segunda-feira, 7 de outubro de 2013

AS ORIGENS HISTÓRICAS DO MONOTEÍSMO [EBOOK]

Liberado para download pelo próprio autor - Juan Echánove -, o livro “Ecos del desierto – El origen histórico del monoteísmo” (Central Books, 2008, 413 p.) narra como Yahweh foi incorporando características de outros deuses ao longo da história (Elohim, Ormuz e o Logos grego).  A grande sacada do livro é sua linguagem simples e a apresentação dos temas numa ordem que facilita a compreensão de um leitor pouco familiarizado com o assunto. Segue uma sinopse do livro:
Ecos do deserto narra a surpreendente história de como uma divindade da tormenta, adorada por nômades em um remoto rincão do deserto, terminou se convertendo em um Deus universal de três das três grandes religiões monoteístas. Baseando-se em recentes e assombrosas descobertas arqueológicas e utilizando penetrantes argumentos históricos, Echánove nos oferece uma perspectiva completamente nova desta fabulosa história. 
O livro está disponível apenas em espanhol.

O livro no Google livros, aqui

Jones F. Mendonça

sábado, 5 de outubro de 2013

O MONOTEÍSMO ISRAELITA NO ASOR BLOG

O artigo, assinado por Richard S. Hess, é iniciado com a seguinte provocação:
A arqueologia das religiões israelitas continua a evocar novas evidências e abordagens. Reavaliações recentes tem levantado a questão do monoteísmo pré-exílico de Israel. Dito de outra forma, alguém acredita em uma única divindade antes da queda de Jerusalém em 587/6 AEC?

O texto completo, no Asor Blog, aqui.


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O ORGANON & O CAPITAL: APONTAMENTOS SOBRE UMA CRÍTICA INFUNDADA

Toda a teologia se constrói sobre dois princípios fundamentais: o princípio arquitetônico (um tema da Escritura, como por exemplo, a encarnação) e o princípio hermenêutico (uma chave de interpretação, uma filosofia). Durante a patrística a chave hermenêutica predileta foi o platonismo. Assim foi com Orígenes, Clemente, Gregório de Nissa, Agostinho e tantos outros. Na Escolástica Aquino usou e abusou de Aristóteles. O tomismo cristianizou o filósofo. "Corrigiu-o" à luz da fé cristã. 

No século XX a teologia da libertação (TL) utilizou como princípio hermenêutico o marxismo (e a libertação como princípio arquitetônico). O que Aquino fez com Aristóteles, a TL também fez com Marx, tomando dele apenas os elementos compatíveis o cristianismo. Do ponto de vista lógico-teórico a diferença entre o tomismo e a TL é que o tomismo é uma teologia dedutiva (parte do dogma) e a TL é uma teologia indutiva (parte da situação, de um problema concreto). Ambas lêem as Escrituras e o mundo com a ajuda de uma “filosofia pagã”. 

O que me inquieta: Aristóteles acreditava num mundo eterno (Deus era um mero motor imóvel), mas sua filosofia foi usada sem maiores traumas (tornou-se, inclusive, “philosophia perennis”). Marx era ateu, mas o uso de sua filosofia como chave hermenêutica tem sido repudiado por setores conservadores. Faz sentido?

Como se as crenças do filósofo (ou até mesmo sua fundamentação teórica) fizessem alguma diferença...



Jones F. Mendonça

terça-feira, 24 de setembro de 2013

SBL LIBERA NOVO TEXTO CRÍTICO DO NT PARA DOWNLOAD

Seguem informações publicadas no site da SBL: 
A SBL grego do Novo Testamento (SBLGNT) é uma nova edição do Novo Testamento grego, criado com a ajuda de edições anteriores. Em particular, quatro edições do Novo Testamento grego foram utilizadas como recurso primário no processo de criação do SBLGNT.

