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terça-feira, 9 de abril de 2019

A "CASA DE DAVI" NA ESTELA DE TEL DAN


Em 1993 um grupo de arqueólogos descobriu na região de Tel Dan (norte de Israel) uma estela que celebra a vitória do rei de Damasco sobre a “Casa de Davi”. O artefato – datado para o século VIII a.C. – seria a primeira evidência extrabíblica da existência do rei Davi. Bem, ocorre que o hebraico não possuía vogais, por isso a tradução geralmente não é fácil. Na inscrição aparecem as seguintes consoantes: BYT DVD. Inserindo as vogais (em azul) podemos lê-la como BeYT DaViD (“Casa de Davi”) ou como BeYT DoD (“Casa do amado”). A expressão “Casa de Davi” seria uma referência à dinastia davídica (como “casa de Jeroboão”, cf. 1Rs 13,34). A expressão “Casa do Amado” seria uma referência à Jerusalém (como “casa do Sol”, cf. Js 15,10).

Saiba mais sobre Davi e a estela contendo as consoantes de seu nome lendo este artigo de Thomas L. Thompson.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 3 de abril de 2019

SOBRE O NOME "JOÃO"

De acordo com o evangelho de Lucas, Elisabeth deu a seu filho o nome “João”, mesmo não sendo um nome comum na família (Lc 1,60). “João” é forma portuguesa do grego “Ioannes” (tal como aparece no NT), que por sua vez deriva do hebraico Iohanan, junção de “Io” ou “Yo”(forma abreviada do nome divino) + hanan (gracioso) = “Deus é gracioso” (ver Jr 40,13). Maria, em Lc 1,30, é tratada como “aquela que encontrou graça diante de Deus”. João carrega em seu nome a mesma graça que recaiu sobre a mãe de Jesus.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 2 de abril de 2019

CONSIDERAÇÕES SOBRE O NOME DIVINO

De acordo com o Êxodo, o Deus de Israel era conhecido pelo povo como o “Deus dos pais” (Abraão, Isaque e Jacó). O texto também informa que o nome divino só foi revelado a Moisés em Ex 3,15: “YHVH” (o hebraico primitivo não possuía vogais). Assim, sem vogais, o nome é impronunciável.

A partir do século VI d.C., um grupo de judeus chamados massoretas inseriu vogais no texto. Nesse texto vocalizado o nome divino aparece grafado de formas diferentes (sempre com as mesmas consoantes): YaHVeH (Gn 2,4), YeHVaH (Ex 3,15), YeHoViH (Is 50,4),  YeHViH (Gn 15,2). Sim, é estranho.

Há duas hipóteses para essa variação vocálica: 1) os massoretas não conheciam mais a pronúncia correta; 2) Eles variavam a vocalização para evitar a pronúncia do nome sagrado. Ainda hoje, quando os judeus se deparam com o nome divino por ocasião da leitura do texto, trocam YHVH por Adonai (Senhor).



Jones F. Mendonça

domingo, 31 de março de 2019

LENATAN-MELEK EVED HAMELEK: OFICIAL DE JOSIAS?

Foto: Haaretz
O Haaretz (Israel) noticiou hoje a descoberta de um selo (tem o tamanho de uma unha) nas ruínas de um antigo edifício de Jerusalém destruído no século VI a.C. por ocasião da conquista da cidade pelos babilônicos.  A minúscula impressão do selo traz as palavras hebraicas LeNatan-Melek Eved HaMelek (Pertencente a Natan-Melek, servo do rei). O nome é o mesmo do oficial do rei Josias, mencionado em 2Rs 23,11. Não é possível afirmar, no entanto, que o selo tenha pertencido ao oficial de Josias (Christopher Rollston vê grande probabilidade da pessoa indicada no selo ser a mesma de 2Rs 23,11)

Uma excelente matéria foi publicada no Haaretz. Mais informações e imagens no The Times of Israel. Todd Bolen explica que um selo com a mesma inscrição (com autenticidade duvidosa) já circulava no mercado de antiguidades. A descoberta deste novo selo, feita por arqueólogos profissionais, remove qualquer dúvida em relação à sua autenticidade. 


