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sexta-feira, 21 de outubro de 2016

OUTUBRO, MÊS DA REFORMA: LIBERDADES LÍQUIDAS

John Wyclif e Jan Hus já declaravam , nos séculos XIV e XV, que “os sacerdotes que violam os mandamentos do Senhor” estão em pecado, e que, portanto, devem ser vistos como usurpadores. No século XVI Lutero usou o mesmo argumento para romper com a Igreja.

A rebeldia do monge agostiniano migrou para o campo político. No fim de 1524 cerca de 30.000 camponeses na Alemanha meridional se recusavam a pagar imposto ao governo, dízimos ou direitos feudais. Ousaram criticar a servidão, dizendo que haviam sido “comprados e redimidos com o precioso sangue de Cristo”. Inicialmente Lutero apoiou o grupo, mas depois explicou que a liberdade que o cristão deve gozar é a espiritual: 
Abraão e os outros patriarcas não tinham escravos? [...] Um reino terreno não pode sobreviver se nele não houver uma desigualdade de pessoas, de modo que algumas sejam livres e outras presas, algumas soberanas outras súditas (Lutero, Works, IV, p. 240).
As elites latifundiárias das colônias americanas do século XVIII comportaram-se como Lutero. Usaram com toda a força ideias revolucionárias para justificar sua rebelião contra o opressor, neste caso, a Inglaterra (“qualquer um tem o direito de defender-se e de resistir ao agressor”, John Locke) e ao mesmo tempo temeram que negros e pobres interpretassem as ideias de liberdade como aplicáveis também a eles. Não deixaram, como Lutero.

Moral da história? “Quae vult rex fieri, sanctae sunt congrua legi” (vão as leis como querem os reis). Revolução legítima, só a das elites...



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

SIT PRO RATIONE VOLUNTAS

Um califa ordenou – conta uma lenda – a destruição da Biblioteca de Alexandria.   Sua justificativa: se o conteúdo dos livros for igual ao do Alcorão merecem ser destruídos porque são supérfluos. Se for diferente, merecem ser aniquilados porque são mentirosos. Moral da história: qualquer ação parece justa quando serve aos interesses do tirano.

Em tempo: a frase latina foi dita por Juvenal (poeta romano) e significa: “a vontade sirva de razão”.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

HERMENÊUTICA FILOSÓFICA

Zé Bobinho resolveu ler Nietzsche, famoso filósofo do século XIX. Ficou encantado com seu “perspectivismo”, cuja ideia básica resume-se nas seguintes palavras: “não há fatos, apenas interpretações”. Sua nova filosofia de vida o induziu a trocar as realidades do mundo (os fatos) pela interpretação das realidades do mundo.

Pensou com seus dois neurônios: “se não há fatos, então aquele vídeo que compromete a fidelidade de minha mulher talvez precise ser interpretado poeticamente”. Foi além: “se não há fatos, então talvez minha conta bancária não esteja no vermelho”. Raciocinou um pouco mais: “meu trágico diagnóstico médico, a corrupção dos políticos, meu estômago gritando de fome, as infiltrações nas paredes do meu apartamento... nada é fato!”.

Bobinho agora é um homem feliz...


Jones F. Mendonça


terça-feira, 16 de agosto de 2016

BOBINHO E A ESSÊNCIA DAS COISAS

Atormentado por um sonho noturno Bobinho iniciou uma alucinante jornada em busca da essência das coisas. Queria encontrar a verdade profunda projetada para além dos sentidos.  Não se empolgava com o dossel estrelado, com a textura da derme nua, com a curva dos caracóis, com a flagrância dos manacás. “Tudo aparência”, dizia gritando pelos caminhos. Aos 40 anos enfiou-se numa caverna e pôs-se a meditar. Passava horas tentando ouvir o som das pedras. Perdia noites apalpando neblina e alisando fumaça. Investigava sem cessar a quadratura do círculo lunar. Queria sentir o gosto inebriante das galáxias distantes. Após 40 anos de solidão e ascese, Bobinho finalmente descobriu a essência e o sentido de sua existência: era um tonto!



