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quarta-feira, 28 de março de 2018

A PERSONIFICAÇÃO DA SABEDORIA DIVINA NOS GATHAS IRANIANOS

Investigo o recurso literário da personificação da sabedoria (hokhmah), fenômeno que aparece em Provérbios 1-9, em Jó 28, na Sirácida 24, na Sabedoria de Salomão 7; 18, em Baruc 3 e numa interpolação presente no capítulo 42 do livro apócrifo de Enoque etíope. Interessa-me a origem desse recurso e sua relação com o prólogo do evangelho de João.

Há quem sugira uma influência egípcia (Isis, Maat), canaanita (Asherah) ou mesopotâmica (Astarte, Innana). Mas não encontrei textos religiosos produzidos por tais povos capazes de justificar qualquer orientação nesse sentido (você pode consultar uma coleção deles num trabalho organizado por James Pritchard em “Ancient Near Eastern Texts Relating to the Old Testament”).

W. Bousset indicou um caminho diferente: o Irã. De forma mais específica, a personificação de um atributo divino estaria presente nos Gathas, poemas atribuídos a Zaratustra (profeta persa do século VII a.C.). Nos Gathas o “Espírito Benevolente” (Spenta Mainyu) emana do “Senhor da Sabedoria” (Ahura Mazda) e opera em todos os aspectos da existência. Ele age nos homens, instruindo-os.

O problema é que esses textos foram transmitidos de forma oral por séculos, até ganharem a forma escrita (como saber se os textos não foram contaminados com outras crenças?). Outro problema é a tradução (foi escrito em dialeto gáthico, idioma de difícil tradução). Ainda assim penso que seja uma boa pista.

É possível ler 17 capítulos dos Gathas no Zaratustra.com (a tradução para o inglês é obra de Mobou Firouz Azargoshasb). Leia sobre os Spenta Mainyu nos Gathas aqui.  Sobre possíveis conexões entre o zoroastrismo e a Bíblia Hebraica aqui e uma introdução aos Gathas e a tradução de 17 capítulos para o inglês aqui.


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 12 de março de 2018

SOBRE "EROS", "ÁGAPE", "PHILEO" E FIRULAS

Ora, se “ágape” é empregado no NT para expressar o amor mais elevado, incondicional, como muitos insistem, como explicar o uso da palavra neste lamento de Paulo: “Pois Demas me abandonou por amor (ágape) ao mundo presente” (2Tm 4,10). O termo correto não deveria ser “eros”, supostamente - como dizem - “amor egoísta, carnal”?

E se o NT, de fato, faz distinção entre “ágape” (amor incondicional, divino) e “fileo” (amor fraternal, de amigo), como explicar o uso de “fileo” aqui: “pois o próprio Pai vos ama (fileo, Jo 16,27). É verdade que há preferência pelo “ágape” nas relações entre o humano e o divino no NT, mas na prática, “ágape” e “fileo” são intercambiáveis, como no diálogo entre Pedro e Jesus em Jo 21,15-17.

Não há ocorrência do “eros” no NT. Mas a demonização do termo só aparece nos textos dos primeiros padres (nas palavras de Nietzsche, o cristianismo “envenenou o eros”.). Veja o que diz Santo Inácio, por exemplo: “O meu amor (eros) foi crucificado e não há em mim fogo de paixão. [...] Não me atraem o alimento de corrupção e os prazeres desta vida” (Carta aos Romanos, 7,2). Ratzinger acata em parte a crítica nietzschiana em sua “Carta Encíclica Deus Caritas Est”.

Um exercício simples, mas muito útil para desmascarar equívocos cristalizados pela repetição: escolha uma palavra (grega ou hebraica) e localize todas as suas ocorrências no texto bíblico. O contexto vai denunciar a farsa. Não confie em dicionários.


