quarta-feira, 26 de junho de 2013

A DIALÉTICA EM HERÁCLITO, PLATÃO, ARISTÓTELES, HEGEL, MARX E BARTH

Compreender termos teológicos ou filosóficos a partir de obras especializadas geralmente é uma tarefa espinhosa para quem está iniciando os estudos nessas áreas. Sempre correndo o risco de simplificar demais o trabalho filosófico dos grandes pensadores, resolvi escrever um pequeno ensaio sobre a dialética, buscando explicar o termo da maneira mais simples e didática possível no âmbito das diversas escolas filosóficas. Apesar de ter consultado muitas obra optei por não citá-las a fim de tornar o texto mais fluido. Espero que ajude.

Um bom ponto de partida para compreender o que vem a ser dialética (dia=um para o outro + legein=dizer, explicar) é conhecer as ideias de Heráclito.

Heráclito (540-476 a.C.): Atribui-se a Heráclito de Éfeso a criação de uma nova forma de ver o mundo, a dialética (ainda que o termo só tenha sido empregado mais tarde, por Platão). Discordando dos eleatas, filósofos da cidade de Eleia que defendiam um universo de estado imutável, Heráclito dizia que a natureza está sujeita a uma única lei: a lei da mudança. “Ninguém pode se banhar duas vezes no mesmo rio, porque o rio não é mais o mesmo”, dizia o filósofo. Para Heráclito tudo está em constante transformação, “tudo flui” (gr. panta rei), e não há nada que seja perpétuo, exceto o constante devir (ou vir-a-ser). “O que se opõe coopera, e da luta dos contrários procede a mais bela harmonia”, insistia o filósofo de Éfeso.

Platão (424-347 a.C.): Platão é bem conhecido por ter sido discípulo de Sócrates e de ter fundado a Academia, uma escola dedicada à ciência e à filosofia que se reunia no jardim de Academo. Para Platão é por meio do diálogo e da conseqüente confrontação de ideias que os equívocos são eliminados e a verdade aparece. Em Platão a dialética é um instrumento de busca da verdade. É importante compreender que para Platão “aprender não é outra coisa senão recordar”. Para ele o conhecimento racional jaz dormente na alma e precisa ser despertado. E como se acorda esse “conhecimento latente”? Por meio da dialética, responderia o filósofo. Assim, a dialética de Platão pressupõe a pré-existência da alma e o inatismo das ideias. A dialética platônica se expressa nos diálogos escritos pelo filósofo, particularmente nos chamados “diálogos da maturidade”, tais como o Menon, o Fédon e a República.  

Aristóteles (384-322 a.C.): Aluno de Platão e filho de um médico, Aristóteles se tornou mestre de Alexandre, o Grande. Em Aristóteles a dialética constitui a parte da lógica que estuda os raciocínios prováveis. Não trazem certeza nem descobrem a verdade como em Platão, mas opinião ou probabilidade. No pensamento do filósofo a dialética declina em favor do método analítico (silogismo demonstrativo ou científico), ganhando um sentido negativo ou até mesmo pejorativo. A relação entre dialética e analítica é tratada no Organon. A diferença entre esses termos diz respeito, acima de tudo, às premissas: a analítica decompõe silogismos e demonstrações científicas (fundamentos seguros); a dialética tem a ver com o ato retórico de persuasão (premissas não isentas de dúvidas).

Hegel (1770-1831): Há quem considere a filosofia hegeliana como um imenso e elaborado platonismo, mas é importante destacar que Hegel repudia qualquer visão de dois mundos. Para ele as ideias estão nas coisas, como Aristóteles. Como já foi apresentado, a dialética repousa nas contradições internas, ou nos opostos presentes em todas as áreas da vida humana. Para Hegel a dialética é o movimento racional que nos permite superar essas contradições. A dialética de Hegel é concebida em três etapas: tese (afirmação), antítese (negação) e síntese (negação da negação). Tese e antítese são sempre falsas, mas impelem para uma síntese que concilia os opostos que eram excludentes. O conhecimento é considerado como um processo contínuo, histórico e progressivo. A filosofia hegeliana é considerada idealista porque busca explicar a evolução do mundo pela evolução da ideias. Hegel achava que o homem poderia transformar a realidade de acordo com critérios racionais: mudam-se as ideias, mudam-se as coisas. Colocando em outros termos: “A verdade é o movimento da ideia”.

Karl Marx (1818-1883): o filósofo alemão converteu a dialética em um método com a ajuda de Friedrich Engels, seu parceiro na elaboração do Manifesto Comunista. Ele inverteu a dialética hegeliana sugerindo que o mundo material é o fundamento das ideias e não o contrário como anunciava a filosofia idealista de Hegel.  Em suma: “as coisas vão de transformando e as ideias vão atrás”. Em primeiro lugar vem a natureza, que é transformada pela ação humana em meios de produção (relações materiais=infraestrutura). São essas relações materiais, segundo Marx, que sustentam todos as crenças, ideias, teorias e pensamentos da sociedade (ideologia=superestrutura). Em termos mais vulgares: “segundo vive o homem, assim ele pensa”. Ainda que tenha insistido que a superestrutura é reflexo da infraestrutura, Marx acentuou que ambas acabam por se influenciar reciprocamente (repudiando o materialismo mecanicista).