O SBLGNT é editado por Michael W. Holmes, que utilizou uma grande variedade de edições impressas, todos os grandes aparatos críticos, e os mais recentes recursos técnicos e descobertas de manuscritos. O resultado é um texto criticamente editado que difere do texto crítico de Nestle-Aland/United em mais de 540 pontos.
Faça o download aqui:



Jones F. Mendonça

REDESCOBRINDO EVA: O PAPEL DAS MULHERES NO ANTIGO ISRAEL

Segue uma sinopse do livro: "Rediscovering Eve: ancient israelite women in context", de Carol Meyers, professora de religião na Universidade de Duke (informações tomadas do site da Amazon via Paleojudaica): 
Especialista em estudos bíblicos e arqueologia, Carol Mayers sustenta que as fontes bíblicas por si só não dão uma imagem verdadeira das antigas mulheres israelitas, uma vez que foram os homens da elite urbana que escreveram a grande maioria dos textos bíblicos.  Com base em descobertas arqueológicas e informações etnográficas, bem como nos textos bíblicos, Meyers retrata as israelitas não como escravas submissas em um patriarcado opressivo, mas como mulheres fortes e atuantes dentro de suas famílias e comunidades. O trabalho de Meyers desafia a própria noção de patriarcado como uma designação apropriada para a sociedade israelita.
O livro foi escrito no final da década de 70 e ganhou uma nova edição em dezembro de 2012. O tema é pra lá de empolgante. A obra, infelizmente, só está disponível em inglês.


Jones F. Mendonça



segunda-feira, 23 de setembro de 2013

SBL LIBERA NOVA FONTE

A SBL (Society of Biblical Literature) acaba de liberar uma nova fonte (Font Type, v1.0 build 001, lançada 9/6/13) para download gratuito. A nova fonte inclui caracteres latino, hebraico e grego. 

Destaque para a variedade de sinais diacríticos e de transliteração. 

Baixe aqui.

Mais informações aqui.


Jones F. Mendonça

domingo, 22 de setembro de 2013

O INQUISIDOR, O ANCIÃO E O DIABO

Século XVI. O inquisidor chega a uma vila onde supostamente se tem praticado o culto ao diabo. O ancião, inquirido pelo sacerdote, diz nunca ter ouvido falar de um deus chamado diabo. Após três dias de intensa investigação, acompanhada de violenta e cruel tortura, a comitiva vai embora. O ancião comenta com um membro da vila: “devemos nos aliar a esse tal diabo. Se é inimigo dos inquisidores, então é nosso amigo”.

Minha constatação: muitos jovens aderem a religiões com alegado caráter satânico simplesmente porque percebem o cristianismo como religião de inquisidores. Antes tortura física, agora tortura emocional. Raciocinam como o ancião da vila.



Jones F. Mendonça 

terça-feira, 17 de setembro de 2013

YAHWEH E SUA CONSORTE NO HAARETZ

Como a matéria está disponível apenas para assinantes do jornal israelense Haaretz, resolvi editar o texto no Word e publicá-lo no Scribd (PDF, em inglês). Dificuldades com o idioma? Utilize o tradutor do Google. 

Quem assina a matéria é Julia Fridman.


POR QUE OMRI ESCOLHEU SAMARIA COMO CAPITAL DO REINO DO NORTE?

De acordo com a narrativa bíblica o reino de Israel foi dividido após a morte do rei Salomão (em torno de 930 a.C.): Jeroboão ao norte e Roboão ao sul. No século IX Omri escolheu Samaria como capital para Israel do Norte. Por que Omi escolheu a cidade como capital de seu reino? A localização da cidade dava vantagens estratégicas ao fundador da dinastia dos omridas (881-845 a.C.)?  

Conheça uma interessante teoria lendo o artigo de Norma Franklin, publicado no The Bible and Interpretation (set/2013): "Why was Samaria made the capital of the Kingdom of Israel?". 


