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sexta-feira, 21 de outubro de 2016

OUTUBRO, MÊS DA REFORMA: LIBERDADES LÍQUIDAS

John Wyclif e Jan Hus já declaravam , nos séculos XIV e XV, que “os sacerdotes que violam os mandamentos do Senhor” estão em pecado, e que, portanto, devem ser vistos como usurpadores. No século XVI Lutero usou o mesmo argumento para romper com a Igreja.

A rebeldia do monge agostiniano migrou para o campo político. No fim de 1524 cerca de 30.000 camponeses na Alemanha meridional se recusavam a pagar imposto ao governo, dízimos ou direitos feudais. Ousaram criticar a servidão, dizendo que haviam sido “comprados e redimidos com o precioso sangue de Cristo”. Inicialmente Lutero apoiou o grupo, mas depois explicou que a liberdade que o cristão deve gozar é a espiritual: 
Abraão e os outros patriarcas não tinham escravos? [...] Um reino terreno não pode sobreviver se nele não houver uma desigualdade de pessoas, de modo que algumas sejam livres e outras presas, algumas soberanas outras súditas (Lutero, Works, IV, p. 240).
As elites latifundiárias das colônias americanas do século XVIII comportaram-se como Lutero. Usaram com toda a força ideias revolucionárias para justificar sua rebelião contra o opressor, neste caso, a Inglaterra (“qualquer um tem o direito de defender-se e de resistir ao agressor”, John Locke) e ao mesmo tempo temeram que negros e pobres interpretassem as ideias de liberdade como aplicáveis também a eles. Não deixaram, como Lutero.

Moral da história? “Quae vult rex fieri, sanctae sunt congrua legi” (vão as leis como querem os reis). Revolução legítima, só a das elites...



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

OUTUBRO, MÊS DA REFORMA: INTOLERÂNCIAS

Enquanto Lutero, Calvino, Zwínglio e outros reformadores discutiam (e até se matavam por) especulações a respeito da natureza de Cristo, da Trindade, da predestinação, do livre arbítrio, da Eucaristia e do batismo, Sebastian Castellio chamava a atenção para a necessidade da tolerância religiosa. Uma voz praticamente única num mundo religioso acostumado a punir com a morte o pecado da heresia.

Vendo como absurdo o apoio de Calvino à condenação de Serveto, Castellio escreveu em março de 1554 o tratado “De haereticis na sint persequendi?” (Os hereges devem ser perseguidos?). Não via razão para condenação dos hereges à morte uma vez que considerava que a Bíblia contém passagens difíceis, que constantemente deixam margens para dúvidas (não é o que admite 2Pe 3,16?). Insistia em colocar o caráter e o amor ao próximo acima das especulações doutrinárias.

Theodore Beza, escolhido por Calvino para elaborar uma resposta, reagiu dizendo que a tolerância religiosa é impossível para aqueles que aceitam a inspiração das Escrituras. Qualificou as vozes que se opuseram à morte dos hereges como “emissários de Satanás”. Castellio voltou à luta em “Contra libellum Calvini”. Mais tarde, em seu “De arte dubitandi” ("A arte de duvidar”), antecipou-se a Descartes, colocando a dúvida como elemento fundamental na busca da verdade.

Castellio combateu o fanatismo religioso como nenhum outro de seu tempo. Sua postura lança por terra a tese que justifica os discursos de ódio de Lutero dirigidos aos judeus e a condenação de Serveto à fogueira pelo conselho de Genebra como sendo atitude aceitável por todos naquele tempo. Com uma voz extraordinariamente dissonante, Castellio morreu na miséria aos 48 anos (1563). Calvino, em seu conhecido fanatismo, declarou que a morte prematura de seu opositor fora o resultado de uma sentença divina.

No próximo dia 31 - data em que os protestantes comemorarão 499 anos da Reforma - Castellio não pode ser esquecido.



Jones Mendonça

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

OUTUBRO: MÊS DA REFORMA (I)

Durante cerca de 1500 anos a Igreja dominou as rédeas da interpretação. No século XVI Lutero desafiou a Igreja e inaugurou o “livre exame”. A “verdade” do texto, antes una, tornou-se múltipla. São bem conhecidas as farpas trocadas entre Lutero e Zwínglio a respeito da interpretação de Mt 26,26 (“isto é o meu corpo” → simbólico ou literal?).

