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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

SOBRE ALEGORIAS E CRÍTICAS TEXTUAIS MEDIEVAIS

O professor Joy Schroeder passa boa parte do seu tempo livre em cafés, traduzindo comentários bíblicos medievais do latim para o inglês. Alguns dos comentários mais curiosos destacados pelo professor podem ser lidos num artigo publicado no The Bible and Interpretation.

Chamou minha atenção uma interpretação alegórica antijudaica feita pelo monge místico medieval Rupert de Deutz (c. 1075 – c. 1129) a respeito do corvo enviado para fora da arca por Noé (para ele o corvo representa os judeus!?) e alguns ensaios de crítica textual (costuras, variações estilísticas, contradições aparentes, e discrepâncias verbais).

O link já traduzido aqui.

Jones F. Mendonça

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

TEOLOGIA PENTECOSTAL: ENTRE A RESISTÊNCIA E A SUBMISSÃO

O movimento pentecostal possui dois fundadores: Charles Fox Parham (1873-1829) e Willian Joseph Seymour (1870-1922). O primeiro era branco, racista simpatizante da Ku-Klux-Klan e entusiasmado com a glossolalia como evidência da atuação sobrenatural do Espírito. O segundo, seu aluno, era negro filho de ex-escravos e entusiasmado com a superação das raças e classes sociais.

Seymour tinha ideias revolucionárias. Introduziu música de raiz africana - o negro spirituals - na liturgia do culto, buscou igualdade entre bispos brancos e operários negros e entre professores brancos e lavadeiras negras. As igrejas históricas, dirigidas e formadas por brancos, desprezaram o movimento por causa do status social de seus integrantes e de seu “profeta negro”. O tempo passou e esse lado contestador do pentecostalismo foi sendo posto de lado.

Mas na década de 60 o evangelista pentecostal Arthur Brazier (1921-2010) fez renascer com muita vitalidade a crítica social nos sermões pentecostais. Disposto a destruir o mito da supremacia moral e intelectual dos brancos, Brazier afirmava que os EUA foram construídos nas costas dos negros, povo cujo sangue havia sido derramado nas plantações de algodão e nas estradas de ferro que cortavam o país. Brazier estava ao lado de Martin Luther King Jr. quando este saiu pelas ruas protestando contra a segregação racial.

Quando ouço um pastor pentecostal dizendo que os negros descendem de Cam, filho maldito de Noé, fico pensando: o que deu errado?


Jones F. Mendonça

sábado, 1 de agosto de 2015

BAIXA CRISTOLOGIA - VÍDEO




Divulguei aqui e postei aqui material sobre o debate com o tema "cristologia", apresentado no STBC em maio de 2015. Como o vídeo do debate finalmente foi postado no YouTube, aproveito para disponibilizá-lo no Blog. 


Com receio de extrapolar os 20 minutos reservados a cada um dos palestrantes, acabei tendo que falar mais rápido do que gostaria, mas não acho que tenha comprometido a clareza. Caso queira assistir aos demais palestrantes, clique no título do vídeo para ser conduzido ao YouTube. 


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 8 de junho de 2015

II CONGRESSO INTERNACIONAL DE TEOLOGIA E CIÊNCIAS DAS RELIGIÕES

A Faculdade Unida estará realizando, de 09 a 12 de junho de 2015, o II Congresso Internacional de Teologia e Ciências das Religiões. Destaque para a presença de Leonardo Boff (teologia da libertação) e Harvey Cox (teologia da secularização) . O evento será transmitido ao vivo e estará disponível no canal "Faculdade Unida" do YouTube. 

Assista ao vivo aqui

terça-feira, 3 de junho de 2014

TEOLOGIAS: RETA DOUTRINA, PENTECOSTAL, NEOPENTECOSTAL

A fé, no protestantismo histórico, se expressa no conhecimento da doutrina, daí a expressão “protestantismo de reta doutrina” cunhada por Rubem Alves. Nesse sentido, bom cristão é quem domina com maestria as sagradas letras, quem conhece os artigos de fé, quem defende a sã doutrina contra os “filhos de Satanás”.

No pentecostalismo o bom cristão é aquele que passa pela experiência do Espírito.  O que conta mais não é o saber, mas o experimentar. A letra – gostam de dizer – mata, mas o Espírito vivifica. Só quem passou pela experiência do batismo do/no Espírito detém uma “unção especial”, tem os charismas potencializados. É “crente plus”.