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

LUIZ FELIPE PONDÉ E O PROGRAMA "MAIS MÉDICOS" DO PT

Luiz Felipe Pondé é filósofo. Pensador dos bons. Infelizmente sua ideologia (de direita) falou mais alto que sua coerência e lógica num texto publicado na Folha de São Paulo sobre o programa Mais Médicos (“O fascismo do PT contra os médicos”, 02/09/13). O que mais me incomodou no texto foi a comparação que Pondé fez entre a suposta “tática de difamação aos médicos brasileiros feita pelo PT” e a campanha de perseguição imposta por Hitler aos judeus. Paralelo incrivelmente absurdo. Texto mal escrito, argumentação ruim, apelativo. Difícil acreditar que tenha produzido um texto dessa qualidade.

Acabo de ler a resposta de Washington Araújo ao texto do filósofo. Leia no Carta Maior.

Compare os dois textos e tire suas próprias conclusões.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

HANS URS VON BALTHASAR



Teólogo preferido de João Paulo II, von Balthasar ficou conhecido por sua "estética teológica" ao acentuar a dimensão estética da Revelação. A teologia do suíço pode ser um conforto para aqueles que acham que o método histórico-crítico lida com as Escrituras como se dissecasse um cadáver.  

Achei o vídeo por acaso. Quem expõe o pensamento do teólogo é Karen Kilby. Vale assistir pela qualidade das informações. 


Jones F. Mendonça

NOVO E-BOOK GRÁTIS NO BIBLICAL ARCHAEOLOGY SOCIETY

Aos interessados no livro do Gênesis, vale dar uma conferida no eBook: “Exploring Genesis: The Bibles Ancient Traditions in Context”, disponível gratuitamente aos internautas que se cadastrarem no site. 

Os temas do livro giram em torno de dois eixos principais: Possíveis relações entre o relato bíblico da criação e o Enuma Elish (relato da criação babilônico) e as escavações em Ur, cidade onde teria vivido o patriarca Abraão.

O eBook inclui belas gravuras. Baixe-o aqui.



Jones F. Mendonça

FUNDAMENTALISMO III

O sujeito ouvir dizer que sexo anal é pecado. Diz que a informação veio de Neura Ypiroka, uma palestrante especialista em “batalha espiritual”. A jovem senhora teria dito que o mau uso do orifício permite a entrada de demônios. O texto usado para justificar a condenação seria 1Co 6,9:
“Não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem os devassos [...], nem os sodomitas...” (ARA).
Explico ao rapaz que “sodomita” é a tradução da palavra grega “arsenokoitais”, junção de arseno (homem) e koites (leito, cama). O termo só reaparece em 1Tm 3,10, provavelmente indicando algum tipo de conduta sexual considerada inaceitável pelo apóstolo Paulo. Não há certeza quanto ao sentido exato da palavra: homossexualismo? Adultério? Algum outro tipo de sexo ilícito? Explico-lhe ainda que não estou defendendo nem condenando a prática, mas apenas indicando que tal leitura é equivocada.

O sujeito dá um sorriso no canto da boca. Abre um dicionário Aurélio, desses de bolso, e diz: “Está aqui” – e aponta com o dedo - “sodomia: coito anal”. Finaliza chamando-me de pervertido (!).

Eu mereço!


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

CONTRA O BRUTO, FORÇA BRUTA

“O brutal só se destrói com força bruta”. Este é o argumento da direita contra as ditaduras comunistas e os radicais islâmicos. Este é o argumento da esquerda contra a ditadura de uma elite que se perpetua no poder manipulando a mídia e controlando o poder político e econômico. Os primeiros lutam contra “inimigos externos”. Os segundos contra os “inimigos internos”.

No fundo todos recorrem às armas a fim dar vazão a suas ideologias, princípios e instintos de sobrevivência. Ninguém está disposto a sofrer até a morte em silêncio. As grandes potências, quando se sentem ameaçadas, recorrem a seus exércitos regulares. Os mais fracos, quando na mesma situação, pegam o que tem às mãos: enxadas, foices, bombas caseiras, coquetéis molotov...