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 28 de março de 2019

A INSCRIÇÃO DE DEIR 'ALLA (INSCRIÇÃO DE BALAÃO)

Em 1967 um grupo de arqueólogos holandeses descobriu, na região de Deir 'Alla (antiga terra dos amonitas), as ruínas de um grande santuário datado para os séculos XIII/XII a.C. No local foi encontrado um texto profético atribuído a “Balaão, filho de Beor” (personagem mencionado na Bíblia, em Nm 22-24). Escrito numa linguagem próxima do aramaico, o texto foi datado para 800 a.C. e contém uma série de previsões catastróficas supostamente entregues ao profeta em visões noturnas. Você pode ser uma tradução do texto para o inglês aqui.


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 14 de março de 2019

MOISÉS, ZÍPORA E O PINGOLIM MUTILADO

Ex 4,25 diz que Zípora tomou uma pedra afiada e cortou o prepúcio de seu filho. Na sequência ela lança o prepúcio “aos pés de Moisés” (Almeida Atualizada). Mas na Bíblia NVI Zípora não lança o prepúcio cortado. Ela “toca os pés de Moisés” após a pequena incisão (com que finalidade!?). A Bíblia de Jerusalém apresenta outra versão: Zípora teria “ferido os pés do menino” (uma ação igualmente estranha!). Temos, assim, três versões:

1. Zípora “lança o prepúcio aos pés de Moisés” (Almeida);
2. Zípora corta o prepúcio e “toca os pés de Moisés” (NVI);
3. Zípora “fere os pés do menino” (Bíblia de Jerusalém).

Está confuso? Afinal quem tem razão? Fiz uma tradução bem literal:

“E tomou Tziporah uma tzor (um tipo específico de pedra) e cortou o prepúcio do filho dela. TOCOU os PÉS dele (do menino ou de Moisés?) e disse: certamente marido de sangue és tu!”.

Ocorre que “pés” ser usado, alguns casos, como eufemismo para os órgãos genitais. Minha proposta de tradução:
“E tomou Zípora uma pedra afiada e cortou o prepúcio do seu filho. Tocou o pingolim dele (do menino, que neste momento está ensanguentado) e disse: certamente marido de sangue és tu!”.


Jones F. Mendonça

INSULTO E DEBOCHE NA BÍBLIA HEBRAICA

Estamos no ano 701 a.C. O rei assírio Senaqueribe cerca Jerusalém. A fome e a sede levam o povo ao desespero. Um oficial assírio aproxima-se do aqueduto da cidade e de lá começa a insultar o rei Ezequias, sua corte, seu exército e o povo da cidade. Diz, em bom hebraico e em tom de deboche, que o cerco os obriga a “beber a água dos próprios pés” (2Rs 18,27).

Dificilmente você vai encontrar uma tradução como essa: “beber a água dos próprios pés”. A razão é simples: poucos entenderiam seu significado.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 12 de março de 2019

COMO "ELISABET" CONVERTEU-SE EM "ISABEL"

Embora o nome da mãe de João Batista seja grafado como ISABEL nas Bíblias em português (Lc 1,7), seu nome em grego é ELISABET. Mas por que o nome foi mudado?

Bem, Elisabet é a forma grega do hebraico Elishebá' (esposa de Arão – Ex 6,23 - significa "meu Deus jurou"). O nome é formado a partir da junção de um substantivo próprio, um pronome possessivo e um verbo. Veja:

El="Deus"
i=sufixo pronominal "meu".
Shebá'="jurou"

Por por algum motivo o substantivo "El" (Deus) foi para o final da palavra. Assim, ELishebá’ converteu-se em IshebaEL (aproximando-se foneticamente de Isabel). 

Não tenho a mínima ideia da razão que provocou a mudança na posição do “El” em nosso idioma. O nome aparece grafado corretamente nas versões inglesa e latina:

“And they had no child, because that ELISABETH...”(KJV).
“et non erat illis filius eo quod esset ELISABETH...”(Vulgata).


