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quinta-feira, 21 de julho de 2016

BETÂNIA, PARA ALÉM DO JORDÃO


Cristãos bizantinos acreditam que este é o local onde Jesus foi batizado por João Batista: “Betânia, do outro lado do Jordão, onde João batizava” (Jo 1,28).  Escavações feitas a partir de 1996 descobriram mais de 20 igrejas, cavernas e piscinas batismais que datam do período romano. A área, conhecida como Wadi Kharrar, fica na Jordânia.

Veja mais fotos aqui


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 13 de junho de 2016

ARQUEOLOGIA NA LUTHERAN SCHOOL OF THEOLOGY AT CHICAGO

Artefatos arqueológicos do Egito, Síria-Palestina e Mesopotâmia expostos de forma cronológica no site da Lutheran School of Theology at Chicago. Veja aqui.

Na imagem: representação do faraó Sheshonq (século X) ferindo prisioneiros. O faraó é chamado de Sesac no livro de Reis: "No quinto ano do rei Roboão, o rei do Egito, Sesac, atacou Jerusalém (1Rs 14,25).




Jones F. Mendonça

sexta-feira, 15 de abril de 2016

A BÍBLIA E OS ÓSTRACOS DE ARAD

Questão discutida entre acadêmicos: os livros mais antigos do Antigo Testamento foram redigidos antes ou depois da destruição de Judá e sua capital Jerusalém pelos babilônios em 586 a.C.?

Aos interessados no assunto, sugiro esta matéria publicada no Haaretz (segue trecho):
Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Tel Aviv diz ter provas de que antiga Judá teve uma alta taxa de alfabetização e um sistema educacional sofisticado, tornando possível a redação do mais antigo núcleo da Bíblia no período do Primeiro Templo.
Leia mais aqui.

Uma opinião mais cautelosa (do prof. Rollston), aqui.

Jones F. Mendonça

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

UR DOS SUMÉRIOS, UR DOS CALDEUS

1) Ruínas, às margens do Eufrates, Iraque; 
2) Ilustração (por Balage Balogh) representando a cidade tal como era com base em suas ruínas. Destaque para o Zigurate, dedicado ao deus Nin-Gal e Nannar (deus e deusa associados à lua).





Jones F. Mendonça

sábado, 9 de janeiro de 2016

CONSIDERAÇÕES SOBRE O SELO DE EZEQUIAS

Em dezembro de 2015 a universidade Hebraica de Jerusalém anunciou a descoberta de um selo em Jerusalém contendo a inscrição "Ezequias, filho de Acaz, rei de Judá". Embora outros selos semelhantes já tenham sido encontrados, este foi o primeiro descoberto por uma equipe de arqueólogos profissionais.

No selo aparecem dois símbolos egípcios bem conhecidos: um Ankh e um disco solar. A flor de lótus é outro símbolo que também aparece em selos do rei judaíta. Você pode estar se perguntando: “o que esses símbolos religiosos estrangeiros estão fazendo num selo israelita?”

Aos interessados no tema, vale conferir esta matéria publicada no Haaretz, assinada por Julia Fridman, com a colaboração do epigrafista Christopher Rollston, da Universidade George Washington.



Jones F. Mendonça

sábado, 5 de dezembro de 2015

O SELO DE EZEQUIAS: ALGUMAS QUESTÕES

A existência de Ezequias, rei de Judá entre os séculos VIII e VII a.C. é atestada até mesmo fora da literatura bíblica, como nos anais de Senaqueribe. Quanto a isso, não há o que discutir.

Mas como sou gato escaldado, sei que anúncios de grandes descobertas arqueológicas em Israel, como o novo “selo de Ezequias” (veja também aqui no Blog), geralmente são impulsionadas por interesses escusos (política, financiamento de pesquisa, ideologia religiosa, etc.).