Karl Barth (1886-1968): A teologia de Barth é denominada dialética porque para ele o falar de Deus sempre expressa simultaneamente um sim e um não: está distante, mas também está próximo; sua Revelação, a Bíblia, é simultaneamente palavra de Deus e palavra de homens. Em seu comentário sobre Epístola aos Romanos, de 1919, Barth elaborou a dialética entre tempo e eternidade e entre Deus e o homem. Ora, se o homem e Deus estão numa relação antitética (de oposição), em que medida é possível encontrar uma síntese? Como superar a presença simultânea do “sim” e o “não” que atravessam o homem? Atormentado pelo fantasma de Hegel, Barth saiu em busca de uma resposta. Rejeitando as soluções dadas pela teologia natural (superação da dualidade pela razão humana) e pela teologia mística (superação da dualidade pela contemplação), o teólogo chegou a conclusão de que o homem não pode se livrar de sua “dualidade demoníaca” senão pela redenção, uma revelação exclusivamente vertical (de cima para baixo, como na tradição calvinista). Só ela permite ao homem saber que está numa condição de alienação e de morte. Enfim, o laço da contradição que atormenta o homem só pode ser desfeito por iniciativa divina. No ato da encarnação (visto como um ato de amor) Deus se faz culpado da contradição contra si mesmo. Dado o seu caráter dialético, a teologia Barth também ficou conhecida como “teologia da crise”. Entre os discípulos de Barth que mais se destacaram figuram Emil Brunner e Friedrich Gogarten.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 25 de junho de 2013

CONSPIRAÇÕES FACEBOOKIANAS

A turbulência política pela qual tem passado o país tem impulsionado o surgimento das mais bizarras teorias dispostas a explicar as manifestações populares e seus desdobramentos futuros: golpe militar, conspiração da CIA e do Mossad, plano malévolo da direita para derrubar o governo Dilma, engodo do PT para manipular o povo e se perpetuar no poder, macumba, vodu, invasão alienígena, Godzilla integralista, Pokemon conservador, Gays do Arco-íris-purpurado, Burgueses de Além-mar, Satanás materialista-histórico-dialético, etc., etc.

Mães Dinás, Nostradamus virtuais, engenhosos prognosticadores facebookianos...


Meus Deus! 

Jones F. Mendonça

segunda-feira, 24 de junho de 2013

VÃO AS LEIS COMO QUEREM OS REIS

Século XVI, década de 30. Lutero, escandalizado com as teorias heliocêntricas de Copérnico publicadas em seu Commentariolus, em 1513-14, saiu-se com essa: 

“O povo dá ouvidos a um astrólogo pretensioso que se empenha em mostrar que a terra gira, e não os céus e o firmamento, o sol e a lua... Esse louco quer reverter o esquema inteiro da astronomia; as Santas Escrituras, porém, falam-nos que Josué ordenou ao sol quedar fixo, e não a terra”[1].

Calvino, numa exegese um tanto duvidosa, arrematou com o Salmo 93,1: “Firmou o mundo que não vacila”. E acrescentou: “Quem se aventuraria a colocar a autoridade de Copérnico acima da do Espírito Santo?”[2].

Quinhentos anos se passaram. A Bíblia ainda é um vaso na mão do leitor-oleiro. A interpretação é literal apenas quando e enquanto convém. Vale o ditado latino: “Quae vult rex fieri, sanctae sunt congrua legi” (vão as leis como querem os reis).  

Notas:
[1] Lutero, Table Talk , 69, in Fosdick, Great Voices of the Reformation, XVIII apud DURANT, Will. A Reforma, 2001, p. 724.
[2] In Russel. B, Hy of Western Philosophy, 528 apud id ibid.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 18 de junho de 2013

MONGE REBELDE: ALEMANHA EM CHAMAS

Em outubro de 1517 Lutero divulga suas famosas 95 teses contra as indulgências. Em janeiro de 1521 o reformador é excomungado com a Bula Decet Romanum Pontificem. A Alemanha entra em convulsão. 

Fico imaginando se a revista Veja já existisse naquela ocasião: “LUTERO, O MONGE REBELDE: A ALEMANHA EM CHAMAS!”. Na mesma linha seguiriam Reinaldo Azevedo (o blogueiro mais azedo da Veja) e Olavo de Carvalho (o filósofo super pop das massas). Diriam que a revolta é absurda e que é preciso deter o “padreco rolabosta”.

Talvez você seja católico e diga que a revista e os dois homens têm razão. Tenho outra carta na manga. Em 1525 explode a revolta dos camponeses na Alemanha. Lutero condena os revoltosos e justifica a servidão com um texto da Bíblia. Diz que Abraão tinha servos e que o mundo não sobreviveria sem a existência deles. Em seguida escreve um texto duro contra os camponeses (Contra os ímpios e celerados bandos de camponeses). “Sufoquem no sangue a rebelião!”, grita o reformador. Capa da revista Veja: “LUTERO, BASTIÃO DA JUSTIÇA E DA ORDEM”. Reinaldo e Olavo exaltariam o reformador pela coragem em condenar a rebeldia daqueles “camponeses vagabundos”, gente ignorante e mal educada.

No mundo há pessoas ingênuas o suficiente para pensar que o mundo conhecerá mudanças apenas com o voto, com preces e orações. 