Herdeiros do “livre exame”, mas ainda obcecados pela precisão das definições teológicas, os protestantes logo trataram de enclausurar o livre exame nas chamadas confissões doutrinárias. A vocação protestante para o cisma, para a divisão, talvez não seja produto da ausência de um lastro, de uma autoridade única capaz de determinar a interpretação correta, mas do medo doentio das lacunas, dos espaços em branco, das incertezas.

A maldição protestante: quanto mais quer definir, mais se divide.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 28 de julho de 2016

LUTERO E SUAS 97 TESES CONTRA A ESCOLÁSTICA

Entre agosto e setembro de 1517 Lutero escreveu suas bem pouco conhecidas 97 teses contra os escolásticos (não confundir com as 95 contra as indulgências, publicadas em 31/10/1517). Nelas – principalmente as teses 37 a 53 – Lutero critica ferozmente Aristóteles (384-322 a.C.) e os teólogos escolásticos: 
41. Quase toda a “Ética de Aristóteles” é a pior inimiga da graça. Contra os escolásticos.
43. É um erro dizer que, sem Aristóteles, ninguém se torna teólogo. Contra a opinião geral.
47. Nenhuma fórmula silogística subsiste em questões divinas. Contra o cardeal Pedro d’Ailly.
49. Se uma fórmula silogística subsistisse em questões divinas, o artigo sobre a Trindade seria conhecido, em vez de ser crido.
As teses 47 e 49 revelam – com o perdão do anacronismo –  um Lutero “fideísta”, por criticar a possibilidade de uma exposição das verdades divinas em termos racionais. Em relação à tese 41 cabe uma explicação: Lutero considerava a Ética de Aristóteles (Nicomaqueia e Eudêmica) um obra pagã, uma vez que acentuava o papel das potencialidades humanas, suficientes para as virtudes. Tal conceito, usado por teólogos escolásticos como base para a ética cristã, era visto por Lutero como uma afronta a doutrina da graça.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 27 de julho de 2016

LUTERO: “ARISTÓTELES, AQUELE PALHAÇO!”

Hortus deliciarum
Diante da inquietante questão: “como alcançar a justiça diante de Deus?”, teólogos medievais foram buscar respostas na filosofia de Aristóteles (no habitus aristotélico). A solução encontrada: Deus infunde no fiel um “habitus” (hábito) sobrenatural que exige do indivíduo um esforço por torná-lo efetivo. Desse modo, quanto maior o esforço individual no exercício dos dons divinos, mais merecedor de graça será o fiel.

Isso explica a fórmula católica: "as obras cooperam com a graça". Lutero, grande crítico da teologia escolástica, chama Aristóteles de “aquele palhaço que, com sua máscara negra, enganou a igreja”. Em outro texto: “Aristóteles está para a teologia assim como as trevas estão para a luz” (97 teses contra a escolástica, tese 50). O reformador, como se vê, não tinha papas na língua. 

A imagem acima (hortus deliciarum) retrata a ascensão do cristão até Deus pela “escada das virtudes”. Se o esforço não é suficiente há uma solução: “quem cair pode retomar a escalada graças ao remédio da penitência”. A penitência e os demais sacramentos funcionavam como uma espécie tônico fortificante, capaz de infundir graça e virtude nos fiéis.  Daí a importância da missa: “domingo sem missa, semana sem graça”. Em suma: sem missa não há alegria; sem missa não há recebimento de graça, de virtudes capazes de ajudar o fiel em sua ascensão aos céus.  



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

REFORMA E ARTE CRISTÃ

A relação dos primeiros reformadores com obras de arte religiosa não foi boa. Para Karlstadt os “ídolos de óleo” seriam “invenção do demônio”. Zwinglio, querendo purificar as igrejas, baniu delas os órgãos e os corais. Lutero teve uma posição mais cautelosa: 
Os homens podem sucumbir diante do vinho e das mulheres. Vamos então proibir vinho e abolir as mulheres? O sol, a lua e as estrelas foram adorados. Vamos então arrancá-los do céu?.
Reconhecendo o valor didático das imagens, Lutero encomendou esta tela (“Lei e graça”) a seu amigo Lucas Cranach, em 1529:



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

JOHN WYCLIF: SEXO, RELIGIÃO E POLÍTICA

No século XIV, diante do desejo de não mais recolher tributos ao papa, um teólogo inglês chamado John Wyclif foi contratado pelo rei João de Gante como “peculiares regis clericus” (clérico a serviço especial do rei) a fim de preparar uma defesa contra o envio dos tributos. Com muita astúcia, Wyclif saiu-se com essa: 
O papa não pode pedir este tesouro a não ser por meio de esmolas... Uma vez que toda a caridade principia em casa, seria obra não de caridade, e sim de loucura canalizar as esmolas do reino para o exterior [nessa época o papa residia na França, inimiga da Inglaterra] quando o próprio reino está necessitado delas.
Vendo-se sem saída diante da recusa da Igreja em atender ao pedido, Wyclif recomendou a independência da Inglaterra. Sua proposta soou tão escandalosa à época que os conselheiros do rei recomendaram que não mais fizesse declarações sobre o assunto. Mas as sementes de suas ideias brotaram e fincaram raízes.

