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sábado, 4 de maio de 2019

ZAKAR, NEQEBAH E MATZEBAH: SEXO E GÊNERO NA BÍBLIA HEBRAICA

Imagem: Wikipedia
As palavras hebraicas mais usadas para designar “homem” e “mulher” são “ish” e “ishah”. Mas quando o texto quer enfatizar as diferenças sexuais usa “zakar” (macho) e “neqebah” (fêmea). No verso “acaso um homem tem dores de parto” (Jr 30,6), a palavra traduzida por “homem” é “zakar”, termo que seria mais bem traduzido por “macho”. É como se dissesse: “por acaso pode um macho engravidar?”.

Curioso é que “neqebah” (fêmea) é palavra da mesma raiz de “neqeb” (caverna, buraco, encaixe) e do verbo naqab (furar, perfurar). “Zakar” (macho), por sua vez, vem de uma raiz verbal que significa “fazer um marco/coluna” (um memorial). Os “memoriais” de pedra, chamados de "zikron" (Is 57,8) ou “matzebah” (Gn 28,22), ao que tudo indica, eram símbolos fálicos (como obeliscos egípcios). 

Meu palpite é que o verbo “zakar” (erguer um marco) foi usado inicialmente para indicar o ato de erguer um "zikron" ou “matzebah”. Por desdobramento, passou a ser usado como “relembrar” (não é essa a função dos marcos?). O verbo foi convertido em substantivo designativo do macho ou por sua relação com a ação de erguer (alusão ao pênis ereto) ou por sua relação com o zikron/matzebah (símbolo fálico).

Assim, na origem dos termos, a fêmea (neqebah) teria sido pensada como “aquela que possui a cavidade” (caverna) e o macho (zakar) como “aquele que penetra na cavidade” (memorial, falo).



Jones F. Mendonça

sábado, 27 de abril de 2019

PULSÃO, ÓDIO, PAIXÃO, TRANSBORDAMENTO

O verbo “transbordar”, em hebraico, é “SHUQ”. Ele aparece, por exemplo, em Jl 2,24: “os lagares transbordarão (shuq) de vinho”. Um substantivo derivado deste verbo é “teSHUQah”, encontrado em apenas três passagens: “e para teu marido estará a tua teshuqah” (de Eva em relação a Adão; Gn 3,16), “à porta está estendido o pecado e contra ti está a teshuqah dele” (do pecado em relação a Caim; Gn 4,7) e “eu sou do meu amado e sobre mim está a teshuqah dele” (do amado em relação a amada; Ct 7,10). O termo designa uma pulsão, um desejo. Por alguma razão (que não é difícil compreender) os hebreus viam essa excitação (positiva ou negativa) como um “excesso”, como um “transbordamento”.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 24 de abril de 2019

DO NIILISMO HERMENÊUTICO


A imagem de um copo com 50% de seu volume ocupado por água tem sido usada para legitimar a filosofia relativista que sugere ser impossível descrever a realidade de forma objetiva. Afinal, um copo nesta condição está “meio cheio” ou “meio vazio”? A resposta é simples: se a situação foi alcançada após o enchimento do copo, então está meio cheio. Se foi alcançada após seu esvaziamento, então está meio vazio. A resposta está na história do copo. Sem sua história temos apenas um copo preenchido com água até a metade.


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 15 de abril de 2019

GÊNESIS 2: NÃO É “ALMA VIVENTE”, É “GARGANTA VIVA”

O capítulo 2 do Gênesis descreve a criação do homem a partir de um punhado de terra. Ele ganha vida quando Javé Elohim (o Criador) sopra em suas narinas sua neshemah (seu “hálito”). Esse hálito passa por sua néfesh (garganta) e lhe dá vida. Uma tradução honesta nos permite visualizar a cena:
Então Javé Elohim modelou o homem com a argila do solo,insuflou em suas narinas um hálito (neshemah) de vida
e o homem se tornou uma garganta (néfesh) viva (Gn 2,7).
O corpo sem vida torna-se “garganta viva” (e não “alma vivente”). Isso significa que a partir da recepção do hálito divino ele respira, fala, grita, come, bebe, deseja. A ideia de que o corpo que é habitado por uma “alma” ou por um “espírito” é estranha à tradição judaica. O corpo é simplesmente animado pelo hálito (neshemah) ou sopro (ruah) divino. Caso o Criador recolha sua neshemah/ruah, o homem volta a ser pó.

