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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

E SATANÁS TROUXE... A SECULARIZAÇÃO E A REPÚBLICA!

Ao longo da história do cristianismo a figura do anticristo sempre assombrou os crentes. Nero, Juliano, o Papa, Napoleão, Hitler, George Bush e tantos outros líderes entraram na lista de suspeitos. Inspirado no sebastianismo, messianismo português fundamentado na esperança do regresso do rei D. Sebastião, Antônio Conselheiro reuniu milhares de sertanejos baianos após a proclamação da República num movimento de resistência que culminou na Guerra de Canudos. Um dos seus discursos ficou registrado nos anais da história brasileira:
“Meus irmãos, o Anticristo é chegado. [...] O ataque de Maceté constitui uma prova para nós. O meu povo é valente. O satanás trouxe a república, porém em nosso socorro vem o Infante rei D. Sebastião. Virá depois o bom Jesus separar o joio do trigo, as cabras das ovelhas. [...] Belos Montes será o campo de Jesus. [...] Os republicanos não devem ser poupados, pois são todos do Anticristo” (José ARAS, Sangue de irmãos, Salvador, Museu do Bendegó, 1953, 25 apud NOGUEIRA, Paulo Augusto de Souza. Religião de visionários: apocalíptica e misticismo no cristianismo primitivo, p. 276).
Na visão de Conselheiro o anticristo era, quem diria, a República. Além dos novos impostos decretados pelo governo republicano, o “rebelde conservador” levantou-se contra medidas secularizadoras como a separação entre a Igreja e o Estado e a introdução do casamento civil. O que Lutero fez questão de separar, Conselheiro insistiu em juntar novamente. O que Dietrich Bonhoeffer e Harvey Cox viram como uma necessidade, Conselheiro viu como uma ameaça.

A grande ironia disso tudo: o secularismo virou, na retórica evangélica, o maior dos demônios. Sob seu cetro, os "demonóides”: humanismo, racionalismo, individualismo e tantos outros “ismos”. Com o enfraquecimento do poder da Igreja surgiram alguns grupos. Há quem deseje um retorno à Idade Média, aos valores rígidos ditados pela igreja e a uma ciência sob as rédeas da fé. Outros preferem que o mundo siga o seu curso em meio aos desafios da modernidade. Há ainda os que causam alarde no povo com seus discursos escatológicos inflamados. Em suma, uns querem um retorno ao passado. Outros preferem seguir em frente apesar dos desafios. Outros preferem... bem, outros preferem fugir do mundo, sumir, "não ser".  


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

COMO CRIAR UMA ÁSPIDE


Um policial atira na perna de um rapaz acusado de seqüestro. O povo grita: "morte ao malfeitor!". A turba enfurecida esbraveja: “Direitos humanos, para quê precisamos dele?”. Nem a lei de talião era tão cruel.

Compreendo o comportamento do policial, cansado de ver bandidos levados aos tribunais escaparem do martelo da condenação. Compreendo a aprovação do povo, indignado com a impunidade. Mas compreender não significa aprovar.

A culpa, dirão alguns, é do “Sistema” (com letra maiúscula mesmo!). O Sistema seria uma espécie de força oculta, com vida própria. Uma espécie de Satã que permeia todas as esferas da nossa vida, manipulando e corrompendo nossos belos projetos para uma sociedade perfeita. 

Admito que a sociedade se desenvolva num complexo sistema de forças. Reconheço que o policial, mal pago, mal equipado, mal formado e inserido num ambiente em que reinam a crueldade e violência sem limites, seja levado a descarregar seu ressentimento no gatilho de sua arma. É, aceito. Mas não estaríamos projetando no Sistema falhas que são nossas?

Ao dizer sim a comportamentos como este, a população estará dando ao policial o poder de julgar, condenar e em alguns casos executar indivíduos sem o direito de defesa.  Hoje o tiro atinge um bandido. Amanhã um inocente. Hoje a bala perfura a carne de um delinqüente. Amanhã o peito do seu filho.

Quando isso acontecer, a mesma mão que acariciou a áspide condenará o seu bote. E a culpa será sempre do Sistema.


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 28 de junho de 2012

TUDO FLUI

Num dia é brasa viva, noutro é cinza.
Num dia é lava fumegante, noutro é rocha fria.
Num dia é paixão, noutro, indiferença, repulsa, ódio.
Num dia é coração que pulsa, noutro é pó.
Como bem disse Qohelet, a vida é um sopro.

Num dia é pó, noutro, coração que pulsa.
Num dia é ódio, repulsa, indiferença, noutro, paixão.
Num dia é rocha fria, noutro, lava fumegante.
Num dia é cinza, noutro, brasa viva.
Com bem disse Qohelet, a vida é um ciclo. 

