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sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

TRINDADE TRICÉFALA


Representação medieval da Trindade (trindade tricéfala). O sinal com a mão não é um "v" de vitória, mas um sinal de bênção. Esta representação da trindade foi proibida por Urbano VIII no século XVII.

Imagem: Trindade Tricéfala, detalhe da letra capittular "C" de um cantoral italiano, séc. XV, The Morgan Library & Museum, Nova Iorque. 



Jones F. Mendonça

MIGUEL E MARGARIDA CONTRA O CAOS


Ao lado da imagem de Miguel lutando contra o Dragão (Ap 12,7), a iconografia medieval desenvolveu esta representação, mostrando Santa Margarida de Antioquia golpeando um demônio com um martelo. Bizarro, não?

A imagem é um detalhe da tela: “Casamento Místico de Santa Catarina”, Barna da Siena, 1340.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

DISPUTAS NO MOVIMENTO DE JESUS

Fiz um pequeno resumo do mais recente artigo publicado no The Bible and Interpretation, por Robert Crotty: 
Dentre as diversas formas do movimento de Jesus, o cristianismo romano foi o que mais se expandiu. Ele eliminou outras formas do movimento de Jesus e dispensou um esforço especial, mais enérgico, para controlar o cristianismo gnóstico.  O interesse de Constantino estava no primeiro e não queria a dissidência cristã dentro do cristianismo romano ou fora dele.
O cristianismo ocidental, o cristianismo oriental, o cristianismo reformista, o cristianismo não-conformista, o cristão pentecostal são todos cristãos romanos. Eles são mais parecidos do que diferentes. Todos eles seguem o modelo cristão romano.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

HOMOOUSIOS, DULIAS, LATRIAS E OUTRAS PICUINHAS TEOLÓGICAS

A cidade de Niceia (atual Iznik, Turquia), foi palco de dois grandes concílios ecumênicos. O primeiro, em 325, definiu que Jesus foi gerado e não criado pelo Pai. O segundo, em 787, tratou de uma acirrada controvérsia a respeito do culto às imagens. Os bispos chegaram a um consenso: os ícones merecem apenas culto de dulia, nunca de latria. Para uma mente moderna “criado”/“gerado” e “dulia”/ “latria” parecem dizer a mesma coisa. Mas naquele tempo você poderia perder a cabeça por isso.

Abaixo uma imagem dos assentos dos bispos do 7º Concílio ecumênico (2º de Niceia). Bem, pelo menos é o que diz a placa.




Jones F. Mendonça

terça-feira, 2 de agosto de 2016

DECÊNCIA FEMININA NO CRISTIANISMO PRIMITIVO

Clemente de Alexandria (150-215), num tratado sobre as vestimentas das mulheres cristãs (Pedagogo, Livro II, 11), recomenda que se evitem apetrechos “supérfluos”, afinal, ele diz, “a Escritura declara que os supérfluos são do diabo”. Tingimento de cabelos, coloração dos olhos, da boca e da face, são alguns dos “supérfluos” citados pelo teólogo.

A prática do tingimento de roupas também recebe dura crítica: “o uso das cores não é benéfico, afinal não são úteis contra o frio”. O ideal, ele continua, “são as roupas brancas e simples”. As vestes, ele explica, servem unicamente para cobrir o corpo, jamais para serem admiradas. A base para tal ensinamento viria do profeta Daniel: “o Ancião sentou-se. Suas vestes eram brancas como a neve” (Dn 7,9). E finaliza: “as roupas que são como flores devem ser abandonadas”.

Por fim Clemente se debruça sobre o tamanho das saias das mulheres: “Não é conveniente ter o vestido acima dos joelhos, como, segundo dizem, fazem as moças de Esparta. Pois não é decoroso que a mulher descubra determinadas partes de seu corpo”. Tal modo de se vestir poderia despertar elogios embaraçosos, tais como “suas coxas são bonitas”. O rosto também precisa estar coberto com um véu, mas nunca de cor roxa, tonalidade que na opinião do teólogo “inflama os desejos”.