No fundo somos todos iguais. Todos humanos. Todos atormentados pela eterna tensão entre o viver e o morrer, entre a paz e a guerra, entre o silêncio e o grito. O ser humano: tumulto ambulante hospedando uma luta incessante entre racionalidade e a demência.


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O HUMANO: DE GARGANTA VIVA A ALMA ENCARCERADA

Na mentalidade grega, sobretudo a partir de Platão, a crença de que o corpo humano é uma espécie de “casca” ou “prisão” da alma (da psyché) passou a ser amplamente difundida, deixando reflexos profundos na tradição cristã. Tal crença implica no desprezo ao corpo, uma vez que supõe a superioridade da alma (imortal) sobre a matéria. Daí a crítica de Nietzsche de que o pensamento de Platão é uma “filosofia para a morte” e que o cristianismo é uma espécie de “platonismo para o povo”. No fim da vida Platão reafirmou suas profundas convicções: “Aquilo que constitui verdadeiramente o nosso ser, isto é, a psyché, é imortal” (Leis 959 b).

Entre os pais da igreja a ideia está presente, por exemplo, na carta a Diogneto (c. 190-200): “o que a alma é para o corpo, os cristãos são para o mundo [...]. Os cristãos estão como que detidos na prisão do mundo”.

Até mesmo Calvino, nas suas Institutas, expõe esse tipo de crença. O teólogo de Genebra chega a citar Platão (aliás, faz isso mais de uma vez):
Portanto, enquanto habitamos no cárcere de nosso corpo, temos de lutar continuamente com as imperfeições de nossa natureza corrupta; na verdade, com nossa alma natural. Platão diz algumas vezes que a vida do filósofo é a meditação da morte (Livro III, III, 20).
A antropologia hebraica desconhece esse dualismo ou dicotomia entre alma e corpo. A palavra hebraica geralmente traduzida por alma é néfesh. Em alguns textos néfesh indica a garganta:
Sl 69,1 Salva-me, ó Deus!, pois as águas subiram até o meu pescoço (néfesh).
Alguns tradutores optaram por “pescoço”, mas ideia é indicar a garganta, local por onde passa o ar inspirado e expirado (para indicar o pescoço geralmente se usa tzavar, como em Ct 1,10). Se a água sobe mais, a néfesh é comprometida e o corpo perde a vitalidade.

Néfesh serve também para indicar o princípio vital, como neste texto do livro de Reis:
1Rs 17,21  Então se estendeu sobre o menino três vezes, e clamou ao Senhor, dizendo: ó Senhor meu Deus, faze que a vida (néfesh) deste menino torne a entrar nele.
A ideia não é exatamente que a néfesh volte a entrar no corpo, mas que ela seja restituída (shub) às entranhas (qérev) do menino (yéled). Néfesh é fôlego que anima o corpo e não uma essência etérea que habita num indivíduo e sai voando após sua morte.

Por vezes a néfesh indica corporeidade. Um exemplo é este texto de Isaías:
Is 29,8  Será também como o faminto que sonha que está a comer, mas, acordando, sente-se vazio.
No texto hebraico: “sua néfesh está vazia” e não “sente-se vazio”. A ideia é a seguinte: se o corpo não se alimenta, sua néfesh (fôlego de vida) fica fraca, fica vazia (reyqah).

Outro exemplo:
Nm 11,6  Mas agora a nossa alma  (nossa néfesh) se seca; coisa nenhuma há senão este maná diante dos nossos olhos.
Não há alimento, logo a néfesh fica seca (yabesh), sem vida. Inexiste oposição entre corpo (basar) e alma (néfesh). Ambos estão intimamente ligados.

Na antiga tradição hebraica homem e mulher são néfesh encarnada e não psyché aprisionada. Então surgiu o judaísmo helênico. Depois o cristianismo bebeu da mesma fonte. Herança maldita.