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 9 de março de 2018

SACERDOTISAS NO ANTIGO ISRAEL

O Antigo Testamento apresenta algumas mulheres exercendo certo tipo de liderança no âmbito da família e da sociedade. A mãe de Mica governava seu lar (Jz 17); Abigail tomou a iniciativa para salvar sua casa (2Sm 25); Débora exerceu o papel de juíza e profetiza (Jz 5); Joabe encontrou uma mulher “sábia” (hakhamah) em Teqoa, hábil com as palavras (2Sm 14,2) e Jeremias (9,15) descreve uma “sábia” dotada de uma qualidade semelhante; Huldá, uma profetiza (2Rs 22,14), aparece sendo consultada por altos funcionários do Estado; O domínio exercido por Jezabel sobre seu marido, o rei Acab, é ressaltado com força no livro dos Reis (1Rs 21,15).

Mas não é estranho que o AT simplesmente não mencione mulheres exercendo o sacerdócio? Ada Taggar-Cohen investiga esta questão no The Torah (note que a autora tem “Cohen” = sacerdote, em seu nome). 


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

CARVALHOS E TEREBINTOS

Foto:  Shmuel Browns

A imagem acima mostra um terebindo verdejante em contraste com o solo seco do deserto do Neguev, região semiárida que ocupa cerca de 60% da terra de Israel. O terebinto, ao lado do carvalho, era buscado como local para sacrifícios: 

Meu povo consulta o seu pedaço de madeira...
Eles se prostituem...
Debaixo do terebinto...
Pois a sua sombra é boa. (Os 4,12-13).

Muitas fotos de Israel em alta resolução, aqui.


Jones F. Mendonça

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

A ESTRELA DE BELÉM E O MAGO TUPINANBÁ


O relato da visita dos magos, inserido no início do primeiro evangelho (Mt 2), pretende destacar o caráter messiânico (e universalista) de Jesus. São nítidos os paralelos entre a postura dos “magos do Oriente” e a do “Mago Balaão” em Nm 23.

Balaão, como os magos de Mateus, reconhece o futuro de Israel como “reino exaltado” (Nm 24,7) do qual “procederá uma estrela” que “destruirá os filhos do orgulho” (Nm 24,17). O Herodes de Mateus, que não é bobo, entendeu o recado.

No início do século XVI, no embalo do êxito das conquistas no além-mar, a arte cristã portuguesa viu no relato da visita dos magos um oportuno instrumento de cristianização do imaginário indígena.

Nesta tela de Vasco Fernandes (1501-6), um dos magos (Baltazar), outrora representado como negro, aparece na figura de um ameríndio tupinambá!



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

AS ORIGENS DO MONOTEÍSMO ISRAELITA

Em seu livro “The Origins of Biblical Monotheism: Israel's Polytheistic” (Oxford / New York: Oxford University Press, 2001), indisponível em português, Mark S. Smith procura demonstrar como o politeísmo foi uma característica da religião israelita até o fim da Idade do Ferro e como surgiu o monoteísmo nos séculos VII e VI.

De acordo com Mark Smith, declarações monoteístas claras somente podem ser notadas a partir do século VII, em textos como Dt 4,35.39; 1Sm 2,2; 2Sm 7,22; 2Rs 19,15.19 (= Is 37,16, 20); Jr 16,19-20 e a porção do século VI de Is 43,10-11, 44,6-88; 45,5-7; 14,18.21 e 46,9. A pergunta que ele se propõe a responder é: por que o século VII?

Smith inicia sua argumentação a partir da análise de textos religiosos uragíticos (religião cananeia), cujo politeísmo estava estruturado em quatro níveis: 1) El/Asherah (o deus principal e sua esposa); 2) Setenta filhos divinos (Baal, Astarte, Anate, etc.); 3) Kothar wa-Hasis (o ajudante principal); e 4) Os servos da casa divina (que a Bíblia trata como mensageiros).

De acordo com sua análise, inicialmente Javé teria sido visto pelos israelitas como um dos setenta filhos de El, cada qual cumprindo o papel de divindade patronal de setenta nações. Tal crença, destaca Smith, foi preservada nos manuscritos hebraicos mais antigos de Dt 32,8-9 (Qumran). Nesta passagem, El é apresentado como chefe da família divina, e cada membro dessa família (os bney Elyim) recebe uma nação sob sua tutela. Nessa partilha Israel é considerado “porção de Javé” (32,9). Outro exemplo citado pelo autor é o Sl 82.