Cerca de duzentos anos depois, aproveitando-se do êxito da reforma de Lutero, um rei  levou a cabo a proposta de Wycliff. Henrique VIII confiscou os bens da igreja, casou-se de novo (ignorando recomendações do papa) e criou seu próprio clero. E foi assim que nasceu a igreja anglicana.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A HISTÓRIA POLITICAMENTE INCORRETA DA REFORMA PROTESTANTE

Zé Bobinho toma emprestada uma coleção das obras de Lutero. Pensa consigo mesmo: “o reformador deve ter linguajar e retórica magníficas, dignas de serem imitadas nos púlpitos”. Senta-se confortavelmente numa almofada e inicia sua leitura.

Com os olhos estatalados e o dedo lambuzado de saliva vai folheando páginas ao acaso. Percebe então que sob a pena de Lutero os nomes de seus desafetos vão ganhando novas formas. O teólogo católico [John] Eck se transforma em Dreck (sujeira) ou Dr Sau (porca); Muntzer é alterado para Murnarr (tolo); Cochlaeus converte-se em Rotslöffel (colher de meleca); o duque de Braunschweig é tratado como Hanswerst (palhaço); papistas como “asnos” e a igreja romana como “prostituta”.

Ainda atordoado Bobinho apanha outra obra e se depara com esta confissão do reformador: “Nunca progrido melhor na oração, pregação e redação do que quando me enfureço. De fato, a ira... aguça o espírito e caça as tentações” (WA TR 2, 455, nº 2410).

Bobinho fecha o livro perplexo após se dar conta  de que o "rapá", o "malandro" e o "funicar" de Malafaia são insignificantes perto das expressões ainda mais toscas empregadas pelo reformador alemão.




Jones F. Mendonça

terça-feira, 18 de agosto de 2015

NÃO, NÃO HAVERÁ NOVA REFORMA PROTESTANTE

Lutero no leito de morte
É um erro pensar que haverá nova Reforma protestante. Quando Lutero divulgou suas 95 teses contra as indulgências desejava corrigir crenças e práticas que percebia como equivocadas no âmbito do catolicismo popular. Não foi uma repreensão ao Papa ou à Curia romana, mas aos “sacerdotes desajuizados” (Tese 10), aos “apregoadores de indulgências” (Tese 21), aos “ludibriadores do povo” (Tese 24) e aos “bispos, padres e teólogos (Tese 80). Embora tenha uma dimensão moral, o que caracterizou a Reforma foram as críticas de cunho teológico.

Após perder a inocência, Lutero percebeu que a liderança da Igreja endossava as práticas que via como perversão da verdadeira doutrina. O monge agostiniano foi excomungado, adotado astutamente pelos príncipes e a Reforma teve êxito. E o que significa que a Reforma teve êxito? Significa que ao invés de uma igreja apenas, surgiram duas (alguns dias depois, múltiplas!). A primeira submissa ao papado. A segunda embalada pelo livre Exame das Escrituras. Ora, sendo o exame e a interpretação livres, caiu por terra qualquer tentativa de mediação entre Deus e os homens. A cada esquina e a cada segundo foram surgindo novos líderes de novas igrejas alegando agir segundo a orientação Espírito.

Quando alguém anuncia a necessidade de uma nova Reforma fico pensando: em que consiste esse apelo? Se a ideia é condenar os ensinamentos do reformador alemão é preciso lembrar que isso já foi feito no Concílio de Trento pelos católicos (1545-1563). Se a ideia é reafirmar ideias de Lutero basta que o sujeito opte por pertencer a alguma igreja luterana. Se a ideia é criar algo novo, diferente do que ensinam os católicos ou os protestantes históricos, basta que crie uma nova igreja, baseada numa nova doutrina (que tal “A igreja verdadeira”?). Mas se a opção for pela última alternativa, será preciso ter em mente que há muitos, mas muitos fazendo isso. Será apenas mais uma manjubinha no vasto oceano da cristandade.