Jones F. Mendonça

terça-feira, 11 de junho de 2013

VERDADES NÔMADES, SENTIDOS ERRANTES

Alguns rabinos estão a discutir a respeito da consoante que inaugura o livro de Bereshit (Gênesis). Querem saber por que o primeiro livro da Torá começa com a segunda letra do alfabeto hebraico (beyt) e não com a primeira (álef). É um belo final de tarde e um raio de luz atravessa a janela da sinagoga. Os talmidim (discípulos) estão ansiosos pelas respostas que serão apresentadas por seus mestres.

Um dos rabinos se levanta e diz: “A letra beyt é a segunda letra do alfabeto e também simboliza o número dois. O que nos ensina que para criar o texto bíblico foram necessárias pelo menos duas pessoas: Deus e o seu parceiro, o ser humano”. Outro rabino se põe de pé e apresenta uma explicação diferente: “O beyt é a letra de bênção (berakhá) e o álef a da maldição (arirá)”. Um terceiro rabino se levanta e apresenta uma explicação baseada no formato da letra beyt. O ferreiro martela a bigorna. Saem faíscas mil. Texto, depósito de infinitos sentidos.

Com um método de leitura desses não há qualquer diferença entre ler o Corão, os Vedas, o Avesta, uma receita de bolo ou uma lista telefônica. O que dirige a leitura é o devaneio criativo do leitor. Texto, caleidoscópio de sentidos. Gaveta de segredos da alma.

Talvez revele algo sobre o leitor. Já em relação ao redator...


Jones F. Mendonça


BRANDON FIELDS - MISTY


sábado, 8 de junho de 2013

quarta-feira, 5 de junho de 2013

UM ENCONTRO COM DEUS

A menina morre e tem um encontro com Deus. Mas para sua surpresa...

Sobra até para o Malafaia. 


SOBRE AS MULHERES E A DOMINAÇÃO MASCULINA

No quesito força física o homem sempre esteve em vantagem em relação à mulher, por isso a dominava. Então veio a Revolução Industrial. As máquinas substituíram a força do braço pela força do carvão, da energia elétrica, etc. Houve um nivelamento. A fêmea, tão hábil e inteligente quanto o macho, passou gradativamente a ocupar o espaço até então dominado pelo sexo oposto. 

E esta é a pequena história de como o homem entrou em crise...


Jones F. Mendonça

terça-feira, 4 de junho de 2013

TEOLOGIA EM BORRA DE CAFÉ

Aula de hebraico. Assim que conhece o alfabeto, o aluno pergunta pelo significado das letras. Quer saber, por exemplo, o significado do álef, primeira das 22 consoantes que compõem o alfabeto hebraico. Digo que essa letra deriva de um antigo pictograma que representa a cabeça de um boi. Explico que a letra, em sua forma primitiva, apareceu pela primeira vez na península do Sinai por volta de 1500 a.C. (há quem pense que foi inventada por garimpeiros a partir de alguns hieróglifos egípcios). Os fenícios, exímios navegadores e comerciantes, difundiram o alfabeto inventado no Sinai. O antigo pictograma foi sendo modificado pelos gregos e romanos até que se converteu no nosso “A” (no hebraico e no fenício o álef é consoante e não vogal).

O aluno diz ter lido num livro que o álef representa “o potencial não realizado” e “o som que existe antes do som”. Ouviu dizer que a mudez da letra (o álef é uma consoante sem som) faz alusão ao silêncio do ser humano diante da imensidão do universo. Por fim afirma ter ouvido de um rabino que os pequenos sinais que aparecem no canto superior direito e inferior esquerdo entre o traço diagonal que forma o álef representam, respectivamente, as águas superiores (alegria por estar perto de Deus) e inferiores (tristeza por estar longe de Deus). Enfim, pensou que a consoante tivesse algum significado especial, profundo. Um código secreto, talvez. Fica decepcionado.

Aconselho-lhe o tarô, a gematria, a kabalah, a adivinhação em borra de café, tripas de ave, runas, bola de cristal, etc. São caminhos diferentes que trabalham com o mesmo elemento: a imaginação criativa do sujeito.



Jones F. Mendonça

sábado, 1 de junho de 2013

O CONFLITO NA SÍRIA

Hoje, ocorre dentro do território sírio um confronto entre dois eixos de poder. Não se trata de um conflito entre o “eixo do bem” e o “eixo do mal”. Há apenas interesses.

De um lado está o regime Bashar al-Assad, o Irã e o grupo xiita libanês Hezbollah. A Rússia, também apoiando o regime de Assad, acaba de fornecer ao governo sírio alguns mísseis S-300 na tentativa de evitar a intervenção estrangeira. Israel, que já realizou alguns ataques aéreos na Síria, teme fazer novas intervenções, pois os mísseis russos são capazes de atingir seu território.

Do outro, o Exército Livre Sírio, apoiado pelas monarquias árabes comandadas por Arábia Saudita e Catar, a Turquia, a frente al-Nusra (braço da al Qaeda) e, em menor escala, por enquanto, as potências ocidentais, nomeadamente Estados Unidos, Israel, França e Reino Unido.

Atualmente a Síria se encontra numa situação tão caótica que não há qualquer perspectiva de solução. Para os EUA interessa um novo governo, comandado por um líder secular. Tal é a quantidade de forças envolvidas no conflito que é difícil é saber como fazer isso. A complexidade do conflito explica a atitude hesitante de Obama.

Para a Rússia interessa a permanência de Bashar al-Assad. A Síria é uma antiga aliada da Rússia e o país está localizado numa posição estratégica. Os cristãos que vivem no país também preferem a permanência do ditador, que apesar da fama de sanguinário não os persegue. 