Em algum momento do período monárquico tardio Javé passou a ser identificado com El e, por conseguinte, como marido de Asherah. Esta visão religiosa aparece, por exemplo, no Salmo 29,1-2, texto que convida os “filhos de Deus” (bney Elyim) a adorarem a Javé, o Rei Divino. Os outros deuses/mensageiros tornaram-se simples expressões do poder de Javé. Em outras palavras, o deus principal tornou-se a divindade única. Mas por que neste momento? 

Smith indica dois conjuntos de mudanças. O primeiro estaria ligado a uma série de transformações na estrutura social das famílias. A “família extensa” como principal unidade social deu lugar a um “sistema de linhagem menor”. A noção de responsabilidade também teria mudado de “coletiva” (Acã em Js 8) para “individual” (Dt 26,16; Jr 31, 29-30; Ez 18). Ele conclui: “O surgimento do indivíduo como uma unidade social ao lado da unidade familiar tradicional proporcionou inteligibilidade ao surgimento de um deus único e não de uma família divina”. 

O segundo grande conjunto de condições estaria relacionado ao surgimento de dois grandes impérios: o neoassírio e o neobabilônico. A partir da queda se Samaria em 722 a.C. e de Jerusalém em 586 a.C., a ideia de do “deus patrono” não poderia mais se sustentar, exceto se se admitisse que Javé não era um deus tão poderosos como vinha sendo anunciado. O monoteísmo resolveu esse problema argumentando que, apesar da fraqueza do povo, seu deus não era fraco, mas Senhor de tudo.

Os monoteístas de Israel agora raciocinavam que Javé estava no topo do poder divino, e, correspondentemente, os deuses da Mesopotâmia não eram nada. O exílio passou a ser visto como o plano de javé para punir e purificar a única nação que o Senhor havia escolhido. Por conseguinte, passou a ser difundida a ideia de um “ungido de Javé” não judeu (Ciro, o persa, cf. Is 44,28, 45,1), como tradicionalmente era pensado na literatura bíblica mais antiga (ver Sl 2). 

*Resumo feito a partir de artigo publicado em inglês no The Bible and Interpretation.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 7 de novembro de 2017

PODERES CELESTES, PODERES TERRESTRES

Neste artigo, publicado no Jewish Link, Mitchel First discute a respeito do que ele chama de “o parágrafo perdido do livro de Samuel”.

Nos textos hebraicos mais recentes (massoréticos, século X e XI d.C.), o início de 1Sm 11 aparece de uma maneira; nos manuscritos mais antigos (Manuscritos do Mar Morto, séc. III a.C. a I d.C.) o texto aparece de outra forma.

Outra famosa diferença entre o texto massorético e os Manuscritos do Mar Morto (MMM) aparece em Dt 32,8. No texto massorético Javé fixa as fronteiras para os povos segundo “os filhos de Israel”. Nos MMM elas são fixadas segundo “os filhos de Elohim” (“filhos dos deuses”).

A crença na existência de poderes celestes associados a nações reaparece em Dn 10,13: 
Tenho de voltar para combater o Príncipe da Pérsia: quando eu tiver partido, deverá vir o Príncipe de Javã (=Grécia).


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

UMA FALA, QUATRO INTERPRETAÇÕES

Entre os judeus medievais desenvolveu-se uma crença que vê em cada passagem da Bíblia Hebraica (Antigo Testamento) quatro sentidos: 1. Sentido literal (peshat), 2. Sentido alusivo (remez), 3. Sentido interrogativo (drash) e 4. Sentido secreto (sod). O método, chamado de PARDES no século XIII, em boa parte voltado para uma leitura criativa, não foi único. 

João Cassiano (360-435), monge cristão da Cítia (atual Romênia), seguiu por um caminho bastante semelhante: 1. Sentido literal (histórico), 2. Sentido alegórico (alusivo), 3. Sentido tropológico (moral) e 4. Sentido anagógico (celestial). Lutero, no século XVI, rejeitou o método,  tratado por ele como “produto da ignorância” e “bobagem” (WA 2,509,14s).