Jones F. Mendonça

segunda-feira, 11 de junho de 2012

(QUASE) TODOS CONTRA RICARDO DE GONDIM


O juízo final, Jacob 
van Campen
A maioria dos Blogs evangélicos não fala de outra coisa: Gondim é um herege. Tudo porque o pastor resolveu defender publicamente: 1) que Deus não conhece as ações futuras das suas criaturas (uma opção voluntária do próprio Deus, com a finalidade de dar ao homem e a mulher verdadeira liberdade); 2) que a volta de Cristo (parousia) não será nas nuvens (tal descrição estaria condicionada a uma visão de mundo pré-científica, tal como defendia Rudolf Bultmann); e 3) que os não-cristãos também podem alcançar a salvação. Atenho-me hoje a declaração número um.

Os artifícios empregados por teólogos para resolver o conflito entre soberania divina e liberdade humana são muito criativos, mas todos falhos do ponto de vista lógico (nem discuto aqui versículos bíblicos, uma vez que entram em conflito entre si e, como consequência, são manipulados de acordo com as crenças de cada um). Calvino, por exemplo, dizia que até o pecado de Adão e Eva foi pré-ordenado por Deus. Ainda assim insistia em dizer que não pode ser imputada ao Criador a responsabilidade pelo pecado. Ora, faça-me o favor!

Para Armínio Deus não determina as ações humanas, mas as conhece de antemão. Fica a pergunta: se Ele (ou Ela) as conhece de antemão, já não temos um determinismo? Se a história de cada indivíduo foi escrita antes da “fundação do mundo” haverá alguém capaz de escapar dessa história escrita a ferro e a fogo? Personagens de um livro só fazem o que o autor escreveu (e se o autor da história humana não é Deus, quem é?).  

Gondim também não apresenta uma solução satisfatória para o problema. Ao dizer que Deus, num determinado momento (cronológico ou lógico, tanto faz), decidiu abrir mão de sua soberania, acaba por admitir que “antes” dessa decisão Deus era soberano e onisciente, e que, portanto, pré-determinou as ações humanas tal como defendia Calvino. O “abrir mão de sua soberania” seria mero “esquecimento” daquilo que já foi desejado e efetuado. Para ser coerente Gondim precisaria ser mais radical e defender que a soberania não é um atributo divino.

Todas as soluções apresentadas não passam de tentativas de entender o funcionamento de Deus. Tolas racionalizações humanas.  Meros discursos sobre o divino. A teologia de Gondim não é nova e nem melhor do que a de ninguém. E por que ainda fico com o pastor da Betesda? Por seu protesto, por sua coragem em desafiar o sistema, por seu lado humano. Gondim não é hipócrita, o que, em tempos modernos, já é uma grande virtude.


Jones F. Mendonça

domingo, 27 de maio de 2012

O FUNÂMBULO E O FIO DA VIDA


Eis que vejo um funâmbulo. Diante dele uma corda estendida sobre o abismo sem fim. Ao alto o céu azul. Embaixo trevas profundas. O funâmbulo hesita. Seus joelhos se dobram. Seu coração retumba. Seus poros exalam suor.

Inesperadamente o funâmbulo reage. Enquanto respira bem fundo seu corpo se ergue. Seus passos, ainda hesitantes, seguem em direção ao vale sombrio. O céu, o abismo, o fio da vida, a solidão, o vazio. O funâmbulo olha para o abismo. O abismo retribui. Com o olhar fixo no horizonte, ele vai...

Jones F. Mendonça

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O PAPA, A BÍBLIA E AS CONFISSÕES DOUTRINÁRIAS

Discussão entre um católico e um protestante sobre o cânon bíblico. Cada qual reúne seus argumentos. O católico apela para os concílios ecumênicos. O protestante para os reformadores.  Na ótica dos católicos os concílios ecumênicos expressam a vontade de Deus na terra (foi num desses concílios que Jan Hus foi declarado herege e condenado à fogueira – Constança, 1415). Os protestantes, que ingenuamente criticam a tradição dos católicos, apóiam-se também na tradição para sustentar a canonicidade dos seus livros sagrados (e pensar que Lutero rejeitou, ou pelo menos deu menor valor canônico, aos livros de Hebreus, Tiago e Apocalipse).

Com o Antigo Testamento a coisa também não é simples. Normalmente se diz que o concílio de Jâmnia, em 90 d.C., definiu os livros considerados canônicos pelos judeus. Ficaram de fora os chamados deuterocanônicos (Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc e Macabeus). Mas espere, esse é o cânon dos judeus da Palestina. Os judeus de Alexandria aceitaram tais livros como Palavra de Deus (cânon alexandrino). E o que dizer do cânon dos etíopes? Para eles até Enoque, inserido em suas Bíblias após o livro de Jó, é inspirado! E pensar que ainda existe o cânon samaritano...

A ideia de que existe um cânon universal possui um fundamento frágil. O que existe é o cânon desta ou daquela comunidade. Ou ainda, o “meu cânon”. Aliás, na prática é o que todas as denominações fazem. A leitura é sempre seletiva. Determinados textos ou são deixados de lado ou são interpretados de acordo com a vontade do líder. Neste caso temos cânons em miniatura e papas em miniatura, cada qual com sua infalibilidade ex-catedra. Complicado, não acha?

