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quinta-feira, 28 de agosto de 2014

ATLAS HISTÓRICO DA BÍBLIA [E-BOOK]

Coisa rara é encontrar um bom livro de geografia bíblica que apresente a narrativa dos dois Testamentos sem a ingenuidade típica de grande parte que tem sido publicado. Fuçando aqui e ali me deparei com a obra “Atlas histórico de la Biblia” de José Ochoa. O autor, que é doutor em filosofia clássica e documentarista, produziu um volume para o Antigo e outro para o Novo Testamento. Neles você vai encontrar trechos de documentos produzidos pelos povos vizinhos, descobertas arqueológicas, gráficos e – óbvio - muitos mapas. A forma como Ochoa expõe sua obra é bem expressa na introdução:
Los libros de la Biblia sólo en parte pueden ser considerados fuente histórica, ya que el principal objetivo de sus textos es rememorar las intervenciones de Yahvé, el dios de Israel, durante aproximadamente un milenio. En este atlas histórico no nos vamos a ocupar del carácter de libro revelado de la Biblia, sino de los hechos históricos que en ella se pueden rastrear y de las evidencias que obtenemos de las culturas que compartieron los pueblos del Próximo Oriente Antiguo.
Gostou? Então baixe os dois volumes na página do autor (em PDF, espanhol).



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 4 de abril de 2014

O NASCIMENTO DE JESUS NUMA CAVERNA: JUSTINO, PROTO-EV TIAGO E ORÍGENES

Neste semestre estou lecionando teologia patrística. Como o Blog também funciona para mim como uma espécie arquivo, irei postando aos poucos alguns textos do período patrístico que considero relevantes para a compreensão do cristianismo ortodoxo e movimentos tidos como heréticos. No post de hoje três registros que situam o nascimento de Jesus numa gruta. Todos os três documentos são do segundo século:

Justino, em “Diálogo com Trifão”:
uma vez que José não encontrou um alojamento naquela aldeia [Belém], tomou como aposento uma determinada caverna que havia por perto; e enquanto eles estavam ali Maria deu à luz ao Cristo e colocou-o numa manjedoura. E foi neste lugar que os Magos que vieram da Arábia o encontraram (Dial., 78).

Orígenes escrevendo sua defesa do cristianismo contra o cético Celso: 
No que diz respeito ao nascimento de Jesus em Belém, [...] para ter a evidência adicional de outras fontes [além dos profetas e dos Evangelhos], que ele saiba [referindo-se a Celso] que em conformidade com a narrativa do Evangelho sobre o seu nascimento, é mostrada em Belém a caverna onde ele nasceu, e a manjedoura na gruta onde ele estava envolto em cueiros. E esta visão é muito conhecida na região. Mesmo entre os inimigos da fé é dito que nesta caverna nasceu Jesus, que é adorado e venerado pelos cristãos (Contra Cels., 1,51).

Proto-evangelho de Tiago (também conhecido como “Nascimento de Maria: revelação de Tiago”): 
José descobriu uma gruta por perto e introduziu Maria. Deixou seu filho com ela, indo ele mesmo à procura de uma parteira hebréia da região de Belém [...]. Quando chegaram à gruta [José e a parteira que ele encontrou], pararam, e eis que uma nuvem luminosa a encobria. [...] De repente, a nuvem retirou-se da gruta e dentro dela brilhou uma luz [...] que começou a dissipar-se até aparecer o menino para tomar os seios de sua mãe (Protev 18.1; 19,2).

É também neste último escrito que Maria é apresentada como virgem antes, durante e depois do parto (o dogma da Imaculada Conceição só foi definido em 1854). Após a parteira anunciar que uma criança havia nascido de uma virgem, a incrédula Salomé, como Tomé, duvida e põe o dedo na “natureza” de Maria. Assim que constata o milagre Salomé tem sua mão afetada por um castigo divino que é curado assim que pega o menino nos braços (Cf. Protev., 20).

Um trecho bem curioso nesse evangelho sugere que o autor acreditava que anjos podem engravidar mulheres humanas (inspirado em Gn 6?).  Mas este é um tema para o próximo post.


