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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

QUANDO O SOL ABRAÇAR O SHEOL

Daqui a cinco bilhões de anos o combustível do sol vai se exaurir. O astro rei irá se tornar uma gigante vermelha e engolirá os planetas mais próximos. A terra se converterá num pavio fumegante. Depois da exuberante expansão - seu último suspiro - o sol irá se contrair até se tornar uma opaca e densa anã branca. A terra, agora sem lastro, vagará seca e morta pelo infinito vazio.

GIGANTE VERMELHA
Horizonte em mil sóis,
Lavas rubras flertando indóceis o último quinhão da energia
Fogo ardente em convulsão, réquiem da agonia.
É o sol deitando em seu esquife, para não sorrir jamais.



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

FUNDAMENTALISMO [PROVOCAÇÕES]

Fé cega, razão manca, obra estéril, coração cadáver.
Extremismo que desintegra a alma, a humanidade.
Piedade muda, sensibilidade surda.
Certeza de cristal sob o manto de um discurso ardente.
Diatribe oco levado pelo vento da ignorância...



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A MÁSCARA DO PALHAÇO

Lá vai João, perdido em sonhos sob a tenda encantada.
Lá vai Funâmbulo, caminhando faceiro sobre o fio estendido.
Lá vai Faquista, dispensando setas com muita atenção.
Lá vai Palhaço, rindo aos montes da sua própria desgraça.

Querer sonhar,
Querer enfrentar,
Querer superar.
Querer disfarçar as dores e ocultar as mazelas com a face enfeitada.

Pobre Palhaço!


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 31 de julho de 2013

CAMBULHADA DA FÉ

Liturgia convoca os fiéis. Karisma grita aleluia. Ortopraxis faz caridade. Doxa acende uma vela. Teofania usa um véu. Sacramento eleva o cálice. Metanoia se dissolve em lágrimas.

Hamartia lava as mãos numa bacia. Escatologia olha para o céu. Heresia faz preces a um santo torto. Apologética torce o nariz. Dogma franze a testa. Excomunhão faz ameaça. Inquisição põe-se de pé.

Cisma discute com Ecclesia. Dialética faz perguntas. Homilia prepara um esboço. Teodiceia cria alvoroço. Exegese consulta um livro. Sistemática procura Doutrina. Antinomia provoca Teologia. Cúria entra em polvorosa.

Piedade reza um terço. Ladainha acompanha Beata. Devoção faz o sinal da cruz. Koinonia abraça Filia. Encarnação segura um crucifixo. Katarsis entre em êxtase.

Divina, no dorso de um querubim, apenas sorri.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 2 de julho de 2013

PERPÉTUO DEVIR

Ponta de lança, escudo feroz, cheiro de guerra no ar.
Dentes risonhos, taças de vinho, tempo de paz no reino de luz.
Mar bravio, velas sem rumo, Netuno que agita o abismo sem fim.
Espelho d’água, lago sereno, dorso da noite sob o luar.

Flechas que mancham.
Salpicos da vide.
Reino de nobres, guerreiros, servos, bufões, donzelas de delicada tez,
todos a rir e a chorar ante o inexorável e difuso fluxo do devir.


Jones F. Mendonça


quinta-feira, 30 de maio de 2013

O PALÁCIO ASSOMBRADO [ALLAN POE]

Em “A queda da casa de Usher”, Allan Poe expõe com muita maestria todo o seu talento para escrever histórias extraordinárias. Há no meio do conto um poema. Não é um texto que eu aconselharia a alguém em estado depressivo.  O livro, com uma coleção de contos, foi um presente de minha tia Lucia ao meu irmão mais velho (agosto de 1984). Hoje ele mora em outra cidade e o livro permanece em minha estante. Eis o poema:

O PALÁCIO ASSOMBRADO

I

No mais verde de nossos vales,
habitado por anjos bons,
antigamente um belo e imponente palácio
- uma palácio radiante – se erguia.
Nos domínios do rei Pensamento,
lá se achava ele!
Jamais serafim espalmou a asa
sobre um edifício só metade tão belo.

II

Estandartes amarelos, gloriosos, dourados,
sobre o seu telhado ondulavam, flutuavam.
(Isso, tudo isso, aconteceu há muito,
muitíssimo tempo.)
E em casa brisa suave que soprava,
naqueles doces dias,
ao longo dos muros pálidos e empenachados,
se elevava um aroma alado.

III

Caminhantes que passavam por esse vale feliz
viam, através de duas janelas iluminadas,
espíritos que se moviam musicalmente
ao som de um alaúde bem afinado,
em torno de um trono onde, sentado,
(Porfirogênito!)
com majestade digna de sua glória,
aparecia o senhor do reino.

IV

E toda refulgente de pérolas e rubis,
era a linda porta do palácio,
através da qual passava, passava e passava,
a refulgir sem cessar,
uma turba de ecos cuja grata missão
era apenas cantar,
com vozes de inexcedível beleza,
o talento e o saber de seu rei.