Entre os neopentecostais crente mesmo é quem dá resultado. Pastor ungido é aquele que acrescenta muitas ovelhas ao rebanho. Crente bom é aquele que é fiel no dízimo, que faz faxina no templo sem cobrar, que vota no candidato do bispo. O Deus verdadeiro é aquele que “alarga as fronteiras” dos que depositam seus bens aos pés dos sacerdotes na “sala do tesouro”. 

Resumindo: Protestantismo histórico: creio porque é verdadeiro. Pentecostalismo: creio porque experimentei. Neopentecostalismo: creio porque dá resultado.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

DEMITIZANDO BULTMANN

Sempre que leio uma crítica à teologia liberal o nome de Rudolf Bultmann aparece em destaque. Estranho. O teólogo da desmitologização (ou demitização) foi, ao lado de Karl Barth, um crítico da teologia liberal. Num ensaio de 1924 Bultmann escreveu: “O objetivo da teologia é Deus, é a acusação contra a teologia liberal é esta: ‘ela não tratou de Deus, mas do ser humano’”.

Possuo “Jesus Cristo e mitologia”, de Bultmann. O livro é uma tentativa de salvar o cristianismo da ameaça da teologia liberal com idéias tomadas do existencialismo de Heidegger. O próprio Bultmann admite ter recebido influência da filosofia de Heidegger no livro, afinal de contas, ele afirma “a exegese descansa sempre em alguns princípios e concepções que atuam como pressuposições do trabalho exegético”.  

Uns lêem o Novo testamento a partir do dogma e, portanto, a partir da interpretação que outros fizeram no passado. Outros buscam novos caminhos na tentativa de atualizar sua mensagem. Desmerecer o trabalho de Bultmann pela falta de originalidade ou por apoiar-se na filosofia é no mínimo ridículo. Como se Paulo não tivesse buscado elementos para sua pregação na mitologia judaica (que por sua vez tem raízes na Babilônia e na pérsia), no estoicismo, no epicurismo e no platonismo.

Mas este texto não pretende ser uma defesa de Bultmann. Os que já desceram à sepultura não precisam de advogado. Além do mais, sua teologia, como qualquer outra, não está isenta de críticas.  Seria um contrassenso criticar a ortodoxia por sua rigidez e permanecer atrelado a Bultmann. Mas citá-lo como o “pai dos liberais” é desconhecer a teologia do final do século XIX e seus desdobramentos no século XX.

Para que eu não seja acusado de ser um bultmanniano enrustido, deixo duas críticas ao teólogo de Marburg:

1. Ao demitizar algumas idéias mitológicas, consideradas como pré-científicas, tais como a existência de demônios, anjos, tronos celestes e curas milagrosas, Bultmann pôs o trem da teologia num trilho de uma via só. Duas questões: até onde a demitização deve ir? A crença em um Deus misericordioso e disposto a salvar o ser humano também não deve ser demitizada?

2. Bultmann recusou-se a substituir o mito pela história como queriam os liberais. Ele desprezou a história como fundamento da fé (para ele o importante é a história que se realiza hoje, uma fé existencial) e passou a valorizar o querigma. Novas perguntas: até que ponto a história de Jesus é irrelevante para a fé? Uma fé sem concreticidade histórica subsiste?

Bultmann tocou em feridas. E elas ainda estão abertas. Desconfio que a repulsa que alguns teólogos/pastores conservadores cultivam por Bultmann não é por discordarem de suas idéias. É por medo das desconfortáveis implicações que elas trazem. Muitos estão dispostos a aceitar que não há tronos no céu. Que o inferno não fica embaixo da terra. Que Deus não solta fogo de suas narinas e nem lança raios montado em querubins. Mas poucos estão dispostos a refletir honestamente sobre os questionamentos levantados por Bultmann.

Bultmann virou sinônimo de herege. Logo ele, tão crente.


Jones F. Mendonça

sábado, 18 de fevereiro de 2012

A FESTA DOS FOLIÕES - HARVEY COX

Em 97, quase dez anos antes do meu ingresso no curso de teologia, fui presenteado com "A festa dos foliões"  (Vozes, 1974), do teólogo e antropólogo americano Harvey Cox. "Pepeu", meu cunhado, trabalhava numa construtora encarregada de reformar uma igreja cuja biblioteca seria posta abaixo. O livro tinha um destino certo: o lixo. Pepeu não pensou duas vezes e o trouxe para mim juntamente com outras preciosidades. Foi uma felicidade só!