Aos interessados no assunto, vale ler este texto publicado no Blog do Dr. Robert R. Cargill, Professor Assistente de Clássicos e Estudos Religiosos da Universidade de Iowa.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

SELO CONTENDO NOME DO REI EZEQUIAS É DESCOBERTO EM JERUSALÉM

Segue trecho de matéria publicada no Haaretz (02/12/2015): 
Um selo de 2700 anos com o nome do rei bíblico Ezequias foi descoberto em escavações no Monte do Templo em Jerusalém. A impressão oval sobre o selo de argila [...] informa em hebraico antigo: "Pertencente a Ezequias [filho de] Acaz, rei de Judá." Ele também mostra um sol de duas asas [...] ladeado por dois símbolos Ankh que representam a vida.
Embora a existência de selos com o nome do Rei Ezequias já seja conhecida a partir do mercado de antiguidades desde meados da década de 1990 (alguns com um escaravelho alado e outros com um sol alado), esta é a primeira vez que a impressão do selo de um rei israelita ou da Judeia vêm à luz em uma escavação arqueológica científica. 

Uma breve discussão a respeito do Ankh (à direita) e o disco solar (centro) impressos no selo, aqui

 Jones F. Mendonça

domingo, 29 de março de 2015

PARA ALÉM DA BÍBLIA, DE MÁRIO LIVERANI - PARTE V [APONTAMENTOS]

"Beyt David" (Casa de Davi) - Estela
de Tel Dan
...Continuação (leia o post anterior aqui).

Mário Liverani considera o século XII a.C. um período de transição na Palestina. Uma série de migrações impulsionadas por mudanças climáticas mudou o cenário político e social da região. Egito (norte da África) e Khati (Anatólia) perderam o controle da Palestina; a Assíria e a Babilônia, ocupadas com as invasões arameias, permitiram que a Palestina ficasse livre de interferências estrangeiras pela primeira vez depois de meio milênio. As cidades ganharam uma dimensão reduzida, cercadas por muros, revelando o maior interesse pela autodefesa.

O crescimento do elemento tribal
A configuração de uma nova ordem na Palestina foi acentuada pela ação de grupos pastoris. Liverani considera plausível – após rejeitar certos exageros - “uma contribuição de marginalizados e de debandados para o reforço de grupos pastoris e para o crescimento de sua autoconsciência” (p. 70). A gravitação das vilas agropastoris deslocou-se dos palácios para as tribos, que absorviam foragidos (habiru), com reivindicações socioeconômicas “antipalatinas”, dando às tribos (unidas pela comunhão parental) uma dimensão e uma força nova.  Como em populações aramaicas da Síria (Bit Adini, Bit Agushi, onde Bit significa “casa de” no sentido de estirpe), em Israel aparecem as expressões “estirpe de Davi” (Judá) e “estirpe de Omri (Israel).

Mudança tecnológica
A ruptura de tradições culturais, o surgimento de novos ambientes sociopolíticos e de novas ordens econômicas facilitaram a adoção de algumas inovações tecnológicas (vindas de dentro e de fora). Liverani dá destaque: 1) À metalurgia do ferro (lâminas de trabalho e de combate); 2) Ao alfabeto (o cuneiforme babilônico era acessível a poucos especialistas); 3) À domesticação do dromedário (área arábica) e do camelo (área iraniana), com capacidade de transporte muito maior que a do asno, permitido que os comerciantes atravessassem grandes espaços desérticos (surgimento das primeiras cidades na trilha das caravanas); 4) Às inovações técnicas da navegação, permitindo a exploração dos tráfegos mediterrâneos pelos fenícios “pré-coloniais” e gregos “homéricos”; e 5) Às inovações técnicas no campo da agricultura e das infra estruturas agrícolas, especialmente nos planaltos centrais da Palestina. Uma famosa passagem bíblica alude ao desmatamento nas montanhas: 
“Receberás a montanha, embora seja uma floresta, desmatá-la-ás e será tua até as extremidades” (Js 17,18).

Além de todos esses itens, Liverani também dá destaque às inovações hídricas: obras de canalização, poços mais profundos, cisternas com rebocos mais à prova d’água e canais subterrâneos. Ele finaliza explicando que todas essas inovações (ferro, alfabeto, domesticação do dromedário/camelo, navegação, agricultura, inovações hídricas) não se desenvolveram de repente nem ao mesmo tempo. Todas juntas caracterizaram o período do Ferro em relação ao período do Bronze e devem ser levadas em conta para compreender a diferente ordem territorial e a diferente cultura material.