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 7 de março de 2019

O LÍBANO, O FOGO E O ALTAR

Isaías 40, em seu capítulo dezesseis, exalta o poder divino com os seguintes versos:

A. O Líbano não bastaria para queimar, 
B. nem a sua fauna para um holocausto.

Você seria capaz de dizer que tipo de imagem o texto está evocando?

Algumas versões, como a NVI, entendendo que o escritor sagrado está se referindo, no primeiro verso, às FLORESTAS DO Líbano e ao fogo DO ALTAR, traduz a linha “A” assim:

A. “Nem as FLORESTAS do Líbano seriam suficientes para o fogo do ALTAR”.

As palavras “florestas” e “altar” não aparecem no texto original, mas estão implícitas. Versões populares costumam dar uma ajudazinha aos leitores pouco familiarizados com a poesia e costumes judaicos.

O texto quer dizer o seguinte: nem toda a flora e fauna do Líbano seriam suficientes para fornecer lenha e carne para um holocausto compatível com a grandeza divina.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 5 de março de 2019

A BÍBLIA E SUAS TRADUÇÕES: "OLAM" NÃO É "ETERNIDADE"

Em Jeremias 25,9, o profeta diz que Judá e Jerusalém serão objetos de escárnio e ruínas “perpétuas” (do hebraico, "olam"). Mas sabemos que a cidade de Jerusalém foi reconstruída! Em 25,12 a Babilônia recebe o mesmo destino: o texto diz que a cidade dos caldeus (Babilônia) se converterá em desolação “eterna” (olam). A explicação é simples: a tradução de “olam” por "eternamente", é equivocada.

"Olam", quando não precedido de preposição, indica que algo tem duração longa ou está distante no tempo, tanto para o futuro como para o passado. Um exemplo: Em Malaquias 3,4 é dito que a oferta de Jerusalém e Judá serão como nos dias “olam”, ou seja, como nos dias "distantes” ou "antigos" (como em Is 64,4).

Talvez você esteja se perguntando a respeito de Eclesiastes 3,11: “Deus colocou a eternidade (olam) no coração do homem...”. A Bíblia de Jerusalém traduz corretamente: “colocou no coração do homem o conjunto de tempo”. Da mesma forma a Bíblia TEB: “o sentido do tempo”. Olam, expressa duração – passado ou futuro – nunca eternidade.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

DAS TRADUÇÕES

Para que você tenha ideia do quão complexa é a tarefa de traduzir o Antigo Testamento, saiba que das 8000 palavras hebraicas que compõem o texto - de Gênesis a Malaquias -, 2000 aparecem uma única vez. Como saber o significado desses termos?

Dou um exemplo. Em Is 3,16 as “filhas de Sião” são descritas “caminhando e ‘tafof’”. Mas o que é “tafof”? Sabemos que é um verbo e que é uma provável derivação do substantivo “taf”, que significa “criança”.

Assim, por dedução, os tradutores geralmente traduzem o verbo como sendo uma alusão ao modo como as crianças andam. Veja:

...desfilando com PASSOS CURTOS (NVI)
...caminhando a PASSOS SALTITANTES (Bíblia TEB)

Em alguns casos, o contexto pode nos ajudar a entender o sentido exato do verbo, mas neste exemplo, tanto “passos curtos” como “passos saltitantes” se encaixam no contexto. Aliás, caso tenhamos em mente a imagem de uma criança andando, a expressão "passos ligeiros" também se apresentaria como uma opção viável.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

QODESH, QADESH/QADESHAH: SOBRE SODOMITAS E PROSTITUIÇÃO CULTUAL

Há, no hebraico, duas palavras muito parecidas: qodesh (Ex 16,23) e qadesh (Gn 38,21; Dt 23,17). A primeira geralmente é traduzida por “santo” e a segunda por “prostituto cultual”. A razão da semelhança entre as palavras é simples: ambas servem para designar uma pessoa que desempenha função considerada sagrada (“separada” do profano).

Mas a expressão “prostituto(a) cultual” como tradução para a palavra qadesh (na forma feminina = “qedeshah”) não me parece adequada. Algumas Bíblias registram um erro grave: associam os termos “qadesh/qedeshah” à “sodomita”, palavra descaradamente inventada. Aliás, o termo “sodomita” deveria ser riscado das Bíblias (tanto no AT como no NT).