Note que os dois termos aparecem como sinônimos em Jó 34,14-15:

Se levasse de novo a si a sua ruah (“sopro” e não “espírito”), 
se concentrasse em si a sua neshemah (“hálito”, sinônimo de “sopro”)
expiraria toda a carne no mesmo instante,
e o homem voltaria a ser pó.

Eclesiastes reforça essa ideia quando diz que o pó (referindo-se ao corpo) volta à terra e a “ruah” (o sopro divino) volta ao Criador por ocasião de sua morte (Ecl 12,7). Ainda não há qualquer indício de vida eterna. Eclesiastes diz claramente que os mortos não têm recompensa, nem memória (9,5), nem reflexão, nem sabedoria (9,10). A doutrina da vida eterna é desenvolvida aos poucos e só aparece claramente em Dn 12,2:
E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno.
Repare que o texto não fala da “imortalidade da alma” (uma crença grega presente nos escritos de Platão, como no “Fédon”), mas da ressurreição DO CORPO. Aliás, o credo de Niceia (325 d.C.) reafirma a crença na ressurreição com muita clareza: “Esperamos a ressurreição dos mortos; e a vida do mundo vindouro”.



Jones F. Mendonça

domingo, 14 de abril de 2019

JEROBOÃO E SISAQUE/SHESHONQ

Apresento aqui um resumo de matéria publicada no Haaretz (por Ariel David, 14/04/19) sobre a incursão do faraó Sisaque em Canaã e sua possível relação com a formação do reino do Norte: 

De acordo com a Bíblia, no quinto ano do reinado de Roboão (por volta de 925 a.C.), um faraó chamado Sisaque (ou Sheshonq) atacou Jerusalém, saqueou a cidade e “tirou os tesouros da casa de Javé e os tesouros da casa do rei”(1 Reis 14,25-26). 

Um texto em Karnak e um bloco de pedra encontrado em Megido mostram que a campanha não foi uma simples incursão, mas um esforço muito mais amplo para restaurar a hegemonia do Egito sobre Canaã e outros territórios que haviam sido governados pelos faraós durante o Império Novo (do século 15 a.C. ao século 12 a.C.).

É apenas uma teoria, mas o arqueólogo israelense Israel Finkelstein apresenta várias pistas que sugerem que o nascimento do Reino do Norte de Israel foi o resultado de arranjos políticos organizados por Sheshonq no rescaldo de sua campanha. Uma das principais peças desse jogo político seria Jeroboão. 

Jeroboão, primeiro rei do Norte, é descrito como um oficial que liderou uma rebelião fracassada contra Salomão e encontrou refúgio na corte de Sisaque para escapar da ira do rei israelita (1 Reis 11). Ele então retornou a Canaã ao ouvir falar da morte de Salomão e liderou o povo contra Roboão, formando o reino do Norte (1 Reis 12).

Na Septuaginta, primeira tradução grega da Bíblia, existem versículos adicionais sobre a permanência de Jeroboão no Egito que não foram incluídos no texto hebraico canônico. Nesta versão, a conexão de Jeroboão a Sisaque/Sheshonq é ainda mais forte: ele se casa com a cunhada do faraó, que lhe dá um filho. A história talvez contenha uma memória histórica. 

Para resumir a teoria de Finkelstein, o nascimento do Reino de Israel pode ter acontecido assim: Sheshonq seguiu para Canaã, viu os habitantes arrogantes das terras altas como uma ameaça, então os conquistou e instalou um governante vassalo sobre eles: Jeroboão.


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 11 de abril de 2019

SOBRE O VERBO HEBRAICO "HUL"

Uma das características mais curiosas da língua hebraica é a quantidade de sentidos que uma palavra pode indicar. O verbo “hul”, por exemplo, pode ser traduzido por “esperar”, “angustiar-se”, “dançar”, “sentir dor”, “gerar (um filho)”, “se contorcer” ou “girar”. Parece estranho, mas há uma explicação para isso.