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 30 de maio de 2013

O PALÁCIO ASSOMBRADO [ALLAN POE]

Em “A queda da casa de Usher”, Allan Poe expõe com muita maestria todo o seu talento para escrever histórias extraordinárias. Há no meio do conto um poema. Não é um texto que eu aconselharia a alguém em estado depressivo.  O livro, com uma coleção de contos, foi um presente de minha tia Lucia ao meu irmão mais velho (agosto de 1984). Hoje ele mora em outra cidade e o livro permanece em minha estante. Eis o poema:

O PALÁCIO ASSOMBRADO

I

No mais verde de nossos vales,
habitado por anjos bons,
antigamente um belo e imponente palácio
- uma palácio radiante – se erguia.
Nos domínios do rei Pensamento,
lá se achava ele!
Jamais serafim espalmou a asa
sobre um edifício só metade tão belo.

II

Estandartes amarelos, gloriosos, dourados,
sobre o seu telhado ondulavam, flutuavam.
(Isso, tudo isso, aconteceu há muito,
muitíssimo tempo.)
E em casa brisa suave que soprava,
naqueles doces dias,
ao longo dos muros pálidos e empenachados,
se elevava um aroma alado.

III

Caminhantes que passavam por esse vale feliz
viam, através de duas janelas iluminadas,
espíritos que se moviam musicalmente
ao som de um alaúde bem afinado,
em torno de um trono onde, sentado,
(Porfirogênito!)
com majestade digna de sua glória,
aparecia o senhor do reino.

IV

E toda refulgente de pérolas e rubis,
era a linda porta do palácio,
através da qual passava, passava e passava,
a refulgir sem cessar,
uma turba de ecos cuja grata missão
era apenas cantar,
com vozes de inexcedível beleza,
o talento e o saber de seu rei.

V

Mas seres maus, trajados de luto,
assaltaram o alto trono do monarca;
(ah, lamentemo-nos, visto nunca mais a alvorada
despontará sobre ele, o desolado!)
e, em torno de sua mansão, a glória,
que, rubra, florescia,
não passa, agora, de uma história quase esquecida
dos velhos tempos já sepultados.

VI

E agora os caminhantes, nesse vale,
através das janelas de luz avermelhadas, vêem
grandes vultos que se movem fantasticamente
ao som de desafinada melodia;
enquanto isso, qual rio rápido e medonho,
através da porta descorada,
odiosa turba se precipita sem cessar,
rindo – mas sem sorrir jamais.




quarta-feira, 29 de maio de 2013

VISÕES DE EZEQUIEL - PARTE III

Há quem defenda que as visões presentes nos capítulos 1 e 10 do livro do profeta Ezequiel descrevam uma aeronave alienígena. A inspiração vem de livros escritos por Erich von Daniken (Eram os deuses astronautas?) e Josef F. Blumrich (As naves espaciais de Ezequiel).

Parece-me claro que o texto descreve Yahweh sobre um trono sustentado por esfinges (queruv). As passagens devem ser interpretadas à luz de elementos da cultura do Fértil Crescente do século VI a.C. e não a partir de especulações sem qualquer fundamento.

As quatro bestas aladas (cara de leão, bezerro, águia e homem), de alguma forma parecem aludir ao zodíaco mesopotâmico (como na formação das tribos de Israel presente no capítulo 2 do livro de Números). Não estou plenamente convencido (não há nenhuma águia no zodíaco mesopotâmico), mas a pista me parece boa.

Na visão do trono carruagem de Ezequiel parecem se fundir elementos da iconografia oriental antiga com esquemas zodiacais mesopotâmicos. As bestas feras (ou seres viventes) indicariam os quatro pontos cardeais (bezerro e leão formam um ângulo de 45º no zodíaco mesopotâmico).  Uma imagem que chama a atenção do leitor são os “olhos” que cobrem o corpo dos querubins (cf. Ez 10,12). O termo hebraico traduzido por “olhos” é ‘eynaiym” (sing. ‘ayn), na maioria dos casos traduzido por olho. Mas em Ez 10,9 o termo reaparece sugerindo uma tradução diferente: “como olho (hb. ‘ayn) de pedra de topázio”. O ‘aym, neste caso específico, parece ser uma referência ao aspecto vítreo brilhante dos objetos (estrelas?), daí a tradução mais comum: “brilho de pedra de topázio”. Nosso profeta estaria imaginando o trono divino no zodíaco celeste (zoo-disco = círculo de animais)?

Também é tentador pensar que o profeta buscou inspiração nos vasos canopos egípcios. Sempre que visito o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista (RJ), não deixo de dar uma boa olhada neles.

Há muitas pistas, mas ainda há elementos que ainda não se encaixam bem.

Mais sobre as visões de Ezequiel aqui, aqui, aqui e aqui



Jones F. Mendonça

terça-feira, 28 de maio de 2013

ISRAEL NO GOOGLE STREET VIEW


Basílica do Santo Sepulcro construída pelo imperador Constantino no início do século IV. 

Jerusalém vista do Monte das Oliveiras. Muitos judeus acreditam que as pessoas sepultadas nesse monte ressuscitarão primeiro quando o messias surgir. Tal crença explica os inúmeros túmulos espalhados pelo local. 

Igreja de Todas as Nações, no sopé do Monte das Oliveiras, local onde a tradição localiza a agoniante oração de Jesus antes de ser preso e crucificado. Entre a igreja e as muralhas da cidade fica o vale de Cedron (note que uma estrada foi construída no vale). 