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

DAS CONDECORAÇÕES

A condecoração entregue ao valente não foi criada com o propósito de honrá-lo, mas para estimular os demais a exercitarem a coragem e as virtudes que o soberano valoriza. Não é, portanto, um presente, uma dádiva, mas uma isca. Daí a fala de Maquiavel em seu diálogo fictício com Montesquieu na obra de Maurice Joly: 
Tais coisas [as condecorações] não custam quase nada ao príncipe e ele pode tornar as pessoas felizes, melhor até, fiéis, por meio de laços de fita, ninharias de prata ou de ouro. [...] Um homem condecorado é um homem amarrado (Diálogo no inferno, 2009, p. 322).
Tolo é quem não vê. 


Jones F. Mendonça

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

CORTESIA E SUBMISSÃO

Carl Jung, em “psicologia e religião” (Zahar, 1965, p. 22) sobre o real sentido por trás das “formas refinadas de cortesia”: 
“É uma falta de delicadeza conservar a mão esquerda no bolso ou atrás das costas, quando cumprimentamos alguém. Quando se pretende ser particularmente atencioso, cumprimenta-se a pessoa com ambas as mãos. Diante de alguém revestido de grande autoridade inclinamos a cabeça descoberta, ou seja, oferecemos a cabeça desprotegida ao poderoso...”.

Formas de cumprimento no Antigo Egito

Jones F. Mendonça

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

DOS SÍMBOLOS DE PODER

O que é a continência senão um gesto que lembra, a cada instante, o lugar que o militar ocupa na cadeia hierárquica?

Mas a lembrança não vem apenas pelos gestos. É preciso distinguir botões dourados de botões prateados; o número de divisas na manga ou de estrelas nos ombros; a quantidade de listras; as cores das barretas; a forma dos distintivos...

Há tantas normas, tantos símbolos, tanto controle que é quase impossível pensar.

Na Antiguidade tardia, a partir de Constantino, a igreja consolidou uma hierarquia eclesiástica baseada na estrutura administrativa do império. O título papal usado até os dias de hoje “Sumo Pontífice” (Pontifex Maximus), era um antigo título utilizado pelos imperadores romanos. Mas não é só isso.

As cores, a disposição ou o tipo de pálio, de luvas, de estola, de anel, de báculo pastoral, de solidéu são claros símbolos de poder e de distinção social. O culto aos símbolos e a doutrina baseada no apego à tradição foram feitos para durar, para manter a ordem estabelecida.

Não é de se estranhar que as instituições de maior prestígio entre a população sejam o Exército e a Igreja.


Jones F. Mendonça

domingo, 5 de julho de 2015

PONDÉ E A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO II

Pondé critica os teólogos da libertação por usarem como princípio hermenêutico a filosofia de Karl Marx. Diz que há incompatibilidade entre as ideias do filósofo alemão e o cristianismo. Mas a apropriação de ideias filosóficas por teólogos da Igreja vem dos primeiros séculos. Com maestria e sofisticação sempre souberam ler seletivamente as obras nas quais se apoiaram.

Alguns teólogos abusaram tanto de Platão e do estoicismo que Tertuliano (séc. II-III) viu-se obrigado a protestar: “que relação há entre Atenas e Jerusalém”. Aristóteles, apesar de conceber o universo como sendo eterno (o que contraria a interpretação tradicional do Gênesis), foi usado como base para a teologia de Aquino em sua Suma Teológica (séc. XIII). Calvino (séc. XVI) tricotou pergaminhos platônicos, como demonstram suas Institutas.

O que Pondé precisa entender é que os teólogos da libertação apenas fazem o que todos sempre fizeram. Eles também aprenderam a ler, interpretar e assimilar seletivamente as obras de Marx como todos os seus antecessores fizeram com outros filósofos (quem leu “Teologia do político e suas mediações”, de Clodovis Boff, sabe disso). É coisa do ofício, não da esquerda religiosa. Mas Pondé tem obsessão pela esquerda. É coisa quase doentia.