“Hul” indica, em seu sentido mais primitivo, um movimento circular. Por desdobramento pode designar algo que se contorce. Isso explica o uso do verbo para indicar uma ESPERA ANGUSTIANTE ou a o ato de GERAR UM FILHO, pois nessas condições temos a sensação de que nosso ventre de contorce. Veja:

Ele ESPEROU (no original, “contorceu-se”) ainda outros sete dias e soltou de novo a pomba fora da arca (Gn 8,10).

Olhai para Abraão, vosso pai,
e para Sara, aquela que vos DEU À LUZ (no original, “se contorceu”, cf. Is 51,2).

Em alguns casos o verbo é usado para indicar o movimento corporal de uma dança:

Espiareis e, logo que as filhas de Silo saírem para DANÇAR (no original, “se contorcer”) em seus bailados... (Jz 21,21)”.

Você percebe que encontrou o sentido original de uma palavra hebraica quando ela se encaixa em todos os textos em que aparece. E esse sentido não é encontrado em dicionários, mas pela investigação do termo em diversos textos e pela busca da raiz da palavra. Um exercício divertido.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 5 de abril de 2019

SEXO E GÊNERO NO LEVÍTICO

Neste artigo, publicado no The Torah, a Dr. Kristine Henriksen Garroway sugere que o período de purificação da mãe no Levítico (12,1-7), diferenciado para o nascimento de meninos (40 dias) e meninas (80 dias), servia como uma espécie de anúncio ritual do gênero, tal como ocorria na civilização hitita.


Embora entre os hititas o período também seja diferenciado, não indicava o tempo de purificação da mãe, mas o espaço de tempo entre o nascimento e a oferta (chamada de “mala”). Veja:

Q“[uando a mulher] dá à luz, [...] eles realizam a oferta de mala […] do recém-nascido [macho] no sétimo dia”.

“Mas [se] uma criança feminina nasce, [então] daquele mês eles contam [quarto] meses de [arriv] e então eles purificam a criança do sexo feminino...”.

Na civilização ocidental moderna fazemos a diferenciação ritual de gênero vestindo machos com azul e fêmeas com rosa. A cor indica o papel social desejado pelos pais.

Leia mais aqui


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 4 de abril de 2019

PODCAST COM RAPOSA ESCATOLÓGICA

Embora o primeiro podcast brasileiro tenha surgido em 2004, só agora (15 anos depois) fui seduzido por essa nova forma de adquirir conhecimento. Para quem se interessa por teologia, indico “oestadodaarte.com.br”. Hoje, enquanto fazia minha caminhada matutina (até encontrei uma raposa!), ouvi “O livro do Apocalipse”, com a participação de José Adriano Filho, Kenner Terra e Paulo Nogueira. O áudio dura 58 minutos, por isso acabei caminhando mais do que o normal. 



Jones F. Mendonça

domingo, 17 de março de 2019

A TÚNICA DE JOSÉ: COLORIDA, ADORNADA OU LONGA?

A Bíblia, na versão João Ferreira de Almeida, apresenta Jacó dando a José uma “túnica de várias cores” (Gn 37,3). Na Bíblia de Jerusalém a túnica não é “colorida”, mas “adornada”. Na NVI a túnica não é colorida nem adornada, mas “longa”. Quem tem razão?

No texto hebraico consta “ketonet passiym”, onde ketonet indica claramente uma “túnica” ou “manto”. Passiym é plural de “pas”, termo que só reaparece em 2 Samuel 13,18-19, qualificando a túnica de Tamar, filha do rei Davi. O texto diz que este tipo de veste era especial, reservado à realeza.

É difícil saber com certeza se a tradução correta de “passiym” é “colorido” ou “longo”. Certo mesmo é que sendo a túnica uma vestimenta especial, reservada à realeza, não fica difícil entender a razão do descontentamento dos irmãos de José.

Repare que no sonho que vem em seguida (37,5-11) José aparece dominando seus pais e irmãos. Assim, o manto real recebido no verso 3 parece muito apropriado.

Em tempo: A Septuaginta (versão grega da Bíblia) traduz “passiym” por "poikilos" = algo com aspecto "múltiplo". A palavra grega reaparece em 1Pe 4,10: "despenseiros da MULTIFORME graça de Deus" (1Pe 4,10). Talvez por isso a Bíblia de Jerusalém - seguindo a LXX? - tenha traduzido o termo hebraico por "adornado", ou seja, "dotado de múltiplas formas".