Por expor à nudez esse problema, um “protestante de reta doutrina”, diria que sou um “liberal”, “modernista”, e outros adjetivos que eles adoram. Um dos princípios dos reformadores: “igreja reformada sempre se reformando” (Ecclesia Reformada Semper reformanda), não diz respeito a uma periódica e constante reforma doutrinária, baseada em novas interpretações das Escrituras surgidas a partir de estudos recentes, mas uma reavaliação à luz das suas confissões para evitar os chamados “equívocos de interpretação”.   O documento (confissão reformada) torna-se o novo Papa, exceto se tal confissão for considerada apenas como uma referência, um horizonte. Mas há cristãos dispostos a isso?


Jones F. Mendonça

terça-feira, 12 de abril de 2011

MASSACRE EM REALENGO: DE QUEM É A CULPA?

"O grito", Edvard Munch - 1893.
Um louco entrou numa escola pública em Realengo. Foi há cinco dias. Com dois revólveres e muita munição matou doze crianças e feriu outras doze. Uma tragédia.  Queremos os culpados. São chamados psicólogos, psiquiatras, especialistas em segurança pública, educadores, juristas, políticos e até um teólogo (o assassino louco freqüentou o Salão do Reino das Testemunhas de Jeová e templos muçulmanos).

Não há dúvida, o atirador tinha problemas mentais, talvez esquizofrenia. Para piorar foi humilhado por colegas durante boa parte de sua vida. Especialistas em segurança dizem que não houve falha na abordagem do rapaz feita na portaria da escola. Ele era ex-aluno e declarou que sua intenção era buscar o histórico escolar. Muito natural.  Um político aparece na televisão insistindo na necessidade de instalação de detectores de metais nas escolas.  É preciso comprá-los sem licitação, afinal, é uma emergência, diz o preocupado representante das criancinhas. Seu cunhado, por coincidência, tem uma empresa que fabrica esses equipamentos tão úteis. Negócio fechado. Educadores refletem sobre o papel da escola na identificação de alunos com transtornos que podem levar a ações como essa. É feito um planejamento para o próximo ano. O governador aprova. Está tudo certo. Juristas são convidados a falar sobre as possíveis ligações do rapaz com grupos terroristas. É preciso investigar, diz o jurista. O delegado discorda. Para ele o conteúdo das cartas escritas pelo assassino citando nomes de muçulmanos radicais não passa de delírio. Chamem a CIA, o FBI, quem sabe eles não podem nos ajudar? Diz um vendedor a um repórter. Por fim aparece o teólogo (tem que ser da PUC). Querem saber dele se há ligação entre o que pregam as religiões praticadas pelo ex-aluno da escola e seu comportamento insano. O teólogo diz que não. Religiões pregam o bem, o amor ao próximo, a harmonia. O rapaz era louco. Ponto.

Enquanto discutimos tudo isso, as crianças que sobreviveram ao massacre e os pais e professores dos alunos que se foram estão desolados, perplexos. Não querem explicações, querem consolo, apoio, paz. Ontem (10-04-11) uma aluna apareceu num programa de TV. O repórter (acredirem!) pediu para que ela descrevesse para os telespectadores como foi a ação do atirador na sua classe. Ela disse que ele entrou na sala de aula, bem arrumado e com uma maleta. Inesperadamente apanhou um revolver e atirou na testa de sua amiga. Enquanto narrava essa cena macabra, a aluna tremia, chorava, não sabia o que fazer. Um horror! Perdoem-me os jornalistas, você tem um trabalho a fazer, reconheço, mas isso não é coisa que se faça.

Bem, agora não é hora de buscar culpados. Os alunos e o assassino já estão mortos. Ao que parece não houve falha dos professores, dos funcionários da escola, da polícia, dos bombeiros, da religião. Foi uma fatalidade. No momento precisamos pensar em como fazer professores e alunos traumatizados voltarem a sua vida normal. A escola deve ser demolida ou reformada visando reduzir o trauma? Os professores e alunos devem ser transferidos? Eles precisam de ajuda psicológica? Como anda dona Maria, mãe da pequena Joana que tão jovem deu seu último suspiro?

A ferida está aberta. Por hora empenhemo-nos tão somente na tarefa de fechá-la. Efatá!

Jones Mendonça

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

UM HERMES CONFUSO?

Quem possui autoridade para interpretar a Bíblia? A igreja Católica apoiada pelo Magistério? A própria Bíblia (Scriptura sui ipsius interpres)? As confissões doutrinárias? A experiência pessoal?

Num texto inquietante, o Prof. Dr. Osvaldo Luiz Ribeiro nos faz refletir a respeito desse agudo problema.