Jones F. Mendonça

sábado, 4 de julho de 2015

PONDÉ E A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

Numa entrevista publicada em 2011 Luiz Felipe Pondé faz esta declaração dirigindo-se à TdL: “O santo é sempre alguém que, o tempo todo, reconhece o mal em si mesmo. [Mas] O clero da esquerda é movido por um sentimento de pureza. Considera sempre o outro como o porco capitalista, o burguês. Ele próprio não”. Mas o que dizer do discurso do “clero” da direita, como Pe Pedro Paulo, Malafaia, Feliciano, Eduardo Cunha e tantos outros. Em que momento reconhecem o mal em si mesmos? Não são eles também movidos por um sentimento de pureza? De suas bocas não sai um discurso que vê na esquerda - nos “porcos comunistas” - todo o mal do mundo? Então, meus caros, é sempre importante lembrar: o que chove lá, chove cá.



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 4 de maio de 2015

AUTORIDADE E JUSTIÇA

Zé Bobinho faz festa quando um policial dá um tapa na cara de um sujeito que ousou desobedecê-lo. Ele diz: “quem mandou questionar uma autoridade policial”. Entendo como funciona a mente de Zé Bobinho. Em sua escala de valores mais vale a autoridade que a justiça. Aliás, desconfio que ele sequer seja capaz de diferenciar uma coisa da outra.  


Jones F. Mendonça

sábado, 28 de março de 2015

ZÉ DIREITINHO E ARISTÓTELES

 “Todos são iguais perante a lei sem distinção de qualquer natureza”, reza nossa Constituição (art. 5º). Zé Direitinho não perde tempo: “então o sistema de cotas é inconstitucional, uma vez que privilegia certa classe social e/ou racial”. Mas o que Zé Direitinho não sabe é que desde Aristóteles a justiça comporta dois modos de proceder: 1) O tratamento desigual dispensado aos desiguais; 2) a busca pela definição de onde e quando o tratamento desigual de desiguais é justo.

Tá, é até possível que surjam opiniões diferentes quanto ao “onde” e ao “quando” o tratamento desigual de desiguais deve ser dado. Mas ignorar esse princípio revela uma definição caduca de justiça.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

BAÚ DE NÉVOA

A utopia capitalista projeta o reino idílico não na sociedade perfeita, onde se reparte o pão, o teto e as alegrias. Seu tesouro, tecido com o fio dos sonhos, está além do arco-íris, guardado num baú de névoa, sob a proteção de dois querubins. Como é sonho egoísta, tem motor com potência infinita. O resultado: não há combustível que sacie essa sede.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 20 de maio de 2014

CONTRA O IDEALISMO

Desde Platão os homens pensam que o mundo é fruto das ideias (idealismo). Todos os projetos humanos sairiam de sua cabeça, do “mundo das ideias”. O erro do idealismo: confundir causa com efeito. O remédio proposto por Marx: compreender que as ideias é que são fruto do mundo e não o contrário. Trata-se de um remédio bem amargo, é verdade.


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 12 de maio de 2014

PSICOLOGIA DE BOTECO

O sujeito é comunista: tem inveja dos ricos. O sujeito é capitalista: tem ódio dos pobres. O sujeito vive sorrindo: esconde uma tristeza profunda. O sujeito vive triste: tem medo de ser feliz. O sujeito rejeita o sistema de cotas: é racista. O sujeito apoia o sistema de cotas: é petralha. O sujeito faz academia: compensa sua baixa auto-estima fortalecendo o corpo. O sujeito troca a malhação pelos livros: compensa sua baixa auto-estima fortalecendo a mente. O sujeito gosta de carro grande: tem pênis pequeno. O sujeito gosta de carro pequeno: esconde um ego grande. O sujeito é religioso: é neurótico. O sujeito é ateu: alimenta um desejo de negação. O sujeito é homossexual: foi violentado na infância. O sujeito é heterossexual: no fundo é gay.

A psicologia barata transforma todos em loucos, como no famoso conto de Machado de Assis...