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O JESUS E O DAVI HISTÓRICO

Gerd Theissen, no prefácio de “O Jesus histórico: uma manual” (que acabo de adquirir):
A ciência não diz “foi assim”, mas “poderia ter sido assim com base nas fontes”. [...] A ciência nunca diz “é assim”, mas “assim se nos apresentam as coisas no estado atual das pesquisas” – e isto significa: “no estado de nossos acertos e erros”. [...] A ciência não diz “este é o nosso resultado”, mas “este é o nosso resultado com base em determinados métodos” (THEISSEN, 2002, p. 13,14). 
Com o Antigo Testamento não é diferente. Durante muito tempo os arqueólogos duvidaram da existência de Davi. Não questionavam a existência do personagem israelita simplesmente porque queriam implicar com os religiosos, mas porque a declaração de sua historicidade não estava fundamentada em evidências. Quando em 1993/94 a estela de Tel Dan foi descoberta no norte de Israel (lia-se nela: “byt Dvd” = casa de Davi), restaram poucas dúvidas de que um indivíduo israelita chamado Davi de fato existiu e foi importante o suficiente para fundar uma “casa de Davi”.

Mas a estela não diz que ele foi um rei que governou todo o Israel como uma monarquia unificada (até o momento as evidências apontam em outra direção). Nem que matou Golias ou que teve atritos com um filho chamado Absalão ou que participou de uma série de outras aventuras narradas na Bíblia. A ciência porá em cheque todas essas narrativas. Fará isso não porque deseja implicar com os religiosos, mas porque “assim se nos apresentam as coisas no estado atual das pesquisas” – e isto significa: “no estado de nossos acertos e erros”.

Amanhã, quem sabe, novas descobertas poderão mudar completamente o que sabemos sobre o Antigo Israel no período do Bronze recente. Tais descobertas poderão depor a favor da historicidade de determinadas narrativas bíblicas. Mas também poderão depor contra, afinal, como nos diz Theissen: “nosso resultado [é baseado] em determinados métodos”. Se as evidências, examinadas sob determinados métodos, apontam para o sul, não há porque seguir para o norte. A menos que se coloque a ciência sob o cabresto da fé. Neste caso não poderá ser chamada de ciência.  Será mero instrumento do dogma.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

NATAL

Ano zero, início do calendário cristão: Herodes, pastores, magos do Oriente, presentes inauditos, estrela no céu, manjedoura na terra. Nasce Jesus, o belemita, da estirpe de Davi. Jesus rei asceta que a tradição consagrou.

Terra de gentios, homem de Nazaré no tempo do Augusto César. Peregrino na Galileia, confins de Zabulom e Naftali. Discípulo do João que batiza nas águas barrentas do Jordão. Que anuncia um reino terreno sem templo, sem sacerdotes e sem o servilismo imperial. Jesus da história que a igreja apagou.

Jesus da bênção, Jesus das sandálias desbotadas.  Jesus do céu, Jesus da terra. Jesus do kerigma, Jesus da história. Jesus de todos nós.


Jones F. Mendonça


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O NOVO TESTAMENTO DE ERASMO NA BIBLIOTECA NACIONAL

André Fonseca, meu aluno, dá aula de inglês no centro do Rio. Entre um aula e outra acabou dando um pulinho na Biblioteca Nacional. Examinou três edições do Novo Testamento grego de Erasmo de Roterdã: 1516, 1527 e 1543 (sim, a Biblioteca Nacional possui esses exemplares e podem ser manipulados por você!). 

Algumas de suas observações podem ser lidas aqui


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

AS FESTAS JUDAICAS NO EVANGELHO DE JOÃO

"e era inverno" (Jo 10,22). Foto: YNet

Jo 5,1  Depois disso havia uma festa dos judeus; e Jesus subiu a Jerusalém (Pentecostes? Purim? Trombetas?).

Jo 6,4  Ora, a páscoa, a festa dos judeus, estava próxima (mês de nisan=mar/abr).

Jo 7,2  Ora, estava próxima a festa dos judeus, a dos tabernáculos (mês de tishri=set/out).

Jo 10,22  Celebrava-se então em Jerusalém a festa da dedicação (Hanukkah). E era inverno (mês de kislev=nov/dez).