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 29 de julho de 2015

CONTOS ETIOLÓGICOS NA BÍBLIA: A INIMIZADE MORTÍFERA EM GN 3,15

Ontem fui interrogado por um aluno a respeito do texto de Gn 3,15, o qual transcrevo abaixo em versos, tal como corretamente dispõe a Bíblia de Jerusalém:
Porei hostilidade entre ti e a mulher,
entre tua linhagem e a linhagem dela.
Ela te esmagará a cabeça
e tu lhe ferirás o calcanhar”.
A pergunta do aluno: “ora, se a descendência da mulher é Cristo, quem é a descendência da serpente?”. Bem, a tradição cristã, desde os segundo século (Irineu, em Contra as Heresias III,23,7), interpreta a inimizade entre a mulher e a serpente como anúncio do “fruto do parto de Maria”. Em suma, Jesus seria a descendência da mulher. Mas e quanto à serpente? Faz algum sentido dizer que a linhagem da serpente é o diabo? E por acaso o diabo é descendente da serpente do Éden? 

Lutero, seguindo Irineu de perto, declarou que “Cristo é o descendente dessa mulher que esmagou a cabeça do diabo, isto é, o pecado” (Prefácio do Novo Testamento, de 1522). Para não cair no absurdo de dizer que o diabo pertence à linhagem da serpente, fez uma observação no final da frase: “isto é, o pecado”. Dito de outro modo: Jesus esmagou a “cabeça” do pecado, representado pela figura do diabo, a antiga serpente. É muito malabarismo exegético para meu gosto. 

Faz muito mais sentido pensar no texto como tendo caráter etiológico, visando explicar quatro fenômenos que davam asas à imaginação dos antigos: 
1. O porquê das serpentes rastejarem (3,14), 
2. A “inimizade” entre os humanos e as serpentes (3,15), 
3. O sofrimento das mulheres durante o parto (3,16), 
4. A submissão das mulheres aos maridos (3,16), 
5. A fadiga proveniente do trabalho no solo árido da Palestina (3,17-19).
Um conto etiológico, para quem não sabe, é uma pequena historieta, criada a partir da imaginação popular, com o intuito de explicar fenômenos que suscitam a curiosidade das pessoas, tais como as estranhas colunas de sal dispostas nas margens de um grande lago (a mulher de Ló, cf. Gn 19,26), um enigmático arco colorido que se estende nos céus (um sinal divino como pacto pela não repetição do dilúvio, cf. Gn 9,13), a diversidade de idiomas (a torre de Babel, cf. Gn 11,1-9), a extrema aridez de uma determinada região (fogo e enxofre sobre Sodoma e Gomorra, cf. Gn 19,24-25) ou as inusitadas pedras amontoadas num vale (o apedrejamento de Acã, cf. Js 7,26), etc.

Contos etiológicos são comuns em diversas culturas. Você pode ler uma pequena coleção deles na seguinte obra: CAMPBELL, Joseph. As máscaras de Deus, volume I, mitologia primitiva. São Paulo: Palas Athena, 2010. 




Jones F. Mendonça

quinta-feira, 23 de julho de 2015

ANTINOMIAS CALVINISTAS

A frase foi escrita por Calvino, reformador do século XVI: 
Eu concedo mais: os ladrões e os homicidas, e os demais malfeitores, são instrumentos da divina providência, dos quais o próprio Senhor se utiliza para executar os juízos que ele mesmo determinou. Nego, no entanto, que daí se deva permitir-lhes qualquer escusa por seus maus feitos (As Institutas, Livro I, Capítulo XVII, seção 5).
Há neste pequeno trecho da maior obra de Calvino (As Institutas) uma afirmação e uma negação. A afirmação: “até os malfeitores (como estupradores, por exemplo) agem segundo os juízos determinados por Deus”. A negação: “mesmo sendo instrumentos da divina providência, Deus não deve ser responsabilizado pelos perversos atos humanos”.

Trocando em miúdos: Embora Herodes tenha mandado matar criancinhas porque Deus assim quis, a culpa é apenas de Herodes e de seus capangas. Embora Adão tenha pecado porque Deus assim quis, a culpa pelo pecado é apenas de Adão. 

E tolos são os arminianos...