Knesset (parlamento israelense), construído em 1957. 

Jaffa (Jope) - cidade portuária em cujo porto a Bíblia situa a partida do profeta Jonas em direção a Tarsis. 

Muro das Lamentações - ruínas do que restou de Jerusalém após sua destruição pelas tropas romanas em 70 d.C. Repare na grade que separa homens e mulheres orando junto ao muro (vez por outra surge uma confusão).  


Jones F. Mendonça



domingo, 26 de maio de 2013

AS CARTAS DE PAULO NO MAPA

Clique para ampliar (1401x1047)

Destaque para a cidade de Filipos, fundada por Felipe II, pai de Alexandre, o Grande.

Coordenadas para visualização no Google Maps (clique em "como chegar" e vá inserindo as coordenadas):

ROMA = 41.9,12.48333333 (Rome)
CORINTO = 37.90595736,22.87788176 (Corinth)
GALÁCIA = 37.57813498,32.45318283 (Galatia)
ÉFESO = 37.95331434,27.36782512 (Ephesus)
FILIPOS = 41.01195948,24.28619098 (Philippi)
COLOSSOS = 37.78333333,29.25 (Colossae)
TESSALÔNICA = 40.63215557,22.93208687 (Thessalonica)


sexta-feira, 24 de maio de 2013

O TEMPLO SAMARITANO NO MONTE GERIZIM


De acordo com o historiador judeu Flávio Josefo (séc. I d.C.), o líder samaritano Sambalate prometeu construir um templo no monte Gerizim, local sagrado para os samaritanos, em oposição ao templo de Jerusalém. Tal projeto teria sido anunciado na época de Alexandre, o Grande, por ocasião de sua conquista da Terra de Israel (332 a.C.).

O arqueólogo Yitzhak Magen, após décadas de escavações no Monte, revelou evidências de um templo samaritano que, segundo ele, deve ser datado para tempo de Neemias ( século V a.C.). Como a Bíblia hebraica nada diz a respeito de tal construção, há quem duvide de Magen.  

Afinal, o templo realmente foi construído? Se sim, em que época? Século IV (período grego) ou V (período persa)?

Leia na BAS, aqui, aqui, aqui e aqui

Belas fotos dos samaritanos e do Monte Gerizim aqui


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 23 de maio de 2013

APOCALÍPTICA NA ORÁCULA


Aos interessados em apocalíptica, misticismo e fenômenos visionários: Revista Oracula, publicação do Programa de Pós-graduação em ciências da religião da Universidade Metodista de São Paulo. 

Na edição atual (ano 9 - número 14 - 2013), destaque para: "Os herdeiros do movimento apocalíptico em Israel" e "o movimento apocalíptico e macabeu como protesto ao domínio helênico". 

A edição completa aqui


Jones F. Mendonça

O PEQUENO BILHETE

Tenório chega em casa após mais um dia de trabalho. Tira os sapatos, acende o abajur e vê, em cima do criado mudo, um pequeno bilhete. Imediatamente põe seus óculos e com a testa franzida desdobra e lê a pequena, porém impactante mensagem: “quero o divórcio”. 

Numa fração de segundos seu espírito é invadido por imagens que podem ser expressas nas seguintes palavras: advogado, pensão, disputas judiciais, frustração, mudança de endereço, vergonha, incerteza, medo.

Divórcio é um termo jurídico. Significa que haverá uma dissolução judicial do matrimônio. Mas a frase “quero o divórcio” traz, para Tenório, sentidos que vão muito além de um procedimento previsto no Código Processual Civil.   Sua leitura é: “não te quero mais”, “saia da minha vida”, “não te perdôo pelo que fez”. Tenório tem uma amante. Pensa que Jocasta, sua esposa, descobriu seu segredo.

Ainda atordoado Tenório procura no celular o telefone de Adolfo, um advogado que há alguns anos o ajudou a se livrar que uma querela judicial. Fora indicado por Vera, antiga colega da faculdade que divide o escritório com Adolfo. Não acha seu número. Sai apressado na tentativa de lhe falar pessoalmente no escritório. Consegue. Diante do advogado tira o bilhete do bolso, já amassado, e lhe mostra seu conteúdo: “quero o divórcio”. A leitura de Adolfo é fria, profissional, bem diferente da de Tenório. Pensa: “tem filhos?”, “há muitos bens em jogo?”, “será que ainda tenho os dados desse cliente em meu arquivo?”. Encerrada a conversa o bilhete fica sobre a mesa do advogado.

Vera, a antiga colega de Tenório que trabalha com Adolfo, observa toda a conversa de longe.   Assim que ambos saem da sala ela se aproxima e lê o bilhete. A moça cultiva uma paixão por Tenório desde o ginásio. “Quero o divórcio”, para ela, abre possibilidades há muito tempo esperadas. O pequeno bilhete lhe traz boas notícias. Não se sente aflita como Tenório. Não pensa o recado em termos jurídicos como Adolfo. Lê o bilhete como mulher que rega há muitos anos um amor escondido.