Horizontes ampliados
A nova ocupação territorial da Palestina estendeu-se aos planaltos e às estepes semi-áridas, situação bem diferente da ocupação no Bronze recente, concentrada nas áreas facilmente utilizáveis. A dimensão dos assentamentos nas cidades diminuiu, mas nas vilas cresceram e se fortificaram. Todo o território foi ocupado de maneira mais homogênea e a zona habitada dilatou-se de modo extraordinário. A Palestina, terra marginal e fraco anel da “meia lua fértil”, acabou se vendo no centro de uma vasta rede de vias e trocas comerciais. Ainda assim, destaca Liverani: “a marginalidade da Palestina muda nas circunstâncias, mas permanece na substância” (p. 80).



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

A VIDA DOS JUDEUS EXILADOS EM TABLETES DE ARGILA

Segue trecho de matéria divulgada no Haaretz (29/01/2015):
Uma pouco conhecida coleção de mais de 100 tabletes de argila em escrita cuneiforme que remonta ao Exílio Babilônico, ocorrido há cerca de 2.500 anos atrás, foi revelado esta semana, o que permite um vislumbre da vida cotidiana de uma das mais antigas comunidades de exilados do mundo.
Leia mais aqui


Jones F. Mendonça

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

UM TERREMOTO, E NÃO ROMA, TERIA DERRUBADO MUROS DE JERUSALÉM

Se você foi a Jerusalém ou conhece a cidade graças aos recursos do Google Street View (como eu), certamente já reparou nas enormes pedras que aparecem nos arredores do Muro das Lamentações. Desde que foram descobertas na década de 70 houve certo consenso de que estariam ali por conta da ação do exército romano, em 70 d.C., que destruiu a cidade após uma revolta judaica. Mas essa teoria está sendo posta em xeque pelo arqueólogo britânico Shimon Gibson. Para ele o posicionamento das pedras é o resultado da ação de um terremoto ocorrido em 363 d.C., durante o governo do imperador Juliano. Considerando o valor simbólico que as pedras têm para a tradição judaica, a tese de Gibson tem provocado certo desconforto nos círculos religiosos mais conservadores.

A matéria completa, publicada no jornal israelense Haaretz, só está disponível para assinantes, mas você pode ler trechos e observar algumas imagens aqui.

Uma opinião diferente, por Leen Ritmeyer, aqui

Jones F. Mendonça

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

TEL BURNA: EDIFÍCIO PÚBLICO, CASA OU TEMPLO?

A descoberta de um enorme complexo com 3.300 anos de idade no sítio arqueológico de Tel Burna (uma antiga fortaleza judaíta) ao leste de Kiryat Gat, no centro de Israel, tem dado o que falar.  Nas ruínas de um antigo edifício foram encontrados restos de animais queimados e objetos de culto pagãos, levantando suspeitas de que a construção tenha sido usada como local de culto a Baal ou Anat. De acordo com Itzhaq Shai, arqueólogo que dirige a escavação: "Neste momento é difícil dizer se era um lugar público, a casa de um aristocrata ou um templo".

Leia mais aqui e aqui.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

OS MANUSCRITOS DE KETEF HINOM (MANUSCRITOS DE PRATA)

Escavações feitas em Jerusalém por Gabriel Barkay no final da década de 70 revelaram a existência de dois importantes amuletos datados para o século VI ou VII a.C.  Ambos foram encontrados em Ketef Hinom, região que tem vista para o Vale do Hinom. O achado contém uma folha de prata com um texto (com ligeiras modificações) do livro bíblico de Números (Nm 6,24-26), passagem conhecida como “bênção sacerdotal” ou “bênção aarônica”. 
O Senhor te abençoe e te guarde;
O Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti;
O Senhor levante sobre ti o seu rosto, e te dê a paz.
O documento não prova que o livro de Números (muito menos todo o Pentateuco) já estava concluído no século VI ou VII, e nem que Moisés foi seu autor. Revela apenas que o trecho em questão era conhecido pelos dos hebreus do período pré-exílico.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