Jo 19,14  Ora, era a preparação da páscoa, e cerca da hora sexta. E disse aos judeus: Eis o vosso rei (mês de nisan=mar/abr).

Mais sobre as festas judaicas aqui e aqui.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

JESUS, HUMANISTA ANTES DO HUMANISMO

Pouco antes de divulgar suas 95 teses contra as indulgências, em 31 de outubro de 1517, Lutero escreveu 97 teses contra a escolástica. Em sua tese 50 o reformador alemão chegou a dizer que “Aristóteles está para a teologia como as trevas estão para a luz’. Mas o fantasma do filósofo grego desprezado pelo reformador não iria deixar seus continuadores em paz.

Foi-se Lutero, foi-se Zwínglio, foi-se Calvino e algumas lacunas deixadas pelos reformadores logo passaram a ser alvo da investigação minuciosa da ortodoxia luterana e calvinista. A lógica de Aristóteles voltava à cena com trajes de gala e cabelo engomado.

No âmbito calvinista, por exemplo surgiram discussões tão proveitosas quanto a natureza sexual dos anjos. Os teólogos reformados não conseguiam dormir pensando em qual teria sido a ordem lógica dos decretos de Deus. Os supralapsarianos (supra = antes + lapso = queda) entendiam que o decreto da predestinação ocorrera antes da queda. Para os infralapsarianos (infra = abaixo, depois) o decreto da predestinação deve se situar depois da queda. Coisa muito útil.

Entre os luteranos a coisa descambou para outro lado. As conclusões de Galileu a favor do heliocentrismo, por exemplo, deixaram Valentin Ernst Löscher com uma baita dor de cabeça. Ele defendeu que o que se chama “escolástica luterana”, propondo uma reformulação da metafísica de Aristóteles. Löscher achava que as observações feitas por meio dos telescópios não eram confiáveis, afinal foram feitas pelos olhos de um pecador (!). Lessing deu boas risadas desse argumento. Houve ainda uma certa obsessão por confissões doutrinárias. Sobraram discussões a respeito da ceia, da união hipostática e da predestinação.  

Século XXI e de modo geral os protestantes continuam obcecados por doutrina. E pensar que mesmo o Jesus do kerigma, aquele anunciado por seus seguidores nas linhas dos evangelhos, não se mostrava preocupado com formulações teológicas sofisticadas e rígidas. Em uma de suas falas enfatizou que não se deve colocar a doutrina acima do homem: “o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado”. Foi humanista antes do humanismo. Mataram-no.



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

APARIÇÃO DO JESUS RESSURRETO EM LUCAS: ENTRE PÃES E PEIXES

Mulheres no túmulo, de
Benozzo Gazzoli (1440-41)
Tenho me debruçado sobre os relatos da aparição do Jesus ressurreto nos Evangelhos, outros livros do Novo Testamento (Atos e 1 Coríntios) e no Evangelho de Pedro. Quem faz uma leitura vertical dos Evangelhos percebe harmonia entre os relatos. Quem faz uma leitura horizontal percebe desarmonia. Não tenho a pretensão de fazer um trabalho exegético, mas irei postando aos poucos minhas impressões a respeito do tema.

Quero começar com o Evangelho de Lucas. Nele Jesus aparece primeiro a dois homens que caminham em direção a Emaús e não às mulheres, como nos evangelhos de Mateus (mulheres; 28,8-9), João (Maria Madalena; 20,14) e Marcos (Maria Madalena; 16,9).

Outra diferença é que as aparições ocorrem em Jerusalém e seus arredores e não na Galileia, como Mateus (28,16-17), Marcos (16,7) e João, que parece unir as duas tradições (Jo 20 – Jerusalém; Jo 21 – Galileia). Segue um resumo do relato em ordem cronológica (primeiro bloco: túmulo vazio; segundo bloco: aparição): 
O túmulo vazio: mulheres > Pedro
1. No primeiro dia da sema na algumas mulheres vão ao sepulcro e não encontram o corpo de Jesus (Lc 24,1-3). Dois “varões resplandecentes” dizem às mulheres que Jesus ressurgiu (Lc 24,6);

