segunda-feira, 17 de junho de 2013

SOBRE PROTESTOS POPULARES

Amarre seu cão em uma coluna. Alimente-o mal durante todo o ano. Durante este período castigue-o com um chicote todos os dias pela manhã. Deixe que as pulgas se multipliquem em seu corpo. Ponha um apetitoso e suculento bife há apenas alguns centímetros fora do seu alcance. Por fim arranque-lhe um dos olhos e uma das patas. Terminado o prazo solte-o numa praça movimentada. Não espere dele um comportamento afável.

Assim foram as revoltas camponesas que sacudiram a Alemanha nos séculos XV e XVI. O sistema feudal não permitia ascensão social. Quem nascia servo morria servo. Quem nascia nobre morria nobre. Lutero, que era subversivo até certo ponto, pregou sermões condenando a tirania da Igreja e parecia apoiar a revolta dos camponeses contra a servidão. Mas o teólogo alemão logo tratou de explicar que falava de uma “liberdade espiritual” apenas. Escreveu “Aos príncipes da Saxônia contra o espírito rebelde” criticando os camponeses revoltosos, chamados por ele de “cães raivosos”. A maior das revoltas, em 1525, organizada por pequenos burgueses, clérigos e alguns lansquenetes (combatentes mercenários), foi duramente reprimida contabilizando mais de cem mil mortos. Os servos continuaram vivendo sob o jugo de seus senhores.

O contexto da Revolução francesa não foi diferente (mas teve um desfecho diferente). O movimento foi deflagrado por burgueses (comerciantes e profissionais liberais), camponeses sem terra e pequenos artesãos (o chamado “terceiro estado”, formado por 96% da população). O alto clero e a nobreza (primeiro e o segundo estado) sucumbiram à violenta revolta popular, disposta a pôr fim ao injusto sistema feudal.  Monarca, nobreza e clero viviam no luxo. O povo na miséria. Luiz XVI, Maria Antonieta, aristocratas ricos e membros do clero conheceram a afiada navalha da guilhotina.  Foi uma matança sem fim. Apesar dos excessos a revolta deu bons frutos, dentre eles o fim da isenção de impostos para a nobreza e o clero: “os impostos incidirão sobre todo o cidadão e toda a propriedade, da mesma maneira e sob a mesma forma”, dizia o artigo nono da nova Constituição. Os ideais de Liberte, Egalité, Fraternité, inspirados no pensamento iluminista, espalharam-se pelo mundo

A desigualdade social, os privilégios, a falta de canais que permitam ao povo expressar suas angústias e aspirações, a ausência do Estado em regiões mais pobres, o imposto elevado, a impunidade, enfim, a violência do Estado contra o povo gera violência do povo contra o Estado. É verdade que não vivemos no final da Idade Média e nem em países como a Tunísia, a Líbia, o Egito, a Jordânia, a Síria e o Irã, governados por ditaduras religiosas. O Brasil é um Estado democrático e em tese possui mecanismos que permitem ao cidadão exercer sua cidadania. Mas as manifestações populares pelas ruas do país refletem a falência desses mecanismos.

O que nos resta então? Repudiar os movimentos populares que tem tomado as ruas das grandes cidades porque as manifestações não se desenvolvem de forma ordenada e pacífica? Criticar o governo pela má gestão e pela reação violenta das forças policiais?  Denunciar as empresas privadas pela manipulação de setores do governo em favor de seus interesses econômicos?

Bem, talvez você se identifique com o dono do cão apresentado no início deste texto e esteja numa situação bastante confortável. Quem sabe se veja como com um vizinho que ouve em silêncio os gemidos do animal. Talvez você seja a pulga que suga o sangue do cachorro moribundo. Há muitos papeis nessa peça.  Mas é possível você se sinta como o desgraçado cão amarrado numa coluna. Neste caso, meu caro, o que lhe resta é ou sofrer ou morder. Porque o latido lhe trará apenas a rouquidão.


Jones F. Mendonça