Jones F. Mendonça


quarta-feira, 1 de julho de 2015

PAPAS DE PAPEL

Embora aos trancos e barrancos o cristianismo manteve certa coesão até que Lutero anunciou suas 95 teses contra as indulgências em outubro de 1517. O monge agostiniano imaginou que suas críticas seriam endossadas pelo Papa, mas acabou excomungado em janeiro de 1521 por Leão X. Mas a excomunhão era apenas o início de um processo traumático. Ao dizer que a Bíblia interpreta a si mesma (scriptura sui ipsius interpres) e que deve ser examinada livremente, o resultado é obvio: a interpretação também será livre.

Não adianta reclamar da imensa quantidade de igrejas surgidas todos os dias ao redor do planeta. Esse é o desdobramento evidente de algo que foi anunciado há quase 500 anos. É o preço da liberdade. As confissões doutrinárias protestantes – papas de papel - foram criadas com o propósito de pôr rédeas na interpretação, mas se mostraram inúteis, afinal o sola scriptura de Lutero sempre poderá ser usado por alguém disposto a questionar possíveis equívocos encontrados nessas confissões.

Só há um caminho para aqueles que se mostram indignados com a falta de unidade das igrejas evangélicas: retornem ao catolicismo. Lá todos declaram fidelidade ao Papa, visto como herdeiro das chaves de Pedro. Submetem-se ao Roma locuta causa finita (Roma falou, assunto encerrado) com alegria e bom grado. De um lado a “segurança” da infalibilidade papal. Do outro a “corda bamba” do livre exame. Na primeira você é apenas expectador. Na segunda é protagonista. A escolha é sua. 

Jones F. Mendonça

terça-feira, 23 de junho de 2015

REFORMA PROTESTANTE E PODER GOSPEL

Tente imaginar a Igreja a partir do século XII. As ideias separatistas de Pedro Valdo (1140-1217), um comerciante de Lyon, espalham-se pela Europa, gerando preocupação da liderança católica. Os seguidores de Valdo (valdenses), dotados de uma espiritualidade voltada à pobreza e simplicidade dos cultos, são duramente perseguidos pela Inquisição. Ao lado dos valdenses surgem os cátaros (ou “homens bons”), outro grupo dissidente visto como ameaça à fé cristã oficial que também sofreu com a perseguição. 

Mas o descontentamento com a espiritualidade cristã medieval deu outros frutos. Comprometidos com a igreja, mas igualmente insatisfeitos com o luxo e a ambição pelo poder da liderança romana, surgem ordens mendicantes como franciscanos, dominicanos e carmelitas. Some-se a isso uma crise do papado conhecida como “cisma papal” (1378-1414), marcada pela existência de dois papas governando a igreja simultaneamente em confronto direto: um na França (Avinhão) e outro em Roma. 

Em meio à crise aparecem dois grandes pregadores eloqüentes anunciando aos quatro ventos uma crítica feroz à Igreja: John Wyclif (Inglaterra, 1320-1384) e Jan Hus (Boêmia, 1369-1415). O primeiro morreu queimado. O segundo (protegido por gente poderosa) escapou da morte, mas teve seu corpo exumado, sendo seus restos mortais incinerados. 

Para finalizar imagine nobres em seus belos castelos, ansiosos pelo fim da influência do papado em seus negócios e de olho nas terras da Igreja. Igualmente ambiciosos e insatisfeitos com o poder da igreja e suas interferências aparecem os burgueses, comerciantes que enriqueciam com o comércio e o empréstimo de dinheiro. O palco está armado.

Doutrinas confusas, imoralidade do clero, surgimento de grupos dissidentes e ordens mendicantes, disputas pelo papado marcadas pela ambição pelo poder, ambições políticas e econômicas. Junte tudo e você entenderá o sucesso da Reforma do século XVI, cujo estopim foram as 95 teses escritas por um monge agostiniano chamado Martinho Lutero. 

Lutero ainda foi beneficiado pelo sucesso da imprensa, pelo apoio intelectual vindo de eruditos humanistas e pela chegada na Europa de textos das Escrituras no idioma original (vindas de Constantinopla, agora nas mãos dos turcos otomanos). Mas há ainda um toque final: Lutero era atormentado por uma intensa crise espiritual ligada ao modo medieval de articular a fé. 

A parte triste dessa breve história? Não há nada de novo debaixo do céu.