Para ler o texto, clique aqui

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O SANGUE DA INOCÊNCIA E O SANGUE DA CULPA

Imagem: Mihai Ignat/Romênia
 04 de novembro de 2010
Por Jones Mendonça

Um dos dogmas fundamentais da fé cristã é a de que Jesus, por amor, verteu o seu sangue pelos pecadores.  Nos três primeiros séculos, durante perseguições ocasionais aos cristãos, sob o aval de imperadores romanos como Nero e Domiciano, muitos seguidores do Cristo foram martirizados por causa de suas crenças religiosas.

Com a conversão do imperador Constantino, em 312, e mais tarde com o Edito de Teodósio, em 380, a situação se inverteu. O cristianismo se tornou a religião oficial do império. Lamentavelmente e ironicamente, desta vez seriam os cristãos os algozes, que em nome da fé, perseguiriam e matariam com requintes de crueldade todos aqueles que se opusessem aos seus dogmas religiosos. Por toda a Idade Média, muito sangue “pagão” foi derramado em nome de um homem que só pregava a paz, a justiça e a fraternidade. Com o surgimento do protestantismo a situação não mudou. Disputas religiosas violentas eclodiram na Alemanha, na França, na Escócia, nos Estados Unidos e em tantos outros lugares. Por um longo período a história do cristianismo foi escrita com sangue.

Essa é uma história que começa com o sangue da inocência, se desenvolve com o sangue da culpa e termina... bem, o fim da história só depende de nós. 

domingo, 26 de setembro de 2010

O PNDH-3, O ABORTO E A IGREJA

Por Jones Mendonça

Tem ganhado grande repercussão na mídia evangélica o discurso do pastor Paschoal Piragine criticando o PT num vídeo postado no YouTube. O motivo das críticas é o conteúdo do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), que dentre outras coisas promove a descriminalização do aborto. Veja o que diz um pequeno trecho:
g) Apoiar a aprovação do projeto de lei que descriminaliza o aborto, considerando a autonomia das mulheres para decidir sobre seus corpos.
Recomendação: Recomenda-se ao Poder Legislativo a adequação do Código Penal para a descriminalização do aborto[1].
Após uma breve introdução, o referido pastor apresenta um vídeo condenando uma série de propostas presentes na PNDH-3. Dentre as imagens aparecem crianças indígenas sendo enterradas vivas por causa de um antigo tabu. Apesar das imagens chocarem qualquer pessoa que tenha um mínimo de sensibilidade, o PNDH-3 nada versa sobre o assunto (aliás, discussão sobre o “infanticídio” indígena é mais complexa do que se imagina). Ainda que eu não concorde com o texto do projeto que dispõe sobre o aborto fiquei pensando: como um pastor que diz lutar contra a estatização da iniquidade apresenta imagens que distorcem a verdade e confundem os fiéis? O vídeo induz a demonização do PT. É desonesto. É mentiroso. É iníquo!

A igreja tem o dever de esclarecer as pessoas. Manipulá-las jamais!

Informe-se sobre o PNDH-3 clicando nos links abaixo:





Nota:
[1] Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3) / Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República - - ed. rev. - - Brasília: SEDH/PR, 2010, p. 91.http://portal.mj.gov.br/sedh/pndh3/pndh3.pdf

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O ÓDIO ENTRE ÁRABES E JUDEUS


 Muitos conhecem a famosa frase dita pelo presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad: “Israel deve ser varrido do mapa”. Se você acha uma frase como essa um absurdo eu diria que concordo com você. Mas o ódio não tem raça, nacionalidade ou religião. Leia esta outra frase:
“[Os palestinos] são bestas caminhando sobre dois pés.”
Ela foi dita pelo Primeiro-ministro israelense Menachem Begin, num discurso no Knesset, citado em Amnon Kapeliouk, "Begin e os Bichos", New Statesman, em 25 de junho de 1982.

Como se vê, a intolerância e o racismo andam tropeçando nas praças (tanto nas dos israelenses como nas dos palestinos). O amor é cego, o ódio também.

Outras frases racistas e preconceituosas ditas contra os palestinos podem ser lidas aqui e aqui.

A imagem acima foi baseada numa tela do pintor surrealista belga René Magrite intitulada: “Les amants” (Os amantes). Desconheço o autor dessa adaptação. Para ver a tela original, clique aqui.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA E A QUEIMA DE LIVROS

Por Jones Mendonça

Não é nenhuma novidade que cristãos são perseguidos em países muçulmanos. Bíblias e igrejas são queimadas e pessoas são presas ou até mesmo mortas por causa da fé que professam. Mas a intolerância religiosa não é coisa exclusiva dos muçulmanos como muitos gostam de enfatizar.

Em 20 de maio de 2008  judeus ortodoxos queimaram o Novo Testamento e panfletos evangelísticos em Or Yehuda, no centro de Jerusalém. O episódio foi noticiado pelo jornal israelense Haaretz. O vice-prefeito da cidade (acreditem!) participou do evento.

Em 05 de maio de 1933, seguindo orientação de um memorando despachado por Joseph Goebbels, responsável pela propaganda nazista, os estudantes da Universidade de Colônia foram à Biblioteca e queimaram todos os livros de autores judeus.  