Sem ter a mínima ideia do que se tratava (e até mesmo sem entender muito do que lia) fui tendo contato com reflexões sobre o aspecto festivo da religiosidade humana. Cox, irreverente, chega a propor uma nova imagem para o Filho do Homem: o Cristo arlequim. Se o ser humano é homo  ludens, o Cristo homem também não poderia ser?

Como estamos no carnaval, lembrei-me do livro, que foi emprestado em 2009 e até hoje não foi devolvido.  Fica a sugestão de leitura (e a esperança de tê-lo de volta). 

Jones F. Mendonça

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

ENTREVISTA COM JÜRGEN MOLTMANN

Jürgen Moltmann, um dos teólogos europeus mais inovadores da atualidade, concedeu uma entrevista a Lorenzo Fazzini, publicada pelo jornal Avvenire, 03-02-2011. Segue um trecho em que ele fala sobre a tensão entre fé e incredulidade presente em cada um de nós:
Em cada ser humano se desenvolve um diálogo entre fé e incredulidade: “Senhor, eu creio, mas ajuda-me na minha incredulidade”, grita o pai do jovem enfermo no Evangelho de Marcos. Ninguém está satisfeito com a própria incredulidade. A esperança é mais ampla porque ligada ao amor pela vida. Esperamos enquanto respiramos e, se duvidamos e ficamos tristes, a esperança perdida nos atormenta. Onde a esperança é destroçada na vida inicia a violência e a morte.
Leia a entrevista na íntegra traduzida para o português no IHU

sábado, 27 de novembro de 2010

BÁSICO DE TEOLOGIA COM PREÇO POPULAR

Se você mora na zona oeste do Rio e está interessado em fazer um curso de teologia não perca esta oportunidade. O Instituto Beritz está com as matrículas abertas para novos alunos do curso básico de teologia. As salas são climatizadas e possuem data show (projetor multimídia). O curso tem a duração de 10 meses e tem como objetivo capacitar professores de EBD (escola bíblica), pastores sem formação teológica, líderes e pessoas interessadas em aprender um pouco mais sobre a Bíblia.

A mensalidade de R$20,00 visa custear despesas com a manutenção do curso. O instituto Beritz não tem fins lucrativos, por isso a mensalidade é tão baixa. As apostilas são fornecidas gratuitamente aos alunos, que podem ser baixadas no site do curso. São só 40 vagas. 

É importante frisar que este curso não concede o diploma de bacharel em teologia. As aulas são ministradas no seguinte endereço: Rua Palmácia nr 95, Campo grande, Rio de Janeiro (bem próximo ao West Shopping). Para ver o local no mapa do Google, clique aqui

No curso dou aula de Antigo Testamento e história do cristianismo. Aguardo você lá!

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O NOBRE, O BURGUÊS E O PLEBEU: REFLEXÕES SOBRE A REFORMA PROTESTANTE

Por Jones Mendonça


O cenário político na época da reforma dividia-se basicamente em três partes:

1) A igreja católica e a nobreza – Queriam manter o status quo. O papa era a figura que representava esse grupo.

2) A pequena nobreza, parte dos príncipes seculares e a burguesia – Queriam enriquecer apropriando-se dos bens do clero. O padre agostiniano Martinho Lutero beneficiou esse grupo com a Reforma.

3) Os camponeses oprimidos. Tomaz Münzer, o teólogo e líder dos plebeus e camponeses revolucionários, foi o porta-voz desse grupo.

Engels descreve as idéias de Münzer como “quase comunistas”:
Para Münzer, o reinado de Deus nada mais era que uma sociedade na qual não haveria mais nenhuma diferença de classes, nenhuma propriedade privada ou nenhum poder de Estado estrangeiro, autônomo, em oposição aos membros da sociedade”[1].
Tomas Müntzer, representante da classe mais baixa, acabou torturado e morto. Enfim... o mundo não mudou muito de lá para cá...