2. As mulheres retornam do sepulcro e dão a notícia do túmulo vazio “aos onze” [Judas não está mais entre eles] e a “todos os demais” (24,9). Todos pensam que as mulheres estão delirando e não lhes dão crédito (24,11). Pedro, no entanto, corre ao sepulcro e também encontra o túmulo vazio (24, 12);

Aparição: dois homens > Pedro> os Onze e os demais
3. Jesus aparece a dois dos homens que seguem para a aldeia de Emaús discutindo os últimos acontecimentos (24,13). Eles só se dão conta de que se trata de Jesus no momento em que se sentam juntos à mesa e repartem o pão (24,30). Jesus desaparece.

4. Os dois voltam a Jerusalém e encontram “os onze e os que estavam com eles“. Esse grupo diz aos dois que Pedro também havia visto Jesus (24,33-34). Uma nova aparição ocorre enquanto os dois anunciam que haviam visto Jesus. O grupo pensa estar diante de “algum espírito” (24,36). Jesus come com eles e relembra suas antigas palavras a respeito de sua ressurreição. O entendimento de todos se abre. Jesus os abençoa e é elevado aos céus (24,43-45); 
Percebem o túmulo vazio: “algumas mulheres” e Pedro.
Ordem das aparições: “dois homens”, Pedro, “os onze” e “os que estavam com eles”.
Local das aparições: Caminho de Emaús e Jerusalém (não se fala em Galileia, como em Mt, Mc e Jo).

Esquema do contato com o Jesus ressurreto: aparição > dúvida > lembrança das antigas palavras de Jesus > refeição comunitária > abertura do entendimento > desaparecimento de Jesus.

Fato curioso: tanto os “dois homens” como “os onze” e os “demais” só reconhecem Jesus após comerem com ele: dois homens/pão (24,30-31); os “onze” e os “demais”/peixe (24,43-45).  Coincidência?


Jones F. Mendonça

terça-feira, 24 de setembro de 2013

SBL LIBERA NOVO TEXTO CRÍTICO DO NT PARA DOWNLOAD

Seguem informações publicadas no site da SBL: 
A SBL grego do Novo Testamento (SBLGNT) é uma nova edição do Novo Testamento grego, criado com a ajuda de edições anteriores. Em particular, quatro edições do Novo Testamento grego foram utilizadas como recurso primário no processo de criação do SBLGNT.

O SBLGNT é editado por Michael W. Holmes, que utilizou uma grande variedade de edições impressas, todos os grandes aparatos críticos, e os mais recentes recursos técnicos e descobertas de manuscritos. O resultado é um texto criticamente editado que difere do texto crítico de Nestle-Aland/United em mais de 540 pontos.
Faça o download aqui:



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

FUNDAMENTALISMO III

O sujeito ouvir dizer que sexo anal é pecado. Diz que a informação veio de Neura Ypiroka, uma palestrante especialista em “batalha espiritual”. A jovem senhora teria dito que o mau uso do orifício permite a entrada de demônios. O texto usado para justificar a condenação seria 1Co 6,9:
“Não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem os devassos [...], nem os sodomitas...” (ARA).
Explico ao rapaz que “sodomita” é a tradução da palavra grega “arsenokoitais”, junção de arseno (homem) e koites (leito, cama). O termo só reaparece em 1Tm 3,10, provavelmente indicando algum tipo de conduta sexual considerada inaceitável pelo apóstolo Paulo. Não há certeza quanto ao sentido exato da palavra: homossexualismo? Adultério? Algum outro tipo de sexo ilícito? Explico-lhe ainda que não estou defendendo nem condenando a prática, mas apenas indicando que tal leitura é equivocada.

O sujeito dá um sorriso no canto da boca. Abre um dicionário Aurélio, desses de bolso, e diz: “Está aqui” – e aponta com o dedo - “sodomia: coito anal”. Finaliza chamando-me de pervertido (!).

Eu mereço!