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 28 de julho de 2016

LUTERO E SUAS 97 TESES CONTRA A ESCOLÁSTICA

Entre agosto e setembro de 1517 Lutero escreveu suas bem pouco conhecidas 97 teses contra os escolásticos (não confundir com as 95 contra as indulgências, publicadas em 31/10/1517). Nelas – principalmente as teses 37 a 53 – Lutero critica ferozmente Aristóteles (384-322 a.C.) e os teólogos escolásticos: 
41. Quase toda a “Ética de Aristóteles” é a pior inimiga da graça. Contra os escolásticos.
43. É um erro dizer que, sem Aristóteles, ninguém se torna teólogo. Contra a opinião geral.
47. Nenhuma fórmula silogística subsiste em questões divinas. Contra o cardeal Pedro d’Ailly.
49. Se uma fórmula silogística subsistisse em questões divinas, o artigo sobre a Trindade seria conhecido, em vez de ser crido.
As teses 47 e 49 revelam – com o perdão do anacronismo –  um Lutero “fideísta”, por criticar a possibilidade de uma exposição das verdades divinas em termos racionais. Em relação à tese 41 cabe uma explicação: Lutero considerava a Ética de Aristóteles (Nicomaqueia e Eudêmica) um obra pagã, uma vez que acentuava o papel das potencialidades humanas, suficientes para as virtudes. Tal conceito, usado por teólogos escolásticos como base para a ética cristã, era visto por Lutero como uma afronta a doutrina da graça.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 27 de julho de 2016

LUTERO: “ARISTÓTELES, AQUELE PALHAÇO!”

Hortus deliciarum
Diante da inquietante questão: “como alcançar a justiça diante de Deus?”, teólogos medievais foram buscar respostas na filosofia de Aristóteles (no habitus aristotélico). A solução encontrada: Deus infunde no fiel um “habitus” (hábito) sobrenatural que exige do indivíduo um esforço por torná-lo efetivo. Desse modo, quanto maior o esforço individual no exercício dos dons divinos, mais merecedor de graça será o fiel.

Isso explica a fórmula católica: "as obras cooperam com a graça". Lutero, grande crítico da teologia escolástica, chama Aristóteles de “aquele palhaço que, com sua máscara negra, enganou a igreja”. Em outro texto: “Aristóteles está para a teologia assim como as trevas estão para a luz” (97 teses contra a escolástica, tese 50). O reformador, como se vê, não tinha papas na língua. 

A imagem acima (hortus deliciarum) retrata a ascensão do cristão até Deus pela “escada das virtudes”. Se o esforço não é suficiente há uma solução: “quem cair pode retomar a escalada graças ao remédio da penitência”. A penitência e os demais sacramentos funcionavam como uma espécie tônico fortificante, capaz de infundir graça e virtude nos fiéis.  Daí a importância da missa: “domingo sem missa, semana sem graça”. Em suma: sem missa não há alegria; sem missa não há recebimento de graça, de virtudes capazes de ajudar o fiel em sua ascensão aos céus.  



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 11 de julho de 2016

MULHER: DE “PORTÃO DO DIABO” A “SACO DE ESTRUME”

Para Tertuliano, a mulher é o “portão do diabo” e “primeira desertora do direito divino” (Do vestuário feminino, Livro II, IV). Odão de Cluny, no século X, encontrou um adjetivo ainda pior: 
Se os homens vissem o que está debaixo da pele, a imagem das mulheres lhes daria náuseas [...]. Quando nem mesmo suportamos tocar um escarro ou um excremento com a ponta dos dedos, como poderíamos abraçar esse saco de bosta?
Voltemos 1200 anos.  O autor do livro da Sirácida, obra judaica do segundo século a.C., tinha opinião semelhante. Mas Ben Sirac situa o defeito feminino na alma, não nos corpo: “Porque das vestes sai a traça e da mulher, a malícia feminina” (42,13). Sobre os perigos da beleza física feminina ele faz um alerta: “Não te deixes prender pela beleza de uma mulher” (25,21).

Calvino, no século XVI, parece ter se inspirado na Sirácida: “Eis apenas um tipo de beleza [feminina] que me seduz – que ela seja casta, prestimosa, econômica, paciente e que zele pela minha saúde”.