Aos interessados no assunto, sugiro duas obras:

L. K. McLure and C. A. Faraone (Eds), Prostitutes and Courtesans in the Ancient World. Madison, Wisconsin: University of Wisconsin Press, 2006.

Stephanie Budin, The Myth of Sacred Prostitution in Antiquity. New York: Cambridge University Press, 2008.


Jones Mendonça

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

QUIASMOS NA BÍBLIA HEBRAICA

Gn 1,2-4a descreve da CRIAÇÃO dos animais e do humano. Para que isso acontecesse as “águas” precisavam ser separadas das “águas” (cf. Gn 1,6-7). Em Gn 7,21-23 o crescimento da iniquidade provoca a “DES-CRIAÇÃO” dos animais e do homem (as “águas superiores” misturam-se, de novo, com as “águas inferiores”). Em Gn 8,16-19, após as águas superiores retornarem ao seu lugar e com a terra novamente seca (8,14), uma NOVA CRIAÇÃO acontece. A boa notícia é relatada por meio de um quiasmo (irregular):

A - Sai da arca, tu e tua mulher, teus filhos, 
B - as mulheres de teus filhos. 
C - Todos os seres vivos,
D – toda a carne, 
E – criaturas que voam, (*)
F – animais, (*)
G –tudo o que se move sobre a terra.

A’ - Noé saiu com seus filhos, sua mulher e 
B’ - as mulheres de seus filhos;
C’ – todos os seres vivos,
D’ – 
F’ - todos os répteis, (*)
E’ – criaturas que voam, (*)
G’ – tudo o que se move sobre a terra.


Jones F. Mendonça

A EVOLUÇÃO DO ALFABETO, POR MATT BAKER


Por 25 dólares você pode comprar este belo pôster, que exibe a evolução do alfabeto, desde o proto-sinaítico - desenvolvido no Sinai a partir de hierógligos egípcios - até o alfabeto latino moderno. O hebraico (22 consoantes) nasceu a partir do fenício, alfabeto que aparece na segunda linha, de cima para baixo. A arte foi criada pelo design Matt Baker.


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

PERGAMINHOS HEBRAICOS ESCAPAM DO FOGO NO MUSEU

Acabo de saber, via The Times of Israel, que o pergaminho iemenita da Torá (Pentateuco) pertencente ao acervo do Museu Nacional e datado para o final da era medieval, não estava no museu no momento do incêndio:
An ancient Torah scroll once owned by a Brazilian emperor had been removed from Brazil’s National Museum for restoration prior to the massive fire that engulfed the building in Rio on Sunday”.
O jornal israelense destaca a reputação do imperador como vigoroso patrocinador do aprendizado, da cultura e das ciências; sua notável capacidade de aprendizado de outros idiomas (incluindo o hebraico) e admiração pela cultura judaica, algo raro na época.

A notícia também foi publicada no DW


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

DAS RESSIGNIFICAÇÕES JUDAICAS E CRISTÃS

O judaísmo, desde cedo, aprendeu a exercitar a prática da ressignificação de seus textos sagrados. O texto abaixo, presente em Gn 49,11-12, fala de abundância (de vinho, de leite), mas será ressignificado mais tarde, como veremos. Os versos identificados pela mesma letra são sinônimos:
(A) “Liga à vinha seu jumentinho,
(A) à cepa o filhote de sua jumenta,
(B) lava sua roupa no vinho,
(B) seu manto no sangue das uvas,
(C) seus olhos estão turvos de vinho,
(C) seus dentes brancos de leite”.
O Targum, interpretação judaica preservada em aramaico, vê no texto uma alusão à vingança do messias:
[O Messias] desceu e organizou a batalha contra os seus adversários...Suas vestes, imersas em sangue, são como o sumo de uvas...Seus dentes, mais puros que o leite (Targum do Pseudo-Jonathan).
A expressão “sangue de uvas” - ou seja, “vinho”, como sugerem os versos anterior e posterior - converteu-se no sangue dos adversários do Messias. Os “dentes brancos de leite” em símbolo de sua pureza.