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

JOÃO BATISTA, JESUS, JORDÃO E TRADIÇÃO

Amplie com um clique
O Evangelho de Marcos registra que Jesus veio da Galileia “e foi batizado por João no Jordão” (Mc 1,9). O quarto Evangelho, buscando maior precisão (?), situa o local do batismo em Betânia (não pode ser mesma Betânia de Lázaro, cf. Mc 11,1; Jo 11,18), do “outro lado do Jordão” (Jo 1,28), portanto, na margem jordaniana do rio (próximo ao Mar Morto, em Qasr Al-Yahud), e não em Israel.

Mas há quem prefira localizar o batismo do “homem de Nazaré” bem ao norte, numa bela região arborizada próximo ao Mar da Galileia (em Yardenit). As águas do Jordão nessa região não são tão turvas e contaminadas como em Qasr Al-Yahud (em 2012 Israel proibiu batismos no local por causa da contaminação da água). Como o que conta não é o valor histórico (ou pelo menos escriturístico), mas o efeito psicológico que o lugar exerce sobre o fiel, Yardenit desperta maior interesse no turista.

Faça uma visita on-line (360º) em Yardenit aqui (clique em Jordan River, numa das imagens que aparecem na margem direita).




Jones F. Mendonça

sábado, 31 de agosto de 2013

O DEUS EXILADO: BREVE HISTÓRIA DE UMA HERESIA

Um pouco mais sobre a comunidade de seguidores de João Batista (mandeanos ou sabeus) pode ser encontrado no livro "O Deus exilado: breve história de uma heresia", escrito pela historiadora da USP, Marília Fiorillo. Também vale conferir uma entrevista concedida pela autora ao programa Millenium - Globo News. 


sexta-feira, 30 de agosto de 2013

JOÃO BATISTA E OS MANDEANOS NO "THE BIBLE AND INTERPRETATION"

Aos interessados no cristianismo primitivo, gnosticismo e movimentos sectários do primeiro século, vale conferir o artigo escrito por James F. McGrath no The Bible and Interpretation (ago/2013): "Revisitando o mandeísmo e o Novo Testamento". 

Os mandeanos (de mandeu=conhecimento, citados no Corão como sabianos) constituem um grupo religioso formado - ao que parece - por herdeiros dos antigos seguidores de João Batista. Reverenciam o Batista como o grande profeta e rejeitam Jesus, tido como usurpador do movimento legítimo. Grupos de mandeanos podem ser encontrados em algumas regiões do Irã e do Iraque.  


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

GADARA, GERASA, OS PORCOS E A LEGIO FRETENSIS

LXF=Legio X Fretensis
Evangelho de Marcos, capítulo 5, verso 1: Jesus atravessa o Mar da Galileia e chega à terra dos gerasenos (Gerasa). Mateus, capítulo 8, verso 28: Jesus navega pelo Mar da Galileia e desembarca na terra dos gadarenos (Gadara). Mas Gerasa (Marcos= 50Km a sudeste do Mar da Galileia) e Gadara (Mateus= a 12Km do mesmo lago) são cidades diferentes. Ambas são citadas por Plínio como pertencendo a uma liga de dez cidades romanas (Decápolis) fundadas em 64 a.C.

Diante da dificuldade quanto à distância que teria que ser percorrida pelos dois mil porcos até se precipitarem no mar, surgiram várias soluções: a) Orígenes sugeriu a cidade de Gersesa (sem nenhum fundamento), b) porcos endemoniados têm força sobrenatural (!), c) pouco importa, pois o relato não possui caráter histórico, mas consiste numa espécie de midrash do capítulo 14 do Êxodo (a exegese rabínica via sentidos velados no texto da Tanak). Quanto a esta última posição, vale comparar Êxodo com Marcos:
Ex 14,28 As águas, tornando, cobriram os carros e os cavaleiros, todo o exército de Faraó, que atrás deles havia entrado no mar; não ficou nem sequer um deles.