Enquanto isso Jocasta, esposa de Tenório, está com seu terapeuta no décimo terceiro andar de um prédio. Mostra-lhe uma foto do bilhete que deixou para seu marido tirada de seu celular antes de sair de casa. O terapeuta lê e interpreta a mensagem de outro modo. Sabe que Jocasta ama seu marido (ainda que ela negue veementemente). Sabe também que ela cultiva um profundo sentimento de inferioridade em relação a ele, um homem bem sucedido profissionalmente e dotado de uma inteligência e carisma notáveis. “Quero o divórcio”, para ele, significa: “não suporto mais essa situação, quero me livrar desse fardo”. Entende que sua cliente quer se divorciar da dor que a atormenta, não do marido.   

Fica a pergunta: É possível “tocar” no texto sem “sujá-lo” com nossa bagagem cultural, expectativas, emoções e desejos? Mais ainda: podemos acreditar que o texto reflete a verdadeira intenção do autor? Ou: É possível ler sem atribuir valor? Por fim: Qual a relação entre valor e sentido?



Jones F. Mendonça

sábado, 18 de maio de 2013

HEIDEGGER NA BBC [VÍDEO]

Martin Heidegger, autor de “O ser e o tempo”, foi um filósofo alemão que retomou a temática da existência humana na acepção existencialista kierkegaardiana. Professor de Hannah Arendt (filósofa política alemã de origem judaica com quem teve um caso), apoiou o nazismo, traiu seu professor e mentor intelectual Edmund Russerl (judeu como Arendt), Influenciou Gadamer (Verdade e método), Jean Paul Sartre (O ser e o nada) e o teólogo protestante Rudolf Bultmann (Jesus Cristo e mitologia), amigo e colega do filósofo em Marburg. Morreu em 76.

Mais sobre Heidegger no vídeo (legendado) abaixo produzido pela BBC:



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 17 de maio de 2013

HERMENÊUTICAS

Durante toda a Idade Média só a Igreja tinha autoridade para interpretar a Bíblia. Quem discordasse dela geralmente recebia algum tipo de pena (podia ser lançado num caldeirão de azeite fervendo, por exemplo). O método de interpretação predileto era a alegoria (o texto era visto como tendo múltiplos sentidos). A Vulgata, Bíblia em latim produzida por Jerônimo no século IV, era considerado o texto oficial. Os livros de Macabeus, Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc e as adições ao livros de Ester e Daniel eram lidos como se canônicos fossem.  E assim foi.

Lutero, influenciado por humanistas como Lourenzo Valla, Erasmo de Roterdã e alguns padres e eruditos judeus, começou a dizer que a Bíblia interpreta a si mesma e que o sentido literal, e não a alegoria, é o melhor método para extrair da Bíblia sua mensagem. Tomou decisões corajosas: Abandonou a Vulgata e incentivou a leitura da Bíblia a partir de textos nas línguas originais. Por fim defendeu uma coisa chamada “cânon dentro do cânon”. Pôs a igreja e o mundo de ponta à cabeça.

A falta de uma autoridade suprema que pudesse dar a palavra final em questões de interpretação bíblica gerou insegurança e discórdias sem fim. Seu “sacra scriptura sui ipsius interpres” deu ao indivíduo autonomia para interpretar, auxiliado pela luz do Espírito, as sagradas letras do livro divino. Mas a luz tinha cores e intensidades diferentes. Foi uma confusão só. O abandono da Vulgada e o crescente interesse pelos textos nas línguas originais (que chegavam aos montes vindos do decadente império Bizantino), gerou mais insegurança, afinal, os manuscritos não eram iguais. A imprensa, surgida na segunda metade do século XV e aperfeiçoada a cada dia, ajudou a espalhar as novidades anunciadas pelo “herege” padre agostiniano.

Depois apareceu Descartes achando que tudo tinha que ser submetido ao crivo da razão. Então vieram Spinosa, Richard Simon, Lessing, Reimarus, Schleiermacher...   Lutero questionou a autoridade da Igreja. Esses caras começaram a criticar o próprio texto sagrado. O ex-padre alemão lançou um caroço de feijão numa montanha recoberta de neve. Nos séculos que se seguiram a pequena semente foi crescendo enquanto rolava ladeira abaixo. Barth e Bultmann, no início do século XX, até que tentaram reduzir os efeitos destruidores dessa enorme e implacável bola de neve. Os liberais não gostaram. “São neo-ortodoxos”, disseram. Os fundamentalistas também reagiram: “são liberais enrustidos”, arremataram. No decorrer do século XX surgiram novas propostas de interpretação: estruturalismo, análise semiótica, análise narrativa, etc.

Século XXI. O que o futuro nos reserva?


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 16 de maio de 2013

GEZA VERMES NO JEWISH DAILY FORWARD

Breve biografia do estudioso bíblico húngaro Geza Vermes (falecido em 08/05/13)  aqui

Para o estudioso judeu, Jesus foi  uma "pessoa totalmente judaica, com idéias totalmente judaicas, cuja religião era totalmente judaica e cuja cultura, objetivos e  aspirações poderiam ser entendidas apenas no âmbito do judaísmo”.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 14 de maio de 2013

A ARQUEOLOGIA E OS ACRÓSTICOS ALFABÉTICOS


Nos abecedários antigos de Izbet Sartah e Tel Zayit abecedary as letras hebraicas ayin e pe (16ª e 17ª letras do alfabeto hebraico) aparecem na ordem invertida. Curiosamente o mesmo fenômeno ocorre no acróstico alfabético de Lm 2, 3 e 4. Erro do copista ou indícios da evolução do alfabeto hebraico?


Leia mais na BAR jul/ago 2012.