Nota:
[1] Sur La religion, Paris, Éditions Sociales, 1960, p. 114 apud Lua Nova, Revista de Cultura e Política,  1998, nº 43, p.164.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

INCULTURAÇÃO DA FÉ E SINCRETISMO RELIGIOSO


A REB (Revista Eclesiástica Brasileira) publicou um artigo sobre sincretismo religioso e inculturação que vale a pena ser lido principalmente por aqueles que se acostumaram a interpretar o termo “sincretismo” de forma pejorativa.  O artigo foi publicado na REB/60, Nr 238, de junho de 2000 e está dividido em quatro partes:

  1. Sincretismo: um termo complexo
  2. Sincretismo ou inculturação
  3. Fé cristã e sincretismo religioso
  4. Conseqüências para a pastoral
Para ler o artigo na íntegra, clique aqui.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

FRASES CLÁSSICAS SOBRE DEUS: TILLICH, BUBER, JUNG E SARAMAGO

Filósofo e teólogo cristão, Paul Tillich foi um dos pensadores cristãos  mais influentes do século XX. Por suas posições anti-nazistas teve que migrar para os Estados Unidos em 1933. Sua frase sobre Deus é um tanto filosófica:
“Deus é o fundo do ser [...] toda a afirmação concreta sobre Deus deve ser simbólica, pois uma afirmação concreta é aquela que usa um segmento da experiência finita para dizer algo sobre Deus”[1].
[1] TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. São Leopoldo: Sinodal, 2005, pp.245, 246.
Judeu de origem austríaca, o filósofo, escritor e pedagogo Martin Buber fez uma interessante crítica ao uso leviano do nome de Deus:
“Deus é a mais incômoda de todas as palavras humanas. Nenhuma foi tão banalizada, tão mutilada [...]. As gerações dos homens rasgaram a palavra com seus partidarismos religiosos; por ela mataram e foram mortos; ela traz as marcas dos dedos e do sangue de todos [...]. Os homens desenham caricaturas e escrevem embaixo: ‘Deus’; assassinam-se uns aos outros e exclamam: ‘em nome de Deus’” [2].
[2] BUBER, Martin. El eclipse de Dios, Nueva Visión, Buenos Aires, 1970, pp. 13-14 apud GONZÁLEZ, Luiz; SANTABÁRBARA, Carvajal. Notícias de Deus pai! São Paulo: Loyola, 1999, p.11.
Uma declaração surpreendente foi feita por Carl Jung em 1961, pouco antes de morrer a John Freeman, da BBC de Londres. Quando perguntado se acreditava em Deus, disse o seguinte:
“Não preciso acreditar, eu sei”[3].
[3] BRYANT,  Christopher. Jung e o cristianismo. São Paulo: Loyola, 1996, p.11.
Na minha opinião a frase mais bela é a do escritor português José Saramago. Lembro que o Nobel de literatura se declarava ateu:
“Dios es el silencio del Universo, y el ser humano el grito que da sentido a ese silencio”[4].
Deus é o silêncio do Universo, e o ser humano o grito que dá sentido a esse silêncio”[4].
[4] ORTIZ-OSÉS, Andrés; LANCEROS, Patxi. Diccionario de la existência: assuntos relevantes de la vida humana. Barcelona: Anthropos Editorial; México: Centro Regional de Investigaciones Multidisciplinarias. UNAM,  2006, p.172.
Filósofos, místicos, apologistas e ateus, todos tem uma opinião sobre Deus. E você, o que diria sobre Ele?

Imagem: Capa do polêmico livro de Saramago: “O Evangelho segundo Jesus Cristo”.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

A TEOLOGIA FEMINISTA DE ELISABETH MOLTMANN-WENDEL

Por Marcos Nunes
(do Blog “Sinalizando o Reino”)

Segundo a maioria dos teólogos o pecado está intimamente ligado a questão do orgulho. Em Lutero é emancipação, egocentrismo, descrença e negação da fé em Deus. Para Paul Tillich o pecado é uma alienação em relação a Deus[1].

 A teóloga feminista Elisabeth Moltmann-Wendel[2] nos trás uma importantíssima contribuição, pois nos ensina a olhar e a analisar as origens do pecado no universo feminino. Sei que muitos são generalistas, talvez fundamentalistas, e não aceitam estes tipos de análises teológicas que usam cortes sociológicos por gênero, classe, cor, naturalidade, grau de instrução e etc.

