segunda-feira, 7 de setembro de 2009

ATO PROFÉTICO OU MACUMBA GOSPEL?

Por Jones Mendonça


1. Introdução

Certa vez um grupo de meteorologistas canadenses perdeu balões meteorológicos em virtude do mau tempo, por isso começou a baixá-los sempre que a previsão do tempo indicasse tal condição climática. Logo foram procurados por agricultores locais, que protestaram contra o grupo, porque argumentavam que o mau tempo estava sendo causado pela descida dos balões. Eles associaram a descida dos balões com a mudança no tempo. Na verdade os balões não provocavam o mau tempo, mas o anunciavam!


2. O ato profético na Bíblia

Na Bíblia o Ato profético, ou ato simbólico, praticado, por exemplo, por Ezequiel, Isaías, Jeremias, Oséias e Ágabo anunciavam uma profecia através da encenação. Essas encenações não tinham poder em si mesmo. Não era o ato simbólico que provoca determinado evento (como no caso dos balões), mas ele apenas anunciava um evento da parte de Deus. O profeta ouvia a voz de Deus e proclamava sua mensagem ao povo, por meio de palavras ou por meio de uma representação encenada. No caso de Ágabo suas mão foram atadas por um cinto anunciando a prisão de Paulo em Jerusalém (At 21:11). Representar uma profecia por meio de um ato simbólico era uma forma de dramatizar e dar força ao apelo exortativo da profecia. Vejamos alguns exemplos:


2.1 O profeta Aias anunciando a divisão de Israel após a morte de Salomão:

1Rs 11:29-31 - E sucedeu naquele tempo que, saindo Jeroboão de Jerusalém, o profeta Aías, o silonita, o encontrou no caminho; este se tinha vestido duma capa nova; e os dois estavam sós no campo. Então Aías pegou na capa nova que tinha sobre si, e a rasgou em doze pedaços. E disse a Jeroboão: Toma estes dez pedaços para ti, porque assim diz e Senhor Deus de Israel: Eis que rasgarei o reino da mão de Salomão, e a ti darei dez tribos.

Sabemos como a história continua. Dez tribos se rebelaram contra Roboão por causa dos pesados impostos instituídos por Salomão que ele se negara a reduzir, e uniram-se a Jeroboão. Ao norte formou-se uma confederação de dez tribos e ao sul as tribos de Judá e Benjamin se uniram formando o reino de Judá. Enfim, a profecia foi cumprida.


2.2 O profeta Isaías anunciando a invasão dos assírios:

Isa 20:2 - falou o Senhor, naquele tempo, por intermédio de Isaías, filho de Amoz, dizendo: Vai, solta o cilício de teus lombos, e descalça os sapatos dos teus pés. E ele assim o fez, andando nu e descalço.

Ainda que seja difícil imaginar um profeta como Isaías andando descalço e nu, foi exatamente isso que aconteceu. Mas tal atitude tinha uma finalidade bastante específica: anunciar a tomada da Etiópia e do Egito pela Assíria. O que estava ocorrendo era o seguinte, Israel estava pagando tributo à Assíria desde 734 a.C. e tinha planos para pôr fim a esse jugo unindo-se ao Egito e à Etiópia numa tríplice aliança. Isaías percebe que tal união não daria um bom resultado e anda nu e descalço como um prisioneiro de guerra para alertar o povo. A figura à acima mostra como eram conduzidos os prisioneiros de guerra na antiguidade. Se a nudez de Isaías foi completa ou não, como muitos gostam de discutir, é algo difícil de dizer. O fato é ele queria representar a ruína dessas nações, encenando o modo como seriam levados os cativos.


3. Conclusão

Alguns comentaristas, como Van de Born, argumentam que o ato simbólico é um resquício de antigas práticas mágicas do Oriente Antigo. Mas tal afirmação não possui razão de ser. Quando um Xamã, mago ou feiticeiro realiza um ritual ele crê que esse ato tem o poder de modificar o curso da história. Recorrendo novamente ao exemplo dos balões, diríamos que na magia o ritual mágico teria mesmo o poder de mudar as condições climáticas. Na magia o ritual não anunciaria um evento, mas teria poder de modificar o curso da história.


Tem sido comum nos dias de hoje nomear práticas mágicas como sendo ato profético. Há os que jogam azeite, trigo e vinho no mar dizendo que o ato tem poder de mudar uma realidade social ou espiritual (como fez o Renê Terranova e Neuza Itioka na Bahia). Para Renê Terra Nova “o ato profético é uma mensagem enviada ao reino do espírito que ratifica a ação da fé e da Palavra”[1]. Na Bíblia, ao contrário, o ato profético era uma mensagem de Deus enviada ao profeta. Nenhum profeta bíblico profetizava por si mesmo. Josué Pereira dos Santos, outro apologista dos chamados atos proféticos, afirma que “uma marcha profética contornando uma cidade, to­cando shofar, jogando elementos proféticos como óleo, sal, trigo, vinho e azeite podem trazer uma grande liberação da presença de Deus em uma cidade”[2].

É dificil de acreditar que chegamos à esse ponto. Efatá!


Nota:

[1] TERRA NOVA, René de Araújo. Atos proféticos, comando de Deus ou invenção humana? Manaus: Semente de Vida, 2004.

[2] SANTOS, Josué Pereira dos. Mapeamento espiritual, conhecendo a face oculta das cidades. São Paulo: Imprensa da fé, 2006, p. 92.

Crédito da imagem:

RAWLINSON, George. The Seven Great Monarchies Of The Ancient Eastern World, Vol 3: Babilônia. 2005.