Jones F. Mendonça

FÓSFORO BRANCO: MALDADE “DO BEM”


Os Estados Unidos e Israel temem que as armas químicas da Síria de Bashar al-Assad caiam em “mãos erradas”. Mas os EUA usaram fósforo branco contra alvos civis em 2004 na cidade iraquiana de Fallujah. Os mesmos EUA que condenaram o uso de armas químicas no Iraque.  Em 2009 Israel também utilizou munição à base de fósforo branco contra áreas densamente habitadas na Faixa de Gaza.

Alguém dirá: “mas o fósforo branco não é considerado uma arma química pelas leis internacionais”. Ele mata, devora a carne, os ossos, a alma, mas não é arma química, dizem.  Apelam à letra da lei. Mas quando seus inimigos usam armas químicas o argumento que aparece na mídia é moral e não legal. Mostram os estragos, o número de mortos, os olhos tristes, o semblante caído, as feridas abertas, etc.

Mãos erradas? Sei...


Jones F. Mendonça

O ESPELHO TORTO DE NARCISO

Existe um grupo de jornalistas brasileiros (bem pagos, bons escritores, inteligentes) que odeiam tudo o que cheira a Brasil (ou seja, que não está em sintonia com os valores culturais dos EUA e da Europa). Nossos poetas: sem talento; nossas canções: todas sem brilho; nosso povo: gente ruim; nossos projetos: sem futuro algum. “Campos tristes sem flores”, “bosques sem vida”, “país destinado à desgraça”, cantam com a boca escancarada exibindo seus belos dentes polidos.

O pior inimigo do brasileiro é sua baixa auto-estima, resultado de uma espécie de  “síndrome de Narciso às avessas”, como já havia notado um poeta de nossa terra.  Se algum dia um brasileiro for agraciado com um prêmio Nobel certamente será desacreditado por seu próprio povo. Maldita síndrome de vira-lata.

E o coro cantará em uníssono: “Espelho, espelho meu, quem é mais feio do que eu?”.


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 8 de maio de 2013

MORRE GEZA VERMES (1924-2013)

Acabo de saber da morte (câncer) de Geza Vermes pelo Blog Paleojudaica, mantido por Jim Davila. Vermes é uma autoridade notável nos Manuscritos do Mar Morto e uma das vozes mais importantes na investigação do Jesus histórico. Dentre os vários livros escritos pelo estudioso judeu de origem  húngara, estão: "Jesus e o Judaísmo", "O autêntico Evangelho de Jesus", "Jesus, o judeu" e "As várias faces de Jesus". 

Geza Vermes no Numinosum: aqui, aqui e aqui

Leia mais aqui 

Jones F. Mendonça 

terça-feira, 7 de maio de 2013

JONAS, UM PROFETA FORA DA ORDEM

A=Nínive (Rio Tigre); B=Jope (Mar Mediterrâneo)

O livro de Jonas é uma espécie de midrash. O autor do livro, aproveitando-se das poucas informações a respeito de um profeta chamado Jonas citado em 2Rs 14,25, tomou-o como personagem principal para sua história. Logo no início do livro Yahweh dá a Jonas uma missão: anunciar a destruição da cidade (cf. 1,2; 3,1). Não se trata de um convite ao arrependimento. Depois de 40 dias a cidade seria destruída (teria um destino semelhante ao de Sodoma e Gomorra). Sua missão: anunciar juízo e não esperança de salvação.

Recusando o chamado divino, Jonas desce à cidade de Jope, na costa do Mediterrâneo, a fim de tomar um navio para Tarsis, cidade cuja localização é incerta (há quem pense na Espanha). Quem conhece a geografia da região sabe que Nínive fica ao nordeste de Israel. Vai-se para lá por terra e não por mar. Devia seguir em direção ao oriente. Entrou num navio que seguia para o ocidente.

Já em alto mar uma tempestade castiga o navio, os tripulantes e os passageiros. Então algo curioso e irônico acontece. Enquanto Jonas, o profeta, dorme, os marinheiros lutam para salvar o navio e oram aos seus deuses (1,5). O capitão da embarcação, indignado, convida-o a fazer o mesmo: “Levante-se e clame ao seu deus! Talvez ele tenha piedade de nós e não morramos" (1,6). Um capitão piedoso. Um profeta desleixado. As virtudes dos marinheiros pagãos sobressaem-se quando comparadas ao comportamento indiferente e apático de Jonas. Mas não é só isso.

Imaginando ser a tormenta um castigo divino pela culpa de algum dos passageiros, os marinheiros lançam sortes e ela recai sobre Jonas. Querem saber qual sua profissão e de onde vem. A resposta do profeta: “Eu sou hebreu, adorador do Senhor, o Deus dos céus, que fez o mar e a terra" (1,9). Apavorados, os marinheiros reprovam o comportamento do profeta e lhe perguntam, diante de um mar cada vez mais agitado, o que devem fazer para aplacar a ira do “deus do mar”. Jonas responde: “É por minha culpa que o mar se agita, lancem-me para fora do navio” (1,12). Os marinheiros tentam, em vão, encontrar outra solução. Temem o deus que Jonas parece não temer. Suplicam ao deus que Jonas parece desprezar. Não encontram outra solução. Yam, o mar, finalmente recebe Yonah em seus braços. O mar se acalma. Os marinheiros adoram o deus de Jonas. Fazem-lhe sacrifícios e votos. Um grande peixe engole o filho de Amitai. Fim do primeiro ato.