Mas há quem veja o feminismo como um movimento impulsionado por uma causa imaginária.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 5 de julho de 2016

TERTULIANO E A BELEZA FEMININA

Num sermão do segundo século, Tertuliano tenta convencer as mulheres (chamadas de “portão do diabo”) a não se preocuparem tanto com a beleza física. Ele explica: “seus maridos [cristãos] não são atraídos pelas mesmas graças que os gentios” (Do vestuário feminino, Livro II, IV).

Bobinho...



Jones F. Mendonça

DA POLIGAMIA FEMININA EM AGOSTINHO DE HIPONA

Agostinho de Hipona, no século IV/V, achava – como muitos outros de seu tempo – que o único propósito do casamento é a procriação. Com isso em mente ele explica a tolerância divina para com a poligamia masculina e a rejeição da poligamia feminina no AT (dito com minhas palavras):

O homem que se une a várias mulheres (=vários úteros) pode gerar muitos filhos; a mulher (um único útero) que se une a diversos homens não aumenta sua capacidade de gerar filhos. No primeiro caso: procriação. No segundo caso: apenas prazer sexual, concupiscência (Do casamento e da concupiscência, Livro I, X).

Criativo (e astuto) esse Agostinho...



Jones F. Mendonça

sábado, 2 de julho de 2016

DIABO GENTIL

Você dirá que a imagem tem certo tom cômico e que foi feita por algum artista moderno. Mas ela ilustra a página 48R de um missal francês do século XV: "Tornou o diabo a levá-lo, agora para um monte muito alto” (Mt 4,8).



Veja a imagem em seu contexto aqui.


Jones F. Mendonça

domingo, 8 de maio de 2016

A FORÇA QUE VEM DO ABISMO

José ressurge do poço, Jonas do peixe e Jesus do Hades, numa gravura que ilustra a BíbliaPauperum, século XV. Em "O Senhor dos anéis", o mago Gandalf ressurge do abismo após intensa batalha contra o demônio Balrog sob a ponte Khazad dûn. Um tema antigo, porém ainda poderoso.



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 4 de abril de 2016

EXORCISMO, ORIFÍCIOS E TREPANAÇÃO

Em seus Diálogos, o papa Gregório Magno (século VI) conta a história de uma freira que ficou possuída após comer uma alface em cujas folhas se escondia um demônio (Dial. 1.4.8).

Na Antiguidade (e atualmente entre os melanésios) alguns curandeiros praticavam a trepanação, abrindo orifícios na cabeça do paciente para que os demônios pudessem sair.

Nesta figura, do século XV, você vê São João Boaventura exorcizando uma mulher que expele um demônio pela boca (repare nos olhos “virados” da mulher).



Veja a imagem em seu contexto original na BibliotecaNacional da França (selecione a folha 84r no canto inferior direito).


Jones F. Mendonça

sexta-feira, 25 de março de 2016

COELHINHOS NUMA MISSA MEDIEVAL

Coelhinhos [da páscoa?] celebrando uma missa na margem (marginália) de um  manuscrito do século XIV. Dê uma boa expiada no manuscrito visitando esta página da British Library. 



Jones F. Mendonça

terça-feira, 8 de março de 2016

OS CABELOS DE MADALENA


Curiosa representação medieval e renascentista de Maria Madalena vestida com seus próprios cabelos. A imagem à esquerda, do final do século XV, ilustra um manuscrito destinado à Rainha Bona da Casa de Sforza, segunda esposa de Sigismundo, o Velho. A imagem à direita é obra de Antonio del Pollaiolo, também do século XV.




Jones F. Mendonça

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

COMBATE MORTAL EM “A VIDA DOS SANTOS”

Você arriscaria uma interpretação para esta imagem?


Sim, parece um sacerdote fazendo o sinal de “paz e amor” a um lutador do game Mortal Kombat cuspindo uma besta de três cabeças. Será?