No Alcorão, de acordo com um comentário místico atribuído ao Imam Ja'far al-Sadiq (702-765 d.C.), também se escondem quatro sentidos: 1. Expressão literal (ibāra); 2. Alusão (ishāra); 3. Sutilezas (laā'if) e 4. Realidade mais profunda (aqā'iq). A expressão literal seria para as pessoas comuns, a alusão para a elite, as sutilezas para os amigos de Deus, e a realidade mais profunda para os profetas.

Para saber mais:
1. O método (PARDES) judaico: WYLEN, Stephen M. The seventy faces of torah, 2001, p. 89. HAUSER, Alan J.; WATSON, Duane F. A History of Biblical Interpretation, 2003, Vol. 2: p.171
2. O método cristão de Cassiano: SCHOLZ, Vilson. Princípios de interpretação bíblica, 2006, p. 85.
3. O método islâmico: Da Spiritual Gems: The Mystical Qur’an Commentary ascribed to Ja’far al-Sadiq as contained in Sulami’s Haqa’iq al-Tafsir, Fons Vitae, 2011.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 3 de outubro de 2017

O JUDAÍSMO E A SERPENTE DO ÉDEN

Certa vez alguém me perguntou a respeito de como os judeus do primeiro século interpretavam a figura da serpente em Gn 3. Expliquei que provavelmente não a viam como representação de Satanás, como fez a tradição cristã no segundo século. Mas fiquei devendo um exemplo.

Abaixo a interpretação alegórica feita por Filon de Alexandria (25 a.C. – 50 d.C.):
Deus, que criou todos os animais na terra, arranjou esta ordem muito admiravelmente, pois ele colocou a mente em primeiro lugar, isto é, homem [...]; depois o sentido externo, isto é, a mulher; e, seguindo a ordem regular, chegou ao terceiro, o prazer [...] representado sob a forma da serpente, pois assim como o movimento da serpente é cheio de muitas sinuosidades e variações, assim também é o movimento do prazer (Interpretação alegórica II, 74).
Bem, a razão para a escolha da mulher como alvo da serpente é explicada em outro texto (as mulheres não vão gostar!):
a mente da mulher é mais afeminada, de modo que através de sua suavidade facilmente é enganada e capturada por convicções falsas que imitam a verdade (Perguntas e respostas sobre Gênesis I, 34).



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

O DEUTERONÔMIO E OS TRATADOS DE ESARHADDON

No âmbito acadêmico é amplamente aceita a ideia de que o livro do Deuteronômio, em uma forma mais primitiva, constitui uma apropriação subversiva da ideologia imperial neo-assíria a favor de um teocentrismo javista: um texto deliberadamente concebido para minar a autoridade do rei assírio colocando YHWH em seu lugar [sob Ezequias? Manassés? Josias?].

Tal suspeita tem suas raízes no reconhecimento praticamente consensual das semelhanças entre os elementos do Deuteronômio - especialmente os capítulos 13 e 28 - e os tratados vassalos e juramentos assírios de fidelidade, com especial incidência no Tratado de Sucessão de Esarhaddon, comumente denominado VTE.

O livro em destaque, disponível gratuitamente para download no site da SBL, pretende apresentar alguns pontos frágeis dessa teoria. As bases de suas críticas: 1. O sucesso da subversão exige que a audiência reconheça a relação entre o texto subversivo e a fonte que pretende subverter; 2. Nem Dt 13 nem Dt28 usam palavras ou frases de VTE com a precisão necessária para tornar esse relacionamento reconhecível. Boa leitura!