Não é difícil entender porque o livro de Cantares tão cedo passou a ser alegorizado por judeus (a partir de Aqiva) e cristãos (Orígenes, Clemente, etc.).  Explica-se facilmente a ênfase que o cristianismo dá aos chamados “pecados sexuais”. Já no IV século Jerônimo se jogava aos espinheiros a fim de que a dor sobrepujasse seu desejo pelo corpo feminino (recomendava banhos frios e o uso de cilício para combater o desejo sexual). O ser humano, antes visto como garganta viva (que grita, urra, come, soluça, bebe, jubila, geme, respira) tornou-se mera alma encarcerada. Desejar é pecar. Mas diferentemente do budismo, que queria suprimir o desejo, os cristãos preferiram: “desejar o nada, a nada desejar”.

Nietzsche tinha razão.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 3 de setembro de 2013

OS ÓCULOS DE ZILDA

Zilda passou por um trauma na infância. Não suporta multidão. Mecanismos internos de sua psique encontraram uma saída: fazem com que Zilda acredite não haver muitas pessoas em determinados ambientes quando na verdade há. Tais mecanismos são como óculos especiais. Seus olhos lhe dizem: “há um monte de pessoas aqui!”. Suas lentes mágicas fazem a “correção”: “ambiente limpo, está tudo bem”.

Óculos mentirosos. 

O nome disso? Medo do real.



Jones F. Mendonça

TELMA E O LOBISOMEM

Telma mora perto de um bosque. Vive na região desde que nasceu. Reza a lenda que um lobisomem vive por lá. A moça acredita piamente na história. Uma ovelha aparece morta: “foi o lobisomem”. Ouve-se um uivo: “o lobisomem está por perto”. Um vulto se move por entre as árvores: “ai que medo!”. Telma interpreta todos os fenômenos cuja origem desconhece a partir de sua crença na existência da fera.

Aparece um homem misterioso na aldeia. Inverte a lógica de Telma. Insiste que é preciso interpretar as crenças a partir dos fenômenos.



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

JOÃO BATISTA, JESUS, JORDÃO E TRADIÇÃO

Amplie com um clique
O Evangelho de Marcos registra que Jesus veio da Galileia “e foi batizado por João no Jordão” (Mc 1,9). O quarto Evangelho, buscando maior precisão (?), situa o local do batismo em Betânia (não pode ser mesma Betânia de Lázaro, cf. Mc 11,1; Jo 11,18), do “outro lado do Jordão” (Jo 1,28), portanto, na margem jordaniana do rio (próximo ao Mar Morto, em Qasr Al-Yahud), e não em Israel.

Mas há quem prefira localizar o batismo do “homem de Nazaré” bem ao norte, numa bela região arborizada próximo ao Mar da Galileia (em Yardenit). As águas do Jordão nessa região não são tão turvas e contaminadas como em Qasr Al-Yahud (em 2012 Israel proibiu batismos no local por causa da contaminação da água). Como o que conta não é o valor histórico (ou pelo menos escriturístico), mas o efeito psicológico que o lugar exerce sobre o fiel, Yardenit desperta maior interesse no turista.

Faça uma visita on-line (360º) em Yardenit aqui (clique em Jordan River, numa das imagens que aparecem na margem direita).




Jones F. Mendonça

sábado, 31 de agosto de 2013

O DEUS EXILADO: BREVE HISTÓRIA DE UMA HERESIA

Um pouco mais sobre a comunidade de seguidores de João Batista (mandeanos ou sabeus) pode ser encontrado no livro "O Deus exilado: breve história de uma heresia", escrito pela historiadora da USP, Marília Fiorillo. Também vale conferir uma entrevista concedida pela autora ao programa Millenium - Globo News. 


sexta-feira, 30 de agosto de 2013

JOÃO BATISTA E OS MANDEANOS NO "THE BIBLE AND INTERPRETATION"

Aos interessados no cristianismo primitivo, gnosticismo e movimentos sectários do primeiro século, vale conferir o artigo escrito por James F. McGrath no The Bible and Interpretation (ago/2013): "Revisitando o mandeísmo e o Novo Testamento". 

