terça-feira, 11 de agosto de 2009

CHARLIE BROWN E A LEI DA EDUCAÇÃO

“Sabes porque temos que tirar boas notas na escola? Para passarmos do primário para o ginásio. Se tirarmos boas notas no ginásio, passamos para o colégio e se tirarmos boas notas, passamos para a universidade, e se nesta tirarmos boas notas, conseguimos um bom emprego e podemos casar e ter filhos para mandá-los à escola, onde eles vão estudar um monte de coisas para tirar boas notas e…”

Rubem Alves [citando uma tirinha do Charlie Brown].


Segundo Paulo Freire, educação relevante é aquela que leva a autonomia. O texto de Rubem Alves traduz em exata dimensão aquilo que sempre quis expressar e nunca consegui. Talvez porque pertenço à classe dos “sem números” que ...o corpo não suporta carregar o peso de um conhecimento morto que ele não consegue integrar com a vida, impedido pelo engessamento que o sistema me oferece. Até me arrisco estender o protesto para dizer que em vez de sentir-me usável a serviço do governo[1]ou usável e abusável a serviço da economia[2], sinto-me usável, abusável e descartável a serviço da demagogia de agentes e instituições que manipulam o poder público a fim de gerir interesses privados.


A educação é o elemento essencial na construção de uma sociedade. Educar não é simplesmente treinar pessoas para realizar alguma tarefa ou gerar bens e serviços, não é uma linha de produção com um ciclo interminável conforme denuncia Charlie Brown, mas é estimular o indivíduo à "aprender a aprender", é procurar entregar ao educando as ferramentas que lhe proporcionarão a libertação da cultura plastificada, decadente, compromissada com valores efêmeros e transitórios.


Como objeta Nietzsche, a educação aponta uma tendência aos elementos medíocres dos indivíduos nivelando-os para sua melhor utilidade, ao invés de despertá-los em suas singularidades como seres humanos. O pensador propõe uma dura critica a educação verificada no ensino de seu tempo, acusando-as de diminuírem o potencial humano ao educá-lo somente para atender aos interesses do Estado, do mercado e da ciência[3]. Nada parece ter mudado, a idéia de Nietzsche aduna com o tempo presente.


Rubem Alves em seu texto parece ratificar o pensamento do Mestre Paulo Freire, apoiando-se também no horror detectado por Nietzsche. Na tirinha de papel, Charlie Brown explica, com simplicidade e profundidade o modelo de educação atual que forma indivíduos autômatos e não autônomos. Essa é a nossa lei da educação, que precisa ser revista.


Freire disserta que ensinar exige compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundo e não a reprodução da ideologia dominante que promove um ensino imobilizador e ocultador de verdades[4]. Intervir no mundo através da educação não é possível pelo caminho da mecanicidade e plastificação da educação, mas pela ruptura libertadora do modelo vigente em direção a busca do conhecimento e não de respostas corretas. Conhecimento que promove a verdadeira soberania, livre manifestação do pensamento, cidadania, dignidade da pessoa humana, valorização social e do trabalho, aliás, princípios fundamentais da “democracia de papel” inserta na Constituição da República Federativa chamada Brasil[5].


Alan P Silva

Educador e Aluno de Pós-Graduação

Em Direito Empresarial e dos Negócios

Notas:

[1] NIETZSCHE, apud. ALVES, Rubem, 2002, p. 23.