Jones F. Mendonça

quinta-feira, 14 de março de 2019

MOISÉS, ZÍPORA E O PINGOLIM MUTILADO

Ex 4,25 diz que Zípora tomou uma pedra afiada e cortou o prepúcio de seu filho. Na sequência ela lança o prepúcio “aos pés de Moisés” (Almeida Atualizada). Mas na Bíblia NVI Zípora não lança o prepúcio cortado. Ela “toca os pés de Moisés” após a pequena incisão (com que finalidade!?). A Bíblia de Jerusalém apresenta outra versão: Zípora teria “ferido os pés do menino” (uma ação igualmente estranha!). Temos, assim, três versões:

1. Zípora “lança o prepúcio aos pés de Moisés” (Almeida);
2. Zípora corta o prepúcio e “toca os pés de Moisés” (NVI);
3. Zípora “fere os pés do menino” (Bíblia de Jerusalém).

Está confuso? Afinal quem tem razão? Fiz uma tradução bem literal:

“E tomou Tziporah uma tzor (um tipo específico de pedra) e cortou o prepúcio do filho dela. TOCOU os PÉS dele (do menino ou de Moisés?) e disse: certamente marido de sangue és tu!”.

Ocorre que “pés” ser usado, alguns casos, como eufemismo para os órgãos genitais. Minha proposta de tradução:
“E tomou Zípora uma pedra afiada e cortou o prepúcio do seu filho. Tocou o pingolim dele (do menino, que neste momento está ensanguentado) e disse: certamente marido de sangue és tu!”.


Jones F. Mendonça

INSULTO E DEBOCHE NA BÍBLIA HEBRAICA

Estamos no ano 701 a.C. O rei assírio Senaqueribe cerca Jerusalém. A fome e a sede levam o povo ao desespero. Um oficial assírio aproxima-se do aqueduto da cidade e de lá começa a insultar o rei Ezequias, sua corte, seu exército e o povo da cidade. Diz, em bom hebraico e em tom de deboche, que o cerco os obriga a “beber a água dos próprios pés” (2Rs 18,27).

Dificilmente você vai encontrar uma tradução como essa: “beber a água dos próprios pés”. A razão é simples: poucos entenderiam seu significado.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 12 de março de 2019

COMO "ELISABET" CONVERTEU-SE EM "ISABEL"

Embora o nome da mãe de João Batista seja grafado como ISABEL nas Bíblias em português (Lc 1,7), seu nome em grego é ELISABET. Mas por que o nome foi mudado?

Bem, Elisabet é a forma grega do hebraico Elishebá' (esposa de Arão – Ex 6,23 - significa "meu Deus jurou"). O nome é formado a partir da junção de um substantivo próprio, um pronome possessivo e um verbo. Veja:

El="Deus"
i=sufixo pronominal "meu".
Shebá'="jurou"

Por por algum motivo o substantivo "El" (Deus) foi para o final da palavra. Assim, ELishebá’ converteu-se em IshebaEL (aproximando-se foneticamente de Isabel). 

Não tenho a mínima ideia da razão que provocou a mudança na posição do “El” em nosso idioma. O nome aparece grafado corretamente nas versões inglesa e latina:

“And they had no child, because that ELISABETH...”(KJV).
“et non erat illis filius eo quod esset ELISABETH...”(Vulgata).


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 11 de março de 2019

"ÁGAPE" NÃO É "AMOR INCONDICIONAL"

Alguém inventou que o substantivo grego “ágape” e o verbo “agapao” expressam um tipo de amor singular, incondicional. A coisa vem sendo repetida ao longo dos anos de forma sistemática. A verdade é que o termo ganha sentidos diferentes tanto no Novo Testamento quanto na literatura grega secular. Um exemplo do uso do verbo "agapao" com sentido de apego às coisas terrenas aparece em 1Tm 4,10: “pois Demas, amando (agapao) este mundo, abandonou-me e foi para Tessalônica”. Neste verso, “agapao” não expressa nem um amor divino nem um amor incondicional. Cai o mito.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 7 de março de 2019

O LÍBANO, O FOGO E O ALTAR

Isaías 40, em seu capítulo dezesseis, exalta o poder divino com os seguintes versos:

A. O Líbano não bastaria para queimar, 
B. nem a sua fauna para um holocausto.

Você seria capaz de dizer que tipo de imagem o texto está evocando?

