com as imperfeições de nossa natureza corrupta; na verdade, com nossa alma natural. Platão diz algumas vezes que a vida do filósofo é a meditação da morte (Livro III, III, 20).
A antropologia hebraica desconhece esse dualismo ou dicotomia entre alma e corpo. A palavra hebraica geralmente traduzida por alma é néfesh. Em alguns textos néfesh indica a garganta:
Sl 69,1 Salva-me, ó Deus!, pois as águas subiram até o meu pescoço (néfesh).
Alguns tradutores optaram por “pescoço”, mas ideia é indicar a garganta, local por onde passa o ar inspirado e expirado (para indicar o pescoço geralmente se usa tzavar, como em Ct 1,10). Se a água sobe mais, a néfesh é comprometida e o corpo perde a vitalidade.

Néfesh serve também para indicar o princípio vital, como neste texto do livro de Reis:
1Rs 17,21  Então se estendeu sobre o menino três vezes, e clamou ao Senhor, dizendo: ó Senhor meu Deus, faze que a vida (néfesh) deste menino torne a entrar nele.
A ideia não é exatamente que a néfesh volte a entrar no corpo, mas que ela seja restituída (shub) às entranhas (qérev) do menino (yéled). Néfesh é fôlego que anima o corpo e não uma essência etérea que habita num indivíduo e sai voando após sua morte.

Por vezes a néfesh indica corporeidade. Um exemplo é este texto de Isaías:
Is 29,8  Será também como o faminto que sonha que está a comer, mas, acordando, sente-se vazio.
No texto hebraico: “sua néfesh está vazia” e não “sente-se vazio”. A ideia é a seguinte: se o corpo não se alimenta, sua néfesh (fôlego de vida) fica fraca, fica vazia (reyqah).

Outro exemplo:
Nm 11,6  Mas agora a nossa alma  (nossa néfesh) se seca; coisa nenhuma há senão este maná diante dos nossos olhos.
Não há alimento, logo a néfesh fica seca (yabesh), sem vida. Inexiste oposição entre corpo (basar) e alma (néfesh). Ambos estão intimamente ligados.

Na antiga tradição hebraica homem e mulher são néfesh encarnada e não psyché aprisionada. Então surgiu o judaísmo helênico. Depois o cristianismo bebeu da mesma fonte. Herança maldita.

Não é difícil entender porque o livro de Cantares tão cedo passou a ser alegorizado por judeus (a partir de Aqiva) e cristãos (Orígenes, Clemente, etc.).  Explica-se facilmente a ênfase que o cristianismo dá aos chamados “pecados sexuais”. Já no IV século Jerônimo se jogava aos espinheiros a fim de que a dor sobrepujasse seu desejo pelo corpo feminino (recomendava banhos frios e o uso de cilício para combater o desejo sexual). O ser humano, antes visto como garganta viva (que grita, urra, come, soluça, bebe, jubila, geme, respira) tornou-se mera alma encarcerada. Desejar é pecar. Mas diferentemente do budismo, que queria suprimir o desejo, os cristãos preferiram: “desejar o nada, a nada desejar”.

Nietzsche tinha razão.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 3 de setembro de 2013

OS ÓCULOS DE ZILDA

Zilda passou por um trauma na infância. Não suporta multidão. Mecanismos internos de sua psique encontraram uma saída: fazem com que Zilda acredite não haver muitas pessoas em determinados ambientes quando na verdade há. Tais mecanismos são como óculos especiais. Seus olhos lhe dizem: “há um monte de pessoas aqui!”. Suas lentes mágicas fazem a “correção”: “ambiente limpo, está tudo bem”.

Óculos mentirosos. 

O nome disso? Medo do real.



Jones F. Mendonça

TELMA E O LOBISOMEM

Telma mora perto de um bosque. Vive na região desde que nasceu. Reza a lenda que um lobisomem vive por lá. A moça acredita piamente na história. Uma ovelha aparece morta: “foi o lobisomem”. Ouve-se um uivo: “o lobisomem está por perto”. Um vulto se move por entre as árvores: “ai que medo!”. Telma interpreta todos os fenômenos cuja origem desconhece a partir de sua crença na existência da fera.

Aparece um homem misterioso na aldeia. Inverte a lógica de Telma. Insiste que é preciso interpretar as crenças a partir dos fenômenos.



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

JOÃO BATISTA, JESUS, JORDÃO E TRADIÇÃO

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O Evangelho de Marcos registra que Jesus veio da Galileia “e foi batizado por João no Jordão” (Mc 1,9). O quarto Evangelho, buscando maior precisão (?), situa o local do batismo em Betânia (não pode ser mesma Betânia de Lázaro, cf. Mc 11,1; Jo 11,18), do “outro lado do Jordão” (Jo 1,28), portanto, na margem jordaniana do rio (próximo ao Mar Morto, em Qasr Al-Yahud), e não em Israel.

Mas há quem prefira localizar o batismo do “homem de Nazaré” bem ao norte, numa bela região arborizada próximo ao Mar da Galileia (em Yardenit). As águas do Jordão nessa região não são tão turvas e contaminadas como em Qasr Al-Yahud (em 2012 Israel proibiu batismos no local por causa da contaminação da água). Como o que conta não é o valor histórico (ou pelo menos escriturístico), mas o efeito psicológico que o lugar exerce sobre o fiel, Yardenit desperta maior interesse no turista.

Faça uma visita on-line (360º) em Yardenit aqui (clique em Jordan River, numa das imagens que aparecem na margem direita).




Jones F. Mendonça