Jones F. Mendonça

SÉRIE ”REFORMADORES”: PEDRO VALDO E OS POBRES DE LYON

Se você quer entender o que foi a Reforma protestante precisa voltar aos séculos XII e XIII, quando um comerciante bem sucedido de Lyon chamado Pedro Valdo (1140-1217) fundou uma comunidade cristã pobre e missionária (aparentemente inspirado em Mt 19,21). Diante das críticas cada vez mais ferozes à rica e poderosa Igreja Romana, os seguidores de Pedro Valdo foram excomungados em 1184 e passaram a ser duramente perseguidos pela Inquisição ao lado dos cátaros. 

O grupo dissidente ficou conhecido como “os pobres de Lyon”, sendo mais tarde - após a morte de seu líder - batizados como “valdenses”. Também alimentando o desejo por um cristianismo mais simples, fazendo votos de pobreza e voltados à esmola e auxílio aos pobres, surgiram ordens mendicantes como franciscanos, dominicanos e carmelitas. Estes, no entanto jamais romperam com a igreja. O nascimento de grupos dissidentes como cátaros e valdenses e das ordens mendicantes fiéis à liderança romana reflete o clima de insatisfação dos fiéis com a igreja cristã oficial. Estes são alguns dos primeiros sintomas de uma doença que corroía a Igreja e que seria capaz de dividi-la de forma dramática e definitiva no século XVI.  

Além da exaltação do ideal de pobreza, os valdenses rejeitavam a hierarquia (criaram uma hierarquia eclesial própria), a eucaristia romana (negavam a transubstanciação), as orações aos santos, as indulgências, o Purgatório, a missa dos defuntos, etc. Antecipando-se em alguns séculos a Lutero, os valdenses traduziram a Bíblia para o provençal (idioma falado na França). Embora tenham sido sufocados pela Igreja, as ideias dos valdenses se espalharam pela Europa, reaparecendo, por exemplo, nos discursos de John Wyclif (1320-1384) e Jan Hus (1369-1415). 

Atualmente tem sido feitos esforços na tentativa de reaproximação entre católicos e valdenses (aqui e aqui). Em sua “cruzada” ecumênica, o Papa Francisco visitou, em 22/06/2015, um templo valdense em Turim, construído em 1853. Um vídeo mostrando o encontro histórico entre lideranças valdenses e o Papa pode ser visto aqui


Jones F. Mendonça

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

INQUISIÇÕES DE UM CRISTÃO REFORMADO

O Grande Caçador de Heresias construiu uma máquina do tempo. Foi à Palestina do primeiro século e condenou o comportamento de Jesus. O motivo: o Nazareno bebia vinho, comia com malfeitores e deixou de confrontar uma pecadora, que não só lavou seus pés com lágrimas como os secou com seus cabelos. O pecado: o escândalo. A pena: a fogueira.

O Grande Caçador de Heresias fez nova viagem. Foi à Alemanha do século XVI e reprovou o comportamento de Lutero. O motivo: o monge agostiniano convertia canções populares em hinos sacros, bebia cerveja enquanto traduzia a Bíblia para o alemão e acreditava no poder das bruxas. O pecado: o mundanismo. A pena: o caldeirão de azeite fervendo.

Tantas outras viagens fez o Grande Caçador de Heresias. Condenou, apontou o dedo, fez denúncias. Qualquer comportamento suspeito, por menor que pudesse parecer, ganhava a atenção de seus olhos sempre vigilantes. Certo dia - por um instante - tratou de cobiçar mulher que não era a sua. Lembrou-se de Mt 5,29 e, num movimento impetuoso, arrancou seus olhos com um marcador de Bíblias. Terminou a vida cego dos olhos, como sempre fora do coração.



Jones F. Mendonça

sábado, 1 de novembro de 2014

REFORMA?

Assim começou a Reforma: fim as indulgências, livre exame, rejeição às alegorias delirantes (sui ipsius interpres), busca pelos manuscritos escritos nas línguas originais (ad fontes), reforma diária e incessante (ecclesia reformata semper reformanda), etc. Então perceberam que o rebanho não precisaria mais de curral. Solução: elaborar confissões doutrinárias pétreas, manuais de interpretação bíblica para evitar “desvios”, novos dogmas infalíveis, etc.

E tudo voltou a ser como dantes no quartel de Abrantes.


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 11 de junho de 2014

PEDRO ABELARDO, O “SIC ET NON” E A TEOLOGIA CRÍTICA

Quem lê o “Sic et non” do teólogo escolástico Pedro Abelardo (1079-1142), tem a nítida noção do equívoco de se atribuir aos teólogos dos séculos XVII e XVIII a introdução da dúvida e do questionamento na reflexão teológica. Influenciado pela filosofia de Aristóteles, Abelardo dá passos significativos em direção ao que mais tarde será chamado de crítica bíblica.