Mas a teóloga citada observa que no universo feminino, em muitas ocasiões, o pecado não se origina no orgulho e, sim, na autonegação. Este seria um dos fatores mais freqüentes nos pecados do universo feminino. Na ótica de Lutero e Tillich o pecado significa “pretender ser igual a Deus”, a afirmação do seu “EU” (ego), no caso do universo feminino o pecado tem uma forte tendência de se originar na negação do seu “Eu”, o medo de ser ela mesma, com a submissão radical, a negação da sua identidade, a baixa auto-estima, falta de coragem e etc.

Segundo Elisabeth Moltmann-Wendel a “libertação do pecado precessar-se-ia como aprendizagem do amor próprio e com o êxodo do mundo patriarcal a uma vida orientada pelo amor e pela alegria“[3].

A teologia feminista nos trás um olhar muito peculiar e ao mesmo tempo libertador sobre a realidade do universo feminino. Muitas vezes as mulheres são criadas e chegam à fase adulta oprimidas pelas forças que seus pais exercem na infância e adolescência e que o marido e os filhos exercem na fazer adulta. Muitas vezes a experiência de autonegação tem sido transformada em falta de amor próprio, e por tanto, vai de encontro à vontade de Deus para sua criação.

Mesmo a teologia feminista insiste que esta situação de escravidão e pecado não é exclusiva das mulheres, existem casos de homens que sofrem do mesmo tipo de dependência familiar, por tanto, não conseguem se sentir livres para constituir uma nova família com novos padrões.

É necessário ressaltar que a autonegação também pode ser uma qualidade se for exercida com equilíbrio. Jesus disse: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me.” Lc 9.23. O problema não é o indivíduo “negar-se a si mesmo”, o problema é o indivíduo se deixar ser subjugado e oprimido por sistemas, estruturas, doutrinas, culturas ou pessoas enquanto agentes de dominação.
“O amor próprio, protegido contra a moléstia do egoísmo e da perversão do narcisismo, é pressuposto de saúde humana e condição indispensável do amor ao próximo”[4].
Uma experiência de vida e de família que sinaliza o Reino de Deus é uma experiência que mostra em nossa casa hoje, aquele tipo de relacionamento livre e amoroso que vamos viver plenamente no céu.

Abaixo a dependência emocional!
Abaixo a baixa autoestima!
Viva a experiência de autonegação por amor!
Viva as nossas famílias!

Bibliografia:
BRAKEMEIER, Golttfried. O ser humano em busca de identidade: Contribuições para uma antropologia teológica. São Leopoldo: Sinodal: São Paulo: Paulus, 2002.

Notas:
[1] BRAKEMEIER, Golttfried. O ser humano em busca de identidade: Contribuições para uma antropologia teológica. 2002. p. 64-66.
[2] Elisabeth Moltmann-Wendel é esposa de Juger Moltmann, um dos maiores teólogos do Séc. XX e principal fundador da Teologia da Esperança, para saber um pouco mais clique Aqui.
[3] Ibid, p. 67.
[4] Ibid, p. 67.

Imagem:
Cartaz de uma palestra ministrada por Elisabeth Moltmann-Wander em Berkheim, Alemanha, sob o título: Frauentag (mulheres).

quarta-feira, 24 de março de 2010

A TEOLOGIA MORAL DE IMMANUEL KANT

Por Jones Mendonça

O filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) divide a teologia em três tipos distintos: Transcendentalem (Pensar Deus em termos transcendentais), Naturalem (pensar Deus em  termos de conceitos físicos) e Moralem (pensar Deus a partir de conceitos morais). Abaixo um breve comentário sobre cada um deles:

Transcendental: A teologia transcendental pressupõe o conhecimento de Deus por meio da razão, mas limita-se a apresentar Deus como causa do mundo (sem intenção - Deus impessoal). Para Kant, aquele que concebe unicamente uma teologia transcendente é chamado deísta[1].

Natural: Conhecimento de Deus por meio da analogia com a natureza. Mais objetiva que a teologia transcendental, apresenta Deus como autor do mundo (com intenção - Deus pessoal). Para Kant, quem admite tanto a teologia transcendental como a natural é chamado de teísta[2].