Mc 5,13 Saindo, então, os espíritos imundos, entraram nos porcos; e precipitou-se a manada, que era de uns dois mil, pelo despenhadeiro no mar, onde todos se afogaram.
O paralelo seria o seguinte: no Êxodo as tropas de Faraó foram destruídas pelo mar sob a liderança de Moisés. Marcos estaria insinuando que tropas romanas (legião) também seriam destruídas pelas águas, agora sob a liderança de Jesus (na parousia?), entendido como uma espécie de Messias político. A tese parece ganhar força quando vem à tona um importante detalhe: A Legio fretensis (legião romana), cujo símbolo era um javali (porco selvagem), estava situada na Síria desde o ano 6 d.C. (também usavam o javali como símbolo a Legio I Italica; XX Valeria-Vitrix e II Adiuntrix). Com a revolta judaica em Jerusalém na década de 60 d.C. a legião foi deslocada da Síria para a capital religiosa dos judeus (participou do cerco/destruição e passou a vigiar suas ruínas da cidade).

Caso esta seja a interpretação correta, a passagem jamais deveria ser utilizada para legitimizar atividades missionárias em terras estrangeiras, como geralmente se faz (tanto Gadara como Gerasa são cidades gentílicas e Jesus teria operado milagres em alguma delas). O texto seria uma crítica à ocupação das tropas romanas, instaladas no local desde 63 a.C. sob a liderança de Pompeu. Mas mesmo que esta última interpretação seja tomada como certa, fica a pergunta: por que Marcos escolheu uma cidade tão longe do mar da Galileia (Mt parece querer aproximar)? Mesmo que o relato não seja histórico seria de se esperar certa preocupação com os aspectos geográficos da região. Ou o autor do segundo Evangelho não conhecia bem a região da Galileia? 

O tema merece uma investigação melhor.


Jones F. Mendonça

Em tempo: Flávio Souza Cruz, do Ad Cummulus, acabou lendo meu texto e sugeriu uma resposta ao problema da distância entre Gadara/Gerasa ao "mar". Estou convencido de que ele matou a charada. Leia aqui um texto seu escrito em 2008. 

quinta-feira, 16 de maio de 2013

GEZA VERMES NO JEWISH DAILY FORWARD

Breve biografia do estudioso bíblico húngaro Geza Vermes (falecido em 08/05/13)  aqui

Para o estudioso judeu, Jesus foi  uma "pessoa totalmente judaica, com idéias totalmente judaicas, cuja religião era totalmente judaica e cuja cultura, objetivos e  aspirações poderiam ser entendidas apenas no âmbito do judaísmo”.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 8 de maio de 2013

MORRE GEZA VERMES (1924-2013)

Acabo de saber da morte (câncer) de Geza Vermes pelo Blog Paleojudaica, mantido por Jim Davila. Vermes é uma autoridade notável nos Manuscritos do Mar Morto e uma das vozes mais importantes na investigação do Jesus histórico. Dentre os vários livros escritos pelo estudioso judeu de origem  húngara, estão: "Jesus e o Judaísmo", "O autêntico Evangelho de Jesus", "Jesus, o judeu" e "As várias faces de Jesus". 

Geza Vermes no Numinosum: aqui, aqui e aqui

Leia mais aqui 

Jones F. Mendonça 

quinta-feira, 28 de março de 2013

EXPLORANDO A RESSURREIÇÃO DE JESUS NO BIBLE HISTORY DAILY

O Bible History Daily está disponibilizando gratuitamente para download o e-book "Easter: exploring the resurrection of Jesus". A apresentação dos temas abordados no e-book, com seus respectivos autores, segue conforme abaixo:

1. Sara Murphy - Introduction
2. Hershel Shanks - Emmaus: Where Christ Appeared
3. N. T. Wright - The Resurrection of Resurrection
4. Marcus J. Borg - Thinking about Easter
5. Michael W. Holmes - To Be Continued…

Para baixar o e-book você precisa se cadastrar no site do Bible Hirtory Daily


Jones F. Mendonça


terça-feira, 26 de março de 2013

O MESSIAS RÉGIO E O MESSIAS SACERDOTAL

Após a morte do davidida Zorobabel (neto de Jeconias, tido como o “anel de selar” em Ag 2.23) a figura do sacerdote foi ganhando cada vez mais proeminência. Sua não coroação e a conseqüente não concretização do tempo escatológico parece ter impulsionado um retoque no texto original de Zc 6,9-14, que substitui o descendente de Davi por Josué, o sacerdote. Nesse ambiente de expectativa escatológica frustrada surgiu a crença em dois messias. O primeiro viria de uma linhagem sacerdotal (messias de Aarão). O segundo seria um descendente de Davi (messias davídico).