Jones F. Mendonça

terça-feira, 22 de agosto de 2017

SEIS OU NOVE

Tonta diz que é um seis. Louca grita que é um nove. Bobinho insiste na tese de que a verdade tem muitas faces, que ambas têm razão. Vero examina a placa, olha o seu verso, percebe uma pequena alça numa das extremidades mais largas e dispara: considerando a intenção de quem o projetou, é um seis. Moral da história: fora do contexto as verdades são líquidas. No contexto as verdades são sólidas. O resto é conversa fiada.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 15 de agosto de 2017

OS RABINOS, O FRANGO E O QUEIJO

Uma das mais conhecidas leis kosher (regra de alimentação judaica) proíbe o consumo de leite e carne numa mesma refeição. Tal restrição baseia-se em Dt 14,21 “Não cozerás um cabritinho no leite de sua mãe”.

Filon de Alexandria, judeu helenista do primeiro século, leu a restrição de forma literal e a compreendeu como tendo caráter ético: um animal jovem não deve ser cozido no leite de sua própria mãe porque tal atitude demostraria falta de misericórdia e decência (Virtudes 141-144). Bem, se isto é certo, por que a Torah não proíbe a ingestão de ovos e carne de galinha numa mesma refeição? A lógica não seria a mesma?

A tentativa de justificar racionalmente alguns preceitos da Torah ainda faz sucesso hoje, embora as explicações careçam de fundamento sólido. É o que fazem, por exemplo, com a carne de porco, cuja condenação, em Lv 11,7, seria explicada pelos (questionáveis) malefícios que a carne suína traz ao corpo. É preciso lembrar que além da carne de porco, também é proibida a ingestão da carne de lula, camarão, siri, cação, e outros animais aquáticos sem escama ou barbatana.

As escolas de Shammai e Hillel levantaram novas questões: será que é permitido ingerir derivados do leite com carne? Mais que isso: será que podem ser postos à mesa juntos durante a refeição? Em M. Hullim 8,1 o tema é discutido. A carne em questão é a de galinha:
A galinha pode subir à mesa com queijo, mas pode não ser comida. Estas são as palavras da casa de Shammai. Mas a Casa de Hillel diz: Não pode subir à mesa, nem ser comida...

Caso queira ler as discussões rabínicas a respeito a ingestão de leite e carne numa mesma refeição, leia este artigo publicado na The Torah.


Jones F. Mendonça

sábado, 12 de agosto de 2017

IBN EZRA E A AUTORIA MOSAICA DO PENTATEUCO

No século XII um judeu chamado Ibn Ezra fez uma série de comentários expondo sete textos do Pentateuco que se lidos com atenção indicam uma autoria não mosaica.  

Ibn Ezra expõe seus argumentos de maneira obscura (temia reações iradas dos mais conservadores), mas sua argumentação foi claramente explicada por outro judeu, R. Joseph ben Eliezer Bonfils, no final do século XIV.

Não conheço nenhum livro que transcreva os comentários de Ibz Ezra em sua integridade. Neste artigo, publicado no The Torah, é possível ler seu trabalho crítico em hebraico e inglês. Uma raridade. Leia aqui.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

SAUL, SAMUEL, A SIRÁCIDA E BALBUCIADORA DE ENDOR

Em 1Sm 28 Saul consulta uma mulher, mestre balbuciadora (28,7), a fim de que lhe anuncie o futuro. Saul pede para que a mulher traga Samuel dos mortos e a mulher, surpresa(?), vê um elohim, com a aparência de velho, subindo da terra (vv. 13-14). Por fim Saul percebe que se trata de Samuel.

Difícil saber exatamente o que tem em mente o autor do texto. Javé teria feito Saul violar um de seus mandamentos a fim de lhe pregar uma peça? Seria um demônio, como pensavam alguns pais da igreja? Certo mesmo é que no segundo século a.C. a crença no retorno de Samuel do sheol para profetizar aos vivos era aceita. Pelo menos é o que testemunha a Sirácida: 
46,13 Samuel foi amado pelo seu Senhor;
46,20 Mesmo depois de morrer profetizou,
anunciou ao rei seu fim;
do seio da terra elevou a sua voz para profetizar,
para apagar a iniquidade do povo.

 Jones F. Mendonça

terça-feira, 25 de julho de 2017

VALE DE HINOM, LIXÃO DE JERUSALÉM?