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O ORGANON & O CAPITAL: APONTAMENTOS SOBRE UMA CRÍTICA INFUNDADA

Toda a teologia se constrói sobre dois princípios fundamentais: o princípio arquitetônico (um tema da Escritura, como por exemplo, a encarnação) e o princípio hermenêutico (uma chave de interpretação, uma filosofia). Durante a patrística a chave hermenêutica predileta foi o platonismo. Assim foi com Orígenes, Clemente, Gregório de Nissa, Agostinho e tantos outros. Na Escolástica Aquino usou e abusou de Aristóteles. O tomismo cristianizou o filósofo. "Corrigiu-o" à luz da fé cristã. 

No século XX a teologia da libertação (TL) utilizou como princípio hermenêutico o marxismo (e a libertação como princípio arquitetônico). O que Aquino fez com Aristóteles, a TL também fez com Marx, tomando dele apenas os elementos compatíveis o cristianismo. Do ponto de vista lógico-teórico a diferença entre o tomismo e a TL é que o tomismo é uma teologia dedutiva (parte do dogma) e a TL é uma teologia indutiva (parte da situação, de um problema concreto). Ambas lêem as Escrituras e o mundo com a ajuda de uma “filosofia pagã”. 

O que me inquieta: Aristóteles acreditava num mundo eterno (Deus era um mero motor imóvel), mas sua filosofia foi usada sem maiores traumas (tornou-se, inclusive, “philosophia perennis”). Marx era ateu, mas o uso de sua filosofia como chave hermenêutica tem sido repudiado por setores conservadores. Faz sentido?

Como se as crenças do filósofo (ou até mesmo sua fundamentação teórica) fizessem alguma diferença...



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

CONTRA O BRUTO, FORÇA BRUTA

“O brutal só se destrói com força bruta”. Este é o argumento da direita contra as ditaduras comunistas e os radicais islâmicos. Este é o argumento da esquerda contra a ditadura de uma elite que se perpetua no poder manipulando a mídia e controlando o poder político e econômico. Os primeiros lutam contra “inimigos externos”. Os segundos contra os “inimigos internos”.

No fundo todos recorrem às armas a fim dar vazão a suas ideologias, princípios e instintos de sobrevivência. Ninguém está disposto a sofrer até a morte em silêncio. As grandes potências, quando se sentem ameaçadas, recorrem a seus exércitos regulares. Os mais fracos, quando na mesma situação, pegam o que tem às mãos: enxadas, foices, bombas caseiras, coquetéis molotov...

No fundo somos todos iguais. Todos humanos. Todos atormentados pela eterna tensão entre o viver e o morrer, entre a paz e a guerra, entre o silêncio e o grito. O ser humano: tumulto ambulante hospedando uma luta incessante entre racionalidade e a demência.


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O HUMANO: DE GARGANTA VIVA A ALMA ENCARCERADA

Na mentalidade grega, sobretudo a partir de Platão, a crença de que o corpo humano é uma espécie de “casca” ou “prisão” da alma (da psyché) passou a ser amplamente difundida, deixando reflexos profundos na tradição cristã. Tal crença implica no desprezo ao corpo, uma vez que supõe a superioridade da alma (imortal) sobre a matéria. Daí a crítica de Nietzsche de que o pensamento de Platão é uma “filosofia para a morte” e que o cristianismo é uma espécie de “platonismo para o povo”. No fim da vida Platão reafirmou suas profundas convicções: “Aquilo que constitui verdadeiramente o nosso ser, isto é, a psyché, é imortal” (Leis 959 b).

Entre os pais da igreja a ideia está presente, por exemplo, na carta a Diogneto (c. 190-200): “o que a alma é para o corpo, os cristãos são para o mundo [...]. Os cristãos estão como que detidos na prisão do mundo”.