Moral: Ultrapassando o horizonte da teologia transcendental e natural, Kant, em sua obra “Lições de teologia filosófica”, apresenta a teologia como “o sistema de nosso conhecimento acerca do sumo bem”[3]. Para o filósofo alemão a teologia deve estar subordinada à moral. Mas alguém poderia perguntar: “que parâmetros utilizar para que o  ideal moral seja conhecido?”. Kant não hesitaria em dizer que isso se alcançaria por meio do uso da razão. Mas ele reconhece que mesmo com o uso da razão o homem não consegue por si só alcançar o sumo bem, por isso a igreja se torna necessária para mantê-lo longe do mal. Para Kant são as leis morais que nos conduzem ao sumo bem.

Nietzsche (1844-1900) foi um dos que fez duras críticas ao chamado “imperativo moral” Kantiano. Ele não acreditava, como Kant, numa razão universal absoluta, e, portanto, numa moral universal. Pensadores cristãos modernos, como o filósofo e político italiano  Gianni Vattimo conseguem pensar o cristianismo sem concepções absolutas. Um autor brasileiro que aborta a ética sob o mesmo prisma (sem parâmetros absolutos) é Olinto pegoraro (Ética e bioética: da subsistência à existência, Vozes, 2002).

Caso queira ler um artigo de Vattimo sobre o assunto, clique aqui.

Referências bibliográficas:
FERRAZ, Carlos Adriano. Do juízo teológico como propedêutica à teologia moral em Kant. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2005.

KRASSUSKI, Jair Antônio. Crítica da religião e sistema em Kant: um modelo de reconstrução racional do cristianismo. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2005.

VV, AA. Dicionário teológico enciclopédico. São Paulo: Loyola, 2003.

Notas:

[1] KRASSUSKI, Jair Antônio. Crítica da religião e sistema em Kant: um modelo de reconstrução racional do cristianismo. 2005,  p.64.
[2] Id. ibid.
[3] Kant, I. Lectures on philosophical theology. Ithaca: Cornell University Press, 1986, p.23 apud FERRAZ, Carlos Adriano. Do juízo teológico como propedêutica à teologia moral em Kant. 2005, p.142.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O FILME AVATAR: PANTEÍSMO HOLLYWOODIANO?

Por Jones Mendonça

Assisti na semana passada o tão comentado Avatar, do diretor James Cameron. Quem espera uma combinação perfeita entre efeitos especiais fantásticos e uma história criativa que fuja do óbvio, como na trilogia “Senhor dos Anéis” vai se decepcionar. Mas para os que desejam apenas se extasiar diante de belíssimas seqüências animadas por personagens computadorizados quase reais, certamente o filme será muito bem vindo.


Com um orçamento colossal, o épico de ficção científica transmite uma mensagem ecológica. O planeta Pandora, habitado pelos na’vis, esguios e enormes seres azuis, possui reservas de um mineral valioso que é desejado por um humano sem escrúpulos. Na tentativa de fazer com que seus habitantes saiam do local, a empresa desse ambicioso personagem constrói corpos artificiais semelhantes aos dos na’vis, que são controlados por humanos. Um desses humanos disfarçados se infiltra na comunidade tribal dos na’vis e acaba se apaixonando pela filha do chefe. Não é preciso dizer que depois disso ele se rebela contra a poderosa empresa e seu exército de mercenários.


Como estou sempre atendo a uma possível mensagem religiosa dos filmes (como em “O Senhor dos anéis”, “Star Wars” e “As Crônicas de Nárnia”), não pude deixar de notar alguns detalhes interessantes.


É curioso que o termo na’vi se pareça como o termo hebraico nabi=profeta (principalmente porque no hebraico o b e o v são diferenciados apenas por um pequeno ponto). Seriam os na’vis enviados de Deus para uma humanidade capitalista, incapaz de enxergar o seu próprio planeta como extensão de si mesmo? Outra particularidade em relação ao hebraico é o nome da divindade dos pandorianos – Eywa, Mãe de todos. Nas Bíblia em português o termo hebraico aváh, é traduzido por Eva (na versão inglesa o termo é parecido: Eve).


Gn 3,20 – “Chamou Adão à sua mulher Eva [חַוָּה], porque era a mãe de todos os viventes”.


Muitos sites cristãos têm criticado o filme por sua suposta mensagem panteísta, já que a divindade dos na’vis parece se confundir com o próprio planeta Pandora. Alguns sugerem apologia a wicca ou a New Age, mas não seria isso um exagero?