Os mandeanos (de mandeu=conhecimento, citados no Corão como sabianos) constituem um grupo religioso formado - ao que parece - por herdeiros dos antigos seguidores de João Batista. Reverenciam o Batista como o grande profeta e rejeitam Jesus, tido como usurpador do movimento legítimo. Grupos de mandeanos podem ser encontrados em algumas regiões do Irã e do Iraque.  


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

PROVOCAÇÕES

Aos católicos:
Ortodoxia é a heresia dos que venceram.
Heresia é uma ortodoxia que capitulou.
Dulia é latria de máscara e salto alto.  

Aos místicos
Deus é tudo e é nada.
É luz e é treva.
É dor, é prazer?

Aos reformados:
Predestinação é a doutrina dos eleitos.
Galardão, prêmio celeste aos que não merecem.
Réprobos são sempre os outros.

Aos fundamentalistas:
A Escritura é a palavra de Deus.
É Deus em palavras.
É o divino reduzido à letra.

Aos ateus:
Ateísmo é a fé no não-Deus. 
É a fé na negação.
Afirmação de uma piedade ao avesso.

A você:
Belo é o canto do Uirapuru.
Doces são os lábios da donzela.
Impiedosos são os laços do sheol.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A MÁSCARA DO PALHAÇO

Lá vai João, perdido em sonhos sob a tenda encantada.
Lá vai Funâmbulo, caminhando faceiro sobre o fio estendido.
Lá vai Faquista, dispensando setas com muita atenção.
Lá vai Palhaço, rindo aos montes da sua própria desgraça.

Querer sonhar,
Querer enfrentar,
Querer superar.
Querer disfarçar as dores e ocultar as mazelas com a face enfeitada.

Pobre Palhaço!


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

GADARA, GERASA, OS PORCOS E A LEGIO FRETENSIS

LXF=Legio X Fretensis
Evangelho de Marcos, capítulo 5, verso 1: Jesus atravessa o Mar da Galileia e chega à terra dos gerasenos (Gerasa). Mateus, capítulo 8, verso 28: Jesus navega pelo Mar da Galileia e desembarca na terra dos gadarenos (Gadara). Mas Gerasa (Marcos= 50Km a sudeste do Mar da Galileia) e Gadara (Mateus= a 12Km do mesmo lago) são cidades diferentes. Ambas são citadas por Plínio como pertencendo a uma liga de dez cidades romanas (Decápolis) fundadas em 64 a.C.

Diante da dificuldade quanto à distância que teria que ser percorrida pelos dois mil porcos até se precipitarem no mar, surgiram várias soluções: a) Orígenes sugeriu a cidade de Gersesa (sem nenhum fundamento), b) porcos endemoniados têm força sobrenatural (!), c) pouco importa, pois o relato não possui caráter histórico, mas consiste numa espécie de midrash do capítulo 14 do Êxodo (a exegese rabínica via sentidos velados no texto da Tanak). Quanto a esta última posição, vale comparar Êxodo com Marcos:
Ex 14,28 As águas, tornando, cobriram os carros e os cavaleiros, todo o exército de Faraó, que atrás deles havia entrado no mar; não ficou nem sequer um deles.


Mc 5,13 Saindo, então, os espíritos imundos, entraram nos porcos; e precipitou-se a manada, que era de uns dois mil, pelo despenhadeiro no mar, onde todos se afogaram.
O paralelo seria o seguinte: no Êxodo as tropas de Faraó foram destruídas pelo mar sob a liderança de Moisés. Marcos estaria insinuando que tropas romanas (legião) também seriam destruídas pelas águas, agora sob a liderança de Jesus (na parousia?), entendido como uma espécie de Messias político. A tese parece ganhar força quando vem à tona um importante detalhe: A Legio fretensis (legião romana), cujo símbolo era um javali (porco selvagem), estava situada na Síria desde o ano 6 d.C. (também usavam o javali como símbolo a Legio I Italica; XX Valeria-Vitrix e II Adiuntrix). Com a revolta judaica em Jerusalém na década de 60 d.C. a legião foi deslocada da Síria para a capital religiosa dos judeus (participou do cerco/destruição e passou a vigiar suas ruínas da cidade).