Recentemente o Pastor protestante Terry Jones, da Dove World Outreach Center, declarou que vai queimar o Alcorão no dia 11 de setembro. Sua atitude pode desencadear uma série de ataques contra cristãos em países islâmicos.

O que dizer diante disso tudo?

Expresso minha indignação citando a célebre frase do poeta alemão de origem judaica, Heinrich Heine:
“Onde livros são queimados, seres humanos também o serão”.
Sobre a destruição de livros ao longo da história, vale ler:

BÁEZ, Fernando; SCHLAFMAN. História universal da destruição de livros: das tábuas sumérias à guerra do Iraque. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.

CANFORA, Luciano. Livro e liberdade. Rio de Janeiro: Casa da Palavra: São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

Imagem: Desertpeace

terça-feira, 10 de agosto de 2010

A REVISTA ÉPOCA E OS NOVOS EVANGÉLICOS

Por Jones Mendonça

Li hoje a matéria de capa da revista Época tratando sobre o que tem sido chamado de “nova reforma protestante”. A matéria expõe aquilo que já circula no submundo dos blogs apologéticos evangélicos há um bom tempo. Mas o termo “nova reforma protestante” é um exagero e tanto, já que nenhuma inovação teológica foi proposta por esses grupos. Fala-se muito em retorno ao cristianismo primitivo, mas isso já era feito desde os primeiros séculos do cristianismo, quando a igreja começou a se institucionalizar, principalmente após ter passado a ser a religião oficial do império romano, sob o governo de Teodósio I, em 380 d.C.[1].  Pregaram a mesma coisa Arnaldo de Brescia, Francisco de Assis, Bernardo de Claraval, São Domingos e Wesley. Mas com Lutero foi diferente. Ele não renovou a igreja, rompeu-a. A teologia da graça, o repúdio à autoridade papal e a ênfase nas Escrituras como única regra de fé foram inovações radicais que tornaram impossível a reconciliação entre protestantes e católicos. Falar em “nova reforma” é falar em novo rompimento e não é isso o que está acontecendo.

Lutero não questionou apenas a ética, mas os dogmas da Igreja. Ainda que a matéria diga que a igreja brasileira atravesse um tempo em que “ritos, doutrinas, tradições, dogmas [grifo nosso], jargões e hierarquias”[2]  estejam passando por um processo de revisão, eu não acho que seja bem isso. A última vez que a igreja evangélica se reuniu para elaborar dogmas cristãos irrevogáveis foi em 1895, em Niágara. Nenhum dos cinco pontos fundamentais apresentados pela reunião de Niágara foi questionado até agora pelos líderes citados na matéria (nem mesmo pelos mais liberais). O que existe são reinterpretações, como já fazia a neo-ortodoxia de Karl Barth em relação à teologia de Lutero e Calvino.

Apesar de não considerar os “novos evangélicos” como “novos reformadores”, creio que essa renovação (mas não reforma) é válida e necessária. No texto publicado pela revista Época o pastor Ricardo Agreste, referindo-se a necessidade de renovação, diz o seguinte: “O risco [...] é passar a vida oferecendo respostas a perguntas que ninguém mais faz”.  O brilhante teólogo existencialista Paul Tillich já dizia mais ou menos isso há cerca de meio século: “ser humano significa receber respostas à pergunta do próprio ser e formular perguntas sob o impacto das respostas”[3]. Hoje as perguntas são outras. Não podemos continuar com as mesmas respostas.

Apesar da ênfase que a Época deu aos movimentos evangélicos alternativos, é preciso ter cautela.  Pensar que novas formas de articular a fé cristã representam uma solução definitiva para os problemas enfrentados pelo cristianismo contemporâneo é uma postura inocente que demonstra total desconhecimento da história da Igreja. Precisamos ser “metamorfoses ambulantes”, como já dizia o “herege” Raul Seixas. Mas sair por aí destruindo dogmas e abandonando templos só por achar que fazem parte de uma realidade ultrapassada é uma ingenuidade sem precedentes.

Lutemos pela renovação e contextualização do evangelho, mas sem abandonar a lucidez!

Notas:
[1] Código Teodosiano XVI 1 2. 
[2] REVISTA ÉPOCA. Os novos evangélicos,  09 de agosto de 2010, p. 86.
[3] TILLICH, Paul. Teologia sistemática, p. 76.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

JESUS, A PECADORA E OS NEOFARISEUS

Por Jones Mendonça

De acordo com uma notícia divulgada pelo Estadão, o governo do Irã sinalizou estar disposto a aceitar a oferta feita pelo presidente Lula de receber a iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani. Ela foi acusada de adultério e condenada à morte por lapidação (apedrejamento), pena oficializada em 1983 no Código Penal do Irã.
Os comentários sobre essa notícia feitos por leitores de jornais de grande circulação são os mais diversos. Há que ache que tomando essa postura o Brasil se coloca como “privada do mundo”. Para outros, Lula tem reafirmado sua imagem de “capacho de ditadores”. Acho que as pessoas que tem uma opinião assim carecem de uma reflexão mais profunda e imparcial.
Bem intencionado ou não o governo brasileiro pode contribuir de forma significativa para pôr fim às sentenças de morte por apedrejamento no Irã, já que Lula é visto com simpatia pelo governo iraniano. Infelizmente em época de eleição muitos políticos (inclusive Lula) tem se aproveitado dessa situação para fazer propaganda política. Os opositores do governo acusam Lula de omissão. Outros o acusam de demagogo. Enfim, nessa história há muitos lobos e poucos cordeiros.