Algumas versões, como a NVI, entendendo que o escritor sagrado está se referindo, no primeiro verso, às FLORESTAS DO Líbano e ao fogo DO ALTAR, traduz a linha “A” assim:

A. “Nem as FLORESTAS do Líbano seriam suficientes para o fogo do ALTAR”.

As palavras “florestas” e “altar” não aparecem no texto original, mas estão implícitas. Versões populares costumam dar uma ajudazinha aos leitores pouco familiarizados com a poesia e costumes judaicos.

O texto quer dizer o seguinte: nem toda a flora e fauna do Líbano seriam suficientes para fornecer lenha e carne para um holocausto compatível com a grandeza divina.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 5 de março de 2019

A BÍBLIA E SUAS TRADUÇÕES: "OLAM" NÃO É "ETERNIDADE"

Em Jeremias 25,9, o profeta diz que Judá e Jerusalém serão objetos de escárnio e ruínas “perpétuas” (do hebraico, "olam"). Mas sabemos que a cidade de Jerusalém foi reconstruída! Em 25,12 a Babilônia recebe o mesmo destino: o texto diz que a cidade dos caldeus (Babilônia) se converterá em desolação “eterna” (olam). A explicação é simples: a tradução de “olam” por "eternamente", é equivocada.

"Olam", quando não precedido de preposição, indica que algo tem duração longa ou está distante no tempo, tanto para o futuro como para o passado. Um exemplo: Em Malaquias 3,4 é dito que a oferta de Jerusalém e Judá serão como nos dias “olam”, ou seja, como nos dias "distantes” ou "antigos" (como em Is 64,4).

Talvez você esteja se perguntando a respeito de Eclesiastes 3,11: “Deus colocou a eternidade (olam) no coração do homem...”. A Bíblia de Jerusalém traduz corretamente: “colocou no coração do homem o conjunto de tempo”. Da mesma forma a Bíblia TEB: “o sentido do tempo”. Olam, expressa duração – passado ou futuro – nunca eternidade.



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

ELIAS NO CARMELO E O TROPEÇO DEUTERONOMISTA

O livro do Deuteronômio, em seu capítulo 12, verso 3, determina que após a posse da terra os sacrifícios só deveriam ser feitos no local escolhido por Javé. O local finalmente é escolhido no reinado de Salomão: a cidade de Jerusalém (1 Rs 8,16).

Ora, se a partir da construção do templo por Salomão os sacrifícios precisavam se concentrar unicamente em Jerusalém, como explicar a presença de Elias no monte Carmelo, fazendo um sacrifício a Javé (1 Rs 18,30-32)? Reis como Acaz, Asa, Josafá e Joás foram criticados por descumprirem essa ordenança. Mas Elias não sofre qualquer reprimenda. Não é estranho?

Os rabinos quebraram a cabeça para desvendar este mistério. Mas a abordagem histórico-crítica é a que mais faz sentido. Saiba mais sobre o assunto lendo o artigo “Was Elijah Permitted to Make an Offering on Mount Carmel?”, escrito por David Glatt-Gilad e publicado no TheTorah.com.


Jones F. Mendonça


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

DAS TRADUÇÕES

Para que você tenha ideia do quão complexa é a tarefa de traduzir o Antigo Testamento, saiba que das 8000 palavras hebraicas que compõem o texto - de Gênesis a Malaquias -, 2000 aparecem uma única vez. Como saber o significado desses termos?

Dou um exemplo. Em Is 3,16 as “filhas de Sião” são descritas “caminhando e ‘tafof’”. Mas o que é “tafof”? Sabemos que é um verbo e que é uma provável derivação do substantivo “taf”, que significa “criança”.