Mas a primeira reinterpretação de Gn 49,1-12 talvez já apareça em Is 63,1-8, que vê em uvas esmagadas uma referência aos povos destruídos pelo Messias no dia da vingança:
(A) Is 63,3 Pisei as uvas na minha ira,
(A) na minha cólera as esmaguei.
(B) O seu sangue salpicou as minhas vestes;
(B) com isto sujei toda a minha roupa.
(A) Is 63,6 Na minha ira calquei aos pés os povos,
(A) na minha cólera os despedacei
(B) e derramei por terra o seu sangue.
O texto será ressignificado também pelos cristãos. O livro do Apocalipse retoma a imagem do “manto embebido em sangue”, usado pelo “Verbo de Deus” no dia do juízo (19,13). Justino de Roma, um cristão do II século, viu na passagem uma alusão à encarnação do Verbo:
Fala-se também do "sangue da uva", para dar a entender que aquele que havia de aparecer teria certamente sangue, mas não de sêmen humano, e sim de virtude divina (Apologia I, 32).
A preocupação com o sentido do texto em seu contexto original finalmente aparece em Calvino:
Ele agora fala da situação do território reservado aos filhos de Judá. Tão grande seria a abundância de videiras ali, que em todos os lugares eles se apresentariam tão prontamente quanto os arbustos.
Mas o reformador não deixa passar em branco uma observação moral em relação à expressão “olhos turvos de vinho”:
Não parece apropriado, que uma profusão de intemperança ou extravagância deva ser considerada uma bênção. Embora a fertilidade e a riqueza sejam aqui descritas, ainda assim o abuso delas não é sancionado”.
Jones F. Mendonça

segunda-feira, 16 de julho de 2018

ENCONTROS AMOROSOS NO ANTIGO TESTAMENTO

Um verbo muito comum utilizado no AT para sugerir que um homem teve relações sexuais com uma mulher é “Yadá” (conhecer): Adão “conhece” Eva (Gn 4,1); Caim “conhece” sua mulher (4,17); os homens de Sodoma querem “conhecer” os mensageiros divinos hospedados na casa de Ló (19,5), etc.

Mas yadá não significa “conhecer profundamente” como insistem muitos comentaristas bíblicos. Yadá é simplesmente "conhecer", tal como em Is 1,3: "o boi conhece o seu dono". Nos casos citados no parágrafo anterior, Yadá é utilizado como metáfora. Aliás, há uma outra, pouco conhecida.

Nesta semana, traduzindo o livro bíblico de Rute, encontrei por acaso uma expressão tão comum quanto yadá para se referir ao encontro ardente entre homem e mulher: “vayyabo eleyha” (algo como “veio até ela”). Em Rt 4,13 Boaz toma Rute como esposa, “vai até ela” e ela engravida.

A expressão reaparece com o mesmo sentido em Gn 29,23 (Lia e Jacó), 30,3-4 (Bila e Jacó), 38,2 (Judá e Sué), 38,18 (Tamar e Judá), Jz 16,1 (uma prostituta e Sansão) e 2Sm 12,24 (Bat-shebá e Davi). Em Jz 13,6, a mãe de Sansão diz que um homem de Elohim "veio até mim". O texto estaria sugerindo algo mais que um encontro?

Em alguns casos o verbo aparece associado a nomes próprios femininos (e não a um pronome). Dois exemplos: Abraão “vai até” Hagar (Gn 16,4) e Jacó “vai até” Raquel (29,30). Hagar engravida após o “encontro”. Raquel não engravida porque é estéril.

A única ocorrência do verbo “ir” indicando o movimento de um homem em direção a uma mulher fora do contexto sexual ocorre em Jz 4,22: Baraque “vai até Jael” (uma mulher guerreira), para que ela lhe mostre o corpo de Sísera morto com uma estaca na fronte.

Então que fique claro: no AT, quando um homem “vai até” uma mulher, provavelmente planeja algo além de um encontro casual.