Espero que o desfecho do drama dessa mulher seja semelhante ao da adúltera citada no capítulo oitavo do evangelho de João. A adúltera de João foi absolvida por um argumento inteligente de alguém que realmente se preocupava com as pessoas. O advogado da mulher não era um político, mas um homem simples conhecido como Jesus de Nazaré. A diferença entre os dois casos é que hoje a absolvição da “pecadora” está nas mãos dos políticos, mais preocupados com sua projeção pessoal do que com o sofrimento alheio. Ironicamente, ao contrário do que aconteceu há dois mil anos atrás, a salvação da mulher iraniana está nas mãos dos fariseus do nosso tempo.

Ashtiani tem 43 anos e é mãe de dois filhos. Oremos por ela.

Imagem:
MARCONI, Rocco
Cristo e a mulher adúltera
c. 1525
Óleo sobre tela, 131 x 197 centímetros
Gallerie dell'Accademia, Veneza

quarta-feira, 30 de junho de 2010

O ANALFABETO POLÍTICO

“O pior analfabeto
é o analfabeto político.
ele não ouve, não fala, não participa
dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo da vida,
o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato, do remédio
depende das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro
que se orgulha e estufa o peito
dizendo que odeia a política.
Não sabe o imbecil
que da sua ignorância política
nascem a prostituta, o menor abandonado,
o assaltante e o pior de todos os bandidos,
que é o político vigarista, pilantra, corrupto
e lacaio das empresas nacionais e
multinacionais”[1].

[1] Fiz uma tradução livre do espanhol. Bertold Brecht, “O analfabeto político” apud ARRATA, Alfredo Vera. Política. Quito: Editorial El Conejo, 2005, p.130.

EM BUSCA DE UTOPIAS: DOS HEBREUS AOS RACIONALISTAS DO SÉCULO XIX

Por Jones Mendonça

A idéia de um mundo utópico, onde não há dor, pranto ou fome, foi tematizada de forma poética pelo profetismo israelita:
“A criança de peito brincará sobre a toca da áspide, e a desmamada meterá a sua mão na cova do basilisco” (Is 11,8).
A figura do “bom selvagem”, homem e mulher sem mácula vivendo numa sociedade perfeita, foi idealizada pelo rousseaunismo[1] e mais tarde pelos romantistas. Tal concepção já se fazia notar de forma embrionária na época das grandes navegações, quando os europeus tiveram contato com os indígenas.  François Laplantine destaca três episódios:

Américo Vespúcio na América:
“As pessoas estão nuas, são bonitas, de pele escura, de corpo elegante... Nenhum possui qualquer coisa que seja, pois tudo é colocado em comum. E os homens tomam por mulheres aquelas que lhes agradam, sejam elas sua mãe, sua irmã, ou sua amiga, entre as quais eles não fazem diferença... Eles vivem cinqüenta anos. E não tem governo”[2].
Cristóvão Colombo no Caribe:
Eles são muito mansos e ignorantes do que é o mal, eles não sabem se matar uns aos outros (...) Eu não penso que haja no mundo homens melhores, como também não há terra melhor”[3].
Os Jesuítas entre os Hurons, tribo nativa dos EUA e Canadá:
“Eles são afáveis, liberais, moderados... Todos os nossos padres que freqüentaram os Selvagens consideram que a vida se passa mais docemente entre eles do que entre nós”[4].
No Brasil, a utopia do reino milenar era cultivada entre os Tupinanbás:
“[a] Terra sem Mal, núcleo da mitologia tupi-guarani [...] exprimia a expectativa do encontro de um lugar de extrema abundância, felicidade e eterna juventude, morada dos ancestrais e dos espíritos corajosos, onde todos viveriam a redenção das provações e se tornariam homens deuses”[5].
Mas ao contrário do que prega a religião cristã, o paraíso dos índios parecia ser aqui mesmo neste mundo infra-celeste. Moreau vê evidências de que: “a Terra sem Mal se situava num espaço real, que podia ser atingido em vida”[6].

No século XIX muitos imaginavam poder descrever todo o universo como se descreve um relógio de corda. Tendo a razão como guia, pensavam os otimistas racionalistas, levaremos todos os homens à liberdade, igualdade e fraternidade. Secularizaram a utopia judaico-cristã!