O EGITO, OS POVOS DO MAR E AS ORIGENS DE ISRAEL

Estela de Merneptah
Quem quiser entender a formação de Israel precisa estar atento à primeira metade de um período egípcio conhecido como “Novo Império” (1550-1070 a.C.). Com a expulsão dos hicsos, Ahmose I (1550-1525) fundou a 18ª dinastia, dando início ao período mais célebre e glorioso de toda a vida egípcia. Segundo algumas estimativas a população saltou de 1,5 milhão para algo em torno de 2,5 a 5 milhões de habitantes. Destacam-se nesse período: 1) as cartas de Amarna, uma série de correspondências entre os reis cananeus e os faraós Amenhotep III e IV;  2) A estela de Merneptah (1208), registro feito em granito que revela a existência de um grupo de pessoas (uma tribo?) reconhecido pelo nome de “Israel” contra o qual o faraó Merneptah se gabava de ter destruído em Canaã: “Israel está arruinada; sua semente já não existe mais”.

Por volta de 1200 a glória do Egito foi sendo gradativamente ofuscada por uma série de fatores, tais como o desgaste da estrutura palaciana-faraônica, exaustão dos recursos naturais e dos repetidos ataques dos líbios e dos chamados “povos do mar”, dentre os quais os filisteus, representados em relevos com grandes penachos e corpos esguios. O templo mortuário de Ramsés III, em Medinet Habu, registra o terror causado pelo avanço dos povos do mar:
Os setentrionais em suas ilhas estavam em dificuldade e se moveram em massa, todos ao mesmo tempo. Ninguém resistiu perante eles; de Khati (império Hitita) a Qode (Cilícia), Karkemish (cidade do Eufrates, no norte da Síria), Arzawa (reino da Ásia Menor), Alashiya (Chipre) foram devastadas. Dirigiram-se enfim para o Egito [...] os ânimos deles eram de confiança, cheios de projetos.

O Egito conseguiu repelir os povos do mar, mas não foi capaz de impedir que se instalassem na costa oriental do Mediterrâneo, região outrora administrada por funcionários sediados em Gaza, Kumidi e Sumura. É nesse cenário que devem ser buscadas as origens do povo que consolidou suas tradições numa obra complexa que é a Tanak (Bíblia hebraica). 


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 26 de março de 2014

O MONÓLITO DE KURKH E O REI ACABE DE ISRAEL

Monolito de Kurkh, Museu Britânico
Descoberto em 1861 em Kurkh, Turquia, o monólito foi esculpido por volta de 853 a.C. pelos assírios com o propósito de registrar a vitória de Salmaneser III (858-824) sobre uma liga de 12 reis na região de Qarqar. De acordo com a inscrição os principais líderes dessa liga foram Irhuleni, de Hamate; Hadadezer, de Harã e Acabe, de Israel (citado em 1Rs 16-22). Ao lado da Estela moabita (ou estela de Mesha, 850 a.C.) a descoberta seria uma importante evidência da influência do reino de Israel (do Norte, sob a dinastia dos omridas) na região. 

Na monólito de Kurkh o nome de Acabe aparece grafado como “A-ha-ab-bu KURSir-‘i-la-a-a”, e tem sido geralmente traduzido como “Acabe de Israel”. Mas a identificação de A-ha-ab-bu com Acabe esbarra em alguns problemas. Um deles é que a Bíblia hebraica fala de uma guerra entre Acab e o rei Ben-Hadade (1Rs 20 e 22).
Ora, Ben-Hadade, rei da Síria, ajuntou todo o seu exército; e havia com ele trinta e dois reis, e cavalos e carros. Então subiu, cercou a Samaria, e pelejou contra ela (1Rs 20,1).

Ora, é extremamente improvável que o rei da Damasco tenha empreendido ações bélicas contra um aliado imediatamente após a batalha de Qarqar. Ou A-ha-ab-bu não é Acabe ou a batalha descrita em 1Rs 20 e 22 foi registrada de forma anacrônica (é o que pensa Herbert Donner em “História de Israel e dos povos vizinhos”, p. 305). O silêncio da Bíblia quanto a essa batalha e a incerteza quanto à correta identificação de Sir-‘i-la-a-a com Israel (Israel ou Jezreel?) também enfraquecem a teoria de que a inscrição contenha uma referência a Acabe.  A questão permanece aberta.