Para quem não sabe, o panteísmo prega que Deus e o cosmos são a mesma coisa. Assim, todos os animais, vegetais e minerais seriam facetas de uma mesma realidade: Deus é tudo e tudo é Deus. Mas será que no filme Eywa=Pandora, ou muito mais do que isso?


O cristianismo sempre enfatizou que Deus e o cosmo são coisas distintas, já que o livro do Gênesis fala de uma criação (ou ordenação) a partir da palavra de Yahweh (recentemente a criação ex nihilo foi questionada num artigo da teóloga holandesa Ellen Van Wolde). Mas vale lembrar que teólogos católicos como Teilhar de Chardin, buscaram harmonizar transcendência e imanência, utilizando o conceito krausiano panenteísmo[1], que defende que o mundo não é Deus, mas está contido em Deus. Desse modo é possível construir uma visão não tão pessimista do mundo, como geralmente ocorre no cristianismo tradicional.


Fica a pergunta: é possível conceber o universo como sendo parte de Deus? É bem verdade que a teologia joanina sempre enfatizou a destruição do mundo criado, dando origem ao que chamava de “Nova Jerusalém”. Mas a teologia paulina, ao contrário, fala da restauração de todas as coisas (pleroma).


Teísmo, panteísmo, panenteísmo... deixemos todas essas questões teológicas de lado. Que fiquem as estonteantes e hipnóticas seqüências do filme e sua bela mensagem: precisamos preservar o nosso planeta.




Nota:
[1] O termo panenteísmo foi cunhado por Karl Christian Friedrich Krause, daí a expressão “krausiano”. A concepção panenteísta do mundo recebeu forte influência do neoplatonismo de Plotino (205-270 d.C.), fisólofo nascido em Licópolis, Egito.

EDWARD SCHILLEBEECKX: UMA BREVE BIOGRAFIA

Por Jones Mendonça

Edward Schillebeeckx (1914-2009) nasceu em 1914 na Antuérpia, Bélgica. Estudou teologia em Louvain, em Le Saulshoir e na Sorbonne. Iniciou sua atividade acadêmica lecionando no Estudantado teológico dominicano de Louvain (1946-1957). Alguns anos depois foi professor na faculdade católica de Nimega, na Holanda (1958-1983).

No primeiro período do seu pensamento sua reflexão voltou-se para os sacramentos. Suas principais obras deste período são: “A economia sacramental da salvação” (1952), “Cristo, sacramento do encontro do homem com Deus” (1958) e “O matrimônio: realidade secular e mistério salvífico” (1963).

No segundo período confronta-se com novas hermenêuticas, buscando compreender a experiência cristã contemporânea. Este segundo período pode ser subdividido em duas novas fases: a fase hermenêutica (1967-1972), cuja obra mais profunda foi “Inteligência da fé: interpretação e crítica”, e a fase cristológica (1972—1989), apresentada em três volumes: “Jesus, a história de um vivente” (1974), “Justiça e amor. Graça e libertação” (1977) e “Humanidade como história de Deus” (1989).

Dentre as posições teológicas polêmicas de Schillebeeckx estão o aniquilacionismo[1], a ordenação de mulheres e homens casados, e críticas a infalibilidade papal e à sucessão apostólica. A respeito deste último tema, a Congregação reagiu afirmando que Schillebeeckx continuava “a apresentar a apostolicidade da igreja de maneira tal que a sucessão apostólica através da ordenação sacramental representa um dado não-essencial para o exercício do ministério”[2].

Suas opiniões progressistas lhe renderam três investigações diferentes do Vaticano, duas delas durante o pontificado de João Paulo II. Em 2000, sob pressão da Cúria Romana, uma Universidade holandesa abandonou a idéia de homenageá-lo pelo seu octogésimo quinto aniversário, dando seu nome a uma cátedra. Schillebeeckx morreu aos 95 anos em Nimega, cidade onde lecionou por quase trinta anos.

Referências bibliográficas:

GIBELLINI, Rosino. Teologia do século XX. São Paulo: Loyola, 1998.

CHAPPIN, Marcel. Introdução à história da Igreja. São Paulo: Loyola, 1999.

ACKMANN, Geraldo Luiz Borges. Servir a Cristo na comunidade: o ministério presbiterial de Edward Schillebeeckx. São Paulo: Loyola, 1993.