É claro que não. A imagem retrata o exorcismo de Leão IX. Repare no báculo e na mitra papal. O sujeito de verde está possuído por um demônio (que dá as caras saindo pela boca) e o papa faz o sinal do Pantocrator, símbolo da onipotência divina, a fim de repreendê-lo. O que parecem sinais indicando a trajetória do possuído é na verdade uma costura feita para emendar a folha rasgada do manuscrito.

A imagem ilustra a página 191r do manuscrito “Vida dos santos”, produzido no século XII. Você poderá folhear suas belas páginas ilustradas aqui


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

O VATICANO E A EVANGELIZAÇÃO DOS JUDEUS

Boa parte da imprensa (UOL, Reuters, Exame, G1) noticiou que o Vaticano produziu um documento orientando os católicos “a não tentarem converter judeus”. Não é bem assim:
A Igreja, portanto, deve entender o evangelismo aos judeus, que acreditam no único Deus, de uma maneira diferente daquela direcionada àqueles que pertencem a outras religiões ou que tenham outras filosofias de vida.
Na verdade o documento não proíbe a evangelização, apenas orienta que isso "deve ser feito de uma maneira diferente". Sobre a salvação dos judeus "sem uma confissão explícita de Cristo", o documento diz que é "mistério insondável do Divino".

O texto guarda uma boa dose de ambiguidade. Leia-o na íntegra no site do Vaticano (em italiano):



Jones F. Mendonça

domingo, 17 de janeiro de 2016

DAVI E BETSHEBA NA BÍBLIA MACIEJOWSKI

Clique para ampliar

Acima uma cena da história de Davi e Batsheba num manuscrito medieval, a Bíblia Maciejowski (1255, Paris). Como se pode ver, os monges não eram tão puristas como geralmente se pensa.

Cena 01: Davi dá ordens a um de seus servos para que traga Batsheba que está se banhando (com os seios à mostra) num cômodo à direita;
Cena 2: Davi (assanhadinho) no leito com Batsheba;
Cena 3: [se interpretei corretamente:] Davi enviando Urias ao campo de batalha.

Mais imagens da Bíblia Maciejowski aqui.


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

AGOSTINHO AOS DONATISTAS: SE NÃO VÊM PELO AMOR, VIRÃO PELA DOR

Deparei-me hoje com uma carta de Agostinho de Hipona escrita no início do 5º século. Atormentado pela insubmissão dos donatistas (seita cismática fundada por Donato, bispo da Numídia), Agostinho acaba concluindo que medidas mais duras devem ser tomadas no combate à heresia: 
Na verdade, é melhor que os homens sejam levados a adorar a Deus através do ensino que por medo da punição ou da dor. Mas [...] muitos só são alcançados quando compelidos inicialmente pelo medo ou pela dor, para depois serem influenciados pelo ensino (Carta 185,6,21). 
A inspiração vem de Pv 23,14, citado na carta logo a seguir: 
“Quanto a ti, deves bater-lhe com a vara, para salvar-lhe a vida do inferno”[1].
(Na vulgata: tu virga percuties eum et animam eius de inferno liberabis)
Teria vindo dessa carta de Agostinho o famoso provérbio popular: “Quem não vai a Deus pelo amor, vai pela dor?”

Nota: [1] No texto hebraico “sheol” é mundo dos mortos e não inferno. A mensagem do provérbio é clara: “a vara não mata” (v. 13), mas, pelo contrário, “livra a néfesh (=vida) do sheol” (=da morte, cf. v. 14)”.  



Jones F. Mendonça

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

O SALTÉRIO STUTTGARTER E OS TUMORES DE JAVÉ


Por mais estranho que possa parecer, esta pintura ilustra o Salmo 78,66 num manuscrito medieval (Saterio Stuttgarter), produzido na França do século IX.

Eis o que diz o salmo: "Deus [...] feriu seus opressores pelas costas e para sempre entregou-os à vergonha". 

O "pelas costas" possivelmente se refere aos "tumores" (interpretados como hemorroidas) citados em 1Sm 5,6.9. 

O que se lê, em latim, acima da imagem, é: "obprobrium sempiternum dedit illis" (entregou-lhes ao opróbrio perpétuo). 


Jones F. Mendonça