Apesar da coalizão entre os reis do corredor Siro-palestino a Assíria avançou até a Cicília, colocando Tiro e Sidon sob seu controle. Após um declínio de poder iniciado em 783 a.C., a Assíria retomou seu vigor com Teglat-Falasar III (745-727 a.C.) que marchou através da Síria e da Palestina chegando até Gaza, na costa do Mediterrâneo. Fracassada a tentativa de impedir o avanço assírio (ver: GuerraSiro-efraimita), Samaria sucumbiu diante das tropas de Salmanasar V (727-722). A população da capital de Israel foi deportada para várias partes do império com Sargão II (722-705), um usurpador assírio que dominou a Babilônia e estendeu suas campanhas até a fronteira com o Egito.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

ARQUEOLOGIA BÍBLICA E CIÊNCIA

O trabalho do arqueólogo ou historiador que se debruça sobre a região da Siro-Palestina e não vê como históricos determinados eventos relatados no Antigo Testamento geralmente é visto como ateu ou anti-sionista, dadas as implicações negativas de suas teorias para a credibilidade da fé judaico-cristã e na reivindicação de Israel pelo território por ele atualmente ocupado. Dois exemplos de profissionais que atuam nessa área de pesquisa e negam, por exemplo, a historicidade do Êxodo e da ocupação de Canaã pela força das armas sob a liderança de Josué tal como apresentada no relato bíblico são Israel Finkelstein (arqueólogo) e Mario Liverani (historiador).

Ainda que a Bíblia descreva a saída dos descendentes de Abraão, Isaque e Jacó do Egito, sua peregrinação pelo deserto e a tomada violenta das cidades cananeias como Jericó, Ai e Hazor, qualquer historiador comprometido com a ciência e seus métodos se esforçaria para demonstrar se tais eventos de fato ocorreram ou não passam de lendas religiosas elaboradas por sacerdotes e líderes regionais.  Muita gente acha que esse trabalho crítico é feito apenas em relação ao relato bíblico, constituindo uma espécie de perseguição com o propósito de destruir a fé de milhões de pessoas ao redor do mundo. Mas isso não é verdade. Para citar um exemplo, posso apresentar o trabalho crítico feito pelo historiador Prado Custódio (Alexandre Magno: aspectos de um mito, Annablume, 2006).   Não se trata, como pode sugerir o título do livro, de uma tentativa de demonstrar que o proeminente líder macedônio não existiu, mas de apresentar evidências de que o próprio Alexandre tentou divinizar sua linhagem e sua pessoa a fim de parecer mais que um simples homem. Quem de fato foi Alexandre? Pergunta-se o historiador.  Qual o grau de historicidade da Bíblia? Pergunta-se o mesmo o mesmo sujeito interessado em reconstruir a história.

Cabe ao historiador reunir evidências que demonstrem a plausibilidade ou implausibilidade de relatos registrados pelas mais diversas culturas. No caso do Êxodo, por exemplo, não há qualquer registo, seja no Egito ou nos povos vizinhos, de uma fuga em massa de pessoas em direção à costa Oriental do Mediterrâneo em meados do segundo milênio a.C. Tampouco há vestígios arqueológicos no deserto que possam confirmar que tão grande números de pessoas (cerca de três ou quatro milhões!) tenha permanecido no deserto por aproximadamente quatro décadas.  A falta de documentos ou registros arqueológicos não implica necessariamente na negação do Êxodo ou de outros relatos presentes na Bíblia, mas torna sua existência pouco plausível sob o ponto de vista histórico. As saídas encontradas por pesquisadores religiosos para lidar com esse desconforto e manter a credibilidade do relato têm sido diversas. Há quem sugira um erro do copista no trecho que registra o número de hebreus que saíram do Egito. Um número reduzido de fugitivos tornaria o relato mais crível considerando que seria natural a ausência de vestígios tão evidentes. Outros propõem uma tradução diferente para o termo “elef”, traduzido por “mil” em Ex 12,37. O fato é que não se pode mais lidar com o texto bíblico de maneira ingênua e acrítica.