Nietzsche, geralmente lembrado apenas como crítico da religião, debochou do cientificismo moderno. Para ele, o idealismo, fosse ele religioso ou científico, era um indício da decadência. Suas idéias deixaram a humanidade sem horizonte... sem utopias.

Leonardo Boff, teólogo católico brasileiro perseguido pelo Vaticano por pregar uma Igreja menos hierárquica e voltada para os pobres, vê grande valor nas utopias:
“A utopia deslanchará sempre energias novas para transformações que se acercam dela e, ao mesmo tempo, permitem que se relativize toda conquista para que a história não se congele reacionariamente, mas se mantenha aberta a novos avanços e outras aproximações da utopia”[7].
Confesso que tenho cá minhas utopias. Mas não permito que se dogmatizem. Enfim, acho útil e desejável que o homem, individualmente ou coletivamente, seja capaz de “in-ventar”, des-inventar” e “re-inventar” suas  próprias utopias.

Notas:
[1] Movimento baseado nas idéias de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Sua ênfase no naturalismo levou Voltaire a dizer: “ler sua obra me faz querer andar de quatro patas”. Notas ao discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, in Escritos de combate, páginas 636 (ed. Francesa, pág. 1379) apud COBO, Rosa. Fundamentos del patriarcado moderno: Jean Jacques Rousseau. Madrid:  Ediciones Cátedra, 1995, p.50.
[2] LAPLANTINE, François. Aprender antropologia. Tradução de Marie-Agnès Chauvel. São Paulo: Brasiliense, 2003, p.32.
[3] Id. ibid.
[4] Id. ibid. p.33.
[5]HERMANN, Jacqueline. 1580-1600: o sonho da salvação. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 78.
[6] MOREAU, Felipe Eduardo. Os índios nas cartas de Nóbrega e Anchieta. São Paulo: Annablume, 2003, p. 136.
[7] BOFF, Leonardo; BETO, Frei. Mística e espiritualidade. Rio de Janeiro: Garamond, 2005, p. 50.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

FRASES CLÁSSICAS SOBRE DEUS: TILLICH, BUBER, JUNG E SARAMAGO

Filósofo e teólogo cristão, Paul Tillich foi um dos pensadores cristãos  mais influentes do século XX. Por suas posições anti-nazistas teve que migrar para os Estados Unidos em 1933. Sua frase sobre Deus é um tanto filosófica:
“Deus é o fundo do ser [...] toda a afirmação concreta sobre Deus deve ser simbólica, pois uma afirmação concreta é aquela que usa um segmento da experiência finita para dizer algo sobre Deus”[1].
[1] TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. São Leopoldo: Sinodal, 2005, pp.245, 246.
Judeu de origem austríaca, o filósofo, escritor e pedagogo Martin Buber fez uma interessante crítica ao uso leviano do nome de Deus:
“Deus é a mais incômoda de todas as palavras humanas. Nenhuma foi tão banalizada, tão mutilada [...]. As gerações dos homens rasgaram a palavra com seus partidarismos religiosos; por ela mataram e foram mortos; ela traz as marcas dos dedos e do sangue de todos [...]. Os homens desenham caricaturas e escrevem embaixo: ‘Deus’; assassinam-se uns aos outros e exclamam: ‘em nome de Deus’” [2].
[2] BUBER, Martin. El eclipse de Dios, Nueva Visión, Buenos Aires, 1970, pp. 13-14 apud GONZÁLEZ, Luiz; SANTABÁRBARA, Carvajal. Notícias de Deus pai! São Paulo: Loyola, 1999, p.11.
Uma declaração surpreendente foi feita por Carl Jung em 1961, pouco antes de morrer a John Freeman, da BBC de Londres. Quando perguntado se acreditava em Deus, disse o seguinte:
“Não preciso acreditar, eu sei”[3].
[3] BRYANT,  Christopher. Jung e o cristianismo. São Paulo: Loyola, 1996, p.11.
Na minha opinião a frase mais bela é a do escritor português José Saramago. Lembro que o Nobel de literatura se declarava ateu:
“Dios es el silencio del Universo, y el ser humano el grito que da sentido a ese silencio”[4].
Deus é o silêncio do Universo, e o ser humano o grito que dá sentido a esse silêncio”[4].
[4] ORTIZ-OSÉS, Andrés; LANCEROS, Patxi. Diccionario de la existência: assuntos relevantes de la vida humana. Barcelona: Anthropos Editorial; México: Centro Regional de Investigaciones Multidisciplinarias. UNAM,  2006, p.172.
Filósofos, místicos, apologistas e ateus, todos tem uma opinião sobre Deus. E você, o que diria sobre Ele?