Para solucionar o problema da “aparente contradição nos ditos do santos padres e das Escrituras”, Abelardo apresenta as seguintes soluções: 1) um falso documento foi atribuído de forma equivocada a algum santo (trata-se de um livro apócrifo) ou os copistas cometeram erros; 2) o texto não foi bem compreendido; 3) os erros cometidos pelos santos padres foram corrigidos em textos escritos num período posterior; 4) alguns termos não devem ser interpretados literalmente, pois apenas expressam uma opinião comumente aceita. Abaixo trechos do Sic et non [1]: 
1) Quando nos são apresentadas algumas afirmações dos santos como opostas entre si ou distantes da verdade, convém que examinemos atentamente, para não sermos enganados por falsas atribuições de obras, ou por corrupção do texto. A maior parte dos escritos apócrifos traz o nome de santos como autores, a fim de, com isso, ganhar autoridade; e alguns textos até mesmo da Bíblia foram corrompidos por erro dos copistas (p. 118); 
2) Se, pois, nos escritos dos santos, parece que algo não condiz com a verdade, então é piedoso, conforme a humildade e devido pela caridade [...], que creiamos que esta passagem do texto não foi fielmente interpretada ou foi corrompida, ou nós não a conseguimos compreender (p. 119);
 3) Julgo também que se deve dar não menos atenção ao fato de que os textos tomados dos escritos dos padres podem ser daqueles que por eles foram retratados em outro lugar, tendo sidos corrigidos após terem conhecido a verdade, tal como o fez Santo Agostinho em muitos casos (p. 119); 
4) ...nos Evangelhos constata-se que algumas coisas são ditas mais segundo a opinião dos homens que segundo a objetividade da verdade. Foi o caso, por exemplo, de Maria, mãe do Senhor, quando, segundo o costume e a opinião popular, chamou a José de pai de Cristo (Lc 2,48) (p. 121).

Abelardo finaliza: “se consta, pois, que nem mesmo os profetas e os apóstolos estiveram todos livres do erro [como o Pedro dissimulado em Gálatas], que há de admirar se em tão inúmeros escritos de santos padres haja algumas coisas erradas, devido aos motivos apontados?”.  Mas ao defender a autoridade das Escrituras e dos textos dos primeiros padres expondo explicações para “supostas contradições”, Abelardo põe em relevo questões espinhosas, abrindo precedentes perigosos para a ortodoxia.  

O método de Abelardo para a busca da verdade consiste na confrontação de textos divergentes pelo questionamento (quaestio) e pelo debate e disputa de ideias (disputatio) sob a direção do mestre, a quem cabia a conclusão: 
Depois de colocar estas questões [os pontos de 1 a 4 expostos acima], gostaríamos agora de, como nos propusemos, reunir as sentenças divergentes dos santos padres das quais nos recordamos. Esperamos que estas sentenças, devido às dissonâncias que aparentam ter, suscitem algumas perguntas que provoquem os jovens leitores ao exercício supremo de procurar a verdade, e pela procura os tornem mais sagazes. [...] É que duvidando chegamos à procura, e procurando chegamos à verdade [...] (p. 129).

O retorno às fontes (ad fontes) feito sob a direção de humanistas com Lourenzo Valla e Erasmo de Roterdã e o livre exame e o abandono da alegoria por Lutero, no período da Reforma, dá novo impulso ao surgimento de um método de interpretação bíblica desvinculado da autoridade eclesiástica e cada vez mais comprometido com a razão. Em 1678, com a publicação da História Crítica do Antigo Testamento, por Richard Simon, o uso da inteligência para encontrar o sentido objetivo da Escritura finca definitivamente suas raízes no terreno da pesquisa bíblica. A razão, agora livre das rédeas da ortodoxia, inicia sua impiedosa cavalgada. Mas em pleno século XXI o homem ainda parece preferir a certeza do dogma, que a dúvida suscitada pela razão.   

Nota:
[1] DE BONI, Luis Alberto. Filosofia medieval: textos. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2005, pp. 116-129.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 3 de junho de 2014

TEOLOGIAS: RETA DOUTRINA, PENTECOSTAL, NEOPENTECOSTAL

A fé, no protestantismo histórico, se expressa no conhecimento da doutrina, daí a expressão “protestantismo de reta doutrina” cunhada por Rubem Alves. Nesse sentido, bom cristão é quem domina com maestria as sagradas letras, quem conhece os artigos de fé, quem defende a sã doutrina contra os “filhos de Satanás”.