Quanto à tomada das cidades cananeias tais como Jericó, Ai, Libna e Hazor os problemas não são menores. Ora, se não houve uma fuga maciça de hebreus vindos do Egito, de onde vieram os israelitas e como puderam conquistar cidades fortificadas? Relatórios feitos a partir da análise do material escavado em Jericó sugerem que as muralhas da cidade já estavam destruídas quando os israelitas chegaram à região. Na opinião de alguns arqueólogos o relato da destruição da cidade presente no livro de Josué seria uma espécie de conto etiológico com o objetivo de explicar a presença de ruínas de uma antiga cidade. Mas há quem discorde, como o arqueólogo Bryant Wood.

Registros arqueológicos tem demonstrado que por volta de 1200 a.C. a costa mediterrânea que vai do norte da Síria ao Egito foi abalada por invasões de povos vindos do mar (dentre eles os filisteus), causando destruição em diversas cidades-estado da região. Tal invasão parece coincidir com o estabelecimento dos israelitas na Palestina. A estela de Merneptah (1207 a.C.) confirma a existência de um povo chamado Israel na região, mas é difícil dizer com certeza se esse grupo pode ser identificado com os israelitas da Bíblia. Há quem prefira o termo proto-israelita (William G. Dever). Outros sugerem uma tradução diferente. A referência seria a Jezreel, um vale que fica ao norte, nas proximidades do Mar da Galileia e não a Israel. Mesmo que consideremos que o documento se refira a um povo chamado Israel, outras perguntas se impõem:  Trata-se de um grupo étnico bem definido? Nômades? De onde vieram?

Quando o assunto é a monarquia israelita a discussão fica acirrada. Hoje ninguém (ou quase ninguém) duvida da existência de um rei chamado Davi, ou melhor de um líder israelita chamado Davi (a estela de Tel Dan refere-se a uma “beyt David” = “casa de Davi”). Mas faltam evidências arqueológicas concretas que atestem a existência de uma monarquia unificada sob a liderança desse israelita, por isso ele tem sido tratado por alguns estudiosos (como Israel Finkelstein) com mero líder tribal. Eilat Mazar, por outro lado, insiste que há evidências suficientes para dar crédito ao texto bíblico, que apresenta Davi como um rei que governou todas as tribos israelitas a partir de um palácio em Jerusalém.

É importante ressaltar que muitas das dúvidas quanto à historicidade de alguns relatos bíblicos não se apoia apenas na arqueologia. Uma leitura atenta do texto hebraico revela anacronismos que não podem ser negligenciados. Histórias duplicadas, nomes diferentes para um mesmo local, interpolações no texto, palavras persas e aramaicas em textos supostamente antigos favorecem a opinião de que os textos conheceram um longo processo redacional. Na opinião dos mais otimistas, relatos como o do Êxodo, da conquista de Canaã, das aventuras do rei Davi e da construção de um magnífico templo pelo rei Salomão possuem ao menos fundo histórico. Para os mais pessimistas toda a narrativa do Antigo Testamento não passa de uma invenção pós-exílica empreendida por pessoas instruídas que viviam em Jerusalém. Pessoalmente não sou tão pessimista assim. Mas também nem ingênuo e nem tão cego. 


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

PARA ALÉM DA BÍBLIA, DE MÁRIO LIVERANI, PARTE III [APONTAMENTOS]

Fiz, aqui e aqui, breves apontamentos a respeito da obra “Para além da Bíblia”, de Mário Liverani. Trata-se de uma "tentativa nova de reescrita da história de Israel, levando em consideração os resultados da crítica textual e literária, as contribuições da arqueologia e da epigrafia". 

A primeira parte dos apontamentos destaca os elementos que considerei mais importantes no primeiro capítulo, que tem como título “A Palestina no Bronze Recente, séculos XIV-XIII” (até a página 38). Foram resumidos os seguintes tópicos: “paisagens e recursos” (modesta em recursos naturais, porém rica pela estratificação simbólica das memórias), “fragmentação política” (dividida em “Estados cantonais típicos”), descontinuidade dos assentamentos” (concentração nas áreas mais adequadas para a agricultura) e “domínio egípcio” (que cobre o período de 1460-1170 a.C., tendo como principais sedes de governo egípcio três centros siro-palestinos: Gaza, Kumidi e Sumura).