LLEN, John L. Conclace: as políticas, as personalidades e o processo da próxima eleição papal. Tradução de Maria Beatriz Medina. Rio de Janeiro: Record, 2003.

Notas:

[1] Maiores esclarecimentos a respeito deste tema podem ser obtidos na seguinte obra: RAUSHC, Thomas P. Catolicismo na aurora do terceiro milênio. São Paulo: Loyola, 2000.

[2] OR, 24-25, setembro de 1986,1 apud BRAMBILLA, Franco G. Edward Schillebeeckx, 2006, p.94

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

COMENTANDO O POLÊMICO ARTIGO DE ELLEN VAN WOLDE

Por Jones Mendonça

Ainda não disponível em português (ou sequer em inglês), o polêmico artigo da holandesa ELLEN VAN WOLDE que propõe uma nova interpretação para relato bíblico da criação pode ser baixado e lido em PDF (em holandês) clicando no link abaixo:


O artigo de Wolde possui 28 páginas (incluindo a bibliografia) e a discussão gira em torno de novas possibilidades para a tradução do verbo hebraico bara (בָּרָא). Em Gn 1,1 esse verbo tem sido tradicionalmente interpretado como dando a idéia de uma “criação do nada (ex nihilo)”[1]. A autora faz comparações entre o capítulo 1 de Gênesis e o famoso e extremamente antigo mito sumeriano da criação. Este último relato não fala de uma criação a partir do nada, mas narra a organização do mundo em três níveis: céu, terra e mundo inferior, separados pela ação de uma das inúmeras divindades existentes. Para a autora do artigo, a Bíblia seguiria o mesmo padrão do relato mesopotâmico, mas foi interpretada de forma diferente ao longo da história do pensamento judaico cristão.

Na página 10 a autora chama atenção para os versículo 21 do primeiro capítulo do Gênesis. Para ela, esse versículo descreveria os tipos de animais que habitam um mundo existente em três níveis: mundo inferior (monstros marinhos), mundo intermediário (répteis) e mundo superior (aves). O texto teria a intenção de narrar a separação, e não a criação a partir do nada, dos animais que habitam esses três níveis. Wolde propõe uma nova tradução para o v.21:
God scheidde de grote zeemonsters, alle krioelende levende wezens waarvan de wateren wemelen, naar hun aard, en alle vogels die vliegen naar hun aard[2].
Wolde destaca ainda que no versículo 25 não aparece o verbo bara, mas asah (עָשָׂה). Como a separação ocorrida aqui é entre répteis, gado e animais selvagens, ela defende que o polêmico verbo é omitido neste caso porque esses três tipos de animais vivem na mesma região (mundo intermediário: terra).

No final do artigo, Wolde resume[3]:

a) Gn 1,1 não fala do início do princípio absoluto do tempo, mas do início de determinado ato.
b) O verbo bara deve ser traduzido como separar, e não como criar do nada (ex nihilo);

O artigo não pretende ser a última palavra sobre o assunto, como admite a própria autora, mas dar início a uma discussão aberta sobre esse tema que ganhou a atenção de grandes pensadores do cristianismo, tais como Agostinho de Hipona:
Existias tu e outra coisa, um nada, de onde fez o céu e a terra, duas criaturas: a uma próxima a ti (prope te); a outra próxima a um nada (prope nihil); a uma que não tem mais superior que tu; a outra que não tem nada inferior a ela?(Conf. XII,7).
E Tomás de Aquino:
Idem autem est nihil quod nullum ens. Sicul igitur generado hominis est ex non ente quod est non homo” (Sum. Th. 1 q45 al).
Se para os pais da igreja e para a escolástica o tema estava encerrado, hoje o debate permanece aberto. Pelo menos para ELLEN VAN WOLDE.

Notas:
[1] É o que faz, por exemplo, o dicionário Vine e inúmeras teologias sistemáticas consagradas no meio protestante e católico.
[2] Tradução livre do blog: “Deus separou (grifo nosso) os grandes monstros do mar, todas as criaturas rastejantes cujas águas produziram, segundo as suas espécies, e todas as aves que voam, segundo as suas espécies”. WOLDE, Ellen J. van. Terug naar het begin, 2009, p.10.
[3] Ibid, pp. 20,21.

Crédito da imagem:
PINTURA GÓTICA EM VIDRO, Italiano
A Criação
1490
Vitral
Duomo, Milão