Numa refeição comum mencionada em 1QSa 2,11-22 fica evidente a esperança de dois messias. Aliás, o texto deixa claro que o sacerdote desempenha um papel superior ao do messias davídico:
E [quando eles] estiverem juntos [à mes]a [ou para beber o vinho no]vo e (quando) a mesa estiver preparada e [o] vinho novo for [misturado] para beber, [nin]guém deverá [estender] a mão para as primícias do pão e [o vinho novo] antes do sacerdote; pois [ele é quem vai ab]ençoar as primícias do pão e o vinho nov[o e estenderá] a mão para o pão primeiro. Depois di[sso], o Messias de Israel [estender]á a mão para o pão (FITZMYER, 1997, p. 89).
Algumas diferenças entre o TM (texto massorético – séc. X d.C.) e os MMM (Manuscritos do Mar Morto – séc. I a.C.) parecem sugerir que o profeta Malaquias (Ml 3,1-2) também alimentava a expectativa por dois messias: o adonai e o mensageiro. Compare:

Há quem pense (Cf. TABOR, 2006, p. 165) que essa esperança, mantida viva pela comunidade de Qumran, teria sido lançada sobre a figura de João Batista (apresentado como sacerdote da tribo de Levi) e Jesus (tido como descendente de Davi da tribo de Judá). A separação entre as duas figuras (João – “movimento judaico” x Jesus – “movimento cristão”) teria sido feita mais tarde pela comunidade cristã.

Ao que aparece a tradição de um messias sacerdote deixou marcas bem visíveis no livro de Hebreus, que declara que Jesus é sacerdote da linhagem de Melquisedeque, ou seja, é sacerdote por unção divina direta e não por linhagem, da mesma forma que o rei-sacerdote jebuseu. Diz-nos ainda o autor de Hebreus: “sem derramamento de sangue não há remissão” (Hb 9,22). Jesus é visto como o cordeiro que entrega sua vida num sacrifício substitutivo. Mas a ideia de que Jesus tinha que morrer traz muitos problemas. Anselmo de Cantuária que o diga. 

Nas teologias sistemáticas o tema escatologia é apresentado como se houvesse coesão entre os diversos textos. Surgem, por exemplo, “modelos escatológicos”, como o amilenismo, pré-milenismo e pós-milenismo. Em minha opinião faz mais sentido pensar que a esperança messiânica foi sendo moldada de acordo com o contexto no qual estava inserida a população israelita. Então o que sobra? Só a esperança. Nada mais.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

PAULO, AS MULHERES E O COPISTA SEXISTA


São Paulo, de Marco Zoppo (1468)
Em sua primeira carta aos coríntios (ou segunda, cf. 1Co 5,9), a partir do capítulo XII, Paulo deixa orientações acerca de alguns problemas que estavam impedindo a comunhão da igreja local.

No capítulo XII ele trata sobre os dons (ou carismas, como gostam os católicos). Em seguida, no XIII, enfatiza a superioridade do amor sobre os dons. No XIV o “apóstolo dos gentios” destaca a superioridade da profecia sobre as línguas (glossolalia). Quando sua carta chega ao verso 33, parte “b”, deste último capítulo, algo estranho acontece. Leia:

33b Como em todas as congregações dos santos, 34 permaneçam as mulheres em silêncio nas igrejas, pois não lhes é permitido falar; antes permaneçam em submissão, como diz a lei. 35 Se quiserem aprender alguma coisa, que perguntem a seus maridos em casa; pois é vergonhoso uma mulher falar na igreja.

Há neste trecho uma interrupção na sequência temática que chama a atenção do leitor mais atento. O tema do capítulo é “profecia x línguas”, mas inesperadamente Paulo começa a falar sobre o comportamento das mulheres nas ecclesias (“não lhes é permitido falar”, v. 34). Mas não é só isso. Caso a recomendação presente no texto seja levada a sério (“perguntem a seus maridos”, v. 35), como ficariam as mulheres solteiras e viúvas? Outro detalhe. A expressão “como diz a lei” parece supor que a Torá ensine o silêncio das mulheres num culto público, mas tal orientação não existe! Além do mais Paulo tinha o costume de citar o texto ao qual fazia alusão. O trecho torna-se ainda mais estranho quando confrontado com o verso 5 do capítulo 11: “Mas toda mulher que ora ou profetiza...”. Ora, como poderiam profetizar nas eclesias se não lhes era permitido falar?