Na segunda parte, ainda no primeiro capítulo, resumi as principais características da ideologia egípcia, evidenciando o grau de submissão dos reis cananeus ao Faraó e a indiferença deste em relação aos problemas enfrentados por seus dominados com invasores “habiru”.  Liverani destaca que o Faraó era para os reis cananeus um “rei distante”. O tópico “ideologia egípcia” se estende até a página 42.

Dando seguimento aos apontamentos e encerrando o primeiro capítulo, destacarei os principais pontos dos tópicos 6 (o palácio e sua centralidade), 7 (prosperidade econômica e trocas comerciais), 8 (Vilas e órgãos colegiados), 9 (os nômades “externos”) e 10 (as tensões socioeconômicas). 
  • Em “O palácio e sua centralidade” (p. 43-45), Liverani sublinha o papel desempenhado pelo palácio real dos reis cananeus no Bronze recente em sua relação com a população que vivia ao seu redor. Gravitando em torno do palácio estavam os homens do rei” (não possuíam meios de produção próprios e trabalhavam para o rei: aristocracia militar, sacerdotes, administradores, artesãos, mercadores, guardas e escravos). Nas vilas mais distantes vivia a “população livre” (detinham meios de produção próprios e pagavam ao rei uma taxa). O reino era visto como uma herança indivisível transmitida hereditariamente já não mais ao primogênito, mas para aquele que tivesse “honrado” os pais. 
  • No tópico “prosperidade econômica e trocas comerciais” (p. 45-47) o autor faz uma análise das cidades palatinas cananeias dos séculos VI a XIII sob o ponto de vista econômico. Elas são apresentadas como “economicamente prósperas e culturalmente animadas”. Destaque para o uso da escrita cuneiforme pelos administradores, possível pelo estabelecimento de escolas de escribas; artesanato de luxo com forte influência estilística e iconográfica egípcia; produção de armas de bronze e pasta de vidro; comércio desenvolvido e intercâmbio político diplomático. Liverani destaca, porém, as escassas relações externas ao sistema, nas rotas do Mediterrâneo e nas trilhas de caravanas do deserto. O desenvolvimento marítimo e terrestre só ocorrerá no período do Ferro, com a domesticação do camelo/dromedário e a melhorias das técnicas de navegação.  Liverani destaca ainda que o entesouramento, a circulação de bens de prestígio nos palácios e a pressão exercida pelas elites palatinas sobre a população agropastoril constitui um estado de desiquilíbrio insustentável a longo prazo. 
  • Quanto às “vilas e órgãos colegiados” (p. 47-50), Liverani estima que 80% das pessoas vivam nas vilas com seus próprios meios de produção: terras de propriedade familiar e rebanhos de cabras e ovelhas. Unidos pelo vínculo de parentesco as vilas tinham uma gestão colegiada em dois níveis: conselho de anciãos, composto pelos chefes de família e uma assembleia popular formada por todos os homens adultos livres. 
  • No nono e penúltimo tópico, “Os nômades ‘externos’” (p. 51-53), o autor passa a falar a respeito dos nômades “externos” definidos em termos tribais como “suteus” (textos acádios) e “shasu” (textos egípcios). A presença deles era vista como perigosa para quem atravessava as estepes do sul e do leste como atesta um mensageiro egípcio no papiro de Anastase I, do período Ramesside (no livro Liverani reproduz o texto).  Ainda que nenhuma tribo bíblica apareça nesses textos, a estela se Sethi I nomeia além de “Habiru dos montes de Yamarti” uma tribo chamada “Raham”, talvez tendo como antepassado epônimo um “pai de Raham” (Abu-Raham), que é o nome do patriarca Abraão.  Liverani também cita a bem conhecida estela de Merneptah (1230 a.C.) na qual aparece pela primeira vez o nome “Israel”. 
  • Finalizando o primeiro capítulo Liverani passa a apresentar um quadro a respeito das “tensões socioeconômicas” (p. 53-56) provocadas sobretudo pelo “processo de endividamento da população camponesa e pela atitude muito dura e proposital por parte do rei e da aristocracia palatina”. Liverani explica que as dificuldades econômicas induziram os camponeses “livres” a penhorar alguns de seus bens (terras, mulheres e filhos) a fim de obterem trigo. Ele identifica os refugiados endividados com os “habiru” e não deixa de notar, como fazem outros estudiosos, a semelhança etimológica de “habiru” com “hebreus” (ibri). Nos textos os “habiru” geralmente aparecem como sinônimo de “foras-da-lei” ou “inimigo”. O tom pejorativo do termo fica evidente num texto citado pelo autor: “O rei de Hasor abandonou a sua casa e se meteu com os habiru”. Em seguida o texto faz um alerta: “saiba o rei [...] que farão se tornar habiru a terra do rei!”. Liverani cita outros textos nos quais o nome habiru aparece associado à invasões a cidades aterrorizadas pelo assalto violento do grupo. Ele finaliza o capítulo destacando o seguinte:“esses fermentos de crise se inserem como sinais premonitórios na crise final do período do Bronze recente”.
A atitude dura dos reis cananeus, somada à indiferença do Faraó frente às invasões nômades gerou um enorme descontentamento na população. Esse cenário será profundamente abalado por novas transformações ocorridas na idade do Ferro, temas do próximo capítulo.