Até mesmo Calvino, nas suas Institutas, expõe esse tipo de crença. O teólogo de Genebra chega a citar Platão (aliás, faz isso mais de uma vez):
Portanto, enquanto habitamos no cárcere de nosso corpo, temos de lutar continuamente com as imperfeições de nossa natureza corrupta; na verdade, com nossa alma natural. Platão diz algumas vezes que a vida do filósofo é a meditação da morte (Livro III, III, 20).
A antropologia hebraica desconhece esse dualismo ou dicotomia entre alma e corpo. A palavra hebraica geralmente traduzida por alma é néfesh. Em alguns textos néfesh indica a garganta:
Sl 69,1 Salva-me, ó Deus!, pois as águas subiram até o meu pescoço (néfesh).
Alguns tradutores optaram por “pescoço”, mas ideia é indicar a garganta, local por onde passa o ar inspirado e expirado (para indicar o pescoço geralmente se usa tzavar, como em Ct 1,10). Se a água sobe mais, a néfesh é comprometida e o corpo perde a vitalidade.

Néfesh serve também para indicar o princípio vital, como neste texto do livro de Reis:
1Rs 17,21  Então se estendeu sobre o menino três vezes, e clamou ao Senhor, dizendo: ó Senhor meu Deus, faze que a vida (néfesh) deste menino torne a entrar nele.
A ideia não é exatamente que a néfesh volte a entrar no corpo, mas que ela seja restituída (shub) às entranhas (qérev) do menino (yéled). Néfesh é fôlego que anima o corpo e não uma essência etérea que habita num indivíduo e sai voando após sua morte.

Por vezes a néfesh indica corporeidade. Um exemplo é este texto de Isaías:
Is 29,8  Será também como o faminto que sonha que está a comer, mas, acordando, sente-se vazio.
No texto hebraico: “sua néfesh está vazia” e não “sente-se vazio”. A ideia é a seguinte: se o corpo não se alimenta, sua néfesh (fôlego de vida) fica fraca, fica vazia (reyqah).

Outro exemplo:
Nm 11,6  Mas agora a nossa alma  (nossa néfesh) se seca; coisa nenhuma há senão este maná diante dos nossos olhos.
Não há alimento, logo a néfesh fica seca (yabesh), sem vida. Inexiste oposição entre corpo (basar) e alma (néfesh). Ambos estão intimamente ligados.

Na antiga tradição hebraica homem e mulher são néfesh encarnada e não psyché aprisionada. Então surgiu o judaísmo helênico. Depois o cristianismo bebeu da mesma fonte. Herança maldita.

Não é difícil entender porque o livro de Cantares tão cedo passou a ser alegorizado por judeus (a partir de Aqiva) e cristãos (Orígenes, Clemente, etc.).  Explica-se facilmente a ênfase que o cristianismo dá aos chamados “pecados sexuais”. Já no IV século Jerônimo se jogava aos espinheiros a fim de que a dor sobrepujasse seu desejo pelo corpo feminino (recomendava banhos frios e o uso de cilício para combater o desejo sexual). O ser humano, antes visto como garganta viva (que grita, urra, come, soluça, bebe, jubila, geme, respira) tornou-se mera alma encarcerada. Desejar é pecar. Mas diferentemente do budismo, que queria suprimir o desejo, os cristãos preferiram: “desejar o nada, a nada desejar”.

Nietzsche tinha razão.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 3 de setembro de 2013

OS ÓCULOS DE ZILDA

Zilda passou por um trauma na infância. Não suporta multidão. Mecanismos internos de sua psique encontraram uma saída: fazem com que Zilda acredite não haver muitas pessoas em determinados ambientes quando na verdade há. Tais mecanismos são como óculos especiais. Seus olhos lhe dizem: “há um monte de pessoas aqui!”. Suas lentes mágicas fazem a “correção”: “ambiente limpo, está tudo bem”.

Óculos mentirosos. 

O nome disso? Medo do real.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 6 de agosto de 2013

ECCE HOMO

Homo sapiens que pensa, reflete, arrazoa. Animal que se distingue dos demais. Fala, expõe ideias, transmite cultura. Face inversa do homo demens da guerra, da barbárie, da crueldade e da cegueira. Homem, tumulto ambulante hospedando uma luta incessante entre racionalidade e a demência.

Homo ludens, que com seus brinquedos se diverte, expõe os dentes, ri. Histrião que articula a realidade com a fantasia. Que se lança ao jogo que fascina, que alegra, que faz esquecer as desilusões.  Dimensão humana que contempla o júbilo, a criatividade e a exultação, mas também transgressão, trapaça e ilusão. É homem em estado de festa, é homo festivus.