Alguns códices latinos e gregos, entendendo ser este trecho um adendo, puseram-no no final do capítulo, depois do verso 40, como um apêndice. Os versos 33b; 34 e 35 teriam sido inseridos por um copista, preocupado em enfatizar que as mulheres não deviam ter função pública na igreja (o mesmo teria sido feito com Júnia, a “apóstola eminente”, transformada em homem em Rm 16). A tese do "copista sexista" é defendida por Barth Ehrman e Gottfried Brakemeier.

Jones F. Mendonça 

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

PARA COMPREENDER OS EVANGELHOS [LIVROS]


Como estou de férias no STBC tenho aproveitado meu tempo para reler e arrumar alguns livros que fui adquirindo ao longo dos anos.  Pensei que seria uma ótima oportunidade para indicar algumas obras que considero essenciais para a compreensão do Antigo Testamento, do Novo Testamento e do cristianismo primitivo. Hoje farei alguns comentários a respeito de duas obras:
JEREMIAS, Joachim. Jerusalém no tempo de Jesus: pesquisa de história econômico-social no período neotestamentário. São Paulo: Paulus, 1983, 518 páginas.


SAULNIER, Christian; ROLLAND, Bernard. A Palestina no tempo de Jesus. São Paulo: Edições Paulinas, 1983, 98 páginas.
O alemão Joachim Jeremias, autor do primeiro livro, escreveu outras duas famosas obras: “As parábolas de Jesus” e “Teologia do Novo Testamento”. Em “Jerusalém no tempo de Jesus”, o autor faz uma minuciosa investigação na tentativa de reconstruir a Jerusalém no primeiro terço do primeiro século. Dentre os vários temas abordados no livro estão: profissões, comércio, movimento de estrangeiros, classes sociais, direitos, etc. Um tema particularmente interessante da obra é o dedicado às classes sociais e ao papel que cada indivíduo desempenhava na sociedade da época: escravos, mulheres, publicanos, anciãos, fariseus, saduceus, sacerdotes, escribas, etc. As informações prestadas ao leitor vêm acompanhadas de fontes documentais antigas e comentários (algumas notas chegam a tomar metade da página). Regras de conduta em relação às mulheres ainda em uso hoje por judeus ortodoxos são mais bem compreendidas quando lemos o conselho dado por Yose ben Yhanan (cerca de 150 a.C.): “Não converse muito com uma mulher [isso vale] no caso da tua mulher e mais ainda em relação à mulher do próximo”(p. 474). 

O segundo livro consiste numa espécie de versão resumida da primeira obra (Joachim Jeremias é inclusive citado). Se por um lado o livro perde para o primeiro na quantidade de documentos apresentados no rodapé, ganha por conter gráficos, mapas, plantas, e assuntos chave que despertarão maior interesse dois leitores que estão em busca de informações mais essenciais. Na página 80 há um quadro contendo sete espécies de fariseus citadas no Talmude (os fariseus faziam chacota de si mesmo). O legalismo e a hipocrisia, comportamentos tão criticados pelo Jesus dos Evangelhos, mostra-se evidente em pelo menos cinco dos sete tipos de fariseus. São eles: “de costa larga” (escrevem suas boas ações nas costas), “vagarosos” (retardam o salário dos empregados em nome de um preceito urgente), “calculadores” (acumulam méritos a fim de pagar pecados cometidos), “econômicos” (buscam acumular méritos com pequenas boas ações), “escrupulosos” (buscam com afinco os pecados ocultos a fim de compensá-los com boas ações), e finalmente os “do amor”, que agem como Abraão.

Tenho as duas obras em papel, mas não é difícil encontrá-las digitalizadas em sites como o 4shared, esnips, calameo, etc. 

Jones F. Mendonça