Caso esta seja a interpretação correta, a passagem jamais deveria ser utilizada para legitimizar atividades missionárias em terras estrangeiras, como geralmente se faz (tanto Gadara como Gerasa são cidades gentílicas e Jesus teria operado milagres em alguma delas). O texto seria uma crítica à ocupação das tropas romanas, instaladas no local desde 63 a.C. sob a liderança de Pompeu. Mas mesmo que esta última interpretação seja tomada como certa, fica a pergunta: por que Marcos escolheu uma cidade tão longe do mar da Galileia (Mt parece querer aproximar)? Mesmo que o relato não seja histórico seria de se esperar certa preocupação com os aspectos geográficos da região. Ou o autor do segundo Evangelho não conhecia bem a região da Galileia? 

O tema merece uma investigação melhor.


Jones F. Mendonça

Em tempo: Flávio Souza Cruz, do Ad Cummulus, acabou lendo meu texto e sugeriu uma resposta ao problema da distância entre Gadara/Gerasa ao "mar". Estou convencido de que ele matou a charada. Leia aqui um texto seu escrito em 2008. 

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

TEMPLOS, RITUAL E SIMBOLISMO CÓSMICO NO MUNDO ANTIGO [E-BOOK GRÁTIS]

Acabo de saber pelo Paleobable que o Instituto Oriental da Universidade da Chicago está disponibilizando gratuitamente o livro: "Heaven on Earth: Temples, Ritual, and Cosmic Symbolism in the Ancient World", editado por Deena Ragavan. O livro é ricamente ilustrado. 

Baixe aqui (clique na seta ao lado de "termos de uso"). 

Mais livros grátis no site aqui e aqui  


Jones F. Mendonça

LUTERO: “O DIABO É O DIABO DE DEUS”

Na perspectiva cristã há três personagens no Éden: Deus, o diabo e o ser humano. O humanismo eleva o homem. O dualismo maniqueísta eleva o diabo. A Reforma eleva Deus. É preciso estar atento: quando qualquer um dos três cresce, uma sombra cresce junto.

Se atribuirmos a Deus absoluta soberania (tudo o que ocorre é um desdobramento de seus decretos infalíveis) e o status de sumo bem (nele não há mal algum), o que resta ao diabo e ao humano?

Ora, se em Deus não há mal algum (não possui natureza dual), é preciso colocá-lo na conta do diabo. Mas Deus não é absolutamente soberano? Como o diabo poderia agir fora de seus decretos? Os reformadores admitem uma antinomia: tanto o diabo como o homem agem de acordo com Seus decretos, todavia são responsáveis pelo mal que praticam.

Com tal solução o diabo torna-se “o diabo de Deus” (frase de Lutero), uma espécie de “capitão-do-mato” dos céus. O homem torna-se um mero ser cuja vontade é “como um jumento, montada ou por Deus ou pelo diabo” (outra frase do reformador alemão). Deus usa o diabo para uma "obra alheia” (opus alienum), mas que ao mesmo tempo é sua “obra própria” (opus proprium). Confuso? Voltemos ao Éden.

Enquanto passeavam pelo jardim, homem e mulher cometeram uma infração. Mas a queda, segundo Calvino, já havia sido decretada por Deus. O diabo, travestido de serpente falante, foi um instrumento divino para que este propósito fosse cumprido. Deus é a mão, o diabo a lança, o homem a carne ferida.

A ferida infecciona. Calvino dispara: culpa do homem! Até há remédio, ele diz, mas só para os eleitos.


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

SEJA BÍBLICO, SEJA TRADIÇÃO![?]