No livro, tanto os marinheiros como os ninivitas que aparecem nos demais capítulos parecem mais piedosos que os israelitas (até os animais participam do jejum!). Jonas é um livro que subverte a ordem religiosa de seu tempo. Talvez por isso seja tão pouco lido. E compreendido.

Ah, já ia me esquecendo. A palavra de Yahweh anunciada pela boca de Jonas não se cumpre, para desespero do profeta. 


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 3 de maio de 2013

COISAS JUDAICAS

Ando interessado na literatura judaica: targum, midrash, mishná, textos halákhicos, litúrgicos, apócrifos, etc. Abaixo uma relação de sites que disponibilizam algum material sobre o assunto:

- Informações sobre Targuns: www.mb-soft.com
- Targuns do Pentateuco (Onkelos e Pseudo-Jonathan): Targum.info

- Targum de Isaías (Jonathan Ben Uziel): Google livros (em PDF);

Você consegue uma Tanak Peshita (siríaco) aqui

Um excelente livro sobre literatura judaica intertestamentária (espanhol): 

MARTÍNEZ, F. García; PÉREZ, G. Aranda. Literatura judía intertestamentaria. Estella: Editorial Verbo Divino, 1996.

Pelo que sei, não há edições do livro em português. Mas se você conhece o 4shared, vai achá-lo. 

Outros sites interessantes aqui, aquiaqui ,aqui e aqui

Jones F. Mendonça

quarta-feira, 1 de maio de 2013

NUMA ILHA QUALQUER DO PACÍFICO

Vulcão Paluweh, Indonésia
Foto: Earth Observatory
A tribo Sueduj vive numa ilha vulcânica do Pacífico. Hevhay, o deus vulcão dos sueduj, pede todos os dias o sacrifício de uma criança. O povo, reunido em torno de uma árvore sagrada ouve, após o sonido dos rafohs (instrumento feito do chifre de um animal), o nome da criança eleita para tão horrendo sacrifício: Susej, filho de Airam.

O sacerdote, ao ouvir os gritos da mãe tenta apaziguá-la dizendo que Hevhay ama cada um dos membros da tribo sueduj. Mas o amor de Hevhay não é como o amor humano, ele diz. Trata-se de um amor misterioso, que está além da compreensão dos mortais. Explica também que quando Hewhay destrói as plantações, o gado e a aldeia com suas lavas, não faz isso por ira, afinal Hewhay não é, como os humanos, movidos constantemente por seus afetos. “Hevhay não pode se subordinar a um sentimento”, filosofa. “Nosso deus não muda”, finaliza.

Dadas essas explicações o sacerdote grita: “Hewhay vive na montanha Suec. Nada escapa ao seu olhar. Não teve origem nem terá fim. Seu poder é ilimitado”. O povo vai ao delírio. O pequeno Susej, filho de Airam, desaparece após ser lançado de um penhasco. Todos voltam para suas casas. A ira de Hewhay foi aplacada.

Airam, mãe de Susej, medita recostada na copa frondosa da árvore Olpmet: “se o amor de Hevhay pela tribo não é como o que sinto por meu filho, pela minha terra, pela minha família, então não é amor”. Se um sueduj não é capaz de compreender a natureza de Hevhay, como o sacerdote pode afirmar conhecê-lo tão bem? Desconfia que o sacerdote é mentiroso.

Amor que não é amor. Ira que não é ira. Deus que não é deus...
  

Jones F. Mendonça

TEOLOGIA EM BOLHAS DE SABÃO

Bolhas de sabão, de Jean Baptiste
 Simeon Chardin (1733-34)
Calvino, teólogo francês dotado de uma incrível mente sistemática, defendia que todos os acontecimentos foram pré-ordenadas por Deus: a criação do mundo, o aparente caos da bolsa de valores de Nova York, a forma exuberante dos lírios, os espinhos dos ouriços, a gota de orvalho que cai de uma folha qualquer, a lâmina de sangue, a boca que morde, a mão que afaga. Linhas invisíveis escrevendo com muito arrojo e precisão o destino da humanidade.

Para o teólogo de Genebra, Adão pecou porque Deus quis que ele pecasse. Todavia, enfatiza o filho de Noyon, os descendentes de Adão e Eva foram entregues à danação eterna por seus próprios atos (uma antinomia). Decretum quidem terribile, ele mesmo confessa.  Para solucionar o problema que o próprio Deus criou, decidiu enviar num ato de “amor” seu próprio Filho para morrer por aqueles que de antemão decidiu condenar e depois salvar (amor está entre aspas porque para Calvino Deus não possui emoções). Antropopatismo, mero sentimento humano projetado no divino.

Na teologia de Calvino o primeiro Adão pecou porque tinha que pecar. O “segundo Adão”, Jesus, morreu porque tinha que sofrer. O mundo é uma espécie de trem criado por Deus com destino ao abismo. Os passageiros entraram no trem porque Deus quis que entrassem. Ainda assim são responsabilizados pela catástrofe que se aproxima. Alguns se esforçam por sair do féretro sob trilhos. Ajudam os mais fragilizados, consolam os desesperados, tentam, em vão, encontrar um freio. Mas o misterioso critério empregado por Deus para livrar os (poucos) eleitos da morte certa pode ser qualquer um, exceto o esforço individual. Decretum quidem terribile!

E assim vão sendo construídas as teologias sistemáticas. Mãos que tecem, com fios de névoa, sonhos surreais pintados em bolhas de sabão.  


Jones F. Mendonça