Homo faber, que com a ajuda do intelecto fabrica, constrói, manipula a natureza a seu favor por meio da técnica. Faz fogo, faz roda, faz anzol, faz choupana, faz livro, faz deuses, faz-se a si mesmo com seu espírito inventivo.

Homo viator, que caminha, peregrina, que é itinerante. Ser insaciável que explora o ar, a terra e o mar. Homem pleno de expectativas, que vê diante de si um futuro aberto, cheio de novidades e possibilidades. Pensa a respeito da vida e da morte, do finito e do infinito, do eterno e do fugaz. Quer ir mais longe (quer ir longe demais?). Que transcender...

Homo religiosus, cheio de fé, de ritos, de mitos, de esperanças. Homem que se curva diante do Mistério. Que geme em suas súplicas. Que se entorpece na cantoria. Que almeja o infinito. Que eleva os olhos para os céus em busca de redenção.

Homem, o que tu és e qual o teu destino?

Jones F. Mendonça


PS: As mulheres que me perdoem, mas na busca por uma melhor fluidez do texto vi-me forçado a empregar a palavra homem como sinônimo de humano. 


quarta-feira, 26 de junho de 2013

A DIALÉTICA EM HERÁCLITO, PLATÃO, ARISTÓTELES, HEGEL, MARX E BARTH

Compreender termos teológicos ou filosóficos a partir de obras especializadas geralmente é uma tarefa espinhosa para quem está iniciando os estudos nessas áreas. Sempre correndo o risco de simplificar demais o trabalho filosófico dos grandes pensadores, resolvi escrever um pequeno ensaio sobre a dialética, buscando explicar o termo da maneira mais simples e didática possível no âmbito das diversas escolas filosóficas. Apesar de ter consultado muitas obras optei por não citá-las a fim de tornar o texto mais fluido. Espero que ajude.

Um bom ponto de partida para compreender o que vem a ser dialética (dia=um para o outro + legein=dizer, explicar) é conhecer as ideias de Heráclito.

Heráclito (540-476 a.C.): Atribui-se a Heráclito de Éfeso a criação de uma nova forma de ver o mundo, a dialética (ainda que o termo só tenha sido empregado mais tarde, por Platão). Discordando dos eleatas, filósofos da cidade de Eleia que defendiam um universo de estado imutável, Heráclito dizia que a natureza está sujeita a uma única lei: a lei da mudança. “Ninguém pode se banhar duas vezes no mesmo rio, porque o rio não é mais o mesmo”, dizia o filósofo. Para Heráclito tudo está em constante transformação, “tudo flui” (gr. panta rei), e não há nada que seja perpétuo, exceto o constante devir (ou vir-a-ser). “O que se opõe coopera, e da luta dos contrários procede a mais bela harmonia”, insistia o filósofo de Éfeso.

Platão (424-347 a.C.): Platão é bem conhecido por ter sido discípulo de Sócrates e de ter fundado a Academia, uma escola dedicada à ciência e à filosofia que se reunia no jardim de Academo. Para Platão é por meio do diálogo e da conseqüente confrontação de ideias que os equívocos são eliminados e a verdade aparece. Em Platão a dialética é um instrumento de busca da verdade. É importante compreender que para Platão “aprender não é outra coisa senão recordar”. Para ele o conhecimento racional jaz dormente na alma e precisa ser despertado. E como se acorda esse “conhecimento latente”? Por meio da dialética, responderia o filósofo. Assim, a dialética de Platão pressupõe a pré-existência da alma e o inatismo das ideias. A dialética platônica se expressa nos diálogos escritos pelo filósofo, particularmente nos chamados “diálogos da maturidade”, tais como o Menon, o Fédon e a República.  