Dica para encontrar o verdadeiro sentido das Escrituras segundo um escritor cristão: compare as versões e seja bíblico! Hummm, será?

O primeiro problema está na comparação entre as versões. Ora, comparar versões em busca da melhor tradução é como buscar a mais fiel reprodução artística de um rosto por meio da comparação entre as telas. O mais óbvio não seria comparar as reproduções com o rosto real? No caso do texto, seria preciso conhecer o “rosto original” (texto original, o autógrafo). Vale lembrar que neste caso não existe um “rosto original”, mas “cópias embaçadas do rosto original”. Tal tarefa, como se vê, é bem mais árdua.

O segundo problema está no imperativo “seja bíblico”. Ora, se o que o leitor está buscando é exatamente o sentido do texto bíblico, como ele poderá assumir uma postura bíblica antes mesmo de ter acesso ao texto?  Um argumento circular ingênuo. 

Os católicos ao menos são honestos. Sabem (e admitem) que no final das contas quem manda é a tradição. 


Jones F. Mendonça

sábado, 10 de agosto de 2013

DÉFENSEUR DU TEMPS




"O Defensor do Tempo", fantástico relógio autômato criado pelo artista Jacques Monestier em 1979. Infelizmente está parado por falta de manutenção. Mais informações aqui.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 6 de agosto de 2013

ECCE HOMO

Homo sapiens que pensa, reflete, arrazoa. Animal que se distingue dos demais. Fala, expõe ideias, transmite cultura. Face inversa do homo demens da guerra, da barbárie, da crueldade e da cegueira. Homem, tumulto ambulante hospedando uma luta incessante entre racionalidade e a demência.

Homo ludens, que com seus brinquedos se diverte, expõe os dentes, ri. Histrião que articula a realidade com a fantasia. Que se lança ao jogo que fascina, que alegra, que faz esquecer as desilusões.  Dimensão humana que contempla o júbilo, a criatividade e a exultação, mas também transgressão, trapaça e ilusão. É homem em estado de festa, é homo festivus.

Homo faber, que com a ajuda do intelecto fabrica, constrói, manipula a natureza a seu favor por meio da técnica. Faz fogo, faz roda, faz anzol, faz choupana, faz livro, faz deuses, faz-se a si mesmo com seu espírito inventivo.

Homo viator, que caminha, peregrina, que é itinerante. Ser insaciável que explora o ar, a terra e o mar. Homem pleno de expectativas, que vê diante de si um futuro aberto, cheio de novidades e possibilidades. Pensa a respeito da vida e da morte, do finito e do infinito, do eterno e do fugaz. Quer ir mais longe (quer ir longe demais?). Que transcender...

Homo religiosus, cheio de fé, de ritos, de mitos, de esperanças. Homem que se curva diante do Mistério. Que geme em suas súplicas. Que se entorpece na cantoria. Que almeja o infinito. Que eleva os olhos para os céus em busca de redenção.

Homem, o que tu és e qual o teu destino?

Jones F. Mendonça


PS: As mulheres que me perdoem, mas na busca por uma melhor fluidez do texto vi-me forçado a empregar a palavra homem como sinônimo de humano. 


domingo, 4 de agosto de 2013

CAECA SOMNIA

Em 15 de junho de 1520 Lutero foi ameaçado de excomunhão. A bula Exsurge Domini condenou 41 de suas 95 teses. Como o monge agostiniano não se retratou, em 03 de janeiro de 1521, por meio da bula Decet Romanum Pontificem, o papa Leão X o excomungou. Lutero rebelou-se contra os “ungidos do Senhor”. Nascia a igreja protestante.

A grande ironia disso tudo? Pregadores televisivos, filhos bastardos da Reforma, me aparecem ameaçando fies que denunciam atos ilícitos cometidos por pastores, os novos “ungidos do Senhor”. E as ovelhas cegas, já sem pelo, totalmente tosquiadas pelos pastores pilantras, dizem amém!


Jones F. Mendonça