No pentecostalismo o bom cristão é aquele que passa pela experiência do Espírito.  O que conta mais não é o saber, mas o experimentar. A letra – gostam de dizer – mata, mas o Espírito vivifica. Só quem passou pela experiência do batismo do/no Espírito detém uma “unção especial”, tem os charismas potencializados. É “crente plus”.

Entre os neopentecostais crente mesmo é quem dá resultado. Pastor ungido é aquele que acrescenta muitas ovelhas ao rebanho. Crente bom é aquele que é fiel no dízimo, que faz faxina no templo sem cobrar, que vota no candidato do bispo. O Deus verdadeiro é aquele que “alarga as fronteiras” dos que depositam seus bens aos pés dos sacerdotes na “sala do tesouro”. 

Resumindo: Protestantismo histórico: creio porque é verdadeiro. Pentecostalismo: creio porque experimentei. Neopentecostalismo: creio porque dá resultado.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 30 de maio de 2014

ETERNO RETORNO

Lá do alto viu Paulo de Tarso atravessando mares e arriscando a vida pelo Crucificado. Conheceu Clemente Romano, Orígenes, Cipriano, Agostinho. Examinou com atenção os textos de Boécio, Anselmo, Erígena, Alberto, chamado “o Magno”. Acompanhou a igreja entusiasmada com a philosophia aristotelico-tomisticaeObservou a atuação dos guardiões da ortodoxia. A queima de hereges, o incêndio de livros, o falso zelo pela castidade, os pecados do clero.

Viu Occam escrever tratados sobre a separação entre o Estado e a Igreja. Riu dos textos sarcásticos de Erasmo contra o papa. Viu Lutero divulgar suas 95 teses contra as indulgências e leu seus textos anunciando a tão sonhada liberdade. Examinou as Institutas, as confissões doutrinárias, o catecismo da Reforma, a guerra religiosa que queimou hereges que não seguiam a cartilha protestante. Lamentou a morte de camponeses, de judeus, de huguenotes, de católicos, de Servetto. Tudo igual.

Viu nascer pietistas e puritanos zelando pela simplicidade e pureza. Batistas e presbiterianos cultivando um espírito democrático. Estava lá, quando Pentecostais, portando o fogo do Espírito, reuniram multidões num gozo celeste. Frequentou cultos neopentecostais, prometendo dinheiro no bolso e carro novo. Acompanhou o crescimento dos “sem igreja”, decepcionados com a institucionalização da fé.

Observou tudo isso sentado em seu trono celeste. Após cerca de dois mil anos viu-se abatido por um profundo tédio. Pediu a São Jerônimo uma folha de papel, uma caneta, e tratou de escrever poemas.  Multiplicou-os com seu poder e lançou-os na terra sob o estrondo de raios e trovões. Mas era tarde demais. Não conseguiam ler poesia. Foram cegados pela ortodoxia. 


Jones F. Mendonça

sábado, 24 de maio de 2014

SERVETTO, CASTELLIO, CALVINO E O "CONSELHO DOS SANTOS"

Na Europa do século XVI viveu um espanhol errante chamado Miguel de Servetto. Nome de anjo, fama de diabo, era visto como herege pelos teólogos-protestantes-de-reta-doutrina de Genebra.

Miguel cria que o Pai era um somente. Entendia que o Filho e o Espírito eram aspectos diversos de uma mesma pessoa. Rejeitava o credo Atanasiano segundo o qual "não devemos confundir as pessoas nem dividir a substância". Para piorar cismou de dizer que a Palestina é uma terra seca, aparentemente contrariando o texto que diz que por aquelas bandas o leite e o mel brotam da terra.

Calvino subiu nas tamancas: “se aparecer por aqui, não permitirei que saia vivo!” O infeliz acabou capturado e conduzido ao Conselho de Genebra, formado por um tipo de gente capaz de tudo para preservar suas doutrinas de papel.

O nome completo da vítima: Miguel de Servetto. A alcunha do algoz: Calvino. A data: 1553. O tipo de execução: as chamas. Se alguém levantou a voz contra isso? Sim, Sebastian Castellio, um herege que tinha a compaixão - mas não a "sã doutrina" - no coração.


Jones F. Mendonça