Aristóteles (384-322 a.C.): Aluno de Platão e filho de um médico, Aristóteles se tornou mestre de Alexandre, o Grande. Em Aristóteles a dialética constitui a parte da lógica que estuda os raciocínios prováveis. Não trazem certeza nem descobrem a verdade como em Platão, mas opinião ou probabilidade. No pensamento do filósofo a dialética declina em favor do método analítico (silogismo demonstrativo ou científico), ganhando um sentido negativo ou até mesmo pejorativo. A relação entre dialética e analítica é tratada no Organon. A diferença entre esses termos diz respeito, acima de tudo, às premissas: a analítica decompõe silogismos e demonstrações científicas (fundamentos seguros); a dialética tem a ver com o ato retórico de persuasão (premissas não isentas de dúvidas).

Hegel (1770-1831): Há quem considere a filosofia hegeliana como um imenso e elaborado platonismo, mas é importante destacar que Hegel repudia qualquer visão de dois mundos. Para ele as ideias estão nas coisas, como Aristóteles. Como já foi apresentado, a dialética repousa nas contradições internas, ou nos opostos presentes em todas as áreas da vida humana. Para Hegel a dialética é o movimento racional que nos permite superar essas contradições. A dialética de Hegel é concebida em três etapas: tese (afirmação), antítese (negação) e síntese (negação da negação). Tese e antítese são sempre falsas, mas impelem para uma síntese que concilia os opostos que eram excludentes. O conhecimento é considerado como um processo contínuo, histórico e progressivo. A filosofia hegeliana é considerada idealista porque busca explicar a evolução do mundo pela evolução da ideias. Hegel achava que o homem poderia transformar a realidade de acordo com critérios racionais: mudam-se as ideias, mudam-se as coisas. Colocando em outros termos: “A verdade é o movimento da ideia”.

Karl Marx (1818-1883): o filósofo alemão converteu a dialética em um método com a ajuda de Friedrich Engels, seu parceiro na elaboração do Manifesto Comunista. Ele inverteu a dialética hegeliana sugerindo que o mundo material é o fundamento das ideias e não o contrário como anunciava a filosofia idealista de Hegel.  Em suma: “as coisas vão de transformando e as ideias vão atrás”. Em primeiro lugar vem a natureza, que é transformada pela ação humana em meios de produção (relações materiais=infraestrutura). São essas relações materiais, segundo Marx, que sustentam todos as crenças, ideias, teorias e pensamentos da sociedade (ideologia=superestrutura). Em termos mais vulgares: “segundo vive o homem, assim ele pensa”. Ainda que tenha insistido que a superestrutura é reflexo da infraestrutura, Marx acentuou que ambas acabam por se influenciar reciprocamente (repudiando o materialismo mecanicista).

Karl Barth (1886-1968): A teologia de Barth é denominada dialética porque para ele o falar de Deus sempre expressa simultaneamente um sim e um não: está distante, mas também está próximo; sua Revelação, a Bíblia, é simultaneamente palavra de Deus e palavra de homens. Em seu comentário sobre Epístola aos Romanos, de 1919, Barth elaborou a dialética entre tempo e eternidade e entre Deus e o homem. Ora, se o homem e Deus estão numa relação antitética (de oposição), em que medida é possível encontrar uma síntese? Como superar a presença simultânea do “sim” e o “não” que atravessam o homem? Atormentado pelo fantasma de Hegel, Barth saiu em busca de uma resposta. Rejeitando as soluções dadas pela teologia natural (superação da dualidade pela razão humana) e pela teologia mística (superação da dualidade pela contemplação), o teólogo chegou a conclusão de que o homem não pode se livrar de sua “dualidade demoníaca” senão pela redenção, uma revelação exclusivamente vertical (de cima para baixo, como na tradição calvinista). Só ela permite ao homem saber que está numa condição de alienação e de morte. Enfim, o laço da contradição que atormenta o homem só pode ser desfeito por iniciativa divina. No ato da encarnação (visto como um ato de amor) Deus se faz culpado da contradição contra si mesmo. Dado o seu caráter dialético, a teologia Barth também ficou conhecida como “teologia da crise”. Entre os discípulos de Barth que mais se destacaram figuram Emil Brunner e Friedrich Gogarten.



Jones F. Mendonça