V

Mas seres maus, trajados de luto,
assaltaram o alto trono do monarca;
(ah, lamentemo-nos, visto nunca mais a alvorada
despontará sobre ele, o desolado!)
e, em torno de sua mansão, a glória,
que, rubra, florescia,
não passa, agora, de uma história quase esquecida
dos velhos tempos já sepultados.

VI

E agora os caminhantes, nesse vale,
através das janelas de luz avermelhadas, vêem
grandes vultos que se movem fantasticamente
ao som de desafinada melodia;
enquanto isso, qual rio rápido e medonho,
através da porta descorada,
odiosa turba se precipita sem cessar,
rindo – mas sem sorrir jamais.




quinta-feira, 28 de junho de 2012

TUDO FLUI

Num dia é brasa viva, noutro é cinza.
Num dia é lava fumegante, noutro é rocha fria.
Num dia é paixão, noutro, indiferença, repulsa, ódio.
Num dia é coração que pulsa, noutro é pó.
Como bem disse Qohelet, a vida é um sopro.

Num dia é pó, noutro, coração que pulsa.
Num dia é ódio, repulsa, indiferença, noutro, paixão.
Num dia é rocha fria, noutro, lava fumegante.
Num dia é cinza, noutro, brasa viva.
Com bem disse Qohelet, a vida é um ciclo. 

Jones F. Mendonça

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O AMOR E A DOR, A ORDEM E O CAOS

O canal fechado HBO está transmitindo o incrível documentário francês "A terra vista de cima" (vu du ciel), apresentado pelo fotógrafo Yann Arthus-Bertrand. Dia desses assisti a um episódio que mostrava a dificuldade que alguns ambientalistas estavam encontrando para reinserir ursos numa reserva florestal francesa. Os ursos dão grandes prejuízos aos criadores de ovelhas da região, por isso eles fizeram um protesto lançando sangue nas paredes do prédio da prefeitura. Era preciso resolver o impasse: ou os ursos ou as ovelhas. Os líderes do protesto tinham bons argumentos para recusar os ursos, mas eles também não merecem viver? A natureza nos traz muitos problemas (animais ferozes, bactérias, insetos, tempestades, vulcões), mas será que a solução está na eliminação desses incovenientes ou precisamos aprender a conviver com eles? Como reflexão, dois poemas. O primeiro de Lou Salomé. O segundo de Carlos Drummond de Andrade. 



Sei que tens de visitar tudo o que há sobre a terra,
Onde nada é imune à tua passagem: 
E seria bela a vida sem ti.    
Mesmo assim – também tu [a dor] mereces ser vivida[1].

Amar solenemente as palmas do deserto.        
O que é entrega ou adoração expectante,                                               
E amar o inóspito, o áspero,                                                                           
Um vaso sem flor, um chão de ferro,                                                      
E o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina[2].



Notas:
[1]Halevy, Daniel. Nietzsche, uma biografia, p. 215.
[2] CAMILO, Wagner. Drummond: da rosa do povo à rosa das trevas, p. 230. 

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

CONSELHO DE DRUMMOND PARA QUEM NÃO TEM NAMORADO

“...ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim.”
Se funciona, não sei. Mas que o poema é bonito pra mais de metro, ah, é!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

UM BELO POEMA...

APOCALIPSE MÍNIMO

Bem-aventurado quem lê e ouve as palavras desta alegria

Porque o tempo está próximo.

Ouvi por detrás de mim uma pequena voz como de assovio,

e que dizia:

o que vês, e ouves, escreve-o em uma melodia e envia-o.

E eu vi um gafanhoto que dizia

que todas as coisas grandes serão substituídas

por todas as coisas pequenas:

O infinito pelo grão;

A eternidade, por um triz;

A piedade, pelas coisas;

A verdade, pelas palavras;

O amor, pela graça;

O pecado, pelo capricho;

A história, pela gesta;

A certeza, pelo sim

Eu sou o que é, o que era e o que há de vir: a letra e o

som, a colméia e a teia, a brecha e a raiz [1].

[1] JAFFE, Noemi. Todas as coisas pequenas. São Paulo: Hedra, 2005.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

DEFININDO “TEOLOGIA”. POETICAMENTE...

Teologia é um jeito de falar sobre o corpo.

O corpo dos sacrificados.

São os corpos que pronunciam o nome sagrado:

Deus...

A teologia é um poema do corpo,

o corpo orando,

o corpo dizendo as suas esperanças,

falando sobre o seu medo de morrer,

sua ânsia de imortalidade,

apontando para utopias,

espadas transformadas em arados,

lanças fundidas em podadeiras...

Por meio dessa fala

os corpos se dão as mãos,

se fundem num abraço de amor,

e se sustentam para resistir e para caminhar[1].

Nota:

[1] ALVES, Rubem. Variações sobre a vida e a morte. São Paulo: Loyola, 2005, p. 12 e 13.