Continua aqui


Jones F. Mendonça

sábado, 2 de novembro de 2013

TEXTOS UGARÍTICOS DE RAS RHAMRA [DOWNLOAD GRATUITO]

A partir de 1929, no norte da Síria (Ras Shamra), foram sendo descobertos antigos textos em ugarítico (um dialeto cananeu) que revelam a vida cultural e política da região no segundo milênio a.C. Os textos, escritos em placas de barro, contém mitos e poemas épicos, fábulas, documentos comerciais e legais, textos de presságios e de rituais. 

Particularmente interessante é um poema épico de Baal em cujas linhas aparece uma série de figuras importantes da mitologia Cananeia também presentes na Bíblia hebraica. O deus El, por exemplo, surge como chefe da assembleia divina, assim como elohim (Deus de Israel), no Salmo 82,1: “Elohim está na assembleia de El; julga no meio dos elohim”. Outras divindades que aparecem no poema e estão presentes na Bíblia hebraica são Yam (Jó 38,8), Mot (Jó 28,22), Lotan e Tanin (cf. Sl 74,13; Jó 3,8; 40,25), Shahru (em hebraico Shahar, cf. Is 14,12), Shalmu (hebraico Shalem, cf. Gn 14,18; Sl 76,2) e Rashpu (o Nergal acadiano, em hebraico reshef, cf. Dt 32,24; Hab, 3,5; Sl 76,3; Jó 5,7; Ct 8,6).

Você pode fazer o download do livro: “Religious Texts from Ugarit”, de Nicolas Wyatt, contendo uma série de textos descobertos em Ugarit aqui.

O crédito notícia do download gratuito vai para Jim West (Zwinglios Redivivus), via Airton José (Observatório Bíblico).


Jones F. Mendonça

domingo, 13 de outubro de 2013

"O REINO ESQUECIDO" DE ISRAEL FINKELSTEIN NA SBL [LIVRO]

Acabo de saber, via Observatório Bíblico, que o novo livro do arqueólogo israelense Israel Finkelstein, encontra-se disponível para download gratuito (para países de baixa renda per capita) no site da SBL (Society of Biblical Literature). 

Faça o download (livro em inglês) aqui


Jones F. Mendonça

terça-feira, 17 de setembro de 2013

YAHWEH E SUA CONSORTE NO HAARETZ

Como a matéria está disponível apenas para assinantes do jornal israelense Haaretz, resolvi editar o texto no Word e publicá-lo no Scribd (PDF, em inglês). Dificuldades com o idioma? Utilize o tradutor do Google. 

Quem assina a matéria é Julia Fridman.