Assim, por dedução, os tradutores geralmente traduzem o verbo como sendo uma alusão ao modo como as crianças andam. Veja:

...desfilando com PASSOS CURTOS (NVI)
...caminhando a PASSOS SALTITANTES (Bíblia TEB)

Em alguns casos, o contexto pode nos ajudar a entender o sentido exato do verbo, mas neste exemplo, tanto “passos curtos” como “passos saltitantes” se encaixam no contexto. Aliás, caso tenhamos em mente a imagem de uma criança andando, a expressão "passos ligeiros" também se apresentaria como uma opção viável.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

AS PIRIGUETES DE SIÃO

Em Isaías 3,16 o profeta descreve as “filhas de Sião” – símbolo da riqueza e arrogância da corte – como “altivas”, “de pescoço erguido” e “olhares maliciosos”, que “saltitantes”(?) em seu caminho, fazem “tilintar”(?) seus pés. Tal arrogância exige um oráculo de punição, que vem no verso seguinte (v.17). O texto é de difícil tradução:

A. Adonay UNIRÁ o topo da CABEÇA das filhas de Sião, 
B. Javé DESNUDARÁ suas “POTAH” (literalmente: “dobradiças”!?).

Muitas das palavras hebraicas que compõem este texto (marcadas com a interrogação) aparecem uma única vez em todo o Antigo Testamento (são chamadas de hápax legomenon). Isso torna o trabalho do tradutor uma tarefa quase impossível.

No verso B, o termo hebraico “potah”, geralmente traduzido por “vergonha” ou “nudez”, só reaparece em 1Rs 7,50, aparentemente se referindo às dobradiças da porta. Se os tradutores estiverem certos, é a primeira vez que “dobradiça” (o termo é “pot”) aparece como metáfora para as “partes íntimas”.

Em casos como este uma das soluções possíveis é consultar uma tradução do texto hebraico para outro idioma, como o grego, realizada nos II século a.C. por judeus que (em tese) ainda conheciam o significado dessas palavras. Mas nós temos um texto grego, com datação suficientemente antiga? Sim, temos duas versões preservadas em grego datadas para o IV século: o Códice Sinaítico e o Códice Vaticano. 

Bem, vou dar uma olhada na LXX. Se os resultados forem frutíferos, publico outro post.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

QODESH, QADESH/QADESHAH: SOBRE SODOMITAS E PROSTITUIÇÃO CULTUAL

Há, no hebraico, duas palavras muito parecidas: qodesh (Ex 16,23) e qadesh (Gn 38,21; Dt 23,17). A primeira geralmente é traduzida por “santo” e a segunda por “prostituto cultual”. A razão da semelhança entre as palavras é simples: ambas servem para designar uma pessoa que desempenha função considerada sagrada (“separada” do profano).

Mas a expressão “prostituto(a) cultual” como tradução para a palavra qadesh (na forma feminina = “qedeshah”) não me parece adequada. Algumas Bíblias registram um erro grave: associam os termos “qadesh/qedeshah” à “sodomita”, palavra descaradamente inventada. Aliás, o termo “sodomita” deveria ser riscado das Bíblias (tanto no AT como no NT).

Aos interessados no assunto, sugiro duas obras:

L. K. McLure and C. A. Faraone (Eds), Prostitutes and Courtesans in the Ancient World. Madison, Wisconsin: University of Wisconsin Press, 2006.

Stephanie Budin, The Myth of Sacred Prostitution in Antiquity. New York: Cambridge University Press, 2008.


Jones Mendonça

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

OS PROFETAS NA HISTÓRIA


O livro do profeta Zacarias, com DOZE capítulos, foi classificado como “Profeta Menor”. O livro de Lamentações, com apenas CINCO capítulos, foi classificado como um “Profeta Maior”. Tanto Daniel como Zacarias têm doze capítulos, mas o primeiro recebeu o status de “Profeta Maior” e o segundo de “Profeta Menor”. Não faz sentido.

O responsável por essa divisão aparentemente sem sentido: Agostinho de Hipona (séc. V). Bem, ele até tinha lá suas razões: Na LXX Daniel tem quatorze capítulos e Lamentações é atribuído a Jeremias, um "Profeta Maior". Uma divisão mais útil e didática deveria levar em conta a ordem cronológica dos livros. O quadro acima exige algumas explicações, mas talvez ajude. Nele não aparecem nem Lamentações nem Jonas. A razão: nenhum deles pertence ao gênero profético.



Jones F. Mendonça