Imagem: Capa do polêmico livro de Saramago: “O Evangelho segundo Jesus Cristo”.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

JOSÉ DATRINO, O PROFETA DA GENTILEZA E DA TERNURA

Por Jones Mendonça

Cabelos, barba e túnicas brancos, bordão e placas coloridas nas mãos, assim peregrinava pelo Brasil José Datrino[1] (1917-1996). Era um José como tantos outros, tinha família, emprego e esperança por dias melhores. Mas como que seduzido pelo Espírito Divino e condenado ao escárnio[2] recebeu a espinhosa missão de proclamar o amor, a gentileza e a fraternidade aos homens. Da suas boca saía uma mensagem cheia de ternura e graça: Gentileza gera gentileza!. O impacto de suas palavra fizeram com que ficasse conhecido como “Profeta Gentileza”.

O fim de sua vida como homem comum se deu no dia 17 de dezembro de 1966, quando ocorreu um grande incêndio num circo norte-americano em Niterói. Tal infortúnio abalou profundamente José Datrino, que entre o meio dia e uma hora da tarde, enquanto entregava mercadorias com seu caminhão, recebeu o chamado divino. Às vésperas do Natal, comprou duas pipas de vinho de cem litros, foi à Niterói, e lá começou a distribuí-lo em copos de papel: “quem quiser tomar vinho não precisa pagar nada, é só pedir por gentileza... é só dizer agradecido”. O profeta tinha uma linguagem própria. Ele dizia: “Não diga obrigado, diga agradecido”, e “não diga por favor, diga por gentileza”.

Mas o comportamento inusitado do profeta não parou por aí. Durante quatro anos instalou-se no local do incêndio, cercou-o e transformou-o num jardim cheio de flores. Na entrada vinha escrito: “Bem-vindo ao Paraíso do Gentileza. Entre, não fume, não diga palavras obscenas, porque tornou-se agora um campo santo”. Como todo profeta que se preze, Gentileza também idealizou seu paraíso terrestre, arquétipo do paraíso celeste.

Em 1980 uma nova marca do profeta surgiu.  Inscreveu suas frases nas 55 pilastras do viaduto do Caju, no Rio de Janeiro. Ele gostava de culpar as desgraças do mundo pelo que chamava de “capeta-capital”.  Leonardo Guelman, autor do livro “Univvverrsso Gentileza”, diz que “é no capeta-capital, neologismo criado por ele [José Datrino], que se encontra ‘a origem dos  males’ e a verdadeira oposição à gentileza. O individualismo, a lógica da competição e a ética de ‘levar vantagem em tudo’ tornam-se regras desse contexto”[3]

O Escritor, jornalista e professor de literatura brasileira, Edmilson Caminha entrevistou-o em 98 no estúdio da Rádio Educativa do Piauí. Quando perguntado a respeito de sua maneira insólita de escrever, dobrando letras e  enxertando números, respondeu: “Sou eu que não sei escrever ou as pessoas que não sabem ler?”[4]. Leonardo Boff, teólogo brasileiro e um dos maiores expoentes da Teologia da Libertação, explica o motivo da repetição de letras: “Essa simbologia arquetípica aparece claramente nas mensagens do profeta Gentileza. O universo, por exemplo, vem escrito assim ‘Univvverrsso’ para significar a atuação as três divinas pessoas (vvv) em particular o Filho (rr) e o Espírito Santo (ss)”[5].  Outra curiosidade do Profeta Gentileza é que quando se referia ao amor divino, grafava “amorrr”, mas o amor mundano, ligado às coisas materiais, grafava com um r só.

Um homem com comportamentos tão bizarros certamente despertava nas pessoas os mais diversos sentimentos. Para alguns um louco, para outros um verdadeiro profeta. Aos que o consideravam louco respondia: “maluco para te amar, louco para te salvar”. Ou: “seja maluco como eu, mas seja maluco beleza, da natureza, das coisas divinas”. O ministério profético de Gentileza terminou no dia 28 de maio de 1996, aos 79 anos de idade. Sua vida expirou, mas sua mensagem continua nos falando através das coloridas e curiosas mensagens estampadas nos cinzentos viadutos da cidade do Rio de Janeiro.

Referências bibliográficas:
VIANNA, Beto (ed.). Biologia da libertação: ciência, diversidade e responsabilidade. Belo Horizonte: Mazza edições, 2008.
CAMINHA, Edmílson. Lutar com palavras. Brasília: Thesaurus, 2001, p. 293.
BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do ser humano – compaixão pela terra. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.

Imagem:
Capa do livro “Univvverrsso Gentileza”
Leonardo Guelman
Ed. Mundo das Idéias
336 pags. Pb e cor
Notas: 
[1] Leonardo Boff grafa seu nome como José da Trino.
[2] O mesmo ocorreu com Jeremias, o profeta bíblico: “Seduziste-me, ó Senhor, e deixei-me seduzir; mais forte foste do que eu, e prevaleceste; sirvo de escárnio o dia todo; cada um deles zomba de mim” (Jr 20,7).
[3] Disponível em:<http://www.riocomgentileza.com.br/sinopse.html>. Acesso em 26 de maio de 2010.
[4] CAMINHA, Edmílson. Lutar com palavras. Brasília: Thesaurus, 2001, p. 293.
[5] BOFF, Leonardo. Saber cuidar. 1999, p. 182.