Jones F. Mendonça

quinta-feira, 24 de maio de 2018

ECLESIASTES: COMIDA, BEBIDA, ALEGRIA E PAIXÃO

O místico medieval Thomas de Kempis tomou a primeira frase do livro de Eclesiastes “vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (1,2) como um convite ao desprezo a todas as coisas terrenas. Ocorre que em diversas passagens o livro exalta o “comer” o “beber”, o “alegrar-se”, o “desfrutar a vida com a mulher amada” como dom divino (2,24; 3,12-13.22; 5,18-20; 8,15; 9,7-10; 11,7-10). Como sair dessa “sinuca de bico”?

Bem, Kempis talvez tenha seguido a solução alegórica apresentada pelos antigos rabinos: “todas as referências a comer e beber neste livro representam a Torá e as boas obras” (Qoh.Rab. 2:24; cf. o Targum [Tg. Eccl 2:24]). E assim o “comer” deveria ser entendido como o “comer da Torá” e o “beber” como o “beber das boas obras”.

Só sendo muito tonto para cair nessa conversa...



Jones F. Mendonça

terça-feira, 24 de abril de 2018

A “MÃO SOB A COXA” EM GÊNESIS 47,29

Você certamente franze a testa ao ler aquela passagem do AT descrevendo José colocando a “mão por baixo da coxa” de Jacó, seu pai (Gn 47,29). A tradução está correta? Qual a razão deste costume tão estranho?

Bem, a palavra hebraica traduzida por “coxa” é yarek. Ela sempre aparece designando partes do corpo situadas entre a cintura e a virilha. Em alguns casos serve para indicar uma parte muito específica do corpo: os órgãos sexuais.

Ela surge, por exemplo, em Gn 46,26 referindo-se aos descendentes de Jacó: “os descendentes dele eram 66 pessoas...”. Literalmente o texto diz “saíram da coxa (yarek) dele 66 pessoas...”. Não é exatamente “da coxa”, entendeu?

Uma maldição dirigida à mulher infiel pedia que sua “coxa” (yarek) se tornasse falha (nafal) e seu ventre inchasse (Nm 5,21). A punição, como você deve ter notado, é a infertilidade. O texto não está falando da coxa...

Então, para encerrar: “colocar a mão sob a yarek” não é o mesmo que colocar a mão sob a coxa, ou sob a virilha, mas colocar a mão sob os testículos. Ainda hoje existe o costume de jurar com a mão sobre a Bíblia, um objeto sagrado. Naquela época jurava-se pela virilidade do pai. 




Jones F. Mendonça

segunda-feira, 12 de março de 2018

SOBRE "EROS", "ÁGAPE", "PHILEO" E FIRULAS

Ora, se “ágape” é empregado no NT para expressar o amor mais elevado, incondicional, como muitos insistem, como explicar o uso da palavra neste lamento de Paulo: “Pois Demas me abandonou por amor (ágape) ao mundo presente” (2Tm 4,10). O termo correto não deveria ser “eros”, supostamente - como dizem - “amor egoísta, carnal”?

E se o NT, de fato, faz distinção entre “ágape” (amor incondicional, divino) e “fileo” (amor fraternal, de amigo), como explicar o uso de “fileo” aqui: “pois o próprio Pai vos ama (fileo, Jo 16,27). É verdade que há preferência pelo “ágape” nas relações entre o humano e o divino no NT, mas na prática, “ágape” e “fileo” são intercambiáveis, como no diálogo entre Pedro e Jesus em Jo 21,15-17.

Não há ocorrência do “eros” no NT. Mas a demonização do termo só aparece nos textos dos primeiros padres (nas palavras de Nietzsche, o cristianismo “envenenou o eros”.). Veja o que diz Santo Inácio, por exemplo: “O meu amor (eros) foi crucificado e não há em mim fogo de paixão. [...] Não me atraem o alimento de corrupção e os prazeres desta vida” (Carta aos Romanos, 7,2). Ratzinger acata em parte a crítica nietzschiana em sua “Carta Encíclica Deus Caritas Est”.

Um exercício simples, mas muito útil para desmascarar equívocos cristalizados pela repetição: escolha uma palavra (grega ou hebraica) e localize todas as suas ocorrências no texto bíblico. O contexto vai denunciar a farsa. Não confie em dicionários.


Jones F. Mendonça