“A geena [forma grega para ge-hinom = vale de Hinom] é um lugar repugnante, em que se lançam sujeira e cadáveres, e nos quais os incêndios ardem perpetuamente para consumir a imundície e os ossos. Em consequência, por analogia, o julgamento dos ímpios é chamado de 'Geena'”.
Esta observação, feita no século XII d.C. pelo rabino David Kimhi, deu origem ao mito que sustenta ter existido no vale de Hinom uma espécie de depósito de lixo, usado por Jesus como metáfora para o castigo eterno destinado aos ímpios (Mt 10,28).

Mas a descrição é do século XII. Quem garante que no século primeiro o depósito já existia? Na verdade não há qualquer evidência literária ou arqueológica capaz de confirmar a existência do tal depósito de lixo.

O uso do vale de Hinom como metáfora para o castigo reservado aos ímpios vem dos profetas bíblicos: Jr 7,31-32; Is 30,33 e 66,24 (cf. 2Rs 23,10). O resto é conversa fiada (até que se prove o contrário).



Jones F. Mendonça

terça-feira, 27 de junho de 2017

TRADUÇÃO E INTERPRETAÇÃO

São evidentes as relações entre o substantivo e o verbo em nosso idioma: O verbo “comer”, por exemplo, está para o substantivo “comida”, assim como o verbo “escovar” para o substantivo “escova”. Em diversos idiomas a coisa funciona assim.

Com o hebraico bíblico não é diferente. Mas algumas dessas relações causam certa estranheza. Um exemplo: o substantivo “vestido” (= “pano para cobrir”) e o verbo “falsear” vêm de uma mesma raiz (BGD). “Vestido” é grafado como BeGeD e “falsear” como BaGaD. Mas que ligação poderia haver entre as duas palavras?

Uma boa pista aparece em Jr 12,1: “Por que prosperam tranquilamente todas as VESTES (beged) DE FALSIDADE?” (bagad).

A relação parece ser a seguinte:

- O verbo BaGaD indica uma “ação de cobrir com tecido” (ou de ocultar, e, por conseguinte, de falsear, enganar, etc.).
- O substantivo BeGeD indica “aquilo que serve para cobrir” (ou simplesmente, “tecido”, “veste”, “roupa”, etc.).

A questão foi levantada ontem, em salada de aula pelo Lucas Bernardes, enquanto discutíamos o que seriam as “vestes sujas” do sacerdote Josué em Zc 3,3. O dicionário Strong traduz - em sua primeira opção - BeGeD como “engano” e não como “vestes”. Caso seguíssemos o conselho do Strong, o texto seria traduzido assim: “Josué estava vestido de ENGANOS SUJOS”!

Moral da história: traduzir textos, sobretudo textos antigos, jamais poder ser uma atividade mecânica. É preciso compreender a cabeça, o mundo no qual estava inserido o escritor do texto.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 30 de maio de 2017

QUERUBINS EM RUAS DE FOGO

A Bíblia hebraica apresenta os querubins com a função de guardiões (Gn 3,24; Ez 28,16) e montaria de Javé (Sl 18,10). Dotados de asas e corpo de animais, têm aparência semelhante aos lamassus assírios/persas e esfinges egípcias (Ez 1;10).

Na iconografia do Antigo Oriente Próximo aparecem ilustrando tronos de reis/divindades. Isso explica a fórmula: “Jávé se assenta sobre os querubins” (2Sm 6,2). Não eram vistos como “anjos” (mensageiros celestes), mas como guardiões. Não eram percebidos como meninos peladinhos e gordinhos alados (como na iconografia renascentista), mas seres com aparência imponente, intimidadora.

Um detalhe que recentemente chamou minha atenção aparece em textos que apresentam os querubins vivendo/voando/caminhando sobre pedras/brasas de fogo. Eis os textos:

Sl 18,10.12 cavalgou em querubim e voou, planando sobre as asas do vento. [...] à sua frente um clarão inflamava GRANIZO E BRASAS DE FOGO.

Ez 1,13 No meio dos seres viventes havia uma coisa semelhante a ARDENTES BRASAS DE FOGO...

Ez 10,2 ...vai por entre as rodas giradoras, até debaixo do querubim, enche as tuas mãos de BRASAS ACESAS DENTRE OS QUERUBINS.

Ez 28,16 “O querubim da guarda te expulsou DO MEIO DAS PEDRAS AFOGUEADAS”.

Na queda do rei de Tito, descrita em Ez 28 com cores da mitologia oriental antiga, o rei é destruído com um fogo, que o consome por completo: “fiz sair do meio de ti um fogo, que te consumiu a ti, e te tornei em cinza sobre a terra” (28,18).

Questões que me inquietam: seria este o fogo das pedras sob aqueles querubins que agora não protegem mais o rei de Tiro? A leitura correta é rei de Tiro “foi colocado como um querubim” (texto hebraico), ou “junto a um querubim” (texto grego)? Foi expulso “por Javé” (texto hebraico) ou “pelo querubim” (texto grego)? Por que o rei de Tiro é apresentado de forma tão exaltada (trata-se de um caso singular)? Há registros contendo descrições de querubins andando sobre brasas em textos extrabíblicos?



Jones F. Mendonça

terça-feira, 23 de maio de 2017

A CONQUISTA DE JERUSALÉM: JUDÁ, JOSUÉ OU DAVI?

De acordo com 2Sm 5,4-5 Davi começou a reinar em Hebron aos 30 anos. Seu reinado nessa cidade teria durado 7 anos. Depois mudou sua capital para Jerusalém, cidade tomada dos jebuseus que acomodou sua corte pelos próximos 33 anos.

Curioso é que o autor de 1Sm 17,54 supõe que Jerusalém já era uma cidade israelita  na época de Saul: 
Davi apanhou a cabeça do filisteu e a levou a Jerusalém, e as suas armas ele as levou para a sua tenda.
Confuso, não?

Para saber mais sobre o assunto, leia o artigo “Conquest of Jerusalem in the Bible: When and Who?”, publicado no The Torah e escrito pelo rabino Dr. Zev Farber.


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 18 de maio de 2017

COLOFÃO E CONTRADIÇÃO EM JÓ

Jó 31,40 geralmente é traduzido como “encerraram-se as palavras de Jó” (o personagem só volta a falar em 40,3 num diálogo com Javé). O verso não é uma fala de Jó, mas uma interferência do redator (uma espécie de colofão). Curioso é que o verbo traduzido por “acabaram-se” (tamam) permite pelo menos duas traduções diferentes:

1. PERFEITAS [foram] as palavras de Jó (como em Jó 22,3;Sl, 19,13; 2Sm 22,26);
2. ANIQUILADAS [foram] as palavras de Jó (como em Jr 14,15; Sl 73,19).

A tradução “perfeitas foram as palavras de Jó” concorda com a fala de Javé em 42,7 “porque não falastes corretamente de mim, como o fez meu servo Jó”.

A tradução “aniquiladas foram as palavras de Jó” concorda com a fala de Javé em 38,1-40,2: “Quem é esse que obscurece meus desígnios...”.

O artigo completo, por Thomas M. Bolin, pode ser lido aqui:



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 30 de março de 2017

DAS COISAS MALDITAS E DAS COISAS SANTAS

Pergunta: como pode a palavra hebraica “hérem” ser traduzida num texto por "santa", “consagrada” e no outro por “maldita”, “anátema”, “condenada”? Veja:

Lv 27,28 Toda coisa CONSAGRADA (hérem) é coisa santíssima que pertence ao Senhor.

Js 7,1 Acã tomou [...] do ANÁTEMA (hérem) e a ira do Senhor se acendeu...

Simples: “hérem” significa apenas coisa “cercada”, “interditada”. A semelhança do termo com “harém” (de mulheres) não é por acaso. Harém - derivada do árabe - é lugar cercado, interditado, onde só entra o rei e aqueles que ele permite.

O termo hebraico “hérem” é lugar/coisa reservada para um uso religioso específico. Tal destino pode ser a destruição (como uma cidade = maldita) ou um utensílio do Templo (como arca sagrada = consagrada).



Jones F. Mendonça